sexta-feira, 12 de novembro de 2010

CRÓNICA. Tempo de forno


O livro está na estufa _ foi a notícia enviada. Não via a hora de acariciar a capa, sentir a maciez das folhas, saborear a beleza da apresentação, comer com os olhos, adivinhando gostos.

Marta de Sousa

Não sabia que livros passam pela estufa, mas nada mais apropriado para um livro de receitas. Paciência com ele, portanto. Nada de apressá-lo. Qualquer quituteira sabe que o tempo de forno é importante. Sem obedecer ao adequado, o bolo fica cru ou seco em demasia. Pior é que tempo certo não existe; o tempo para assar ou cozinhar depende de cada forno, e isso não há receita que possa garantir. Como nós, cada um com seu tempo para entender, amar, perdoar. Não adianta forçar a barra, apressar as coisas. Quem sabe o tempo de cada um?
Mas lá estava o livro, protegendo-se da umidade do inverno no Sul. E eu aqui, esperando-o, com expectativa semelhante a do noivo no altar.
Como muitas histórias de amor, essa começou por acaso. A idéia era reunir em livro as receitas preferidas da diretoria e do grupo de apoio à Casa de Santo Antônio do Menor, justamente aquelas que fazem o sucesso dos almoços realizados em benefício da entidade assistencial, localizada em Pelotas, RS. Comecei a juntá-las, graças à generosidade das amigas. Enquanto isso, aproveitando as oportunidades, percorria livrarias, descobrindo que os livros de receitas se haviam sofisticado, para atrair consumidores mais exigentes. Alertada, fui para a internet, onde basta clicar o nome de uma receita e aparecem dezenas de maneiras de prepará-la. O páreo era duro, concluí.
Foi nesse momento, quando me debatia entre a teimosia de prosseguir e o bom senso de retroceder, que meus olhos caíram sobre um volume do ACTAS, A CLASSE RURAL RESGATANDO A SUA HISTÓRIA, o livro organizado em homenagem ao centenário do Primeiro Congresso Agrícola do RS. Foi amor à primeira vista. E diga-se, a bem da verdade, que nesse caso a aparência foi decisiva, tal o trabalho primoroso da Editora TEXTOS. Mas, sobrando-me um pouco de juízo, interessei-me pelo conteúdo e aí, sim, fiquei perdida de amores: em três dias, aproveitando cada minuto livre, li todas as atas, enfronhando-me no passado da Associação Rural de Pelotas.
Voltei desse mergulho com a resolução (ou pretensão) de organizar um livro de receitas que também fosse motivo de orgulho. Um presente para as gerações futuras, uma forma de lhes dizer “estivemos aqui e assim vivemos, amamos, reunimo-nos, confraternizamos”.
Foram quase doze meses de trabalho árduo, em que me diverti muito e fiz contatos maravilhosos, trocando experiências e descobrindo mundos mais complexos que a culinária ou a doçaria. O maior mérito foi convidar a Etiene Villela Marroni, a editora do ACTAS, para ser parceira nesse projeto, da mesma forma que fui inspirada ao chamar o fotógrafo Juliano Kirinus para a foto da primeira receita elaborada. Depois da primeira, foi impossível parar. Aliás, eu já ia rumo às quinhentas páginas, digitando com a animação de um cavalo de corrida quando vê a cancha livre, quando Etiene insinuou que talvez fosse bom puxar as rédeas, obrigando-me a estacar.
Assim, com entusiasmo e boas parcerias, acalentado por bons augúrios, o livro Pelotas à Mesa, a simplicidade do sofisticado, tornou-se realidade. Com 166 receitas de doces e salgados, selecionadas entre as preferidas de 53 convidados especiais, pode ser encontrado no site www.livrariamundial.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário