terça-feira, 22 de março de 2011

Manuel Vicente E “Kopelipa” Investigados Nos Estados Unidos


Luanda – A comissão de mercados de capitais, SEC, dos Estados Unidos da America esta a investigar se a entrada em Angola da COBALT International decorreu de trafico de influencia através da sua parceira a Nazaki Oil & Gás, a petrolífera nacional que tem como proprietários, o chefe da Casa Militar do Presidente da República e ministro de Estado, general Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa”, o ex-chefe de Comunicações do Presidente da República, general Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino”, e o PCA da Sonangol, Manuel Vicente.

Fonte: NJ/Club-k.net/Makaangola.com

Cobalt passou pela HSBC

De acordo com dados do semanário Novo Jornal, a COBALT International anunciou esta semana que está a colaborar com a comissão de mercados de capitais, SEC, no processo no qual está em causa a natureza de alguns dos seus negócios em Angola.

Detida na sua maioria por antigos executivos da BP em Angola, a COBALT é membro de um consórcio que detém 40 por cento dos blocos 9 e 20. Além deste consórcio têm interesses no bloco as empresas angolanas Nazaki Oil e Gaz SA e Alper Oil Limitada.

A SEC quer saber se a entrada da COBALT no negócio decorreu de tráfico de influência derivado do facto da Nazaki, alegadamente ser detida por altos funcionários da Presidência da República e da Sonangol.

O mote para a investigação foi uma denúncia do activista Rafael Marques que num extenso trabalho de 26 páginas atribuiu a generais da Presidência da Republica e executivos da Sonangol o controlo da dita sociedade.

Na nota que enviou a SEC , a COBALT diz que a Nazaki nega que haja qualquer relação entre a sua administração e o Executivo angolano.

A SEC questiona também o carácter da participação na exploração daqueles blocos, da Alper Oil Limitada.

Na nota que enviou à SEC, a COBALT identificou a Alper Oil como um membro “não contribuinte”, apesar de ser detentora de 10 por em cada um dos blocos. Por outras palavras apenas “entrará”, se se consular a viabilidade do projecto. Segundo a Cobalt, esta modalidade está em conformidade com a lei angolana e não viola o acordo de partilha de riscos.

A multinacional americana confirmou por escrito no dia 1 de Março que a Nazaki cobriu todas as suas obrigações financeiras referentes a sua participação na empreitada.

Apesar dos argumentos que submeteu por carta , a COBALT foi chamada pela SEC, no dia 9 a fornecer dados adicionais. A COBALT diz que está a respeitar a lei sobre corrupção de agentes estrangeiros, a mesma que levou a Panalpina Angola, a incorrer numa multa de cerca de 80 milhões de dólares.

Além da presença em sociedades angolanas nos blocos 9 e 21, a Cobalt é parceira da Sonangol International Exploration and Production, sedeada em Houston, em projectos no Golfo do México. O início da exploração destes projectos foi congelado depois do incidente numa plataforma da BP.

A Cobalt está a passar pelo mesmo processo porque passou o HSBC, banco que se viu obrigado por uma comissão do Senado dos EUA, a identificar os accionistas do BAI, instituição com quem detinha negócios nos EUA. O anúncio da segunda convocatória provocou uma queda de 4 por cento das suas acções na Bolsa de Nova Iorque.

Nazaki Oil - Segundo o www.makaangola.com

Através dos Decretos-Lei nº 14/09 e nº 15/09 de 11 de Junho de 2009, o Conselho de Ministros concedeu à Sonangol, como concessionária nacional, “os direitos mineiros de prospecção, pesquisa, desenvolvimento e produção de hidrocarbonetos líquidos e gasosos (…)” dos blocos 21 e 9 em águas profundas, respectivamente. Essa decisão conforma a Lei n° 10/04 (art. nº 44, 2), segundo a qual todos os direitos acima referidos serão concedidos pelo Estado à Sonangol.

Para o efeito, o governo ratificou o consórcio estabelecido entre a Sonangol, a empresa privada angolana Nazaki Oil & Gás e a empresa americana Cobalt International Energy, sendo a última designada como operadora dos Blocos 9 e 21. A Cobalt International Energy, tem como fundadores e principais accionistas o Goldman Sachs, e a sociedade entre o Grupo Carlyle e a Riverstone Holdings, com um investimento inicial, em 2005, de 500 milhões de dólares. 8 De certo modo, estes dois últimos sócios investem, também, no negócio, fundos públicos angolanos. A Sonangol tem investidos nos fundos de energia do Grupo Carlyle/ Riverstone Holdings cerca de 500 milhões de dólares.9

A Cobalt, de acordo com a Global Witness, recusou-se a identificar os proprietários da Alper Oil e da Nazaki argumentando que o acto “envolveria a revelação selectiva de informação restrita sobre a compania e, em alguns casos, fazê-lo seria uma violação das cláusulas de confidencialidade a que *a Cobalt+ está sujeita”.10 Este argumento é falacioso porquanto a legislação angolana não prevê a protecção de actos de corrupção mediante confidencialidade quer mediante outros quaisquer mecanismos jurídicos, pois a corrupção está bem definida como acto ilícito e de natureza criminal.

