quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dino Matross, secretário-geral do MPLA. Mais do que justificar o que não fez, partido deve mostrar sua obra


O MPLA realizou com pompa e circunstância o seu IV congresso extraordinário com vista a avaliar o grau de cumprimento do seu programa de governação apresentado nas eleições de 2008 e ajustar a sua moção de estratégia. Só um partido no poder que pode chamar a si toda máquina pública, pode, em fase de crise, realizar uma tão requintada cerimónia, com mais de um milhar de militantes.
No meio da crise social, onde existe uma grande contestação, os camaradas preferiram passar ao largo da situação, por acreditarem que nada lhes atingirá. Mas a situação está mal e poderá explodir a qualquer momento, se nada for feito.
A moção de estratégia, aprovada em 2009 no VI congresso ordinário do partido, sofreu alterações projectando as linhas de força para aquele que deverá ser o programa do Governo do MPLA para o período 2012-2017, na lógica de blindagem no poder, independentemente dos resultados eleitorais, o conclave sabe que a máquina que está montada e controlada, não lhes deixa perder, mesmo quando lhe faltem votos da população eleitoral.
Por esta razão, foi passada em revista, as obras de betão, referente ao período 2009-2012, que o MPLA gizou as suas orientações estratégicas para alcançar as aspirações nacionais, bem como o seu papel como inquisidor no processo da incipiente democracia.

Neste congresso, os delegados e a direcção começaram a sua campanha visando as próximas eleições para 2012, dai que o secretário-geral, Julião Mateus Paulo “Dino Matross”, disse que além das questões internas do partido, o congresso, que decorreu sob lema “MPLA – Mais Democracia, Mais Desenvolvimento”, serviu também para abordar a vida socioeconómica do país. É verdade que sob democracia interna, pouco, muito pouco se falou, porque a presença dc Nguxito ofuscou a todos. Mas ainda assim, Dino Matross, disse que os delegados conseguiram atualizar a moção de estratégia do partido, tendo em conta o período de eleições que se aproxima em 2012.
“Não deixamos de tratar um assunto tão importante para a vida da nação e aproveitamos para ouvir também as opiniões dos nossos militantes em relação à essa questão”.
O secretário-geral do MPLA, Julião Mateus Paulo “Dino Matross”, acredita que mais importante do que justificar o que o Governo não conseguiu cumprir das suas promessas é mostrar o que está a ser feito.
Avaliar o grau de cumprimento do programa de governação do MPLA, apresentado nas eleições de 2008 foi um dos objetivos da realização do IV Congresso Extraordinário desta formação política.
A crise económica e financeira mundial, desencadeada em finais de 2008, é apontada como uma das causas do “atraso ou não cumprimento”, dos programas definidos por este partido durante as eleições, como a construção de um milhão de casas e a criação de mais empregos.
“Infelizmente não vamos conseguir cumprir, como desejávamos, tendo em conta a crise económica mundial, a qual também nos afetou profundamente e que não estávamos à espera quando apresentámos [em 2008] as nossas aspirações sobre aquilo que queríamos fazer nos próximos quatro anos”, disse o dirigente do MPLA.
Segundo o terceiro homem do partido no poder desde a independência de Angola, em 1975, com a crise económica muitos projetos de reconstrução do país e de melhoria do bem-estar da população ficaram paralisados.
“Todo o ano de 2009 foi de muitos problemas, algumas obras que estávamos a fazer pararam e só agora estão a ser retomadas. Isto tudo vai influir muito no cumprimento das nossas promessas”, referiu o político.
Dino Matross sustentou ainda as suas justificações com o discurso proferido pelo presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, na abertura da primeira reunião extraordinária do Comité Central deste partido, preparatória ao congresso, na qual o mesmo considerou “satisfatórios” os resultados obtidos até agora.
“O resultado é satisfatório, mas poderia ser muito melhor se não fosse o efeito negativo que a crise económica e financeira internacional teve na economia nacional”, disse José Eduardo dos Santos, sublinhando ainda que os cerca de ano e meio de mandato que sobram devem ser “bem aproveitados” para se realizar “o máximo possível do que resta por fazer”.
Questionado se os angolanos se contentarão com a justificação apresentada, Dino Matross está confiante de que “a população vai entender perfeitamente”, porque “isto acontece em todo o mundo. Em Portugal por exemplo, todos os dias vemos notícias sobre as discussões que são operadas devido aos problemas económicos que existem, o desemprego, e isso também em outros países do mundo, isso não é só connosco. Vamos explicar de uma forma que a nossa população venha a compreender”, disse.
“Primeiro vamos apresentar as realizações, que existem, não quero enumerá-las porque toda a gente que viaja, que anda por este país, sabe o que é que estamos a fazer e aquilo que não pudemos fazer, não foi porque não quiséssemos, mas por causa das condições que eu já disse. Acho que a população vai entender perfeitamente”, reiterou o dirigente do MPLA.
Dino Matross está consciente de que existirão também os céticos, o que considera normal, preferindo não comentar as contestações públicas que surgiram nos últimos tempos na sociedade.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Nada de novo e tudo na mesma. MPLA e um Dos Santos igual a si mesmo com a cobardia dos demais


William Tonet e Arlindo Santana

O MPLA realizou um congresso extraordinário cujo principal objectivo foi redourar o brasão de um partido pouco seguro de si mas dominador, partido ao meio por dissensões que se vão acumulando com o passar do tempo. À parte isso, tivemos direito a uma fotocópia dos anteriores congressos, todos eles orientados para o panegírico monumental à já desgastada figura do presidente deste partido e da República, nunca verdadeiramente eleito, em eleições livres, justas e sem batota. Estava tudo previsto, mesmo o imprevisto.
Os delegados e os delegados/dirigentes não falaram por temor a Nguxito/JES, ficaram, na maioria, quedos e mudos à espera que passasse o tempo e não houvesse qualquer mal-entendido que viesse à baila e os comprometesse.
Na mente de todos os gestores representantes do MPLA nos diferentes pelouros governamentais instalou-se o medo da reprimenda do soberano JES, que esse nunca comete nenhum erro, embora seja a ele que se deva a enorme rebaldaria que se vai apoderando das alavancas do Estado.
Por outro lado, assistimos a uma lavagem a seco das imagens mais que enodoadas alguns dos mais controversos dirigentes, como é o caso de Isaac dos Anjos, considerado por alguns, autoritário governador da província da Huíla, e de João Baptista Mawete, o pior governador que jamais passou pelo enclave de Cabinda.
O incompetente governador do Moxico, Baptista Liberdade, o truculento “rei” do Huambo, Faustino Muteka, o controverslo e polémico, governador do Bié, Boavida Neto, o da Lunda-Norte, entre outros auto-nomeados donos das províncias onde as liberdades são uma miragem. Se calhar…

BATOTA ELEITORAL NA FORJA E SILÊNCIO SOBRE BORRADAS EM CABINDA
A esse respeito e abrindo aqui parênteses, quando se pensava que os delegados pedissem contas bem-feitas pelas borradas, por exemplo, ao líder Nguxito, aos generais Manuel Vieira Dias Júnior Kopelipa, José Maria e Mawete João Baptista, do falhanço total da política de paz que se desejava instalar na província mais ao norte do país, Cabinda e também se pedisse explicações ao truculento governador Mawete, sobre o caso de que é acusado de ter mandado fechar portas de uma clínica de oftalmologia alegadamente pertencente ao ex-governador Aníbal Rocha, demonstrando desse modo que a vingança se serve fria e sem cerimónias.

