quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (20)


ANTÓNIO SETAS

Nzinga respondeu de maneira evasiva, sim, vamos ver, talvez, o governador insistiu, o tempo ia passando, e enquanto isso ela não se privava de acometer alguns sobas que se tinham rendido aos Portugueses. Foi por essa altura, portanto durante no início do ano de 1624, que um seu parente próximo, Ngola Ari a Kiluange, se aliou aos Portugueses para escapar à sua ira - proclamado Rey de Angola (Ndongo) com a ajuda do ex-governador João Correia de Sousa - o que de nada serviu pois ela declarou-lhe guerra e em meados de 1625 atacou a sua mbanza. Fernão de Sousa decidiu enviar um destacamento armado ao socorro de Ari, comandado por Bento Banha Cardoso, o qual conseguiu evitar o pior, não sem ter sofrido algumas percas por indisciplina.
De facto, pelo que foi comunicado por letra ao rei de Portugal, o capitão do presídio de Ambaka teria tomado por essa ocasião uma desastrada iniciativa: “O capitão (do presídio de Ambaka era um tal “Esteuaõ de Seixas Tigre), o qual foi com guerra preta, e rompendo a de dona Anna, se meteo no sitio onde o Soua estava cercado” pelos “Jagas”, desobedecendo às ordens de apenas servir de amparo ao soba, resolveu tomar a iniciativa e enviou gente preta com nove soldados no intuito de não os deixarem passar, do que resultou morrerem três soldados no conflito e levarem seis”.
(Carta de Fernão de Sousa a El-Rey, de 21-2-1626. Ou, dois mortos e sete cativos, segundo uma segunda versão da mesma, datada de 7 Março de 1726, recebida por ElRey a 7 de Junho do mesmo ano. Brásio, M. H., volume VII, página 419 e 421).
Nzinga a Mbande assumia assim, plenamente o seu título de Rainha do Ndongo. E a esta campanha militar muitas outras se seguiram.

