quinta-feira, 9 de junho de 2011

O real e o imaginário


Marta Fernandes de Sousa Costa*

Quando um assunto “vira moda”, de repente todos começam a falar nele. Com o interesse da mídia atiçado, coisas estranhas logo começam a acontecer, dificultando o entendimento sobre o real e o imaginário. Estranhas no sentido de nada ter a ver com o problema em questão, simples aproveitamento da exposição na mídia, quando “espertinhos” (ou “espertinhas”) aproveitam “o gancho” e resolvem tirar partido, inventando ou aumentando histórias.

Nesse tempo de “politicamente correto”, todo cuidado é pouco. Pessoas idôneas podem ser colocadas em maus lençóis, por má intenção ou má interpretação de atos antes considerados inocentes ou aceitáveis, hoje vistos com desconfiança. Porque agora se sabe que o inimigo pode estar ao lado, em casa, na praça, no local de trabalho. Conscientes dessa realidade, alguns se aproveitam das circunstâncias, inventando situações inexistentes ou explorando a fraqueza ou ingenuidade dos parceiros.

Homens bem-sucedidos, personalidades com exposição na mídia, políticos, sem falar em jogadores de futebol e esportistas de renome, de maneira geral, tornam-se alvos fáceis para mulheres determinadas a resolver definitivamente os seus problemas financeiros. Pensando usufruir de alguns momentos de prazer inconsequente, vêem-se enredados numa trama articulada para encrencá-los definitivamente. Acreditando usufruir de privacidade, arriscam-se a ter suas preferências, inclusive sexuais, transformadas em piada, quando expostas na mídia. Outros são acusados de estupro e, ainda que apelem em sua defesa, com sucesso, para o sexo “consensual” _ termo muito usado, atualmente _ conviverão com essa dúvida, sempre que seu nome for lembrado.

Da mesma forma, com a facilidade proporcionada pelos recursos do celular, hoje se tornou comum a divulgação, na internet, de filmes e fotos de momentos íntimos, alguns com a aquiescência de ambos os parceiros, em geral adolescentes, sem capacidade de avaliar os prejuízos futuros ocasionados pelo seu desejo de exposição e exibicionismo. Outros, porém, são divulgados à revelia dos interessados, geralmente do sexo feminino, após o rompimento, quando o descartado fica com o orgulho ferido e resolve usar a arma ao seu alcance. Arma que, sem matar fisicamente, causa mal irreversível, pois, ainda que a vítima consiga a proibição da divulgação, é impossível impedi-la totalmente, depois de lançada na internet.

Como, hoje, a facilidade de acesso ao noticiário mundial traz ao nosso conhecimento todo tipo de anomalias e perversões, o ouvido, já acostumado, aceita com naturalidade toda divulgação, sendo o réu condenado pela opinião pública, antes de julgado pelos tribunais. Embora se acredite que muitas histórias divulgadas sejam reais, outras tantas resultam da maldade humana, ampliadas pelo prazer da maledicência e pela inveja. Ninguém consegue vencer o poder exercido pela mídia e pela internet; notícias divulgadas fogem ao controle. Particularmente, contudo, cada um pode e deve procurar se resguardar. E esse resguardo começa pela escolha dos parceiros e das companhias. As más escolhas são as responsáveis pelas atrapalhações _ para dizer o mínimo _ em que as pessoas se metem, em geral se achando muito espertas e acreditando que com elas certas situações não acontecerão jamais.

*www.martasousacosta.com

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ainda, o Auschwitz de África. (in “O livro Negro do 27 de Maio de 1977)


O ponto da situação nas vésperas da Dipanda

William Tonet*

Quando se deu o golpe do 25 de Abril em Portugal, o MPLA estava a desfazer-se aos pedaços. Para dar uma ideia do estado de desmoronamento do Movimento, partimos do enunciado de que a Revolta Activa e a Revolta de Leste encetadas em 1969 eram apenas a parte visível do “iceberg”, pois muitas foram as “revoltazinhas” que eclodiram nessa altura e depois.

Passamos a citar uma lista dada por Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus (“Purga em Angola”, páginas 33 e 34, ASA, Outubro de 2007, Porto) de levantamentos e motins de que ficaram registos e/ou testemunhos para a história:

«Em princípios de 1970, um grupo de guerrilheiros avança sobre a base de Nadane, exigindo regalias para as etnias do Leste.

Em Fevereiro desse mesmo ano, dá-se a rebelião de guerrilheiros da etnia dos Quiocos (Chokwé) num campo de Lusaca.

Já em 1971, verificam-se as divergências no campo de Mangão/Irinde, na Tanzânia.

Também esse ano, ao que parece devido a uma ordem de Iko Carreira, verificam-se novos conflitos com os quiocos, na base de Cassanga.

Por seu lado os guerrilheiros “mbundu” (Sul de Angola) teriam afirmado não querer pertencer ao MPLA, enquanto este fosse dirigido por “nortistas” e euro-africanos.

Em 1972, verificam-se vários incidentes, de que se salientam: a agitação na Zona C da 3ª Região Militar, com a subversão do Esquadrão Prata Chinga; reacções das etnias do Centro e do Sul de Angola; reacções dos quiocos, que se queixavam de terem sido excluídos de certas funções.

Também em 1972, a acusação feita por membros do Comité Director a Agostinho Neto, acusado de prepotência.

Já no ano de 1973, são vários os casos:

Em Janeiro, uma insubordinação na base de Chipango, contra elementos do Norte.

Mais ou menos na mesma altura, na base Cassamba, guerrilheiros manifestam o seu descontentamento.

Em Maio, são detidos cinco guerrilheiros de Leste, acusados de terem tentado assassinar Agostinho Neto.

Em Julho, Daniel Chipenda divulga a sua “Carta Aberta aos Militantes”.

E pouco depois, em Brazzaville, a segurança do MPLA teria descoberto uma conspiração contra Agostinho Neto.

Sendo tudo isto uma realidade incontornável (...) tendo chegado a um estado de atomização não só na Frente Norte, mas também na frente Leste, um grupo de quadros político-militares regressados da China, tenta aquilo que ficou designado por Movimento de Reajustamento. O comportamento da direcção política nas assembleias de militantes teria sido particularmente anti-democrático, criando um clima de intimidação militar». O que está na origem da Revolta Activa.

A propósito de tudo isto, e não só, a PIDE/DGS depreendeu que o MPLA nessa altura estava a passar por uma crise de graves dissidências ocasionadas por «contradições internas rácico-étnico-políticas, que se agravavam pelo fracasso da sua manobra de extensão para Leste e pela incapacidade de reabastecer e reactivar a 1ª Região Militar. Esta crise caracterizar-se-ia pela existência de duas facções, uma apoiada pelas etnias de Leste e Centro (pró-Chipenda), os bundus, a outra apoiada pelos movimentos do Norte e pelo cabindas, em que (...) se filiam os euro-africanos do movimento pró-Neto. Depois de vários incidentes, com baixas de ambas as partes, na érea de Kalabo, ter-se-iam realizado reuniões conciliatórias sob pressão da OUA e com arbitragem da Zâmbia

(IANT/TT, Arquivos da PIDE, pasta 1, fls.33 e seguintes)».

As conclusões tiradas pela PIDE/DGS a propósito das dificuldades vividas no seio do MPLA, «contradições internas rácico-étnico-políticas, que se agravavam pelo fracasso da sua manobra de extensão para Leste e pela incapacidade de reabastecer e reactivar a 1ª Região Militar, resumem bem o que se passava no Movimento.

Atente-se, sobre este tema preciso das causas de dissensões no seu seio, ao facto de a primeira dissensão em 1962, com Viriato da Cruz, ter como ponto importante de fricção a questão racial; já na questão aberta com a Revolta Activa, predominou quase em exclusividade a problemática política relacionada com os princípios de democracia interna, cientemente amordaçados pelo presidente Neto; enfim, no caso da Revolta Activa, passou-se o que viria a ser mais tarde uma espécie de “leitmotiv” estratégico do MPLA.

A direcção de Brazzaville foi posta ao corrente duma queixa da discriminação de que eram vítimas os militantes oriundos das zonas Leste, Centro e Sul do país e enviou um delegado, para determinar até que ponto eram pertinentes as reivindicações desses camaradas.

Este, Daniel Chipenda, sendo um homem do topo da hierarquia dentro do Movimento, assumiu as suas responsabilidades e enviou um relatório em nada abonatório para os responsáveis da direcção central, pois confirmava que de facto havia casos gritantes de discriminação, a pontos de se poderem dar exemplos de fuzilamentos e mesmo que “queimadas” rituais de certos oficiais chokwé sem qualquer tipo de julgamento, por mais sumário que fosse, assim como substituição de chefes locais por outros impostos e oriundos do Norte, e outras sevícias morais, sem contar com o facto, por exemplo, de não haver nas centenas de angolanos que puderam beneficiar de uma bolsa de estudos na Europa ou em Cuba, ou algures, nem sequer um punhado de chokwés que tivesse beneficiado dessas facilidades para singrar na vida.

Essa era a realidade, triste mas inegável, que a direcção do MPLA não foi capaz de assumir com a devida elevação humanística, preferindo enveredar por vias mais fáceis, a começar pela acusação de Daniel Chipenda ser intriguista e tribalista. Quer dizer, pegaram na culpabilidade própria e transportaram-na para o campo do seu ex-homem de confiança. Mais ou menos como ainda acontece nos dias de hoje, quando aparece dentro do partido dos camaradas alguém a denunciar seja o que for. Sempre que for possível, e há quase sempre uma maneira de aí chegar, os males denunciados são recuperados pela cúpula e o denunciador é apontado com seu principal mentor, promotor, ou causa.

MPLA DIVIDIDO EM TRÊS

Assim, teremos em Angola, logo a seguir ao 25 de Abril, um MPLA dilacerado em pelo menos três pedaços. O Congresso da Lusaka confirmou isso mesmo, e não fosse a Revolta Activa “ter seguido a ala presidencialista afecta a Agostinho Neto, sem contudo lhe seguir o raciocínio estratégico, hoje tudo seria diferente, a começar pelo próprio MPLA.

Mas a “Revolta Activa” largou de Lusaka como um só homem (tirando 4 dos seus membros que ficaram com Daniel Chipenda) que não inviabilizou, com este seu gesto, o prosseguimento do congresso na sua qualidade de órgão capacitado para eleger a cúpula dirigente.

Nessa altura, reconheciam-se muito bem as tendências que urgia reconciliar, os presidencialistas, a “Revolta Activa” e a “Revolta de Leste”.

Agostinho Neto sabia que as suas chances de sobreviver a esse congresso eram praticamente nulas e optou de imediato por se opor à presença de alguns membros da “Revolta de Leste” que, segundo ele, de angolano pouco ou nada tinham, alguns mesmo nem falar português sabiam, exprimiam-se em francês ou em lingala.

Estava aberta uma polémica que não se ficaria por tão (des)insignificantes episódios, continuou por ali fora até ao “ramalhete” final, o discurso de Nito Alves, que se apresentou naquele palco improvisado como defensor de Neto, mais “netista” do que Neto em pessoa, alcandorado numa fraseologia marxista-leninista do mais belo efeito. Mas mais ou menos incompreensível para a maior parte dos delegados presentes.

Nito sabia falar. Segundo os seus mais acérrimos inimigos, «sabia tranformar em “Tortilla Campesina (e Operária)”, rica em ingredientes de fácil digestão, o que passava pela mente de toda a gente em forma de omelete sem ovos!»[2].

Nito Alves era uma excepção à regra, na medida em que no MPLA, à parte a sua pessoa, não havia nessa altura quem se impusesse como orador de elite. Toda a estratégia do MPLA em Lusaka foi posta magistralmente em cena por esse efémero “menino bonito” do presidente Neto, que lhe deve, sem dúvida, a sua sobrevivência como líder do MPLA.

Depois dessa sua performance em Lusaka, passou-se o seguinte: os congressistas com os da “Revolta de Leste”, a cabeça, apesar de ter eleito, digamos democrática e simbolicamente, Daniel Chipenda como presidente do MPLA, a ala presidencialista, a partir de Brazzaville, quartel general de Neto, propôs ao presidente eleito no congresso da capital zambiana, um compromisso posterior, sob alegação de o Movimento não entrar com rupturas, para o interior das cidades, com Agostinho Neto como presidente e Chipenda no lugar de vice-presidente do Movimento.

Porém, este último depressa renegou o compromisso, sob pretexto de autoritarismo por parte de Neto. Virou a Oeste e desceu para Luanda, acreditando poder ser reconhecido como presidente do MPLA, mas deparou-se que o seu posto tinha sido convertido em líder de facção, que se passou a denominar de Facção Chipenda, fortemente combatida pelas estruturas guerrilheiras e clandestinas do MPLA.

Isolado, não lhe restou outra escapatória se não a de associar-se à FNLA de Holden Roberto para combater até às últimas consequências o MPLA/Neto; no que diz respeito à “Revolta Activa”, digamos que essa foi simplesmente ignorada, e Mário de Andrade, que se tinha juntado à guerrilha e passado menos de um ano renunciado por razões pouco claras (dissensões com Neto segundo uns, fraqueza de “pequeno burguês” segundo outros), nunca mais foi ouvido nem chamado.

Quem mais ganhou foi o “herói” de Lusaka, Nito Alves, recompensado ao seu justo valor de “ponta de lança” político fora de série e promovido, depois da Dipanda, a ministro da Administração Interna.

Tudo isto se passou sem conhecimento imediato dos militantes do MPLA a oficiar em Angola, muito particularmente em Luanda.

MPLA GOLPEIA ORGANIZAÇÕES CLANDESTINAS

As Comissões Populares de Bairro (CPB), Comités de Acção, Associações de Estudante Universitários de Luanda (AEUL)s, Sindicatos, Comissões de Trabalhadores, e mesmo alguns partidos não armados -, ainda longe de qualquer dissensão, preparavam, espontaneamente, como vimos, uma recepção triunfal à direcção do Movimento.

Mas no seu seio já medravam, também, algumas derrapagens, e para provar esta asserção não é preciso fazer um desenho, basta saber que mal Lúcio Lara chegou a Luanda em Novembro de 1974 com a primeira fornada da direcção do MPLA e propôs que integrassem as suas estruturas, as respostas dos Comités de Acção foram mais ternas do que meias tintas, alguns membros dessas organizações integraram o MPLA a título pessoal e pouco mais. Diga-se, no entanto, que ao fazê-lo, praticamente nenhum deles renunciava à sua participação nos Comités, e por consequência foi-se assistindo a um fenómeno que Mabeko-Tali denomina “entrismo”, o que significa que havia tentativa de incrementar nas hostes do MPLA a ideologia desses Comités, que, como vimos, eram quase todos de extrema-esquerda, principalmente maoístas.

Além disso, como vimos também, havia Comités de direita, nacionalistas e tradicionalistas, e muitos dos seus membros integraram de livre vontade o MPLA, que, à chegada do presidente Neto a Luanda em Fevereiro de 1975, se deparou com uma manifestação de entusiasmo que ultrapassou todas as expectativas, uma verdadeira apoteose, como que uma vitória moral antecipada.

Em todo o caso, temos a partir de Fevereiro, Março de 1975 em Luanda, um MPLA, por um lado purificado, “netista”, “evacuado”, mas também “amputado” de fraccionistas da “Revolta de Leste”, doravante inimigos armados, e sem a presença incómoda dos intelectuais da “Revolta Activa”, por outro lado, vemo-lo confrontado com pedidos de adesão em grande número e de origem incontrolada. Sim, agora era urgente absorver todas essa entusiástica juventude luandense, que via no Movimento um formidável instrumento de luta revolucionária, o que, como hoje se sabe, estava muito longe se ser o caso. E, para complicar toda esta situação, também era necessário acolher de braços abertos os Comités de direita, nacionalistas e defensores da tradição. Complicado.

Era, como se poderia dizer, muito pássaro a voar para a mesma gaiola, e muitos deles a projectarem esmagar os outros, mas não havia solução à vista, senão fechar os olhos às diferenças e unir forças para tornar possível opor resistência eficaz à espectacular força bélica da FNLA e da UNITA.

[1] Em Lusaka encontraram-se, para definir o destino do MPLA, 165 delegados da ala Agostinho Neto, 165 da “Revolta de Leste” (de Daniel Chipenda) e 70 da “Revolta Activa” (Joaquim Pinto de Andrade). Neste figurino, quem iria decidir para que lado penderia a balança só podia ser a “Revolta Activa”, que, provavelmente daria a vitória a Chipenda. Agostinho Neto sabia disso e, depois de manobras calculadas, acabou por abandonar o Congresso, gesto esse que foi imitado por sessenta e seis membros da “Revolta Activa”, pois quatro ficaram ao lado de Daniel Chipenda. Este foi eleito, mas sem quórum, portanto, o resultado do sufrágio não podia ser legitimado.

[2] Frase dum militante afecto à “Revolta Activa” que deseja manter o anonimato. Que me revelou também o seguinte: «Certo dia, já depois de Lusaka, Mário Pinto de Andrade, dirigiu-se a Agostinho Neto e perguntou-lhe, a propósito de Nito Alves, «É “isso”... que tu queres pôr a governar Angola!?».

A “Revolução” de Freitas Neto & do Interior. SINFO coloca na “rua” 108 técnicos dos SME do tempo de Ngongo


O recém-nomeado Director Geral dos Serviços de Migração e Estrangeiros (SME), Freitas Neto, procedeu a uma remodelação completa da direcção da instituição, pelo que foram nomeados, José Cortez Júnior para o cargo de Inspector-geral, José Maria dos Santos Miguel para chefe do departamento de Estrangeiros, Miguel Ângelo Oliveira Ganga, para exercer funções de chefe de departamento de Registo e Arquivos, enquanto Adriano Artur passou a chefiar o departamento de Recursos Humanos.
O responsável nomeou ainda Esperança Pedro para chefe do departamento de Controlo de Refugiados, Adriano Félix Bagorro para a área de Fronteiras e Pedro Martins Malevo, para o departamento de Passaportes, Domingos José Francisco passou a exercer o cargo de chefe de departamento de Fiscalização, em substituição de Alberto Avelino, enquanto Paulino Caetano passou a chefiar a Repartição Administrativa. Todos quadros vindos dos SINFO e com promoções fora da carreira migratória. Os exonerados, não que o não pudessem ser, pois os lugares não são vitalícios, mas não lembra ao diabo, depois de anos a fio de carreira na Função Pública, ligados, primeiro ao Ministério da Segurança de Estado e depois ao Ministério do Interior.
Intrigante é o desrespeito que se tem dos funcionários, na mudança de novos titulares dos ministérios, pois cada um vem e traz a susa prole, numa clara demonstração de desnorte da politica governamental, quanto a estabilidade do emprego prevista na Constituição.