OPOSIÇÃO DEVERIA ABDICAR DE PARTICIPAR NAS ELEIÇÕES FRAUDULENTAS DE 2012

Evidentemente que o que mais interessa o partido do poder não é lavar a roupa suja debaixo dos holofotes dos órgãos de comunicação social, o que o MPLA guisou foi toda uma série de programas de continuidade numa clara demonstração de estar na forja a batota eleitoral. Isso é sem dúvida alguma a principal preocupação do Executivo, na medida em que os actuais 82% de votos são clara e vergonhosamente o resultado de uma batota evidente, fabricada com o controlo da Comissão Nacional Eleitoral, dominada em toda a sua extensão pelo MPLA.
A esse respeito a situação apresenta-se sob maus augúrios, pois tudo leva a crer que a oposição tomará algumas medidas preventivas, as que puder em todo o caso, para evitar a batota eleitoral, acautelando assim um novo descalabro a fim de poder recuperar o terreno ocupado pelo MPLA, que foi desbravado à força pelos artifícios computorizados do Estado.
E a melhor maneira de denunciar a batota seria da oposição renunciar a sua participação nas próximas eleições se José Eduardo dos Santos não dissolver a actual CNE, nomeando uma nova, imparcial integrando figuras de reputada credibilidade e idoneidade. O contrário será a sua participação na farsa e um aplauso a perpetuação na batota. Igual atitude deve ser tomada pela maioria dos angolanos conscientes e amantes da democracia.
Não votar em regimes batoteiros é uma forma de resistência e de manifestação contra a ditadura, que se quer perpetuar eternamente no poder, mesmo que para isso tenha de engendrar as mais refinadas técnicas fraudulentas e controlo de toda a máquina do Estado.
Ora isso significa que, de qualquer maneira, se não for aprimorada, sofisticada a BATOTA, jamais o ÉME poderá repetir a performance das legislativas de 2008. O exemplo da Cote D’ivoir está a mão de semear. Ou seja, perspectiva-se no seio do próprio MPLA uma derrota (relativa) no próximo pleito eleitoral, pois há um risco inevitável de queda significativa de percentagem de votos a seu favor. E alguns dos seus membros apontam mesmo para a possibilidade de pouco mais se colher do que 50% dos votos em caso de não haver batota. Portanto, o problema é como fazê-la (a batota) sem dar bandeira.
Quanto aos defensores de uma mudança, esses nem sequer puderam falar, ou quando falaram foi já com a rasura e com o conhecimento antecipado de um guião apresentado a público numa espécie de demonstração da liberdade de expressão reinante dentro do partido.
Mas, realmente, tudo vai continuar na mesma. Os delegados teriam muito para falar, mas apenas gritaram em silêncio a sua enorme cobardia
Pairou no recinto do congresso as palavras proferidas no agressivo discurso que JES fez sob os temas da pobreza alheia (o MPLA nada tem a ver com isso) e sobre o alastramento em Angola da confusão reinante no norte de África.
Um discurso que aponta para uma tomada de medidas compulsivas de restrição das liberdades constitucionais como ficou desde já claro com a proposta de lei das TIC/Sociedade de Informação, numa clara e inequívoca mensagem do poder executivo firmemente determinado a "pôr ordem na buala". A TIC só vai ser aprovada porque José Eduardo dos Santos tem medo da democracia, não tem conceito democrata, não tolera as liberdades, porque para ele “democracia não se come”, logo ele engole todas as iniciativas democráticas. E quando o chefe Nguxito, tem medo, toda a sua corte se lhe segue as peugadas, fazendo-lhe as vontades. Definitivamente, as TIC são a clara demonstração da natureza ditatorial de um homem, que por temer a liberdade de expressão e de imprensa a quer matar, contando com a colaboração de uma Assembleia Nacional, que os angolanos deixaram de acreditar, por estarem ao serviço não dos eleitores, mas apenas de um homem.
Temos ainda a assinalar um ponto que devia ser de realce: A CORRUPÇÃO. Esse devia ser um dos temas a abordar de urgência nesse congresso dos camaradas. Mas apenas foi abordado pela rama, se fosse abordado, pois o mais certo é que o pioneiro seria logo vaiado e vetado.
O que vimos foi uma encenação minuciosamente regimentada. E nela, a corrupção teve o seu palco para representar em público a sua farsa teatral.
Os milionários vão ajustar as suas posições nos seus respectivos poleiros. Ouvimos ovações entusiastas a JES, quando agora, no seu discursa de abertura falou do combate a pobreza, que ele encontrou no tempo colonial. Francamente…
Depois falou das assimetrias regionais. Quais? Ninguém sabe, pois ele não conhece o país. Não vai ao seu interior, não sabe se as estradas são de asfalto ou de plástico.
O presidente do MPLA falou do sistema educativo, num exercício que pareceu forçado e cínico, pois ele é o primeiro não acreditar no sistema virado para os pobres, pois ele, e os seus ministros não dão o exemplo. Não têm os filhos no sistema educativo angolano e mesmo os que estão em Angola estudam em escolas francesa e portuguesa.
Dos Santos disse, de novo, que o MPLA é o povo e o povo o MPLA e que sempre se bateram por ele. A miséria, a fome e o desemprego, desmentem-no e a sua manutenção no poder deve-se apenas na farsa e controlo das instituições do Estado partidarizadas.
Talvez nos venham prometer para o próximo mandato governativo qualquer coisa como dois milhões de casas. Foi um grande teatro de “fantoches”, como ressaltou o presidente do MPLA, de quem pensa diferente dele está ao serviço das potências estrangeiras, esquecendo-se de dizer, que ele mesmo também o está. Dos Santos e os seus filhos, não têm contas bancárias em nenhum país africano, nem comunista. Não têm parcerias com angolanos, mas com estrangeiros, ora isto prova ser ele quem está mais ao serviço de forças externas, ao ponto de as filhas terem casado com estrangeiros e ter dado estatuto de utilidade pública a uma fundação do seu genro, cidadão zairense, em detrimento de associações angolanas carentes desse estatuto.
De facto nada augurava que este viesse a ser o primeiro congresso a sério, isto é, comprometido na abordagem dos verdadeiros problemas nacionais. A miséria do povo, é claro, mas também se deveria falar da reconciliação interna. Moco, Lopo, França e outros deveriam ter voz, os militantes proscritos do 27 de Maio de 1977 teriam de ser ouvidos e/ou o seu problema ser discutido, mas nada se passou, nada foi modificado em prol da democracia porque a monopolização do Estado a favor do partido, causa de conflitos graves em estado de incubação nem sequer abordaram.
Ninguém teve coragem de falar da política de instigação social, nem do súbito desmantelamento do SINFO, nem da crise entre os generais ricos e pobres nas FAA, nem tão-pouco se falou da má negociação em Cabinda e da crise instalada nas Lundas.
Resumindo, o que este congresso traçou pouco mais foi que a estratégia da batota eleitoral. Os eleitores conscientes, como dissemos acima, deveriam abster-se de ir votar, nas próximas eleições, que Nguxito disse que as vai vencer, e assim escusarem-se de apadrinharem a farsa, uma vez, os camaradas estarem condenados a continuar, eternamente no poder... As eleições, essas, serão apenas uma diversão, então que se retirem os demais em nome da democracia, para que desta vez a batota confira 100% dos votos ao MPLA, tal como ocorre nas piores ditaduras.

O fim de um regime? Surpreendeu o persistente apoio de Angola ao presidente vencido


O artigo abaixo foi elaborado, a pedido, para um órgão de informação angolano mas que, posteriormente, os seus "patrões" optaram por o não fazer evocando que o mesmo era "demasiado cru". Quem manda, pode... e eu «aceito» este... "bloqueio"!!
Em solidariedade, para com um jornalista de excelência, Eugénio Costa Almeida, F8 vai publicar mais uma visão sobre um país africano, onde foi notória a intervenção do regime angolano.

Eugénio Costa Almeida*

O 11 de Abril de 2011, com a detenção do antigo presidente ivoirense Gbagbo pelas forças conjuntas franco-onusianas, pode ter marcado não só o fim de um regime e a alteração de um rumo de uma potência regional como a reafirmação de uma antiga potência colonial e um novo estatuto das Nações Unidas.

Não foi só a queda, inevitável deposição, de Gbagbo e do seu consolado que se verificou na tarde deste dia face ao ataque das forças aerotransportadas francesas e da ONU sob ordem do Secretário-geral, Ban Ki-moon, apoiando as milícias republicadas de Ouattara como também o persistente apoio angolano, à revelia do que dimanava das cúpulas da União Africana, foi posto em causa e a afirmação de Angola, na região seriamente afectada com claros benefícios para a Nigéria, desde o início apoiante da causa de Ouattara.

Mas foi também uma alteração da posição da França como potência fiscalizadora e suserana, apesar das autoridades diplomáticas francesas persistirem que as suas forças somente “bombardearam alvos militares” em Abidjan e que depois foram os soldados milicianos leais ao presidente reconhecido pela comunidade internacional, Alessane Ouattara, quem entraram no palácio presidencial e detiveram Laurent Gbagbo, familiares e alguns dirigentes, tendo os franceses, segundo estes, se limitado a respeitar as “resoluções do Conselho de Segurança; nada mais e nada menos”, é evidente que a sua participação mais não foi que uma revanche face às “derrotas” da diplomacia francesa na crise dos finais de 90 que ocorreram na Côte d’Ivoire e que levaram, posteriormente, à afirmação do poder de Gbagbo questionada em eleições de Novembro passado e que deram a vitória, internacionalmente reconhecida como tal, de Ouattara.

Por outro lado, surpreendeu o persistente apoio de Angola ao presidente vencido, apesar da maioria da comunidade internacional ter aceite como vitorioso Ouattara, correndo por fora, como define e bem, o académico Celso Malavoneke, à Rádio Ecclesia, Emissora Católica de Angola. Uma posição questionável na estratégia do país para a região do Golfo.

Não surpreendeu num ponto de vista jurídico-institucional, porque aí Angola evidenciava bom senso face às posições do Comissão Eleitoral Independente e do Conselho Constitucional (apesar deste ser constituído, em maioria, por elementos afectos a Gbagbo) mas porque o presidente deposto tinha sido um dos maiores apoiantes – e quem afirme co-financiador – de Savimbi e da UNITA. E já nem se fala no propalado mujimbo de haver forças angolanas a apoiar a tropa de elite de Gbagbo o que a confirmar-se – e não se verificou até agora – seria, por certo, explorado pelas milícias de Ouattara e certa imprensa francófona.

Por fim a tomada de posição das Nações Unidas em solicitar – leia-se, ordenar – às forças francesas estacionadas em Abidjan que apoiassem um ataque à residência presidencial para desalojar o presidente declarado vencido e destruíssem as armas pesadas que provocavam inúmeras vítimas. Não se questiona a benignidade do acto, mas já se questiona porquês só as armas pesadas de Gbagbgo e não, também, as de Ouattara. Veremos se esta posição de Ki-moon se irá também estender à questão da Líbia e, assim, termos uma nova filosofia onusiana.

Para já parece ter o apoio de um largo leque de países, como da França, da China (que não criticou) e dos EUA, nomeadamente da Secretária de Estado Hillary Clinton que, judiciosamente, foi adiantando – e para bons entendedores parece-me bem clara – que a detenção de Gbagbo foi um “forte recado aos ditadores da região no sentido de que não deveriam ignorar as vozes de seus povos, que pedem eleições livres e justas” e reforçando “que haverá consequências para aqueles que se agarrarem ao poder”.

Aguardemos, agora, que Ouattara cumpra o que prometeu e não haja uma indiscriminada “caça às bruxas” porque, como em todas as crises militares, não houve só culpados de um lado…

*In blog Pululu

domingo, 1 de maio de 2011

Aqui escrevo eu. William Tonet. Nada que não estivesse à espera das ameaças em nome do rico Presidente dos pobres


Durante a semana fui invadido por um vírus de ataques ameaçadores no meu correio electrónico, no telefone e escritório, por parte de bajuladores, que se colocavam como se fossem ou, talvez sejam mesmo, auxiliares do Presidente da República.

