quarta-feira, 6 de abril de 2011

PRIDE. Petrolífera não responde F8 e calúnia seu Director


Pride mente e calúnia na falta de argumentos contundentes

A empresa petrolífera multimilionária Pride, por vias travessas, enviou uma missiva em jeito de solicitação de observância do que deveria ser um Direito de Resposta a um artigo da nossa edição do 11 de Fevereiro de 2011, mas que por violação flagrante dos n.º 3 e 4 do artigo 65.º (Exercício dos direitos de resposta e de rectificação), não poderemos publicar, com a agravante de ele (Direito de Resposta), vir com uma série de mentiras e calúnias, com as quais não podemos compactuar, senão vejamos o que diz a lei: "3. O direito de resposta e o de rectificação deve ser exercido mediante petição constante de carta protocolada com assinatura reconhecida, dirigida à direcção do periódico ou da entidade emissora, na qual se refira o facto ofensivo, não verídico ou erróneo e se indique o teor da resposta ou da rectificação pretendida.
4. O conteúdo da resposta ou da rectificação deve ser limitado pela relação directa e útil com o artigo ou emissão que a provocou e não pode exceder o número de palavras do texto respondido, nem conter expressões que envolvam responsabilidade criminal ou civil, a qual, neste caso, só é responsável o autor da resposta ou da rectificação".
Por isso, dizemos vias travessas porque não obstante o facto de a referida missiva ter sido enviada a um improvável Folha 8 situado na rua da Palma, Luanda, Angola, endereço desconhecido, ela arribou à rua Conselheiro Júlio de Vilhena nº 19, 5º andar, apart. 19, ao Largo Serpa Pinto, onde está de facto instalada a redacção de um bissemanário com o mesmo nome, o nosso F8. Curioso devaneio de quem escreveu e fez enviar a referida missiva, provavelmente o serviço jurídico da empresa, embora ela tenha sido subscrita, em nome da PRIDE, pelo Sr. Simon Watson.

Arlindo Santana

Por outro lado, também nos admirou que a carta tenha sido enviada à atenção do director de informação, Exmo. Senhor William Tonet, homónimo do nosso director geral, o que, sem ir mais longe, gerou em nós um sentimento de haver por ali, acolá e aqui, algum do desleixo e pouca atenção ao que deve ser escrito no respeito do que é a realidade. É que F8, não tem director de informação. Por aqui se pode aferir alguma falta de seriedade da reclamante.
No seguimento da leitura do longo texto enviado pela PRIDE, de três páginas e meia em folha A4 e letra formato 10, a nossa impressão inicial confirmou-se de um modo incisivo e definitivo, que se pode resumir numa única frase: Mentira e falsidade da petrolífera, quanto aos seus argumentos, quando diz: «(…) as acusações contidas na referida peça jornalística (a nossa) não correspondem à verdade e são prejudiciais e atentatórias ao bom nome e reputação da PRIDE e da sua directora de Recursos Humanos (página 1)».
Com reiteradas variantes, foi seguindo, afirmando: «as acusações contidas neste artigo (do F8) são ostensivamente falsas e contrárias à verdade (página 2); «As insinuações enunciadas na notícia (…) para além de completamente falsas, são insultuosas e difamatórias para a PRIDE e para a sua directora de Serviços de Recursos Humanos (página 2); «a referida peça jornalística garante ainda falsamente que (…)» (página 3); «O artigo acusa ainda infundadamente a Directora de Recursos Humanos (página 3)»…
De notar que a PRIDE reage ao nosso artigo de modo radical, ao aferir que as insinuações enunciadas na notícia são COMPLETAMENTE apócrifas, quer dizer, tudo o que está no artigo é contrário à realidade. Mas não prova nada, logo mente e falseia os dados, pelo que não se tratando de Direito de Resposta, F8, sente-se no direito de não publicar, dando a prerrogativa a PRIDE de levar o caso ao tribunal.
E para corroborar essa asserção a empresa, dizendo ter sido atingida na sua honra e na da sua Directora de Recursos Humanos, anuncia que as insinuações do artigo são tendenciosas. «Pelas razões abaixo indicadas». Assim, para começar a provar o que afirma, a PRIDE considera que o F8 baseou-se «exclusivamente no depoimento do senhor Nelson Koxi – trabalhador da PRIDE». Ora isso é que é falso, pois o F8 tem em sua posse documentos comprovativos irrefutáveis do indecoroso e mesmo CRIMINOSO da PRIDE por intermédio de alguns dos seus funcionários, nomeadamente a Senhora Bárbara Morais, directora dos Recursos Humanos, que em plenas negociações, chamou Nelson, informando-o que a empresa declinava qualquer responsabilidade sobre a situação e que ele poderia queixar-se onde quisesse, inclusivé ao seu advogado, pois a PRIDE tinha costas largas. Foi esta arrogância que levou o trabalhador ao desespero.
No entanto, a PRIDE mostra-se indignada com o facto de que «o senhor Nelson Koxi (que tem um litígio pendente contra a PRIDE) é representado neste litígio pelo Dr. William Tonet, Director do Folha 8». Aferindo um pouco mais adiante «Conjugando a situação acima descrita (o conflito PRIDE/Koxi) com o inerente conflito de interesses do Dr. William Tonet, o qual actua simultaneamente como advogado do Senhor Koxi e Director do Folha 8, parece que este artigo terá por propósito de beneficiar o Dr. William Tonet no seu papel de advogado do Senhor Koxi na sua disputa contra a PRIDE».
Neste ponto da missiva o que se pode questionar é o conflito de William Tonet. Qual conflito de interesses? Se na altura dos factos o director do F8, nem estava no país, para além de diligências terem sido feitas, junto do director administrativo, director geral e estes se recusaram a falar ou a retomar as chamadas, depois de saberem o que queríamos. Portanto, não há conflito nenhum, o que poderia haver é conivência de interesses, caso o jornal ousasse ir ao socorro do advogado. Mas o que a PRIDE parece ignorar é o facto de esse socorro ser uma arma cujo tiro sai quase sempre pela culatra, porque em termos de deontologia e funcionamento interno da justiça, se o jornal se apresentasse de alguma forma como socorro do advogado, grandes seriam os danos causados aos interesses do director do F8. Portanto mais uma calúnia da Pride, agora contra o Director do jornal.
Mas esta empresa esqueceu-se, de reconhecer, tal como os seus advogados ser criminoso o comportamento de ocultação de informação relevante para a saúde de um trabalhador durante seis anos. Estivesse o Ministério dos Petróleo e demais órgãos do Estado atentos a muitos desvarios empresarias e seguramente os responsáveis da PRIDE, seriam julgados e talvez condenados a uma pena de prisão maior por Abuso de Confiança, previsto e punível no Código Penal vigente.
Artigo 453.º - (Abuso de confiança)

"Aquele que desencaminhar ou dissipar, em prejuízo de proprietário, ou possuidor ou detentor, dinheiro ou coisa móvel, ou títulos ou quaisquer escritos, que lhe tenham sido entregues por depósito, locação, mandato, comissão, administração, comodato, ou que haja recebido para um trabalho, ou para uso ou emprego determinado, ou por qualquer outro título, que produza obrigação de restituir ou apresentar a mesma coisa recebida ou um valor equivalente, será condenado às penas de furto.
§ 1.º - A mesma pena será aplicada àquele que, nos termos deste artigo, gravar ou empenhar qualquer dos efeitos nele mencionados, quando com isso prejudique ou possa prejudicar o proprietário, possuidor ou detentor.
§ 2.º - É aplicável às infracções previstas neste artigo e seu § 1.º o disposto no artigo 430.º e no artigo.º e seus parágrafos relativamente ao furto".
E o crime de furto graduado pelos prejuízos causados, tira-nos do art.º 421.º, para o número 4.º do art.º 427.º, que peremptoriamente, sugere uma moldura penal de 12 (doze) a 16 (dezasseis) anos de prisão maior.
Aqui chegados, verificamos que realmente aconteceu é uma descoberta tenebrosa. Descoberta que envolve uma empresa que não teve pejo em atropelar a lei e os direitos humanos num certo número de procedimentos de muito baixo nível, dos quais nós temos prova documental. Ora, sendo o F8 Bissemanário cuja linha editorial assenta precisamente na denúncia de situações de injustiça, prepotência, estupro e corrupção, não podia de modo algum deixar passar sob silêncio os actos dolosos da PRIDE. Portanto, pelo essencial, não retiramos nada do que escrevemos, pelo contrário, reiteramos, salvo uma ou outra imprecisão, as nossas denúncias.
A dada altura do texto aqui em análise, a PRIDE afirma que até 2007 nada se passou de anormal com o queixoso Koxi. Porém, a verdade é que chegados a 2004, as relações entre a empresa e o seu funcionário passaram por uma fase muito delicada este último sente mal-estar na audição, faz análises na clínica Sagrada Esperança, situação a propósito da qual escrevemos no artigo incriminado o seguinte: "A partir de 2003 (Koxi) começou a ter problemas de audição em virtude de o seu trabalho ser sempre realizado em ambientes extremamente ruidosos. Em 2004, a sua doença agravou-se e ele teve de recorrer aos serviços hospitalares da Clínica Sagrada Esperança (CSE), na ilha de Luanda. Esta, enviou um relatório à Pride, especificando que o técnico não poderia continuar a prestar serviço em locais ruidosos por se encontrar num estado clínico de ameaça de surdez grave do lado direito, sugerindo o uso regular de aparelhos auditivos de ampliação de som".

A empresa multinacional recebeu o relatório, tal como foi ulteriormente constatado, manteve-o em segredo entre 2004 e 2010 e o mwangolé Koxi, único angolano a trabalhar nesta categoria de serviço, continuou a trabalhar no duro e no ruído realmente ensurdecedor até 2007, (pudera, ele fora praticamente coagido a receber pelo mesmo trabalho, dez vezes menos do que um técnico estrangeiro!). Este comportamento é um acto ilícito e merecedor de procedimento criminal, de acordo com o art.º 360.º do Código Penal, cuja moldura penal é de prisão maior de dois a oito anos, aos responsáveis pela indecorosa ofensa corporal. No caso deste instituto ela não precisa de ser física, pois o facto de se ter escondido uma lesão para disso se tirar vantagens é por si um acto criminoso e qualquer advogado, que não tiver somente no seu horizonte os petrodólares, sabe da gravidade do caso e da discriminação da petrolífera.
Curiosamente, na musculada invectiva da PRIDE contra o F8, nem uma vírgula foi lançada ao papel para manifestar qualquer repulsa pelo que nós nesta passagem revelamos. Silêncio total, quer dizer, pedaço de folha na sua magnífica e pura brancura. Nada. Porquê? Porque o que escrevemos corresponde à verdade. E temos provas!
Um pouco mais adiante, escrevemos no mesmo artigo:
«Uma empresa Multinacional como a Pride, grandeza máxima no mercado petrolífero, facturando milhares de milhões de dólares, ousa ir à companhia de seguros (ENSA, neste caso) fazer uma falsa declaração dos emolumentos de um dos seus funcionário mesmo para receber em troca umas dezenas de dólares por mês!!!?... Não é possível? É.
Não é credível, de acordo, mas foi o que aconteceu com o Nelson Koxi, que teve a satisfação de ter ouvido, mau grado a sua deficiência auditiva, um pedido de desculpas por parte de representantes da sua empregadora, provavelmente os mesmos que contribuíram para que tão vergonhoso acto fosse perpetrado em nome duma tão prestigiosa organização».