Sílvio Van-Dúnem*

Só assim se entende que mais de 108 trabalhadores estejam em casa, porque a Direcção dos Recursos Humanos do ministério do Interior, não ter colocação para quem tenha trabalhado com o ministro Gongo, pese a maioria ter mais de 20 anos de carreira, com vários cursos profissionais a expensas do Estado.
Enfim, uma limpeza a fundo tendo em vista a aplicação de uma musculada política, inspirada, sem dúvida alguma, numa farófia presidencial, apresentada ao povo de Angola em forma de proposta de aplicação duma “espécie de tolerância zero” na luta contra a corrupção e enriquecimento ilícito.
Num artigo publicado no dia 9 de Outubro do ano transacto, intitulado “D. Sebastião" (Martins) no uso da utopia Medieval”, tecemos um comentário elogioso ao Presidente da República no qual ousamos afirmar o seguinte: «(…) temos a felicitá-lo pela nomeação de Sebastião António Martins para o cargo de ministro do Interior (a 5 de Outubro). (…) É um homem novo, mas é também um homem jovem, de quem muito se espera, no sentido de endireitar o rumo duma instituição que tinha nestes últimos meses derrapado mais de uma vez».
Azar!
O homem jovem com sentido moderno, de quem muito se esperava, instalou-se no seu Ministério à maneira de um Tsunami demolidor! Mal assentou arraiais na Marginal operou sem tardar algumas mudanças dignas de registo num sector particularmente sensível, os Serviços de Migração e Estrangeiros (SME). Mudou por completo a Direcção daquele órgão, a começar pela cabeça, com nomeação de um novo DG, Freitas Neto, e abriu, com a ajuda do seu novo staff, uma luta frontal e imediata a uma rede de falsificação de documentos que estava a agir em concertação com funcionários da instituição.
A inevitável luta contra essa rede despoletou uma nova limpeza nos serviços muito viciados do SME, e pode-se dizer que, até aí, o ministro estará de parabéns.
Porém, tendo sido bons os resultados desta experiência, Sebastião Martins julgou que seria bom continuar nessa senda e colocar homens do SINSE nos postos chave de investigação criminal, DNIC e DPIC’s, e aí, estamos em crer, ele deu um passo que não poderia dar, caso a lei fosse escrupulosamente aplicada no nosso país. Mas como não é, ele deu-o, nas calmas.
O justificativo da decisão do ministro não é descabido de senso, pese embora o facto de ele relegar para o reino dos mentecaptos, corruptos e incompetentes as nossas prestigiosas corporações nacionais que são a PN e DNIC e seus alvéolos DPIC.
Tomada e posta em execução essa decisão, houve o que se poderia denominar como uma revolução no Ministério do Interior, rolaram algumas cabeças, outras ficaram à espera da sua vez para também rolar e a vida dos que pensavam poder fugir às suas responsabilidades passou a ser um “Ai Jesus!”.
O fim da picada foi obra da equipa de choque F. Neto-S. Martins. Sem olhar a detalhes nem nuances, pegaram em esfregões e lixívia e procederam a uma limpeza geral do SME, melhor seria dizer, criaram uma espécie de cataclismo administrativo em grande.
Por despacho do 17 de Dezembro de 2010 procedeu-se à exoneração 13 Chefes de Departamento, logo seguida da nomeação de 10 novos Chefes a substituí-los e de uma verdadeira razzia no corpo de funcionários graduados, no total de 107 (cento e sete) que foram«movimentados em regime de destacamento para o Gabinete de Recursos Humanos/Minint, aguardando colocação nos distintos órgãos deste Ministério, nos termos do artigo 26º do Decreto nº25/91, de 29 de Julho, cessando deste modo, as suas funções no Serviço de Migração e Estrangeiros».
De notar que o destacamento consiste na afectação a uma tarefa específica fora do quadro de origem ou do Aparelho do Estado e faz-se por um período não superior a dois anos, exceptuando casos especiais. Por outro lado, enquanto o funcionário estiver em destacamento, ele mantém a sua ligação ao quadro de origem, mas o seu lugar pode ser ocupado por um interino. Se a situação se prolongar por mais de dois anos, o funcionário será colocado em situação de disponibilidade e será aberta a respectiva vaga do quadro.

Decisão brusca, situação fusca

Toda a gente no mesmo saco, sem discernimento. Rua! Rápido! Despacho no dia 17, postos na rua no mesmo dia, 17 de Dezembro de 2010. Isto foi o que realmente se paasou.
Numa entrevista concedida ao Jornal de Angola, no entanto, o novo manda-chuva do SME, Freitas Neto, declarou que tudo banhava em manteiga, ninguém tinha sido esquecido, toda a gente continuava a receber os seus emolumentos e salários, não havia crise nenhuma.
Mas havia e ainda hoje há.
Comecemos pelas nomeações dos substitutos dos exonerados e outros destacados.
Sendo o SME um departamento militarizado por decreto presidencial, as pessoas que substituíram a antiga direcção apresentam alguns desníveis, na medida em que os que foram exonerados dos seus cargos de chefia, são oficiais de direcção e chefia, que no quadro militar são equiparados a capitães, majores, tenentes-coronéis, coronéis, entre outros.
Logo, deviam ser substituídos pela função imediatamente a seguir, ou então por pessoas de nível equivalente. Mas o que aconteceu foi eles terem sido substituídos por especialistas e ajudantes.
Vejamos de mais perto: o especialista é um oficial subalterno, não de chefia, é um sargento, o que constitui um evidente atropelo à lei militar. À parte isso, a própria definição de destacamento diz que as pessoas são deslocadas para ir ocupar um outro posto, é uma espécie de requisição e o que o que aconteceu foi as pessoas terem sido exoneradas já lá vão cinco meses e terem ainda hoje de ficar em casa sem fazer nada, sem nenhum vínculo, e sem que a mais pequena justificação lhes seja dada.
Pior, algumas dessas pessoas que gozavam de regalias diversas, viram-se privadas do seu acesso, pois as ditas cujas foram-lhes cortadas, ao que acresce o aparecimento de toda uma série de entraves para os ex-funcionários poderem apresentar as suas reclamações perante esta ou aquela situação que eles julguem dolosa ou humilhante.
Todos os que foram postos fora dos seus serviços estão hoje a ser tratados como verdadeiros criminosos, sem sequer saberem quais foram os crimes que cometeram.
A direcção nova diz ter pretendido cortar o mal pela raiz, porque havia corrupção no SME, que pague o inocente pelo pecador, na repetição de um método de saneamento, inumano, atávico e contra-producente, cujas origens datam de uma outra era, antiga e ultrapassada há séculos.
A verdade é que o SME é um órgão do Estado com as suas características e alguma especificidade própria, será que esta nova direcção de choque está a fazer bem o seu trabalho?
Que medidas é que estão a ser tomadas para verificar se estes novos dirigentes estão realmente a agir em conformidade com os desideratos do Executivo?
É que estamos em crer que por ora vão-se fazendo algumas considerações que levam a crer que o dueto Martins-Neto tem feito um trabalho notável. Mas onde estará a notoriedade, à parte todos estes atropelos, não só à lei militar, mas também ao respeito pelos direitos humanos?
Lembremo-nos do que aconteceu depois de a directora “Quina” ter sido exonerada. Foi substituída pelo general “Dinho” Martins, que era a aposta para melhorar a situação. E a situação melhorou, embora não tivesse sido possível erradicar completamente a corrupção, o que se pode compreender pelo espaço de tempo ainda curto que nos separa da saída de “Quina”. Mas os serviços foram melhorados, não só em termos de diminuição de sinais de corrupção, mas também em eficácia de funcionamento. E todos os progressos feitos no tempo de “Dinho” Martins, podem ir por água abaixo, por capricho da nova equipa do Ministério do Interior e do Executivo presidencial não ter uma politica de estabilidade na Função Púiblica, mas de instabilidade e desemprego, aumentado, sempre que ascende um novo dirigente, que parece ter carta branca para levar a sua turma e colocar na rua a do antecessor. São estas actuações que criam a instabilidade nos órgãos de soberania e podem, mais cedo ou mais tarde ser um rastilho para a explosão social.
Esta é a triste realidade!

A bola da vez. Marta Fernandes de Sousa Costa*


A cada momento, a mídia escolhe um tema para “bola da vez”. Sugestionados, todos passam a tratá-lo como a maior novidade, atribuindo-lhe a importância antes negada. Seguindo essa linha, após muito ignorar o problema e as trágicas conseqüências, enfim escolas e pais resolveram encarar o bullying, forma de violência persistente e demolidora, dirigida aos mais fracos ou diferentes.
A palavra bullying vem de bully, que significa “valentão”, em inglês. Pode ser física (geralmente praticada pelo sexo masculino) ou psicológica, a preferida por meninas e jovens do sexo feminino. É sempre uma forma de discriminação, um “chega pra lá”, pretenso “sou mais importante que tu”. Pretenso porque, em geral, atrás das atitudes agressivas do valentão ou do exibicionismo da “patricinha”, esconde-se a insegurança, a falta de reconhecimento ou excesso de cobrança, o medo de ser confundido com o escolhido para “bode expiatório”.
Meninos, jovens e adultos bem-resolvidos

Uma realidade que se adapta a Angola. Precisa-se de matéria prima para construir um País


Eduardo Prado Coelho*
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. O que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal e se tira um só jornal, deixando-se os demais onde estão.
Pertenço ao país onde as empresas privadas são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos.... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:
- Onde a falta de pontualidade é um hábito;
- Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
- Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
- Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
- Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
- Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
- Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
- Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
- Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
- Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
- Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente
estancados....igualmente abusados!
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um Messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e estou seguro de que o encontrarei uando me olhar no espelho.
Aí está. Não preciso procurá-lo noutro lado.
*In Público

terça-feira, 7 de junho de 2011

Livro Negro do 27 de Maio de 1977. O Auschwitz de África


Neste mês de Maio, vamos ainda e sempre recordar os que não sabiam por que razão eram assassinados. São dezenas de milhares e as suas famílias esperam do Executivo uma palavra, uma só palavra: CONCILIAÇÃO.
Hoje apresentamos o texto que servirá de abertura a um livro que brevemente vai ser publicado. E, durante todo o mês de Maio apresentaremos alguns extractos do mesmo, esperando que essa iniciativa seja entendida não como um apelo à vingança, mas sim como uma chamada de atenção aos governantes no sentido de os levar a proferir a sublime expressão que todos os angolanos esperam: RECONCILIAÇÃO