Todavia, a Cobalt sustenta, junto das autoridades americanas, que “nós não trabalhámos com nenhuma destas companhias no passado e, por conseguinte, a nossa familiaridade com essas empresas é limitada. Violações da FCPA (Lei das Práticas Corruptas no Estrangeiro) podem resultar em duras sanções criminais ou civis, e podemos estar sujeitos a outros procedimentos, que afectariam negativamente o nosso negócio, os resultados operacionais e a condição financeira”.11

Os principais executivos da Cobalt, incluindo o seu director-geral Joseph Bryant, têm vasta experiência de trabalho em Angola, como gestores da British Petroleum no país, e o argumento que apresentam revela uma fraca justificação perante as leis americanas e desprezo pela legislação angolana, como adiante se demonstra.

Para conhecimento público, a Nazaki Oil & Gás tem como proprietários, com quotas iguais, o chefe da Casa Militar do Presidente da República e ministro de Estado, general Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa”, o chefe de Comunicações do Presidente da República, general Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino”, e o patrão da Sonangol, Manuel Vicente. Quatro subordinados do general Kopelipa são usados como testas-de-ferro da empresa, possuindo cada 0,01% das acções da Nazaki. Estes são o coronel José Manuel Domingos “Tunecas”, seu director de gabinete, coronel João Manuel Inglês, logístico, coronel Belchior Inocêncio Chilembo, conselheiro. O quarto beneficiário, Domingos Manuel Inglês, é o assistente privado do general, nos seus negócios.

Esta empresa tem ainda três outras subsidiárias, respectivamente a Nazaki Distribuição – Sociedade de Distribuição de Combustível e Lubrificantes SA, Nazaki Refinaria – Sociedade de Refinação e Petróleo SA, e a Nazaki Petroquímica – Sociedade Petroquímica SA, criadas a 23 de Julho de 2008.

A 24 de Fevereiro de 2010, a Cobalt International Energy assinou os Acordos de Risco (Risk Services Agreements), para as operações de exploração, pesquisa e produção nos Blocos 9 e 21 offshore. Os acordos foram assinados com a Sonangol, a Sonangol Pesquisa e Produção, a Nazaki Oil & Gás S.A e mais uma empresa privada angolana, inicialmente não prevista na autorização do governo, a Alper Oil. Para os Blocos 9 e 21, a estrutura accionista é a mesma: Cobalt (40%), Nazaki (30%), Sonangol Pesquisa & Produção (20%) e Alper Oil (10%).

Segundo a Cobalt12, esta “obteve a aprovação escrita da Sonangol, datada de 3 de Março de 2010, para os gastos realizados nos trabalhos técnicos dos Blocos 9 e 21 em offshore, como despesas prévias dos Acordos de Risco, para futuras deduções em impostos. Como resultado, a Nazaki reembolsará a companhia [Cobalt] pelas suas obrigações financeiras no bónus de concessão e custos relacionados com estudos sísmicos nos referidos blocos.” A Cobalt pagou, à Sonangol, os 3.7 milhões de dólares do bónus de assinatura devidos pela Nazaki (art. 21º, 1, do contrato para o Bloco 21) e 1.5 milhões de dólares (art. 21º, 1, do contrato para o Bloco 9).13

Como pode uma empresa americana listada na bolsa de Valores de Nova Iorque (New York Stock Exchange) e que emprega duas reputadas firmas de advogados, justificar pagamentos em nome de uma empresa privada (Nazaki) do círculo mais restrito do presidente angolano, mesmo a título de reembolso?

A atribuição dos Blocos 9 e 21 ao consórcio liderado pela Cobalt, sem concurso público, revela, também, o pleno conhecimento dos verdadeiros beneficiários do negócio por parte do então primeiro-ministro e actual presidente da Assembleia Nacional, Paulo Kassoma, que ratificou a decisão, e do Presidente José Eduardo dos Santos, que a promulgou.

Do ponto de vista legal, as mais altas figuras do país patrocinam um acto eivado de corrupção. A legislação angolana, como tem sido demonstrado, proíbe os dirigentes e gestores públicos de realizar negócios com o Estado para benefício e enriquecimento pessoal.

Por sua vez, a Cobalt, tal como o Banco Espírito Santo e a Odebrecht, incorre também em actos criminais. A sua acção pode ser descrita como um acto de tráfico de influências de dirigentes angolanos, de acordo com as convenções da União Africana (Artigo 4º, 1, f) e das Nações Unidas contra a Corrupção (Artigo 18º, a, b), assim como o Protocolo da SADC contra a Corrupção (Artigo 3º, 1, f) que, de forma similar, definem o tráfico de influência como um acto de corrupção. Esses tratados foram incorporados no direito angolano e se lhes é aplicada moldura penal através do Artigo 321º do Código Penal angolano para o acto em questão. Como exemplo, a Cobalt esteve envolvida em negociações com o presidente do Conselho de Administração e director-geral da Sonangol, Manuel Vicente, enquanto representante do Estado. A parceria com a Nazaki, de Manuel Vicente e os generais Dino e Kopelipa, este último a sombra do presidente, configura não só tráfico de influência como também um acto de corrupção activa de dirigentes, de acordo com o Código Penal angolano (art. 321º).

A falta de transparência em Angola, e no sector petrolífero em particular, tem sido alvo de alguma atenção internacional por parte de governos e ONGs ocidentais. Uma das instituições que teve maior ousadia em obter do governo um compromisso para um maior escrutínio do sector petrolífero, foi a Soros Foundation e Open Society Institute do bilionário e filantropo americano George Soros. Após vários meses de negociações, a 13 de Novembro de 2003, Soros esteve em vias de assinar, na embaixada de Angola em Washington DC, um acordo com a Sonangol e o governo angolano, para garantir a transparência na governação e, em particular, no sector petrolífero.

Passados sete anos, George Soros aparece como accionista de referência da Cobalt, através da Soros Fund Management, que detém 5.9 milhões de acções na petrolífera americana, avaliadas em 81.1 milhões de dólares.14 O escritório de Soros manifestou a sua indisponibilidade, por motivos de viagem, em comentar sobre a sua participação no negócio.

O acordo de transparência de Soros, de cuja assinatura o governo desistiu à última hora, previa assistência técnica e financeira às autoridades angolanas e à Sonangol para a implementação de reformas afins. Incluía também acções no sentido de melhorar a imagem do governo e da Sonangol, no exterior, para maior acesso aos mercados internacionais de capital entre outras vantagens aliciantes.

Nos últimos sete anos, membros do regime, e por consequência os gestores da Sonangol, têm tornado cada vez mais patente os seus actos de corrupção e de pilhagem do património do Estado, causando maior empobrecimento e desnorte à maioria dos angolanos.

O exemplo de Soros revela, entre muitos outros, como os grandes poderes internacionais, quer ao nível de países quer ao nível de instituições internacionais se renderam aos encantos do petróleo e da corrupção em Angola. Soros é também um dos principais impulsionadores de iniciativas internacionais como a Publish What you Pay, Revenue Watch Institute, Extractive Industries Transparency Initiative, que obrigam os governos corruptos dos países mais fracos a ser mais transparentes.

Imagem: bbc.co.uk

Solução Cabinda pode sair caro. Lógica de humilhar ao invés de negociar vai fazer explodir o barril de pólvora


Na lógica de sempre impor soluções de força, baseadas no poderio militar, o actual governo, quando por pressão externa tem de se sentar à mesa com ex-inimigos, não descarta nunca a sua táctica betonada de ver os adversários/parceiros apenas como subalternos, que devem subjugar-se à vontade da força. Por esta razão muitos acordos são denunciados e rescindidos depois pela outra parte, como foram os casos com a UNITA e a FNLA, como é hoje o caso com a FLEC, sobre a qual a justiça, partidariamente controlada, exerce uma forte pressão, colocando adversários na cadeia, casos de Malaquito e demais seguidores, assim como, numa outra área, o jornalista Armando Chicoca, encarceramento de que a ministra da Justiça se deveria envergonhar como defensora da violência do género. Mas não, pelo contrário, está a ser cúmplice de uma injustiça, pois uma mulher, sua funcionária, perdeu o emprego por não aceitar fazer sexo com um juiz, que é presidente do tribunal do Namibe e, ao que parece, também é seu amigo, logo protegido....
Como prova, calou-se também o Conselho Superior da Magistratura Judicial, quando é do conhecimento geral que a denúncia foi feita por uma mulher indefesa e que o jornalista apenas tratou de noticiar, por ser do interesse público. Mas sempre que um juiz for do MPLA e cometer abusos sexuais contra as mulheres não vale a pena impugne-lo, pois ele beneficiará da protecção do regime, do partido, até mesmo da OMA, e o infractor continuará impune em liberdade, ao contrário de quem ousar denunciar, como no caso actual. Chicoca foi parar ao cárcere pela voz, segundo fontes da justiça, de um juiz que é sobrinho do juiz presidente, o que à luz do Código de Processo Penal, se ele fosse cumprido, estaria impedido.
Mas esta é a forma de o regime conduzir as situações e negociar com os demais. Se não aceitas, levas com o pau! És morto ou vais parar á cadeia... É isto justiça? Não! É isso democracia? Não! O que é, então? Só pode ser ditadura...