Em todas as ocasiões o tom era de: “ou paras ou morres”. “Estás a falar demais sobre o camarada presidente.”… “Já estás a abusar muito! Isso é falta de respeito, seu lacaio da CIA”. “Se és americano então vai para os Estados Unidos viver para lá e deixa-nos em paz”. Se não parares ainda te fazemos a cama”. “Nós vamos te matar e quando os americanos chegarem já serás mercadoria”. “Se não queres viver onde há corrupção, então vai para o teu novo país, ao lado de Bush e Obama”.

“Tens inveja porque não és dirigente”.

Pesem estas ameaças, eu não vou desistir de lutar e resistir contra quem, para continuar a sugar as riquezas do país, tem as mãos manchadas de sangue dos milhões de angolanos assassinados em série, nomeadamente depois do 27 de Maio de 1977.

Mas, também, não vou desistir, mesmo que isso me custe a vida, por acreditar ANGOLA E OS ANGOLANOS não são propriedade de nenhum dirigente.

Este torrão de terra, com as suas especificidades e multiplicidades étnicas, é um legado dos nossos ancestrais e de Deus.

Por esta razão todas estas baboseiras e impropérios que me são lançados já não me surpreendem, por serem banais em regimes totalitários transvestidos em democratas, onde “sempre tem pau para «porca» obra”.

E se um dia, numa esquina, uma bala assassina me dilacerar o corpo, não poderá haver dúvidas sobre a sua proveniência, pois o hábito faz o monge.

Infelizmente, Angola, no alvor do século XXI, dirigida por Nguxito, não é uma referência de democracia, pese textualização na “Jesiana Constituição”.

Vivemos sob a bota de uma PARTIDOCRACIA, dirigida por um homem e um partido que definem as regras do jogo, manietando, privatizando, a seu bel-prazer, as instituições do Estado e aterrorizando, prendendo e assassinando os cidadãos inocentes, sempre que reclamam por LIBERDADE E DEMOCRACIA.

Nos marcos da lei, estando o direito à resistência, ainda que timidamente, consagrado no art.º 74.º da CRA (Constituição da República de Angola), não deixarei de o avocar, nesta vigência partidocrata e ditatorial, pelo amor a Angola, que quero ver transformada em Pátria e numa portentosa Nação de todos, sem qualquer tipo de discriminação.

Se me querem calar e amedrontar, por criticar a má gestão, a corrupção institucional, o enriquecimento ilícito, as arbitrariedades de alguns dirigentes, que se diziam proletários, mas são milionários dos cofres públicos, podem tirar o cavalinho da chuva. Não me calarei até à morte.

Adiante.

Actualmente a situação é muito crítica, está à beira duma explosão social, em função das políticas erradas e discriminatórias do executivo. O desemprego é galopante, os reformados estão abandonados e, mais grave, os antigos homens das guerras, ontem inimigos viscerais, de tão mal desmobilizados e sem subsídios condignos, uniram-se no sofrimento e resistência, caminhando com revolta incubada nos corações. Este caminhar em sentido contrário à paz é tão perigoso, como o descavilhar duma granada.

Os heróis militares de ontem, defensores de ideologias difusas dos vários contendores, são hoje um farrapo triste, atirados à sua sorte, como exército de pedintes nas calçadas das cidades e nos semáforos, agastados com a ingratidão governamental e a ostentação dos seus dirigentes.

Homens assim, engrossam facilmente a multidão da contestação e apenas aguardam o melhor momento para o virar de costas ao regime, principalmente, por em casa, assistirem impávidos e serenos os filhos trilharem os carreiros da delinquência e as filhas os da prostituição, por não terem como os sustentar.

A política de Nguxito, no domínio da Educação é avassaladora para os pobres e, mesmo o Público só lhe resta a designação, porque na falta de dinheiro dos pais para a competente gasosa, os “pobres criados pelo regime, desde 1975”, correm o risco de ver os filhos passarem ao largo do ensino.

Quanto à saúde, o quadro é pior, o pobre morre se não tiver no exterior de uma unidade hospitalar pública ou um parente para ir comprar um simples comprimido ou agulha para apanhar uma injecção receitada pelo médico, por ruptura quase permanente de stock.
Um grande número de jovens, com capacidade de estudar e ou trabalhar, para não engrossarem a delinquência, tornaram-se, fruto das más políticas económicas vendedores ambulantes, mas são confrontados diariamente com os agentes da Polícia e da Fiscalização, que lhes rouba a mercadoria, prendem e matam. Igualmente o fazem com as mulheres zungueiras, que preferem vender para alimentar os filhos e os maridos desempregados a terem de se prostituir, mas ainda assim ao invés de receberem solidariedade, são roubadas, pelos fiscais e se resistem, são prontamente assassinadas como se fossem galinhas.

No domínio da Justiça, os opositores e críticos não beneficiam da sua imparcialidade, mas da parcialidade partidocrata.

Hoje a maioria da população não vive na pobreza mas na miséria extrema, porquanto JES, não tem compaixão em partir as casas e esbulhar os terrenos dos pobres para dar aos ricos.

O presidente da República é responsável pelo desaparecimento de muitas das línguas angolanas, ao impor a todos angolanos uma língua estrangeira, o português, quando bem poderia imitar Nelson Mandela na África do Sul, que a par da língua colonial, colocou em pé de igualdade as línguas sul-africanas. Hoje menos angolanos falam a sua língua materna por imposição do regime.

Igualmente, Angola é dos poucos, melhor, dos raros países que se diz democrata onde se cultiva o culto da personalidade do seu presidente e do partido no poder, nos símbolos do Estado, como dinheiro, bilhete de identidade, passaporte e mesmo nas cores do MPLA, no que deveria ser o maior símbolo nacional: a bandeira, que assim não é orgulho de todos os angolanos, mas dos angolanos do partido no poder.

Como se pode constatar, estas não são situações criadas pelo colonialismo, mas pelo regime de Nguxito dos Santos.

Ademais quando o regime fala de reconciliação, não passa de uma política de INTEGRAÇÃO E CLEMÊNCIA, que subjuga e humilha os adversários políticos ou críticos internos, colocando-os numa condição de quase pedintes que têm de se subjugar aos caprichos do mais forte… É uma táctica pior do que a política de ASSIMILAÇÃO, adoptada por Salazar, no período colonial, que impunha que aqueles que quisessem singrar na administração tivessem de deixar de falar a sua língua materna, não a ensinar aos filhos e apenas comerem pirão (funje) uma vez por semana. Hoje não é difícil ver quantos complexados seguem a máxima de Salazar, como o principal prato angolano apenas aos sábados.

Por todas estas situações, passei a considerar perniciosas as políticas discriminatórias de Nguxito dos Santos, aliando-me aos intelectuais e jornalistas, ainda em minoria, mas conscientes, que se batem contra o MURO DA BAJULAÇÃO dos “yes man”, reivindicando uma verdadeira liberdade de imprensa e liberdade de expressão, maior justiça, melhor distribuição da riqueza angolana, fim da corrupção e uma verdadeira democracia.

Hoje, infelizmente, temos noção de a realidade andar em sentido contrário ao legislado. Remamos contra a maré, logo sujeitos às garras assassinas de quem, como disse Maquiavel, não quer largar o poder, quando “os fins justificam os meios”.

Mas todos estes algozes, no pedestal da sua ignorância bajuladora, apenas cumprem ordens superiores, como auxiliares, logo, indicam estar a responsabilidade final dos crimes cometidos, no destinatário dos números 1 e 2 do art.º 108.º da Constituição JESIANA.

O problema de Angola, das suas guerras, do desencanto da política de reconciliação e da actual democracia, tenho repetido bastas vezes, por conta e risco, não está no programa do MPLA, mas na adulteração dos seus princípios reitores, por parte de quem esteve e está no seu leme.

Agostinho Neto, médico e intelectual, convidado a ser o segundo presidente deste Movimento, foi o maior precursor das divergências no seio da massa guerrilheira e dirigente. Desconseguiu até à morte, gizar uma política de unidade interna, devido ao seu complexo de superioridade.

Atrelado a um exército de bajuladores, apoiou o seu consulado na arrogância e prepotência, originando os momentos mais macabros de eliminação interna dos seus camaradas e adversários políticos, provocando com isso o surgimento da Revolta Activa, da Rebelião da Jibóia, da Revolta do Leste, do 27 de Maio de 1977.

Neto nunca conseguiu, nem no imaginário a unidade no seio do MPLA, pela única razão de ser um homem apegado ao poder e distante dos postulados da democracia.

Quando, em 1979, se lhe substituiu, José Eduardo dos Santos, muitos auguravam uma postura distinta do novo líder. Enganaram-se. Enganamo-nos.

O diferencial da mudança, assentou apenas na juventude, porque em tudo o resto a procissão seguiu e segue o mesmo trilho.

O actual líder do MPLA não tem sido capaz de reconciliar com todos quanto internamente, pensam diferentemente e tenham uma outra visão sobre a política a seguir. Quando se manifestam são lançados ao deserto, como Alexandre Rodrigues Kito, Lopo do Nascimento, Marcolino Moco, João Lourenço, Roberto de Almeida, Fernando Miala e tantos outros, que apenas podem emergir, se aceitarem adoptar o culto de personalidade ao chefe, numa clara adopção do que disse Maquiavel: “Assim, um príncipe sábio pensará em como manter todos os seus cidadãos, e em todas as circunstâncias, dependentes do Estado e dele; e aí eles serão sempre confiáveis”.

Salvo seja eu ainda acredito, pelos exemplos que o mundo nos está a dar, a inversão de muitos dos bajuladores, tendo em atenção uma outra máxima maquiavélica; “em política, os aliados de hoje são os inimigos de amanhã”.

