segunda-feira, 21 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (6). António Setas


Chegou o dia da Dipanda, glorioso dia, momento histórico a celebrar com lápide de ouro. Ficou-me na memória a contagiosa alegria de Luanda e de toda Angola. Depois... depois só sei que sofremos, mais nada, tudo o resto esqueci. Era tão pequeno... O que me valia, como a todos os angolanos, era a Liberdade conquistada, a recompensar todos os sacrifícios.
Ouvia então muitas vezes o meu pai falar de fábricas, de barcos e de redes que tinham passado a ser propriedade do povo de Angola. E de facto, nos primeiros tempos da Dipanda foram fundadas cooperativas e até aconteceu o produto do trabalho, o dinheiro, por uma vez na História de Angola, ser distribuído de maneira justa e dignificante entre todos os agentes de produção. Mas, talvez porque haja razões para o afirmar, vem-me o Diabo à cabeça dizer que Deus, já de si avarento de céu limpo, requeira tanto serviço do astro rei que este não chega para dar calor aos homens, o que explica que também o sol da Dipanda tenha sido de pouca dura, e o seu calor por demais efémero para deixar florir tão belos frutos do trabalho.
Rapidamente tudo se foi por água abaixo. Não havia fundos de maneio, alguns deles foram desviados, não havia peças, não havia técnicos, o pessoal do Sul que trabalhava com os portugueses regressou às suas terras de origem, ou procurou emprego nas novas empresas estatais; os barcos foram-se imobilizando, muitos deles afundaram-se, alguns, poucos, foram levados para os estaleiros, aguardando uma reparação impossível, a menos que com tanta espera as galinha viessem a ter dentes em forma de peças de substituição. No final de contas o Governo recuperou apenas alguns barcos. E nessa hecatombe salvaram-se, de par com os navios do Estado, uma ou outra empresa privada mais previdente... e as redes.
A Dipanda também veio modificar a nossa maneira de trabalhar. Antes dela vendíamos a maior parte do peixe a comerciantes brancos, às pescarias industriais, nos mercados oficiais e às peixeiras que percorriam a cidade com a banheira à cabeça a vender peixe a domicílio. Depois, com as ameaças e as pressões contínuas da comunidade internacional, ou seja, a força do capital dos países ricos concretizada na nossa guerra civil, estrangularam-se-nos as fronteiras; e como ninguém nos tinha ensinado a gerir bens próprios, nem estávamos habituados a tão espinhosa tarefa, estragaram-se as fábricas, afundaram-se os barcos, começou a faltar peixe; e apareceu uma espécie de predador que agarrou, devorou e digeriu quase todo o negócio: o mercado negro. Desapareceram as peixeiras a domicílio. Trabalho e clientes era o que não faltava; as redes, tanto as grandes como as pequenas, e os pescadores como o meu pai, não tinham mãos a medir. Mas havia falta de muita coisa...sobretudo de dinheiro.

Passaram os anos, e já lá iam sete depois da Dipanda, a bolinar, a ir para o mar e a ter folga aos fins-de-semana. E como há quase vinte anos atrás, lá vinha o meu pai, agora depois da morte da tia Chiquinha aos sábados e aos domingos, comer as suas funjadas. Trazia duas garrafas de vinho se viesse sozinho, quatro quando se fazia acompanhar pelo tio Augusto. Sentavam-se à mesa, debaixo do imbondeiro, e falavam muito. Coisas da pesca, do Carnaval e, acima de tudo de futebol. Broncas sem-fim no Benfica e no nosso clube, o Marítimo. Como de costume a minha mãe não abria a boca, e a vó Júlia, já a cair de velha, não se cansava de falar dos reis do Kongo. No que me diz respeito ouvia e calava o bico para evitar os já clássicos «Cala a boca!» do Luisão.
Chegou, num desses sábados, o dia em que o meu pai, depois de se ter queixado de tudo e de mais alguma coisa, que no Rapsoka havia falta de peixe, que as senhoras das salgas não recebiam pescado que chegasse para as encomendas, que o mar não ajudava, no final de contas, ele e o tio Augusto estavam bem, muito obrigado. Tinham acabado de ser admitidos numa sociedade e agora eram sócios da rede da Câmara que, dizia-se, apanhava no mar tudo o que houvesse para pescar, exactamente como a Câmara Municipal de Luanda apanhava todo o lixo que houvesse pelas ruas. «Só garganta», pensei eu. A rematar salientou que ser admitido como sócio duma dessas importantíssimas sociedades de pesca não era nada fácil, entre cem que requeriam só eram admitidos um ou dois. Ele e o Augusto tinham sido admitidos! Quanto aos lucros a tirar dessa associação - uma loucura! - só disse, «Esperem, vocês vão ver». Sobreveio um silêncio no zoeiro dos voos picados das moscas, furiosas com a ameaça insecticida do tio Augusto. Este, felizmente para elas e para nós, até aí pouco tinha falado. Só tinha metido o bico, possantemente alterado pelas quase duas garrafas de vinho que já lá iam no papo, a propósito da ousadíssima comparação que ele considerava poética entre o lixo e os peixes. Agora preparava-se para falar, mas a minha mãe não deixou. De índole suspicaz intrometeu-se, levantou dúvidas a respeito dos esperados lucros e contou a estória que se tinha passado com um dos seus parentes afastados, o Beto, da ilha do Cabo. Esse Beto tinha redes que vinham dos portugueses e foi admitido na sociedade de que era sócio o marido de uma ainda mais afastada prima. Um dia cedeu as redes, “encostou”, como se costuma dizer, participou na faina como auxiliar, e quando chegou o momento de distribuir o kumbu recebeu dez reis de mel coado pela sua parte, pouco mais do que receberia qualquer auxiliar. «Tás a ver o que te vai acontecer?», concluiu. Os dois homens pouco faltou para que se levantassem, indignados!, que não senhora!, o Augusto na Câmara não arriscava nada, era da família, e o Luisão, esse, tinha-se feito admitir na família do Papá Dya Kota, sim senhora, por se desconfiar de que o avô do pai da sua mãe tinha sido primo-como-irmão dum antepassado do Kota. E de concluir, «Eu sou “akwa zanga” e ninguém me passa a perna, isso digo-to eu!» Com estas fortes palavras levantou-se e saiu com o Augusto, rumo à tasca do Guedes, onde nem se podia dizer que iam apanhar uma bruta bebedeira, pois isso já era um facto consumado .
Assim ia correndo a vida, numa luta constante para a adoçar.

SEGUNDA PARTE. A tradição e o progresso

O tempo que passa não só sara as nossas feridas como nos dá sempre a possibilidade de sanar ou aliviar o mal que fizemos aos outros, na condição de termos a coragem de reconhecer que estávamos errados. Quando passei a fasquia do quarto de século de vida e me sucedia pensar no meu pai, que me ignorou, me espezinhou moralmente, talvez sem ter consciência disso, e agiu de maneira a levar-me por um caminho que faria de mim o contrário do que ele gostaria que eu fosse, não o via com os olhos acerbos do adolescente que o desvirtuava. Passei a vê-lo, como dizer, mais de longe, com ponderação, e descobri-lhe um amor recalcado por uma timidez agressiva, que desabrochou e se manifestou no orgulho que ele manifestava por ter um filho bom pescador. Sou pescador, sim senhor, e esse “rame-rame”, vida no mar, sono pesado e curto e muito esforço, valeu-me para ser um homem forte, mas incapaz de imaginar a vida sem ir para o mar. À parte essa faceta ligada ao meu trabalho, um único assunto me interessava, as estórias que a minha mãe contava sobre o reino do Kongo. Por certo posso avançar que não passou dia sem pontos de interrogação a meterem-se-me na cabeça, como se fossem cornos de diabretes impertinentes, depois das discussões entre ela e o meu pai, quando nos encontrávamos a sós em casa. Discussões que no fundo apenas eram conversas muito animadas, como que uma troca de picardias entre dois adeptos de equipas de futebol rivais, nunca azedas. Mas mesmo que o mais das vezes o animado duelo verbal se terminasse em risota, por trás dele apareciam as tais interrogações que me afligiam. Não que me parecesse importante escolher entre ser bakongo ou ambundo, mas porque o desejo de conhecer a verdadeira história da ilha de Luanda, única pátria do meu coração de par com Angola, cresceu tanto que ocorria dar-me à ousadia de abordar o assunto com algumas pessoas de maior confiança. Tanto bati na mesma tecla que acabei por encontrar uma moça bem-posta que me apresentou a um parente seu, conhecedor das histórias dos povos angolanos, um kota que vivia na ilha, perto da Salga. Mais tarde vim a saber que o senhor era escritor e, segundo parece, com assento no Governo

Era filha de uma amiga da tia Londa e chamava-se Lia. Quando a vi pela primeira vez confesso que fiquei um pouco tonto, de olhos compridos em cima dela. Tinha uma cara de menina e uns olhos muito grandes e ternos, tão brilhantes que até cegos os veriam, e só pecavam, se é que pecavam, por não poderem esconder a sensualidade do seu corpo enxuto e roliço de felino. Fiquei tonto, é verdade, e mais tonto fiquei quando ela me apresentou ao kota que ela dizia ser do Governo, viúvo de uma prima por aliança da sua mãe. Mal o senhor soube o que me preocupava mostrou a alegria que ressentia, talvez por lhe ser dada uma oportunidade de acudir ao povo. Antes, porém, quis saber quem eu era e por que razão manifestava tanto interesse pela História de Angola, e eu disse-lhe que era por causa das conversas da minha mãe, bakongo, com o meu pai, mundongo, e cada um deles tinha versões diferentes da história da ilha de Luanda. Riu-se muito e deu-me umas palmadas carinhosas nas costas. Alguns dias mais tarde convidou-me a ir até sua casa, aí estaríamos à vontade para falar de tão vasto assunto. Um dia fui, com a Lia. Chegámos e instalámo-nos à mesa da sala de jantar. O kota confessou que estava admirado por vir de um pescador tão grande interesse pela História; estava convencido de que, à parte o nome dos peixes e todas essas coisas do mar, pouco ou nada sabiam, nem lhes interessava saber, estavam virados para o mar e só o mar contava nas suas vidas. Também me ri, não era mentira nenhuma o que ele dizia. Mentira foi a explicação que eu dei, que na nossa família, a do Papá dya Kota, ninguém faltava à escola, e que a minha mãe tinha feito o 5º ano do Liceu. «Agora compreendo», disse ele. E perguntou, «O que é que tu sabes, por exemplo, sobre a História do Kongo?», «Quase nada, pai».

Imagem: agualisa5.blogs.sapo.pt

Aqui escrevo eu! William Tonet


Acho ser meu dever, não só por solidariedade, mas também para dar espaço à minha profunda tristeza, indignação e sentimentos de repúdio, colocar uma coluna semanal consagrada exclusivamente à detenção, inimaginável num Estado de direito, do jornalista Armando Chicoca.