Reacção da PRIDE a esta revelação na sua nota de protesto? Nada, nem sequer ponto de interrogação. Porque, desgraçadamente, é verdade. E temos mais provas.
Quer dizer, em 2007 a PRIDE apareceu em grande, como que a fazer um piedoso favor ao seu mwangolé Nelson Koxi (o que vale vários parágrafos auto-laudativos na sua missiva de protesto enviada ao F8). E é verdade, até pagou a clínica, mas depois descontou a despesa, ou grande parte da mesma, dos emolumentos do mwangolé, que auferia um salário ridículo para a função que exercia, um pouco mais de mil e quinhentos dólares, quando os expatriados ganham cerca de 5 vezes mais, disse Nelson Koxi.
Acreditamos que seja verdade, sim senhor. A maka é que temos em nossa posse uma fotografia antiga, que mostra a existência de dois operadores, nessa altura, numa plataforma de aterragem de helicóptero. Um deles é Koxi e o outro é um homem de raça branca que veste exactamente a mesma indumentária que Koxi, exactamente a mesma, fato-macaco, capacete, óculos de aviador e auscultadores de protecção, que foi apresentado por Koxi à nossa reportagem como sendo o expatriado que ganhava 15 mil dólares. E agora. Será verdade?

Assim ou assado, a negação da empresa petrolífera é peremptória, e para ela o que diz Koxi é mentira: "(…) tal comparação é fabricada para efeitos deste artigo, na medida em que essa comparação não pode ser validamente feita, uma vez que a categoria de Chefe operador de aterragem de helicópteros é apenas exercida por um trabalhador nacional". Mostrem provas! Não conseguem. Logo mentem e tentam denegrir e caluniar o nosso jornal, pois a lei de imprensa, também não diz que o direito de resposta deve ser enviado com cópia ao Conselho de Comunicação Social e o desconhecimento da PRIDE levou-a a isso, para mais uma vez enganar as entidades, quando sabe fazer sofrer muitos trabalhadores autóctones.

Artigo 68.º
(Publicação coerciva do direito de resposta ou de rectificação)

1. No caso do direito de resposta ou de rectificação não ter sido satisfeito ou haver sido infundadamente recusado, pode o interessado, no prazo de 30 dias, recorrer ao Conselho Nacional de Comunicação Social, ou ao tribunal judicial do seu domicílio, para que ordene a publicação, nos termos da legislação aplicável.

2. Requerida a publicação coerciva junto do tribunal é o director do periódico, emissora de radiodifusão ou televisão que não tenha dado satisfação ao direito de resposta ou de rectificação, imediatamente notificado para contestar no prazo de dois dias, após o que será proferida em igual prazo a decisão, da qual há recurso com efeito suspensivo.
3. Apenas é admitida prova documental, sendo todos os documentos juntos com o requerimento inicial e com a contestação.
(...)
Avancemos.
Indignação da PRIDE! Assim: nós não somos racistas, nós não somos sectários, nós não discriminamos, nós protegemos o mwangolé… Igualdade de salários é a nossa divisa. Balelas! Os arautos da PRIDE querem convencer quem? Assim!? Isso é proteger!!? Brincadeira!
A PRIDE, como qualquer petrolífera operando em Angola, ou onde quer que seja no mundo, é um predador, que pauta pela máxima eficácia. Koxi, para a PRIDE, é um quase nada. E essa de ser apologista da igualdade de salários….a PRIDE, defensora do princípio de igualdade de salários entre nacionais e expatriados!? Brincadeira sem graça. Porque então não mostra um documento, para se aferir o salário de um expatriado e de um angolano, ou vamos mais perto, quanto ganha a directora dos Recursos Humanos e o director administrativo e a diferença salarial entre Barbara e o seu adjunto, para se começar a falar a mesma língua.
Ademais a PRIDE, violou também o art.º 60.º da Constituição, no caso do autóctone Nelson Koxi. "Ninguém pode ser submetido a tortura, a trabalhos forçados, nem a tratamento ou penas cruéis, desumanas ou degradantes" e agora quer fazer o papel de santinho, por segundo disse uma fonte ao F8, ter cumplicidades nos ministério dos Petróleo e do Trabalho, por distribuírem alguns pacotes por debaixo da mesa.
Porque a PRIDE sabe e todos nós sabemos ou temos a obrigação de saber que até é justo pagar mais ao expatriado do que ao nacional. Por razões óbvias, pois o técnico estrangeiro deixa a pátria, a família e é submetido a pressões inelutáveis, inclusive psicológicas. É justo que ganhe mais do que o angolano. Um pouco mais. Mas o que acontece é que no nosso país essas diferenças de salário são abismais.
Neste caso temos muitas provas, pois essas foram repetidamente as indicações de, que de resto colam perfeitamente com todos os testemunhos que temos recolhido sobre esse assunto. É um escândalo generalizado e estamos em crer que a PRIDE não foge à regra. Depois do que ela fez com o atestado médico de 2004 da clínica Sagrada Esperança, tudo é possível. Seja como for, o F8 aceita o repto, levem-nos a tribunal para ver quem tem razão.

terça-feira, 5 de abril de 2011

A RUA DO SOL NASCENTE


Gil Gonçalves
Estou abrasado nas catorze horas da tarde no vulcão solar da terra. É que o ar não está quente, está ardente, como se o inferno adquirisse morada, e daqui não mais desejasse sair. Embrenho-me na rua dos cidadãos sem pátria, onde qualquer automóvel depois de a atravessar deixa uma nuvem de pó vermelho da cor da miséria. A azáfama é a habitual, digna da actividade marginal. Os bebés viajam nas costas das mães, enquanto elas se esforçam na paciência e sorte de alguém, a maioria utiliza o feitiço, que lhes compre algo da escravidão da sua sobrevivência.
A ronda dos ditadores faz-se omnipresente com exército, guarda presidencial, forças de segurança especiais, polícia antiterror, polícia secreta, e outras tantas forças apenas para desabarem sobre as populações, se elas ousarem manifestar o seu descontentamento. Vida de ditadura é repressão permanente de canhão.
As desgraçadas estão no olho da rua porque lhes espoliaram as lavras, as terras, destruíram-lhes as casas, a que jocosamente os novos-ricos lhes chamam de casebres. Antes, onde faziam o seu negócio da venda, apareceram uns espertalhões das desordens superiores que lhes chamaram de burras, porque não sabiam que tudo é pertença do Estado. E com o cuidado de prevenirem que afinal também são donos das pessoas. Tanta conversa suja para logo em seguida anunciarem nos meios de difusão massiva integralmente partidarizados que a miséria das populações vai acabar, porque mais um shoping center se vai edificar pago com dinheiros ilícitos. Aliás, tudo se compõe de ilicitude. Mas não é por demais evidente que casa de espoliado é casebre? Os maridos, e demais idiotas que acreditaram na tal luta de libertação deles, esperam pela mesada em vão. Só a tudo têm direito quem é eleito do partido sem coração da família sem restrição.
Os reconhecimentos policiais são constantes, esvoaçantes, verdejantes como as moscas de bojos possantes. Os cumpridores da lei ficam contentíssimos quando lhes ordenam executá-la nas zungueiras e similares, que é o que existe demais. E atiram-se desumanamente sobre as infelizes que nasceram por muito azar num Golfo da Guiné onde o petróleo transpira por todos os poros novos-ricos. Aqui já não existe terra, nação, pátria, população, mas apenas o martírio diário dos barris de petróleo. Mas os polícias não vão policiar as empresas e os empresários da corrupção, não. Apenas policiam a estrema pobreza da expiação. E carregam à Khadaffi sobre as miseráveis que totalmente indefesas, injustiçadas, até queimadas como feiticeiras. E os barris de petróleo sucedem-se, enquanto nos palácios da ditadura se festeja mais um acontecimento importante: o preço do petróleo sobe, sobe… dá e sobra para pagar a mercenários.
Frequentemente como se acompanhadas ou protegidas de nuvens de pó, novo sistema de alta tecnologia de segurança importado (?) desfilam desabridas escoltas de dirigentes fingindo que resolvem os problemas do povo, quando na verdade, resolvem os seus interesses pessoais e os das suas famílias. Porque ainda existe a teimosia que governar é colocar toda a família no poder, para que se mantenham os negócios, os palácios, e a miséria das populações seja sempre abrangente. O povo é um jardim zoológico, com a diferença de que no zoo é habitual darem comida aos animais, neste zoo humano não. Cada um que assalte o seu pão de cada dia.
A actividade da especulação imobiliária progride como coelhos que se multiplicam extraordinariamente: o único trabalho é alimentá-los e nascem, reproduzem-me epidémicos como os mosquitos do paludismo. De tal modo que dentro de pouco tempo não existirá nenhum local livre, porque tudo se destruiu com novos... estruturantes.
E dos muitos carros luxuosos pagos astronomicamente com as contas da contabilidade que não existe, Angola não tem contabilidade organizada. Os Técnicos de Contas trabalham na ilegalidade, ao sabor da invenção de documentos das entidades patronais, e se não se acomodarem correm o risco do despedimento coercivo, e se ousarem abrir as bocas pende-lhes o assassinato. Pudera, a perda da vida humana está tão vulgarizada. Perante isto, não é possível falar de empresas e empresários. «Perguntem ao vento que passa».
Descem dos seus afamados coches triunfais, carregados de luxo petrolífero, novas-ricas na anedótica tentativa de imitação de figuras famosas da música e do cinema, com orgíacas e reluzentes pulseiras de diamantes pagas a cento e cinquenta mil dólares. Enquanto na Rua do Sol Nascente morre-se facilmente, porque não se tem dinheiro para comprar coartem para curar a malária.
O nosso futuro é inevitavelmente revolucionário.
Assim não, porque a revolução é inevitável. Pode-se colmatar por agora, mas ela acontecerá, infelizmente parece com extrema violência porque ninguém está interessado em travá-la. Os milhões, biliões de dólares do petróleo são muito mais importantes que qualquer ser humano, cidadão angolano perdido na Rua do Sol Nascente.
As manas Lwena e Maria abancaram-se à toa. A Lwena vende cigarros, mau uísque, desse para consumo dos seguranças, bolachas, mais algumas coisas e gasosas. A Maria é kinguila, vende e compra moeda estrangeira, só dólares e euros. E claro, já estão aprontadas para lerem o jornal do dia. Maria activa-se, remexe-se, e inicia o seu folhetim jornalístico:
- Olha, agora andam na guerra das bandeiras.
- Como assim?!
- Vou-te já contar: a vida decorre normalmente. Nas ruas jovens vendedores e zungueiras fogem depois das espoliações e surras da polícia. Os geradores, ninguém confia na ditadura da electricidade, lançam fumo tóxico mortal, o único país do mundo onde isto é normal, e a barulheira intencional para encher o saco do vizinho. Tudo o que é ilegal valoriza-se. Parece que ninguém tem noção do que é lei. Os novos-ricos então, ainda sob a protecção da ditadura, mas já com o peso da síndroma Tunísia, não querem saber se os vizinhos estão a morrer ou não, com as suas tropelias de quase quarenta anos legalizadas. E teimosamente dizem que é uma antiga ditadura democrática, logo, quem não é da ditadura, é contra ela. Nada mais fácil do que isso. A bandidagem já incontrolável, pois são mais que as mães, e apesar de Angola estar infestada de petróleo por todo o lado, e isto justifica a deportação dos sem futuro para os rincões, pois o petróleo é incompatível com o povo. Este, ao pé do perfume petrolífero, apresenta um valor exíguo. E onde há petróleo, há dinheiro, e o resto não interessa.
Os corruptos continuam com a justificação, de que não senhor, o dinheiro que ganham, é com muito suor esforço e lágrimas. Claro que isto não convence ninguém, e eles parecem fingir que pela banda está tudo numa boa. Os políticos sempre com as mesmas políticas de quarentena já quarentona, quando abrem as bocas, é de fugir, tipo, salve-se quem puder. Nada mais insuportável, do que ouvir sempre os mesmos com o mesmo dicionário.
Entretanto, a banda atingiu tal desenvolvimento tecnológico, que até para cortar uma chapa de zinco, ou serrar um vulgar tubo de ferro, é necessário um chinês ou um português. E o tuga recorda-nos muito cioso os regulamentos dos tempos coloniais. E afirma sem pejo: «Na minha empresa, negro não pensa, executa.» Provando com isto que a banda ainda não é independente, e que o sem futuro ainda não se libertou da escravatura.
Os problemas do povo subsistem na intolerância política, como se a banda fosse uma prisão cercada de grades de Kabinda ao Kunene. Aí, não sei em que bairro, apesar da proclamação da independência e de uma nova Constituição, a intolerância política revive os bons velhos tempos da intransigência revolucionária. É necessário alimentar o facho e o forno da revolução, e quem nela não se enquadrar, a pena de morte é de se esperar.
Um professor vulgar militante de um partido político da oposição sobrevivente, tem o direito de hastear a bandeira do seu partido no bairro do seu coração, não é?! E assim o fez, mas há sempre alguém que espia, que diz sempre sim. A polícia política é como a Igreja, só acredita num Deus. E claro, prenderam o professor militante. E ele pergunta aos novos mentores do campo de concentração da banda, aqui dignamente representados por um chefe da polícia: «Mas afinal, estou preso, porquê?». «Prontos! Já te estás a fazer de parvo. Então não sabes porque é que foste preso?». «Absolutamente que não!». «Estás preso… porque és de um partido da oposição ilegal!». «Ah! Essa está muito boa, então como é, a banda é só para vocês?» «Evidentemente, aqui não há lugar para mais ninguém. Vais ser julgado e condenado sumariamente.» «Então serei julgado por ser militante de outro partido político?!». «Correcto e afirmativo!».
E veio em socorro do professor o secretário-geral do partido da oposição ilegal. Entra em cena e afirma peremptório: «Farei uma greve de fome em defesa desse homem. Esse professor é-me mais valioso que todos os vossos poços de petróleo». «Ai é?! Que bom, faz lá a tua greve de fome. Junta-te aos nossos exércitos de esfomeados... e esperamos que morras, será menos um que chateia. Até porque temos instruções para acabar com todos vocês, pois parece que não, mas ainda são muito perigosos, e estão implantados em todos os recantos... como uma epidemia cancerosa. Ah! Já sei o que queres… almejas ser lembrado como o mártir da liberdade, não é?! A tua morte será certa, como a nossa vitória». «Ao que chegámos, até os vossos sobas prendem gente?!». «Claro, ó Mártir! Temos orientações superiores para prendermos quem quisermos. A banda é nossa, porra!!!». «Absolutamente, e quando a síndroma Tunísia lhes bater às portas, vão fazer mais como então?!». «Essas coisas aqui nunca chegam. Temos órgãos devidamente estabilizados, quero dizer, estalinizados, policiais e de defesa suficientes, postados por todos os lados como parasitas, não sei se estás a ver. Os olhos e ouvidos da nossa revolução que é imparável. O nosso poder é eterno e abençoado pelas potências internacionais e pela nossa Santa Igreja. O petróleo dita as regras do jogo».
O Mártir preferiu o silêncio. Meditou, que o fim de qualquer ditadura é sempre igual. Como se os problemas de um país se resolvessem na continua prisão e repressão. Quanto mais o poder diariamente e arbitrariamente infligir ferocidade sobre o seu melhor bem que é a população, o dia fatal chegará. E tudo e todos se erguerão, e a ditadura varrerão. E o Mártir confesso da democracia, preparou-se física e mentalmente para enfrentar os caminhos da greve de fome. Os caminhos da vitória gloriosa, da libertação, contra a opressão. Assim falou o Mártir da democracia.
upanixade@gmail.com

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A Paz inventada?


[4 de Abril, dia da Paz]: Policia tenta impedir jovens de se manifestarem a favor da paz social no largo do Primeiro de Maio em Luanda. Neste momento (15:57 horas de Angola/Luanda) estão concentradas no largo da independencia cerca de 100 pessoas. Cada vez aparece mais gente e a mobilizaçao continua pelos telemoveis. Uma reporter a jornalista Lacerda da Costa da Radio Despertar, já está no local.
In Felizarda Mayomona

TODOS AO LARGO DA INDEPENDENCIA COMEMORAR A PAZ DE FORMA ESPONTANEA "UM GRUPO 30 ANGOLANOS ESTÁ NO LARGO DA INDEPENDENCIA PARA COMEMORAR A PAZ. AS PESSOAS ESTÃO LIGADAS A MANIFESTAÇÃO DO 2 DE ABRIL. A POLICIA ESTÁ A IMPEDIR QUE OUTROS GRUPOS SE APROXIMEM E DEU 30 MINUTOS PARA AS PESSOAS SAIREM DO LOCAL. DEVIDO A INSISTENCIA DOS MANIFESTANTES A POLICIA DIZ QUE PODEM FICAR, MAS SEM SE MEXEREM. UM CHEFE DA POLICIA AMEAÇOU UMA MANIFESTANTE, SRA ELSA, DIZENDO QUE A PODERIA ARRASTAR SE ELA VOLTASSE A MANIFESTAR-SE. HÁ JA VARIOS CARTAZES NO LOCAL E A MOBILIZAÇÃO POR TELEFONE JÁ COMEÇOU. É IMPERIOSO QUE A NOTICIA CORRA ANTES QUE SE MANCHE A PAZ COM ALGUMA VIOLÈNCIA POLICIAL. ELSA QUE ESTEVE PRESA NO DIA 7 PODE SER CONTACTADA PELO NR 932178174. PAULO ARAUJO ESTÁ NO LOCAL COM O NR. 924056095. FERNANDO MACEDO PODE DAR PARECER JURIDICO SOBRE A MANIFESTAÇÃO ESPONTÀNEA PREVISTA NA CONSTITUIÇÃO E LEI, TELEF 931786551 APOIEMOS A PAZ SOCIAL, AQUELA QUE É A PAZ DA JUSTIÇA SOCIAL, DO AMOR E DO DESENVOLVIMENTO PARA TODOS."

ACABEI DE FALAR C/A ELSA E CONFIRMOU-ME EXACTAMENTE O K DISSE O DR. FILOMENO. UM TAL SUPER INTENDENTE K DIZ CHAMAR-SE ALEXANDRE DO NASCIMENTO AMEAÇOU SEVERAMENTE A ELSA: SENHORA, NÃO SE MEXE E NÃO EXIBE CARTAZ NENHUM. SE TE MEXERES VOU TE TORTURAR, VOU TE MASSACRAR. ENTRETANTO, AS PESSOAS VÃO CHEGANDO "RELUTANTES" AO LARGO DA INDEPENDENCIA(JÁ K A POLÍCIA PROIBIU INCLUSIVE A PERMANENCIA NO REFERIDO LARGO) PARA CELEBRAR A SUA MANEIRA O DIA DA PAZ. TODOS AO LARGO DA INDEPENDENCIA PARA JUNTOS CELEBRARMOS A PAZ À MODA DE UMA ANGOLA NOVA, SEM ALGEMAS, SEM TABUS, SEM MEDO E SEM BAJULAÇÕES.

In BD-Bloco Democrático

domingo, 3 de abril de 2011

O NACIONAL-SOCIALISMO ANGOLANO


Gil Gonçalves
Tudo é do ESTADO do nosso Eterno Endeusado
E o TPI, Tribunal Penal Internacional
e a outra comunidade dos direitos humanos
perdidos, esquecidos, omitidos
aprovam o nosso extermínio
sob o tal olhar do silêncio petrolífero e diamantífero
Tempos muito negros, escuros
de olhos terrivelmente molhados
cegos dos jorros dos campos
das piscinas inundadas de petróleo
cercam-nos
Independência na terra espoliada
do roubo e da corrupção
da célebre quadrilha organizada
que tem tudo e não nos deixa nada
E o rei e o seu séquito luxuosamente escondidos
protegidos no arsenal inseguro
há muito afastados da população
temerosos dos próximos dias que virão
do vulcão
Nos cemitérios nem os mortos deixam repousar
em cima das suas ossadas edificam tumbas de betão
para novos-ricos habitar
«Somos um país pobre e a luta ainda não terminou. A nossa luta ainda não chegou ao fim. Ainda temos que continuar a lutar. Ainda estamos a batalhar para criar essa riqueza, e só depois disso é que podemos falar de pensões condignas» Armando Guebuza, Presidente de Moçambique na celebração dos 46 anos das Forças Armadas, 25 de Setembro, referindo-se à questão do pagamento das pensões dos antigos combatentes.
Não sei como será mais este dia insuportável, tão miserável
Mulher angolana!
A liberdade recorda a beleza da tua paisagem
aguarda ansiosa que regresses, a despertes
libertes
Nesta miséria extrema de Luanda sem redenção, pelas horas vinte e uma. A mamã espoliada vende pão para tentar libertar-se da fome. É a única libertação que lhe resta, porque da outra os libertadores libertaram-na dos poços petrolíferos, das minas diamantíferas e dos dinheiros bancários. Mas como dinheiro atrai dinheiro e também a miséria atrai miséria, os destacados do poder petrolífero rondam na caça incessante de presas indefesas. Fiscais do GPL retornam às suas casas exaustos depois de mais um dia de pilhagens. Alguém deles se lembrou que as suas casas não têm pão. Pararam a viatura, saltaram lestos e espoliaram o pão da miserável mamã. Mas que infernal Politburo este, que não tem dó nem piedade de ninguém. Transformou-se, camuflou-se, de libertador passou a espoliador. Que Deus Nosso Senhor nos liberte de quem se escapuliu do Inferno. Mais um movimento de libertação a saquear a população.
Esta independência persegue-nos, aterroriza-nos, e nós fugimos dela, não a queremos mais. Temos que lutar por outra, abaixo esta. Os coveiros devem estar muito exaustos a abrirem nunca bastas covas. São tão demasiados os mortos que até convém mudar o nome para: Necrópole de Angola.
Que terríveis inventos nos contemplam: as ambulâncias que seguem com doentes gravemente feridos e algumas de sirenes tão estridentes vão abrindo caminho e deixando atrás delas outras vítimas, pois o som é tão sirénico, tão sobrenatural que mata. É curioso que ainda nenhuma entidade do nosso Ministério da Saúde, ou médico levantou esta questão, acho que é sobremaneira intrigante.
Se as obras clandestinas do Ordens Superiores persistem, é porque nos curvamos perante um governo clandestino. E sob o olhar impiedoso de Lenine, afundamos o nosso partido de retaguarda.
Diferente dos outros dias não será
mas vê-se que nada nos trará
piorará
E sob a capa de movimento de libertação
perpetua-se a colonização
Estamos no limite da corda, do acordar
já não dá mais para esticar
Inexoravelmente ela fracassará
partir-se-á e o lado do opressor
cederá, perecerá
E a UNITA, o nosso cavaleiro andante, muito solícita, em parceria com Bento VXI emitirá mais um comunicado. Antes esgotar-se-á em intermináveis discussões sobre o desandar, o despenhar do país. E altruisticamente resignados não convencerão, mas talvez dirão, porque não?! Se antes lutámos contra o outro colonialismo, porque é que agora não lutamos contra este? E nos tombaremos em inenarráveis alambiques novelísticos. O nosso destino alienado merece-o. E os estrangeiros contentíssimos por finalmente nos verem parqueados no jardim zoológico que subsidiaram, investiram… e a tenaz da mãe igreja a pregar: hoje assim não dá. E que no outro dia, sim, já dá.
Mais casebres desmontados
e terrenos espoliados
o habitual
E a invasão chinesa incontrolada
normal
Nos caixotes do lixo, shopping center da pobreza
é notório o PIB e o seu desenvolvimento
a miséria é negra, afogou-se no abismo petrolífero
Mas quando é que acaba isso de bater no ferro quente?! Angola é um Estado de direito imobiliário e ainda será um grandioso império imobiliário. E contudo ela, Angola, privatiza-se. Angola é a tábua de salvação, e também será a droga da desgraça de muitos aventureiros que a desejam recolonizar. E nesse enlace, abomináveis, é o que são alguns actores estrangeiros que discursam em Luanda, como se fossem governantes angolanos. Falam em nome do povo angolano sem serem por ele eleitos. Não restam mais dúvidas que estamos perante uma democracia imobiliária. Isto faz com que os circuitos desta alta voltagem vibrem, se descontrolem. O nosso imortal Politburo corta-nos a energia eléctrica. Na água continuamos excluídos das condutas, na mesma, isto é, cada vez piores. O que era o precioso líquido está agora noutra horrorosa luta de libertação muito seca. Diariamente sacrificamo-nos para conseguirmos água num país que tem, como eles dizem, os maiores índices mundiais de desenvolvimento económico e social.
A nossa GESTAPO lista o assassinato
de mais um jornalista
e outro opositor político
que o nosso Pravda manterá no eterno anonimato
As mamãs prosseguem no fardo
perseguidas pela independência
da miséria gatunada pelas nossas SS
e até abatidas sem misericórdia
Ninguém tem direitos
Este é o nosso Estado da independência total dos comungados casos de corrupção e especulação imobiliária. O nosso querido Politburo segurado nos quase cinquenta anos de poder, assegura-nos que lá para 2013, 2020… tudo estará serenado. As bazófias do iletrado costume. Com água, energia eléctrica, empregos para todos, garantida a segurança alimentar… até com excesso de produção para exportar ou para deitar para o lixo? Não sabemos, e duvido que alguém saiba. Enfim, que será o fim da miséria. E em mais um acto talvez pródigo de demência, não é a melhor altura porque a miséria policia-se nos campos de palavras semeados, mas lá, longe dos gabinetes nunca agricultados, pois, o célebre mercado Roque Santeiro com a sua extinção criará mais milhares de deslocados, ao ar livre armazenados. Olhem, não vêem mais milhares de deportados a caminho de Auschvitz?! Nesta quotidiana miséria de Angola, os especuladores imobiliários festejam-na porque criaram mais milhares de esfomeados. Mais brutal desestabilização social soma-se.
Mas que poder este que tudo amealha
tudo quer e nem aos esfomeados migalha
Este é o reino do rei da nossa miséria
É este o viver e morrer no Tarrafal do terror de Luanda

upanixade@gmail.com
















sexta-feira, 1 de abril de 2011

MENINA SEQUESTRADA HÁ 1 DIA


Todos nós temos filhos, sobrinhos, primos, netinhos até. Por isso não desviem o olhar desta mensagem. Hoje por aqueles e amanhã por um de nós.
PASSEM ESTA MENSAGEM PARA TODAS AS PESSOAS QUE CONHEÇAM.
MENINA SEQUESTRADA HÁ 1 DIA - PASSAR RÁPIDO
¡¡¡¡Es importante, pasalo rápido!!!! NO TE LO QUEDES, POR FAVOR

No te lo quedes, POR FAVOR, pásalo A TODOS TUS CONTACTOS. Alerta por el secuestro ayer de esta niña de 3 años y medio , Elise, en Tamaimo, Sur de Tenerife. Sus secuestradores, dos hombres y una mujer, viajan en un Seat Panda TF-7633-V (color beige o marrón). En previsión de que puedan pasar a la península con ella, haz circular este este mensaje con la foto. Gracias.. . Gonçalo Mesquita. Zelar - Serviços de Administração e Gestão de Condomínios. Rua Serpa Pinto, Bloco da Juventude, Loja R/C Esquerdo 8150-164 São Brás de Alportel. Telefone/Fax: +351 289 843 991 Telemóveis: +351 966 955 864 +351 910 631 932 E-mail : zelarcondominios@gmail.com


O HOMEM REVOLTADO


Parafraseando Albert Camus: não dispararias tanto sobre as multidões se delas soubesses extrair o máximo.
Nas outras revoluções utilizavam-se pombos-correios, sinais de fumo, o tam-tam, e as revoluções aconteceram. Num futuro não muito distante, quando o pensamento for o meio de comunicação, as revoluções nascerão à velocidade da luz. Vêem-se nos rostos das multidões a avidez da retirada da máscara da democracia e da libertação que nunca aconteceram.

Gil Gonçalves

Nada se moveu, apenas a avassaladora escravatura de alguns que lhe chamam a vida nova alicerçada nos comités de defesa da revolução. Finalmente os povos seguem a sua marcha gloriosa e o poder espera-os. E tudo se renova num jasmim amadurecido e noutro que desponta e nos perfuma a vida. Não é possível nos tempos de hoje viver lado a lado com ditadores. As suas mentes são como desertos muito ressequidos, a estalarem, a rebentarem, a abismarem.
Finalmente nos libertaremos das conceituadas duas democracias: uma Ocidental, e a outra? Vejamos a opinião de Mário Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura: «A lentidão (para não dizer cobardia) com que os países ocidentais – especialmente os da Europa reagiram, vacilando primeiro face ao que estava a acontecer e, logo a seguir, com declarações vazias de boas intenções a favor de uma solução negociada, em vez de apoiar os rebeldes, terá de ter causado uma terrível decepção aos milhões de manifestantes que saíram às ruas em países árabes, pedindo "liberdade" e"democracia" e descobrirem que os países livres olhavam-nos com desconfiança e por vezes pânico. E comprovar, entre outras coisas, que os partidos políticos de Mubarak e Ben Ali eram membros activos da Internacional Socialista!»
Porque o senhor dos anéis da ditadura de quem se manifestar vai apanhar, nos deixará ouvir o despertar dos pardais, por quanto tempo mais? Os regimes repressivos esquecem-se de uma coisa muito simples: quanta mais repressão e terror, mais resistência criam, e originam o estado latente de revolta na população. Até que chega o ponto ómega limite. Não é assim que sempre sucede? E a conversa é sempre a mesma: de que somos os garantes da estabilidade, e a ameaça revolucionária de que «Há que se ter cuidado para ninguém confundir as coisas». Que somos um país com um governo democraticamente eleito com quase cem por cento de votos dos eleitores nas urnas, etc., etc. O Egipto era muito poderoso, e o seu ditador não imaginava tal coisa, e aconteceu, sempre acontece. Neste campo de concentração, qualquer chefe de campo é garantia de estabilidade, numa revolução sempre em marcha de quase cinquenta anos, que os chefes não sabem como vai acabar, mas nós, os sem futuro, sem terra, sem casa, sem petróleo, sem diamantes, enfim, os desta cabana do Pai Tomaz sabemos. Mais, os prisioneiros neste arame farpado, sabem-no muito bem. Nas câmaras dos palácios ouvem-se com deleite as notícias palacianas. Nos miseráveis guetos, escutam-se os noticiários especiais das ruas, dos esgotos na companhia inseparável dos ratos. E este é um palácio com milhões de deserdados, esfomeados, sempre em prontidão combativa. São eles que depois dominam as ruas da miséria, e fazem o poder soçobrar. Os países não dependem de pessoas, dependem isso sim, da justiça das suas leis. Se a justiça funciona, tudo bem. Se em contrário, as pessoas que governam, os corruptos, o fazem falsamente para enriquecerem, e como tal, mais dia menos dia, vergonhosamente cairão. Atente-se no alerta do «Canalmoz canal de Moçambique. «É preciso que se entenda e se compreenda em todas as suas consequências que governar não é exactamente o mesmo que ser comissário político ou especialista em retórica e demagogia. Impõe-se repensar profundamente o que significa governar um país. O compadrio e a auto-protecção vigente entre os regimes da África Austral não vai ser suficiente para travar os ventos da mudança. Os cidadãos estão manifestamente esgotados e já não aguentam mais tanta sujeira governativa».
O desejo que não se sente, permanece insensível. Os nossos sentidos, perseguidos pelas vendas do sistema inconsciente, cumprem, compram de acordo com as instruções programadas da ditadura. Há muito que deixámos de ser quem somos, seguimos numa estrada ao ritmo do consumo da imposição que os nossos sentidos só distinguem, uma direcção: o rumo do conhecido, porque do desconhecido nada sabemos, porque não nos deixam. Receiam que o lado misterioso da vida surja e nos revele a verdade. Aqueles em quem votámos conduzem o nosso destino para o grandioso Vale da Morte e da Miséria. E ainda acham que são iluminados, garantes do nosso quotidiano e do nosso futuro. E continuamos neste marasmo porque nos cercearam os segredos das pirâmides. E já não sabemos construí-las. Cada vez mais nos limitam, nos roubam o tempo, até que fiquemos irremediavelmente sem ele. E depois, que faremos? É possível viver sem tempo?
A mãe acariciava a cabecinha da sua tenra filhinha, mas não conseguia que ela parasse com o choro. Não, não tinha fome, também não estava doente, estava sã, bonita como a sua progenitora. Mas, porque não parava ela então de chorar? Já se tinham vasculhado e debruçado muitos médicos com as suas medicinas, mas nada. Até que desencantaram um médico místico, desses que alcunham de malucos, mas maluco hoje em dia é quem sabe das coisas, e ele, num ápice curou-a. A doença? Era mais uma vítima da epidemia desta civilização ditatorial.
Descansar, navegar, andar, e sonhar o amor, como num rosto feminino de donzela a jardinar no perfume jasmináceo. Com amor nasce uma mulher e um jasmim. E os seus perfumes enaltecem-nos, porque com amor a nossa mãe nos gerou. E com amor serás sempre mãe, e nunca te lamentarás. Com amor serás universalizada, imortalizada, e pelos jasmins libertada.
Hércules é a força, os partidos políticos são a farsa, a nossa forca. A nossa fraqueza reside na actual classe política da democracia bancária e petrolífera.
Sais de casa, entras na rua e nela te perdes. E no entanto caminhas por instinto, como todos fazem automaticamente. E nessa ruidosa agitação não consegues pensar, essa função primordial, fundamental das nossas aspirações ultrajadas. Movemo-nos sempre nas ondas revoltas do mar multitudinário, sem tempo para amar, sem tempo para sonhar. Apenas para lamentar o passado, na esperança que finalmente inventem a máquina do tempo, e nela viajemos no infinito do amor e do sonho. Está muito difícil reencontrar o amor, porque o diabolismo espreita-nos, espera-nos nos penhascos dos palácios. E te augura: sem amor nunca serás minha, nem de ninguém, nem de ti.
Há muito que o dinheiro do petróleo destrói Angola e os angolanos. Há muito que sabemos que errar é humano, mas errar com o dinheiro da ditadura do petróleo é muito desumano. E nos seus discursos, os nossos bajuladores-peritos das relações internacionais lembram-nos o Estado Novo dos antigos ministros das colónias. Como as obras da ditadura chinesa que não duram muito tempo, os materiais são de má qualidade. E aprestam-se aqui como novos colonizadores autorizados por quem de direito. Chegam nas mulheres que vendem cigarros e ameaçadoramente exigem-lhes dez kuwanzas por um maço de cigarros que custa cem ou duzentos kwanzas. Agem com total desprezo pelas cercanias das suas obras em construção. No afã de despacharem o trabalho, atiram, desviam a saída das águas para a vizinhança. Facilmente se adivinham os prejuízos materiais e mortais das chuvadas.
O que faremos de uma igreja ainda de concepção medieval? E enquanto nos palácios os ditadores festejam, nas ruas as populações abandonadas na miséria revoltam-se. Há tempo para o Senhor amar, e tempo para as ditaduras derrubar. Viver numa ditadura, é como caminhar numa noite terrivelmente nebulosa. Todos os caminhos esburacados, abandonados, onde a miséria impera, conduzem-nos à abominável tirania da ditadura, ao nosso futuro asfixiado. Viver sob a ameaça constante de qualquer ditadura, os nossos pés tropeçam nos cadáveres assassinados dos opositores políticos, ou apenas dos de delito de opinião. A independência ainda não chegou, apenas mais se escravizou. Quando uma ditadura que se diz democrática, e se reforça no socialismo cientifico, promove a proibição de manifestações pacificas, e envia todo o seu aparato policial e militar repressivo para as ruas, significa que está em pânico, e o seu fim, como é óbvio, está com os discursos contados. E o notório das ditaduras é o apoio que as democracias lhes dão. E então, quando naquelas ditaduras especiais do petróleo, onde se implantam democracias fantasmas. Ó ditaduras e reinos! Da maneira que as coisas estão, pela banda não é muito difícil perceber o que em seguida vai suceder.
Os ventos da nossa alma: e por entre tempestades se movem ainda os nossos anseios subjugados, milenarmente destroçados. E no poder insistem bárbaros ditadores que nos fecham nas masmorras odientas em nome do amor. Mas os ventos sopram os ditadores para o seu local de origem: o Inferno. Que estranho, até as flores se regozijam na sua beleza liberta. O Sol libertou a sua luz e os insectos renovaram o seu trabalho de adoração floral. A Natureza comovida abraçou-os e reiniciaram a dança do dia-a-dia. E todos se extasiaram, festejaram. Rápido, o fim do dia aproximava-se, o Sol escondia-se. E já todos cansados, regressaram aos seus locais de descanso. A seguir outro dia virá, e outra vez se festejará.
Sim, a festa do terror que nunca falta em Luanda: Polícia antiterror ao ataque. No dia 21 de Janeiro, cerca das dez horas da manhã, nas imediações do Zé Pirão: Sem garantias de empregos, sem direito a um kwanza do petróleo, apenas o direito à mais inescrupulosa escravidão, os jovens vendiam óculos para sobreviverem. A polícia antiterror atacou-os, destruiu-lhes os óculos e prendeu-os. Os que roubam o erário público e as suas empresas que sistematicamente fogem ao fisco, a especulação imobiliária criminosa, esses estão felizes da vida. O nosso futuro é cada vez mais incerto. O que nos acontecerá, ou virá a seguir? Outro Vesúvio, certamente.
É importante não esquecer que Angola ainda não tem contabilidade organizada. É intencional, claro. Ora, como inexistente é fácil roubar à vontade. Convém notar que o poder tudo faz para que a contabilidade não funcione. A que existe não passa de uma brincadeira. E o dinheiro desaparece muito facilmente sem ninguém dar conta. Só depois quando se está com a corda no pescoço, alguém aparece a dizer que estamos muito mal de finanças. O que é muito elementar, tipo creche. Estamos bem entregues e muito mal tramados. Trinta e dois anos sempre com as mesmas pessoas, sempre com os mesmos discursos. Não resolvem nada, muito pelo contrário, tudo piora, se complica.
Quanto à Igreja, se ela quisesse, há muito que este poder nos deixaria em paz. Mas não, a Igreja bebe e come do mesmo prato petrolífero. O petróleo também é uma religião. E não se pode servir a dois onshores e offshores ao mesmo tempo. Isto é, a mais estas duas ditaduras: deus e petróleo.




quinta-feira, 31 de março de 2011

O coro dos caídos nesta jangada à deriva


Da nossa Torre de Pisa, o agora prédio CUCA, que oscilou devido às obras no mercado do Kinaxixi, onde a empresa que efectua trabalhos para mais um shoping, essas e outras coisas para novos-ricos, retira toneladas de terra que provocaram um desabamento e originou a fuga desesperada dos seus habitantes, mais de cento e sessenta apartamentos.

Gil Gonçalves

Ocorre-me que noutras obras, de todas (?), houve, há, a intenção de ao retirar terra, os edifícios próximos ameaçarem desabar, e forçar o evacuar. Assim conseguem-se mais terrenos para outras construções dos excelentes amigos especuladores imobiliários. Mas Salazar fomentou a construção de moderníssimos bairros para pobres a pagar em vinte anos. Um exemplo: O bairro Olivais-Sul nos arredores de Lisboa, e as habitações lá continuam ainda impecáveis.
Uma saudação especial para os nossos Gbagbos, que derrotados nas eleições da Costa do Marfim, impedem infantilmente que os democratas Ouattara obtenham o que ganharam no voto democrático. Os impérios empresariais sempre no poder em nome de um qualquer movimento de libertação, são o maior erro que a África cometeu. É como uma cidade que passa a depender exclusivamente de geradores de energia eléctrica para sobreviver, é o estertor final da ditadura que a sustenta. Ó Costa do Marfim, ó África, ó Angola, sem mais caminhos porque todos os vossos destinos estão intransitáveis na divina tragédia. Não é possível que estejamos em 2010, até a nossa máquina do tempo corromperam e nela retrocederam.
O meu imortal amigo José Afonso recorda-me no seu Coro dos Caídos:
«Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia.»
Que a força verde da vegetação esteja sempre contigo, e que o sol dos teus sonhos te contemple. Infelizmente os muitos dias maus arrastam os bons. Põe todos os dias dos teus sonhos em dia. Luta sempre, sobretudo evita que as ditaduras, outra vez democráticas, nos escureçam a mente. Um rosto feminino, vejo-o sempre muito atraente como a espuma do mar na vida a saltar. Para onde olho, quero que também olhes, vejo tudo, esplendor de verde.
As vendedoras do Roque Santeiro, transferidas para o Panguila, bazaram, aquilo não dá, e andam por aí a vender nas ruas, de andar nas ondas dos solos poeirentos, que somam mais doença das vias respiratórias sob o inclemente sol no filho às costas que mais parece uma torrada, e da intolerante perseguição seguida de arresto pelas feras humanas nas vestes de fiscais. Onde a miséria impera, vale-tudo para negócio. Isto não é uma independência, é um monstro feroz que nos devora a todo o momento. E quem defender os fracos dos fortes, é fora-da-lei?
Faltava ainda o tempo necessário para mais um dia de final trágico no largo da Sagrada Família. Um condutor circunda o largo e sinaliza para dois jovens numa motorizada que efectuam a habitual manobra perigosa, ultrapassar pela direita. Os jovens não gostaram, só compreendem o que lhes ensinaram em trinta e cinco anos, destruir. Saltam rápidos, e possessos de fúria apocalíptica partem o pára-brisas do estuporado condutor que compreensivelmente aterrorizado não esboçou o mínimo gesto de defesa, porque se arriscaria com toda a certeza a levar um ou mais tiros. Da muita assistência presencial ninguém ousou intervir. Mas existe ainda alguém com coragem para defender indefesos nas actuais circunstâncias?
E o pastor enfatizou na crente para tirar fotografias de toda a família para ele, quando viajar, levar para o Sinai, e que lá serão absolvidos de todos os pecados. Quando os corruptos e os bajuladores souberem disto, então é que vai ser. Mas o historiador Carlos Pacheco na VOA, defendeu a criação de um tribunal internacional contra a corrupção para julgar dirigentes corruptos “de onde quer que eles sejam”.
Cá na banda temos outra banda larga da energia eléctrica, da água… e da Internet
O mano Reginaldo Silva, agora apelidado pelo outro mano Salas, de Patrulheiro do Morro, denunciou no seu morrodamainga.blogspot.com que: «INTERNET: A nossa "banda larga" está cada vez mais estreita, mais lenta e mais intermitente... Disseram-me que o problema está na capacidade actual do único "back-bone" da Angolatelecom, que já não chega para as crescentes encomendas. Alô? É da Angolatelecom?»
A água já há muito flui como a Internet. Em Luanda, na Pomobel, ao Zé Pirão, a Teixeira Duarte SA, rebentou com a água e a energia eléctrica. Há meses que a água corre pela berma da rua e já apresenta o que serão futuras e brutas crateras. Os fiscais por aqui desandados limitam-se apenas a perseguir os lavadores de carros e as zungueiras. Mas a Teixeira Duarte SA não, porque são sócios do banco Millennium Angola e da Sonangol… todos intocáveis. Não são parte da solução, são parte da destruição.
Na energia eléctrica, o maior erro que a EDEL-Empresa de Distribuição de Electricidade de Luanda, comete, é o abandono da manutenção interna dos edifícios na coluna montante. Quando os fusíveis queimam, o que é frequente devido às normas selvagens de convivência instituídas pela actual conjuntura, qualquer curioso vai logo repará-los… coloca-lhes um monte de fios. As consequências disso são: desequilíbrios de fases que provocam incêndios, mortes, e o cambalacho de colocar empresas privadas que facturam exorbitantemente pelo serviço que deveria ser gratuito, prestado pela EDEL. Entretanto seguimos na desgraça de mais um mês de cortes… sabotagens, efectuadas pelo nosso “inimigo”. Dêem-me energia eléctrica e dominarei o vosso mundo.
Havendo meia dúzia de ricos, desses que todos sabemos como enriquecerem e enriquecem, e a população na digna extrema pobreza, isto é que é a verdadeira miséria. Eis as nossas multidões sem história, de mãos estendidas, ávidas na desesperança da fome. Dantes, para se libertar, o mwangole lutava contra o branco. Agora para se libertar, o mwangole luta contra o mwangole. Porque a igreja não rasteja como um réptil. Arrasta-se na vil condição desumana. A igreja perdeu os pastos e os repastos. A igreja move-se nos tentáculos da corrupção divina e terrena. E o Canalmoz/Canal de Moçambique, desmistifica os que juram todos os dias que são os nossos melhores amigos, quando na realidade são os nossos piores inimigos:
«Um dia pede-se transparência, outro dia assobia-se para o lado perante as mais aberrantes formas de corrupção nítida (...) É por demais sabido que já não se consegue provar nada no meio desta máfia que se instalou. Mas consegue-se perceber. É quanto basta (...) Os maiores suspeitos de corrupção em certos países europeus estão a aparecer em Moçambique em lugares de destaque em certas empresas. Porque fugirão eles para Moçambique? E por que razão até aparecem colados às mais altas figuras do Estado Moçambicano? Quando os corruptos estão debaixo do nariz serão precisos mais seminários para se acabar com eles? Porque se andará sempre a falar mal dos chineses se os moçambicanos não têm motivos fortes para concluírem que os chineses são mais corruptos que os outros que se querem fazer passar por santos? Onde difere a abordagem de certos doadores da dos chineses quando se trata de negócios?»
Angola vive no sabor da metralha, no caminho retrógrado de uma civilização que não existe, que se inventa. Angola está a ser retalhada como na conferência de Berlim. E serve muito bem para a venda a retalho. Com tal violência espoliadora e de ruínas habitacionais dos ataques militarizados, em Angola a guerra ainda não acabou. O inimigo principal é a população. A arte de bem governar, é investir massivamente no analfabetismo das populações, para depois facilmente demolir-lhes os casebres e espoliar-lhes as terras. Reduzi-las ao zero da pobreza inimaginável. Quando as populações se extinguirem, nascerá então um novo governo com um PIB exemplar, o maior de sempre na história da economia. E um governo que incita e usa a violência contra as populações, está isento de julgamento e condenação? Porra! Mas que ditadura ferocíssima. Que nova raça de cães ferozes são estes? Em que laboratórios os criaram, ou foi uma experiência mal sucedida?
Avante, comité de especialidade das demolições! Mas que aberração é narrar este horror! No campo de concentração de Auschwitz a água e a energia eléctrica não faltavam. Os prisioneiros não dormiam ao ar livre. Nos modernos campos de concentração de Angola nada disto existe.
Angola está a ser invadida por democratas. Angola carregou um navio gigante para navegar no mar da corrupção. Angola é um armazém de ratos. Angola parece ser o único país do mundo que mais investe na manutenção das redes de abastecimento de energia eléctrica, e mesmo assim está sempre a desligar a rede para trabalhos de manutenção. Todos os dias ouvimos a propaganda oficial garantir-nos que a nossa vida vai melhorar, os ratos batem as patas e saltam de contentes, outra nova vida espera-os. E depois do: «vamos fazer de Angola um canteiro de obras» nasceu mais um impropério: «vamos demolir, fazer de Angola um gigantesco lençol de ruínas»
Qual é a actividade principal das companhias petrolíferas? Poluição e consequente destruição dos mares e das terras. E depois da energia eléctrica demolida, a água… toda a Angola, de modos que nada mais reste, excepto os exércitos de ratazanas.
Eles querem lá saber se temos ou não energia eléctrica. Enquanto o petróleo lhes servir, o resto que se dane. É uma visão da ortodoxia angolana. Esta independência sem energia eléctrica, não tem qualquer utilidade. A não ser que seja para imitar o Robinson Crusoe. Ah! Assim está muito bom! Ou a solução de navegar num mar de idiotas nas demolições naufragados. Angola, apesar de ser o principal exportador de petróleo do Golfo da Guiné não tem energia eléctrica confiável. Pergunta-se: então para que lhe serve o petróleo?! Perguntem à hipocrisia ocidental, que ela sabe a resposta. Quando a principal ocupação de um governo é demolir habitações das populações… é um governo com muita actividade sísmica de grau devastador. Até a luz demoliram, enganaram-se, pensaram que eram casebres. Demolir casebres, é o primeiro mandamento da intolerância zero desta independência interminável.
Seguem pelo caminho mais fácil, a demolição dos casebres. Porque difícil é edificar energia eléctrica. Escravos engravatados escravizam escravos esfarrapados. Dantes chamaram-lhe luta de libertação, a luta está mais revolucionária. Alterou o nome para: luta da demolição de Angola. Luta da espoliação, dos desabrigados, dos abandonados e dos esfomeados. A luta de libertação exacerbou a escravidão das populações, finalmente livres… nos campos de concentração do comboio angolano da estalinista devastação. Mas quando é que Angola será independente? Como não há nenhuma organização da sociedade civil, ou partido político que organize uma manifestação, ou uma greve, a questão é da liderança que ainda é muito incipiente. Parece que os protagonistas apenas pretendem protagonismo, vaidade política para quererem dizer que também sabem atirar umas bocas. Nesta singular situação, resta-lhes, resumem-se à condição de escravos. É costume, um filme sem acção perder o interesse dos espectadores.
De manhã, bem cedo, os taxistas voam tal e qual uma esquadrilha de caças- bombardeiros. Alguns são derrubados e serpenteiam no solo. Os ocupantes raramente escapam ilesos de tais acrobacias. Se tudo o que se aprendeu ao longo da vida e do tempo não se conseguir aplicar na prática, então não valeu a pena, porque não se aprendeu nada. Depois de quase cinquenta anos com o mesmo poder, Angola ufana-se. O poder não se apercebe que a população extinguiu-se, e no seu lugar nasceu um exército de delinquentes desesperados. O poder não se sente corroer, rapidamente se autodestrói. E os escravos não se libertaram, outros gradeamentos esperam-nos. E como nos encanta Sílvio Rodriguez: matou-a, a cobra, e aparece outra maior.
Que luta pela liberdade foi esta se ainda não conseguimos o fundamental de qualquer sociedade: a liberdade de imprensa conforme demonstrado pela 1ª Cimeira multipartidária dos Partidos políticos na oposição: «Proibidos de publicitar em órgãos “ditos hostis”. É notória e deixa-nos a percepção quase indubitável que subtilmente, os bancos, empresas, empresários nacionais e estrangeiros, foram proibidos de deixar publicidade nas publicações privadas, sob pena de verem seus contratos rescindidos ou obstáculos erguidos nas suas actividades. Segundo constam, paira nesse mundo empresarial uma nebulosa de medo em fazer passar publicidade de suas empresas ou projectos, nos jornais que se identificam com a crítica politica, social e governamental.»

Imagem: valiteratura.blogspot.com

quarta-feira, 30 de março de 2011

Monangambé. (Nova versão)


Sem oposição real, não há nenhum interesse em manter instituições democráticas em funcionamento, porque são de fingimento.
Triste desfecho o do povo angolano. Perecer, viver como as moscas e como elas incomodar.

Gil Gonçalves

Este é o nosso tempo momentâneo das fissuras do analfabeto chinês.
Quem depende de outros povos para trabalhar – até na agricultura (?) – nunca conseguirá a liberdade. Daí que Angola é o celeiro da miséria.
Isto já não é Angola, é uma coisa vazia, sem conteúdo.
Quem não lê livros, é escravo daqueles que os lêem.
Só um governo ilegal comete ilegalidades.

E as populações lamentam-se do desespero libertador, ainda mais opressor: «Mas os colonos não nos faziam isto!» quer dizer: libertar é o prolongar, o espoliar até nunca mais se fartar.


Monangambé

Naquele palácio presidencial grande bombeia-se petróleo a rodos
é a espoliação do meu corpo que o rega:

Naquele palácio presidencial grande tem diamantes
negros
são gotas sanguinolentas dos meus casebres espoliados.

O petróleo está sempre bombeado
armazenado, e eu, torturado,
vou ficar bem negro, negro da cor do petróleo contratado.

Negro da cor do petróleo contratado!

Perguntem às zungueiras e à tortura
do seu peregrinar,
e às ruas do triste serpentear
e ao vento fantasma dos campos ao abandono:

Até o dormir este governo nos proíbe. E quem é que vai às tongas abandonadas?
Quem escoa os produtos que intencionalmente
se deixam apodrecer nos campos?
Só carros de luxo, e onde pairam os cachos de dendém?
Quem rapina e em paga recebe milhões de dólares?
e nos paga desdém?
Até a fuba podre e o peixe podre nos espoliam,
Sobrevivemos dos andrajos importados
"milhares de casebres destruídos e porrada se refilares"?

Quem?

Quem faz o petróleo enegrecer
e o diamante florescer
- Quem?

Quem dá dinheiro para os corruptos comprarem
bancos, empresas, amantes, casas de milhões de dólares
e cabeças de pretos ao abandono nas tendas Zangadas?

Quem faz estes corruptos prosperarem,
Angola só para eles e prisões para nós?
- Quem?

Perguntem às zungueiras e à tortura
do seu peregrinar,
e às ruas do triste serpentear
e ao vento fantasma dos campos ao abandono:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos vender qualquer coisa na rua
para sobreviver
Deixem-me beber, beber até morrer
naquele palácio presidencial grande
negro da cor do petróleo contratado.

- "Monangambééé..."

Imagem: torredahistoriaiberica.blogspot.com

terça-feira, 29 de março de 2011

“Legalização” privada da ilegalidade


Na semana passada fizemos uma breve alusão aos atropelos alegremente perpetrados pela empresa de Segurança Privada SEGASP, com sede em Viana, vila satélite de Luanda, que trouxe de fora das nossas fronteiras, afirmámos, curiosos métodos de gestão dos recursos humanos. Insistimos esta semana por ter havido omissão pelo menos de dois aspectos muito importantes que não podemos deixar passar sob silêncio. É que, à parte o facto de terem que satisfazer todas as exigências, por vezes excessivas, do chefe do responsável dos Recursos Humanos, Paulo Miranda – não o da Rádio Luanda, mas um cidadão português – os horários pesados, a fatia de pão com margarina como refeição única para 24 horas de serviço, o perigo de vida sempre à espreita e um salário ao fim do mês que não passa de 20 mil kwanzas, os seguranças da SEGASP têm não só o perito expatriado à perna, mas também nem sequer têm direito ao que têm realmente direito, isto é, a subsídios de férias e 13º mês. Tirando que à parte isso eles por vezes recebem uma esmola de 5 mil kwanzas ou coisa parecida por essa altura. Ilegalidade em toda a sua pujança angolana, sem controlo, sem inquérito algum e sem sanções.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (10). António Setas


Por razões que não identificava, senti que “alguém” queria impedir que me fossem revelados os segredos maiores do kakulu. Um dia, que fomos comer uns cacussos ao Cacuaco - estava a equipa completa - a Lena, a Lia, o kota Kiala e eu -, atrasámo-nos depois do almoço a falar da necessidade de preservar as nossas raízes e defender as tradições legadas pelos nossos antepassados. A um dado momento o kota disse uma frase que me marcou para sempre, nunca mais a esqueci, «As tradições antigas, a nossa religião, a uanga e os seus rituais, são absolutamente indispensáveis à afirmação da nossa identidade africana, banto e negra, mas podem nos trazer alguns inconvenientes graves, podem mesmo ser perigosas». A frase ficou assim no ar por cima do silêncio que se instalou, até ao momento em que eu lhe perguntei quais eram esses inconvenientes e perigos. Ao nosso lado estavam a Lena e a Lia a falar dos segredos do pastel de nata e da massa folhada, distraídas da conversa, e o kota, depois de lhes ter lançado uma mirada rápida e constatar a distracção que as afastavam do nosso diálogo, quase me segredou que havia ainda nos nossos dias muloji, feiticeiros, que organizavam sabbats secretos em terrenos reservados. Fiquei na mesma, porque não sabia o que significava a palavra sabbat, nem percebia o que queria dizer “terrenos reservados”. E o kota, que bem sabia que eu não sabia, explicou-me que o sabbat é uma cerimónia que tem lugar sempre num sábado de lua cheia em presença de “feiticeiros” ou “feiticeiras”, num sítio bem determinado, à meia-noite, e na qual se apelam forças ocultas: Pãs, alguns espíritos bons, chamados para acudir às doenças ou às dificuldades da vida, mas também Luciferes e outros príncipes das trevas, espíritos, génios e divindades maléficas, no fito de justificar actos que o menos que se possa dizer deles é que não são dignos de seres humanos. A verdade é que em alguns desses sabbats pratica-se ainda hoje a antropofagia. E, enquanto as “nossas mulheres” continuavam a falar de culinária, o kota explicou, «Trata-se de tradições antiquíssimas que ainda hoje se realizam em muitos bosques e florestas do mundo inteiro. É verdade que a África é actualmente o continente em que mais se praticam rituais desse tipo, digamos, campestre. E como não, se o colapso que se deu na nossa história e a maneira como ele foi vivido nos diferencia do resto do mundo? Esse salto repentino para o que os europeus chamam o Renascimento, da azagaia para o arcabuz e o canhão, faz com que nós estejamos fatalmente mais próximos dos rituais animistas celebrados à vista de toda a gente na pré-história da humanidade. Assim, o que nessa matéria passou a ser kijila, proibido em Angola há cem ou duzentos anos, em certas províncias nem isso, foi proibido muito antes noutras latitudes, por exemplo, na Europa foi há coisa de mil anos. Mas nenhum interdito impediu que vestígios desses rituais tenham resistido ao passar dos séculos e existam ainda hoje. Um amigo meu, um português que foi preso pela PIDE e depois ficou a viver em Luanda, contou-me que ainda aqui há uns anos, nas serranias isoladas de Trás-os-Montes e da Beira realizavam-se cerimónias rituais cujas origens datam do tempo dos Iberos e dos Godos, quer dizer, coisa de dois ou três mil anos atrás. E factos desses foram relatados por um dos mais ilustres escritores de língua portuguesa de sempre, Aquilino Ribeiro. Por exemplo, contou ele, perto da casa dos seus pais, em Ferrães, uma aldeia nos contrafortes da Serra da Estrela, realizavam-se sabbats numa clareira do bosque que começava no fundo do quintal. Ele próprio foi curado de uma hérnia nessa clareira.
“Tiraram-no da cama já noite feita, saíram de casa e levaram-no ao colo até ao bosque. Com ele iam pai, mãe, avó, os empregados da casa e gente da aldeia. Caminharam até chegar à clareira e estacaram. O homem do ofício, o feiticeiro, curandeiro, fosse lá o que fosse, cortou com uma faca o fuste dum carvalhiço ainda tenro ao meio, no sentido longitudinal, fez força com as mãos para separar as duas partes assim obtidas e continuou a fazer pressão até formar uma elipse. À meia-noite, nem minuto a mais, nem minuto a menos, começou a cerimónia. O rapaz, o meu amigo, que nessa altura devia ter uns dez ou onze anos, foi erguido à força de braços, passaram-no para os do cura pagão ou lá o que era, depois passaram-no para os braços do pai e da mãe, fizeram-no balançar de um lado para o outro enquanto o cura a andar em seu redor fazia as suas preces, deitaram-lhe para cima do corpo um líquido cuja composição era secreta, e em seguida fizeram-no passar pela fenda elíptica do carvalhiço fendido. Receberam-no do outro lado, estenderam-no no chão, por cima dum pano ali posto para o efeito, e cobriram-no. A terminar o ritual, o “feiticeiro” português reajustou as duas partes do fuste que tinha sido fendido, botou barro à volta e ligou o tudo com vimes e tiras de pano tosco. E disse: “Se o carvalhiço soldar, se não morrer e vingar, o menino também soldará”. Era o que toda a gente esperava, para que a hérnia também solde, senão...Mas a árvorezinha mártir vingou, e ele ficou curado».
A Lena e a Lia estavam agora de orelha espetada a ouvir, e o kota Kiala esforçou-se para que a conclusão fosse educativa, «De qualquer forma, tal como as portuguesas, ou outras quaisquer, as nossas raízes, por mais fortes que sejam estão condenadas a sair dos usos e costumes, é fatal. Não é contra tal oráculo que devemos lutar. Devemos sim, ao invés da maioria dos países modernos, respeitar os mistérios que elas albergam, preservar do esquecimento a seiva dignificante que delas nos vem, e continuar a praticá-las nos terreiros que são delas, sem prosápia nem vergonha».
Neste preciso momento, o kota calou-se, olhou para mim com olhos muito abertos e perguntou-me, «Rui, diz-me por favor, porque é que alguns de nós, angolanos, sobretudo muitos dos que fazem parte das elites mais requintadas do país, têm vergonha das nossas tradições? Porque é que não veio ainda ninguém clamar alto e forte, para o mundo inteiro, que as nossas tradicionais relações com o “Sagrado” são tão dignas de respeito como as que deram origem às “grandes religiões”, como o judaísmo o cristianismo, passando por todas, todas as outras, desde os muçulmanos aos hindus, budistas e zens, animistas de toda as espécie?...Olha, e que fique bem claro na tua cabeça, Rui, todas essas religiões a um dado momento da sua história recorreram a sacrifícios rituais, muitas das vezes envolvendo vidas humanas. Todas, Rui, todas! Temos o privilégio de possuir as mais antigas raízes da humanidade e sermos um dos povos que mais próximo estão delas. Guardemo-las. E mostremos ao mundo, que tem a memória curta, que é de tradições semelhantes às nossas que todos os povos provêm. E um dia, daqui a dez, cem, mil, ou mais anos vá-se lá saber, se não houver mais lugar para tradições algures, nós não, devemos continuar a guardar as nossas na memória colectiva e transmiti-las às gerações vindouras. De qualquer maneira uma coisa é certa, se esse for o caso, os vestígios das nossas raízes ainda serão raízes. E acredito que nunca morrerão».

Chegou o dia marcado para o kakulu. Partimos de madrugada para a Barra do Kwanza, a Lia o Luisão e eu, no carro do pai Faria, que se tinha proposto a dar-nos um empurrão não sem prevenir, «Levar, levo, mas depois vocês desenrascam-se para o regresso». O pai Faria tinha casa na Avenida e ia à missa, mas respeitava as tradições e de vez em quando até lhe acontecia ir ao kimbanda. Isso fica aqui entre nós. Era um tipo “fixe”, como se costuma dizer. Pelo caminho, o meu pai falou muito com a Lia para compensar a frustração que a entristecia e contou-lhe à sua maneira como era o kakulu antes da chegada dos portugueses. O pai Faria sorria sem parar, não sei se de satisfação se a zombar, enquanto eu, de caderno na mão -«Estejas onde estiveres o que te pareça interessante anota», tinha dito o kota Kiala -, anotava tudo o que o Luisão contava sem largar a Lia dos olhos, que, queda e muda, ouvia. Ouvia e não se fartava de fazer perguntas, porque na descrição que o meu pai fez não só havia muitos termos em língua kimbundu, assim como a cerimónia em si não é simples, estende-se por muitas horas, dias pode-se dizer, e o mais importante, as preces, nem delas se podia falar, pois não se sabia o que o Kilamba-Kiaxi iria dizer. Desse modo a sua descrição, por mais fina que fosse, apresentar-se-nos-ia de qualquer modo, como de facto se nos apresentou por sua via, uma linda carcassa esvaziada do seu misterioso recheio. Mesmo assim, mais tarde fiz o resumo das passagens mais interessantes. (Nota 3)
Quando o meu pai terminou, a Lia fez uma pergunta, «E agora também é assim?». O Luisão olhou para ela e só disse, «Vamos ver». Ele viu, nós não. Por outro lado, o kakulu do Kwanza não se ficou pela cerimónia de apelo, preces e pedidos de perdão às yanda. Já depois de tudo ter acabado, estávamos nós em nossa casa sentadinhos à mesa, o meu pai explicou como decorreu a bênção de todas as praias que dão peixe (Nota 4), que teve lugar no Mussulo, no dia seguinte ao ritual do Kwanza, e terminou numa das praias da Samba. Estava consumado o kakulu e esperava-se que houvesse mais peixe nas redes nos dias vindouros. E houve. Quanto ao resto, o melhor talvez seja deixar ao culto das yanda o seu mistério. Aos iniciados o que é dos iniciados, aos leigos a liberdade de pensar o que lhes apetecer.

Acabou a festa, maneira de dizer que por obra do acaso se tinham sucedido dois acontecimentos que marcariam para sempre a minha vida futura, o casamento e o kakulu. Este último marcou-me porque não pude participar nele! Pensando bem, não teria sido pelo facto de ser proprietário de um motor de popa que se levantaram reticências em redor da minha participação ao kakulu? Talvez não, talvez sim. Em todo o caso sentia no meu foro íntimo o elo que me unia à raiz antiga, em despeito do progresso invadir tudo e todos, modificando comportamentos, impondo ritmos que conduzem ao stress e pela mesma ocasião nos levam a olvidar que tudo o que somos, no essencial de nós próprios, no bom e no mau, o devemos ao passado.
De facto, tudo muda. No Bairro dos Imbondeiros, por exemplo, já não era como no tempo do Papá dya Kota. As garinas e os muadiés “natos” casavam-se mais com gente “de fora”, empregavam-se outros meios de pesca, tinhas o telefone, o piloto automático, o sonar e a sonda eléctrica, as casas modernas, a maneira de vestir, de falar, de namorar...toda a conduta tinha mudado.

Imagem: cacussos. lusofolia.blogspot.com

Juventude de Luanda decidida em sair à rua para exigir liberdade de expressão


Lisboa - De acordo com um anuncio que corre nos correios eletrônicos, um grupo de jovens em Luanda escreveu uma carta ao governador de Luanda, José Maria Santos informando que vão concentrar-se as 13h do dia 2 de Abril no largo da Independência para uma manifestação pacifica destinada a exigir a liberdade de expressão em Angola.

Fonte: Club-k.net

Sábado, 2 de Abril de 2011

“Esta manifestação é pacífica e apartidária e está de acordo com a lei, já que foi devidamente comunicada ao Governo Provincial de Luanda no dia 24 de Março, como pode ser visto no documento abaixo. De acordo com a lei 16/91, o GPL teria 24 horas para proibí-la mediante uma justificação por escrito, caso contrário está automaticamente legalizada.” Dizem os promotores da iniciativa numa manifesto cujo teor se segue na integra.

“Somos conscientes de que o clima de medo e desconfiança que se vive em Angola não é propício à adesão das pessoas a qualquer tipo de "convocatória" género. Mas sabemos também que essa é mais uma das razões que justifica esta acção. Num contexto de permanente desconfiança política não há condições para que se desenvolva uma democracia.”

“É tempo de restabelecermos a confiança nos angolanos e que a participação política saia do âmbito partidário, que é um âmbito estagnado e viciado. Tenhamos em conta que há espaço para todo o tipo de opinião na arena do debate livre. Falamos de debate de idéias, de troca de argumentos não em prol de interesses pessoais mas sim em prol de Angola. Não estamos a falar nem de acusações gratuitas nem de uma postura de crítica destrutiva e vazia de argumentos válidos.”

“Interessa-nos relançar o debater e pensar Angola. Queremos que todos os angolanos possam manifestar livremente a sua opinião sobre o país, quer estejam de acordo com as políticas do regime, quer estejam descontentes e discordem dessas políticas.”

“Acreditamos a democracia como sistema político mais justo e que Angola reúne todas as condições para construir uma democracia exemplar em África, devolvendo a soberania ao povo.”

“Deverá ser do interesse de todos os agentes políticos do país, organizações políticas, governo, assembléia da república, presidente da república, meios de comunicação social e principalmente da sociedade civil em geral, defender esta acção pela LIBERDADE DE EXPRESSÃO EM ANGOLA.”