Passaportes para a vida. Luanda, Hospital Josina Machel


Segundo informações recolhidas junto de pessoas de um certo nível social, que já se aventuraram a requerer os serviços do Josina Machel, aqui identificado como “Agência de viagens para o Céu”, o epíteto peca por ser demasiado restrito. Esse hospital multifacético não se limita a ser uma “Agência”, tem blocos operatórios eficientes, quando a EDEL não tropeça nos soluços da barragem de Cambambe, nesses casos tem velas, ao mesmo tempo de alumiar e navegar, alumiar o corpo e navegar nas tripas, tem serviço de urgência aleatório, mas negociável, tem atendimento personalizado, segundo a quantidade de kwanzas disponíveis nos bolsos dos familiares do paciente, e tem mesmo um departamento de outorga de passaportes com “Visto” para a vida.
Esse é, sem sombra de dúvidas, o seu mais eficiente departamento. O único defeito que tem é que não se vê, só se sente. Na mão e por baixo da mesa. O paciente, ou um dos seus familiares, pega numa nota de cem dólares e remete-a discretamente ao doutor e todas as portas do hospital se abrem para ele. De notar que é conveniente, antes de proceder a esta singular operação, fazer o mesmo com o enfermeiro com uma nota de 50 dólares. E atenção!, tem que ser o bom enfermeiro, compincha do doutor, senão, lá se vão os 50 dólares e não há doutor que valha.
Se este subterfúgio funcionar, o paciente obtém de facto uma espécie de “passaporte”, que lhe permitirá entrar na lista dos que poderão ser tratados com um mínimo de eficiência. Um passaporte para a vida! Senão, não vale a pena, o bilhete é para uma simples viagem, mais que provavelmente sem regresso.

sábado, 30 de abril de 2011

Os portugueses têm competência para ordenar despejos sem mandado judicial?


Notícias - Angola24horas
“Casa de família angolana demolida pela empresa Teixeira Duarte”
Nas linhas que se seguem vamos relatar a história de um casal que acordou numa casa de três quartos, completamente mobilada, e que quando voltou encontrou apenas escombros, depois que a empresa portuguesa Teixeira Duarte mandou demolir a casa.
Passavam pouco mais de trinta minutos das 10 horas quando chegamos a Talatona, no bairro Cambamba II. Lá encontramos Hilário Peixoto, 38 anos, que apontou para um enorme amontoado de pedras, poucos metros adiante, que antes fora a sua casa. A terra estava lamacenta, fruto das chuvas que se abateram sobre a cidade nos últimos dias e tivemos que atravessar um terreno íngreme para chegar aos escombros. Ao chegarmos ao local vimos pedaços grandes de concreto, ferros, um gerador caído, aparelhos de ar condicionado e tanques plásticos. “Eu tinha tudo em casa, saí para trabalhar e algumas horas depois ligaram-me a dizer que a minha casa tinha sido demolida pela empresa Teixeira Duarte. Quando cheguei encontrei este cenário desolador”, explicou Hilário Peixoto.
Segundo a vítima, a empresa agiu sem aviso prévio e deitou abaixo a sua casa porque há muito que o vinha aliciando no sentido de abandonar o imóvel, pois quer construir no local um condomínio. Segundo o que apuramos no local, de testemunhas oculares, um encarregado de obras da empresa Teixeira Duarte, de nacionalidade portuguesa, ordenou a demolição, tendo contratado para o efeito um condutor para a máquina que efectuou o trabalho, visto que os funcionários da empresa negaram-se a fazê-lo.
Nesta altura Hilário Peixoto vive no seu carro enquanto a esposa foi abrigada em casa de amigos. Ele passa as noites em frente ao que antes fora a sua casa enquanto aqueles que demoliram a sua casa trabalham a escassos metros daí. Os seus braços estão avermelhados em função das mordeduras de mosquito que tem sofrido e as olheiras são visíveis no seu rosto em função das noites mal dormidas. “Anteontem estava a chover e tive que me abrigar debaixo das chapas que restaram, é muito triste e humilhante para quem tinha uma casa”, lamentou.
Enquanto conversávamos percorremos o espaço onde antes estava a casa, um caminho difícil pelo amontoado de concreto, mobília. Acabamos por embater num ferro. A nossa frente estava parte da cama que estava no quarto do casal que foi deitado abaixo. Fruto da situação, Hilário Peixoto está desolado, pois perdeu tudo o que construiu ao longo de uma vida. “Só falta darem-me um tiro e morrer”, frisou.
Ainda no local foi possível ver lâmpadas e copos partidos.
Por: Suzana Mendes
NP

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Recuo da Assembleia sobre a “TIC”


A Assembleia Nacional retirou da ordem de trabalhos, a aprovação do pacote legislativo sobre as tecnologias de informação, por razões que não avançou, ritual de anúncios da sessão de 19.

Alexandre Neto

Ao submeter à aprovação do plenário, a agenda de trabalhos, Paulo Kassoma, presidente da Assembleia, limitou-se a dizer que tinha sido decisão da conferência dos presidentes, um órgão deliberativo e de concertação de apoio, que integra no seu seio os chefes dos grupos parlamentares.

Pela carga repressiva, a votação final na especialidade, que inclui o projecto de lei de Combate à Criminalidade no Domínio das Tecnologias de informação, (bastante contestado pelos usuários de Internet, principalmente a sociedade civil) era aguardada com muita expectativa.

Na semana passada organizações da sociedade civil, Sindicato dos Jornalistas e Open Society, tinham-se desdobrado em reflexões, que culminaram com a produção de um documento crítico sobre a citada lei, distribuído aos distintos organismos, incluindo a própria Assembleia.

Talvez a reacção que se gerou, e a própria exposição anti-democrata a que se sujeitaria Eduardo dos Santos enquanto presidente do MPLA, determinaram o protelamento “sine die” da aprovação dos referidos projectos de lei.

Na mais recente reunião do comité Central do partido no poder, o seu presidente da organização que governa, revelou críticas contra os espaços sociais da internet, enquanto veículos de informação “intriguista”.

Resta agora saber, se se trata de uma definitiva “morte à nascença” dos projectos, ou se serão ressuscitados nos próximos tempos.

Corrente de generais “impõe” candidato a sucessão presidencial


A reacção do Presidente José Eduardo dos Santos na última reunião do Comitê Central do MPLA, denunciando um grupo com pretensões de colocar “fantoches do poder, que obedeçam à vontade de potências estrangeiras”, é justificada como sendo um “ataque” direcionado a uma corrente de generais do seu “inner circle” que teria avaliado a sua saída do poder e aventado um delfim para substituição presidencial, segundo observou o Club-k.

José Eduardo dos Santos terá desmantelado uma rede interna, de acordo com meios com domínio da matéria, a corrente interna dominada por generais, ao qual se inclui o general Manuel Vieira Dias “Kopelipa”, teria aberto canais internacionais via Rússia para avaliar moldes da ablação de José Eduardo dos Santos da vida política sem causar reboliços internos.

A linha de pensamento que se atribui a JES é a de que o mesmo encarou a acção do grupo que “tem dirigido os encontros sobre a matéria” como uma “trama” razão pela qual não fez-se percebido na reunião partidária sobretudo ao fazer recurso do termo “fantoche”. A “desilusão” notada em JES foi acompanhada de um facto inédito que foi de ter escrito o discurso, sem desta vez contar com o apoio do seu assistente José Mena Abrantes.

O que se observa dentro do regime angolano é na realidade uma luta surda de imposição de candidatos a sucessão presidencial pelas diferentes correntes internas. Em meios conhecedores do assunto, notam por exemplo que a corrente de generais do circulo presidencial, tem como preferência para a sucessão presidencial, a figura de Carlos Maria Feijó, actual Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil cujo prestigio interno e externo é consensual. Foi esta “corrente de generais” que em 2009, convenceu JES a reabilitar Maria Feijó para o gabinete presidencial. Na altura o general Vieira Dias “Kopelipa”, disponibilizou se em contactar Feijó para transmitir verbalmente o convite de regresso a Presidência da Republica.

José Eduardo dos Santos nutre forte admiração por Carlos Maria Feijó mas não o tem como parte das suas escolhas. Personalidades que privam com JES, não notam nele sinais de pretensão de retirada da vida política. Certa vez, em resposta a hipótese de um pacote legal (Estatuto especial de ex-Chefe de Estado) para sustentar a sua retirada chegou a responder que “isto é papel”, como se desejasse transmitir que qualquer um que assumisse o poder poderia rasgar o “papel” (entendam-se pacote legal) e deixá-lo exposto as feras.

Quando lhe foi apresentado o “draft” da actual constituição, JES terá ficado “muito encantado” sobretudo com o capitulo da eleição presidencial que lhe da garantias de permanência do poder. Em contrapartida considera-se que JES foi internamente “tramado” pelo facto de a nova constituição ter sido aprovada sem terem dado “conta” que quanto as eleições gerais, a lei magna determina que a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) deve ser dirigida por uma figura independente; ao qual JES é aparentemente contra. Na pratica o pressuposto legal continua a não ser respeitado. (O Presidente da CNE continua ser nomeada/indicada por JES). A nova lei constitucional proporciona também “excessos” de garantias de liberdades que estão agora a ser atenuadas com aprovação de novos diplomas legais de censura com realce a nova lei da internet.

A falta de confiança com que se passou a ter ao circulo que rodeia JES é seguida de fissuras que se vêem registrado no próprio regime. Em tempos, teve de ser o general António França “Ndalu” a neutralizar (por via do dialogo) um grupo de generais que em conseqüência da perda de “muito” dinheiro, durante a crise financeira mostravam-se com aptidões em “amedrontar” o regime por efeito de um sentimento de responsabilização do mesmo.