Sentimo-nos na obrigação de apontar o dedo, reprovador, ao juiz em função, por ter condenado um inocente devido ao facto de não ter levado em conta o fundamento essencial do processo, ou seja, este último ter como enfoque principal não a notícia do jornalista Armando Chicoca, mas sim a denúncia de uma vítima de assédio sexual por parte de um outro juiz, denúncia essa que foi feita pela própria vítima em voz alta, a denunciar o vergonhoso facto.
O Chicoca não inventou nada apenas noticiou. A senhora falou na primeira pessoa do singular e a sua queixa foi gravada. Nós (quem? O F8) escrevemos à ministra. Salientámos nessa missiva o facto de a senhora em questão ter sido despedida do seu emprego por não aceitar ter relações sexuais com o juiz. E relembrámos outro facto idêntico a este, também ocorrido no Namibe em que um juiz engravidou uma funcionaria casada da procuradoria e a retirou da casa do marido, na ausência deste.
Apelámos ao senso primário de justiça, apelámos à moral e à nobre missão de fazer justiça sem olhar à origem dos intervenientes, mas sim à verdade dos factos, mas de nada serviu, porque por trás deste Acórdão que envergonha Angola perante o mundo inteiro, se estabeleceu um acordo entre o juiz da causa e o impugnado, também juiz, superior hierárquico do da causa e seu parente próximo.
Assim, o concluio de baixa estirpe operado por esses dois magistrados, redundou numa pena de prisão de um ano a penalizar um inocente, o Armando Chicoca, encarceramento de que a ministra da Justiça se deveria envergonhar como defensora da violência do género.
Mas não, vergonha não se enxerga em parte alguma, pelo contrário, a Srª ministra está a ser cúmplice de uma injustiça, pois uma mulher, sua funcionária (a vítima trabalhava para a magistratura), perdeu o emprego por não aceitar fazer sexo com um juiz, que é presidente do tribunal do Namibe e, ao que parece, também é seu amigo, logo protegido...
Como prova disso, calou-se também o Conselho Superior da Magistratura Judicial, quando é do conhecimento geral que a denúncia foi feita por uma mulher indefesa e que o jornalista apenas tratou de noticiar, por ser do interesse público.
E ficou mais uma vez a confirmação clara do que sempre acontece quando um juiz é do MPLA e comete abusos sexuais contra as mulheres. Não vale a pena impugná-lo, pois ele beneficiará da protecção do regime, do partido, até mesmo da OMA, e o infractor continuará impune em liberdade, ao contrário de quem ousar denunciar, como no caso actual.
Entretanto, o que mais me abala, no que diz respeito a este desastre que põe na lama a nobre missão de fazer justiça, são as sucessivas fugas aos princípios deontológicos e mesmo o arrepiante atropelo da lei, operado pelos que têm por missão defendê-la e julgar, permitindo acontecer um triste desmoronamento da moral, a deixar no seu rastro os prevaricadores impunes. Como sempre.
Mais uma vez veremos o nosso país a ser denegrido por toda a parte no mundo, esconderemos aos nossos filhos as estatísticas desastrosas que nos colocarão nos mais baixos níveis do “ranking” mundial no que diz respeito à liberdade de imprensa. E continuaremos a sentir um enorme amargo de boca ao pensar que tínhamos previsto, aqui no nosso F8, este final dramático, que ninguém ouviu ou fez que não ouviu, e nada foi feito para evitar este descalabro.
Desde o início tínhamos denunciado todos os atropelos que se anunciavam e foram realmente cometidos por quem de direito. Alertámos para um constante recurso à prudência, no que concerne os abusos de poder, para não vermos uma vez mais a imagem do nosso país transmitida ao estrangeiro, ou pelo menos a da nossa justiça, ser transformada em nódoa indelével.
E agora, se juntarmos a esta borrada a detenção dos jornalistas do Novo Jornal e as ameaças de que foram alvo os jornalistas da Rádio Ecclesia, não há dúvida de que teremos direito a mais uma pequena série de cartões amarelos da comunidade internacional e dos meios jurídicos de todos os quadrantes que nos levarão para o fosso da mais baixa consideração.
À parte isso, todos estes abusos de poder e todos os inconvenientes por eles causados, também me toca o facto de não descortinar alma cristã que pertença ao regime e nos devia servir de referência, vir a público denunciar esta palhaçada de justiça e pedir para que se tomem medidas a fim de que tais abusos não se repitam doravante.
Estamos em presença de um caso em que um juiz pronunciou uma sentença sem levar em conta o fundo da causa, unicamente para “não ter makas com o tio”, o juiz impugnado neste caso, mas também seu chefe e seu tio. Ora a lei não permite que um juiz oficie num caso em que um parente seu seja indigitado. Portanto, parece que se impõe serem desde já tomadas medidas para repor nos carris da legalidade essa irregularidade cometida pelo juiz da causa.
Assim sendo, o juiz… devia ser chamado à pedra por conduta indecorosa no exercício das suas funções, e não só, deveria também ser sancionado por incompetência e eventualmente proscrito e impedido de exercer funções na magistratura.
Peço pois que seja agendada o mais brevemente possível uma investigação aprofundada deste desastre jurídico, a fim de apurar responsabilidades e castigar o, ou os prevaricadores.
De qualquer modo, o mal está feito, temos mais um jornalista na “choça”, à sombra, por ter ousado fazer luz sobre um caso tenebroso.

domingo, 20 de março de 2011

Regime angolano prende Francisco Luemba


Francisco Luemba encontra-se nesta altura detido pelas autoridades angolanas. Na altura em que se preparava para embarcar rumo a Lisboa, para fazer exames médicos, depois de onze meses de cadeia, foi interpelado pelo SINFO que o impediu de embarcar.

In http://altohama.blogspot.com/

Segundo as autoridades angolanas, pende sobre Francisco Luemba uma ordem que o impede de sair do país.

Numa ânsia desmesurada de silenciar todos os que teimam em pensar pela própria cabeça, tudo serve a Luanda para justificar a prisão dos activistas dos direitos humanos. Leituras subversivas na Internet, impressão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, publicação de textos ou de livros, tudo serve para que Angola imponha a razão da força.

Francisco Luemba foi membro da extinta organização de Direitos Humanos Mpalabanda, lembra a Aministia Internacional, realçando que tem criticado publicamente acções militares levadas a cabo pelo Governo angolano e pela FLEC, um grupo armado que luta pela independência daquela colónia.

“Estes homens (Francisco Luemba e Raúl Tati) foram presos, simplesmente, por expressarem pacificamente a sua opinião sobre Cabinda, e as autoridades estão a aproveitar-se do ataque para reprimir os defensores dos direitos humanos”, declarou Muluka-Anne Miti, investigadora da Amnistia Internacional para Angola.

Razões para mais esta prisão? As que deram e as que darão mais jeito ao regime colonislistas angolano. Luanda avança, como no passado, com a acusação de que este ilustre cabinda põe em risco a segurança do Estado (ocupante), sobretudo porque foi o autor do livro “O problema de Cabinda exposto e assumido à luz da verdade e da justiça”.

sábado, 19 de março de 2011

Todo o ditador é um desastre genético. O único remédio para a sua cura é o grande faroeste final, matagal.


O maior erro dos ditadores consiste no convencimento de que as suas fortunas pessoais e as das suas famílias compram, vendem e pagam tudo. Nenhuma voz se lhes pode elevar, denunciar o opróbrio, o contra o eliminar fisicamente dos que não desejam mais rastejar na imundície que lhes é característica.
Empedernidos, decidem a todo o momento quem deve ou não viver, quem mais não andar pela face da Terra. Os países cujas populações tiranizam são como atiradores furtivos que matam qualquer um impunemente. Onde não existirem campos semeados de cadáveres, eles de imediato tratam disso. Porque tudo é deles, e acreditam doentiamente que eternamente assim tudo ficará. Para cada tubarão, uma solução. A agonia do espectro final está finalmente sazonal.
Gil Gonçalves

«O Regime Criou Uma Imagem De Diabolização Contra O General Numa – Justino Pinto De Andrade
Luanda – O catedrático e também líder político, no seu habitual exercício de análise e comentários sobre o conteúdo dos diversos jornais todas as segundas- feiras na Rádio Ecclésia, desta vez (28 de Fevereiro) quebrou o gelo e surgiu em dupla função: cunha e coroa, para dar luz e corpo a controvérsia perigosa gerada em torno de falsos argumentos, urdidos por governantes naquilo que se pode considerar um abuso de poder, que visam confundir a opinião pública nacional e internacional, justificar matanças e prisões, face as reivindicações legítimas dos angolanos que fazem uso dos direitos que conferem a Constituição angolana, desta feita o direito a manifestar.

*Félix Miranda
Fonte: Folha8/Radio Ecclesia Cllub-k-net

Segundo o que se pode ler no interior desta conversa conduzida pelo nosso colega Manuel Vieira e que os nossos serviços de escuta captaram e com o devido respeito retomamos parter, Justino Pinto de Andrade, sem evasivas, desnaturado e visivelmente agastado com o estado de coisas, teceu duras críticas àqueles que se pretendem donos de Angola e de todos. Capitalizando sobre o episódio Kamalata Numa, JPA mais adiante disse: - Criou-se uma imagem de diabolização. Escolheu-se a figura do Numa e transformou-se num Lobo-mau, no Homem do saco e penso que isto de facto não é correcto. Não me parece que haja alguma legislação neste país que impeça algum deputado de dizer que parou de comer ou que não concorda com uma prisão que ele ache ilegítima. Se o Numa deve ser chamado à pedra pelo facto de ter feito greve de fome diante de uma esquadra policial, porquê que Dino Matross não deve ser chamado à pedra porque ameaçou repressão sobre hipotéticos manifestantes? Há uns que têm direito de fazer e dizer o que querem e há outros que têm apenas que bater palmas?!

Instado a se pronunciar sobre a manifestação do dia 7, o também Decano da Faculdade de Economia da Universidade Utanga dizia:

Justino Pinto de Andrade – O que vai acontecer, se acontecer. Está-se a ver a hipótese de haver manifestação dia 7 de Março, de acordo notícias que vão correndo por aí e que geraram algum nervosismo ao nível das pessoas ligadas ao poder. É evidente que também tenho notícias desta convocatória anónima de manifestação, embora ao nível dos jornais já se apresenta um nome, mas a mim parece-me que é fictício. É um indivíduo que se apresenta com um nome que junta os nomes de Agostinho Neto, Holden Roberto, Jonas Savimbi e Eduardo dos Santos. A pessoa não deu o rosto, escondeu-se por detrás de um suposto nome, mas de qualquer forma, ousou convocar a população de Angola para uma suposta manifestação a ter lugar no dia 7 de Março. É evidente que isto criou receios junto de algumas pessoas que receberam estas mensagens, mas sobretudo criou algum nervosismo junto do poder. É normal que tenha criado receios junto da população porque a população sabe perfeitamente que as manifestações que não são de agrado, de apoio, de felicitações, não são bem-vindas. Mesmo até coisas inofensivas. Recordo-me que há um tempo atrás, um conjunto de senhoras quis organizar uma manifestação de apoio a lei contra a violência doméstica, foram reprimidas no Largo 1º de Maio pela polícia, inclusivamente algumas foram parar à Esquadra da polícia. E era uma manifestação perfeitamente pacífica que até estava a apoiar a aprovação eminente de uma lei contra a violência doméstica. Significa que neste país, pelo menos ao nível dos órgãos dirigentes, não há a aceitação do princípio da manifestação embora este princípio esteja consagrado na nossa legislação a começar pela Constituição que contempla o direito legitimo dos cidadãos de forma organizada e pública manifestarem a sua vontade. Depois existe legislação mais concreta que trata das condições que o direito à manifestação deve ser exercido.