Mas vamos aos novos desenvolvimentos.
O Governo de Eduardo dos Santos e uma facção considerada fantoche da FLEC, assinaram um chamado Memorando de Entendimento para a Paz e Reconciliação na província de Cabinda, no dia 01 de Agosto de 2006 às 12H35 locais na cidade costeira do Namibe. Foram subscritores, veja-se a irrelevância com que foi tratado o processo, o então ministro da Administração do Território, Virgílio de Fontes Pereira, e o presidente do Fórum Cabindês para o Diálogo (FCD), António Bento Bembe, depois de negociações onde o pendor governamental assentou mais no aliciamento financeiro da FDC do que uma verdadeira preocupação na resolução da crise do enclave, pois como questão prévia Bento Bembe teria de se afastar das vozes internas da sociedade civil e da FLEC-FAC de Nzita Tiago.
Por outras palavras, poderá dizer-se que o Memorando de Namibe de 2006 correspondeu, como supramencionado, a um acordo arquitectado e minuciosamente calculado com o Fórum Cabindês para o Diálogo, uma pequena fracção, e ainda por cima das menos representativas, do conjunto de movimentos autonomistas do enclave, não para resolver o problema mas apenas para adiar e acirrar ainda mais o ódio das populações contra a política militarista seguida pelo executivo de Dos Santos. Depois disso foram presos membros da sociedade civil, proibida a existência de associações dos direitos humanos e outra qualquer associação, prenderam-se padres, com o alegado apoio e silêncio cúmplice da CEAST e do representante do Vaticano, assassinaram-se populares, entre outras situações, em que o próprio governo tratou de legitimar o que sempre, se tentou evitar, ou seja, tratar Cabinda não como uma província mas como colónia, onde os autóctones locais não têm direitos a livre expressão, opinião, informação e até mesmo liberdade empresarial.
É claro que os analistas menos “emepêlistas”, ou mais perspicazes da nossa praça, logo viram que o resultado dessa jogada do regime de JES se assemelhava muito a uma tentativa de sarar uma ferida purulenta com pomada Nívea. Mas quase ninguém disse claramente o que pensava sobre o assunto, e espantou-nos mesmo ver alguns dos nossos confrades entre os mais conceituados terem vindo a público dizer o contrário, que era uma boa coisa, que era um passo em frente e não havia razão de estar então a criticar um gesto que era de pacificação.
Pacificação tipo ilusão colonial, pois o que desde o início se passou e foi previsto por alguns, por exemplo, pelo F8 – éramos praticamente os únicos a prever um fracasso total dessa tentativa - resume-se ao que se foi passando desde essa altura até esta data: guerra de guerrilha, prisões arbitrárias, assassinatos de cidadãos inocentes, etc., numa autêntica política de terra queimada. E, depois de quase 5 anos de mentiras, o governo veio a público pôr-se no lugar, ele sim, de um pasquim verdadeiro, a dar razão ao “pasquim” da lavra de JES, nós, o F8. Que esse, teve a coragem de dizer a verdade, alertando-o os navegantes, a tempo de serem evitadas tantas bestialidades.