William Tonet*

De tanto remover as cinzas sempre cintilam as brasas que se diria estarem apagadas. E assim, por um conjunto de circunstâncias pontuais, decidimos fazer a abordagem, em livro, de um drama nacional, o 27 de Maio de 1977, que mais tarde ou mais cedo terá que ser sanado, sem no entanto esquecer, nem descurar, a dificuldade e a grandeza da empreitada.
Os antecedentes da trama engendrada contra Nito Alves, ícone guerrilheiro, e Zé Van-Dúnem, prisioneiro de São Nicolau, e milhares de outros jovens intelectuais, continuam escondidos no lamaçal fedorento e cúmplice onde ainda se movimentam antigos camaradas de armas, transfigurados em algozes para a defesa dum poder manchado de sangue, que prossegue a sua rota insensível aos clamores das almas de milhares de vítimas assassinadas e de seus familiares que aguardam por um simples boletim de óbito.
Caricatamente, ante a crueldade dos assassinatos selectivos em massa e sem julgamento levados a cabo pela DISA, polícia política do regime de Agostinho Neto entre 1977 a 1979, é confrangedor, em pleno século XXI, o mutismo e o cinismo do regime, em tentar tapar com uma peneira rota o maior genocídio levado a cabo no século passado por uma força política no poder, contra militantes do seu próprio partido, cujo crime teria sido o de reivindicarem um maior pragmatismo ideológico na condução dos destinos de Angola. Ademais, estamos em face de um fenómeno que sai das fronteiras angolanas.
Na realidade, depois dos horrores praticados por Adolph Hitler, na II Guerra Mundial, a DISA, polícia política de Angola, protagonizou a maior chacina ocorrida no século XX em África, com a mui benévola colaboração intervencionista do partido no poder, o MPLA. Esta é a verdade.
Os números oficiosos, baseados nas prisões arbitrárias, na quantidade de presos em campos de concentração, nas múltiplas cadeias, nos fuzilamentos diários, nos enterrados vivos, nos jogados de avião ou lançados ao mar, são aterradores: 40, 60 ou mesmo 80 mil vítimas, na sua maioria intelectuais brutalmente assassinados sem direito a qualquer tipo de defesa. Uma autêntica “limpeza da intelectualidade autóctone”.
E nessa mal-aventurada empreitada, “o guia imortal”, “o político profundamente humano”, como se propaga ter sido Agostinho Neto, ao mostrar tamanha insensibilidade no seu desempenho, “promulgando as listas de morte” levantadas pela “corte de sangue”, não será que se transformou em “político assassino” entre o 27 de Maio de 1977 e Março de 1979?
Enterrando à força a balança da justiça, atirou às urtigas os preceitos da mesma: imparcialidade, sensatez e frieza, apanágio dos grandes líderes nos momentos de divergências internas. Mostrou-se sempre, mais ou menos, parcial, sobretudo depois de ter tomado partido irreversível pela ala liderada pelo seu padrinho e confidente, Lúcio Barreto de Lara. Será esta opção digna do perfil de um grande líder?
Nito Alves, o comandante da 1ª Região que o havia salvo de morte súbita política no 1º Congresso do MPLA, realizado em 1974 em Lusaka, capital da Zâmbia, quando a maioria dos militantes do interior e exterior estavam contra a direcção do partido, três anos depois viu-se cobardemente abandonado pelo homem que ele tinha salvo, Agostinho Neto, e sem possibilidade de esgrimir os seus argumentos em fórum próprio.
Travou uma luta titânica contra o tempo, por se ter dilatado voluntária ou involuntariamente o prazo de dois meses dado pelo Comité Central à Comissão de Inquérito liderada por José Eduardo dos Santos para ouvir os acusados. Não foi ouvido. Catalogado como culpado, antes de qualquer juízo final, escancarou-se-lhe o coração para explicar aos membros do Comité Central e organizações sociais do partido, a injustiça que campeava contra a sua pessoa. Frustrado, encarou de frente a cobarde e assassina muralha de betão, ardilosamente ministrada na comunicação social, por Costa Andrade “N’dunduma” e Artur Pestana Pepetela, que, numa premonição impressionante, para além da diabolização a Nito Alves, previram todo o cenário posterior.
Fustigado por todos os lados, apontou baterias para um “túnel escapatório”: “As 13 Teses em Minha Defesa”, uma visão comunista baseada em fórmulas marxistas-leninistas, que ingenuamente acreditou ser a linha defendida por Agostinho Neto.
Ledo engano!
Neto acreditava sobretudo no não-alinhamento!
Sobre este assunto, diga-se, o primeiro Presidente da República Popular de Angola e do MPLA, foi severamente insensível, e responsável, talvez não a tempo inteiro, pelas mais graves atrocidades cometidas na história de Angola independente.
Por esta razão, ninguém de forma imparcial, poderá afirmar se Neto era um idealista político ou um assassino incubado, mas seguramente é obrigado a rememorar, por exemplo, a crise de 1963 do MPLA, e as que se seguiram, para entender melhor a mentalidade oblíqua e de facto incubada deste médico, casado com uma portuguesa, líder político por convite, e poeta da África profunda com algum talento por veia epidérmica, que liderou por dois anos a República, depois de ter esmagado com o apoio de forças mercenárias cubanas, russas, guineenses, moçambicanas e argelinas, a oposição política da FNLA, que contava com o apoio das tropas zairenses, e a UNITA, que se tinha aliado em desespero de causa aos racistas Sul-Africanos.

A convicção messiânica de Nito Alves
Em 27 de Maio de 1977, apenas 19 meses depois da independência, teve lugar em Angola uma denominada pelo então regime de Agostinho Neto "intentona golpista" comandada por Alves Bernardo Baptista, vulgo Nito Alves, membro do Comité Central do MPLA. O alegado golpe é abortado deixando um saldo de mais de 70 mil mortos. Um dos maiores crimes contra a humanidade.
Henriques Teles Carreira, vulgo Iko, então Ministro da Defesa, joga papel importante e decisivo no julgamento extra-judicial e posterior fuzilamento do denominado cabecilha da inventada rebelião armada, feito por um pelotão de fuzileiros na Fortaleza de São Miguel, em Luanda.
Para as milhares de famílias, que perderam os seus entes queridos durante e depois da repressão dos insurrectos, o trauma causado por esse pesadelo ainda é, 34 anos depois, a pura realidade. Mas o segredo por parte do regime em volta desta questão é considerado Segredo de Estado, ou melhor, e para citar o historiador angolano Carlos Pacheco, "o silêncio tem funcionado tal e qual uma espécie de arca fechada a sete chaves, que se hesita a abrir".
Mas seja como for, o 27 de Maio constitui a página mais negra que a história de Angola já conheceu, considerado o facto da atrocidade registar-se numa altura fora do domínio colonial português, aí a gravidade acrescida da mesma.
Mas o labirinto de segredos em volta do 27 de Maio de 1977, não é o único mistério que marca a existência da história pré e mesmo colonial de Angola. Verdades sobre os verdadeiros motivos e assassínios de Matias Miguéis, José Miguel Francisco irmão do conhecido cantor angolano "Calabeto", braços direito de Viriato da Cruz, alegadamente mortos por ordens expressas de Agostinho Neto em 1965 no regresso de uma Conferência em Jacarta, na Indonésia de Sukharno, são apenas alguns de muitos outros casos por se esclarecer, tal como as verdadeiras razões que levaram ao assassínio de Deolinda Rodrigues, heroína do MPLA. Terá sido em retaliação de Holden Roberto pela morte de Matias Miguéis e José Miguel Francisco? Quem e porquê mataram um tal "camarada" Ferro e Aço? Para não revelar a forma Barbara e cruel das execuções de Matias Miguéis e Miguel Francisco?
Quais foram as verdadeiras razões que levaram Nito Alves sob conivência do Comité Director do MPLA, a executar o conhecido Comandante Lourenço Casimiro, ou simplesmente "Miro", na chamada Primeira Região político-militar?
Voltando ao tema central, afinal o que esteve por detrás do cenário do 27 de Maio? Tinha necessariamente que existir um 27 de Maio, e a repressão teria que ser tão violenta tal como ela se deu? Que relação histórica teve o 27 de Maio com outras rebeliões e Movimentos contestatários no seio do MPLA, tais como as conhecidas "Rebelião da Jibóia”, liderada por Katuwe Mitwe, transformada depois em Revolta do Leste" co-coordenada entre este comandante militar e o político Daniel Chipenda e a "Revolta Activa" de Gentil Viana? Por mais retóricas que pareçam estas perguntas em certos círculos do Movimento nacionalista angolano, certo é, entretanto, que elas merecem necessariamente respostas, estudos e reflexão adequadas. Nesta modesta contribuição o meu objectivo não é por isso confrontar-me com tais perguntas, mas sim, sensibilizar aqueles que detêm o talismã das verdades sobre este complexo e controverso dossier, muitos deles espalhados pela diáspora, para que se pronunciem ou que se calem para sempre.
Não restam dúvidas de que a falta de debate interno, a falta de contestação externamente visível nas lideranças partidárias no seio do MPLA e também da UNITA e mesmo da FNLA, excluía e exclui a possibilidade de se sararem feridas com base na aplicação de melhores métodos para aperfeiçoamento de normas político-morais no seio destes Partidos políticos, antigos Movimentos nacionalistas angolanos.
Ao longo da história da existência do MPLA, UPA/FNLA e da UNITA, todas as contestações e dissidências foram repelidas com a maior violência possível por parte das respectivas lideranças, e muito particularmente por parte dos líderes "incontestáveis", Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi, respectivamente. Desta forma estava excluído qualquer campo para o debate franco e aberto bem como para crítica e muito menos auto-crítica.
Já o histórico Viriato da Cruz, cuja figura e nome foram publicamente apagados pela poderosa máquina de Informação, o DIP (Departamento de Informação e Propaganda) do MPLA, não levou a melhor com o seu antagónico, Neto. A ambos eram reconhecidas qualidades como: intelectualidade, disciplina, robustez e perfil políticos e outros adjectivos. Em termos comparativos, entretanto, Viariato da Cruz era, segundo seus contemporâneos, o homem que detinha o poder e influência sobre as massas populares aderentes ao MPLA.
Tal como Viriato, no MPLA também existiu um homem, Nito Alves, pese embora e em termos de idade não fazer parte da geração dos fundadores do MPLA, que conseguiu a dada altura ganhar vários extractos das massas populares e círculos influentes no seio do Movimento.
O politólogo e historiador congolês Jean-Michel Mabeko Tali, resumiu assim a pessoa política de Nito Alves, bem como sua inserção e carreira no MPLA: "Ele, como outros da Primeira Região, tinha claramente feito entender a sua diferença quanto à visão que tinham, não só da forma como a luta foi dirigida, mas muito rapidamente, de questões como a gestão da questão racial da sociedade e as questões sociais".
Nito Alves, aproveitando a soberba chance de organizar o MPLA em Luanda, mesmo antes da chegada de Neto a Luanda em Fevereiro de 1975, ganhou naturalmente nome e popularidade e era já conotado como sendo líder de uma tendência pró-soviética, mais tarde provada devido sua assiduidade em Moscovo.
Com a chegada de Neto e seu círculo restrito a Luanda, começam as intrigas com o objectivo de o afastar do círculo restrito do Partido e consequentemente do Presidente Agostinho Neto. As divergências internas foram crescendo, ao ponto de mais uma vez chegarem a existir pelo menos três fracções no seio do Partido: os Netistas (de Agostinho Neto), entre eles também o ideológico Lúcio Lara e Iko Carreira; Os Nitistas (de Nito Alves) apoiado por José Van-Dúnen, Bakalov, Sita Vales e outros; os chamados Tugas, conotados com o Partido Comunista Português-P.C.P. alegadamente mais próximos a Nito Alves.
Este cenário é praticamente parte ou sequência de uma norma que no passado longínquo marcaram as dissidências no seio do MPLA, quase sempre em forma de Trindade: Facção Neto; Facção Chipenda - também chamada de Revolta do Leste e a Revolta Activa.
Ao se aperceber de que as rebeliões no seio do Movimento visavam reduzir o seu protagonismo e carisma, Agostinho Neto aborta a realização de uma Conferência Nacional do Movimento proposta por dirigentes contestatários da sua liderança, entre eles evidentemente Nito Alves. A partir desta altura, as suspeitas de uma rebelião por parte de Nito Alves e sua forte ala, basicamente militar, estavam preto no branco, isto é, eram mais do que evidentes. Aliás os movimentos preparativos de Nito Alves e sua equipa, nunca passaram despercebidos pela liderança do MPLA, foram, isso sim, menosprezados. Este status quo ganha novos e sérios contornos, uma semana antes da tentativa do golpe de estado, com a agudização da situação para os revoltosos.