Externamente, aventa-se que JES perdeu apoio de uma boa parte dos oficias generais no exercito. Manuel Vieira Dias “Kopelipa” é ainda na visão destes meios, como o único general que ainda pode manter a sua segurança. Em outros círculos estima-se que dentro das FAA, JES pode inclinar-se aos oficias oriundos da UNITA que são os que mais sinais de patriotismo e lealdade mostram-se a ele e ao poder político.

O assunto da sucessão presidencial (tido como um tabu interno) começou a ser questionado pela geração de antigos combatentes do regime. A cerca de quatro anos atrás, numa reunião preparatória para as eleições de 2008, Ambrosio Lukoki, um respeitado veterano do MPLA, tomou a palavra em conclave para questionar se “se no partido já não havia outros candidatos”. Na mesma senda, uma corrente de antigos comandantes da guerrilha do MPLA, ameaçou, recentemente que em caso de indefinição quanto a sucessão presidencial tomariam a iniciativa de indicar um sucessor para ser apresentado no congresso de Abril. Tem dado voz por esta corrente, o Tenente general na reserva, Manuel Paulo “Paca”.

Parlamento aprova Lei sobre o Investimento Privado, que prevê valor mínimo de um milhão de dólares


A Assembleia Nacional aprovou no 21 na especialidade a Lei sobre o Investimento Privado, que estabelece como valor mínimo um milhão de dólares para quem pretenda investir em Angola.
A lei, aprovada com 159 votos a favor, 20 contra e três abstenções, visa, segundo o ministro das Finanças angolano, “qualificar o investimento em Angola”, de que o país precisa atualmente.
“É isso que o país está a precisar, de captar finança internacional, para o desenvolvimento de grandes projetos em Angola, projetos esses traduzidos no aumento em massa de postos de trabalho”, disse Carlos Alberto, na apresentação da lei.
Segundo o ministro, a determinação do valor mínimo de um milhão de dólares para o investimento em Angola não proíbe a realização dos de menor montante, ocorrendo apenas a retirada de alguns privilégios contidos nesta lei.
“Privilégios traduzidos na possibilidade de repatriamento de capitais e de acesso a certos incentivos ficais, em razão de ser investidor privado, mas no quadro da Lei do Investimento Privado”, referiu o governante angolano, reiterando que esta lei “impõe um regime qualificado de investimento”.
Entretanto, a explicação dada pelo ministro das Finanças não convenceu a bancada parlamentar da UNITA, o maior partido da oposição, que votou contra a referida lei, por a considerar “seletiva e discriminatória”.
“Não é um angolano qualquer que tem um milhão. Os que têm milhões têm nomes, por isso votámos contra, porque não estamos de acordo com ela por não beneficiar a maior parte dos angolanos, os seus principais destinatários”, justificou o vice-presidente da bancada parlamentar da UNITA, Silvestre Samy.
Carlos Alberto salientou aos deputados que esta lei aprovada “deve ser vista e integrada como apenas uma das leis a regular o investimento privado, a par da Lei do Fomento do Empresariado Nacional, da Lei de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ainda outros diplomas”.
Segundo o governante, a Lei de Fomento ao Empresariado Nacional estatui como estímulos ao investimento nacional incentivos fiscais, apoios financeiros, técnicos, direitos, privilégios e garantias patrimoniais especiais, bem como o apoio à criação de centros de formação profissional, liderados por associações económicas, que beneficiam de participações em seminários nacionais e internacionais.
Ainda na mesma sessão, os deputados aprovaram por unanimidade a Lei de Autorização legislativa sobre o Recenseamento geral da População e Habitação.
Segundo a ministra do Planeamento angolana, Ana Dias Lourenço, decorrem ainda os preparativos para a realização do primeiro censo populacional, depois do último realizado em 1970.
Ana Dias Lourenço disse que a realização do censo populacional e habitacional decorrerá em dois meses, concretamente de 18 de junho a 18 de agosto de 2013.
Ana Dias Lourenço, esclareceu que a realização do Censo não pode ser antecipada por se tratar de um trabalho complexo e exaustivo.
"A prática internacional requer pelo menos três anos de preparação. (…) Vamos, nos próximos dois anos, preparar convenientemente a operação estatística para que possa ser realizada em 2013", disse, precisando que recenseamento será efetuado no período do cacimbo (tempo frio) e de férias escolares, designadamente no período entre 16 de julho a 18 de agosto, refere o mesmo jornal.
A titular da pasta do Planeamento vincou que as respostas as questões do Censo produzirão o perfil numérico completo do país, propiciando informações fidedignas e precisas que são a condição necessária para a tomada de decisões coerentes e sustentadas, a todos os níveis.
Por ser uma operação complexa que o país vai realizar, estarão envolvidas pelo menos 40 mil pessoas, entre agentes recenseadores, supervisores e de apoio administrativo.
Quanto ao orçamento destinado a esta operação, a governante adiantou que os valores constarão do Orçamento Geral do Estado de 2011, 2012 e 2013 e a sua gestão será da responsabilidade do Instituto Nacional de Estatística (INE), que fica autorizado a levantar os fundos do cofre do Estado, uma vez aprovado o cronograma do orçamento.
Ana Dias Lourenço lembrou ainda a existência de recomendações internacionais que aconselham a não realizar os registos estatísticos em ano de eleições, quando questionada sobre a possibilidade de realizar o Censo antes das próximas eleições, marcadas para 2012 em Angola.
Angola não leva a cabo um recenseamento Geral da População e Habitação desde 1970 (época colonial), mas as Nações Unidas recomendam que os países realizem censos em intervalos regulares, pelo menos, de 10 em 10 anos.

Justiça liberta jovens acusados de realizar manifestação para exigir negociações de paz para Cabinda


Foram mandados em liberdade os dois activistas detidos em Cabinda, na sequência de uma manifestação abortada pelas autoridades, convocada em apelo ao calar das armas no enclave de Cabinda, segundo a VOA.

Os dois activistas foram acusados por crimes contra a segurança do estado por se ter achado em sua posse, panfletos que injuriavam o estado Angolano, as instituições do estado e do Presidente da Republica.

Apesar dos factos não terem sido provados e o advogado da defesa José Manuel ter pedido a absolvição dos réus por culpa não provada, o procurador Provincial fez uma convolação do crime tendo recorrido aos artigos 407,410 e 411 do Codigo Penal, pedindo ao Juiz da causa que fossem condenados por crimes de injuria e perjúrio as autoridades publicas.

Argumentos que o advogado dos Réus considerou não serem suficientes para formar o corpo de delito uma vez que os mesmos ja nao chegaram de ser exibidos.

José Manuel pediu ainda ao Juiz da Causa e ao Procurador local a instauração de um inquérito e o conseqüente procedimento criminal contra os cidadãos que terão introduzido um segundo processo dos réus para os incriminar alegando que a investigação criminal falsificou os documentos para incriminar os activistas.

Moco revela que foi ameaçado de morte na sede do MPLA


O antigo Primeiro Ministro angolano, Marcolino José Carlos Moco revelou que sofreu ameaças de morte por parte do seu partido na altura em que foi convocado para uma reunião na sede central do MPLA em Luanda. Não cita o nome do ameaçante embora sabe-se que na altura o mesmo foi convocado pelo Secretario- Geral, do partido, Julião Paulo “Dino Matross”.

Marcolino Moco fez estas revelações a margem do debate do programa semanal “Quinta de Debate”, realizado no 15, pela organização não governamental, OMUNGA, em Benguela. Na secção de perguntas e respostas, um grupo de altos dirigentes do Comitê provincial do MPLA que assistiam a palestra pediram a palavra para rejeitar as comparações que o prelactor fez do quadro político angolano com as “ditaduras do médio oriente”.

O Secretario para os assuntos políticos do MPLA naquela província, Victor Mota disse que havia democracia em Angola e rejeitou as acusações segundo as quais tem se implementando, no país, a cultura do medo. Aquele dirigente partidário deu como exemplo o caso do próprio prelector que falava à-vontade sobre a política do país sem que nada lhe acontecesse.

Em reação, Marcolino Moco respondeu a Victor Mota, que a quando da sua convocação no ano passado, na sede principal do “partido” em Luanda, os seus colegas disseram-lhe frases como “cuidado com o que aconteceu com Savimbi” e outras como “cuidado com o que aconteceu com o Pinto João [Ex-Director do DIP do MPLA que deixou o partido no poder para criar um partido] que teve de ser o camarada presidente a ajudá-lo no fim”.

O antigo Secretario Geral do MPLA, disse que “Isso é ameaça de morte”. Acrescentou que há muita coisa que não disse na sua carta que na altura tornou público devido a pressão dos seus familiares.

Ainda do decurso das perguntas e respostas, os dirigentes do MPLA em Benguela, atacaram dizendo que “Moco esteve a mais de 20 anos no poder e agora esta a pedir que os outros também saiam” para de seguida lhe convidarem a declarar o valor da sua fortuna. Em resposta o antigo primeiro ministro angolano disse que “nunca saiu do poder e que continua no MPLA”. Adiantou ainda que não esta a pedir para que ninguém saia do poder mas sim tem alertado para que não se conduza o país para uma ditadura.

Indo directamente aos ataques dos dirigentes provinciais, Marcolino Moco disse que “Não é gabar-se” mas que já passou por quase todos cargos no MPLA, inclusive Secretario provincial, dando a entender que não tinha motivo de estar com “inveja dos cargos”, conforme os participantes ligados ao MPLA em Benguela tencionavam insinuar, durante aquele debate.

