quarta-feira, 23 de março de 2011

William Tonet. Folha 8 alertou. Dos Santos não devia sair como ditador após concentrar todos os poderes


Quem não ouve o clamor do povo sacrifica-se a ser envolvido no remoinho popular, qual tornado dos novos tempos assente no velho adágio político de: "o poder corrompe". E, infelizmente, neste nosso torrão Bantu, plantado junto ao Oceano Atlântico que nos deu o Nzimbu, como primeira moeda, temos hoje, uns poucos apenas, que beneficiam desmesuradamente dos milhões de dólares dos milhões de autóctones famintos.
Com o calar das armas no 22 de Fevereiro 2002, alertamos para a necessidade de adopção de políticas mais ousadas e inteligentes, da parte de quem tem desde 1975 o poder do Estado e a gerência dos biliões das receitas do petróleo. Seria bom, por não ter sido feito na independência, o esboço de um Projecto/País, onde Angola emergiria com uma nova estrutura, englobando desde já todas as nações e etnias existentes no território, destacando-se dentre as demais a preservação do povo Koisan. Mas nada, na arrogância de quem faz do poder uma profissão, limitaram-se a sambar e a cantar o fado da vitória, numa clara versão luso-tropicalista, como se ela fosse eterna. E para não variar, logo os bajuladores da corte trataram de bombardear e maldizer o F8, por sugerirmos isso a seguir à morte de Jonas Savimbi, ou melhor, demos a conhecer a José Eduardo dos Santos por via de artigos publicados, que seria uma boa iniciativa encerrar o círculo de PRESIDENTE NÃO ELEITO, desde 1979, indiciando uma postura de ditador.
Deveria então, para justificar a sua opção pela guerra atroz, concluir o processo eleitoral interrompido em 1992, na medida em que, com a implementação do Memorando de Luena, sem o seu principal opositor, morto em combate, José Eduardo dos Santos não tinha concorrentes a poderem se lhe opor, não só pelo prestígio que o alcance da paz lhe poderia conferir, se abrisse as comportas para uma verdadeira democracia, mas também, por adoptar uma nova estatura de presidente de todos os angolanos. Infelizmente para o país, a sociedade civil e as forças da oposição, viu-se impotente face ao monopólio do poder de Estado que Dos Santos tem. Este tornou-se adverso a conselhos e aberturas, como se tivesse recebido mandado do Criador, para ser omnipresente na terra. Quando ele, caso aceitasse conselhos saberia estar a viver uma conjuntura tão favorável que ganharia as eleições presidenciais com uma perna às costas, com todos os benefícios atinentes, como, por exemplo, poder desse modo legitimar o seu regime, pois para quem estava então há 28 anos no poder era muita fruta sem reconhecimento da sua validade. Seria bom e urgente ele não ouvir os bajuladores, sugeriu-o F8, ir ao crivo popular e ser eleito, para que um adiamento ou estratégia diferente não lhe viesse mais tarde, como agora, a colocar numa posição de ditador. Adiou, mandou às urtigas os conselhos e as vozes da sociedade civil, tanto que agora, por mais estratégias que se criem, ele sairá do poder, seja como for, como o eterno ditador, adverso ao voto popular e agarrado a um poder, que faz da "DEMOCRACIA DO PETRÓLEO" instituída o seu tapete de sobrevivência ante o mundo ocidental.

No entanto, reconheçamos, o Presidente José Eduardo dos Santos, que nunca se colocou na condição de cidadão em funções de Estado, até chegou a prometer retirar-se da vida política activa, induzido o seu partido, MPLA a começar a pensar noutro líder. Uns tantos aplaudiram, mas os mais cépticos duvidaram e todos quanto na sua ingenuidade acreditaram nas suas palavras foram milimetricamente cilindrados, pela ousadia, como João Lourenço, depois de antes terem sido Marcolino Moco e Lopo do Nascimento. Dos Santos não gosta de sombras, fazem-lhe espécie, irritam-no, por não ter estrutura mental democrática e é legítimo, que não a tenha, logo adopta uma couraça de defesa conhecida; ou lança os adversários ao deserto ou fá-los desaparecer do xadrez.