Manuel Vieira – Hoje é uma tese fundada em se ter receios de uma manifestação deste caris?

JPA – Não me diga que, quando foi das senhoras sobre a lei da violência doméstica tinham receio que o governo caísse naquela altura. Não é um problema do carácter da manifestação, é do princípio. As pessoas não aceitam a manifestação, os governantes, os órgãos de polícia, os políticos não aceitam o direito à manifestação. Só aceitam o direito à manifestação, quando for de apoio.

Esta das senhoras tinha rosto. Esta suposta manifestação, não tem rosto.

Temos que falar concretamente desta suposta manifestação. Digo suposta porque tenho dúvida se efectivamente haverá tal manifestação, por causa do receio que as pessoas têm. Não é porque as pessoas não tenham vontade de manifestar. As pessoas sabendo o carácter repressivo do regime, seguramente não estarão dispostas a serem recebidas a bala só porque se juntaram num sítio qualquer e disseram que estavam em desacordo com a governação. Além disso também, as coisas foram feitas com uma antecedência tal que todo o mundo está prevenido. Há já um contra-ataque também de pessoas anónimas que puseram a circular umas duas mensagens precisamente em sentido contrário, inclusivamente uma delas atribui a responsabilidade desta manifestação a UNITA em si e ao senhor Numa, Secretário-geral em particular.

Isso não faz sentido, entrarmos nesta lógica acusatória porque ninguém me consegue provar salvo não me tenha apercebido que esta manifestação tenha sido convocada pela UNITA. Porque o seu porta-voz, a pessoa que está autorizada a falar em seu nome, o Alcides Sakala, ele próprio disse que não faria sentido a manifestação, dado que poria em perigo o processo de paz e reconciliação nacional. Portanto, as pessoas estão no direito de convocar e fazer a manifestação, um direito consagrado constitucionalmente, o Estado que devia fazer caso as pessoas viessem a rua, era garantir que a manifestação se processasse de forma pacífica por forma a não criar incidentes de maior, porque a experiência está a mostrar-nos que quando se reprime ainda é pior. E parece-me que o Secretário-geral do MPLA, Dino Matross, ainda lançou mais achas na fogueira. Para já não tem o direito de falar naquelas condições porque ele é Secretário-geral de um Partido político ele não é um órgão do Estado. Se efectivamente havia intenção de se fazer manifestação contra o poder, não é ao Secretário-geral de um partido que compete vir declarar sob forma ameaçadora que as pessoas não podem fazer aquela manifestação. Por outro lado também o Presidente da Bancada Parlamentar do MPLA teve exagero de linguagem na forma como abordou a questão, inclusivamente apontando o dedo à UNITA e ao PRS. Usou uma linguagem um bocadito rasteira, pouco apropriada. Esta forma de reacção quer do Secretário-geral do MPLA, quer do presidente da Bancada do MPLA, para além de exagerada ainda alimentou mais os receios que as pessoas têm e sobretudo mostrou que a cultura democrática não faz parte dos hábitos de muita gente. Há uma série de pessoas que estão de costas viradas para as liberdades democráticas.

As pessoas têm direito a manifestar-se e sobretudo também mostrou que algumas dessas pessoas não aprenderam com aquilo que está a acontecer no mundo. Ali onde a repressão foi maior, a reacção também foi maior. Quando começaram as manifestações na Jordânia, o Rei imediatamente interveio, tomou uma posição e descomprimiu o ambiente. Fez algumas concepções, ouviu as pessoas, deixou que tivessem manifestado, ouviu o que elas tinham para dizer e fez as concertações necessárias. No caso concreto dos outros países onde a repressão policial foi cega, os governos caíram. Inclusivamente estamos numa situação de quase guerra civil na Líbia porque o ditador da Líbia também agiu em sentido contrário àquilo que devia ter feito. Para já não admitiu que está há 42 anos no poder e que isso não faz sentido. 2° - Que o poder não é instrumento para uso pessoal, seja para quem for. E quando as pessoas não percebem que o poder não deve ser usado dessa maneira, é evidente que reagem da maneira como reagiram, depois tem as consequências que tem.

Em termos de cautela, o que aconselha aos cidadãos?

Aconselho é a policia, aconselho às autoridades.

Ou aos cidadãos para que não embandeirem.

Não me compete à mim dizer as pessoas que não devem fazer manifestação. As pessoas têm um direito consagrado na lei. Posso achar conveniente ou não, mas isso é uma questão subjectiva, é um problema do Justino como pessoa. Agora que as pessoas possam usar este direito a manifestar-se, eu não tenho o direito de dizer que não porque sei perfeitamente que neste país, as manifestações que não são de apoio, são geralmente contrariadas e reprimidas. O que devo dizer é as autoridades que apliquem na prática aquilo que a lei consagra. Que não reprimam as pessoas que saem à rua para manifestar, que protejam as pessoas porque essas pessoas são tão angolanas como aquelas que saem à rua para apoiar. Se as pessoas podem sair à rua para apoiar, há outros também que saem à rua para manifestar seu desagrado. O conselho que dou às entidades políticas, que oiçam o povo, tenham a coragem de ouvir coisas que não vos agrada, precisamente para poderem avaliar o sentimento popular. Porque é muito bonito convocar as manifestações de apoio, bandeiras e todo o carnaval que geralmente acompanha estas manifestações, fica-se com a sensação de se estar a fazer tudo bem e as vezes nos esquecemos que estas pessoas saíram à rua porque foram mobilizadas às vezes até de forma incorrecta. Há manifestações que são mobilizáveis através da atracção da bebida, as chamadas maratonas e as pessoas ficam com a sensação que estão a agir perfeitamente, que toda a gente está de acordo, quando na realidade as coisas não são assim. É bom que o poder perceba que a pior coisa que pode fazer é reprimir. Se o poder não reprimir, as pessoas ficam consignadas no local, há palavras de ordem, há intervenções públicas, nós cá de fora ouvimos o que estão a dizer, percebemos a mensagem, podemos estar de acordo ou em desacordo. Penso que assim seria correcto, é assim que se faz em democracia e quando as pessoas não percebem que a democracia é sobretudo liberdade, naturalmente que não podem dirigir de forma democrática um país.

MV – O Jornal a Capital fala de “Numa” como sendo Inimigo Público n° 1. Discorda desta posição? A vida política ficou com alguma ebulição nesta semana em pleno parlamento, o que reputamos de normal em democracia.

Não sei porquê que um deputado, não pode fazer uma greve de fome.

MV – Está na greve de fome, no eventual incitamento a violência.

Mas quem é que diz que o Numa incitou à violência, o MPLA tem que provar isso. Penso que estamos a entrar numa lógica que não vai conduzir a melhoria do nosso debate político, que devia ser feito em torno das ideias e de propostas e projectos que cada um tem. Estamos novamente a voltar nos anos de 1990/91 em que as pessoas são a partida tachadas com um rótulo e não se discute ideias, é a figura do bom e do mau. Penso que a política não é feita por bons e por maus, é feita por pessoas normais. Pessoas que têm ideias contrárias de quem recebem o acordo destes ou o desacordo daqueles. E julgo que esta forma de fazer política que no fundo é a forma que agrada aos partidos tradicionais é muito ínvia, porque em vez de estarmos a discutir projectos e fazer críticas correctas à acção governativa estamos a criar a figura do bom e do mau. Agora o escolhido foi o NUMA, que teve uma reacção que foi face a prisão que ele achou injusta do seu correligionário no município do Bailundo ele terá assentado arraiais em frente a Esquadra da polícia para exigir libertação do seu correligionário.

Não me parece que tenha usado violência. Ele teve uma reacção que me parece perfeitamente normal que é o direito a indignação. Não foi ninguém que foi lá ao estômago do NUMA tirar comida. A partir daí, criou-se uma imagem de diabolização. Escolheu-se a figura do Numa e transformou-se num Lobo-mau, no Homem do saco. Penso que isto de facto não é correcto. Não me parece que haja alguma legislação neste país que impeça algum deputado de dizer que parou de comer ou que não concorda com uma prisão que ele ache ilegítima. Assim como hoje temos o Dino Matross que me parece que é deputado do MPLA, se o Numa deve ser chamado à pedra pelo facto de ter feito greve de fome em frente de uma esquadra policial, porquê que Dino Matross não deve ser chamado à pedra porque ameaçou repressão sobre hipotéticos manifestantes? Há uns que têm direito de fazer e dizer o que querem e há outros que têm apenas que bater palmas! Não me parece que esta seja uma atitude equilibrada. Se Dino Matross fez aquilo e eu estou aqui a condenar publicamente suas palavras, é porque exagerou na linguagem, intimidou as pessoas e abusou de um direito porque enquanto Secretário-geral do MPLA, não pode pôr forças na rua, não pode falar em repressão, porque o Secretário-geral do MPLA, fala em organização do MPLA, não fala em repressão. O MPLA não tem forças militares, nem forças policiais, as forças militares e as forças policiais são do Estado. Ele não pode fazer este tipo de abordagem. Mas não me parece até agora que alguém tenha vindo dizer que Dino Matross vai ser chamado a pedra, mas é deputado também como o Numa e fez uma ameaça pública contra aqueles que se manifestarem publicamente. Mas contudo, o Numa parece-me que decorre apenas do facto de ter feito greve de fome, de se ter colocado em frente de uma Esquadra policial e exigir a libertação do seu correligionário; ameaça-se levá-lo em Tribunal e a perder o cargo. Gostaria de ver a parte final, seria ridículo em qualquer parte do mundo, era uma vergonha para este país, até porque ele é eleito e não é assim que se tira o cargo à uma pessoa que usou de um direito que está consignado na Constituição e na Lei Ordinária.

A Comissão de Ética e do Quórum parlamentar ainda não se pronunciou!

Devia ter assuntos mais sérios para tratar. Acho que a Comissão da Ética e do Quórum parlamentar tem seguramente matéria muito mais substantiva do que estarem a perseguir uma pessoa que se sentou em frente de uma Esquadra a dizer que não quero comer mais porque o meu colega está aí preso.

Já que tudo aconteceu no Huambo, é notícia Faustino Muteka. Segundo o “Novo Jornal”, é o fim da linha, será substituído por Sílvio Peixoto que durante muitos anos foi o secretário da presidência da República.

