sábado, 25 de fevereiro de 2012

O 4 de Fevereiro de 1961


A história de um país: Angola. A história dos seus povos, das suas nações deve ser um produto de investigação profunda, de relatos sérios e comprometidos, o mais perto possível, com a verdade e a realidade dos factos. Esta história, a dos autóctones angolanos e da sua luta de emancipação, tem obrigatoriamente de ser diferente da estória da carochinha, muitas. vezes contada para embalar crianças e ingénuos. Infelizmente tem sido esta a privilegiada por quem está ao leme de Angola.
É pois, comprometido com esta vontade de fornecer informações verídicas, que o F8 vem debitando a sua contribuição.Uma contribuição exaustiva, principalmente, neste mês especial: Fevereiro

A Rebelião de um sacerdote

Carlos Pacheco

Na origem da rebelião de 1961, como seu inspirador, esteve o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Golungo-Alto e missionário da arquidiocese de Luanda. Umas três centenas de homens escutaram a sua voz e hastearam o pendão da revolta. Nenhum tinha ligações ao MPLA.

(«Quem tiver provas do contrário que as faça apresentar, publicar, divulgar e impor como verdade a todo o povo de Angola (A.S.)»)

Já demonstrei em livro e em vários outros textos que o MPLA jamais existiu antes de 1960. Quando denotaram os motins de 4 e 10 de Fevereiro de 1961 em Luanda, esse agrupamento político (superiormente dirigido por Viriato da Cruz) achava-se confinado na Guiné-Conacry ainda em fase embrionária, sem implantação em Angola. Nesta ex-colónia portuguesa quem de facto reinava era a UPA (União das Populações de Angola), apoiada por grupúsculos clandestinos que cedo desapareceram engolidos pela vaga de prisões em 1959.
Na origem da rebelião de 1961, como seu inspirador, esteve o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Golungo-Alto e missionário secular da arquidiocese de Luanda. Ele dizia na roda dos seus íntimos aliados ter chegado a hora de provocar um violento abanão no sistema colonial português, tantas eram as injustiças contra os africanos.
Perto de três centenas de homens escutaram a sua voz e hastearam o pendão da revolta. Nenhum tinha ligações ao MPLA.
Oriundos a maior parte de Icolo e Bengo, muitos haviam sido recrutados por Neves Adão Bendinha (empregado de escritório), que passava por ser então um dos maiores activistas políticos da UPA.
Depois de aturadas pesquisas em arquivos e de entrevistas realizadas com os sobreviventes, consegui reconstituir com relativa minúcia o plano dos amotinados. A figura central desse processo foi inegavelmente Bendinha, que fazia a conexão ao cónego e dele recebia instruções. Sempre auxiliado por Domingos Manuel Mateus (pintor da construção civil) e por Paiva Domingos da Silva (carpinteiro), ele formou os grupos de ataque, nomeou um chefe para cada unidade e deixou os locais estratégicos da cidade a serem acometidos.
Na última semana de Janeiro, organizou a concentração dos insurrectos nas pedreiras do Cacuaco (arredores da capital), onde sob a orientação de Bento António (pedreiro e cabo do Exército português), se ministraram rudimentos de treino militar e se ritualizaram sessões de feitiçaria por forma a imunizá-los “contra as balas dos brancos”
Enquanto decorriam estes preparativos, Luanda foi de súbito invadida por dezenas de jornalistas estrangeiros por causa da captura do Santa Maria.
Corria o boato de que Henrique Galvão conduzia o navio para as costas de Angola. Este acontecimento caiu como uma bomba. Os ataques em Luanda estavam previstos acontecer somente a 13 de Março, de modo a coincidirem com o levantamento no Norte e com o debate de Angola nas Nações Unidas. Que fazer, neste caso? Não esperar mais (pensaram os insurgentes), a presença dos jornalistas era crucial, os seus relatos in-loco por certo iriam provocar o maior estrondo internacional.
Apenas faltava obter a aprovação do cónego Salvador Sebastião (estafeta da junta de Povoamento) foi o escolhido para essa missão. Na manha de sexta-feira, 3, deslocou-se à Igreja dos Remédios e explicou ao sacerdote a mudança de planos por motivo da nova situação; comunicou que os chefes tinham deliberado passar à acção na madrugada do dia seguinte.
O diálogo foi longo, com muitas reticências por parte do reverendo. Este, por fim resignado, abençoou o ataque, mas reputou-o de prematuro. Ele entendia que as coisas careciam de mais tempo e melhor preparação.
O grupo responsável por atacar o Aeroporto Craveiro Lopes e incendiar os aviões estacionados na pista e nos hangares era encabeçada por Bendinha, que tinha como lugar-tenente o carpinteiro Raul Agostinho Cristóvão (ou Raul Deão). Esta investida, no entanto, falhou ao passo que noutros pontos – Cadeia da Administração de São Paulo, Companhia Indígena e Estação dos Correios – se registaram escaramuças entre rebeldes e as forças da ordem. Paiva Domingos comandou o grupo de assalto à Companhia Indígena com 20 homens, mas, ao ouvir os primeiros disparos, o grupo recuou. O colectivo que carregou sobre a Cadeia da Administração ao sentir a situação mal parada correu em direcção da Companhia Móvel (4ª Esquadra) e não conseguiu lá chegar. Os militares portugueses já tinham saído dos quartéis no encalço dos rebeldes.
No rescaldo deste assalto, que mobilizou cerca de 220 homens e deixou no terreno quinze mortos e um número indeterminado de feridos, o novo Chefe-geral dos sublevados, Agostinho Cristóvão, reorganizou com Paiva Domingos os efectivos que restavam e no dia 10 pela madrugada, ambos à testa de 124 indivíduos, atacaram as dependências da Administração Civil de São Paulo, mais o Pavilhão Prisional da referida administração e a Companhia Indígena. O plano de Agostinho era desferir ataques em simultâneo com dois grupos, um chefiado por ele próprio (ou por José Carmona Adão), e outros por Paiva Domingos.
O desastre, no entanto, foi catastrófico saldou-se numa matança para os insurgentes, que tiveram dificuldades em se evadir. Raros sobreviveram em liberdade. Presos, torturados e interrogados, centenas encontraram a morte no Forte de São Pedro da Barra. De uma sentada, este antigo baluarte transformado em prisão acolheu 112 revoltosos –facto que logo gerou uma súbita acumulação de serviço, conforme se lê num relatório da PIDE, e deu azo a não se instruírem os processos em “moldes legais”.