De recordar que Marcolino Moco é uma das figuras do MPLA que nos últimos anos viu o seu carisma popular a crescer devido as suas intervenções em favor das liberdades democráticas em Angola. Foi a mais de 10 anos afastado das estruturas do poder por ter defendido, na altura o dialogo como instrumento para o regime fazer a paz, com a UNITA de Jonas Savimbi, contrariando o discurso de José Eduardo dos Santos que defendia “a guerra para acabar com a guerra”. No seguimento do seu afastamento, o Movimento Nacional Espontâneo, organização de promotora de maratonas ligado ao MPLA, foi instruído a fazer uma passeata de automóveis pela cidade de Luanda para saudar a demissão de Moco com cânticos como “bailundo fora”.

Encerramento das contas nos EUA ainda por resolver


O ministro das Relações Exteriores, George Chicoty, disse, que continua por resolver o problema de encerramento das contas de Angola nos Estados Unidos da América.
George Chicoty, que falava sobre a política externa angolana, manifestou o desejo de ver encontrado um "entendimento" entre os dois Governos, para “tentar resolver o problema, que ainda não está totalmente resolvido”.
Segundo o ministro, Angola “nunca obteve uma explicação correta" do departamento de Estado norte-americano sobre o encerramento das contas da embaixada de Angola.
O chefe da diplomacia disse que a medida norte-americana está a causar dificuldades a Angola, por isso as autoridades angolanas pretendem “que esse processo se normalize e que se construa um diálogo político mais abrangente a todos os níveis”.
O governante salientou que é igualmente desejo do Governo angolano, que se estabeleça “um ambiente de bom diálogo”, para que se passe da fase do “preconceito” para o do “tratamento com delicadeza” dos problemas de ambos.
“Não está totalmente resolvida, ainda temos pontos que não estão resolvido, mas há uma vontade por parte do departamento de Estado, foi o que nos transmitiram”, referiu George Chicoty.
O encerramento das contas da embaixada de Angola nos EUA ocorreu no final do ano passado, quando um levantamento feito por um comité do senado norte-americano tomou como suspeita uma tentativa de transferência de 50 milhões de dólares, ordenada, em 2000, pelo então Governador do Banco Nacional de Angola, Aguinaldo Jaime.



































Vice-Presidente anuncia construção de cinco novos hospitais municipais na província de Luanda


Cinco novos hospitais municipais deverão ser construídos ainda este ano na província de Luanda, anunciou o vice-Presidente, Fernando da Piedade Dias dos Santos.
O anúncio foi feito no dia 19, no final de uma visita do vice-Presidente às obras de dois dos hospitais na capital angolana.
De acordo com Fernando da Piedade Dias dos Santos, a construção destas unidades hospitalares têm por objetivo melhorar a assistência médica na periferia e reduzir a pressão sobre os principais hospitais.
As unidades sanitárias, de 70 camas cada, estão a ser construídas nos municípios de Viana, Cacuaco, Sambizanga, Cazenga e Samba, no quadro dos esforços do Executivo angolano para melhorar a assistência médica.
Paralelamente, decorrem obras de ampliação e reabilitação dos hospitais gerais dos Cajueiros (Cazenga) e do "Avó Kumbi" (Kilamba Kiaxi).
O vice-Presidente visitou no mesmo dia uma escola primária e um politécnico em Cacuaco e outra do 2.º ciclo em Viana, que se debatem com falta de energia elétrica, água e com problemas de acessos às instituições.
Fernando da Piedade Dias dos Santos reconheceu a existência de algumas "carências" e falou dos planos do Governo angolano em melhorar igualmente a prestação de serviços no domínio da educação.
"Temos de ter consciência que os problemas de Luanda são imensos e não podem ser resolvidos com a urgência que se pretendia, mas há esperança de bons resultados", sublinhou o vice-Presidente de Angola.
O governante anunciou igualmente a criação de um grupo de trabalho, que integra os ministérios da Saúde, Administração do Território, Planeamento, Finanças, Interior e o Governo Provincial de Luanda, para resolver os problemas com que se debate a casa mortuária da capital.
O grupo de trabalho procurará soluções "do ponto de vista estrutural, de e de equipamento", precisou Fernando da Piedade Dias dos Santos.

George Chicoty muda o disco. Angola sempre defendeu solução pacífica e não enviou tropas


O ministro das Relações Exteriores, George Chicoty, reiterou nop dia 20, em Luanda, que Angola sempre defendeu uma solução pacífica para a Cote D’ivoir e negou o envio de militares angolanos para aquele país.
Segundo George Chicoty, Angola chegou a enviar um emissário aquele país para dizer ao Presidente cessante, Laurent Gbagbo, que encerraria a sua representação diplomática naquele país em caso de conflito.
“Quando essas (conversações para uma solução pacífica) falharam e não foram acatadas pelo Presidente Gbagbo, nós tentámos encorajá-lo a aceitar essa posição e ele não aceitou. A partir daquele momento, Angola abandonou a Cote D’ivoir”, referiu o ministro.
George Chicoty disse ainda que “nunca houve nenhuma atitude de apoiar a Cote D’ivoir no sentido do conflito”, salientando que “Angola nunca enviou nem sequer uma só arma”.
“Tivemos uma cooperação normal (2004-2005) com a Cote D’ivoir, mas é preciso que se digam bem as coisas: nunca houve nenhum homem das forças armadas angolanas ou de qualquer guarnição angolana a lutar ao lado das forças armadas daquele país”, frisou.
A reabertura da embaixada de Angola naquele país, segundo o ministro, está dependente de garantias de segurança, tendo em conta que foram assaltadas algumas instalações angolanas.
“Quando tivermos garantias de que há segurança suficiente e um ambiente bom poderemos reavaliar a abertura da embaixada, ou eventualmente permanecer num país vizinho”, acrescentou o chefe da diplomacia angolana.

Cortina de fumaça


Marta Sousa Costa*

Pela rapidez com que assuntos relevantes desaparecem da midia, o cronista, quando possui coluna semanal ou depende da boa vontade dos editores para a publicação, pensa algumas vezes, antes de se referir a algum tema. Se bobear, até a crônica ser publicada, o assunto perdeu o interesse, dissecado nos jornais diários e nas revistas semanais. Por isso, muitas vezes o cronista deixa de comentar fatos palpitantes ou seu comentário surge quando a mídia já o esqueceu.

Alguns temas, contudo, são sempre atuais. Violência, por exemplo. Em 2005, a maioria da população respondeu com sonoro “não” à pergunta: ”O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil”? Desconsiderada a opinião do povo, volta e meia a polêmica retorna, na esperança de que passe, aproveitando o impacto de algum acontecimento sobre o emocional das pessoas. Como aconteceu agora, aproveitando o abalo causado pelo massacre em uma escola do Rio de Janeiro.

Por bom senso, antes que a idéia se firmasse, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), se posicionou contra nova consulta popular, reconhecendo que seria uma “cortina de fumaça” para os verdadeiros problemas.

Antes, o senador José Sarney, no embalo da comoção geral, prontamente apresentou ao Congresso Nacional a proposta de novo referendo sobre o desarmamento, pois “a opinião da sociedade pode ter mudado, diante da violência reinante”. Entrei no Google, rapidamente, e num só evento encontrei o senador rodeado por seis seguranças, que o protegiam inclusive dos jornalistas. “Façam o que eu digo, não façam o que eu faço” _ seria outro título adequado para esta crônica.

Mas querer convencer que a raiz de toda a violência reside na posse de uma arma é fazer pouco da capacidade de pensar das pessoas, que se sabem inseguras e desprotegidas, em todos os sentidos. Sem saber a quem apelar, em quem confiar.

Logo o massacre, efetuado por um jovem aparentemente desequilibrado, segundo opinião de quem o conhecia, deixará as manchetes e tudo continuará como sempre. As escolas continuarão sem segurança: um guarda armado à porta de cada uma imporia respeito e seria mais salutar o relacionamento com ele que a intimidade com o traficante. Os familiares das pessoas com problemas psicológicos e os drogados continuarão sem ter órgãos públicos aos quais recorrer, descartados rapidamente das instituições, por falta de assistência governamental. Os corredores dos hospitais públicos continuarão cheios de pessoas desatendidas, algumas com o travesseiro e a coberta trazidos de casa, pela inexistência de um mínimo de conforto. Contra essa violência não viria bem um plebiscito?

Mas aí já entraríamos em outra área e teríamos que ouvir as explicações de que não existem verbas para melhorias e para salários condizentes, tanto na saúde como na educação. Vez por outra, porém, ouvimos falar de verbas milionárias destinadas a projetos cuja importância não alcançamos entender. Por isso, é mais fácil erguer cortinas de fumaça, deixar-nos com os olhos ardendo, confundir-nos, para mudar o foco da nossa indignação e subtrair a capacidade de reação a leis e projetos que, massacrando o cidadão comum, continuam favorecendo aos legisladores e seus amigos.

*www.martasousacosta.com

O génio incompetente


Quando era criança eu amava o presidente José Eduardo. Aos oito anos já era da OPA, mas na altura não percebia nada de política e de como gerir um país. Já havia fome, mas gostava de ver quando ele ia jogar basquete no pavilhão da cidadela e dominava a bola no centro do campo antes de começar uma partida. Gostava daquela carinha laroca de menino mimado e ingénuo, que lhe fazia parecer puro.