Estamos no domínio das hipóteses, não sei qual é a fonte do Novo Jornal, acredito que eles tenham fonte segura e parece-me que tudo decorre do facto em haver um desacerto entre a condição de Faustino Muteka enquanto 1° Secretário do MPLA na província do Huambo e a sua condição de Governador provincial. Creio também que esta situação que aconteceu agora tenha maculado um pouco a sua imagem que agiu de maneira partidária nas vestes governamentais. Esta forma de agir, volta e meia confunde as coisas. Penso que o problema não é propriamente o governo e a figura partidária, tem mais a ver com a personalidade das pessoas. Aí é que as coisas ficam mais complicadas, quando as pessoas são um bocado atreitas ao trungungo como se diz entre nós, quando as pessoas reagem intempestivamente, às vezes até de forma quase irreflectida, perante situações que podiam até ter um outro tratamento. Parece-me que esta é uma das práticas reiteradas de Faustino Muteka o que estará a criar alguns problemas à imagem do seu próprio partido no Huambo.

Sobre a realidade de Cuba, Fidel de Castro, Raul e das hipotéticas mudanças, JPA, disse que não acredita em regimes que eram ditatoriais e de um dia para o outro dizem que são democratas, sobre isso foi peremptório em relembrar: a Democracia não pode ser feita pelos velhos ditadores.

Falaram de entre outros sobre a Líbia e Kadhafi, o facto dos seus aliados lhe terem virado nitidamente as costas, inclusive alguns dos seus dirigentes, e a acusação que pesa sobre ele de que poderá ir ao TPI pelo facto de ter utilizado meios desproporcionais para conter a revolta e muita gente ter morrido em consequência.

JPA, tal como tem vindo a citar, não poupou verbos para caracterizar a conjuntura: – Só não dava conta que Kadhafi para além de ditador é um desequilibrado quem usa óculos escuros e deixa de ver a luz do dia. Para além de ditador, uma concepção da sociedade e do Estado errada, é um homem desequilibrado e agora começam a vir notícias das pessoas próximas dele que demonstram que o homem não batia bem da bola como se diz. Um dos seus colaboradores no passado, diz que ele tinha escassas duas horas por dia que estava fora dos efeitos das drogas. Um país não pode ser dirigido por um maluco, um drogado. Os ditadores a certa altura entram numa paranóia tremenda. No caso concreto do Kadhafi, está 42 anos no poder, pensa que ainda tem mais alguma coisa que fazer. Vai fazer mais o quê? O que é que um individuo que fica 20; 30; 40 anos no poder pode apresentar aos seus concidadãos como novidade. A única novidade é de que vai continuar a destruir. Kadhafi só se manteve no poder até agora por duas razões: por um lado porque é um ditador; 2° Porque a Líbia tem dinheiro, fruto do petróleo e é o petróleo que move a Líbia, as conexões dos interesses, as fidelidades, as relações internacionais. Há uma questão que as pessoas têm de tomar em conta: um presidente que ordena a destruição de um avião com inocentes, é um assassino, não é um presidente. O homem próximo dele, julgo ser o ministro da justiça diz que tem provas de que ele ordenou pessoalmente a explosão do avião da PANAM em Lokerbie (Escócia). Para JPA: o fim dos ditadores está a chegar, uns chegam mais cedo do que outros. Mas o mundo do futuro será um mundo de liberdade, não de ditadores com sorrisos ou com cara trancada como é o caso do Kadhafi. Hoje fica mais claro que aquele muro caiu, o muro que protegia a corrente. Cai o Kadhafi, caem os outros todos. Até no Iraque já há manifestações pró democracia, fala-se também da China. Estamos perante uma situação nova no mundo. É evidente que isto vai criar alguma instabilidade; mas, mais vale termos alguma instabilidade durante certo tempo e termos felicidade depois, do que estarmos a viver esta ilusão destes regimes que não dão liberdade aos seus povos. Acho eu que todos os ditadores encapotados ou não deviam fazer a leitura desta altura que estamos a viver no mundo porque outros muros irão cair.»

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (5)


António Setas

Todos os dias não, mas uma ou duas vezes por semana ia para o mar com o tio e comecei a aprender as artes da pesca e de navegar. Passado um mês voltei para casa, e na bagagem não havia só roupa e objectos de uso pessoal, também levava as noites passadas no mar, o vento a encher a “mvela”, as dificuldades da pesca, as decepções e as alegrias, as lições do tio Mbala.
Veio Janeiro, e os angolanos ficaram a saber que o dia da Dipanda seria a 11 de Novembro desse ano. Alegria. Entretanto regressei às aulas. Depois, estava a chegar o cacimbo, vieram as makas, zangaram-se os irmãos. Tristeza. Milhares de vítimas, mortos a apodrecer pelas ruas, cheiro a carne podre, ameaças, doença. Uma das vítimas foi uma mulher que ‘‘me gostava’’, a tia Chiquinha, a primeira mulher do meu pai. Fiquei muito triste quando soube da sua morte.
Nessa altura era impossível andar pelas ruas de Luanda. Tiros por todo o lado, gente que aproveitava a ocasião para ajustes de contas, enquanto que nós, axiluanda, virados para o mar, ouvíamos os trovões das armas e só pedíamos que os patriotas nos ignorassem. E eu, ainda candengue, tinha medo, e por mais que admiras- se o “pai Neto” não abraçava as razões de tanto ódio. Enfim, os desígnios e as sendas da política são quase tão impenetráveis como as do Senhor, e não assenta ao pecador candengue por aí se aventurar...
“Xé, minino!... não fala política, não fala política...”

Ocorreu o fatal desfecho depois da tia Chiquinha ter ido de visita a um óbito no Mussulo. Além dela iam os dois filhos, o Xico e o Adi - o Zeca estava no
mar -, ia o vizinho António, irmão do finado, o seu filho Zé e a esposa. Partiram pelo meio da tarde e todos eles passaram a noite em casa do dono do óbito. No dia seguinte era domingo. Pela madrugada de segunda-feira meteram-se no ndongo para regressar aos Imbondeiros. O vizinho António ficou, com o filho, tratava-se do irmão tinham que ficar. O ndongo lá foi, mas nunca chegou à Samba. Foi atacado por um barco a motor com homens armados que, talvez por causa de resistência, ou por terem sido reconhecidos, não estiveram com meias medidas, mataram toda a gente. Só apareceram os corpos das duas senhoras. Os corpos dos dois rapazes sumiram como que por encanto. Nunca mais apareceram.
Por amizade pela tia Chiquinha e por respeito pelo meu pai, dormi todas as noites no Bairro dos Imbondeiros durante mais de duas semanas. É assim que quer a tradição. Foi um enterro importante, com muitos carros e muita, muita gente a acompanhar a tia Chiquinha até ao cemitério. O dono do óbito era o meu pai e foi ele quem “abriu a mesa” na véspera do enterro. As esteiras tinham sido dispostas no quintal para os homens que iam chegando e se deitavam nelas à maneira axiluanda, de lado, sobre o lado esquerdo do corpo, com o cotovelo pousado na esteira, o braço flectido e a cabeça apoiada na mão, enquanto as mulheres se retiravam para outros recantos da casa. Veio da cozinha um bruto “caldo” - cozido de peixe temperado com sal, cebola, louro, tomate, jindungo, óleo de palma e, acompanhado de farinha torrada de mandioca e mandioca fresca -, com três garrafas de vinho por “mesa”, e no centro de cada esteira um prato, cada um com a sua boa quantia em dinheiro para as primeiras despesas em bebidas.
No dia seguinte, depois do enterro, o que primou pelo requinte foi o “sango”, pago com o dinheiro das mesas. Ali estavam as iguarias da praxe e as bebidas finas, para todos os gostos, compradas na candonga.
À missa do 7º dia seguiu-se outra comezaina pelos ajustes da fartura, e logo a seguir o komba. Varreu-se a casa, pôs-se o lixo na rua e deitou-se o dikoso por cima do lixo. E durante mais de um mês, tudo se passou como manda a tradição muxiluanda, com muita gente a entrar em casa, os nossos familiares, amigos do meu pai e colegas de trabalho, por vezes até pessoas desconhecidas a quem não se negava a visita, muita gente a comer e a beber, a ficar por ali durante umas horas e a ir-se embora, não sem dar uma ajuda nas tarefas domésticas, nunca sem uma palavra de consolo, sobretudo para as mulheres, que faziam o trabalho todo. Muitos deles vieram várias vezes. Sabiam que havia comes e bebes e tiravam a barriga de misérias.

Numa palavra, foi um óbito muxiluanda, nos moldes que são de uso há séculos no seio da nossa comunidade. E para fechar o ritual, serviu-se um bom mufete, com muita bebida, o tudo pago ainda com o dinheiro das mesas.
Era beber, beber e comer...Meu Deus, nem vale a pena contar...

«Chiquinha, agora estás bem, isso nós sabemos, e por isso mesmo festejamos! Também sei que se estivesses connosco terias bebido e comido tanto como nós, porque só assim se pode esquecer a dor. Lembras-te do quanto chorámos nos primeiros dias? Lembras-te, sim! Acabou o óbito, e vamos continuar a chorar a tua ausência, mas mesmo ausente tu estarás sempre connosco, porque nunca saíste, nem nunca sairás do nosso pensamento».

Foi esta a minha prece à Chiquinha. Não com estas palavras, porque na altura ainda não me sabia exprimir como deve ser, mas era assim, aí como está escrito, que eu sentia a dor. Uma prece muito minha.

Entretanto a situação na cidade acalmara-se, o MPLA dominava a situação e a resistência dos outros partidos, a FNLA e a UNITA, desfazia-se em pequenas bolsas de insignificante resistência. O liceu tinha fechado as portas e não se previa para breve a sua abertura. E, como desse modo eu ficava de braços a abanar, sem ter nada que fazer, pedi ao pai para ir aprender a pescar com o tio Mbala. O Luisão deixou. No dia seguinte fui para casa da tia Londa. Tinha saudades do mar.