A realidade
Hoje, mais que ontem, o barril de pólvora parece poder rebentar em Cabinda e um dos responsáveis será seguramente, não só a estratégia utilizada por Dos Santos e o seu in circle, mas também a postura ambígua da Igreja Católica. Ninguém descura a força da Igreja, mas esta tem estado a adoptar uma política que está a afastar muitos fiéis do seu redor em Cabinda. Por mais que esta congregação se esforce de provar o contrário, a política de afastar os padres Congo e Raul Tati não foi a melhor estratégia para a sua credibilidade, aliada a declarações de outros padres apoiantes do regime, que mesmo quando este prende e mata injustamente, dizem Amém.
E isto não ajuda a imagem do próprio presidente da República, que fica agora provado com o memorando do Namibe e o seu fantoche Bento Mbembe, não conseguiram, recorrendo a uma política da força, pacificar Cabinda, pois agora, com a subida da insatisfação popular, que poderá afectar uma zona produtora de petróleo (sobre pressão das empresas estrangeiras de produção), vem, fora de horas, atrás do prejuízo com um outro plano. Mas não se sabe ainda o que quer, e o que mais se teme é que seja mais uma vez, para não dizer como sempre, um plano a fingir que vai mudar e não muda, pois o Executivo” insiste em colocar na equipa negocial pessoas que a outra parte não credibiliza, tais como os generais Manuel Vieira Dias Kopelipa e José Maria.
Depois querem rendição e não negociação, querem integração e não paridade, e mais grave, querem exclusão total de Nzita Tiago. Não se percebe qual a eficácia de se negociar com a minhoca, deixando a cobra grande no seu habitat natural, apenas por mero capricho.
Uma solução para Cabinda, que talvez pudesse ser o primeiro processo bem gerido no curriculum de Dos Santos, seria negociar com a ala militar das FLEC's,, a ala política e ainda um conjunto da sociedade civil, como, por exemplo, os padres Congo, Raul Tati, os advogados Martinho Nombo e Francisco Luemba, entre outros.
Informações que F8 tem, é de haver um clima pesado face ao aumento da presença das tropas militares, com a previsão de uma manifestação dos jovens de Cabinda a saírem à rua contra todos os riscos, a fim de chamarem à atenção da comunidade internacional o que se passa no território que consideram ocupado por Luanda, que leva os milhões do petróleo e deixa as suas populações à fome da indigência e quando "refilam levam porrada e vão para a cadeia ou para a morte".
Diga-se que depois de tanta camuflagem, depois de tanta repressão - a ilegalização de associações da sociedade civil, como a Mpalabanda e o encarceramento de Raul Danda por levar jornais de Luanda (!!) são duas obras-primas dos nossos juízes e James Bonds do SINSE (ex-SINFO) -, o “governo” mostrou, sim, que considera Cabinda não como província, mas como sendo uma colónia de Angola.
Acto contínuo, a igreja católica, numa sequência de infelizes coincidências, expulsa o padre Congo da congregação Nossa Senhora da Conceição e depois coloca no olho da rua o padre Raúl Tati, que ao atravessar os muros da igreja é imediatamente preso, como se houvesse uma concertação com a cúria. Verdade ou mentira, como na política não há coincidências, a suspeição teima em não sair do ar. Razão do arresto: reivindicar maior autonomia de Cabinda e uma solução negocial mais abrangente. E com ele foram Francisco Luemba, Belchior Tati e outros.
Seguiu-se o rol habitual seguido pelos regimes repressivos, actualmente em ebulição, com prisões arbitrárias, discriminação, guerra aberta contra os padres favoráveis à autonomia do enclave, sem esquecer a mobilização de forças armadas e respectivos reforços sempre que a situação exigia, e isso perante a demissão da igreja católica e a notória má gestão do governador Mawete João Baptista, definitivamente um mau gestor da coisa pública e considerado o pior governante de todos os tempos que esteve à frente da província hoje considerada uma colónia.
Nisto, como no caso do roubo do BNA, como no caso da pré-falência da CAP ou do Nosso Super, como nas ameaças dos (futuros) desmoronamentos ou desabamentos dos prédios do Hospital Militar e da Universidade JES (!!) no Huambo (até temos vergonha de escrever isto) construídos ontem, o governo vem discretamente (como que por obrigação de "ndengue" apanhado em mentira) dizer que tudo o que tinha sido apregoado era falso.
FALSO!
TUDO FALSO! E o povo a ser obrigado a engolir desde há trinta anos a esta data estas e outras mentiras, sem mesmo ter o direito de protestar!?...
Mas o adiar do caso Cabinda, quando Dos Santos poderia ter ficado na história como tendo resolvido uma solução a contendo de todas as partes, do tipo Mónaco, Madeira ou Açores, pode correr o risco de prejudicar a unidade e ver, mais tarde ou mais cedo pelos seus erros, a adopção de uma solução tipo Eritreia ou sul do Sudão onde um referendo ditou a separação com o Norte, muito pela adopção de políticas militaristas do governo central desse país. Dos Santos sempre andou seguro, mas, pelo facto de a cartilha da União Africana dizer respeitar as fronteiras coloniais, mais os precedentes da Etiópia e do Sudão, podem abalar duramente o final do consulado do presidente angolano.