Um belo pretexto forjado pela polícia para fazer desaparecer tantos nacionalistas.

A mobilização geral principiou em Novembro de 1960, sob a batuta dos chefes que se reuniam sucessivamente em casa de uns e de outros. Os cabecilhas eram Neves Bendinha, Domingos Manuel, Paiva Domingos da Silva, Raul Deão e Virgílio Francisco (este último comandante do grupo que atacou a estação dos Correios, Telégrafos e Telefones). Eles davam conhecimento de tudo ao cónego Neves.
O tecido para as fardas envergadas pelos revoltosos foi comprado na Mabílio de Albuquerque e as catanas na casa de ferragens Castro Freire. A fim de não levantar suspeitas, o cónego pediu a um fazendeiro amigo que as comprasse, alegando querer distribui-las aos camponeses nativos.
Em depoimento que me prestou Francisco Pedro Miguel, integrante do grupo de ataque à estação dos Correios, disse ter ido pessoalmente buscar duas caixas com catanas àquelas empresas levando-as para a Sé Catedral onde as guardou num dos campanários. Mais tarde, ele e Neves Bendinha retiraram-nas de lá cautelosamente para serem limadas.
De Léopoldville, em vão, se esperou a remessa de armas de fogo, depois que Luís Alfredo Inglês (quadro superior da UPA) partiu para Congo em meados de 1960, acompanhado por Pedro César de Barros, a pedir ajuda à direcção do movimento. Holden Roberto ignorou os apelos de Luanda. Os nacionalistas ficaram entregues a si próprios, diante do tremendo risco de um enfrentamento com forças superiores. Encenava-se um suicídio colectivo. Não obstante isso, conforme testemunho de todos os sobreviventes, havia que avançar assim mesmo, com armas brancas, sob o risco de se assistir a uma desmobilização geral e o projecto se desmoronar.