Tudo o que sei da arte do pescador devo-o ao tio Mbala. Fiquei a saber o que era “pisar na água”, a andar de dia e de noite no mar, a saber por onde ia e para onde ia, a sentir cá por dentro quando devia parar. O mar era a minha alegria. O tio saía da Xicala, apontava para um ponto saliente da costa de Luanda, o alto de um morro ou um prédio, fazia o reconhecimento dos alinhamentos, este aqui, aquele ali, e sabia que tinha que se afastar da costa. Afastava-se e metia a sonda, um fio com uma peça côncava de chumbo preenchida com um pedaço de sabão. Levantava a sonda e via: se o sabão estivesse como antes de o ter mergulhado, intacto, era fundo de areia ou de lama, se viesse com sinais de choque era fundo de pedra, “casa de peixe”. Calculava a posição pelas mensagens dadas por todos esses sinais da terra e do mar... sim, talvez fosse ali o bom sítio, e lançava a linha.
Às vezes metíamos a sul a pescar sem mapa, sem nada, e o tio Mbala dizia que não havia maka, o mapa estava na cabeça e quem ajudava era o coração. Explicou-me o que era a onda e o nevoeiro, «Atenção ao nevoeiro! Se tens nevoeiro lanças a âncora e fundeias. Passa o nevoeiro, a primeira coisa que tens que ver é a onda, de onde vem, mudou, não mudou...E a corrente, muito perigoso, é como a onda do alto mar que chega pela banda, pensas que estás a fazer rota em frente mas não, avanças como um caranguejo, de lado».
Com ele também fiquei a saber que em tempo de cacimbo pesca-se de preferência de dia, porque há muito ditwiki (cachucho), peixe que “come de dia”, e na estação das chuvas é o contrário, é melhor pescar depois do sol posto, porque o peixe que mais abunda é o xibata (peixe-espada), que “come de noite”. Mas o que mais me impressionou foi quando ele me disse que só pescador valente vai pescar para o alto mar, passa a barra se está na Corimba, mete a oeste se sai da ilha. É no alto que se apanham as espécies de peixe mais rentáveis e as que mais depressa se vendem, o espada, o cachucho, o pungo, a garoupa e o mero, além do cherne, da corvina e do anequim, que também são peixes do alto; na baía só tem pargo, roncador e murianga; tanto aqui como acolá pesca-se a ferreira, o peixe-pirão, o peixe-tabaco, o peixe-nariz, o peixe-porco... Mas só no mar é que se vê o que vale um pescador.«E quando estiveres no alto, se por acaso te aparecer um desses mostrengos do mar, anequim, tubarão, ou peixe-martelo, então é que se fica a saber se tens unhas para bater com a ‘‘bangala’’ no peixarrão, pega lá, meu cabrão!!, e lhe fazer a cara num bolo», dizia o tio Mbala.
De permeio com estas e outras dificuldades os ventos, as marés e as correntes, isto sem falar da lua, que ao subir no céu pode mudar a direcção do vento a dar-lhe força. Havia o perigo das kalembas, frequentes de Agosto a Outubro. Todos os dias o tio Mbala ensinava, explicava, e era sempre ele a dar o exemplo, num constante esforço para fazer de mim mais do que um bom pescador, mais do que um bom marinheiro, um autêntico “akwa zanga”.
Mas ainda tinha muito que aprender, porque as lições do mar nunca se esgotam. Como não têm conta as vezes em que o esforço consentido, a angústia, o medo, numa só palavra o sofrimento, ultrapassam os limites da valentia. Sendo esta a realidade, que não me venham cá com cantigas, com imagens poéticas de pescadores comparados a pastores e o mar um paraíso habitado por sereias. Fico fora de mim quando me aparece no horizonte um desses gabarolas, que vêm para aí dizer que trabalham uma ou duas vezes por mês e pescam numa folgaria inacreditável peixe suficiente para poderem viver até ao mês seguinte. É mentira!! E se não for mentira, juro pelo sangue de Cristo, só pode ser feitiço!

A folga era ao sábado e ao domingo, e eu passava-a sempre em casa da minha mãe. Depois da morte da tia Chiquinha o meu pai pensou em levá-la para a casa do Bairro dos Imbondeiros, mas ela recusou, «Nem pensar, Luís! Tira bem isso da cabeça, nem pensar». Perante a imediata e firme recusa o meu pai ficou-se por um silêncio que consente, e no seu foro íntimo até devia ter ficado aliviado, pois se eu com a minha idade via nesse lance confusões atrás de confusões, imaginava que na cabeça dos adultos ainda devia ser pior. Assim, o Luisão continuou a viver na Samba, agora sem mulher e sem o último filho que lhe restava, que tinha ido para as FAPLA, mas com uma governanta jovem, a Mira. Com tanta dor por que tinha passado os descendentes do inflexível Papá Dya Kota aceitavam o seu procedimento.

Imagem: cavaleirosdonorte.blogspot.com

Johannes Pinctu, o pretor da democracia angolana


Gil Gonçalves
Quanto mais o MPLA se apoderar e apodrecer do poder, assim mais trágico será o seu final. Em mais de trinta anos o MPLA ainda não aprendeu a governar. Uma coisa do seu aprendizado é certa: os destroços de Angola e dos angolanos.
Os movimentos de libertação são os sucessores, o apogeu do colonialismo, da destruição final de África e das suas populações. Os descendentes dos colonizadores governam-nos. E chineses à direita, chineses à esquerda, à frente, atrás, chineses por todo o lado… estamos cercados por chineses.
Inventámos a poesia da democracia angolana
e inaugurados no seu panteão restaremos
Neste senado romano consularizaremos
Ah! ainda não se move esta nossa democracia
da trovadoresca poesia
E do petróleo e diamantes nada sobrará para mais ninguém. Nós, os deuses do povo, assim o decretámos. E neste terceiro Reich da informação que implantamos, ficaremos fortes, muito ponderosos. Os nossos negócios serão infalíveis.
Agora com a santa aliança canónica, edificaremos em cada esquina uma igreja, é o melhor investimento. Sem gastos, suportados pelos crentes idiotas embandeirados no analfabetismo, as seitas safam-se, enriquecem na velocidade meteórica os seus sumo-sacerdotes, onde qualquer bispo cai das nuvens eleito pela vontade divina. Angola não pode ser nem nunca será apenas para alguns. E se assim se continuar, uma grande tragédia será inevitável. Angola não é de alguns revolucionários que nos impingiram a luta de libertação deles, e não libertaram nada. Basta admirar os caixotes do lixo, é lá que reside a liberdade plena do angolano.
Ah! este tempo e este clima, tão instáveis
como este governo
Não, não é um partido político
é um circo angolano itinerante
E onde ainda teimar existir um pedaço de terra resistente, lá o espoliaremos pretextando que é do Estado, logo nosso, deles, e lá ergueremos qualquer coisa. O mais importante é especular. Angola já não tem povo, tem ratos e moscas.
Insisto, para mim a democracia é uma poesia, e eu considero-me um poeta democrático. E o espírito democrático do 27 de Maio paira sob as nossas cabeças. E do céu do Politburo chove tanta miséria sobre as populações como nunca em Angola se viu. Libertaram o povo angolano e premiaram-no com a mais aterradora miséria. E riem-se com sarcasmo das promessas de uma nova vida.
Não, não! Os vossos debates são previamente dirigidos, tendenciosos. Isso não é democracia. Eu sou frontal… tudo que é anormal – mas existe algo normal?! – em democracia decide-se no tribunal. As nossas instituições democráticas funcionam a vapor sabiamente dirigidas pelo nosso sumo pontífice da política africana, mundial, planetária e panfletária. Eu antes de ser democrata já o era. Antes aticei-me contra o poder instituído, era uma estratégia, uma chamada de atenção sobre o meu intelecto. Como Júlio César: ave! Cheguei a Luanda, vi e venci.
A nossa missão é esfomear a população
De Kabinda ao Kunene já não é uma só
nação
É um descomunal campo de concentração
de esqueletos a vaguearem sem rei nem
o Roque
E neste império romano/angolano
uma Via Ápia calcetaremos com as ossadas
prendadas do nosso eterno soberano
As populações estão votadas ao abandono, há mais execrável miséria?! Não, não?! Saímos há pouco tempo de um conflito, de um campo de futebol militar que nos ceifou os campos da morte.
Nesta democracia diamantífera
Tão petrolífera, tão mortífera
Democracia é sofrer, é lutar pela liberdade. A nossa democracia executa-se nos deserdados, nos espoliados da terra, dos casebres. Democracia sem corrupção, sem roubos, sem desvios, não é, nunca será jamais uma democracia. E por isso mesmo democratizar, afogar a sociedade angolana, é espoliar. Não existem bens em poder da população, tudo é do nosso Estado papão. Por enquanto a nossa jovem democracia segue bem descarrilada no comboio sem vagões, sem travões. Ora não existindo povo, vamos acabar com ele, estão à espera de quê?! Todos os seus bens reverterão de facto e de jure para os cofres revolucionários do nosso querido e amado Politburo. A nossa luta é inquestionável e nas maratonas está o êxito da nossa revolução. Revolucionar é democratizar.
E a destruição de tudo o que era vegetal aconteceu inexorável. Os patrocinadores dos nossos especuladores imobiliários levam a devastação das árvores de Luanda que está um deserto de betão. Sem arvoredo, uma grande desgraça abater-se-á sobre Luanda como um poderoso feitiço dos grandes feiticeiros imobiliários. Sem vegetação é impossível viver. Os palácios medrosamente fortificados e amuralhados da nobreza, da baixeza dos nossos novos-ricos na revolta das águas sucumbirão.
Quando a coberto da democracia, banqueiros exercem a sua actividade bancária fortalecendo o terrorismo económico e financeiro, beneficiando da impunidade conivente do poder, é com certeza um final trágico de uma nação (?). E quando o silêncio das noites é catastroficamente interrompido pelo potente e estridente ribombar, metralhar dos mentecaptos dos escapes semoventes das motorizadas, é o recordar dos destroços da independência tão horrorosamente engavetada e congelada. Porque é que em Luanda se permite a poluição sonora? Porque os governantes só sabem fazer barulho.
Não, não! Em Angola não existe miséria, isso é uma engenhosa mentira da nossa reacção interna alimentada pelos estrangeiros que desejam que o nosso povo, o nosso Politburo, voltem ao passado das trevas coloniais. Vejam o nosso PIB democrático, como sobe nas alturas do nosso desenvolvimento actual e intelectual. Não dá para entender! Mas já têm a democracia plena, querem mais o quê?! Está bem, está bem, não há empregos, e agora com a invasão chinesa… mas encontraremos uma solução, mais um campo de concentração, ok! Fiquem calmos, serenos e atentos, nós trabalhamos para o bem do nosso querido povo. Tudo só para ele e em nome dele. Na continuação da miséria nacional está a continuação da nossa luta. Jamais se esqueçam que nós do Politburo instituímos a liberdade e a democracia em Angola. E por isso mesmo existem duas classes: os democratas e os escravocratas. Como me sinto tão feliz quando contemplo os nossos campos da agricultura sem ela, mas de tão grandiosidade democrática neles lavrada.
Sentimo-nos na plenitude do dever cumprido. Nas ruas de Luanda amarguram-se as miseráveis vendedoras escorraçadas e espoliadas sem o seu Roque. É um dantesco espectáculo que aflige qualquer coração benévolo. Mas os precursores da democracia angolana ainda não exorcizados rejubilam perante tanta maldição. Isto não é um país, é um imenso navio lotado de escravos sob os constantes chicotes de meia dúzia de senhores negreiros. O comércio de escravos fortalece-se, é bom negócio, bate bem. Já chega, parem a independência e a vossa democracia. Queremos o nosso petróleo, os nossos diamantes, as nossas terras e os nossos casebres.
E se os governantes e o seu deus máximo não apoiam o livro, a leitura, então, estão à espera de quê?! E Angola que está com uma epidemia de pessoas VIP.
Para a minoria deles, quanto mais velho, mais ditador. Para a nossa maioria quanto mais velho, mais sábio. Esta democracia é um estado de alma, uma dominação, um ultraje ao nosso sonho de amor da nossa liberdade. E nesta luta de destruição nacional, no país da consolidada conjuntura analfabética, da juventude forçadamente prisioneira do inculto que se esforça no alcoolismo. E nisso se desenvolve e torna-se adulta. Que futuro aguarda este oásis de estrangeiros e alguns nacionais-socialistas? Nenhum, pois claro. Mas, apenas um, a anarquia, a impossibilidade de viver, e até da já esperança perdida no renascer. Nunca serás independente sem o retorno ao puro nacionalismo, porque perderás para sempre a tua independência e liberdade.
Uma coisa é certa. Há muita desvantagem
na aniquilação da democrática corrupção
Que tempos novos estes tão encantadores
tão democráticos
E levantei-me para enfrentar mais um dia
de democrática razia
E nesta galera escravocrata mais um dia
sem futuro nos vigia
E quem da nossa liberdade democrática discordar
nos tribunais populares terá de o provar
nesta democracia da fissuração
da independência sem Constituição
Um povo obrigado a viver de festejos, fatalmente acaba na infelicidade. E neste nosso jogo de futebol, a bola é a fome.
«O que é que se passa com o sistema do Politburo?» Não sei! Porquê? «Está sempre a reinicializar»

quinta-feira, 17 de março de 2011

República das ilegalidades! Libertem o jornalista Armando Chikoka!