Morte política do bajulador Bembe
Por carência de promoção-marketing apropriado passou um quanto despercebido o formidável Show de Bento Bembe na LAC. Foi no dia 10 de Agosto do ano em curso no programa Café da Manhã do Zé Rodrigues. Por essa ocasião, o então secretário de Estado para os Direitos Humanos conseguiu negar a realidade e circunscrever a mesma ao que ele consegue vislumbrar pelo binóculo que lhe ofereceu o “Executivo” angolano e que ele pôs no olho da maneira que lhe disseram para pôr, ao contrário. Inventou um novo campo semântico para os Direitos Humanos, ao dizer que o “governo” tem feito um trabalho formidável no sentido de melhorar as coisas, como ficou mais que provado quando Sua Excelência Presidente da República anunciou que a juventude angolana poderia agora ter uma casa por 60.000 dólares, em seguida, mostrando-se ainda insatisfeito com esta descoberta de sociólogo inovador e de grande arrojo, eis que a uma pergunta do Zé Rodrigues sobre a condenação dos “terroristas” cabindeses, o nosso Bento ainda foi mais longe na ousadia da análise: pegou nos direitos humanos violados em Cabinda, meteu-os numa espécie de grande almofariz imaginário e misturou-os com todos os atropelos cometidos contra os mesmos em Angola, “Por toda a parte se cometem, não é só em Cabinda», disse ele, certificando que a culpa não é do “governo”. Depois, juntou água quanto baste e diluiu. «Tá ver? Não se vê nada. Só os maldosos é que vêem», e rematou sereno e seguro de si: “E como Angola faz parte integrante da comissão de direitos humanos da ONU, como é que se pode dizer que viola?...Elementar!"
Mas não é “Dear Watson”, não, o que é elementar é o raciocínio. Primário.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (6). António Setas


Chegou o dia da Dipanda, glorioso dia, momento histórico a celebrar com lápide de ouro. Ficou-me na memória a contagiosa alegria de Luanda e de toda Angola. Depois... depois só sei que sofremos, mais nada, tudo o resto esqueci. Era tão pequeno... O que me valia, como a todos os angolanos, era a Liberdade conquistada, a recompensar todos os sacrifícios.
Ouvia então muitas vezes o meu pai falar de fábricas, de barcos e de redes que tinham passado a ser propriedade do povo de Angola. E de facto, nos primeiros tempos da Dipanda foram fundadas cooperativas e até aconteceu o produto do trabalho, o dinheiro, por uma vez na História de Angola, ser distribuído de maneira justa e dignificante entre todos os agentes de produção. Mas, talvez porque haja razões para o afirmar, vem-me o Diabo à cabeça dizer que Deus, já de si avarento de céu limpo, requeira tanto serviço do astro rei que este não chega para dar calor aos homens, o que explica que também o sol da Dipanda tenha sido de pouca dura, e o seu calor por demais efémero para deixar florir tão belos frutos do trabalho.
Rapidamente tudo se foi por água abaixo. Não havia fundos de maneio, alguns deles foram desviados, não havia peças, não havia técnicos, o pessoal do Sul que trabalhava com os portugueses regressou às suas terras de origem, ou procurou emprego nas novas empresas estatais; os barcos foram-se imobilizando, muitos deles afundaram-se, alguns, poucos, foram levados para os estaleiros, aguardando uma reparação impossível, a menos que com tanta espera as galinha viessem a ter dentes em forma de peças de substituição. No final de contas o Governo recuperou apenas alguns barcos. E nessa hecatombe salvaram-se, de par com os navios do Estado, uma ou outra empresa privada mais previdente... e as redes.
A Dipanda também veio modificar a nossa maneira de trabalhar. Antes dela vendíamos a maior parte do peixe a comerciantes brancos, às pescarias industriais, nos mercados oficiais e às peixeiras que percorriam a cidade com a banheira à cabeça a vender peixe a domicílio. Depois, com as ameaças e as pressões contínuas da comunidade internacional, ou seja, a força do capital dos países ricos concretizada na nossa guerra civil, estrangularam-se-nos as fronteiras; e como ninguém nos tinha ensinado a gerir bens próprios, nem estávamos habituados a tão espinhosa tarefa, estragaram-se as fábricas, afundaram-se os barcos, começou a faltar peixe; e apareceu uma espécie de predador que agarrou, devorou e digeriu quase todo o negócio: o mercado negro. Desapareceram as peixeiras a domicílio. Trabalho e clientes era o que não faltava; as redes, tanto as grandes como as pequenas, e os pescadores como o meu pai, não tinham mãos a medir. Mas havia falta de muita coisa...sobretudo de dinheiro.