Na altura, aquela imagem e o seu silêncio iludia facilmente a fome que já sentia e me fazia acreditar que o futuro estava seguro nas suas mãos.
Talvez porque o amava quando era criança, quando me tornei homem, e entrei para a JOTA, e comecei a perceber de política e gestão, tive dificuldades em ver nele o ditador que a oposição acusava. Continuei a acreditar que ele era apenas o menino pobre e ingénuo do Sambizanga que lutou, cresceu e se tornou presidente, e que nos ia tirar da pobreza que o colono deixou como herança. Mas hoje, quando lhe ouvi dizer que a culpa da pobreza é do colono, e não do MPLA, para justificar a situação em que estamos, foi como se a venda que tinha nos meus olhos finalmente caiu e me permitiu ver pela primeira vez o Presidente José Eduardo dos Santos, que tanto amava quando era criança.
Hoje percebi que ingénuo era eu, não ele. Ele era um génio incompetente. Sim, só um génio incompetente é capaz de, passados mais de trinta anos a governar, justificar a pobreza do país com a herança do colonialismo. Só um presidente incompetente é que não percebe que a democracia e a liberdade de expressão estão além dos jornais e das associações da sociedade civil politicamente controladas, só um incompetente é que não percebe que o povo não precisa que alguém venha do estrangeiro para lhe dizer que aquele burburinho na barriga não é lombriga mas fome. Só um incompetente insensível não percebe que a fome se sente como o frio e a dor.
O discurso do Presidente revelou o homem por detrás daquela voz insegura e permitiu perceber o porquê da crise de gestão e de liderança do país. O discurso revelou um presidente amarrado ao passado, completamente falho de ideias para o futuro e, definitivamente, agarrado ao poder como uma criança à primeira bola.
Esse discurso revelou um Presidente que já não é capaz de compreender o seu povo, que fala sozinho e apenas para encher o seu ego, que prefere viver rodeado de mentiras e de mentirosos que o fazem acreditar que é um ser iluminado, este discurso revelou um presidente que não tem capacidade para perceber que está na hora de partir para dar alguma esperança a esse país. O discurso do presidente revelou um homem que não se envergonha por ver gente morrer a fome, jovens sem esperança, famílias sem futuro, e prefere racionalizar a pobreza com discursos demagogos que já nem Fidel aceita proferir.
Depois de tantos anos a governar, José Eduardo dos Santos já não se devia preocupar com o presente, devia pensar no futuro, num futuro sem ele por cá, por força da lei da natureza e das rezas que várias famílias vêm fazendo para que ele vá embora, vivo ou morto. Depois de tantos anos, em que a paz foi o seu maior feito e nos devia fazer esquecer a fome que sentimos, José Eduardo dos Santos devia lutar para deixar um legado que lhe permitisse ser lembrado como um homem de bem.
Mas, como fizeram com a independência, José Eduardo tem sido capaz de transformar a paz numa coisa má. E, assim como os nossos pais ficaram com saudades do colonialismo quando viviam independentes, ele faz-nos ter saudades do tempo da guerra, porque naquele tempo parece que vivíamos melhor.
Quando José Eduardo dos Santos já não estiver cá entre nós, além do júbilo silencioso das nossas almas, a história do país será reescrita, a sua imagem será arrancada com raiva e alívio dos gabinetes pomposos dos bajuladores do sistema, a sua imagem será retirada do bilhete de identidade e do nosso dinheiro, a universidade do planalto deixará de ter o seu nome, a sua mãe perderá o nome do hospital em Viana, a sua esposa também, o seu pai deixará de ter o nome numa rua, a sua filha primogénita perderá os seus bens a favor do povo, a outra deixará de ser presidente do Benfica e quase dona da TPA, os outros podem continuar a cantar, mas só iremos comprar os discos se forem bons, e não haverá ministras da cultura a elogiar, se forem uma porcaria, ninguém lhe vai fazer estátuas e mausoléus, os seus seguidores vão começar a falar mal dele, contando os segredos bem guardados do regime, e ele será visto pela história como o homem vazio e ultrapassado e incompetente que hoje revelou ser. Depois da longa guerra civil, José Eduardo será lembrado como um dos maiores males do país.
Perante o quadro do país que ele próprio reconheceu, e tendo em conta a falta de resultados dos seus inúmeros programas, o mais sensato e democrático seria o Presidente José Eduardo assumir publicamente que não é capaz de fazer melhor e ir embora. Como diziam os gregos, ninguém dá o que não tem, e a verdade é esta: José Eduardo dos Santos já não tem (se calhar nunca teve) capacidade política e de gestão para levar esse país aos níveis de desenvolvimento que possibilitem uma vida melhor a quem aqui vive, principalmente a juventude. Não tenhamos ilusões, os gregos têm razão, ninguém dá o que não tem.
Foi de um cinismo escandaloso a ideia de usar os nomes de Agostinho Neto e António Jacinto para justificar a pobreza. Tenho muitas dúvidas que tenha sido o Mena Abrantes a escrever aquele discurso, sou dos que também acha que foi o próprio que escreveu, e só por isso hoje se mostrou como verdadeiramente é. Mas ele não percebeu que discursos desses já não servem para nada, já não passam pela crivo da juventude e já não servem para iludir a fome que sentimos há mais de trinta anos, e a falsidade demagoga como soaram as passagens poéticas daqueles dois homens, mostram bem o distanciamento de um ditador e de um verdadeiro líder.
É verdade que não há país no mundo em que não haja corrupção, mas o Presidente se esqueceu de dizer que são poucos onde a corrupção chegou ao nível do nosso país e se tornou tão endémica. Ele explicou de onde vem a pobreza, mas esqueceu de explicar de onde veio a riqueza dos seus filhos. Se calhar no congresso do partido vai aparecer a dizer que Angola não é o único país do mundo onde os filhos do presidente e os seus amigos ficam ricos do dia para a noite. Ele disse que não tem vinte biliões de dólares em bancos estrangeiros, mas não foi capaz de dizer quanto é que tem e como o conseguiu. E a tirada dos fantoches?
Será que ele ainda não percebeu que, a partir da sua casa e terminando no seu partido, ele está completamente cercado de fantoches? E que é ele que alimenta os fantoches? Olhemos para o MPLA. Para a velha e a nova geração. Já não falemos de Dino Matrosse, Kwata Kanawa e Rui Falcão, mas é com homens como Bento Bento, Bento Kangamba, o tal de Jesuino, jovens como Luther Rescova, o Norberto Garcia, o demagogo João Pinto que ele conta desenvolver esse país?
Lembro que uma vez o camarada Lúcio Lara chorou em plena Assembleia Nacional quando se discutia a atribuição da vice-presidência a Jonas Savimbi, e na altura, entre lágrimas amargas, se perguntava como era possível que intelectuais da craveira de Jaka Jamba eram capazes de seguir um homem que queimava pessoas na fogueira. Hoje, com as mesmas lágrimas no coração, pergunto-me como é possível que homens como Roberto de Almeida, Dino Matrosse, Paiva Nvunda, Ferreira Pinto, se humilhem perante um ditador e cheguem a chorar de medo quando falam no seu nome? Como é possível que mulheres como Ângela Bragança, Rosa Cruz e Silva, Suzana Inglês, Luzia Sebastião, intelectuais como Pitra Neto, Carlos Feijó, Rui Ferreira, Gigi Fontes Pereira, Bornito de Sousa, Adão de Almeida, Cremildo Paka, Manuel Vicente, Políticos como Nandó, Higino Carneiro, Kassoma, e tantos outros, sejam capazes de estar ao lado, bater palmas, e integrar um partido e o executivo dirigido por um homem como esse? Como disse chorando na altura Lúcio Lara, «só pode ser feitiço». Talvez não o feitiço tradicional de Savimbi, mas o feitiço do dinheiro e do poder. Ou talvez, como eu até ontem, eles continuem ainda com a venda nos olhos e continuem a ver naquele presidente o homem que eu via quando era criança e ingenuamente acreditava no futuro nas mãos de um génio incompetente.
*in BD

Os equívocos do Senhor Eduardo dos Santos


Que não haja dúvidas quanto à existência de corrupção e pobreza em qualquer geografia humana. Nisso ele está certo. Está certo também quanto ao facto de os colonialistas portugueses terem deixado pobres na sua província de Angola. As verdades podem desagradar-nos mas o presidente ditador também está certo quanto às debilidades da oposição.

Laurindo Neto

Para ser franco, ele está certo em tudo o que disse até nos equívocos próprios de quem já perdeu a noção de tempo, dever e responsabilidade. Há pobres em toda a sociologia humana mas há também os julgamentos e as conclusões quanto aos factores da pobreza. Sobre a opressão em quaisquer das suas formas, estamos conversados, não haja diferenças entre opressores brancos ou pretos. Quanto aos colonialistas, tinham Angola como a Jóia do Império e foi essa mesma Angola que suportou o desenvolvimento esboçado pelo império colonial de triste memória.

À menos que o Sr. Eduardo dos Santos - patrão do regime opressor - pense Angola como pensou António de Oliveira Salazar - não são poucos os que o julgam assim -, qualquer semelhança a estabelecer entre o passado colonial e a realidade neo-opressiva colocam-no entre as mais sérias frustrações do continente africano.

Concordando com o facto de haver corrupção em toda a parte, ali onde se manifeste, têm sido os magistrados judiciais desses países a julgarem os factos e os seus autores ou mentores. À um Chefe-de-Estado que mantém ditatorialmente um regime presidencialista, já lá vão cerca de quatro décadas, fica feio, feio demais, alegar semelhanças universais como base da abolia governamental sobre a matéria. Haja decoro, pois que o regime angolano é extremamente corrupto e nunca mudou de treinador.

Salazar projectou e construiu cidades em todo o império colonial. Em termos académicos, não se compare Eduardo dos Santos às realizações de Salazar em cinco continentes: seu pai ficaria ofendido! Salazar impôs o S à mocidade portuguesa mas V. Exa. ultrajou um povo inteiro tornando o Bilhete de Identidade um incómodo nacional. Salazar ficou pequenino!

Os subjugados por Salazar eram cerca de sessenta milhões de seres humanos espalhados em cinco continentes devidamente registados e V. Exa ainda não foi capaz de efectuar um senso populacional aos cerca de nove milhões de angolanos que se transformam em doze milhões para efeitos de fraude eleitoral.