Gil Gonçalves
Alguém viu por aí a independência? Alguém sabe o que isso é?
Pelo andar desta monstruosa ferocidade judicial, os substitutos do colonialismo impõem-nos o regresso às origens das ideias coloniais. A cada momento a repressão exacerba-se, a escravidão revigora-se. Os exércitos abundam, armam-se com os mais modernos equipamentos bélicos, apenas para aterrorizarem as populações, para que o silêncio paire como nas tocas dos ratos. Foi assim muito recentemente nos regimes mais ditatoriais. E há quem não aprenda a lição. Parece haver uma apetência demoníaca para terminar como as ditaduras irmãs, muito amigas: pela violência crescente contra as populações, e estas não têm outra alternativa: entre viver e morrer, há que escolher. E escolhem o viver, claro, antes que todos perecem.
Angola é o único país do mundo, onde um jornalista é preso por noticiar… um vulgar acontecimento.
Não podemos continuar a viver nesta incerteza, nesta cobardia, de qualquer um de nós na sua casa, ser preso por qualquer esbirro secreto, como nas ditaduras mais ferozes, sem qualquer culpa formada, sem se saber a acusação.
É horrível notar que o combate desta turba não está dirigido para a miséria, que está tão pungente, ingente. As chuvas e o poder destroçam Angola, e o império do mal canaliza as suas forças para os seus inimigos principais, os jornalistas. A única preocupação é as receitas do petróleo, que são transferidas automaticamente para as suas contas bancárias secretas, que mais tarde serão congeladas e depois confiscadas. É a pura verdade! Com tanta indigência em Angola, como é possível existirem tantos bancos em Luanda? É fácil, não é?! Os bancos são dos corruptos do poder, e assim praticam-lhes assiduamente a lavagem dos biliões de dólares que usurpam do erário público.
Não se iludam! Kadafi, vai ter um final muito triste, é garantido.
Chegaram, viram e… espoliaram.
Não podemos continuar a viver sob a imposição de seres das cavernas.
Em Angola, nunca haverá paz enquanto os detentores dos biliões de dólares ilegais, não forem julgados, condenados e presos.
Onde há persistentes maus professores, há sempre maus alunos.
A vitória total e completa da corrupção, é quando o poder é quase quarentão.
O poder de Deus é grande, o dos corruptos também.
Para cada igreja o seu padre. Para cada rebanho o seu pastor. Em cada precipício, um ditador.
Não, não é o poder nas ruas! É o poder sem ruas.
E lanço a minha cana de pesca no mar do meu petróleo, e não me canso de pescar dólares. E quando pesco à rede, vem sempre também atestada de dólares. Ah! Como é tão bom viver assim, tudo só para mim.
Estamos num Estado de facto e de jure corrupto.

Conselho das Igrejas Cristãs de Angola reunido para "reflexão sobre atual momento" apela à calma


O Conselho das Igrejas Cristãs de Angola (CICA), reunido no 02 em Luanda para uma "reflexão sobre o atual momento", apelou à “calma e oração para a resolução dos problemas candentes”.

Segundo o secretário-geral do CICA, reverendo Luís Nguimbi, os momentos conturbados que África está a enfrentar nos últimos dias, chama à atenção das igrejas de como Angola tem de ter “muito mais arrumada a casa, o país”.

Em declarações à Rádio Nacional de Angola, o reverendo Luís Nguimbi defendeu que Angola deve estar mais atenta para que os angolanos, que já passaram "por vários anos de guerra, de lágrimas, de tristezas e de destruições, não voltem a cair nestas situações”.

A reunião do CICA surge numa altura em que estão marcadas para Luanda duas manifestações, sendo a primeira para sábado, organizada pelo MPLA, partido no poder, em resposta a uma outra, convocada pela internet, para o próximo dia 07 de Março, contra o Governo angolano.

Sobre a “marcha patriótica pela paz” do MPLA, o primeiro secretário do comité provincial de Luanda, Bento Bento, disse que o partido pretende reunir mais de dois milhões de pessoas para “dizer não ao desacato, à destruição, à desordem e a tudo o que se traduz em atentado contra a democracia e a estabilidade do país”.

Na sua convocatória, o Comité Provincial do MPLA de Luanda fez “um vibrante apelo aos mais nobres sentimentos de patriotismo da população, das diversas forças políticas, das igrejas e seus crentes, das associações diversas e seus associados, das profissões liberais e da intelectualidade a participarem na grandiosa marcha patriótica pela paz”.

“O longo sofrimento produzido pelas diversas guerras de décadas jamais poderá ser reproduzido por quem quer que seja. O povo angolano almeja unicamente a consolidação da paz, que lhe permitirá usufruir de um desenvolvimento planificado, como prova isso os frutos destes nove anos de paz e tranquilidade”, salienta um comunicado de imprensa.

Sebastião Martins Alerta. Cumprindo orientações do MPLA, Polícia não vai tolerar manifestações


O ministro do Interior, Sebastião Martins, garantiu no dia 28.02, que aos órgãos policiais não vão tolerar qualquer tentativa de desvirtuação da ordem e segurança públicas no território nacional.
O governante falava na cerimónia que marcou o acto central dos 35 anos de existência da Polícia Nacional, que este ano se realizou sob o lema "Polícia Nacional na construção da proximidade, Polícia Nacional a crescer mais e a proteger melhor".

"Para o bem da paz social colectiva, não toleraremos qualquer tentativa de desvirtuar a ordem e a segurança públicas de quem quer que seja no território nacional", advertiu o ministro.

Segundo Sebastião Martins, as forças da ordem não estarão de braços cruzados diante das situações que requeiram a sua pronta intervenção, "mesmo que as vezes sejamos mal interpretados quando actuamos para repor a ordem e autoridade do Estado ou quando de forma simples actuamos contra a imigração ilegal".
Informou que para a preservação dos mais nobres interesses do povo angolano, da sua soberania, de integridade territorial e dos seus recursos, a corporação não vai tolerar a imigração ilegal ali onde ela se manifestar.

Considerou que os membros da Polícia Nacional não são apenas agentes públicos ao serviço do Estado, "acima de tudo estão ao serviço da sociedade e do povo, garantindo o bem-estar e a segurança de todos, não só em razão de um juramento ou de uma norma jurídica, mas por terem plena consciência que lidam com pessoas, protegem elas e os seus direitos".

Para si, os direitos humanos não são simplesmente solenes declarações de intenções, mas uma parte obrigatória da ordem, dos direitos e do Estado.
"Para os nossos agentes da autoridade, os direitos humanos são mais do que simples princípios de legitimidade, são acima de tudo princípios de legalidade. Por isso, somos firmes, intransigentes e respeitadores da lei", notou.

Por outro lado, com a realização em Agosto próximo da 31ª cimeira da SADC em Angola, o ministro do Interior fez saber que caberá à Polícia Nacional reforçar as medidas operativas para o asseguramento e dignificação do evento.

No plano regional, notou, cabe à corporação, o seu enquadramento e gestão de tempo para as grandes tarefas e metas a atingir, inseridas no plano global da SARPCCO (Organização dos Chefes de Polícia da África Austral), nomeadamente actos formativos, operações policiais, entre outras tendentes a contornar os crimes transfronteiriços.

O acto, realizado no Instituto Médio de Ciências Policiais Osvaldo Serra Van-Dúnem, a sul de Luanda, contou com as presença do chefe de Estado Maior-General das FAA, general Geraldo Sachipengo Nunda, dos comandantes-gerais das polícias de Moçambique, Namíbia e São Tomé e Príncipe, representantes do corpo diplomático no país, entre outras individualidades.

Líder oposicionista nega envolvimento no 7 de Março


UNITA acusa regime angolano de planear atentados
O líder da UNITA, principal partido da oposição, acusou o regime de estar a “planear mais um atentado à vida” dos seus dirigentes.“ Chegou ao conhecimento da UNITA ser intenção do regime do Presidente Eduardo dos Santos engendrar esta semana um cenário de confusão que justifique o assassinato de adversários políticos, em particular os mais altos dirigentes da UNITA”, disse Isaías Samakuva.
O plano, referiu, passaria pela acusação de envolvimento do partido da oposição num protesto contra José Eduardo dos Santos, convocado anonimamente pela Internet para o próximo dia 7, segunda-feira, acção a que a UNITA se diz alheia.
“A UNITA não está a organizar nenhuma manifestação para o dia 7 de Março. Ouviu falar dela de forma informal, mas não conhece os seus organizadores nem instruiu os seus membros para nela participar”, refere uma declaração do comité permanente da comissão política.
O partido de Samakuva, que durante décadas, liderado por Jonas Savimbi, combateu o MPLA, partido no poder desde a independência, em 1975, “estranha o facto de o regime pretender utilizar a figura do direito à manifestação para se vitimizar, espalhar o medo e planear mais um atentado à vida dos dirigentes da UNITA e à soberania do povo angolano”.
O líder oposicionista reafirmou que o conflito armado entre MPLA e UNITA “acabou definitivamente há nove anos” e responsabilizou José Eduardo dos Santos “por tudo o que venha a acontecer, caso se materializem as suspeitas ora denunciadas. Se por causa do anúncio de uma simples manifestação, o regime entra em pânico e fala em guerra, então podemos concluir que o Presidente Eduardo dos Santos não acredita na democracia”, disse Samakuva.

UNITA. DECLARAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA DO PAÍS
O Comité Permanente da Comissão Política da UNITA reuniu-se em Luanda sob a presidência de Sua Excelência Isaías Samakuva, Presidente da UNITA, para analisar a evolução da situação política do país. No final, decidiu tornar pública a seguinte Declaração:

Completou-se um ano desde que, em nome do povo angolano, a UNITA rejeitou legitimar uma Constituição autoritária que não cumpre a função de limitar o exercício do poder político. Ao conferir legitimidade constitucional ao Presidente da transição sem a realização da eleição presidencial, a Constituição não normalizou a instituição Presidente da República. E mais: Ao suprimir do panorama político as eleições presidenciais, a actual Constituição acabou de vez com a possibilidade de o Presidente da transição vir um dia legitimar a sua posição.