Passaram os anos, e já lá iam sete depois da Dipanda, a bolinar, a ir para o mar e a ter folga aos fins-de-semana. E como há quase vinte anos atrás, lá vinha o meu pai, agora depois da morte da tia Chiquinha aos sábados e aos domingos, comer as suas funjadas. Trazia duas garrafas de vinho se viesse sozinho, quatro quando se fazia acompanhar pelo tio Augusto. Sentavam-se à mesa, debaixo do imbondeiro, e falavam muito. Coisas da pesca, do Carnaval e, acima de tudo de futebol. Broncas sem-fim no Benfica e no nosso clube, o Marítimo. Como de costume a minha mãe não abria a boca, e a vó Júlia, já a cair de velha, não se cansava de falar dos reis do Kongo. No que me diz respeito ouvia e calava o bico para evitar os já clássicos «Cala a boca!» do Luisão.
Chegou, num desses sábados, o dia em que o meu pai, depois de se ter queixado de tudo e de mais alguma coisa, que no Rapsoka havia falta de peixe, que as senhoras das salgas não recebiam pescado que chegasse para as encomendas, que o mar não ajudava, no final de contas, ele e o tio Augusto estavam bem, muito obrigado. Tinham acabado de ser admitidos numa sociedade e agora eram sócios da rede da Câmara que, dizia-se, apanhava no mar tudo o que houvesse para pescar, exactamente como a Câmara Municipal de Luanda apanhava todo o lixo que houvesse pelas ruas. «Só garganta», pensei eu. A rematar salientou que ser admitido como sócio duma dessas importantíssimas sociedades de pesca não era nada fácil, entre cem que requeriam só eram admitidos um ou dois. Ele e o Augusto tinham sido admitidos! Quanto aos lucros a tirar dessa associação - uma loucura! - só disse, «Esperem, vocês vão ver». Sobreveio um silêncio no zoeiro dos voos picados das moscas, furiosas com a ameaça insecticida do tio Augusto. Este, felizmente para elas e para nós, até aí pouco tinha falado. Só tinha metido o bico, possantemente alterado pelas quase duas garrafas de vinho que já lá iam no papo, a propósito da ousadíssima comparação que ele considerava poética entre o lixo e os peixes. Agora preparava-se para falar, mas a minha mãe não deixou. De índole suspicaz intrometeu-se, levantou dúvidas a respeito dos esperados lucros e contou a estória que se tinha passado com um dos seus parentes afastados, o Beto, da ilha do Cabo. Esse Beto tinha redes que vinham dos portugueses e foi admitido na sociedade de que era sócio o marido de uma ainda mais afastada prima. Um dia cedeu as redes, “encostou”, como se costuma dizer, participou na faina como auxiliar, e quando chegou o momento de distribuir o kumbu recebeu dez reis de mel coado pela sua parte, pouco mais do que receberia qualquer auxiliar. «Tás a ver o que te vai acontecer?», concluiu. Os dois homens pouco faltou para que se levantassem, indignados!, que não senhora!, o Augusto na Câmara não arriscava nada, era da família, e o Luisão, esse, tinha-se feito admitir na família do Papá Dya Kota, sim senhora, por se desconfiar de que o avô do pai da sua mãe tinha sido primo-como-irmão dum antepassado do Kota. E de concluir, «Eu sou “akwa zanga” e ninguém me passa a perna, isso digo-to eu!» Com estas fortes palavras levantou-se e saiu com o Augusto, rumo à tasca do Guedes, onde nem se podia dizer que iam apanhar uma bruta bebedeira, pois isso já era um facto consumado .
Assim ia correndo a vida, numa luta constante para a adoçar.

SEGUNDA PARTE. A tradição e o progresso

O tempo que passa não só sara as nossas feridas como nos dá sempre a possibilidade de sanar ou aliviar o mal que fizemos aos outros, na condição de termos a coragem de reconhecer que estávamos errados. Quando passei a fasquia do quarto de século de vida e me sucedia pensar no meu pai, que me ignorou, me espezinhou moralmente, talvez sem ter consciência disso, e agiu de maneira a levar-me por um caminho que faria de mim o contrário do que ele gostaria que eu fosse, não o via com os olhos acerbos do adolescente que o desvirtuava. Passei a vê-lo, como dizer, mais de longe, com ponderação, e descobri-lhe um amor recalcado por uma timidez agressiva, que desabrochou e se manifestou no orgulho que ele manifestava por ter um filho bom pescador. Sou pescador, sim senhor, e esse “rame-rame”, vida no mar, sono pesado e curto e muito esforço, valeu-me para ser um homem forte, mas incapaz de imaginar a vida sem ir para o mar. À parte essa faceta ligada ao meu trabalho, um único assunto me interessava, as estórias que a minha mãe contava sobre o reino do Kongo. Por certo posso avançar que não passou dia sem pontos de interrogação a meterem-se-me na cabeça, como se fossem cornos de diabretes impertinentes, depois das discussões entre ela e o meu pai, quando nos encontrávamos a sós em casa. Discussões que no fundo apenas eram conversas muito animadas, como que uma troca de picardias entre dois adeptos de equipas de futebol rivais, nunca azedas. Mas mesmo que o mais das vezes o animado duelo verbal se terminasse em risota, por trás dele apareciam as tais interrogações que me afligiam. Não que me parecesse importante escolher entre ser bakongo ou ambundo, mas porque o desejo de conhecer a verdadeira história da ilha de Luanda, única pátria do meu coração de par com Angola, cresceu tanto que ocorria dar-me à ousadia de abordar o assunto com algumas pessoas de maior confiança. Tanto bati na mesma tecla que acabei por encontrar uma moça bem-posta que me apresentou a um parente seu, conhecedor das histórias dos povos angolanos, um kota que vivia na ilha, perto da Salga. Mais tarde vim a saber que o senhor era escritor e, segundo parece, com assento no Governo

