quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Escândalo na UGP


As tropelias que se constatam no desempenho de dirigentes responsáveis de quase todas as áreas de administração, jurisdição e trabalho dos diferenciados aparelhos do Estado angolano são em geral visíveis a olho nu. Tanto, que de algumas delas, das tropelias, se poderia dizer que são propositadamente executadas como que para permitir aos seus executores mostrar ao restante povo de Angola que eles fazem parte da elite, da categoria de personalidades “não-humanas” e estão realmente acima de tudo, de todos e de todas as leis e regulamentos.

Mas também existem atropelos e entorses à legislação em vigor que não são visíveis, que escapam aos olhares mais atentos e críticos, como o nosso, que, ao nos integrarmos no que se costuma chamar o 4º poder do Estado, para além do Executivo1, do Executivo 2 e do Executivo 3, por mais esforços que façamos não os conseguimos detectar.

Esses deslizes, por vezes gravíssimos, são os que se encontram ao abrigo dos olhos mais abertos e das orelhas mais indiscretas, são os que estão, como se costuma dizer, no “Segredo dos “deuses”, e acontece que um desses Segredos foi abalroado por uma das nossas fontes mais perspicazes, que nos revelou o que não poderíamos aceitar como sendo possível, não fosse tão fidedigna a personalidade que nos deu a informação do que quase se poderia designar como um “estapafúrdio” caso.

De facto, pensemos bem, quem acreditaria que na super divisão militar denominada Unidade da Guarda Presidencial (UGP), vocacionada e treinada até à exaustão para a protecção física de Sua Excia. O Presidente da República, nesse corpo de elite responsável pela segurança do Palácio Presidencial e da família Dos Santos no seu todo, reina em permanência um ambiente, não diremos descontraído, não é isso, mas pouco formal? E a expressão “pouco formal” é um eufemismo que esconde outra realidade, mais inquietante essa, porque se por aí ficarmos, pela realidade, o que se passa é de certo modo aterrador.

Ao dizermos “aterrador” referimo-nos ao tratamento desleixado que recompensa o trabalho desses servidores do Estado. Queremos dizer que, à qualidade que se deve exigir do serviço prestado por esses centuriões modernos, deveria corresponder um tratamento “especial”. Ora o que acontece está longe, muito longe das nossas expectativas, como vamos ver.

Partindo do princípio de que é impossível esses militares de primeira água terem a mínima possibilidade de executar defeituosamente o seu trabalho, estamos em crer não cometer um erro de premissa que poderia falsear a nossa análise.

Claro que não, pois toda a gente está ao corrente da abnegação e dedicação desses homens à causa patriótica que abraçaram: defender o chefe supremo e a Pátria. Tirando alguns excessos, não só de zelo, mas também de fervor, ou de nervosismo exagerado, certo é que temos de lamentar alguns mortos no decorrer de saídas à rua do presidente da República e da habitual caravana de viaturas que o acompanha, temos o caso “Cherokee” e outras infelicidades, mas o tudo conta-se pelo dedos das mãos. Tudo acidentes.

Orgulho da Nação
A UGP é indiscutivelmente uma unidade de elite, uma brigada de luxo que nos é invejada por todos os países de África e mesmo para além das fronteiras do continente. Por que razão então não estará em consonância com os seus pergaminhos o tratamento que lhes é dado?

Dizer que o mal começa pelas negligências evidenciadas pela própria Casa Militar da Presidência da República, poderia criar um equívoco que gostaríamos de evitar, porque já estamos a ver daqui que nos vão acusar de incitamento à revolta do mais temido destacamento militar de Angola. Portanto, vamos retroceder e aceitar que a culpa não é de ninguém.

Esse retrocesso, porém, não impede que gostaríamos que nos dissessem por que razão os militares que guardam presidente da República não têm documentos. Sim, sim, os estimados leitores leram bem, a UGP tem nos seus quadros milhares de militares sem qualquer tipo de documento.

Não nos seria de todo desagradável arriscar que nos mentissem ao tentar explicar por que raio de cargas d’água esses soldados, capazes de dar a vida pela Pátria, não beneficiam de quartel general em condições, não dispõem de casernas bem mobiladas, com beliches confortáveis e uma ração de combate bem confeccionada. Muitos dormem ao relento, ao que parece.

Enfim, compreendemos mal como é possível num país independente há mais de 32 anos ainda termos que viver esta situação, ver como são tratados “ao deus dará” os homens que protegem o presidente da República. Homens que vêm de longe, do Cunene, da Huíla e do Kuando Kubango, a maior parte deles com poucas letras, isto para nos contentarmos com eufemismos. Chegam à capital, indefesos face aos espertalhões de Luanda, e não vêem que o tratamento de que são objecto é semelhante ao que é dado a pessoas sem eira nem beira, a ponto de se ter chegado ao cúmulo de os salários lhes serem pagos debaixo das árvores, sem assinarem recibos, mas com descontos que devem ir direito para os bolsos dos chefes.

O mal todo é que isso configura não só um crime como um atentado à dignidade humana. E, precisamente porque não queremos incitar à subversão, pedimos que algo seja feito por eles, para que se evitem esses momentos de grande estupefacção do momento que estes homens queiram criar o descontentamento na tropa, e criarem um estado de ânimo capaz de lhes dar vontade de desleixar as suas responsabilidades.

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