Por outro lado, ao assegurar ao Presidente não eleito o exercício autoritário do poder, por não prestar contas a nenhum órgão de soberania e por ter um controlo sobre os demais, a Constituição foi aprovada não como instrumento de limitação do poder, mas como instrumento de perpetuação do poder, de violação do princípio republicano, do princípio democrático e do Estado de Direito.

E se alguma dúvida existiu, há um ano atrás, sobre os efeitos desta Constituição no equilíbrio e controlo recíproco entre os vários poderes do Estado, a dinâmica de subalternização que se desenvolveu nas relações entre o Parlamento e o Executivo, entre o Executivo e os Tribunais e entre o Executivo e a garantia dos direitos e liberdades fundamentais, hoje não há dúvida nenhuma que a Constituição de 2010 tornou-se numa mera Constituição semântica, ou seja, numa Constituição instrumento do poder e não numa Constituição fundamento do poder.

Por esta razão, hoje é o próprio Executivo que não respeita a Constituição concebida à sua medida e que impôs ao povo angolano. Nos últimos meses, intensificou os actos de violação dos direitos fundamentais, nomeadamente o direito à vida, a integridade física, a segurança pessoal, a liberdade de expressão, a liberdade de consciência, o direito de reunião e manifestação, a liberdade de escolha partidária e demais direitos constitucionalmente protegidos.

Estes actos de violação dos direitos fundamentais do cidadão consubstanciam-se em assassinatos selectivos, prisões arbitrárias, julgamentos políticos sumários, intimidação de indivíduos da oposição, destruição de símbolos e de propriedades de partidos políticos da oposição, expropriação de terras e desalojamentos forçados e arbitrários, seguido de destruição de residências de cidadãos nacionais indefesos.

Angolanas e angolanos:
No passado recente, a identidade política e social de Angola foi objecto de conflitos entre Estados estrangeiros e duas forças sociais internas, o MPLA e a UNITA. Este conflito terminou em 2002. Hoje, existe um novo conflito, um conflito político, económico e social, não mais entre o MPLA e a UNITA, mas entre Eduardo dos Santos e a Nação angolana.

O Presidente da transição entrou em conflito político com a Nação porque subverteu o direito do povo de exercer o poder político através da eleição do seu Presidente da República. Entrou em conflito económico com a Nação, porque constituiu uma oligarquia de algumas dezenas de famílias para se apoderar das riquezas de Angola. Estas famílias detêm e controlam mais de 90% da riqueza nacional.

O Comité Permanente da Comissão Política da UNITA constatou com muita preocupação o agravamento dos níveis de pobreza nos centros urbanos e zonas rurais, consequência da má governação, exclusão e corrupção galopante, que aprofundam o fosso entre uma minoria que se enriquece ilicitamente e uma maioria que se torna cada vez mais pobre. Esta é a natureza do conflito social causado pela má governação de Eduardo dos Santos.

É por causa da pobreza, do desemprego, das injustiças e da corrupção, que os cidadãos falam hoje em manifestações anti-governamentais. O povo quer se manifestar por causa dos erros do Presidente, e não o contrário. Não se pode, pois, transformar a vítima em ofensor. A vítima é o povo, o ofensor é o Presidente Eduardo dos Santos, titular do poder executivo.

Angolanas e angolanos:
A UNITA não está a organizar nenhuma manifestação para o dia 7 de Março. Ouviu falar dela de forma informal, mas não conhece os seus organizadores nem instruiu os seus membros para nela participar. Por esta razão, a UNITA estranha o facto de o regime pretender utilizar a figura do direito à manifestação para se vitimizar, espalhar o medo e planear mais um atentado à vida dos dirigentes da UNITA e à soberania do povo angolano.

O Presidente Eduardo dos Santos, enquanto Presidente da transição, deve ser o garante da Constituição e da ordem democrática. Se a Constituição não está a ser cumprida, se o direito de manifestação não está a ser exercido nos termos da Constituição, cabe ao Presidente Eduardo dos Santos, e a mais ninguém, assumir a sua responsabilidade e vir a público explicar o que se passa. Não pode escudar-se em assalariados, sejam eles comerciantes, líderes religiosos ou políticos, para minar a paz e a ordem democrática com declarações atentatórias às liberdades fundamentais dos angolanos.

Os que não têm emprego, não conseguem fazer três refeições por dia, não têm acesso à educação digna, não têm casa, não têm água nem luz, nem assistência médica condigna, não podem ser considerados arruaceiros apenas por desejarem manifestar o seu protesto. Nem devem ser ameaçados com o chicote como se de escravos se tratasse. Quem deve mudar de conduta são os governantes e não os governados.

Neste sentido, a UNITA repudia nos termos mais enérgicos as recentes declarações de todos quantos se prestam ao papel indigno de transformar o agressor em vítima, por instigar o medo ressuscitando o fantasma da guerra e transformando a UNITA em bode expiatório da má governação do Executivo. Tais declarações irresponsáveis constituem um sério atentado à democracia e ao Estado de Direito.

No estrito cumprimento da Constituição, a UNITA reafirma o seu empenho em prosseguir a luta pacífica pelas aspirações de liberdade dos angolanos e pelo triunfo da democracia e do Estado de Direito em Angola. Neste sentido, o Comité Permanente da Comissão Política da UNITA saúda o acto heróico do Deputado Abílio Kamalata Numa, protagonizado no Bailundo e rende homenagem a todas as vítimas de intolerância política em Angola.

A greve de fome é um simbolismo do direito de manifestação. O regime quer transformar o exercício deste direito constitucional pelo cidadão Kamalata Numa num crime. Se o Parlamento angolano impugna, suspende ou retira o mandato de um Deputado por este ter exercido um direito universal, então, fica claro perante a Nação e perante o mundo a natureza anti-democrática e ditatorial do regime do Presidente Eduardo dos Santos.

As manifestações políticas, os protestos e as greves, enquanto instrumentos da democracia, são formas legítimas do exercício da cidadania pelo único e verdadeiro titular do poder político, o povo angolano.

Angolanas e angolanos:
Se por causa do anúncio de uma simples manifestação, o regime entra em pânico e fala em guerra, então podemos concluir que o Presidente Eduardo dos Santos não acredita na democracia. Por não acreditar na paz democrática e na igualdade entre todos os angolanos, promove a desinformação e subverte os factos políticos para criar um ambiente de terror propício para o assassinato selectivo de adversários políticos.

Chegou ao conhecimento da UNITA ser intenção do regime do Presidente Eduardo dos Santos engendrar esta semana, um cenário de confusão que justifique o assassinato de adversários políticos, em particular os mais altos dirigentes da UNITA.

Conhecendo a natureza anti-democrática e subversiva do regime, não nos admira que se venha a encenar nos próximos dias tal ambiente, quer através de um fabricado atentado ao Presidente dos Santos, quer na forma de uma suposta rebelião de tropas, ou ainda na pretensa formação de um exército fantasma, como pretexto para se criar situações de consequências imprevisíveis.

Tal encenação, justificaria primeiro a repressão e depois uma manifestação de apoio a José Eduardo dos Santos, que aliás, já está em fase adiantada de preparação.

A UNITA alerta a todos os angolanos que quaisquer manifestações que surgirem de apoio a Eduardo dos Santos, visam apenas branquear a má governação do Presidente da transição.

A UNITA responsabiliza o Presidente José Eduardo dos Santos por tudo o que venha acontecer, caso se materializem as suspeitas ora denunciadas.

Angolanas e angolanos:
O conflito entre o MPLA e a UNITA acabou definitivamente há nove anos. A guerra também acabou e nunca mais voltará, pelo menos não pela mão da UNITA, porque a UNITA acredita na paz democrática!

O que existe hoje é um conflito entre o Presidente José Eduardo dos Santos e o povo angolano. Se o Presidente respeitar os direitos fundamentais dos cidadãos, se governar com transparência, se combater a pobreza e a corrupção, então, o povo não precisará fazer manifestações.

Cabe ao Presidente José Eduardo dos Santos eliminar as causas dos problemas do povo e não impedir as manifestações pacíficas e ordeiras; nem maquinar a desordem para eliminar adversários e perpetuar-se no poder.

A UNITA reafirma a sua determinação de edificar em fraternidade uma sociedade justa, democrática e de progresso que respeita a vida, a igualdade, a diversidade e a dignidade das pessoas.

O Comité Permanente da Comissão Política da UNITA está convicto que sob a actual geração recai a responsabilidade histórica de salvar o país e de construir os alicerces da Angola dos angolanos.

Luanda, 28 de Fevereiro de 2011
O Comité Permanente da Comissão Política da UNITA

Carta aberta. Carta ao Camarada Presidente sobre os ventos do norte


Camarada Presidente

Sou MANUEL PAULO MENDES DE CARVALHO PACAVIRA militante do partido MPLA na Província do Bengo. Para lhe lembrar, escrevi-lhe uma carta aberta no pretérito dia 25 de Maio de 2010, dia de África, alertando algumas irregularidades do Executivo que poderiam ter consequências menos boas para o futuro. Não tendo sido bem sucedido nesta nobre empreitada decide alertar a mais alta instância partidária na Província do Bengo (em Dezembro de 2010) qualidade de militante dirigente que sou nessa parcela do território nacional. Infelizmente também não fui bem acolhido pelo primeiro secretário do nosso partido no Bengo por indisponibilidade de tempo.

Camarada Presidente
O assunto que muito vos pretendo abordar está relacionado com o movimento para mudança ora criado com intenções de atingir a sua figura. Sabe, como antigo comissário político das Extintas Forças Armadas Popular de Libertação de Angola (FAPLA) e líder na Organização Juvenil do nosso partido (JMPLA) granjeio algum respeito no seio de muitos dos Jovens que no dia 7 de Março pretendem ir as ruas manifestar-se contra si. Não acredito que a resolução dos problemas do nosso povo serão resolvidos com marchas e contra-marchas a volta da figura do camarada presidente.

Com o aparecimento desse novo movimento de Jovens ávidos pela mudança ouço com constância, comentários de dirigentes do nosso partido fazendo alusão ao facto do nosso país não ser parecido aos países do Magrebe que se vêem fustigados pelas revoltas populares, de facto não somos, ou melhor, há países iguais, talvez realidades parecidas! A acção do Mohamed Bouazizi, catalisador da Revolução de Jasmim, as centenas de milhares de Jovens acampados na praça de Tahrir às manifestações e ocupação popular de Benghazi têm traços comuns: FALTA DE QUALIDADE DE VIDA DAS POPULAÇÕES (elevados índices de desemprego, excesso de miséria, baixos índices de escolaridade, ineficientes redes de saúde pública, justiça social, melhor distribuição da renda nacional, preços altos dos produtos de primeira necessidade: alimentação, Excesso de burocracia nos serviços públicos, altos índices de corrupção, clientelismo, etc.), porém, neste capitulo as semelhanças são muito pronunciadas para não mencionar a nossa raiz comum no continente Africano e afinidades ideológicas.