A luta pela Independência

Depois da acometida em 1625 de Nzinga a Mbande a Ngola Ari a Kiluange, proclamado desde 1624, unilateralmente, rei de Angola pelos Portugueses, e contrariada pelo capitão de Mbaka, Estêvão de Seixas “Tigre”, a luta armada prosseguiu durante mais uns meses. No primeiro semestre de 1626, porém, as forças lusas, comandadas por Bento Banha Cardoso, obrigaram a rainha a refugiar-se nas ilhas do rio Kwanza e, mais tarde, sempre acossada, a fugir para as suas terras.
Implantada provisoriamente a supremacia portuguesa nessa zona, pouco tempo depois Ari a Kiluange faleceu de varíola, e o comandante Cardoso, antes de recolher a Luanda, a 12 de Outubro de 1626, proclamou rei do Ndongo, Ngola Ari, meio-irmão do falecido e soba de Pungo Andongo. Proclamação essa que foi de seguida confirmada pelo governador. Mas Nzinga não se conformou nem se rendeu, e prometeu lutar até ao fim para libertar o Ndongo do jugo dos invasores lusos. Numa das suas campanhas, em 1627, Nzinga acometeu uma vez mais o “rei” do Ndongo, desta feita Ngola a Ari. Os Portugueses foram socorrê-lo, mas só a 25 de Maio de 1629 conseguiram uma vitória decisiva. Nzinga fugiu, mas as suas irmãs, Funji e Cambo, foram feitas prisioneiras. As tropas lusas perseguiram a rainha até aos desfiladeiros de Kina Kinene (Quina Grande) em terras dos Nganguela, mas ela conseguiu escapar-lhes lançando-se com a ajuda de lianas nos precipícios que delimitam essa zona. Teria sido depois que ela regressou à Matamba para combater Kasange. Cambo foi resgatado (1632, 33), mas Funji continuou em cativeiro (Cavazzi). Como isso aconteceu e o que vamos ver em seguida.
Com o passar do tempo, Fernão de Sousa, o governador, ao constatar que defender a posição de Ari era por demais desgastante para as suas forças armadas, propôs à rainha uma nova aliança, com a promessa de lhe devolver as suas províncias, manter no seu lugar o rival e prestar-lhe ajuda militar caso ela a solicitasse, “na condição de ela reconhecer estes favores com ânuo tributo”. Nzinga, indignada, recusou (uma rainha, soberana, pagar tributo, onde já se viu?), e como resposta os Portugueses avançaram ao longo do rio Kwanza e ocuparam as ilhas de Ucole Kitaxi, que fortificaram. Em seguida aliaram-se a sobas das cercanias e avançaram até à ilha Danji – perto da ponte que se encontra a uns 50 km de Malanje -, onde a rainha tinha assentado os seus arraiais. Cercaram a ilha pela parte que dava para a planície do Bondo e prepararam-se para investir.
Num primeiro tempo, Nzinga tentou romper o cerco com as suas tropas e fez grandes estragos no acampamento inimigo, mas não conseguiu desalojá-lo. Entre as suas hostes grandes danos também tinham sido causados, e os “Jagas”, dos bandos que tinham decidido ficar do seu lado, caídos sob o fogo cruzado dos mosquetes lusos, incutiram aos que tinham sobrevivido algumas dúvidas sobre o seus atributos de invencibilidade. O moral das tropas era muito baixo, razão que levou a rainha a propor uma trégua, que foi concedida por um prazo de 12 horas, após o qual ela prometia render-se com a honra das armas.
Durante esse espaço de tempo, a rainha consultou o seu kilamba, pôde entrar em contacto com o espírito do seu irmão Ngola a Mbande, e por ele, ou melhor, pelas palavras saídas da boca do kilamba, elo de ligação entre os vivos e os mortos, ficou a saber que render-se seria o fim de todas as esperanças de salvaguardar a liberdade do seu povo, e que, nesse caso, fugir não seria vergonha nenhuma. Foi o que ela fez, fugiu para a província do Hako (Hango) noite vinda, depois de ter sacrificado 14 donzelas num ritual de agradecimento ao seu irmão. Quando amanheceu, os portugueses viram que a ilha estava vazia. Esperaram durante o dia todo, como mandam as regras militares relativas às possibilidades de ciladas, e quando enfim se decidiram a atravessar o rio e a ocupar a ilha, tudo o que encontraram foram os restos mortais das 14 donzelas sacrificadas por Nzinga. Tal foi o resultado daquela campanha. A decisão de perseguir a fugitiva foi nessa altura contrariada pelo aparecimento de varíola entre os homens do acampamento português, e o destacamento regressou a Luanda, abandonando as ilhas conquistadas e permitindo a Nzinga reinstalar-se na ilha de Danji.
Senhora de títulos políticos que lhe concediam a legitimidade da posição de monarca absoluto, assim como de uma determinação e um poder de persuasão espantosos, ela pôde em seguida e uma vez mais juntar um poderoso exército e invadir as terras da Matamba e do Ndongo. Na Matamba desalojou facilmente a governante em exercício (Muhongo-Matamba, filha do rei Matamba-Calombo - Cavazzi), tomou conta do poder e uma vez este consolidado avançou para o Ndongo, no fito de acometer as posições portuguesas que aí se encontravam, a começar pelo presídio de Mbaka. Grandes percas causou e grandes percas sofreu, mas sem conseguir desalojar os inimigos.
Nisto, o “Jaga” Kasanje, ao se dar conta da ausência da rainha em suas terras, invadiu com o seu poderoso grupo de guerreiros a Matamba e devastou tudo o que se erguia do solo, tirando o capim e as árvores, e nem todas as árvores, visto que as que serviam de fabrico ao maruvo eram simplesmente abatidas e utilizadas para fabrico dessa bebida. Nzinga não gostou, abandonou as suas pretensões de vitória sobre os Portugueses e regressou à Matamba. Mas tarde demais, Kasange tinha-se retirado para outras latitudes com uma multidão de escravos “prontos a ser comidos”, depois de ter praticamente tudo destruído no seu reino! Sem que então se pudesse saber, estes eram os primórdios da fundação do futuro reino de Kasanje.
As contendas entre Kasanje e Nzinga, que duraram quase uma década, não trouxeram nenhuma paz de espírito aos Portugueses, que sabiam muito bem que em caso de aproveitamento dessa situação para atacar um deles, o outro viria ao seu socorro contra o inimigo comum. É que eles eram, acima de todas as rivalidades, irmãos. De maneira que o governador decidiu-se pelo contrário, isto é, entabular negociações de paz. Para o efeito enviou provavelmente em fins de 1640, ou princípios de 41, à Matamba assim como a Kasanje, o Padre Dionísio Coelho e o cavalheiro D. Gaspar Borges. Foram bem recebidos pelos dois governantes, porém, sem grande resultado, pois Kasanje disse que estava disposto a abraçar a paz e a se juntar à rainha Nzinga se esta reconhecesse os seus legítimos direitos sobre o trono da Matamba, mas nem pensar em se converter ao cristianismo. Quanto a Nzinga, nem paz nem credo, e nem por sombras abandonar os ritos dos “Jagas”, queria ir para a frente, resistir até às últimas consequências e retomar as posições perdidas em favor de Kasanje e dos Portugueses. E, sobretudo, não achava que essa era a boa altura de mudar para satisfazer os que procuravam atraí-la ao catolicismo, visto que eram os mesmos que lhe tinham dado boas razões para ela se afastar deles.
Mesmo assim, ó surpresa!, o burguês Borges voltou para Luanda e o padre Dionísio ficou-se pela Matamba. A situação estava embrulhada e não havia ponta de esperança no pacote de contradições e simulações que os potentados negros ofereciam à etnia invasora, quando, justamente no mesmo ano, a 24 de Agosto de 1641, o Holandeses chegaram a Luanda, e no dia 26 completavam a ocupação da cidade. Se confusão havia, a partir dessa altura ainda mais passou a haver!

Imagem: negroartist.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário