terça-feira, 5 de abril de 2011

A RUA DO SOL NASCENTE


Gil Gonçalves
Estou abrasado nas catorze horas da tarde no vulcão solar da terra. É que o ar não está quente, está ardente, como se o inferno adquirisse morada, e daqui não mais desejasse sair. Embrenho-me na rua dos cidadãos sem pátria, onde qualquer automóvel depois de a atravessar deixa uma nuvem de pó vermelho da cor da miséria. A azáfama é a habitual, digna da actividade marginal. Os bebés viajam nas costas das mães, enquanto elas se esforçam na paciência e sorte de alguém, a maioria utiliza o feitiço, que lhes compre algo da escravidão da sua sobrevivência.
A ronda dos ditadores faz-se omnipresente com exército, guarda presidencial, forças de segurança especiais, polícia antiterror, polícia secreta, e outras tantas forças apenas para desabarem sobre as populações, se elas ousarem manifestar o seu descontentamento. Vida de ditadura é repressão permanente de canhão.
As desgraçadas estão no olho da rua porque lhes espoliaram as lavras, as terras, destruíram-lhes as casas, a que jocosamente os novos-ricos lhes chamam de casebres. Antes, onde faziam o seu negócio da venda, apareceram uns espertalhões das desordens superiores que lhes chamaram de burras, porque não sabiam que tudo é pertença do Estado. E com o cuidado de prevenirem que afinal também são donos das pessoas. Tanta conversa suja para logo em seguida anunciarem nos meios de difusão massiva integralmente partidarizados que a miséria das populações vai acabar, porque mais um shoping center se vai edificar pago com dinheiros ilícitos. Aliás, tudo se compõe de ilicitude. Mas não é por demais evidente que casa de espoliado é casebre? Os maridos, e demais idiotas que acreditaram na tal luta de libertação deles, esperam pela mesada em vão. Só a tudo têm direito quem é eleito do partido sem coração da família sem restrição.
Os reconhecimentos policiais são constantes, esvoaçantes, verdejantes como as moscas de bojos possantes. Os cumpridores da lei ficam contentíssimos quando lhes ordenam executá-la nas zungueiras e similares, que é o que existe demais. E atiram-se desumanamente sobre as infelizes que nasceram por muito azar num Golfo da Guiné onde o petróleo transpira por todos os poros novos-ricos. Aqui já não existe terra, nação, pátria, população, mas apenas o martírio diário dos barris de petróleo. Mas os polícias não vão policiar as empresas e os empresários da corrupção, não. Apenas policiam a estrema pobreza da expiação. E carregam à Khadaffi sobre as miseráveis que totalmente indefesas, injustiçadas, até queimadas como feiticeiras. E os barris de petróleo sucedem-se, enquanto nos palácios da ditadura se festeja mais um acontecimento importante: o preço do petróleo sobe, sobe… dá e sobra para pagar a mercenários.
Frequentemente como se acompanhadas ou protegidas de nuvens de pó, novo sistema de alta tecnologia de segurança importado (?) desfilam desabridas escoltas de dirigentes fingindo que resolvem os problemas do povo, quando na verdade, resolvem os seus interesses pessoais e os das suas famílias. Porque ainda existe a teimosia que governar é colocar toda a família no poder, para que se mantenham os negócios, os palácios, e a miséria das populações seja sempre abrangente. O povo é um jardim zoológico, com a diferença de que no zoo é habitual darem comida aos animais, neste zoo humano não. Cada um que assalte o seu pão de cada dia.
A actividade da especulação imobiliária progride como coelhos que se multiplicam extraordinariamente: o único trabalho é alimentá-los e nascem, reproduzem-me epidémicos como os mosquitos do paludismo. De tal modo que dentro de pouco tempo não existirá nenhum local livre, porque tudo se destruiu com novos... estruturantes.
E dos muitos carros luxuosos pagos astronomicamente com as contas da contabilidade que não existe, Angola não tem contabilidade organizada. Os Técnicos de Contas trabalham na ilegalidade, ao sabor da invenção de documentos das entidades patronais, e se não se acomodarem correm o risco do despedimento coercivo, e se ousarem abrir as bocas pende-lhes o assassinato. Pudera, a perda da vida humana está tão vulgarizada. Perante isto, não é possível falar de empresas e empresários. «Perguntem ao vento que passa».
Descem dos seus afamados coches triunfais, carregados de luxo petrolífero, novas-ricas na anedótica tentativa de imitação de figuras famosas da música e do cinema, com orgíacas e reluzentes pulseiras de diamantes pagas a cento e cinquenta mil dólares. Enquanto na Rua do Sol Nascente morre-se facilmente, porque não se tem dinheiro para comprar coartem para curar a malária.
O nosso futuro é inevitavelmente revolucionário.
Assim não, porque a revolução é inevitável. Pode-se colmatar por agora, mas ela acontecerá, infelizmente parece com extrema violência porque ninguém está interessado em travá-la. Os milhões, biliões de dólares do petróleo são muito mais importantes que qualquer ser humano, cidadão angolano perdido na Rua do Sol Nascente.
As manas Lwena e Maria abancaram-se à toa. A Lwena vende cigarros, mau uísque, desse para consumo dos seguranças, bolachas, mais algumas coisas e gasosas. A Maria é kinguila, vende e compra moeda estrangeira, só dólares e euros. E claro, já estão aprontadas para lerem o jornal do dia. Maria activa-se, remexe-se, e inicia o seu folhetim jornalístico:
- Olha, agora andam na guerra das bandeiras.
- Como assim?!
- Vou-te já contar: a vida decorre normalmente. Nas ruas jovens vendedores e zungueiras fogem depois das espoliações e surras da polícia. Os geradores, ninguém confia na ditadura da electricidade, lançam fumo tóxico mortal, o único país do mundo onde isto é normal, e a barulheira intencional para encher o saco do vizinho. Tudo o que é ilegal valoriza-se. Parece que ninguém tem noção do que é lei. Os novos-ricos então, ainda sob a protecção da ditadura, mas já com o peso da síndroma Tunísia, não querem saber se os vizinhos estão a morrer ou não, com as suas tropelias de quase quarenta anos legalizadas. E teimosamente dizem que é uma antiga ditadura democrática, logo, quem não é da ditadura, é contra ela. Nada mais fácil do que isso. A bandidagem já incontrolável, pois são mais que as mães, e apesar de Angola estar infestada de petróleo por todo o lado, e isto justifica a deportação dos sem futuro para os rincões, pois o petróleo é incompatível com o povo. Este, ao pé do perfume petrolífero, apresenta um valor exíguo. E onde há petróleo, há dinheiro, e o resto não interessa.
Os corruptos continuam com a justificação, de que não senhor, o dinheiro que ganham, é com muito suor esforço e lágrimas. Claro que isto não convence ninguém, e eles parecem fingir que pela banda está tudo numa boa. Os políticos sempre com as mesmas políticas de quarentena já quarentona, quando abrem as bocas, é de fugir, tipo, salve-se quem puder. Nada mais insuportável, do que ouvir sempre os mesmos com o mesmo dicionário.
Entretanto, a banda atingiu tal desenvolvimento tecnológico, que até para cortar uma chapa de zinco, ou serrar um vulgar tubo de ferro, é necessário um chinês ou um português. E o tuga recorda-nos muito cioso os regulamentos dos tempos coloniais. E afirma sem pejo: «Na minha empresa, negro não pensa, executa.» Provando com isto que a banda ainda não é independente, e que o sem futuro ainda não se libertou da escravatura.
Os problemas do povo subsistem na intolerância política, como se a banda fosse uma prisão cercada de grades de Kabinda ao Kunene. Aí, não sei em que bairro, apesar da proclamação da independência e de uma nova Constituição, a intolerância política revive os bons velhos tempos da intransigência revolucionária. É necessário alimentar o facho e o forno da revolução, e quem nela não se enquadrar, a pena de morte é de se esperar.
Um professor vulgar militante de um partido político da oposição sobrevivente, tem o direito de hastear a bandeira do seu partido no bairro do seu coração, não é?! E assim o fez, mas há sempre alguém que espia, que diz sempre sim. A polícia política é como a Igreja, só acredita num Deus. E claro, prenderam o professor militante. E ele pergunta aos novos mentores do campo de concentração da banda, aqui dignamente representados por um chefe da polícia: «Mas afinal, estou preso, porquê?». «Prontos! Já te estás a fazer de parvo. Então não sabes porque é que foste preso?». «Absolutamente que não!». «Estás preso… porque és de um partido da oposição ilegal!». «Ah! Essa está muito boa, então como é, a banda é só para vocês?» «Evidentemente, aqui não há lugar para mais ninguém. Vais ser julgado e condenado sumariamente.» «Então serei julgado por ser militante de outro partido político?!». «Correcto e afirmativo!».
E veio em socorro do professor o secretário-geral do partido da oposição ilegal. Entra em cena e afirma peremptório: «Farei uma greve de fome em defesa desse homem. Esse professor é-me mais valioso que todos os vossos poços de petróleo». «Ai é?! Que bom, faz lá a tua greve de fome. Junta-te aos nossos exércitos de esfomeados... e esperamos que morras, será menos um que chateia. Até porque temos instruções para acabar com todos vocês, pois parece que não, mas ainda são muito perigosos, e estão implantados em todos os recantos... como uma epidemia cancerosa. Ah! Já sei o que queres… almejas ser lembrado como o mártir da liberdade, não é?! A tua morte será certa, como a nossa vitória». «Ao que chegámos, até os vossos sobas prendem gente?!». «Claro, ó Mártir! Temos orientações superiores para prendermos quem quisermos. A banda é nossa, porra!!!». «Absolutamente, e quando a síndroma Tunísia lhes bater às portas, vão fazer mais como então?!». «Essas coisas aqui nunca chegam. Temos órgãos devidamente estabilizados, quero dizer, estalinizados, policiais e de defesa suficientes, postados por todos os lados como parasitas, não sei se estás a ver. Os olhos e ouvidos da nossa revolução que é imparável. O nosso poder é eterno e abençoado pelas potências internacionais e pela nossa Santa Igreja. O petróleo dita as regras do jogo».
O Mártir preferiu o silêncio. Meditou, que o fim de qualquer ditadura é sempre igual. Como se os problemas de um país se resolvessem na continua prisão e repressão. Quanto mais o poder diariamente e arbitrariamente infligir ferocidade sobre o seu melhor bem que é a população, o dia fatal chegará. E tudo e todos se erguerão, e a ditadura varrerão. E o Mártir confesso da democracia, preparou-se física e mentalmente para enfrentar os caminhos da greve de fome. Os caminhos da vitória gloriosa, da libertação, contra a opressão. Assim falou o Mártir da democracia.
upanixade@gmail.com

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A Paz inventada?


[4 de Abril, dia da Paz]: Policia tenta impedir jovens de se manifestarem a favor da paz social no largo do Primeiro de Maio em Luanda. Neste momento (15:57 horas de Angola/Luanda) estão concentradas no largo da independencia cerca de 100 pessoas. Cada vez aparece mais gente e a mobilizaçao continua pelos telemoveis. Uma reporter a jornalista Lacerda da Costa da Radio Despertar, já está no local.
In Felizarda Mayomona

TODOS AO LARGO DA INDEPENDENCIA COMEMORAR A PAZ DE FORMA ESPONTANEA "UM GRUPO 30 ANGOLANOS ESTÁ NO LARGO DA INDEPENDENCIA PARA COMEMORAR A PAZ. AS PESSOAS ESTÃO LIGADAS A MANIFESTAÇÃO DO 2 DE ABRIL. A POLICIA ESTÁ A IMPEDIR QUE OUTROS GRUPOS SE APROXIMEM E DEU 30 MINUTOS PARA AS PESSOAS SAIREM DO LOCAL. DEVIDO A INSISTENCIA DOS MANIFESTANTES A POLICIA DIZ QUE PODEM FICAR, MAS SEM SE MEXEREM. UM CHEFE DA POLICIA AMEAÇOU UMA MANIFESTANTE, SRA ELSA, DIZENDO QUE A PODERIA ARRASTAR SE ELA VOLTASSE A MANIFESTAR-SE. HÁ JA VARIOS CARTAZES NO LOCAL E A MOBILIZAÇÃO POR TELEFONE JÁ COMEÇOU. É IMPERIOSO QUE A NOTICIA CORRA ANTES QUE SE MANCHE A PAZ COM ALGUMA VIOLÈNCIA POLICIAL. ELSA QUE ESTEVE PRESA NO DIA 7 PODE SER CONTACTADA PELO NR 932178174. PAULO ARAUJO ESTÁ NO LOCAL COM O NR. 924056095. FERNANDO MACEDO PODE DAR PARECER JURIDICO SOBRE A MANIFESTAÇÃO ESPONTÀNEA PREVISTA NA CONSTITUIÇÃO E LEI, TELEF 931786551 APOIEMOS A PAZ SOCIAL, AQUELA QUE É A PAZ DA JUSTIÇA SOCIAL, DO AMOR E DO DESENVOLVIMENTO PARA TODOS."

ACABEI DE FALAR C/A ELSA E CONFIRMOU-ME EXACTAMENTE O K DISSE O DR. FILOMENO. UM TAL SUPER INTENDENTE K DIZ CHAMAR-SE ALEXANDRE DO NASCIMENTO AMEAÇOU SEVERAMENTE A ELSA: SENHORA, NÃO SE MEXE E NÃO EXIBE CARTAZ NENHUM. SE TE MEXERES VOU TE TORTURAR, VOU TE MASSACRAR. ENTRETANTO, AS PESSOAS VÃO CHEGANDO "RELUTANTES" AO LARGO DA INDEPENDENCIA(JÁ K A POLÍCIA PROIBIU INCLUSIVE A PERMANENCIA NO REFERIDO LARGO) PARA CELEBRAR A SUA MANEIRA O DIA DA PAZ. TODOS AO LARGO DA INDEPENDENCIA PARA JUNTOS CELEBRARMOS A PAZ À MODA DE UMA ANGOLA NOVA, SEM ALGEMAS, SEM TABUS, SEM MEDO E SEM BAJULAÇÕES.

In BD-Bloco Democrático

domingo, 3 de abril de 2011

O NACIONAL-SOCIALISMO ANGOLANO


Gil Gonçalves
Tudo é do ESTADO do nosso Eterno Endeusado
E o TPI, Tribunal Penal Internacional
e a outra comunidade dos direitos humanos
perdidos, esquecidos, omitidos
aprovam o nosso extermínio
sob o tal olhar do silêncio petrolífero e diamantífero
Tempos muito negros, escuros
de olhos terrivelmente molhados
cegos dos jorros dos campos
das piscinas inundadas de petróleo
cercam-nos
Independência na terra espoliada
do roubo e da corrupção
da célebre quadrilha organizada
que tem tudo e não nos deixa nada
E o rei e o seu séquito luxuosamente escondidos
protegidos no arsenal inseguro
há muito afastados da população
temerosos dos próximos dias que virão
do vulcão
Nos cemitérios nem os mortos deixam repousar
em cima das suas ossadas edificam tumbas de betão
para novos-ricos habitar
«Somos um país pobre e a luta ainda não terminou. A nossa luta ainda não chegou ao fim. Ainda temos que continuar a lutar. Ainda estamos a batalhar para criar essa riqueza, e só depois disso é que podemos falar de pensões condignas» Armando Guebuza, Presidente de Moçambique na celebração dos 46 anos das Forças Armadas, 25 de Setembro, referindo-se à questão do pagamento das pensões dos antigos combatentes.
Não sei como será mais este dia insuportável, tão miserável
Mulher angolana!
A liberdade recorda a beleza da tua paisagem
aguarda ansiosa que regresses, a despertes
libertes
Nesta miséria extrema de Luanda sem redenção, pelas horas vinte e uma. A mamã espoliada vende pão para tentar libertar-se da fome. É a única libertação que lhe resta, porque da outra os libertadores libertaram-na dos poços petrolíferos, das minas diamantíferas e dos dinheiros bancários. Mas como dinheiro atrai dinheiro e também a miséria atrai miséria, os destacados do poder petrolífero rondam na caça incessante de presas indefesas. Fiscais do GPL retornam às suas casas exaustos depois de mais um dia de pilhagens. Alguém deles se lembrou que as suas casas não têm pão. Pararam a viatura, saltaram lestos e espoliaram o pão da miserável mamã. Mas que infernal Politburo este, que não tem dó nem piedade de ninguém. Transformou-se, camuflou-se, de libertador passou a espoliador. Que Deus Nosso Senhor nos liberte de quem se escapuliu do Inferno. Mais um movimento de libertação a saquear a população.
Esta independência persegue-nos, aterroriza-nos, e nós fugimos dela, não a queremos mais. Temos que lutar por outra, abaixo esta. Os coveiros devem estar muito exaustos a abrirem nunca bastas covas. São tão demasiados os mortos que até convém mudar o nome para: Necrópole de Angola.
Que terríveis inventos nos contemplam: as ambulâncias que seguem com doentes gravemente feridos e algumas de sirenes tão estridentes vão abrindo caminho e deixando atrás delas outras vítimas, pois o som é tão sirénico, tão sobrenatural que mata. É curioso que ainda nenhuma entidade do nosso Ministério da Saúde, ou médico levantou esta questão, acho que é sobremaneira intrigante.
Se as obras clandestinas do Ordens Superiores persistem, é porque nos curvamos perante um governo clandestino. E sob o olhar impiedoso de Lenine, afundamos o nosso partido de retaguarda.
Diferente dos outros dias não será
mas vê-se que nada nos trará
piorará
E sob a capa de movimento de libertação
perpetua-se a colonização
Estamos no limite da corda, do acordar
já não dá mais para esticar
Inexoravelmente ela fracassará
partir-se-á e o lado do opressor
cederá, perecerá
E a UNITA, o nosso cavaleiro andante, muito solícita, em parceria com Bento VXI emitirá mais um comunicado. Antes esgotar-se-á em intermináveis discussões sobre o desandar, o despenhar do país. E altruisticamente resignados não convencerão, mas talvez dirão, porque não?! Se antes lutámos contra o outro colonialismo, porque é que agora não lutamos contra este? E nos tombaremos em inenarráveis alambiques novelísticos. O nosso destino alienado merece-o. E os estrangeiros contentíssimos por finalmente nos verem parqueados no jardim zoológico que subsidiaram, investiram… e a tenaz da mãe igreja a pregar: hoje assim não dá. E que no outro dia, sim, já dá.
Mais casebres desmontados
e terrenos espoliados
o habitual
E a invasão chinesa incontrolada
normal
Nos caixotes do lixo, shopping center da pobreza
é notório o PIB e o seu desenvolvimento
a miséria é negra, afogou-se no abismo petrolífero
Mas quando é que acaba isso de bater no ferro quente?! Angola é um Estado de direito imobiliário e ainda será um grandioso império imobiliário. E contudo ela, Angola, privatiza-se. Angola é a tábua de salvação, e também será a droga da desgraça de muitos aventureiros que a desejam recolonizar. E nesse enlace, abomináveis, é o que são alguns actores estrangeiros que discursam em Luanda, como se fossem governantes angolanos. Falam em nome do povo angolano sem serem por ele eleitos. Não restam mais dúvidas que estamos perante uma democracia imobiliária. Isto faz com que os circuitos desta alta voltagem vibrem, se descontrolem. O nosso imortal Politburo corta-nos a energia eléctrica. Na água continuamos excluídos das condutas, na mesma, isto é, cada vez piores. O que era o precioso líquido está agora noutra horrorosa luta de libertação muito seca. Diariamente sacrificamo-nos para conseguirmos água num país que tem, como eles dizem, os maiores índices mundiais de desenvolvimento económico e social.
A nossa GESTAPO lista o assassinato
de mais um jornalista
e outro opositor político
que o nosso Pravda manterá no eterno anonimato
As mamãs prosseguem no fardo
perseguidas pela independência
da miséria gatunada pelas nossas SS
e até abatidas sem misericórdia
Ninguém tem direitos
Este é o nosso Estado da independência total dos comungados casos de corrupção e especulação imobiliária. O nosso querido Politburo segurado nos quase cinquenta anos de poder, assegura-nos que lá para 2013, 2020… tudo estará serenado. As bazófias do iletrado costume. Com água, energia eléctrica, empregos para todos, garantida a segurança alimentar… até com excesso de produção para exportar ou para deitar para o lixo? Não sabemos, e duvido que alguém saiba. Enfim, que será o fim da miséria. E em mais um acto talvez pródigo de demência, não é a melhor altura porque a miséria policia-se nos campos de palavras semeados, mas lá, longe dos gabinetes nunca agricultados, pois, o célebre mercado Roque Santeiro com a sua extinção criará mais milhares de deslocados, ao ar livre armazenados. Olhem, não vêem mais milhares de deportados a caminho de Auschvitz?! Nesta quotidiana miséria de Angola, os especuladores imobiliários festejam-na porque criaram mais milhares de esfomeados. Mais brutal desestabilização social soma-se.
Mas que poder este que tudo amealha
tudo quer e nem aos esfomeados migalha
Este é o reino do rei da nossa miséria
É este o viver e morrer no Tarrafal do terror de Luanda

upanixade@gmail.com
















sexta-feira, 1 de abril de 2011

MENINA SEQUESTRADA HÁ 1 DIA


Todos nós temos filhos, sobrinhos, primos, netinhos até. Por isso não desviem o olhar desta mensagem. Hoje por aqueles e amanhã por um de nós.
PASSEM ESTA MENSAGEM PARA TODAS AS PESSOAS QUE CONHEÇAM.
MENINA SEQUESTRADA HÁ 1 DIA - PASSAR RÁPIDO
¡¡¡¡Es importante, pasalo rápido!!!! NO TE LO QUEDES, POR FAVOR

No te lo quedes, POR FAVOR, pásalo A TODOS TUS CONTACTOS. Alerta por el secuestro ayer de esta niña de 3 años y medio , Elise, en Tamaimo, Sur de Tenerife. Sus secuestradores, dos hombres y una mujer, viajan en un Seat Panda TF-7633-V (color beige o marrón). En previsión de que puedan pasar a la península con ella, haz circular este este mensaje con la foto. Gracias.. . Gonçalo Mesquita. Zelar - Serviços de Administração e Gestão de Condomínios. Rua Serpa Pinto, Bloco da Juventude, Loja R/C Esquerdo 8150-164 São Brás de Alportel. Telefone/Fax: +351 289 843 991 Telemóveis: +351 966 955 864 +351 910 631 932 E-mail : zelarcondominios@gmail.com


O HOMEM REVOLTADO


Parafraseando Albert Camus: não dispararias tanto sobre as multidões se delas soubesses extrair o máximo.
Nas outras revoluções utilizavam-se pombos-correios, sinais de fumo, o tam-tam, e as revoluções aconteceram. Num futuro não muito distante, quando o pensamento for o meio de comunicação, as revoluções nascerão à velocidade da luz. Vêem-se nos rostos das multidões a avidez da retirada da máscara da democracia e da libertação que nunca aconteceram.

Gil Gonçalves

Nada se moveu, apenas a avassaladora escravatura de alguns que lhe chamam a vida nova alicerçada nos comités de defesa da revolução. Finalmente os povos seguem a sua marcha gloriosa e o poder espera-os. E tudo se renova num jasmim amadurecido e noutro que desponta e nos perfuma a vida. Não é possível nos tempos de hoje viver lado a lado com ditadores. As suas mentes são como desertos muito ressequidos, a estalarem, a rebentarem, a abismarem.
Finalmente nos libertaremos das conceituadas duas democracias: uma Ocidental, e a outra? Vejamos a opinião de Mário Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura: «A lentidão (para não dizer cobardia) com que os países ocidentais – especialmente os da Europa reagiram, vacilando primeiro face ao que estava a acontecer e, logo a seguir, com declarações vazias de boas intenções a favor de uma solução negociada, em vez de apoiar os rebeldes, terá de ter causado uma terrível decepção aos milhões de manifestantes que saíram às ruas em países árabes, pedindo "liberdade" e"democracia" e descobrirem que os países livres olhavam-nos com desconfiança e por vezes pânico. E comprovar, entre outras coisas, que os partidos políticos de Mubarak e Ben Ali eram membros activos da Internacional Socialista!»
Porque o senhor dos anéis da ditadura de quem se manifestar vai apanhar, nos deixará ouvir o despertar dos pardais, por quanto tempo mais? Os regimes repressivos esquecem-se de uma coisa muito simples: quanta mais repressão e terror, mais resistência criam, e originam o estado latente de revolta na população. Até que chega o ponto ómega limite. Não é assim que sempre sucede? E a conversa é sempre a mesma: de que somos os garantes da estabilidade, e a ameaça revolucionária de que «Há que se ter cuidado para ninguém confundir as coisas». Que somos um país com um governo democraticamente eleito com quase cem por cento de votos dos eleitores nas urnas, etc., etc. O Egipto era muito poderoso, e o seu ditador não imaginava tal coisa, e aconteceu, sempre acontece. Neste campo de concentração, qualquer chefe de campo é garantia de estabilidade, numa revolução sempre em marcha de quase cinquenta anos, que os chefes não sabem como vai acabar, mas nós, os sem futuro, sem terra, sem casa, sem petróleo, sem diamantes, enfim, os desta cabana do Pai Tomaz sabemos. Mais, os prisioneiros neste arame farpado, sabem-no muito bem. Nas câmaras dos palácios ouvem-se com deleite as notícias palacianas. Nos miseráveis guetos, escutam-se os noticiários especiais das ruas, dos esgotos na companhia inseparável dos ratos. E este é um palácio com milhões de deserdados, esfomeados, sempre em prontidão combativa. São eles que depois dominam as ruas da miséria, e fazem o poder soçobrar. Os países não dependem de pessoas, dependem isso sim, da justiça das suas leis. Se a justiça funciona, tudo bem. Se em contrário, as pessoas que governam, os corruptos, o fazem falsamente para enriquecerem, e como tal, mais dia menos dia, vergonhosamente cairão. Atente-se no alerta do «Canalmoz canal de Moçambique. «É preciso que se entenda e se compreenda em todas as suas consequências que governar não é exactamente o mesmo que ser comissário político ou especialista em retórica e demagogia. Impõe-se repensar profundamente o que significa governar um país. O compadrio e a auto-protecção vigente entre os regimes da África Austral não vai ser suficiente para travar os ventos da mudança. Os cidadãos estão manifestamente esgotados e já não aguentam mais tanta sujeira governativa».
O desejo que não se sente, permanece insensível. Os nossos sentidos, perseguidos pelas vendas do sistema inconsciente, cumprem, compram de acordo com as instruções programadas da ditadura. Há muito que deixámos de ser quem somos, seguimos numa estrada ao ritmo do consumo da imposição que os nossos sentidos só distinguem, uma direcção: o rumo do conhecido, porque do desconhecido nada sabemos, porque não nos deixam. Receiam que o lado misterioso da vida surja e nos revele a verdade. Aqueles em quem votámos conduzem o nosso destino para o grandioso Vale da Morte e da Miséria. E ainda acham que são iluminados, garantes do nosso quotidiano e do nosso futuro. E continuamos neste marasmo porque nos cercearam os segredos das pirâmides. E já não sabemos construí-las. Cada vez mais nos limitam, nos roubam o tempo, até que fiquemos irremediavelmente sem ele. E depois, que faremos? É possível viver sem tempo?
A mãe acariciava a cabecinha da sua tenra filhinha, mas não conseguia que ela parasse com o choro. Não, não tinha fome, também não estava doente, estava sã, bonita como a sua progenitora. Mas, porque não parava ela então de chorar? Já se tinham vasculhado e debruçado muitos médicos com as suas medicinas, mas nada. Até que desencantaram um médico místico, desses que alcunham de malucos, mas maluco hoje em dia é quem sabe das coisas, e ele, num ápice curou-a. A doença? Era mais uma vítima da epidemia desta civilização ditatorial.
Descansar, navegar, andar, e sonhar o amor, como num rosto feminino de donzela a jardinar no perfume jasmináceo. Com amor nasce uma mulher e um jasmim. E os seus perfumes enaltecem-nos, porque com amor a nossa mãe nos gerou. E com amor serás sempre mãe, e nunca te lamentarás. Com amor serás universalizada, imortalizada, e pelos jasmins libertada.
Hércules é a força, os partidos políticos são a farsa, a nossa forca. A nossa fraqueza reside na actual classe política da democracia bancária e petrolífera.
Sais de casa, entras na rua e nela te perdes. E no entanto caminhas por instinto, como todos fazem automaticamente. E nessa ruidosa agitação não consegues pensar, essa função primordial, fundamental das nossas aspirações ultrajadas. Movemo-nos sempre nas ondas revoltas do mar multitudinário, sem tempo para amar, sem tempo para sonhar. Apenas para lamentar o passado, na esperança que finalmente inventem a máquina do tempo, e nela viajemos no infinito do amor e do sonho. Está muito difícil reencontrar o amor, porque o diabolismo espreita-nos, espera-nos nos penhascos dos palácios. E te augura: sem amor nunca serás minha, nem de ninguém, nem de ti.
Há muito que o dinheiro do petróleo destrói Angola e os angolanos. Há muito que sabemos que errar é humano, mas errar com o dinheiro da ditadura do petróleo é muito desumano. E nos seus discursos, os nossos bajuladores-peritos das relações internacionais lembram-nos o Estado Novo dos antigos ministros das colónias. Como as obras da ditadura chinesa que não duram muito tempo, os materiais são de má qualidade. E aprestam-se aqui como novos colonizadores autorizados por quem de direito. Chegam nas mulheres que vendem cigarros e ameaçadoramente exigem-lhes dez kuwanzas por um maço de cigarros que custa cem ou duzentos kwanzas. Agem com total desprezo pelas cercanias das suas obras em construção. No afã de despacharem o trabalho, atiram, desviam a saída das águas para a vizinhança. Facilmente se adivinham os prejuízos materiais e mortais das chuvadas.
O que faremos de uma igreja ainda de concepção medieval? E enquanto nos palácios os ditadores festejam, nas ruas as populações abandonadas na miséria revoltam-se. Há tempo para o Senhor amar, e tempo para as ditaduras derrubar. Viver numa ditadura, é como caminhar numa noite terrivelmente nebulosa. Todos os caminhos esburacados, abandonados, onde a miséria impera, conduzem-nos à abominável tirania da ditadura, ao nosso futuro asfixiado. Viver sob a ameaça constante de qualquer ditadura, os nossos pés tropeçam nos cadáveres assassinados dos opositores políticos, ou apenas dos de delito de opinião. A independência ainda não chegou, apenas mais se escravizou. Quando uma ditadura que se diz democrática, e se reforça no socialismo cientifico, promove a proibição de manifestações pacificas, e envia todo o seu aparato policial e militar repressivo para as ruas, significa que está em pânico, e o seu fim, como é óbvio, está com os discursos contados. E o notório das ditaduras é o apoio que as democracias lhes dão. E então, quando naquelas ditaduras especiais do petróleo, onde se implantam democracias fantasmas. Ó ditaduras e reinos! Da maneira que as coisas estão, pela banda não é muito difícil perceber o que em seguida vai suceder.
Os ventos da nossa alma: e por entre tempestades se movem ainda os nossos anseios subjugados, milenarmente destroçados. E no poder insistem bárbaros ditadores que nos fecham nas masmorras odientas em nome do amor. Mas os ventos sopram os ditadores para o seu local de origem: o Inferno. Que estranho, até as flores se regozijam na sua beleza liberta. O Sol libertou a sua luz e os insectos renovaram o seu trabalho de adoração floral. A Natureza comovida abraçou-os e reiniciaram a dança do dia-a-dia. E todos se extasiaram, festejaram. Rápido, o fim do dia aproximava-se, o Sol escondia-se. E já todos cansados, regressaram aos seus locais de descanso. A seguir outro dia virá, e outra vez se festejará.
Sim, a festa do terror que nunca falta em Luanda: Polícia antiterror ao ataque. No dia 21 de Janeiro, cerca das dez horas da manhã, nas imediações do Zé Pirão: Sem garantias de empregos, sem direito a um kwanza do petróleo, apenas o direito à mais inescrupulosa escravidão, os jovens vendiam óculos para sobreviverem. A polícia antiterror atacou-os, destruiu-lhes os óculos e prendeu-os. Os que roubam o erário público e as suas empresas que sistematicamente fogem ao fisco, a especulação imobiliária criminosa, esses estão felizes da vida. O nosso futuro é cada vez mais incerto. O que nos acontecerá, ou virá a seguir? Outro Vesúvio, certamente.
É importante não esquecer que Angola ainda não tem contabilidade organizada. É intencional, claro. Ora, como inexistente é fácil roubar à vontade. Convém notar que o poder tudo faz para que a contabilidade não funcione. A que existe não passa de uma brincadeira. E o dinheiro desaparece muito facilmente sem ninguém dar conta. Só depois quando se está com a corda no pescoço, alguém aparece a dizer que estamos muito mal de finanças. O que é muito elementar, tipo creche. Estamos bem entregues e muito mal tramados. Trinta e dois anos sempre com as mesmas pessoas, sempre com os mesmos discursos. Não resolvem nada, muito pelo contrário, tudo piora, se complica.
Quanto à Igreja, se ela quisesse, há muito que este poder nos deixaria em paz. Mas não, a Igreja bebe e come do mesmo prato petrolífero. O petróleo também é uma religião. E não se pode servir a dois onshores e offshores ao mesmo tempo. Isto é, a mais estas duas ditaduras: deus e petróleo.




quinta-feira, 31 de março de 2011

O coro dos caídos nesta jangada à deriva


Da nossa Torre de Pisa, o agora prédio CUCA, que oscilou devido às obras no mercado do Kinaxixi, onde a empresa que efectua trabalhos para mais um shoping, essas e outras coisas para novos-ricos, retira toneladas de terra que provocaram um desabamento e originou a fuga desesperada dos seus habitantes, mais de cento e sessenta apartamentos.

Gil Gonçalves

Ocorre-me que noutras obras, de todas (?), houve, há, a intenção de ao retirar terra, os edifícios próximos ameaçarem desabar, e forçar o evacuar. Assim conseguem-se mais terrenos para outras construções dos excelentes amigos especuladores imobiliários. Mas Salazar fomentou a construção de moderníssimos bairros para pobres a pagar em vinte anos. Um exemplo: O bairro Olivais-Sul nos arredores de Lisboa, e as habitações lá continuam ainda impecáveis.
Uma saudação especial para os nossos Gbagbos, que derrotados nas eleições da Costa do Marfim, impedem infantilmente que os democratas Ouattara obtenham o que ganharam no voto democrático. Os impérios empresariais sempre no poder em nome de um qualquer movimento de libertação, são o maior erro que a África cometeu. É como uma cidade que passa a depender exclusivamente de geradores de energia eléctrica para sobreviver, é o estertor final da ditadura que a sustenta. Ó Costa do Marfim, ó África, ó Angola, sem mais caminhos porque todos os vossos destinos estão intransitáveis na divina tragédia. Não é possível que estejamos em 2010, até a nossa máquina do tempo corromperam e nela retrocederam.
O meu imortal amigo José Afonso recorda-me no seu Coro dos Caídos:
«Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia.»
Que a força verde da vegetação esteja sempre contigo, e que o sol dos teus sonhos te contemple. Infelizmente os muitos dias maus arrastam os bons. Põe todos os dias dos teus sonhos em dia. Luta sempre, sobretudo evita que as ditaduras, outra vez democráticas, nos escureçam a mente. Um rosto feminino, vejo-o sempre muito atraente como a espuma do mar na vida a saltar. Para onde olho, quero que também olhes, vejo tudo, esplendor de verde.
As vendedoras do Roque Santeiro, transferidas para o Panguila, bazaram, aquilo não dá, e andam por aí a vender nas ruas, de andar nas ondas dos solos poeirentos, que somam mais doença das vias respiratórias sob o inclemente sol no filho às costas que mais parece uma torrada, e da intolerante perseguição seguida de arresto pelas feras humanas nas vestes de fiscais. Onde a miséria impera, vale-tudo para negócio. Isto não é uma independência, é um monstro feroz que nos devora a todo o momento. E quem defender os fracos dos fortes, é fora-da-lei?
Faltava ainda o tempo necessário para mais um dia de final trágico no largo da Sagrada Família. Um condutor circunda o largo e sinaliza para dois jovens numa motorizada que efectuam a habitual manobra perigosa, ultrapassar pela direita. Os jovens não gostaram, só compreendem o que lhes ensinaram em trinta e cinco anos, destruir. Saltam rápidos, e possessos de fúria apocalíptica partem o pára-brisas do estuporado condutor que compreensivelmente aterrorizado não esboçou o mínimo gesto de defesa, porque se arriscaria com toda a certeza a levar um ou mais tiros. Da muita assistência presencial ninguém ousou intervir. Mas existe ainda alguém com coragem para defender indefesos nas actuais circunstâncias?
E o pastor enfatizou na crente para tirar fotografias de toda a família para ele, quando viajar, levar para o Sinai, e que lá serão absolvidos de todos os pecados. Quando os corruptos e os bajuladores souberem disto, então é que vai ser. Mas o historiador Carlos Pacheco na VOA, defendeu a criação de um tribunal internacional contra a corrupção para julgar dirigentes corruptos “de onde quer que eles sejam”.
Cá na banda temos outra banda larga da energia eléctrica, da água… e da Internet
O mano Reginaldo Silva, agora apelidado pelo outro mano Salas, de Patrulheiro do Morro, denunciou no seu morrodamainga.blogspot.com que: «INTERNET: A nossa "banda larga" está cada vez mais estreita, mais lenta e mais intermitente... Disseram-me que o problema está na capacidade actual do único "back-bone" da Angolatelecom, que já não chega para as crescentes encomendas. Alô? É da Angolatelecom?»
A água já há muito flui como a Internet. Em Luanda, na Pomobel, ao Zé Pirão, a Teixeira Duarte SA, rebentou com a água e a energia eléctrica. Há meses que a água corre pela berma da rua e já apresenta o que serão futuras e brutas crateras. Os fiscais por aqui desandados limitam-se apenas a perseguir os lavadores de carros e as zungueiras. Mas a Teixeira Duarte SA não, porque são sócios do banco Millennium Angola e da Sonangol… todos intocáveis. Não são parte da solução, são parte da destruição.
Na energia eléctrica, o maior erro que a EDEL-Empresa de Distribuição de Electricidade de Luanda, comete, é o abandono da manutenção interna dos edifícios na coluna montante. Quando os fusíveis queimam, o que é frequente devido às normas selvagens de convivência instituídas pela actual conjuntura, qualquer curioso vai logo repará-los… coloca-lhes um monte de fios. As consequências disso são: desequilíbrios de fases que provocam incêndios, mortes, e o cambalacho de colocar empresas privadas que facturam exorbitantemente pelo serviço que deveria ser gratuito, prestado pela EDEL. Entretanto seguimos na desgraça de mais um mês de cortes… sabotagens, efectuadas pelo nosso “inimigo”. Dêem-me energia eléctrica e dominarei o vosso mundo.
Havendo meia dúzia de ricos, desses que todos sabemos como enriquecerem e enriquecem, e a população na digna extrema pobreza, isto é que é a verdadeira miséria. Eis as nossas multidões sem história, de mãos estendidas, ávidas na desesperança da fome. Dantes, para se libertar, o mwangole lutava contra o branco. Agora para se libertar, o mwangole luta contra o mwangole. Porque a igreja não rasteja como um réptil. Arrasta-se na vil condição desumana. A igreja perdeu os pastos e os repastos. A igreja move-se nos tentáculos da corrupção divina e terrena. E o Canalmoz/Canal de Moçambique, desmistifica os que juram todos os dias que são os nossos melhores amigos, quando na realidade são os nossos piores inimigos:
«Um dia pede-se transparência, outro dia assobia-se para o lado perante as mais aberrantes formas de corrupção nítida (...) É por demais sabido que já não se consegue provar nada no meio desta máfia que se instalou. Mas consegue-se perceber. É quanto basta (...) Os maiores suspeitos de corrupção em certos países europeus estão a aparecer em Moçambique em lugares de destaque em certas empresas. Porque fugirão eles para Moçambique? E por que razão até aparecem colados às mais altas figuras do Estado Moçambicano? Quando os corruptos estão debaixo do nariz serão precisos mais seminários para se acabar com eles? Porque se andará sempre a falar mal dos chineses se os moçambicanos não têm motivos fortes para concluírem que os chineses são mais corruptos que os outros que se querem fazer passar por santos? Onde difere a abordagem de certos doadores da dos chineses quando se trata de negócios?»
Angola vive no sabor da metralha, no caminho retrógrado de uma civilização que não existe, que se inventa. Angola está a ser retalhada como na conferência de Berlim. E serve muito bem para a venda a retalho. Com tal violência espoliadora e de ruínas habitacionais dos ataques militarizados, em Angola a guerra ainda não acabou. O inimigo principal é a população. A arte de bem governar, é investir massivamente no analfabetismo das populações, para depois facilmente demolir-lhes os casebres e espoliar-lhes as terras. Reduzi-las ao zero da pobreza inimaginável. Quando as populações se extinguirem, nascerá então um novo governo com um PIB exemplar, o maior de sempre na história da economia. E um governo que incita e usa a violência contra as populações, está isento de julgamento e condenação? Porra! Mas que ditadura ferocíssima. Que nova raça de cães ferozes são estes? Em que laboratórios os criaram, ou foi uma experiência mal sucedida?
Avante, comité de especialidade das demolições! Mas que aberração é narrar este horror! No campo de concentração de Auschwitz a água e a energia eléctrica não faltavam. Os prisioneiros não dormiam ao ar livre. Nos modernos campos de concentração de Angola nada disto existe.
Angola está a ser invadida por democratas. Angola carregou um navio gigante para navegar no mar da corrupção. Angola é um armazém de ratos. Angola parece ser o único país do mundo que mais investe na manutenção das redes de abastecimento de energia eléctrica, e mesmo assim está sempre a desligar a rede para trabalhos de manutenção. Todos os dias ouvimos a propaganda oficial garantir-nos que a nossa vida vai melhorar, os ratos batem as patas e saltam de contentes, outra nova vida espera-os. E depois do: «vamos fazer de Angola um canteiro de obras» nasceu mais um impropério: «vamos demolir, fazer de Angola um gigantesco lençol de ruínas»
Qual é a actividade principal das companhias petrolíferas? Poluição e consequente destruição dos mares e das terras. E depois da energia eléctrica demolida, a água… toda a Angola, de modos que nada mais reste, excepto os exércitos de ratazanas.
Eles querem lá saber se temos ou não energia eléctrica. Enquanto o petróleo lhes servir, o resto que se dane. É uma visão da ortodoxia angolana. Esta independência sem energia eléctrica, não tem qualquer utilidade. A não ser que seja para imitar o Robinson Crusoe. Ah! Assim está muito bom! Ou a solução de navegar num mar de idiotas nas demolições naufragados. Angola, apesar de ser o principal exportador de petróleo do Golfo da Guiné não tem energia eléctrica confiável. Pergunta-se: então para que lhe serve o petróleo?! Perguntem à hipocrisia ocidental, que ela sabe a resposta. Quando a principal ocupação de um governo é demolir habitações das populações… é um governo com muita actividade sísmica de grau devastador. Até a luz demoliram, enganaram-se, pensaram que eram casebres. Demolir casebres, é o primeiro mandamento da intolerância zero desta independência interminável.
Seguem pelo caminho mais fácil, a demolição dos casebres. Porque difícil é edificar energia eléctrica. Escravos engravatados escravizam escravos esfarrapados. Dantes chamaram-lhe luta de libertação, a luta está mais revolucionária. Alterou o nome para: luta da demolição de Angola. Luta da espoliação, dos desabrigados, dos abandonados e dos esfomeados. A luta de libertação exacerbou a escravidão das populações, finalmente livres… nos campos de concentração do comboio angolano da estalinista devastação. Mas quando é que Angola será independente? Como não há nenhuma organização da sociedade civil, ou partido político que organize uma manifestação, ou uma greve, a questão é da liderança que ainda é muito incipiente. Parece que os protagonistas apenas pretendem protagonismo, vaidade política para quererem dizer que também sabem atirar umas bocas. Nesta singular situação, resta-lhes, resumem-se à condição de escravos. É costume, um filme sem acção perder o interesse dos espectadores.
De manhã, bem cedo, os taxistas voam tal e qual uma esquadrilha de caças- bombardeiros. Alguns são derrubados e serpenteiam no solo. Os ocupantes raramente escapam ilesos de tais acrobacias. Se tudo o que se aprendeu ao longo da vida e do tempo não se conseguir aplicar na prática, então não valeu a pena, porque não se aprendeu nada. Depois de quase cinquenta anos com o mesmo poder, Angola ufana-se. O poder não se apercebe que a população extinguiu-se, e no seu lugar nasceu um exército de delinquentes desesperados. O poder não se sente corroer, rapidamente se autodestrói. E os escravos não se libertaram, outros gradeamentos esperam-nos. E como nos encanta Sílvio Rodriguez: matou-a, a cobra, e aparece outra maior.
Que luta pela liberdade foi esta se ainda não conseguimos o fundamental de qualquer sociedade: a liberdade de imprensa conforme demonstrado pela 1ª Cimeira multipartidária dos Partidos políticos na oposição: «Proibidos de publicitar em órgãos “ditos hostis”. É notória e deixa-nos a percepção quase indubitável que subtilmente, os bancos, empresas, empresários nacionais e estrangeiros, foram proibidos de deixar publicidade nas publicações privadas, sob pena de verem seus contratos rescindidos ou obstáculos erguidos nas suas actividades. Segundo constam, paira nesse mundo empresarial uma nebulosa de medo em fazer passar publicidade de suas empresas ou projectos, nos jornais que se identificam com a crítica politica, social e governamental.»

Imagem: valiteratura.blogspot.com

quarta-feira, 30 de março de 2011

Monangambé. (Nova versão)


Sem oposição real, não há nenhum interesse em manter instituições democráticas em funcionamento, porque são de fingimento.
Triste desfecho o do povo angolano. Perecer, viver como as moscas e como elas incomodar.

Gil Gonçalves

Este é o nosso tempo momentâneo das fissuras do analfabeto chinês.
Quem depende de outros povos para trabalhar – até na agricultura (?) – nunca conseguirá a liberdade. Daí que Angola é o celeiro da miséria.
Isto já não é Angola, é uma coisa vazia, sem conteúdo.
Quem não lê livros, é escravo daqueles que os lêem.
Só um governo ilegal comete ilegalidades.

E as populações lamentam-se do desespero libertador, ainda mais opressor: «Mas os colonos não nos faziam isto!» quer dizer: libertar é o prolongar, o espoliar até nunca mais se fartar.


Monangambé

Naquele palácio presidencial grande bombeia-se petróleo a rodos
é a espoliação do meu corpo que o rega:

Naquele palácio presidencial grande tem diamantes
negros
são gotas sanguinolentas dos meus casebres espoliados.

O petróleo está sempre bombeado
armazenado, e eu, torturado,
vou ficar bem negro, negro da cor do petróleo contratado.

Negro da cor do petróleo contratado!

Perguntem às zungueiras e à tortura
do seu peregrinar,
e às ruas do triste serpentear
e ao vento fantasma dos campos ao abandono:

Até o dormir este governo nos proíbe. E quem é que vai às tongas abandonadas?
Quem escoa os produtos que intencionalmente
se deixam apodrecer nos campos?
Só carros de luxo, e onde pairam os cachos de dendém?
Quem rapina e em paga recebe milhões de dólares?
e nos paga desdém?
Até a fuba podre e o peixe podre nos espoliam,
Sobrevivemos dos andrajos importados
"milhares de casebres destruídos e porrada se refilares"?

Quem?

Quem faz o petróleo enegrecer
e o diamante florescer
- Quem?

Quem dá dinheiro para os corruptos comprarem
bancos, empresas, amantes, casas de milhões de dólares
e cabeças de pretos ao abandono nas tendas Zangadas?

Quem faz estes corruptos prosperarem,
Angola só para eles e prisões para nós?
- Quem?

Perguntem às zungueiras e à tortura
do seu peregrinar,
e às ruas do triste serpentear
e ao vento fantasma dos campos ao abandono:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos vender qualquer coisa na rua
para sobreviver
Deixem-me beber, beber até morrer
naquele palácio presidencial grande
negro da cor do petróleo contratado.

- "Monangambééé..."

Imagem: torredahistoriaiberica.blogspot.com

terça-feira, 29 de março de 2011

“Legalização” privada da ilegalidade


Na semana passada fizemos uma breve alusão aos atropelos alegremente perpetrados pela empresa de Segurança Privada SEGASP, com sede em Viana, vila satélite de Luanda, que trouxe de fora das nossas fronteiras, afirmámos, curiosos métodos de gestão dos recursos humanos. Insistimos esta semana por ter havido omissão pelo menos de dois aspectos muito importantes que não podemos deixar passar sob silêncio. É que, à parte o facto de terem que satisfazer todas as exigências, por vezes excessivas, do chefe do responsável dos Recursos Humanos, Paulo Miranda – não o da Rádio Luanda, mas um cidadão português – os horários pesados, a fatia de pão com margarina como refeição única para 24 horas de serviço, o perigo de vida sempre à espreita e um salário ao fim do mês que não passa de 20 mil kwanzas, os seguranças da SEGASP têm não só o perito expatriado à perna, mas também nem sequer têm direito ao que têm realmente direito, isto é, a subsídios de férias e 13º mês. Tirando que à parte isso eles por vezes recebem uma esmola de 5 mil kwanzas ou coisa parecida por essa altura. Ilegalidade em toda a sua pujança angolana, sem controlo, sem inquérito algum e sem sanções.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (10). António Setas


Por razões que não identificava, senti que “alguém” queria impedir que me fossem revelados os segredos maiores do kakulu. Um dia, que fomos comer uns cacussos ao Cacuaco - estava a equipa completa - a Lena, a Lia, o kota Kiala e eu -, atrasámo-nos depois do almoço a falar da necessidade de preservar as nossas raízes e defender as tradições legadas pelos nossos antepassados. A um dado momento o kota disse uma frase que me marcou para sempre, nunca mais a esqueci, «As tradições antigas, a nossa religião, a uanga e os seus rituais, são absolutamente indispensáveis à afirmação da nossa identidade africana, banto e negra, mas podem nos trazer alguns inconvenientes graves, podem mesmo ser perigosas». A frase ficou assim no ar por cima do silêncio que se instalou, até ao momento em que eu lhe perguntei quais eram esses inconvenientes e perigos. Ao nosso lado estavam a Lena e a Lia a falar dos segredos do pastel de nata e da massa folhada, distraídas da conversa, e o kota, depois de lhes ter lançado uma mirada rápida e constatar a distracção que as afastavam do nosso diálogo, quase me segredou que havia ainda nos nossos dias muloji, feiticeiros, que organizavam sabbats secretos em terrenos reservados. Fiquei na mesma, porque não sabia o que significava a palavra sabbat, nem percebia o que queria dizer “terrenos reservados”. E o kota, que bem sabia que eu não sabia, explicou-me que o sabbat é uma cerimónia que tem lugar sempre num sábado de lua cheia em presença de “feiticeiros” ou “feiticeiras”, num sítio bem determinado, à meia-noite, e na qual se apelam forças ocultas: Pãs, alguns espíritos bons, chamados para acudir às doenças ou às dificuldades da vida, mas também Luciferes e outros príncipes das trevas, espíritos, génios e divindades maléficas, no fito de justificar actos que o menos que se possa dizer deles é que não são dignos de seres humanos. A verdade é que em alguns desses sabbats pratica-se ainda hoje a antropofagia. E, enquanto as “nossas mulheres” continuavam a falar de culinária, o kota explicou, «Trata-se de tradições antiquíssimas que ainda hoje se realizam em muitos bosques e florestas do mundo inteiro. É verdade que a África é actualmente o continente em que mais se praticam rituais desse tipo, digamos, campestre. E como não, se o colapso que se deu na nossa história e a maneira como ele foi vivido nos diferencia do resto do mundo? Esse salto repentino para o que os europeus chamam o Renascimento, da azagaia para o arcabuz e o canhão, faz com que nós estejamos fatalmente mais próximos dos rituais animistas celebrados à vista de toda a gente na pré-história da humanidade. Assim, o que nessa matéria passou a ser kijila, proibido em Angola há cem ou duzentos anos, em certas províncias nem isso, foi proibido muito antes noutras latitudes, por exemplo, na Europa foi há coisa de mil anos. Mas nenhum interdito impediu que vestígios desses rituais tenham resistido ao passar dos séculos e existam ainda hoje. Um amigo meu, um português que foi preso pela PIDE e depois ficou a viver em Luanda, contou-me que ainda aqui há uns anos, nas serranias isoladas de Trás-os-Montes e da Beira realizavam-se cerimónias rituais cujas origens datam do tempo dos Iberos e dos Godos, quer dizer, coisa de dois ou três mil anos atrás. E factos desses foram relatados por um dos mais ilustres escritores de língua portuguesa de sempre, Aquilino Ribeiro. Por exemplo, contou ele, perto da casa dos seus pais, em Ferrães, uma aldeia nos contrafortes da Serra da Estrela, realizavam-se sabbats numa clareira do bosque que começava no fundo do quintal. Ele próprio foi curado de uma hérnia nessa clareira.
“Tiraram-no da cama já noite feita, saíram de casa e levaram-no ao colo até ao bosque. Com ele iam pai, mãe, avó, os empregados da casa e gente da aldeia. Caminharam até chegar à clareira e estacaram. O homem do ofício, o feiticeiro, curandeiro, fosse lá o que fosse, cortou com uma faca o fuste dum carvalhiço ainda tenro ao meio, no sentido longitudinal, fez força com as mãos para separar as duas partes assim obtidas e continuou a fazer pressão até formar uma elipse. À meia-noite, nem minuto a mais, nem minuto a menos, começou a cerimónia. O rapaz, o meu amigo, que nessa altura devia ter uns dez ou onze anos, foi erguido à força de braços, passaram-no para os do cura pagão ou lá o que era, depois passaram-no para os braços do pai e da mãe, fizeram-no balançar de um lado para o outro enquanto o cura a andar em seu redor fazia as suas preces, deitaram-lhe para cima do corpo um líquido cuja composição era secreta, e em seguida fizeram-no passar pela fenda elíptica do carvalhiço fendido. Receberam-no do outro lado, estenderam-no no chão, por cima dum pano ali posto para o efeito, e cobriram-no. A terminar o ritual, o “feiticeiro” português reajustou as duas partes do fuste que tinha sido fendido, botou barro à volta e ligou o tudo com vimes e tiras de pano tosco. E disse: “Se o carvalhiço soldar, se não morrer e vingar, o menino também soldará”. Era o que toda a gente esperava, para que a hérnia também solde, senão...Mas a árvorezinha mártir vingou, e ele ficou curado».
A Lena e a Lia estavam agora de orelha espetada a ouvir, e o kota Kiala esforçou-se para que a conclusão fosse educativa, «De qualquer forma, tal como as portuguesas, ou outras quaisquer, as nossas raízes, por mais fortes que sejam estão condenadas a sair dos usos e costumes, é fatal. Não é contra tal oráculo que devemos lutar. Devemos sim, ao invés da maioria dos países modernos, respeitar os mistérios que elas albergam, preservar do esquecimento a seiva dignificante que delas nos vem, e continuar a praticá-las nos terreiros que são delas, sem prosápia nem vergonha».
Neste preciso momento, o kota calou-se, olhou para mim com olhos muito abertos e perguntou-me, «Rui, diz-me por favor, porque é que alguns de nós, angolanos, sobretudo muitos dos que fazem parte das elites mais requintadas do país, têm vergonha das nossas tradições? Porque é que não veio ainda ninguém clamar alto e forte, para o mundo inteiro, que as nossas tradicionais relações com o “Sagrado” são tão dignas de respeito como as que deram origem às “grandes religiões”, como o judaísmo o cristianismo, passando por todas, todas as outras, desde os muçulmanos aos hindus, budistas e zens, animistas de toda as espécie?...Olha, e que fique bem claro na tua cabeça, Rui, todas essas religiões a um dado momento da sua história recorreram a sacrifícios rituais, muitas das vezes envolvendo vidas humanas. Todas, Rui, todas! Temos o privilégio de possuir as mais antigas raízes da humanidade e sermos um dos povos que mais próximo estão delas. Guardemo-las. E mostremos ao mundo, que tem a memória curta, que é de tradições semelhantes às nossas que todos os povos provêm. E um dia, daqui a dez, cem, mil, ou mais anos vá-se lá saber, se não houver mais lugar para tradições algures, nós não, devemos continuar a guardar as nossas na memória colectiva e transmiti-las às gerações vindouras. De qualquer maneira uma coisa é certa, se esse for o caso, os vestígios das nossas raízes ainda serão raízes. E acredito que nunca morrerão».

Chegou o dia marcado para o kakulu. Partimos de madrugada para a Barra do Kwanza, a Lia o Luisão e eu, no carro do pai Faria, que se tinha proposto a dar-nos um empurrão não sem prevenir, «Levar, levo, mas depois vocês desenrascam-se para o regresso». O pai Faria tinha casa na Avenida e ia à missa, mas respeitava as tradições e de vez em quando até lhe acontecia ir ao kimbanda. Isso fica aqui entre nós. Era um tipo “fixe”, como se costuma dizer. Pelo caminho, o meu pai falou muito com a Lia para compensar a frustração que a entristecia e contou-lhe à sua maneira como era o kakulu antes da chegada dos portugueses. O pai Faria sorria sem parar, não sei se de satisfação se a zombar, enquanto eu, de caderno na mão -«Estejas onde estiveres o que te pareça interessante anota», tinha dito o kota Kiala -, anotava tudo o que o Luisão contava sem largar a Lia dos olhos, que, queda e muda, ouvia. Ouvia e não se fartava de fazer perguntas, porque na descrição que o meu pai fez não só havia muitos termos em língua kimbundu, assim como a cerimónia em si não é simples, estende-se por muitas horas, dias pode-se dizer, e o mais importante, as preces, nem delas se podia falar, pois não se sabia o que o Kilamba-Kiaxi iria dizer. Desse modo a sua descrição, por mais fina que fosse, apresentar-se-nos-ia de qualquer modo, como de facto se nos apresentou por sua via, uma linda carcassa esvaziada do seu misterioso recheio. Mesmo assim, mais tarde fiz o resumo das passagens mais interessantes. (Nota 3)
Quando o meu pai terminou, a Lia fez uma pergunta, «E agora também é assim?». O Luisão olhou para ela e só disse, «Vamos ver». Ele viu, nós não. Por outro lado, o kakulu do Kwanza não se ficou pela cerimónia de apelo, preces e pedidos de perdão às yanda. Já depois de tudo ter acabado, estávamos nós em nossa casa sentadinhos à mesa, o meu pai explicou como decorreu a bênção de todas as praias que dão peixe (Nota 4), que teve lugar no Mussulo, no dia seguinte ao ritual do Kwanza, e terminou numa das praias da Samba. Estava consumado o kakulu e esperava-se que houvesse mais peixe nas redes nos dias vindouros. E houve. Quanto ao resto, o melhor talvez seja deixar ao culto das yanda o seu mistério. Aos iniciados o que é dos iniciados, aos leigos a liberdade de pensar o que lhes apetecer.

Acabou a festa, maneira de dizer que por obra do acaso se tinham sucedido dois acontecimentos que marcariam para sempre a minha vida futura, o casamento e o kakulu. Este último marcou-me porque não pude participar nele! Pensando bem, não teria sido pelo facto de ser proprietário de um motor de popa que se levantaram reticências em redor da minha participação ao kakulu? Talvez não, talvez sim. Em todo o caso sentia no meu foro íntimo o elo que me unia à raiz antiga, em despeito do progresso invadir tudo e todos, modificando comportamentos, impondo ritmos que conduzem ao stress e pela mesma ocasião nos levam a olvidar que tudo o que somos, no essencial de nós próprios, no bom e no mau, o devemos ao passado.
De facto, tudo muda. No Bairro dos Imbondeiros, por exemplo, já não era como no tempo do Papá dya Kota. As garinas e os muadiés “natos” casavam-se mais com gente “de fora”, empregavam-se outros meios de pesca, tinhas o telefone, o piloto automático, o sonar e a sonda eléctrica, as casas modernas, a maneira de vestir, de falar, de namorar...toda a conduta tinha mudado.

Imagem: cacussos. lusofolia.blogspot.com

Juventude de Luanda decidida em sair à rua para exigir liberdade de expressão


Lisboa - De acordo com um anuncio que corre nos correios eletrônicos, um grupo de jovens em Luanda escreveu uma carta ao governador de Luanda, José Maria Santos informando que vão concentrar-se as 13h do dia 2 de Abril no largo da Independência para uma manifestação pacifica destinada a exigir a liberdade de expressão em Angola.

Fonte: Club-k.net

Sábado, 2 de Abril de 2011

“Esta manifestação é pacífica e apartidária e está de acordo com a lei, já que foi devidamente comunicada ao Governo Provincial de Luanda no dia 24 de Março, como pode ser visto no documento abaixo. De acordo com a lei 16/91, o GPL teria 24 horas para proibí-la mediante uma justificação por escrito, caso contrário está automaticamente legalizada.” Dizem os promotores da iniciativa numa manifesto cujo teor se segue na integra.

“Somos conscientes de que o clima de medo e desconfiança que se vive em Angola não é propício à adesão das pessoas a qualquer tipo de "convocatória" género. Mas sabemos também que essa é mais uma das razões que justifica esta acção. Num contexto de permanente desconfiança política não há condições para que se desenvolva uma democracia.”

“É tempo de restabelecermos a confiança nos angolanos e que a participação política saia do âmbito partidário, que é um âmbito estagnado e viciado. Tenhamos em conta que há espaço para todo o tipo de opinião na arena do debate livre. Falamos de debate de idéias, de troca de argumentos não em prol de interesses pessoais mas sim em prol de Angola. Não estamos a falar nem de acusações gratuitas nem de uma postura de crítica destrutiva e vazia de argumentos válidos.”

“Interessa-nos relançar o debater e pensar Angola. Queremos que todos os angolanos possam manifestar livremente a sua opinião sobre o país, quer estejam de acordo com as políticas do regime, quer estejam descontentes e discordem dessas políticas.”

“Acreditamos a democracia como sistema político mais justo e que Angola reúne todas as condições para construir uma democracia exemplar em África, devolvendo a soberania ao povo.”

“Deverá ser do interesse de todos os agentes políticos do país, organizações políticas, governo, assembléia da república, presidente da república, meios de comunicação social e principalmente da sociedade civil em geral, defender esta acção pela LIBERDADE DE EXPRESSÃO EM ANGOLA.”

“SÁBADO, DIA 2 DE ABRIL, ÀS 13:00 NO LARGO DA INDEPENDÊNCIA EM LUANDA”

sábado, 26 de março de 2011

Débatte frustrado


O comentário que se segue sai um quanto atrasado pelo que nos auto-penitenciamos, embora as causas desse atraso sejam inteiramente alheias à nossa vontade por se tratar de uma singela espetada de ameaças de morte comunicadas reiteradas vezes por telefones e SMS aos gerentes e funcionários da gráfica que imprime o Folha 8, a executar caso ele saísse à rua no dia 5 de Março. Porém como se trata de uma crítica construtiva e por apreciarmos ao seu justo grau a competência das pessoas por ela visada, aí vai. Na semana antepassada, domingo, 27.02.11, assistimos a um Semana em Actualidade (o nosso pior momento de televisão, tirando todos os outros) deprimente.
Deprimente por termos visto um embrião de debate promissor, mas, infelizmente interrompido pelo jornalista João Pinto. Não é que tenha sido mal interrompido, não é isso, a nossa subjectiva depressão deve-se ao facto de não ter sido possível dar curso a uma… não diremos inédita, mas excepcional e notória oposição de opiniões entre os dois jornalistas tradicionalmente de serviço nessa emissão, Reginaldo Silva e Ismael Mateus. Por esta ocasião quase única de abrir um bom debate em público, ambos perderam a calma, começaram a interromper-se um ao outro e deram uma boa prova de não haver em Angola cultura para debates contraditórios, onde cada um dos analistas dá a sua opinião sem ser interrompido, ou pelo menos sê-lo muito poucas vezes, e responde só depois de o outro ter acabado de dissertar. Nada. Não foi possível, e só esperamos que da próxima vez tudo se passe de modo mais cordato. Para felicidade de todos os que lutam pela liberdade de expressão.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (9). António Setas


Mal tivesse a ocasião a Lia aparecia no Bairro, ficava durante três ou quatro dias em nossa casa e repartia para Porto Amboím, vaivém que se repetiu quatro vezes durante mês e meio. Esta azáfama devia-se à falta de peixe decorrente de uma violenta kalemba de Agosto, nada a ver com a que levara o Belela, contudo causadora de sérios danos materiais, sobretudo a pescadores do Mussulo e da Xicala. Queixavam-se os luandenses, que viam os preços do pescado disparar à toa, queixavam-se as senhoras das salgas, as fábricas e os próprios pescadores, que além dos danos sofridos não viam peixe nem dinheiro a entrar. E foi por essa altura que correu pelo Bairro o mujimbo de que se ia organizar um kakulu, método infalível para acalmar, pedir clemência e ajuda às yanda, porque o mais certo era elas terem sido vítimas de desrespeito intolerável, vá-se lá saber por via de quem.
Entre as pessoas que mais se animaram com a nova estava a Lia. Ela queria ver para acreditar no que lhe diziam algumas pessoas do Bairro, que as yanda são como nós, humanos, vivem entre nós - há quem tenha visto as cidades onde elas habitam -, mas que normalmente só se consegue ver um ou outro sinal da sua existência, luzes, lençóis e fitas de luz com muitas cores debaixo de água. Sabia que elas são ituta, seres espirituais terrestres (ver nota 2), que interferem na vida das pessoas tanto para o bem como para castigar, isso depende das pessoas, do comportamento das pessoas, de muita coisa. Vivem na água e podem encarnar, por exemplo, os gémeos, as pessoas que nascem depois de mais de nove meses de gravidez, ou os que ao nascer já vêm com dentes, são ituta verdadeiros, e mais vale acarinhá-los e fazer-lhes todas as vontades, senão pode haver azar. E não era preciso explicar-lhe que os territórios das yanda são como os das províncias de qualquer país, encostados uns aos outros, com a diferença de que vão do mar ou das águas interiores para a terra firme, e que aí, em terra, elas têm as suas árvores, o imbondeiro sobretudo, mas também outros ‘‘paus de sereia’’, como a matebeira, a musekenya e o ife, isso sabia a Lia. Mas pouco sabia do kakulu, cerimónia organizada em honra das yanda, rito antigo de veneração e reposição do respeito que lhes é devido, mais não seja que pela inegável influência que elas exercem sobre os caprichos do mar. Sabia que o kakulu era a sua mais alta expressão, mas não lhe conhecia a feição, nunca o tinha vivido. E agora, arrancada à sua zona “de fora”, com muita doçura bem entendido, sentia-se um pouco perdida no Bairro, queria saber, fazia perguntas, «Orienta-me», pedia-me ela. Porém, a minha sabedoria sobre essa delicada matéria era de duvidosa origem, dado que os kakulu da ilha tinha-os eu vivido de longe, e quem oficiava eram Ilamba do Cacuaco, ou do Caxito. Debatia-me entre as duas versões, a da ilha e a do Kwanza. Além disso, sabia muito bem que a gente da Samba, da Corimba e do Mussulo, consideravam esses ilamba do norte de Luanda pouco credíveis. De pouco lhe podia acudir. Quem tentou ajudar, embora sem nunca lhe dar a boa nova que ela tanto esperava, foi o meu pai.

Um dia, como não podia deixar de ser, conseguimos enfim falar do kakulu. A conversa já tinha começado antes, não à volta de uma mesa, como bem assenta a qualquer uma, mas à beira da minha chata nova, entregue na véspera, modificada, tal e qual como eu queria, pintada de azul, pronta a ir para o mar. Tinha-se-me metido na teimosa ter um mastro, arranjar maneira de fabricar um dispositivo para montar o mastro e dispor como deve ser todos os aparelhos de segurar vela, cordas e roldanas, todo o necessário para navegar nas calmas. A Lia não percebia nada de barcos à vela e alheou-se um pouco do bate-papo. Entretanto nós, o meu pai e eu, debruçávamo-nos tanto ao próprio como ao figurado sobre o problema, metíamos a cabeça nos fundos da embarcação para ver como montar um reforço que aguentasse com segurança a pressão do mastro, quando a Lia, que não se explicava a razão dos nossos contorcionismos, me perguntou, «Mas que ginástica é essa, Rui?». Ergui-me - o Luisão não, continuou debruçado a imaginar soluções - e expliquei-lhe que era preciso um reforço nos fundos para aguentar o mastro, que sem vela não dava jeito ir para o mar... «Vem até aqui, vem», fez ela baixinho. Pegou-me pelo braço e afastámo-nos, «Deixa-te disso. O meu pai vai te dar um motor...chuutt!, é segredo». Caí das nuvens, «Um motor!!?...», «Sim, um motor de 40 cavalos. Tu não sabes o que é um motor?»...Fiquei muito contente, é claro, dei-lhe uns beijos mais ou menos castos, pois havia por perto uma boa dúzia de mirones, e ela não perdeu o ensejo para me pedir o troco da boa notícia que me tinha dado, «Pede lá ao teu pai que me leve ao kakulu?» Num reflexo intuitivo olhei para trás, vi o Luisão a extrair-se penosamente de entre os bancos da chata e disse, «Quando formos almoçar»
Durante o almoço que se seguiu abordei com pezinhos de lã a importância das yanda no nosso trabalho, a necessidade de um kakulu com tanta falta de peixe, os prejuízos, as kalembas, e a certa altura a Lia perguntou, «Mas há kakulu, ou não há?», E eu, muito depressa, «Vai haver, sim, vai haver, o pai explica». Calei-me logo, não viesse de lá um tradicional «Cala a boca!». Mas o Luisão tinha de facto mudado muito. Além disso ele bem sabia que a Lia se interessava pelo assunto porque no nosso bairro não havia muro que não tivesse orelhas. Olhou para ela com meiguice, todos ele dentes ao léu, e anunciou, «Vai haver kakulu, sim senhora, e tu agora és da família, estás “por dentro”». Calou-se de repente, cobriu-se-lhe o rosto de tristeza, por um pouco não lhe desapareciam os olhos como quando se zangava, mas lá conseguiu subtrair um sorriso do percalço que se aprestava a anunciar, «Tem havido maka grossa com aquela malta da ilha. Organizam kakulu p’ra turista, ‘tás a ver, uma vez até a imprensa lá foi meter o nariz, não pode ser...Este kakulu é o do Mussulo, na Barra do Kwanza. É uma cerimónia de mais velhos. Depois, no dia seguinte, vamos benzer as praias, talvez nessa altura...vai ser difícil. Fica para outra vez, ‘tá bem?». Ficámos tristes. A Lia olhou para mim com ar de quem diz, «Já sabia que ia ser assim»...Mas concordámos, as razões dos mais velhos respeitam-se.

Estava de facto previsto organizar um kakulu. E a habitual colecta já tinha começado algumas semanas antes, pouco depois da kalemba de Agosto. Prolongar-se-ia pelo menos por mais uns dois ou três meses. È que se quiséssemos venerar com justo aparato as nossas yanda, ainda faltava muito dinheiro para poder adquirir o peixe, a farinha de mandioca, as outras vitualhas, os garrafões de vinho, as grades de cerveja, as garrafas de uísque e de cognac, aguardente e cabaças de maruvo, o tudo comprado em grandes quantidades na candonga. Tanto dinheiro, não era em menos de quatro ou cinco meses que se poderia arranjar. Isto sem esquecer os utensílios diversos, os tecidos, os pratos, os copos, as mesas do culto e os ingredientes para a água lustral, o dikoso, antigamente uma mistura de caulino branco, água e noz de coco. Muito, muito dinheiro. Estavam já a contribuir, e continuariam a fazê-lo, os patrões das “grandes redes”, muitos pescadores independentes e a grande maioria das senhoras “natas” ligadas à faina. Os empresários da pesca motorizada e industrial não participavam. Nem tão-pouco tinham sido contactados.

Quanto aos participantes no kakulu, há séculos que são, por assim dizer, os mesmos, os filhos da terra, neste caso preciso os filhos da ilha ligados à pesca, as “famílias natas” residentes no Mussulo e nas terras da baía do Mussulo, até aos limites norte da Samba. Muito mais reduzido seria o número de “famílias” que viriam da ilha de Luanda e dos musseques, “do mato”, que apenas seriam aceites se fossem fornecedores de pescadores às “sociedades” de pesca à rede da zona do Mussulo e da Samba. Porém, desde que entrassem, todos eles sabiam que, participando na cerimónia, seriam bem-vindos, mas que pela mesma ocasião, enquanto se realizava o kakulu, ficariam sujeitos às ijila do costume. Ser-lhes-ia interdito pescar e comercializar peixe, tomar banho na praia, lavar mais de meio corpo, mudar de roupa, ouvir a rádio e ter relações sexuais. Em troca, todos beneficiariam, mais do que os que não viessem, do estatuto de muxiluanda “puro”, assim como das dádivas das yanda.

Contudo, como era de esperar, antes do kakulu teve lugar o casamento. Na Igreja da Nazaré. Confesso que me senti mal no fato que me comprimia. Abria os olhos para o aparato do culto católico como se estivesse a vê-lo com lentes de alcanço, as minhas raízes tremiam enquanto eu esperava a noiva ao lado do altar, e só confortei o meu desânimo ao pensar que o amor a tudo leva e seja onde for que ele nos conduza, sempre prevalece a sua força. Pensei no motor que ia receber e me separava também das tradições antigas, numa corrida às benfeitorias do progresso. E continuei à espera, enquanto ao meu lado o kota Kiala e a Lena, escolhida à última da hora para madrinha, o que lhe ia causando um chelique de felicidade, tremelicavam de emoção, tanto ou mais do que eu. Chegou enfim a noiva, de braço dado com o pai Faria - «A Lia, tão bonita...e o rapaz tão atrapalhado!», diria mais tarde a vó Júlia -, fui para recebê-la, ela deu-me o braço, e avançámos para o altar. Chegou o momento de dizer sim, foi o que fizemos. Demos aquele beijinho, e quando a cerimónia acabou vieram outros com algumas lágrimas, numa grande mistura de sentimentos, alegria, medo do futuro, esperança no futuro, tristeza pela separação perene dos pais com os filhos, todas essas emoções que dão à vida algum sentido.
A boda decorreu no ‘‘Kianda kya anazanga’’, um centro cultural na moda, perto da Xicala. Música, maestro! Veio de lá o Faria e saltaram dos bastidores os quatro músicos que animariam a festa. Comida aos montes; bebidas às pipas; música e dança até ao nascer do sol. Um casamento como muitos outros, alegre e embriagador.
A nossa lua-de-mel - outro mambo do progresso -, qual lua-de-mel qual carapuça!, foi no Bairro dos Imbondeiros, ao lado do motor de quarenta cavalos, sorrateiramente entregue à Lia e agora escondido num recanto da casa.
Para evitar makas relacionadas com o kakulu, que estava marcado para a semana seguinte. Isto, sabendo que não ia participar, agora imaginem se eu participasse.

Imagem: Porto Amboim. fazermuamba.blogspot.com

O Banco Millennium Angola, um banco com câmara de gás… à Nazi


Segundo informações credíveis, que fomos verificar in loco, o Banco Millennium Angola, instalou-se com armas e bagagens nas traseiras da rua Rei Katyavala 109, Zé Pirão, Luanda. Pelo que afirmam as fontes a instalação é ilegal, essa instituição bancária espoliou o terreno, mantêm um gerador que assassina lenta e seguramente para a morte os moradores do prédio e, ainda por cima, têm demonstrado, numa sequência de comportamentos bizarros, uma inquietação, ou interesse incompreensível, por todos os moradores que se encontram nas cercanias “a olho nu”. «Agora, dois mercenários portugueses tiraram cerca de uma trintena de fotos a quem estivesse ou assomasse às varandas dos prédios e demais locais circunvizinhos, como se estivessem numa missão de espionagem (ver foto). Pelos vistos, é o que consta, procuram um pretexto para nos espoliarem o prédio», referiu uma das nossas fontes.
A verdade é que a banca portuguesa está falida, e Portugal também, claro. Agora vêm para Angola reiniciar outra colonização “new look”? Será que não lhes chega a destruição de Portugal?
Olhem que aqui tasse mal, tasse, tasse! A situação económica e social está cada vez mais perigosa. Não acirrem mais os espíritos, porque só de pensar no que actualmente acontece, e a seguir acontecerá, causa arrepios.

Imagem: altohama.blogspot.com


Um ouvinte de estimação


Num destes dias da semana passada, o ouvinte de estimação da LAC, um cidadão chamado Caetano Marcolino, veio à antena dessa emissora, como quase todos os dias, libertar o seu mal-estar. Dessa vez a propósito da situação dramática por que passam certas pessoas que vivem na Samba e sofrem sempre a cada dia em que uma enxurrada mais violenta se abate sobre a cidade capital. Vivendo ele nesse Município, pôde verificar até que ponto se fazem sentir os erros de governação local. Fez pois as suas críticas o que de resto é também feito em “off” por milhares e milhares de luandenses. Mas o mais relevante da sua mensagem não foi a denúncia de uma incapacidade conhecida de toda a gente, foi o facto de se ter revoltado quando lhe disseram que não podia falar assim mal do governo. Ao que ele respondeu, mais ou menos isto.«Falo assim porque penso assim, não digo mal do governo, mas quando o governo faz mal as coisas, eu vejo e tenho o direito de dizer que o governo errou. Agora já passou o medo de falar».
Correcto, Caetano, o medo está a passar. Gostámos de te ouvir.

Imagem: wn.com

Reconciliação de rastos em 2010


No decorrer da Manifestação do MPLA no dia 5 deste mês, os discursos principais resumiram-se a uma lavagem a fundo da imagem embaciada de JES. Como pano de fundo elogiou-se até ao superlativo, como se fosse preciso elogiar, a paz, fervente desejo dos militantes e dirigentes do MPLA. Pouco se falou, ou nada se disse, no entanto, a propósito da fome em Angola, da esperança de vida, da corrupção, da Justiça, do Ensino e da Saúde. Quanto à reconciliação nacional, nada. Felizmente, pois seria mais um rol de mentiras a juntar às enormidades ali emitidas nesse dia. Seriam naturalmente proferidas lindíssimas palavras para fazer esquecer a esse respeito que o balanço do ano passado é muito negativo. Segundo o secretário provincial do Galo Negro no Huambo, Liberty Chiaca, no ano transacto «11 cidadãos angolanos afectos à UNITA foram barbaramente assassinados por motivações políticas. Só no mês de Dezembro registaram-se quatro mortes. As queixas foram feitas, mas a justiça não reage, os tribunais não são independentes, tudo se subordina a uma orientação estratégica de um partido que quer aterrorizar o povo angolano.” foram mortos na província cerca de 11 membros da sua organização. Já o dirigente da UNITA em Benguela, Vitorino Nhany, indicou que, «durante seis anos foram assassinados naquela província cerca de 26 elementos, na sequência dos actos de violência politica».
A propósito, quantos militantes do MPLA é que foram mortos pelos “maninhos”?

Manifestação do MPLA: com uma fizeram três


Tínhamos reservado esta para a semana passada, por erro não passou, mas como ainda é pertinente como observação, reproduzimo-la hoje. No dia 5 de Março de 2010 o MPLA realizou não uma manifestação - chamada “marcha pela paz”, de facto mais uma escovadela monstra ao chefe supremo, JES -, mas sim três manifestações. Uma manifestação de Medo (do povo e de si próprio); uma outra manifestação de Vergonha - com os oradores de serviço a dizer nas entrefrases dos seus discursos inflamados: temos vergonha de não ter dado ao nosso povo o que ele merece, vergonha da guerra em Cabinda; vergonha de manter o nosso Povo na indigência; vergonha de os pobres serem cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos; secretamente vergonha de ser ricos, imensamente ricos e tão poucos que somos, perante tantos pobres; vergonha de ter governado tão mal…; e uma terceira manifestação, de Mentiras - com os oradores de serviço a debitar frases a esconder as entrefrases: esta é uma marcha pela paz em Angola; somos grandes por não haver alternativa de governo sem o MPLA; somos mil, milhões, somos o Povo; nesta Manifestação reunimos 3 milhões de pessoas (Bento Bento); não, éramos só um milhão de pessoas (TPA); não, éramos 500 mil (TPA, no dia seguinte); não, não eram milhões nem centenas de mil, eram entre 20 a 40 mil manifestantes (fonte: um repórter dum jornal de Nova York). Nota final: segundo um estudo sério, teriam sido uma centena de mil, a maioria ali levada ao colo, com promessa de comes, de bebes, e/ou dinheiro à partida!

A Secreta ao ataque do Club K


O Club K nunca esteve em manutenção até aqui há uns meses atrás. Depois, já em finais de 2010, notámos algumas falhas bizarras, entre dificuldades e impossibilidades de entrar no blogue. E um belo dia, mais ou menos pela mesma altura, se não estamos em erro, apareceu claramente um hacker a manifestar a sua presença e a bloquear tudo. Ficámos sem Club k uns dias. E a verdade é que o dito Hacker, que afinal não era solitário, mas sim um monte deles, quase iam dando cabo do “cabaço” do sistema analógico e por pouco que não destruíam os acervos do disco duro, mas nem tudo ficou sanado pois mesmo agora que já passaram coisa de três meses, acontece de tempos a tempos ao abrimos o blogue depararmo-nos com mensagens que parece serem de toda a gente que se possa imaginar menos do club K. Ou então a seguinte mensagem: Oops! Internet Explorer could not find club-k.net - Try reloading: club-¬k.¬net., ou ainda, Search on Google. Brincadeira! O mais engraçado é que as pessoas que tentam sabotar o Club, já identificadas, são ridiculamente impotentes, pois o que fazem é como querer apagar labaredas do Inferno com baldes de água.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (8). António Setas


Continuou, «Limito-me a seguir a lógica. Todos os sábados e domingos estou aqui; durante a semana é pelo menos duas vezes que eu visito a mãe Tonicha... de que me serve a casa do Bairro?, só para eu me chatear com a Mira, que lava mal e porcamente a roupa e faz sempre a mesma comida, peixe com arroz ou fuba, e fuba ou arroz com peixe. Chega!...» Rimo-nos, e ele aproveitou para rematar, «Vamos fazer assim, os pombinhos ficam com casa própria, e eu vou recomeçar a namorar com a minha Tonicha». Virou-se para a minha mãe, que estava ao seu lado, «Não é, galinha?», abraçou-a e deu-lhe um beijo. E a minha mãe, «Você é que manda». Disse-o com um ar sisudo, mas eu bem lhe via a comissura dos lábios viradas para cima nas extremidades, como que aspas de uma palavra que ela guardava muito bem guardada: felicidade.
Fiquei a pensar nas voltas que a vida dá. Lembrei-me da tristeza da minha mãe quando eu era criança e ela ficava sozinha em casa, lembrei-me do cacete do pai a dar-me cabo das costelas, da tia Chiquinha e dos seus mimos, veio-me à memória a sua morte trágica, o óbito, as lágrimas, a Dipanda e os sofrimentos que vieram com ela, e depois passei em revista todas as vitórias que alcançámos na liberdade conquistada, quase todas resultado das lutas do dia-a-dia. Mas para alcançar o quê, afinal?... A resposta estava naquele sorriso da minha mãe, anunciando céu azul e alísios, que nos empurravam de vento em popa para mares mais tranquilos. Era assim que eu pensava.

A semana passou a correr de um lado para o outro, da Lia para o mar e do mar para a Lia. Quando nos encontrávamos ao fim da tarde falávamos de tudo, mas tudo ia dar ao casamento. Ficou decidido que a cerimónia seria no dia dos anos da Lia, daí a uns quatro meses, no dia 5 de Novembro, e que o padrinho seria, caso aceitasse, o kota Kiala. A seu respeito corriam-me no testo duas questões. Uma, se era ou não era do Governo - nunca se ouvia falar dele -, a outra, que relação havia entre ele e a Lena. Nada de importante, mas as respostas tinham o seu quê, porque cada uma delas levantava o véu de jardins secretos, a política e as mulheres, o que significa dizer o dinheiro e o sexo, as duas tetas da humanidade. Mais valia ficar-me pelas dúvidas.
Nesse sábado jantámos em casa dos pais da Lia, o cabelo cortadinho e fatiota decente. E no domingo fomos almoçar à vivenda do kota Kiala, que nos recebeu com alegria, como se já soubesse que ia ser nosso padrinho. A mesa estava posta para quatro pessoas, a Lena almoçaria connosco. Veio um cozido com todos, vinho, pudim francês e vinho do Porto.«Puxa! Nesta casa come-se bem!», pensei. Concluí que o kota era mesmo uma pessoa importante. A Lena encarregou-se de responder à segunda pergunta. Depois das travessas terem sido postas em cima da mesa, legumes, carnes, arroz, e o molho, feito a partir de uma redução de uma boa canja de galinha, tudo separado, a Lena sentou-se ao lado do kota Kiala, toda ela em açúcares para o anfitrião, e ele, suavemente feliz, dava-lhe de quando em vez umas espreitadelas de agradecimento, dúbias, pois muito mais longe do que o agradecimento se adivinhavam os alvos do seu olhar. Na conversa que tivemos à mesa não se falou só do casamento, apesar dos esforços repetidos da Lena, que não se cansava de jurar que nada havia tão bonito no mundo como um jovem casal de apaixonados, que o nosso futuro seria cor-de-rosa e que teríamos pelo menos dez filhos. Com algum esforço desviávamos a conversa para outros assuntos e ela voltava à carga, andámos nisto até ao fim do almoço. A dada altura, no entanto, o kota Kiala meteu o falatório nos carris da Lena, «Afinal, quem é o padrinho do vosso casamento?», perguntou. A Lia aproveitou a ocasião e respondeu-lhe, a atrevida, «É você, tio. Não sabia?». O kota olhou para mim e de imediato compreendeu que se tratava de uma “conspiração’’, um contra dois, com a Lena fazia três, não havia jeito de recusar, nem tal ideia podia passar pela sua cabeça. Levantou-se, eu levantei-me, levantaram-se as mulheres, e abraçámo-nos. Nisto, a Lena foi até à cozinha e trouxe uma garrafa de champanhe francês! «Para os noivos!», clamou.
Não era preciso ser bruxo para adivinhar que a Lena... a Lena só podia ser a cara-metade do kota!

Quando faltava um pouco mais de dois meses para o casamento, o meu pai não esteve para ficar mais tempo à espera da data da cerimónia para me entregar a prenda prometida, uma chata de madeira. Caminhava para os setenta anos de idade e mostrava-me com esse febril anseio de que modo os homens da sua idade podem regressar à infância. E também como são capazes de dar muito mais carinho aos filhos.
A chata tinha sido construída na Samba, e como estava previsto que eu fosse habitar com a minha Lia para o Bairro dos Imbondeiros, concluí que seria boa ideia instalar-me em casa do meu pai algum tempo antes de me casar. Falei com a Lia, que nessa altura andava numa roda-viva, pois o seu trabalho com o pai Faria levava-a a miúde a Porto Amboím, falei com o meu pai, combinámos tudo, e, depois duma festa de despedida em casa do tio Mbala e da tia Londa, instalei-me com as minhas bikuatas nos Imbondeiro. A casa tinha dois quartos e eu passei a ocupar o que deveria ser o da Mira, mas não era, porque ela dormia com o Luisão, o que numa certa medida facilitava a minha vida. De resto, mesmo que ninguém lhe tivesse dado a dica ela sentia que devia haver ninho de besouro no “berço” e multiplicava agora os cuidados e os carinhos ao “bebé”, o meu pai, que passou a beneficiar do privilégio de ter sempre roupa limpa e repassada a tempo e horas, e um ou outro pitéu mais requintado à mesa, caldeirada, cozido, churrasco, ou moamba de dendém, no lugar do sempiterno peixe com arroz ou fuba.
No dia em que cheguei, a chata estava quase pronta. Fui vê-la. Os bancos não me agradaram, eram muitos baixos para a minha estatura; o poço da âncora e o cofre eram pequeníssimos, não queria aquilo assim. Fiz um desenho, que mostrei ao Luisão, e ele estava de acordo. Entreguei o desenho ao mestre e ele aceitou fazer como eu queria, só que esse trabalho implicava custos ...«Pouco importa», cortou o meu pai, «faz o que está aí desenhado, eu pago». O mestre acabou por fazer um bom preço e no dia seguinte começou a fazer as modificações que eu desejava. Instalou-se então uma súbita calmaria na minha vida. Fiquei à espera...da chata, do casamento, disso tudo. Tinha algum tempo livre à minha frente.

Um dia, o Zé, filho daquela senhora que tinha sido morta com a tia Chiquinha no ndongo, convidou-me a ir a uma festa no Ialacolo, que a malta do Bairro frequentava quando tinha vontade de se encontrar com garinas bonitas, que naquela zona havia muitas. Vieram connosco mais quatro amigos do Zé, e eu fiquei surpreendido, um pouco assustado mesmo, quando reparei que dois deles levavam cacetes grandes, desses que servem para fazer a cara num bolo a um peixe-martelo. E perguntei ao Zé, «Levam cacetes para quê?», «É melhor. Às vezes dá porrada. Com os cacetes não tem maka», «Mas ouve lá, um cacete desses mata um tubarão!», «Pois é, Rui, tu não conheces esses gajos do ‘‘musseque da mandioca’’, pois não?...São perigosos, estou a falar. E não são dois ou três quando se zangam, tens logo uns dez à tua frente. Mas quando vêem o cacete ficam sossegados...até dá gosto vê-los», «Mas zangam-se porquê?», «Ciúmes, mano. Temos mais dinheiro do que eles, temos mais garinas. Não te preocupes, não vai haver maka». Lá fomos à festa. Tudo correu bem, à parte uma ou outra escaramuça isolada, mais banga que outra coisa.
Regressámos a altas horas. O Zé trazia uma bonita escurinha, dois dos amigos traziam cada um com a sua “cavalheira”, os outros dois, e eu claro, que não parava de pensar na minha Lia, não tínhamos parceira. Antes de chegar a casa os três casais desapareceram na natureza. Foram trocar ideias e outras coisas mais sobre a maneira de fazer filhos; nós, os solteiros, fomos direitos a casa. Em caminho comentámos a festa, que não tinha sido lá grande coisa... Pois não, as garinas tinham-nos mandado pastar! Identificámos as mais assanhadas, as mais doces, as mais bonitas, que felizmente não tinha aparecido ninguém a opor-se a que a malta saísse com elas, coisas assim. Depois girámos, cada um para sua casa. E, quando me deitei, imaginei o que se teria passado se fosse o contrário, serem os do “musseque da mandioca” a agarrar as nossas garinas na praia. Isso é que era bom, vai masé agarrar a tua avó! Aqui, p’ra agarrar só há redes! Ninguém ia deixar, isso é certo.
Pensava nisso tudo e ria-me, mas no fundo não estava de acordo com essa maneira de agir. Ir até ao território dos outros à procura de garinas e embarcá-las, no meu entender deveria supor que os que viessem à praia em busca de garinas também pudessem sair com elas. Mas não, ali na Samba não era assim. E vinha ao de cima, muito mais do que qualquer “diferença” que nos distinguia dos outros kaluanda, um complexo de superioridade que eu compreendia, mas não partilhava, embora ele se manifestasse numa atitude que pretendia defender a nossa comunidade. Enfim, mais uma pequena kijila própria da juventude. O que me preocupava era a Lia, sempre ausente, por causa dessas viagens a Porto Amboím.

Imagem: mazungue.com