Por esta razão, andamos desde 1992, há quase 20 anos, a ouvi-lo a prometer eleições, a vê-lo a conseguir adiá-las até ao ano de 2008, e mais forte ainda, a conseguir “fugir com o rabo à seringa”, passe a expressão, e realizar apenas as legislativas, escapando assim a uma confrontação delicada em termo de vozes a seu favor, em relação às que o MPLA poderia obter, estando então já muito provavelmente planeadas as manigâncias que toda a gente pôde testemunhar no acto eleitoral, desde a existência de urnas a mais, votos de mortos a favor de um lado e desaparecimento de votos contra do outro, até à inexistência de Cadernos Eleitorais a permitir o controlo dos eleitores e à propositada não abertura de mesas de voto para obrigar o pleito a estender-se até ao dia seguinte, a fim de permitir chegar, graças a falsificações arquitectadas em Espanha, aos tais 82% de votos a favor do MPLA, que nem por sombras reflectem a realidade angolana.
Depois, foi uma festa. Os seus turcos fizeram uma Constituição na qual se convencionou mandar bugiar as eleições presidenciais, e assim se poder dar mais um passo para transformar o Presidente da República em chefe supremo e ele passar a ser visto pelo povo como uma espécie de imperador, ou rei.
Enfim, para completar e adornar essa nova personagem principesca, não se alteraram os símbolos nacionais, continuam a confundir-se com os do MPLA, mais grave, mandou pôr o seu nome e efígie no Bilhete Identidade e no Passaporte Cidadão Nacional, como já tinha sido feito na moeda, e, sem dizer a ninguém que o que se estava a fazer, institucionalizou-se o culto de personalidade.
Ora o que é extraordinário, não é esta encenação de opereta do século XIX, mais, muito mais, é a cegueira desta gente, que não consegue ver que estamos a caminhar para um drama, para um beco sem saída, melhor para o abismo, onde a maioria popular deixa de se rever no “governo” e nas suas políticas, partidariamente protectoras dos interesses dos seus apaniguados, que roubam os bens e as terras do povo, para se enriquecerem cada vez mais. É por demais consabido que um país precisa de instituições do Estado fortes e credíveis, imparciais e de cidadania e não partidarizadas, como são as de Angola, veja-se o caso da Bélgica que esteve cerca de dois anos sem chefe de governo, mas nada parou. E a importância delas deve-se, fundamentalmente, para, em fases de crise, haja interlocutores fortes e credíveis, que respeitam, pesem as diferenças, os detentores do poder e são capazes de estabelecer compromissos em nome da estabilidade do Estado. O inverso é correr o risco de negociar com o PODER DA RUA, sempre adverso a compromissos de continuidade, mas sim atreitos á ruptura.
É que a rejeição pela força das eleições presidenciais e a farsa constitucional, com a batota eleitoral em pano de fundo, não vieram reforçar o poder de José Eduardo dos Santos nem o seu carisma, pelo contrário..., vieram sim confirmar que o actual Chefe de Estado, não eleito há 32 anos, tem como PROFISSÃO: PRESIDENTE DA REPÚBLICA, pois se a tivesse como função honrosa, teria seguramente outro comportamento...
Em qualquer parte do mundo, tirando a referência elogiosa bajuladora de uns poucos países africanos, cujos dirigentes vêm buscar dinheiro a Angola, José Eduardo dos Santos é visto na galeria dos ditadores, apenas com uma vantagem, governa um país com petróleo destinado a ser fornecido ao Ocidente e tanto assim é que no séquito de amizades do presidente da República não se conhece nenhum líder democrata do mundo como sendo seu amigo. Dir-se-á, mas Cavaco Silva de Portugal, ou Sarkozy da França ou ainda Silvio Berlusconi da Itália, já o galantearam tal como uns tantos outros presidentes de países democráticos. Sim! Mas estes são e actuam, "petroliferamente" falando, como homólogos, nunca como amigos.