A repressão dos insurrectos
O Comité Central do MPLA reúne-se nos dias 20 e 21 de Maio, seis dias antes da intentona golpista, e decide expulsar do grémio central do partido, Comité Central, os dois que viriam mais tarde a ser identificados como sendo os "cabecilhas" do Golpe de Estado, a saber: Nito Alves e Zé Van-Dúnen.
Em consequência deste e doutros factos, Neto autoriza a temível máquina repressora da DISA, moldada ao estilo e eficácia da PIDE e com métodos repressivos comparados aos da GESTAPO de Adolfo Hitler e da STASI da antiga RDA, para que fizesse um acompanhamento literalmente severo e consequente da preparação de uma provável insurreição.
Resultado da intentona golpista: mais de 28 mil mortos; mais de 3 mil desaparecidos; mais de metade dos oficiais superiores do Exército no activo (Majores e Comandantes na sua maioria) foram abatidos da forma mais selvagem.
Nito Alves, o homem mais falado e procurado em Angola nos meses de Maio e Junho de 1977, viria a ser alegadamente preso dias depois, tendo sido submetido a um longo e rigoroso interrogatório. Para legitimar a sua própria execução, foi finalmente forçado a redigir a seguinte sentença de morte, que se supõe ter sido redigida pelo seu próprio punho:
"A decisão da eliminação física dos responsáveis eliminados no dia 27 de Maio de 1977 foi tomada por mim, Zé Van Dúnen e Sita Vales. Mas é de notar que tal decisão visava apenas os responsáveis de que tínhamos conhecimento correcto da sua prisão: Major Saydi Mingas, os Comandantes Bula, Dangereaux e Nzaji. Os outros detidos eram desconhecidos por nós".
Nota de realce, é o facto de o Comité Central do MPLA admitir na sua nota de informação do Bureau Político do MPLA de 12 de Julho de 1977, Pág.15 (Edições Avante!) uma certa "passividade dos órgãos dirigentes, assoberbados com a complexidade da situação, que exigia soluções para os graves problemas de ordem militar", facto que não terá permitido ter calculado com exactidão, o estado avançado em que a preparação do golpe havia alcançado.
Para o MPLA, e segundo se pôde ler no mesmo documento, tanto Nito Alves como o seu braço direito, José Van-Dúnen, enveredaram pelo caminho do fraccionismo, pois a sua "acção deixara de se inspirar nas leituras de Mao Tsé-tung para passar a inspirar-se nas leituras superficiais de alguns textos de Lénine e de outros autores marxistas, que nem sempre eram compreendidos dentro do seu verdadeiro contexto".
Com o aborto da rebelião armada de 27 de Maio de 1977, acabava um sonho recém iniciado como bem o descreve Jean-Michel Tali: "Nito [Alves] queria uma revolução pura e dura, do tipo bolchevique, o seu discurso pró soviético não deixara dúvidas sobre isso. [...] O importante na minha opinião, é entender a dinâmica sócio-política que desemboca nesta tragédia. Parece-me importante colocar a questão em termos das lutas sociais que sustentam o discurso político de Nito e sua convicção quase messiânica, de que a história tinha colocado nos seus ombros um papel fundamental neste processo revolucionário angolano".
Extractos do 7º capítulo da obra de Orlando Ferraz "Angola: Depois da Tempestade a Bonança" com 240 páginas a ser lançado brevemente.
*Com António Setas