“SÁBADO, DIA 2 DE ABRIL, ÀS 13:00 NO LARGO DA INDEPENDÊNCIA EM LUANDA”

sábado, 26 de março de 2011

Débatte frustrado


O comentário que se segue sai um quanto atrasado pelo que nos auto-penitenciamos, embora as causas desse atraso sejam inteiramente alheias à nossa vontade por se tratar de uma singela espetada de ameaças de morte comunicadas reiteradas vezes por telefones e SMS aos gerentes e funcionários da gráfica que imprime o Folha 8, a executar caso ele saísse à rua no dia 5 de Março. Porém como se trata de uma crítica construtiva e por apreciarmos ao seu justo grau a competência das pessoas por ela visada, aí vai. Na semana antepassada, domingo, 27.02.11, assistimos a um Semana em Actualidade (o nosso pior momento de televisão, tirando todos os outros) deprimente.
Deprimente por termos visto um embrião de debate promissor, mas, infelizmente interrompido pelo jornalista João Pinto. Não é que tenha sido mal interrompido, não é isso, a nossa subjectiva depressão deve-se ao facto de não ter sido possível dar curso a uma… não diremos inédita, mas excepcional e notória oposição de opiniões entre os dois jornalistas tradicionalmente de serviço nessa emissão, Reginaldo Silva e Ismael Mateus. Por esta ocasião quase única de abrir um bom debate em público, ambos perderam a calma, começaram a interromper-se um ao outro e deram uma boa prova de não haver em Angola cultura para debates contraditórios, onde cada um dos analistas dá a sua opinião sem ser interrompido, ou pelo menos sê-lo muito poucas vezes, e responde só depois de o outro ter acabado de dissertar. Nada. Não foi possível, e só esperamos que da próxima vez tudo se passe de modo mais cordato. Para felicidade de todos os que lutam pela liberdade de expressão.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (9). António Setas


Mal tivesse a ocasião a Lia aparecia no Bairro, ficava durante três ou quatro dias em nossa casa e repartia para Porto Amboím, vaivém que se repetiu quatro vezes durante mês e meio. Esta azáfama devia-se à falta de peixe decorrente de uma violenta kalemba de Agosto, nada a ver com a que levara o Belela, contudo causadora de sérios danos materiais, sobretudo a pescadores do Mussulo e da Xicala. Queixavam-se os luandenses, que viam os preços do pescado disparar à toa, queixavam-se as senhoras das salgas, as fábricas e os próprios pescadores, que além dos danos sofridos não viam peixe nem dinheiro a entrar. E foi por essa altura que correu pelo Bairro o mujimbo de que se ia organizar um kakulu, método infalível para acalmar, pedir clemência e ajuda às yanda, porque o mais certo era elas terem sido vítimas de desrespeito intolerável, vá-se lá saber por via de quem.
Entre as pessoas que mais se animaram com a nova estava a Lia. Ela queria ver para acreditar no que lhe diziam algumas pessoas do Bairro, que as yanda são como nós, humanos, vivem entre nós - há quem tenha visto as cidades onde elas habitam -, mas que normalmente só se consegue ver um ou outro sinal da sua existência, luzes, lençóis e fitas de luz com muitas cores debaixo de água. Sabia que elas são ituta, seres espirituais terrestres (ver nota 2), que interferem na vida das pessoas tanto para o bem como para castigar, isso depende das pessoas, do comportamento das pessoas, de muita coisa. Vivem na água e podem encarnar, por exemplo, os gémeos, as pessoas que nascem depois de mais de nove meses de gravidez, ou os que ao nascer já vêm com dentes, são ituta verdadeiros, e mais vale acarinhá-los e fazer-lhes todas as vontades, senão pode haver azar. E não era preciso explicar-lhe que os territórios das yanda são como os das províncias de qualquer país, encostados uns aos outros, com a diferença de que vão do mar ou das águas interiores para a terra firme, e que aí, em terra, elas têm as suas árvores, o imbondeiro sobretudo, mas também outros ‘‘paus de sereia’’, como a matebeira, a musekenya e o ife, isso sabia a Lia. Mas pouco sabia do kakulu, cerimónia organizada em honra das yanda, rito antigo de veneração e reposição do respeito que lhes é devido, mais não seja que pela inegável influência que elas exercem sobre os caprichos do mar. Sabia que o kakulu era a sua mais alta expressão, mas não lhe conhecia a feição, nunca o tinha vivido. E agora, arrancada à sua zona “de fora”, com muita doçura bem entendido, sentia-se um pouco perdida no Bairro, queria saber, fazia perguntas, «Orienta-me», pedia-me ela. Porém, a minha sabedoria sobre essa delicada matéria era de duvidosa origem, dado que os kakulu da ilha tinha-os eu vivido de longe, e quem oficiava eram Ilamba do Cacuaco, ou do Caxito. Debatia-me entre as duas versões, a da ilha e a do Kwanza. Além disso, sabia muito bem que a gente da Samba, da Corimba e do Mussulo, consideravam esses ilamba do norte de Luanda pouco credíveis. De pouco lhe podia acudir. Quem tentou ajudar, embora sem nunca lhe dar a boa nova que ela tanto esperava, foi o meu pai.

Um dia, como não podia deixar de ser, conseguimos enfim falar do kakulu. A conversa já tinha começado antes, não à volta de uma mesa, como bem assenta a qualquer uma, mas à beira da minha chata nova, entregue na véspera, modificada, tal e qual como eu queria, pintada de azul, pronta a ir para o mar. Tinha-se-me metido na teimosa ter um mastro, arranjar maneira de fabricar um dispositivo para montar o mastro e dispor como deve ser todos os aparelhos de segurar vela, cordas e roldanas, todo o necessário para navegar nas calmas. A Lia não percebia nada de barcos à vela e alheou-se um pouco do bate-papo. Entretanto nós, o meu pai e eu, debruçávamo-nos tanto ao próprio como ao figurado sobre o problema, metíamos a cabeça nos fundos da embarcação para ver como montar um reforço que aguentasse com segurança a pressão do mastro, quando a Lia, que não se explicava a razão dos nossos contorcionismos, me perguntou, «Mas que ginástica é essa, Rui?». Ergui-me - o Luisão não, continuou debruçado a imaginar soluções - e expliquei-lhe que era preciso um reforço nos fundos para aguentar o mastro, que sem vela não dava jeito ir para o mar... «Vem até aqui, vem», fez ela baixinho. Pegou-me pelo braço e afastámo-nos, «Deixa-te disso. O meu pai vai te dar um motor...chuutt!, é segredo». Caí das nuvens, «Um motor!!?...», «Sim, um motor de 40 cavalos. Tu não sabes o que é um motor?»...Fiquei muito contente, é claro, dei-lhe uns beijos mais ou menos castos, pois havia por perto uma boa dúzia de mirones, e ela não perdeu o ensejo para me pedir o troco da boa notícia que me tinha dado, «Pede lá ao teu pai que me leve ao kakulu?» Num reflexo intuitivo olhei para trás, vi o Luisão a extrair-se penosamente de entre os bancos da chata e disse, «Quando formos almoçar»
Durante o almoço que se seguiu abordei com pezinhos de lã a importância das yanda no nosso trabalho, a necessidade de um kakulu com tanta falta de peixe, os prejuízos, as kalembas, e a certa altura a Lia perguntou, «Mas há kakulu, ou não há?», E eu, muito depressa, «Vai haver, sim, vai haver, o pai explica». Calei-me logo, não viesse de lá um tradicional «Cala a boca!». Mas o Luisão tinha de facto mudado muito. Além disso ele bem sabia que a Lia se interessava pelo assunto porque no nosso bairro não havia muro que não tivesse orelhas. Olhou para ela com meiguice, todos ele dentes ao léu, e anunciou, «Vai haver kakulu, sim senhora, e tu agora és da família, estás “por dentro”». Calou-se de repente, cobriu-se-lhe o rosto de tristeza, por um pouco não lhe desapareciam os olhos como quando se zangava, mas lá conseguiu subtrair um sorriso do percalço que se aprestava a anunciar, «Tem havido maka grossa com aquela malta da ilha. Organizam kakulu p’ra turista, ‘tás a ver, uma vez até a imprensa lá foi meter o nariz, não pode ser...Este kakulu é o do Mussulo, na Barra do Kwanza. É uma cerimónia de mais velhos. Depois, no dia seguinte, vamos benzer as praias, talvez nessa altura...vai ser difícil. Fica para outra vez, ‘tá bem?». Ficámos tristes. A Lia olhou para mim com ar de quem diz, «Já sabia que ia ser assim»...Mas concordámos, as razões dos mais velhos respeitam-se.

Estava de facto previsto organizar um kakulu. E a habitual colecta já tinha começado algumas semanas antes, pouco depois da kalemba de Agosto. Prolongar-se-ia pelo menos por mais uns dois ou três meses. È que se quiséssemos venerar com justo aparato as nossas yanda, ainda faltava muito dinheiro para poder adquirir o peixe, a farinha de mandioca, as outras vitualhas, os garrafões de vinho, as grades de cerveja, as garrafas de uísque e de cognac, aguardente e cabaças de maruvo, o tudo comprado em grandes quantidades na candonga. Tanto dinheiro, não era em menos de quatro ou cinco meses que se poderia arranjar. Isto sem esquecer os utensílios diversos, os tecidos, os pratos, os copos, as mesas do culto e os ingredientes para a água lustral, o dikoso, antigamente uma mistura de caulino branco, água e noz de coco. Muito, muito dinheiro. Estavam já a contribuir, e continuariam a fazê-lo, os patrões das “grandes redes”, muitos pescadores independentes e a grande maioria das senhoras “natas” ligadas à faina. Os empresários da pesca motorizada e industrial não participavam. Nem tão-pouco tinham sido contactados.

Quanto aos participantes no kakulu, há séculos que são, por assim dizer, os mesmos, os filhos da terra, neste caso preciso os filhos da ilha ligados à pesca, as “famílias natas” residentes no Mussulo e nas terras da baía do Mussulo, até aos limites norte da Samba. Muito mais reduzido seria o número de “famílias” que viriam da ilha de Luanda e dos musseques, “do mato”, que apenas seriam aceites se fossem fornecedores de pescadores às “sociedades” de pesca à rede da zona do Mussulo e da Samba. Porém, desde que entrassem, todos eles sabiam que, participando na cerimónia, seriam bem-vindos, mas que pela mesma ocasião, enquanto se realizava o kakulu, ficariam sujeitos às ijila do costume. Ser-lhes-ia interdito pescar e comercializar peixe, tomar banho na praia, lavar mais de meio corpo, mudar de roupa, ouvir a rádio e ter relações sexuais. Em troca, todos beneficiariam, mais do que os que não viessem, do estatuto de muxiluanda “puro”, assim como das dádivas das yanda.

Contudo, como era de esperar, antes do kakulu teve lugar o casamento. Na Igreja da Nazaré. Confesso que me senti mal no fato que me comprimia. Abria os olhos para o aparato do culto católico como se estivesse a vê-lo com lentes de alcanço, as minhas raízes tremiam enquanto eu esperava a noiva ao lado do altar, e só confortei o meu desânimo ao pensar que o amor a tudo leva e seja onde for que ele nos conduza, sempre prevalece a sua força. Pensei no motor que ia receber e me separava também das tradições antigas, numa corrida às benfeitorias do progresso. E continuei à espera, enquanto ao meu lado o kota Kiala e a Lena, escolhida à última da hora para madrinha, o que lhe ia causando um chelique de felicidade, tremelicavam de emoção, tanto ou mais do que eu. Chegou enfim a noiva, de braço dado com o pai Faria - «A Lia, tão bonita...e o rapaz tão atrapalhado!», diria mais tarde a vó Júlia -, fui para recebê-la, ela deu-me o braço, e avançámos para o altar. Chegou o momento de dizer sim, foi o que fizemos. Demos aquele beijinho, e quando a cerimónia acabou vieram outros com algumas lágrimas, numa grande mistura de sentimentos, alegria, medo do futuro, esperança no futuro, tristeza pela separação perene dos pais com os filhos, todas essas emoções que dão à vida algum sentido.
A boda decorreu no ‘‘Kianda kya anazanga’’, um centro cultural na moda, perto da Xicala. Música, maestro! Veio de lá o Faria e saltaram dos bastidores os quatro músicos que animariam a festa. Comida aos montes; bebidas às pipas; música e dança até ao nascer do sol. Um casamento como muitos outros, alegre e embriagador.
A nossa lua-de-mel - outro mambo do progresso -, qual lua-de-mel qual carapuça!, foi no Bairro dos Imbondeiros, ao lado do motor de quarenta cavalos, sorrateiramente entregue à Lia e agora escondido num recanto da casa.
Para evitar makas relacionadas com o kakulu, que estava marcado para a semana seguinte. Isto, sabendo que não ia participar, agora imaginem se eu participasse.

Imagem: Porto Amboim. fazermuamba.blogspot.com