Amigos são Laurent Gbabo, ditador da Côte d'Ivoire, Robert Mugabe, ditador do Zimbabwe, Fidel e Raúl Castro, ditadores de Cuba, Hugo Chavez, ditador da Venezuela, Laurent Kabila, ditador do Congo Democrático, Sassou Nguesso, ditador do Congo Brazzaville, Teodoro Nguema, ditador da Guiné Equatorial, todos, absolutamente todos, realizaram eleições essencialmente assentes na fraude, tida por ele como ponto de referência.
Mas também é verdade que essa sua postura a fugir para o totalitário, mau grado seja evidente, apenas será denunciada mais frontalmente pelo Ocidente quando ele sair do poder. E começarão então a perseguir as contas pessoais dos filhos, dos familiares directos e do seu grupo restrito de cortesãos. Por enquanto, ainda ele manda, bate, prende, elimina e o petróleo pode…
Nesta caminhada a saltitar desde o “faz de conta” ao “não faça a conta” (não prestar contas é tradicional), fala-se muito em progresso e em democracia desde 2002. Não falam da discriminação, da corrupção, da tentativa de divisão dos partidos políticos, da compra de consciências, dos assassinatos selectivos e das prisões arbitrárias de políticos e jornalistas. Pouco falta para que “um escova” mais ousado venha para aí dizer que Angola é a maior democracia e JES o maior democrata e gestor do mundo, que o planeta está em crise, inclusive as finanças das maiores democracias e que a gestão de fundos públicos em Angola são bem geridos. Vejam os Estados Unidos, a França, Inglaterra, Itália, Suíça, Canáda, Bélgica, Holanda, Portugal e outros países em fase de crise e que gastam dinheiro público para realizar regularmente eleições de 4 em quatro ou de cinco em cinco anos. Um desperdício em fase de crise mundial em que todos os tostões fazem falta aos cofres dos Estados, dirão os bajuladores do séquito, por esta razão deveriam, os outros presidentes do mundo, respeitar e seguir o grande exemplo do actual Presidente de Angola, que para poupar dinheiro público, a favor da democracia, o coloca ao serviço de interesses, particularmente selectivos e realiza eleições de 32 em 32 anos.
E mesmo assim, depois de ter aceite a proposta da falecida Anália de Victória Pereira de dividir o processo eleitoral em dois: legislativas e presidenciais, aguçado o apetite de outros cidadãos, para concorrerem ao cargo de presidente da República, como Vicente Pinto de Andrade, Lizete Araújo, Alberto Neto e outros, mandou bugiar os compromissos assumidos, talvez apoiado no poderio militar e na partidarização do Estado, onde a Polícia Nacional e as FAA, não cumprem a Constituição e as leis do país, mas a vontade de um homem. Tanto que na perpetuação do poder mandou criar uma Constituição à sua medida: 56. Uma constituição que não vê o país, mas um homem. Uma constituição que acaba o sonho dos autóctones, depois de 500 anos de colonialismo e 35 anos de ditadura de partido único, esses, que esperavam pela DEVOLUÇÃO DA TERRA e não o esbulho das suas terras, pelos novos-ricos. Esta constituição é apenas avançada, em termos de direitos individuais no papel, porque na realidade é uma farsa autêntica e ditadura real, pese ser apoiada por alguns juristas mercenários constitucionais portugueses, pagos a peso de ouro, com dinheiro do sangue dos angolanos, para o trabalho sujo e anti-democrático.