Os conflitos actuais no Norte de África. Que lições para Angola Marcolino Moco*


Cerca de um ano e meio depois, estou aqui novamente, já não no mesmo local que era o das Quintas da Omunga, mas para mais uma Quinta da sempre viva Omunga, trasmudada apenas para local diferente, como que a atestar a afirmação, aqui somente parafraseada de Lavoisier, de que na Natureza nada se perde, mas tudo se transforma. Há um ano e meio, discorri aqui sobre o tema “A Ética, a Política, o Direito e o momento constituinte”, no intuito de alertar que a forma como o Presidente José Eduardo dos Santos estava a induzir todo o país, a começar pelo seu próprio Partido, a aprovar uma constituição à sua imagem e semelhança, não se coadunava com as lições da História, nem com as prescrições do Direito interno e internacional que, bebendo sempre da História, tem por função essencial contribuir para a harmonização e estabilização das sociedades politicamente organizadas.
As minhas observações e as observações de toda uma gama de entidades e instituições formais e informais, onde a Omunga ocupou um lugar proeminente, não foram tidas em conta. Eu, pessoalmente, tive as minhas convicções de cidadão e de académico postas a prova, com ameaças veladas, e algumas quase directas, de diversa natureza. Mas, mantive-me firme pela justeza que penso encerrarem as minhas ideias, mesmo que as não quisesse impor a ninguém, até porque não possuía e não possuo até hoje poderes formais muito menos materiais para que isso pudesse acontecer.
Hoje estou aqui porque a Omunga me pede para me pronunciar sobre o tema “ Os conflitos actuais no Norte de África: que lições para Angola?”
Se com isso se alude ao que se passa hoje na Tunísia, Egipto, Líbia e Costa do Marfim, a resposta está na ponta da língua de todos os que têm acompanhado essas convulsões árabo-africanas. Eu próprio, tenho acompanhado esta verdadeira concretização do que acontece quando não se respeitam as lições da História e do Direito, com comentários subsequentes, no meu site www.marcolinomoco.com, depois dos meus textos intitulados “Por linhas tortas, o Direito”, publicados no agora “adquirido” jornal semanário “A Capital”, no rescaldo dessa conferência de há um ano e meio, aqui; nas Quintas da Omunga.
Para sermos sintéticos, as lições que podemos retirar dos conflitos a que nos referimos, como lições da História da Humanidade a repassar neste momento diante dos nossos olhos, destaco, entre outras as seguintes:
1ª lição- Definitivamente, em todos os lugares da Terra, o poder pertence ao povo. Os governantes são escolhidos transitoriamente para prestarem um serviço e não para se tornarem donos do poder. No chamado Terceiro Mundo, em que a África ocupa o lugar central, a tendência é pensar-se que o Povo ainda não está preparado, por isso pode abusar-se um tanto quanto. A verdade porém diz que isso não dura sempre, porque os povos fartam-se de determinados abusos. Desde finais dos anos 80 que penso que qualquer partido ou responsável no poder em Angola devia entender isso. Ainda hoje, acho que os responsáveis vão a tempo de mudar o rumo do pensamento e da prática, antes que o pior aconteça, mais cedo ou mais tarde.
2ª lição- Como disse Obama, no discurso de Acra, que alguns líderes africanos fazem hoje de contas que não ouviram, os países e Estados devem construir-se em torno de instituições e não em torno de pessoas, por mais extraordinárias que elas possam parecer. Quando me lembro da pompa e circunstância em que andava rodeado o Presidente Mubarak, que me recebeu em 1989, como Ministro da Juventude e Desportos de Angola, uns dias antes da queda do Muro de Berlim, onde se falava em surdina, dos métodos antiéticos com que ele e o seu partido dominavam tudo, à custa do afunilamento da oposição e da perversão das instituições nacionais, mal consigo imaginar a forma como terminou a sua carreira e o seu regime políticos, já na sua bem avançada idade.
Especialmente o que se passa na Costa do Marfim é consequência, entre outros aspectos, do construir todo o devir de um país e de um Estado em torno de uma pessoa. Era assim que o víamos, na nossa juventude, mesmo nós que não comungávamos da sua ideologia do tipo liberal capitalista: o grande Ouphouet Boinhé, fundador e líder vitalício daquele então esplendoroso país, produtor exuberante de cacau. Mas, hoje, é o que vemos: um país a sucumbir em pedaços, há mais de uma década
3ª lição- Com as novas tecnologias de informação e com o aconchego cada vez mais estreito do Mundo, é ilusório pensar que a “atrasada África” e, concretamente, o povo obediente de Angola, ou os povos obedientes de Angola, vão manter-se no estádio actual por muito tempo, cheios de medo por causa dos acontecimentos do passado. A manifestação virtual do dia 7 de Março e a real do dia 2 de Abril em Luanda, são pequenas amostras de como jovens, quase imberbes, podem derrotar políticos veteranos acomodados em seus pensamentos dos anos 50 e 60, mesmo que já passados em testemunho a mais novos um tanto quanto incautos, porque rendilhados com novas roupagens. Eu me rio quando um jurista, a sair dos trinta anos me vem dizer que as cláusulas pétreas da antiga Lei Constitucional, que salvaguardavam consensos nacionais essenciais, elaborados para defender o futuro da democracia angolana, foram destruídas porque não se deve prender as novas gerações ao passado.
4ª lição- Desprezar as lições da História e desrespeitar o Direito, especialmente os direitos humanos, com a ideia pouco avisada de que durante a nossa vida não nos vai acontecer nada por isso; ou deixar as coisas andar, mesmo quando podemos dar o nosso contributo para mudança, por medo, comodismo ou pela ideia de que as revoluções vêm aí para castigar os prevaricadores, é uma grande ilusão, porque, sobretudo aqui em África, quando as revoluções chegam é uma razia total, em que quase ninguém ganha e todos perdem.
À custa de alguma pressão, as autoridades angolanas tem dado, ultimamente alguns passos a denunciar alguma razoabilidade. Entre eles destaco a abolição do inconstitucional artigo 26º da Lei dos Crimes contra a Segurança do Estado, que permitiu a libertação de prisioneiros de opinião de Cabinda e do Leste do país e a permissão da manifestação do dia 2 de Abril sobre a liberdade de expressão e informação, como exemplos. O problema é que isso não deve ser considerado como um favor especial feito aos titulares desses direitos. Aliás, os nossos magistrados têm que começar a rejeitar, desde a primeira instância judicial, que a dignidade das pessoas seja posta em causa perante normas notoriamente inconstitucionais.
Todos só temos a ganhar se estes pequenos passos não significarem apenas algumas formas para adormecer “a malta” e logo voltarmos às proibições, às fechaduras e a intimidações veladas ou expressas. Agora mesmo estamos a assistir a um movimento legislativo preocupante nesse sentido, onde se pretende, por exemplo − se é verdade o que eu oiço − que sem autorização judicial, possam cidadãos serem incomodados na sua privacidade electrónica, contra normas constitucionais e contra o direito internacional dos direitos humanos. A ser verdade é um mau sinal e um gesto escusado porque inválido, perante o direito interno e internacional.
5ª lição- Para não ser longo, termino com aquela que considero a mais importante lição dos acontecimentos que estamos a analisar: o Estado moderno não se constrói sem uma comunicação livre, embora, naturalmente responsável. O regime angolano actual está a incorrer numa prática grave de cerceamento ao direito à liberdade de imprensa, de forma discriminatória e acintosa. Se o problema é impedir que se toque em assuntos delicados, então que resolvamos estes assuntos delicados, pedindo a compreensão de todos e iniciar uma nova era da construção de uma sociedade aberta. Há exemplos disso.
(Obs.: No texto idêntico constante no blogue da Omunga, na 4ª lição, onde lê “abolição do inconstitucional artigo 25º da Lei da Segurança Nacional”, deve ler-se como consta neste texto corrigido: “abolição do inconstitucional artigo 26º da Lei dos Crimes contara a Segurança do Estado”.
*Moco Produções

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tratamento radical provoca motim em Viana. Cadeias de Sebastião Martins continuam a matar presos




Morreu estupidamente, como sói dizer-se, um cidadão conhecido pelo nome de Miro e a sua morte provocou a revolta geral dos presos, que se sublevaram, criando um grande pânico na Cadeia de Viana.

O homem estava preso na Comarca Central e foi levado no dia 16.05, para a prisão de Viana. Em que circunstâncias exactas se procederam a essa transferência ainda não estamos em condições de nos pronunciar, pois faltam-nos confirmação do que realmente se passou.

O que se sabe é que o homem chegou a Viana num estado de excitação anormal e as autoridades prisionais decidiram proceder a um ritual rotineiro para acalmar o prisioneiro.

Esse ritual, que, de facto, se resume a drogar o exaltado por via de uma injecção intramuscular inoculando-lhe um poderoso calmante, mais ou menos como se faz aos animais selvagens que só podem ser dominados por via de drogas, tem os seus quês e sabe-se de longa data que tal maneira de resolver o problema de excitação excessiva de um recluso pode acarretar o despoletar de perigosos efeitos secundários.

Isso sabe-se, mas pouco pesou para a decisão ser deferida, e o Miro foi submetido, contra a sua vontade a esse tratamento.

Infelizmente, as coisas não se passaram exactamente como os mentores desse tratamento de choque pensavam, e a resolução do problema transformou passado pouco tempo em drama: o Miro não digeriu convenientemente a droga que lhe tinham inoculado e faleceu, no dia 17 de Maio, tendo o seu corpo ficado estatelado no meio dos corredores das celas, coberto por um envergonhado e revoltado lençol branco.

O problema é que essa inopinada morte provocou um motim que se transmitiu de cela em cela e o que se passou em seguida, segundo parece, tem a ver muito mais a ver com uma revolta generalizada dos prisioneiros de Viana do que com uma manifestação de protesto.

À hora do fecho do nosso jornal não temos mais novas do sucedido no terreno, mas desde já podemos inferir que os métodos prisionais de manutenção da disciplina na prisão de Viana, e não só, estamos em crer que o caso é extensível a todo o país, têm de ser revistos com urgência, a fim de evitar que de futuro acontecimentos dramáticos deste gabarito se repitam.

A verdade histórica vista do avesso. Traficante de armas Falcone recebido como herói por Eduardo dos Santos


Depois de lhe terem estendido o tapete vermelho e aberto as portas do salão de audiências do Palácio Presidencial, em Luanda, no passado dia 17.05.11, o empresário francês Pierrre Falcone, notório traficante de armas, foi recebido com pompa e circunstância pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, a 32 anos no poder sem nunca ter sido eleito.

Sentimentos nobres presidiram ao comovente encontro entre o guerreiro e o seu fornecedor de canhões francês, a quem outorgaram medalhas e cidadania angolana, a revelia da Assembleia Nacional.

Era visível a satisfação de ambos.

O actual presidente da República de Angola, que nunca dedicou tanta pompa e circunstância a angolanos, muitos hérois, que muito e mais se bateram em prol do país e dos angolanos, não se pronunciou, mas, o traficante de armas Pierre Falcone não perdeu a ocasião de se servir da sua escova e abundar no fraseado laudatório.

Primeiro a Angola, país cujo “Governo foi reconhecido pelo mundo inteiro desde as eleições de 1992”, realçando que “a decisão da justiça francesa é uma vitória de Angola”, e, depois não se esqueceu de dar brilho a si próprio, realçando que “foram 11 anos de uma batalha jurídica extenuante para que a verdade histórica triunfasse”, e, para rematar em apoteose, confessou, “a minha decisão foi lutar para o grande dia de vitória da República de Angola, do Presidente José Eduardo dos Santos, do Executivo, e, evidentemente da minha família e dos meus companheiros, que foram tratados injustamente como todos sabem".

Pouco faltou para que o traficante não se auto-instituísse Herói Nacional de Angola.

Como não podia deixar de ser, a TPA, a Rádio Nacional, a Angop e como não podia deixar de ser, o Jornal de Angola juntou cera a este acontecimento deu lustre e saiu-se com o seguinte título em primeira página: “Tribunal de recurso de Paris deu razão a Falcone e Pasqua..

Curiosa maneira de dar razão, pois o que aconteceu nada tem a ver com vitória de Angola, de Falcone & Cia, pois a decisão final da corte de apelação de Paris considerou que o fornecimento de armas ao Governo angolano por Falcone/Gaidamak releva apenas do direito internacional, porquanto elas não circularam por fronteiras francesas, não tendo os tribunais franceses competência para julgar um tal caso. Mas o facto relevante é que as empresas que realizaram o tráfico são francesas e, por via dessas operações, cometerem vários ilícitos, fiscais e políticos condenáveis. Ponto final parágrafo, não deu razão nenhuma ao pacote global do processo.

Pelo contrário, lavrou uma sentença incriminatória e manteve a condenação do traficante de armas Pierre Falcone, condenando-o a dois anos e meio de prisão efectiva, tendo o réu sido solto, porque já havia cumprido este tempo, na sequência do seu encarceramento.

Verdade histórica é essa!...