O Depoimento de Beto Van Dúnen
Por finais de 1955 e princípio de 1956, Beto Van Dúnem começou a ser aliciado por Higino Aires e Liceu Vieira Dias para integrar uma célula dum movimento de libertação de Angola. Nessa altura o jovem Beto aceitou a proposta, mas nem sequer conseguiu ficar a saber para que movimento “trabalhava”. Foi participando em algumas reuniões e colaborava como estafeta para o “misterioso” movimento, até que um dia, já no final do ano de 1957 participou na distribuição dum panfleto, um panfleto que era o primeiro a ser distribuído pelo Movimento para a Independência de Angola (MIA), fundado, segundo a sua versão, por Viriato da Cruz, Ilídio Machado, Higino Aires de Sousa, André Franco de Sousa e Liceu Vieira Dias.
Beto Van Dúnem foi preso e fez parte do processo dos 50. A respeito dessa passagem pela prisão, esse nacionalista lembra-se dum episódio assaz curioso que se pode inserir numa análise comparativa a propósito da preparação do ataque às prisões do 4 de Fevereiro de 1961.
Das duas últimas semanas de Janeiro de 1961 correu o mujimbo de que a missão dos novos aviões que tinham acabado de chegar a Luanda, a que davam o nome de “Barriga de Ginguba”, de facto um cargueiro destinado ao transporte de mercadorias pesadas, era “mazé” carregar os prisioneiros que se encontravam na prisão de São Paulo e levá-los em viagem sem retorno até ao alto mar, onde eles seriam descarregados à força e lançados de muito alto em pleno oceano Atlântico.
Isto era o que se dizia à boca pequena, e aconteceu que no dia 1 de Fevereiro a seguir, dia de visita aos prisioneiros da prisão de São Paulo, notou-se uma grande polvorosa e efervescência, por se juntarem aos mujimbos relacionados com os aviões “Barriga de Ginguba” o facto de muitos prisioneiros terem pedido aos seus familiares quantidade anormal de roupa podendo levar a pensar que eles iam viajar. Viajar!!?...Não seria a bordo do “Barriga de Ginguba… para serem lançados ao mar??!...
Eis como nasceu nessa altura uma enorme angústia no seio das famílias dos nacionalistas angolanos que estavam presos na prisão de São Paulo. E não só, pois os patriotas ainda em liberdade e que faziam tudo o que podiam para libertar os que estavam presos, também muitos deles estavam à beira duma crise de nervos. E para dar um exemplo, precisamente nesse dia 1 de Fevereiro de 1961, dia de visita à prisão de São Paulo, Beto Van Dúnem lembra-se de, a certa altura, ter visto um jovem negro a entrar espavorido pela sala adentro e ir ao encontro do Agostinho Mendes de Carvalho.
Chegado à sua beira, perguntou-lhe, muito depressa, “É verdade que vocês vão viajar?”. E o Mendes de Carvalho, “Dizem que sim. Parece que vamos sair daqui”, “Para onde”, insistiu o negro, muito nervoso”, “Não sei”, fez o Mendes de Carvalho, “estes gajos fazem o que lhes apetece, sei lá para onde é que vamos”. O jovem não esperou por mais conversa, deu um apertão no ombro do Mendes de Carvalho e saiu espavorido, tal como tinha entrado, a correr.
Depois disto ter acontecido, Beto Van Dúnem aproximou-se de Mendes de Carvalho e perguntou-lhe quem era aquele jovem tresloucado que o tinha importunado. “É o Neves Bendinha”, foi a resposta.
Mais tarde veio a saber-se, sempre segundo esta versão de Beto Van Dúnem, que o Neves Bendinha tinha nesse dia saído da prisão de São Paulo a correr para ir avisar sem perca de tempo o cónego Manuel das Neves da probabilidade de os presos serem evacuados a breve trecho das prisões. Entre os nacionalistas angolanos via-se já o “Barriga de ginguba” a levá-los pelos ares rumo ao alto mar, a despejá-los do meio do oceano.
Enfim, este é mais um entremez, mais uma pequena peripécia que teria apressado o despoletar do ataque às prisões militares de Luanda no dia 4 de Fevereiro de 1961.
Imagem: «Lembro-me perfeitamente do meu 4 de Fevereiro de 1961: foi um sábado, ...
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