Quando dos Santos impôs ao país não um texto constitucional, mas a sua constituição. Quando impôs não uma bandeira angolana, mas a do MPLA. Quando teve o cúmulo de condescender com a pouca vergonha dos seus assessores, aceitando a sua imagem no Bilhete de Identidade e Passaporte de Cidadão Nacional, como o fez com o Kwanza, que não é uma moeda angolana, mas uma moeda imposta aos angolanos pelo MPLA. Quando começou a partir as casas dos pobres para dar os terrenos aos ricos. Quando os seus fiscais começaram a matar mulheres grávidas e com filhos na rua, apenas por estarem a vender. Quando os seus agentes começaram a roubar e matar os vendedores ambulantes. Quando humilhou Holden Roberto até aos seus últimos dias de vida, não devolvendo o património confiscado da FNLA. Quando, alegadamente, começou a devolver património confiscado pelo Estado angolano, aos familiares do seu genro português. Verdadeiramente todos estes cenários contribuíram para o desgastar da imagem de José Eduardo dos Santos, cujos níveis de popularidade, interna e externamente, são hoje muito baixos.

Quem avisa amigo é
Se analisarmos com alguma profundidade a situação política em Angola e a relacionarmos não só com a estrutura sócio - económica interna, mas também com a conturbada conjuntura internacional, muito marcada pelas revoltas operadas no norte de África, na Tunísia, Egipto e Líbia, que deram origem ao derrube de duas ditaduras e ao profundo abalo da terceira, assim como à queda compulsiva de três ditadores cujas fortunas se contam por milhares de milhões de dólares, as razões que motivaram a realização de uma suposta manifestação patriótica (que de patriótica pouco mais teve do que exaltar o culto de personalidade do chefe supremo) no passado dia 5 de Março, brotam como água cristalina da fonte e aparecem, transparentes e claríssimas, aos olhos de quem as quer ver.
Nesses países governavam autocraticamente, durante décadas, três indivíduos que nunca foram eleitos de modo transparente. Tal como Angola, naquelas latitudes, os três indivíduos eram adulados e postos pelos seus bajuladores de serviço num pedestal de exclusiva celebração de virtudes, em troca de distribuição de benesses injustificadas e enriquecimento ilícito de toda essa gente que gravitava em redor da áurea assim fomentada e artificialmente criada pelo culto pagão da personalidade do chefe supremo.
Como em Angola.
Nesses países, o fosso entre os ricos e os pobres tinha-se tornado cada vez mais profundo e ameaçador de desequilíbrios, na medida em que os progressos realizados em termos de Produto Interno Bruto (PIB) acabaram por nunca ser distribuídos, por reverter, no final de contas, para exclusivo proveito da casta cortesã de bajuladores do chefe supremo.
Como em Angola.
Nesses países, a família alargada do chefe supremo enriqueceu muito para além do normal, para não dizer do que seria legal, enquanto os parentes mais próximos se foram apoderando, com a cumplicidade do poder executivo, quer dizer, do chefe supremo, de postos, situações e títulos que lhes davam acesso às mais importante e proveitosas alavancas do poder económico do país.
Como em Angola, onde todas as notícias relacionadas com estas revoltas, desde o seu início foram cuidadosamente filtradas e divulgadas em doses de conta-gotas - houve dias em que, na mais dramática fase da repressão dos revoltados da Líbia, a TPA, RNA e ANGOP não consagrasse nem um minuto a esses importantíssimos acontecimentos – por se temer contágio e propagação da cólera sentida por esses povos espoliados, por se saber que a nossa política, infelizmente, é semelhante à desses déspotas que foram vergonhosamente depostos, por terem humilhado e discriminado as forças da oposição, a sociedade civil, a imprensa livre e o seu povo no geral. Oxalá que o exemplo dos outros países leve a que os dirigentes conscientes do MPLA, se dispam do medo e comecem a discutir. A melhor opção não será criar outra faixa de rodagem, capaz de albergar também oficiais e militares das Forças Armadas, da Polícia Nacional e da Segurança Interna, para a defesa cega de um regime, consubstanciado na personalidade de um homem. NÃO! Essa não é a melhor opção, a melhor é a de os dirigentes mais sensatos retirarem o pé da lama, o que está ao alcance de todos e distinguirá os que o fizerem antes da hora do TSUNAMI DA MUDANÇA.

Nenhum comentário:

Postar um comentário