A oposição tem medo das eleições? É muito provável - desculpem-me os que defendem outro raciocínio - porque a exterminação da oposição é a marca indelével da ditadura e do comunismo. No caso de V. Exa. já tem direito a patente registada.

O governo não distribui alimentos, educação, saúde, água e energia eléctrica, lazer e integração social à cerca de cinco milhões de angolanos mas a oposição, ou melhor, os inimigos internos, têm que reunir requisitos eleitorais em toda a extensão do território nacional com os documentos que V. Exa. não foi capaz de emitir.

Sabe Exa.? o senhor não é somente o suporte da corrupção mas também a garantia da desonestidade em geral, tais são as consequências das suas exigências eleitorais. Tornou-se-me mais evidente esta associação mental quando, em 2010, V. Exa. em comunicado público, divulgou que em 2011 promulgará um pacote eleitoral para 2012! Para adulto e responsável político essa foi demais!

Atípicas, cinto de segurança, violência semi-pública, seguros, armas de fogo e toda uma sorte de manipulações tendentes a esconder e a atrasar o que deveria ser um preceito constitucional: Os prazos e as formas de participação e legitimação do poder político! Acredita mesmo que somos todos ingénuos e que não detectamos a fraude? É violência com base na força, presidente. Creio que até o Dan Mozena deu conta disso!

Não gosto que alguém no meu país sinta a sua imagem injustamente molestada. Pior ainda se atingir a sua família, ainda que seja o quotidiano dos indefesos como deveria saber. Nessa matéria, o ex-Secretário de Estado norte-americano, Sr. Chester Crocker pode ter contribuído com peso ao denunciar que o presidente de Angola percebia três por cento por cada tonelada de material de guerra!

Foram muitas toneladas durante muitos anos Sr. presidente!

Por outro lado Sr. Presidente, são poucas as famílias angolanas que vêem os seus parentes investirem no estrangeiro sem nunca terem trabalho e sem idade justificável. Essas denúncias podem contribuir para o abalo da honestidade de qualquer queixoso.

Para quê mais palavras?

Ban Ki-moon e Hilary Clinton puseram de lado o esconde-esconde diplomático para usar de franqueza e rudeza: O que aconteceu ao Liderado do Sr. Kadafi e ao Sobado do Sr. Laurent Gbagbo é um aviso a todos os ditadores.

Há quem ainda não acredite, abalada como está a seriedade mundial. No entanto, um pouco por toda a África, há expressões populares de júbilo ante as salvas de Tomahawks anunciando a libertação e o fim das novas opressões.

Acerca disso e dos equívocos do Sr. Eduardo dos Santos não tenho dúvidas.

Razão e racionalização no recente discurso de JES


Foi um José Eduardo dos Santos profundamente magoado o que ouvimos discursar na última sexta-feira na abertura de mais uma reunião do Comité Central do MPLA. De tanta mágoa, o Presidente preferiu pôr de lado a razão e deixou seu coração falar pelo que dispensou os seus "writers" de ofício preferindo escrever de punho próprio o seu discurso.

Maurílio Luiele*

Assim, não deu outra, os medos, paixões, a raiva, enfim, as emoções acabaram sendo a nota dominante do discurso. O que se espera de um Chefe de Estado é que faça sempre prevalecer a razão em seus actos em detrimento das paixões porque, diz Karl Popper:"o racionalismo (entenda-se uso privilegiado da razão) está ligado ao reconhecimento de que é necessário criar instituições sociais que protejam a liberdade de crítica, a liberdade de pensamento e, portanto a liberdade dos homens. Ele cria uma espécie de obrigação moral de apoiar estas instituições. Por isso o racionalismo tem estreita ligação com a demanda política de se realizar uma engenharia social prática - paulatina, é claro - no sentido humanitário, a demanda de uma racionalização da sociedade, de um planejamento para a liberdade, para que ela seja controlada pela razão; não pela "ciência", não por uma autoridade platônica pseudorracional, mas por aquela razão socrática que conhece suas limitações e por isso respeita o semelhante, não aspira a coagi-lo - nem mesmo para fazê-lo feliz.

A adopção do racionalismo, além disso, implica que haja um meio comum de comunicação, uma linguagem comum da razão; estabelece uma espécie de obrigação moral para com a linguagem, a obrigação de manter seus padrões de clareza e de usá-la de tal modo que ela possa preservar a função de veículo da argumentação. Em outras palavras, a obrigação de usá-la de modo claro, de usá-la como um instrumento de comunicação racional, de informações significativas e não como um meio de "expressão pessoal" (In: David Miller(org): Popper, temas escolhidos; pág. 42)

Edgar Morin, por seu turno, diz que "a razão corresponde a uma vontade de ter uma visão coerente dos fenómenos, das coisas e do universo. A razão tem um aspecto incontestavelmente lógico" (MORIN, 1990) mas distingue racionalidade e racionalização. Segundo Morin, "a racionalidade é o jogo, é o diálogo incessante entre o nosso espírito que cria estruturas lógicas que as aplica sobre o mundo e que dialoga com o mundo real. Quando este mundo não está de acordo com o nosso sistema lógico é preciso admitir que o nosso sistema lógico é insuficiente, que apenas encontra uma parte do real".

A racionalidade, não tem nunca a pretensão de esgotar num sistema lógico a totalidade do real, mas tem a vontade de dialogar com o que lhe resiste. (MORIN, 1990). Ao enfatizar o diálogo como traço da racionalidade, Morin ressalta tal como Popper a relação estreita que a racionalidade mantém com a comunicação. Morin, diz, no entanto, que a RACIONALIZAÇÃO é a "patologia da razão" e" consiste em querer encerrar a realidade num sistema coerente. E tudo o que, na realidade, contradiz este sistema coerente é desviado, esquecido, posto de lado, visto como ilusão ou aparência". Assim pela racionalização tendemos a minimizar ou rejeitar os argumentos contrários e ter uma atenção selectiva sobre o que favorece a nossa ideia e uma desatenção selectiva sobre o que a desfavorece.

Como se pode ver, a racionalização é um mal bastante presente em política e é ditada em grande medida pelas paixões políticas que nutrimos, mas é de todo conveniente que ela não se manifeste em actos de um magistrado do nível de um Chefe de Estado pois escancara caminhos à injustiça social.

O recente discurso de José Eduardo dos Santos é pois uma aula magistral sobre racionalização, no pior sentido, diga-se. Ela está presente quando atribui à pobreza à herança colonial ignorando que a opção socialista radical pelo MPLA reprimiu a propriedade privada e perseguiu proprietários então apelidados de pequeno-burgueses. Que a opção socialista, permitiu entretanto, o enriquecimento de uma elite de burocratas ao serviço do partido-estado. Como ignorar então a responsabilidade do MPLA no quadro de pobreza que se instalou e aprofundou no pós-independência? É evidente que a guerra não conta a estória toda.

A racionalização esteve presente no discurso de JES quando deliberadamente negou que tenha 20 bilhões de dólares mas não explicou como seus filhos se tornaram tão rápidamente os mais ricos de Angola. É evidente que Isabel, Zénu e Tchizé têm juntos uma riqueza que se aproxima disso e não é imaginação nossa; não somos nós que inventamos os seus grandes impérios econômicos que incluem bancos, rentáveis empresas de telecomunicações e outros infindáveis negócios. Isto é real, não é imaginação. Ou a UNITEL, o BIC, o Quantum, não existem?

Mas o Presidente foi mais longe ao pedir que fossemos ao Sector de Inteligência Financeira do BNA para saber se havia contas no estrangeiro em seu nome. Só pode ser brincadeira imaginar que um cidadão comum em Luanda sairia de sua casa, enfrentando o caótico trânsito luandense para chegar ao BNA e inquirir ao tal sector do BNA se tais contas existem. A resposta estamos todos a ver qual é: porrada se refilares, como o próprio JES sugeriru nas entrelinhas.

Enfim, já é hora dos dirigentes do MPLA deixarem de tratar os angolanos como crianças que não são capazes de pensar por si só e que por isso agem sempre impelidos por interesses estrangeiros. Quem não conhece o povo não deve ousar dirigi-lo. As reclamações que motivaram as últimas manifestações e que correm soltas na Internet têm pleno fundamento, por isso, responder a elas é resolvê-las de facto e não fazer recurso à política de avestruz (esconder a cabeça na areia).Ou "O MAIS IMPORTANTE (já não é) RESOLVER OS PROBLEMAS DO POVO" como nos ensinou Agostinho Neto?

Finalmente já é hora das autoridades angolanas entenderem que as redes sociais são uma nova e irreversível forma de fazer política. São parte do "espírito do tempo" e não adianta quixotescamente avançar contra elas, não resulta.

O recente discurso do Presidente Eduardo dos Santos deixa assim uma manifesta preocupação: nosso Chefe de Estado está deixando de lado a razão como matriz dos actos de Estado conspurcando-os com racionalizações, emoções e paixões. Isto pode conduzi-lo inexoravelmente a um ciclo vicioso que resulte em paranoia pois como diz Morin " a paranoia é uma forma clássica de racionalização delirante" e diz mais "entre a paranoia e a racionalização nã há fronteira nítida" Se esta tendência se concretizar (esperamos que não!) JES tenderá a agir cada vez mais como todos os ditadores conhecidos. Imerso nas paixões e emoções, com a razão cada vez mais distante, tenderá a atitudes cada vez mais irracionais com consequências imprevisíveis para os destinos do país. O último exemplo deste tipo de evolução patológica conhecemos bem: Laurent Gbagbo, que aliás Eduardo dos Santos apoiou. O fim conhecemos todos.

Espero pois, que para o bem de Angola a razão prevaleça em José Eduardo dos Santos e não tenhamos que experimentar o dissabor de ser conduzidos pelos seus medos, paixões e emoções.

*In Club-k.net