Falcone foi condenado a dois anos e meio de prisão efectiva.
Se isso é uma vitória para Angola, muito dificilmente o país incorrerá em derrotas futuras.
Tanta mentira junta em tão poucas frases, como dizem os franceses “Il faut le faire!”. .

Escritor Orlando Castro lança «Cabinda - Ontem protectorado, hoje colónia, amanhã Nação»


Lisboa - A Amnistia Internacional e a Human Rigths Watch alertam os governos dos países livres para o facto de as autoridades angolanas continuarem a prender sem culpa formada e, obviamente, apenas por delito de opinião, os defensores dos Direitos Humanos em Cabinda. Um exemplo. Francisco Luemba, um proeminente advogado e antigo membro da extinta organização de defesa dos direitos humanos Mpalabanda, esteve detido 11 meses acusado de crimes contra o Estado, em conexão com a publicação em 2008 do livro “O Problema de Cabinda Exposto e Assumido à Luz do Direito e da Justiça”.

O Autor espera que, tanto os ilustres cérebros que vagueiam nos areópagos da política portuguesa, como os que se passeiam nos da política angolana, leiam este livro com a atenção de quem, no mínimo, sabe que os cabindas merecem respeito.

Terá Cabinda similitudes com Timor-Leste? E com o Kosovo? E com o Saara Ocidental? Cabinda é um território ocupado por Angola. E, tanto a potência ocupante, como a que o administrou (Portugal), pensaram, ou pensam, em fazer um referendo para saber o que os cabindas querem. Seja como for, o direito de escolha do povo não prescreve, não pode prescrever, mesmo quando o importante é apenas o petróleo.

O Autor

Orlando Castro nasceu em 1954 em Angola, na então cidade de Nova Lisboa (Huambo). Como jornalista deixou na sua terra natal colaboração dispersa em “Província de Angola”, “O Planalto”, “Olá! Boa Noite” e “Rádio Clube do Huambo”. Em 1975, ainda em Angola, publicou o livro de poemas “Algemas da Minha Traição”.

Em Portugal, onde chegou nos finais de 1975, colaborou com os jornais “Pontual”, “ País”, “Templário”, “Jornal de Ramalde”, “Vida Social”, “Voz do Barreiro”, “RIT-Revista da Indústria Têxtil”, (onde foi chefe de Redacção) e “O Primeiro de Janeiro” (onde foi editor da secção de Economia). Integrou, de 1991 a 2009, a Redacção do “Jornal de Notícias”.
É autor dos seguintes livros:

«Algemas da Minha Traição» (1975), «Açores - Realidades Vulcânicas» (1995), «Ontem, Hoje... e Amanhã?» (1997). «Memórias da Memória» (2001), Prefácio de Arlindo Cunha. «Alto Hama - Crónicas (diz)traídas» (2006), Prefácio de Eugénio Costa Almeida.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Pregador da fome (fim)


Gil Gonçalves
O esfomeado sai nu do ventre da sua mãe, e assim continuará. Assim como veio, assim irá. O único proveito que teve na vida foi observar os seus ossos sem carne. Comeu a fome das trevas, e padeceu muitas enfermidades. Morreu tuberculoso fora do hospital porque eram tantos, tantos tuberculosos que não havia lugar para mais ninguém. Eis uma coisa bela que vi: eles, os petrolíferos a comerem e a beberem sem se cansarem todos os dias da sua vida. Esta é a porção que lhes resta. O petróleo deu-lhes riqueza e fazenda e poder para deles comerem. A nós resta-nos a fome. Porque nunca se lembrarão dos dias da nossa vida.
Um bom rei que se preze abandona o povo à sua sorte.
Há um mal que tenho visto e é frequente entre os escravocratas. Um rei desumano a quem o petróleo deu riquezas, e nada lhe falta. O petróleo não deixa mais ninguém daí comer. E pelo andar das coisas gerará mais cem filhos e viverá muitos anos. E na sepultura para onde vai leva o dinheiro para lhe ser útil na encomendação da sua alma. Mesmo nas trevas para onde vai ninguém jazerá em paz. Não verá mais o sol, mesmo assim nunca eternizaremos. O esfomeado ficará ainda mais nu, não saberá como veio e como irá. As enfermidades desesperam como violentos terramotos. A tuberculose estabeleceu-se, é epidemia. Só haverá alimentação nas trevas. Nem com a morte haverá paz. Uma coisa iguala os novos-ricos e os que passam fome. No dia da morte o coração pára. Vão todos para o mesmo ossário.
Os que conseguem trabalho alimentam as bocas dos novos-ricos, e mesmo assim eles não se contentam. Porque, que mais tem o rico que o pobre? O rico tem o poder de espalhar a fome. O pobre tem o poder de se acorrentar. Até os olhos do rico tem poder. Basta um olhar e tudo se transforma em petróleo. São sempre os mesmos nomeados, e com eles não podemos contender. Sendo certo que têm muitas coisas para aumentarem a maldade. Isto é o que têm de melhor. Só eles sabem o que é bom para nós. Nem merecemos a regalia de descansar nas suas sombras.
As vantagens do sofrimento da fome… uma paciência, sapiência eterna
Melhor é a fama do rico, do que o valor de qualquer pobre. Melhor é a morte do que o nascimento de um esfomeado. Entre a casa de um faminto e a casa do rico onde há luto, melhor é ir a esta, porque sempre se come alguma coisa. Melhor é a riqueza do que a pobreza, assim pensa o famélico. Na casa do rico onde há luto, está lá o coração dos outros ricos. É melhor ouvir a repreensão do rico, porque disso depende o futuro do faminto. O riso do pobre é como o crepitar de espinhos debaixo de uma panela com água… se a conseguir (a água). Melhor é o principio de uma riqueza sem fim, do que um coração com muitos princípios. Nunca deixes o teu espírito irar-se na presença de um rico. É a coisa que mais detestam. O rico diz: estes dias são melhores que os passados. Isto revela muita sabedoria. Qual herança!?. Não deixo nada para ninguém. O rico adora a sombra do dinheiro. Nisto reside a sua sabedoria. Atentem para as suas obras. Quem fará melhor que eles? No dia da prosperidade deles tenta encostar-te. Quando celebram o seu aniversário não faltes, pode ser que sejas notado e quem sabe…
Por mais que tentemos não conseguimos derrotá-los. O feitiço deles é muito forte. Nunca sejas justo nem sábio. Os ricos não gostam disso. Serás destruído, destituído no próximo decreto. Viverás mais tempo, se fingires acreditar em tudo o que eles te dizem. Quem teme os ricos é um grande sábio. Devemos dar graças a Deus por tanta sabedoria revelada naqueles que nos governam. Na verdade são os mais justos que apareceram até hoje sobre a terra. Nunca pecaram. Nunca foram amaldiçoados por um servo. E nunca eles amaldiçoaram quem quer que fosse. Quanto mais sábios se tornam, mais a sabedoria se afasta deles. Estão sempre longe e profundos. Alguém os consegue encontrar? Temos sábios a mais. Daí o desencontro das ideias. Uma coisa mais amarga do que a fome, é fugir de noite e de dia das prostitutas, que nos perseguem como o exército mais bem organizado do mundo. Trinta anos gastos para achar as causas da fome. E quando surgem com novos planos, ficamos assustados, porque a fome vai aumentar. Por mais que a nossa alma busque, encontramos sempre o mesmo caminho. Porque não são derrubados? Porque não nos deixam em paz? Queremos que isto acabe depressa. Mas eles não deixam. Têm muitas invenções.
Devemos obedecer às leis imutáveis da fome.
Quem é como o opressor? Quem o consegue interpretar? A falta de sabedoria faz o seu rosto duro. Devemos obediência eterna aos que nos fazem morrer à fome. Devemos obedecer com muita atenção aos mandamentos do rei. Ele faz tudo o que deseja, o que lhe apetece, e tudo nele é infalibilidade. E que ninguém duvide disso. As represálias serão rápidas, ninguém escapará. Só a palavra dele tem poder. Tem o poder absoluto de enviar todos para o inferno da fome. Quem lhe obedecer não sofrerá nenhum mal. Já chega o mal da fome, que mais falta?!
E perguntei a alguns jovens se queriam trabalhar: perguntaram onde. Respondi-lhes que era no campo. Eles não aceitaram, não querem esse tipo de trabalho. Que querem então? Só eles sabem. Os dominadores têm poder sobre o nosso espírito. Decidem quando devemos morrer. Tem poder sobre o dia da nossa morte. As armas da peleja da fome estão com eles. Temos que nos transformar em águias, voar e invadir-lhes os palácios. Têm todo o tempo para nos dominarem. Não sei como o conseguiram: afinal o tempo também está à venda? Conseguiram comprá-lo!? Depois de nos matarem à fome, nem terra nos dão para a sepultura? Somos enterrados em qualquer lado? Com tanta terra à vista? Também isto é a realidade.
O faminto morre lentamente; sem esperança aguarda que a fome cumpra o juízo final
Como o juízo da fome demora tempo, os governantes aproveitam para estudarem as ciências do mal. E os dias se prolongam cem vezes mais: o reino da maldade total foi finalmente edificado. Já não temem nada. Até as suas sombras nos controlam. Tornaram-se grandes cientistas. As obras dos justos são consideradas más. As obras que eles não fazem, são as boas obras. E inventaram uma boa e bela coisa: comer, beber, e alegrar-se. É essa a ocupação principal dos maldosos. Os outros que se lixem. Roubem como nós. Tentem vá! …nem sabem o que os espera. Maldosos! Não descansam, não dormem por causa do dinheiro. Então vi toda a obra deles, que nós não podemos alcançar. Só eles sabem tudo. Quando abrem a boca, o que já não suportamos, temos que fechar os ouvidos, porque as nossas cabeças estoiram. Porque são fulminantes os raios das suas palavras.
As mesmas coisas da fome só sucedem aos justos. Sonhemos com aquilo que o MPLA nos promete e escutemos a única actividade política da oposição submissa… apenas comunicados.
O meu coração palpita porque não consegue entender: que as obras dos justos e dos sábios não estão nas mãos deles. Trocaram o amor pelo ódio. Vê-se facilmente nas suas faces. Toda a desgraça nos acontece. Ainda continuamos sacrificados em nome da revolução. Este é o mal que ainda resiste. Os esfomeados caçam com as mãos. Porque os cazumbis (almas do outro mundo) precisam de morrer. Apenas têm uma consolação: jamais serão recompensados. Deambulam por aí sem memória. São muito barulhentos quando pesquisam nos caixotes do lixo. Perderam o amor, ganharam o ódio e a inveja. Já não há mais esquina que não lhes pertença. Os que nos governam sonham em dominar o Universo. Vai pois e imagina que bebes e comes o pão que nunca terás. Mas quem se agrada das obras dos esfomeados? Nunca em tempo algum terás roupas ou vestidos. Pois se nem comida tens. Como vou amar a minha mulher todos os dias da minha vida? Se a ocupo a pensar no que comerei hoje? Tudo o que apanhar para comer será feito com todas as minhas forças. Porque na sepultura para onde vou comerei as larvas do meu corpo.
Existem apenas três democracias: Branca, Negra e Petrolífera.
Depois de tanto sofrimento nesta economia popular, ainda vou mais no inferno?
A fome é mais útil aos outros do que àquele que a possui
Aqui, o tempo e a sorte não pertencem a todos. Os sábios não têm direito a pão. De repente ou não, o mau tempo está sempre a cair-nos em cima. Em cima deles nunca cai. As redes malignas deles fizeram com que diminuísse o nosso peixe. Sábios aqui, não têm valor. Só é sábio quem tiver muito dinheiro. Nas províncias não há quase ninguém, fogem para a capital. Houve um polícia que levou um tiro nas costas em defesa da pátria. Há oito anos que está imobilizado. Ninguém se lembra, nem quer saber deste pobre homem. Aqui, a força vale mais que a sabedoria. Os sábios são desprezados, não têm valor. As palavras dos tolos são ruidosamente ouvidas. Com tanto barulho as palavras dos sábios não se escutam. As armas de guerra valem mais do que qualquer sabedoria. E um só atirador destrói e espolia os nossos bens.
A loucura da fome causa muitas desgraças
O lixo é tanto e por todo o lado, que até o perfume Coco Chanel número cinco de 1922 desconsegue ludibriar os maus cheiros. Os tolos têm dois corações: um à esquerda e outro à direita. Aqui, os tolos quando abrem caminho à força, gritam que são sábios. Quando alguém incomoda um governador, fica sem lugar. Cometem-se muitos erros e não há ninguém que os assuma. Os ricos e os tolos assentam-se em lugares altos. Os príncipes andam sempre em carros da cor do petróleo. Que brilham graças aos contratados dos diamantes. Os servos quase não têm por onde andar. Quem abre as covas está muito cansado. Os mortos da fome não tem conta. Alguns governantes já levaram chuva de pedras. Não há excelência na sabedoria para dirigir.
As cobras quando mordem alguém ficam envenenadas. As palavras dos tolos devoram-nos. As palavras quando caiem das suas bocas espera-se o pior. Por mais que as multipliquem o fim é sempre o mesmo. Nunca se cansam de falar. Os príncipes comem de manhã, à tarde, à noite. Estão sempre a comer. Os esfomeados lutam para conseguirem um pão. Eles conseguem refazer as forças depois do cansaço da comida. Quem não tem nada para comer, nunca se cansa. Os tectos das casas estão destruídos, a água goteja, ninguém se sente culpado. Passam a vida a fazerem convites para festas. A bebida é demais. O dinheiro acaba depressa. Vida de esfomeado é assim. Eh! Não conheço ninguém que aqui não amaldiçoe os novos-ricos.
Não se perde nenhuma oportunidade para comermos (!) e bebermos. Daí as festas sem fim.
Não tendo pão para lançar sobre as águas, como o acharemos passados dias? Repartir com sete, ou com oito? Não temos comida. Como vamos repartir o que não temos? Quando um esfomeado cai, para o sul ou para o norte, no lugar em que cair ali ficará. Ninguém quer saber. Só nos resta olhar para o vento, porque não temos nada para semear. Queremos lá saber qual o caminho do vento. O que queremos é comida. Pela manhã não posso colher nada. Já disse que não tenho nada para semear. Atroz é a luz da fome, que provoca cegueira. Como podemos ver a luz do sol? Como viveremos muitos anos com a fome? A fome é alegria? Alegra-te jovem com as tuas bebedeiras, e anda pelos caminhos da destruição, de olhos nublados pela bebida. Não consegues remover o mal que está entranhado na tua carne. Quem o removerá?
A fome da mocidade prepara-a para a velhice e morte precoces
Para nós jovens, todos os dias são maus dias. Tudo escureceu. Quero lá saber dos conselhos. O que é que há aí para beber! Ando sempre bêbado. Ninguém quer saber de mim. Todas as portas que conhecia já se fecharam. Quando me embebedo não temo nada. A rua é a minha casa paterna, eterna. Quem se mete comigo, despedaço garrafas e rasgo, corto quem me chatear. Durmo no pó da rua sem espírito. E quanto mais bebo, mais sábio fico.
O dever da população consiste em dar graças pela fome concedida e guardar os seus mandamentos
Por mais que tente, a bebida não me deixa encontrar palavras agradáveis. As palavras da sábia bebida agarram-se a mim de tal modo, que não consigo retirá-las. Falar de livros são coisas inúteis. Prefiro aqueles que ensinam a beber. Uma coisa há que me incomoda muito: ficar sem bebida. Quer seja boa quer seja má, o que interessa é que me faça perder o juízo. Especialmente o vinho a martelo, eternamente importado. Há coisas que são intemporais e a previsão meteorológica diz que virá muita chuva e ventos ciclónicos, disto todos sabemos. E os nossos desgovernos sabem-no? Fingem… são países só com dirigentes, porque povo há muito que não existe. Uma coisa o esfomeado nunca sabe… o que irá comer amanhã?
upanixade@gmail.com