Os ventos do Norte que se abatem sobre o continente Africano trazem-nos memórias dos ventos dos leste que se abateu aos países do Pacto de Varsóvia com o fim do muro de Barlin, naquela altura, Camarada Presidente pedia-nos para nos adaptarmos aos novos tempos de mudanças com a Perestroika e Glasnost no auge; não será essa uma boa altura para fazermos uma inflexão para mudança?

Por muitas razões, agrada-me pouco quando alguns dos nossos Camaradas pretendem invocar os acontecimentos de 1977, como razão para amedrontarem psicologicamente e coarctarem as iniciativas democráticas dos nossos Jovens; Nós os mais velhos, hoje, não nos devemos esquecer que as motivações do passado que nos levaram aderir aos movimentos de libertação nacional de então foram as injustiças sociais daquela altura. Primeiro, A demografia actual e maturidade dessa geração é diferente daquela dos primórdios da independência. Segundo, para muitos de nós que vivemos e participamos no “turbilhão 27 de Maio” não queremos que as outras gerações voltem a viver os horrores do passado; é um fardo demasiado pesado para ser passado como testemunho a jovens inocentes com aspirações normais de uma vida melhor. Terceiro, os nossos inimigos, de ontem, são hoje os nossos parceiros estratégicos na latitude externa e interna. Quarto, a guerra fria e suas reminiscências fazem parte da história.

Camarada Presidente
Agradou-me ouvir as suas palavras aquando do empossamento do Camarada Paulo Kassoma como primeiro ministro da terceira República na sequencia das eleições gerais de 2008, “...devemos falar pouco e fazer mais...” naquela altura senti que finalmente uma das causas que me levou a aderir o amplo movimento -MPLA - poderia tornar-se realidade: “O mais importante é resolver os problemas do povo” contudo, a realidade de lá para cá é bem diferente, - falou-se muito, fez-se pouco e adiou-se a resolução dos problemas do povo -!

A modernidade actual proporciona-nos a possibilidade de navegar no ciberespaço sem limites, pude notar no Facebook do Camarada Bornito de Sousa uma nota interessante, sobre a terceira República, em que há uma excessiva ênfase nalguns factos marcantes e ganhos administrativos do nosso partido. Na realidade nada daquilo “alimenta as nossas barrigas”. Vivo na província mais perto de Luanda e mais distante do bem estar exibido na cidade capital.

Aquando do seu primeiro discurso à nação pelo imperativo constitucional, fez referencia a estatística deplorável que muita das nossas populações estão sujeitas, pois que, aqui no Bengo não são somente números estatísticos é uma realidade do dia-a-dia das nossas populações; nós cá fazemos parte do Top 5 das províncias mais infectadas pelo vírus da miséria.

Camarada Presidente
Procure estar mais próximo dos nossos Jovens, do povo de Cabinda ao Cunene do Mar ao Luau para perceber que esses, hoje tornaram-se mais mendigos e estão a perder a dignidade em muitos aspectos; os relatórios circunstanciais nem sempre relatam o seu todo, não baste que os angolanos tenham funji com cabuenha todos dias.

Camarada Presidente
Sem pretender ser fastidioso e, para terminar, vejo a história a passar diante dos nossos olhos, não gostaria ver o poder ficar na rua como se tem revelado em outras paragens do nosso continente. Ainda é possível recuperar muito do tempo perdido em discursos bonitos sem eficácia prática até agora, saibamos reconhecer o papel dos jovens para o avanço das sociedades. A irreverência do passado de lideres como Habib Bourguiba na Tunísia em 1957, Gamal Abdel Nasser no Egipto em 1954, Rei Idris na Líbia em 1951 e sem esquecer os vossos feitos nos primórdios da nossa jovem República em 1975 que resultou na libertação dos nossos povos do julgo da opressão colonial.

Sem mais de momento aceite a minha saudação patriótica Camarada presidente.

MANUEL PAULO MENDES DE CARVALHO PACAVIRA “PAKAS”

(Tenente General na Reserva)

Icolo e Bengo, 05 de Março de 201

quarta-feira, 16 de março de 2011

PORQUE SERÁ? Roberto de Almeida segundo vice a fugir de Dos Santos


Arlindo Santana & Kuiba Afonso

Quando se fala dos sucessivos governos saídos da cartola de JES, estamos a falar de governos do MPLA. Lógico. E como esse partido, ou melhor e sobretudo, como os seus manda-chuvas históricos são reconhecidos por muita gente e mesmo por membros eminentes do próprio MPLA como sendo comparáveis, alegoricamente, a esses enormes animais pré-históricos do Jurássico, tentamos saber porquê.

As razões não são claras, mas, em todo o caso, o que a comparação pretende salientar é aquilo que foi lapidarmente expresso por uma tirada de Jonas Savimbi, que, a propósito dos dirigentes do MPLA disse o seguinte: «esses sujeitos não mudam».

Pois não, e todo o mal do partido do Executivo está aí, não mudam desde os tempos em que estavam no mato e continuam a raciocinar do mesmo modo que há quarenta anos atrás, como guerrilheiros eternamente inquietos, transidos e com medo da própria sombra.

Ora, no conjunto de personagens da velha guarda do partido dos camaradas, algumas delas fugiam e ainda hoje fogem a esse atavismo doentio. Estamos aqui a pensar em Uanhenga Xitu, Mendes de Carvalho…e mais quem? …João Melo?... Marcolino Moco?... Neste momento não estamos a ver quem, mas talvez haja e, aqui e agora, nos penitenciamos por não os ter referenciado.

O vice-presidente do MPLA, Roberto de Almeida (RA), embora não tenha na sua vivência referência a fazer valer de uma tradição familiar atreita ao espírito democrático, é uma pessoa que não se comporta como guerrilheiro quando raciocina. Profundamente arreigado ao partido, RA não abdica das suas convicções ainda enraizadas aos velhos princípios de esquerda do MPLA.

E é isso mesmo que nos intriga, pois recentemente ele deu indícios de querer afastar-se dos seus companheiros e ter pedido a renúncia do cargo. A ser verdade e tudo aponta que sim, será o segundo vice a fazê-lo em tão pouco tempo. Ainda que as razões apontadas sejam problemas de saúde, não deixa de ser intrigante que ainda vai o seu mandato no adro e já queira bater com a porta.

Dizíamos é o segundo. É claro, o primeiro foi Pitra Neto, um quadro jovem com créditos firmados que não terá aguentado o vazio das suas funções e a respectiva incongruência, pois era ministro do Trabalho, vice-presidente do MPLA e subordinado de Fernando Dias dos Santos, Nandó, primeiro-ministro no governo. Ora só no partido o primeiro-ministro lhe escutava, mas no governo era ralhado e subordinado. Ademais não parecia ter o poder real que o cargo comporta.

UM CARGO DECORATIVO QUE QUEM FAZ TUDO É O CHEFE
Agora acontece o mesmo com Roberto de Almeida, que deveria ser vice-presidente da República, mas aí mora Nandó que é o segundo homem do aparelho.

O grave, no entanto, quanto a Roberto de Almeida, é a sua dupla dependência, pois na verdade ele depende no governo de Nandó, quando precisa e do principal financiador o PCA da SONANGOL, Manuel Vicente, o verdadeiro segundo homem do país...

De salientar que Roberto de Almeida é um homem de cultura, recatado e parece querer distanciar-se da corrupção galopante que invade não só os bolsos como as mentes de quantos juraram servir o povo e não servir-se dos dinheiro do povo votado à miséria. Roberto parece ter consciência de que o partido só ganha com a razão da força e as armas da batota. Por certo que também está consciente de que existe uma grande insatisfação popular, e, como humanista que é, não queira assinar mais cheques em branco, o que durante toda a vida fez em nome da sua fidelidade ao partido e aos que o dirigiam.

Acontece que o país está doente, o partido está dividido entre os milionários e os generais de um lado e os pobres do outro, entre os que querem tudo e os que não têm nada. E depois, ser vice de seja que posto for, significa o quê? Significa não fazer nada enquanto o titular estiver no activo. O vice só actua em casos de excepção e passa a vida a seguir os passos do seu imediato superior hierárquico.

Cremos não estar longe da verdade quando avançamos as suas funções não ultrapassam o nível do subalterno, perfeitamente descartável a qualquer momento do seu desempenho das suas funções. E neste cenário, onde o cargo é mais decorativo que outra coisa, depois de ter visto que a longevidade e a fidelidade de pouco serviram para contrabalançar os trunfos dos mais novos, ele prefere sair. Afastar-se da linha da frente, ficar na retaguarda e esperar por outros ventos, pois prefere sair no meio da tempestade, para não ser arrastado por ela.

Mas por que fatalidade para Angola, os outros mais velhos, os “jurássicos”, são muitos e quase todos eles muito mais atávicos e incultos que Roberto de Almeida, porquê não se afastam, eles sim, definitivamente?



“Quando a Guerra é Necessária e Urgente”, já em Angola


Luanda – O livro “Quando a Guerra é Necessária e Urgente” que foi lançado em Agosto de 2010 no Brasil, chegou finalmente aos leitores angolanos. A sua apresentação estará a cargo do cientista político, jornalista e escritor António Setas, que também prefaciou o referido livro da autoria de Domingos da Cruz. O lançamento será no dia 25 de Marco às 16 horas no Lar da CEAST, sito na Maianga.

Fonte: Club-k.net

Lê-se o seguinte trecho cálido e sincero na contracapa: “(…) um país com uma democracia débil, governantes altamente corruptos e criminosos, com índices elevadíssimos de intolerância política, falta de transparência, instituições inoperantes, exclusão social e partidarização das instituições, justiça extremamente parcial, etnicismo exacerbado, governo máfia, intelectuais frouxos, governantes sem formação, população extremamente armada, partidos do inertes, que só esperam o dinheiro que é-lhes de direito, autoridades tradicionais do MPLA, [bispos, padres e pastores do partido], assimetrias regionais (...) A conclusão lógica e razoável é que de facto estamos em guerra”.

“ Ora, “na realidade nenhuma guerra que se conheça na história, no passado, no presente ou no futuro que se possa prever, foi justa”, mas isto não significa que não façamos o uso do direito natural à resistência, a manifestação e a expressão para repor a justiça e pôr fim a opressão interna.” Domingos da Cruz é Graduado em Filosofia e Pedagogia pelo IDBES (Instituto Dom Bosco de Estudos Superiores- Angola) e Mestrando em Ciências Jurídicas- Área de Direitos Humanos pela Universidade Federal da Paraíba-UFPB- Brasil.

Jornalista, Escritor com dois livros publicados, Investigador Social, Docente e vencedor do Prémio Nacional de Direitos Humanos, Categoria Ricardo de Melo em 2009.

Membro do (NCDH) Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da UFPB, actuando no GT de Investigação em Segurança Pública, Violência e Direitos Humanos. É ainda Membro convidado do grupo de pesquisa sobre Retórica e Direitos Humanos do CCJ (Centro de Ciências Jurídicas).