Piratas informáticos ao serviço da ditadura

No meu blogue UNIVERSAL, baralharam de tal modo as imagens nos murais que a coisa estava demasiado acintosa. Um exemplo: um apelo de uma jovem a necessitar de assistência médica com a imagem de uma pistola.
Tive que apagar tudo antes que me surgissem aborrecimentos.
Coisas do estrebuchar da ditadura.
O ambiente está de cortar à faca.

Gil Gonçalves

Algures em Luanda. Treze dias sem energia eléctrica

Treze dias que justificam a incompetência de um acto injustificável. Um cabo queimado aqui, onde o vento faz a curva. Nem se dignaram informar-nos o que se passava. Tratamento de cães é o que amiúde nos dispensam.
Aviso! Não são permitidas manifestações neste reino!
Não conseguem exilar-se da síndroma de 1975, e o seu desejo constante é carregarem-nos para lá, e nos cilindrarem.
Os cabos eléctricos estão podres, não suportam mais os consumos dos prédios de dez e quinze andares da nomenclatura. E ardem, ardem, devoram-se. Esta potência da incompetência é inimaginável.
A água está nas mesmas condições. Primeiro abastece os reservatórios dos prédios da nomenclatura, e como nunca consegue, nada sobra para nós.
Ah! Pobres criaturas do quinto mundo que não se cansam de brincar aos países.



quinta-feira, 19 de maio de 2011

A pasmaceira do Panguila


Dissemos mesmo antes de se ter dado início à extinção do Roque Santeiro que, pelo andar da carruagem ÉME”, cada vez mais atávica, dentro de breve trecho iria começar em Angola uma caça às bruxas, Depois disso, constatamos que não havia engano nas nossas predições, pois já se constataram, entre outros excessos, algumas sangrentas e/ou violentas investidas dos militantes e simpatizantes extremistas do MPLA contra “inimigos da Pátria” (qual Pátria?), de par com toda uma série de crimes destinados a fruir nas calmas de uma impunidade vergonhosa.
Mas, além dessas tristes demonstrações de intolerância e violência primárias, a verdade é que as pessoas que foram recambiadas do mercado do Roque Santeiro para o Panguila estão a sofrer as consequências de mais uma decisão tomada em função de imperativos de investimentos imobiliários, formulada na urgência das exigências dos investidores, em cima do joelho, e executada a toque de caixa.
A situação dos mercadores que aceitaram partir com as suas biquatas para o mercado do Panguila está piorando de dia para dia, pelo que nos foi informado recentemente. Os comerciantes não têm clientes, porque estes não estão para perder quase duas horas no caminho para lá ir compra batatas e cebola e quanto ao resto é o mesmo: um deserto angustiante perante a necessidade de ganhar algum para pôr uma panela ao lume com comida lá dentro. A marcha dos negócios está a frisar uma bancarrota quase geral. Por exemplo, o negócio de roupa de 20 mil por dia para 3 mil; os roboteiros que faziam mais de 2 mil por dia, agora não fazem nem mil; há mais de 100 bancadas vazias porque muitas delas foram abandonadas; os pavilhões de venda de carne estão vazios porque os vendedores abandonaram os locais que tinham alugado. E isto porquê? Porquê!!?... lá temos nós que “voltar à vaca fria”: a urgência dos investidores, senhor. A urgência da ganância! O Panguila abriu portas a mercadores, mas a estrada da vila do Cacuaco ao Panguila ainda estava péssima. Deviam ter feito primeiro a estrada e só depois abrir o mercado, não fizeram ao contrário. E, repetimos, para ir da cidade ao mercado são mais de duas horas. Vá lá você se tiver tempo.