Era filha de uma amiga da tia Londa e chamava-se Lia. Quando a vi pela primeira vez confesso que fiquei um pouco tonto, de olhos compridos em cima dela. Tinha uma cara de menina e uns olhos muito grandes e ternos, tão brilhantes que até cegos os veriam, e só pecavam, se é que pecavam, por não poderem esconder a sensualidade do seu corpo enxuto e roliço de felino. Fiquei tonto, é verdade, e mais tonto fiquei quando ela me apresentou ao kota que ela dizia ser do Governo, viúvo de uma prima por aliança da sua mãe. Mal o senhor soube o que me preocupava mostrou a alegria que ressentia, talvez por lhe ser dada uma oportunidade de acudir ao povo. Antes, porém, quis saber quem eu era e por que razão manifestava tanto interesse pela História de Angola, e eu disse-lhe que era por causa das conversas da minha mãe, bakongo, com o meu pai, mundongo, e cada um deles tinha versões diferentes da história da ilha de Luanda. Riu-se muito e deu-me umas palmadas carinhosas nas costas. Alguns dias mais tarde convidou-me a ir até sua casa, aí estaríamos à vontade para falar de tão vasto assunto. Um dia fui, com a Lia. Chegámos e instalámo-nos à mesa da sala de jantar. O kota confessou que estava admirado por vir de um pescador tão grande interesse pela História; estava convencido de que, à parte o nome dos peixes e todas essas coisas do mar, pouco ou nada sabiam, nem lhes interessava saber, estavam virados para o mar e só o mar contava nas suas vidas. Também me ri, não era mentira nenhuma o que ele dizia. Mentira foi a explicação que eu dei, que na nossa família, a do Papá dya Kota, ninguém faltava à escola, e que a minha mãe tinha feito o 5º ano do Liceu. «Agora compreendo», disse ele. E perguntou, «O que é que tu sabes, por exemplo, sobre a História do Kongo?», «Quase nada, pai».

Imagem: agualisa5.blogs.sapo.pt

Aqui escrevo eu! William Tonet


Acho ser meu dever, não só por solidariedade, mas também para dar espaço à minha profunda tristeza, indignação e sentimentos de repúdio, colocar uma coluna semanal consagrada exclusivamente à detenção, inimaginável num Estado de direito, do jornalista Armando Chicoca.

Sentimo-nos na obrigação de apontar o dedo, reprovador, ao juiz em função, por ter condenado um inocente devido ao facto de não ter levado em conta o fundamento essencial do processo, ou seja, este último ter como enfoque principal não a notícia do jornalista Armando Chicoca, mas sim a denúncia de uma vítima de assédio sexual por parte de um outro juiz, denúncia essa que foi feita pela própria vítima em voz alta, a denunciar o vergonhoso facto.
O Chicoca não inventou nada apenas noticiou. A senhora falou na primeira pessoa do singular e a sua queixa foi gravada. Nós (quem? O F8) escrevemos à ministra. Salientámos nessa missiva o facto de a senhora em questão ter sido despedida do seu emprego por não aceitar ter relações sexuais com o juiz. E relembrámos outro facto idêntico a este, também ocorrido no Namibe em que um juiz engravidou uma funcionaria casada da procuradoria e a retirou da casa do marido, na ausência deste.
Apelámos ao senso primário de justiça, apelámos à moral e à nobre missão de fazer justiça sem olhar à origem dos intervenientes, mas sim à verdade dos factos, mas de nada serviu, porque por trás deste Acórdão que envergonha Angola perante o mundo inteiro, se estabeleceu um acordo entre o juiz da causa e o impugnado, também juiz, superior hierárquico do da causa e seu parente próximo.
Assim, o concluio de baixa estirpe operado por esses dois magistrados, redundou numa pena de prisão de um ano a penalizar um inocente, o Armando Chicoca, encarceramento de que a ministra da Justiça se deveria envergonhar como defensora da violência do género.
Mas não, vergonha não se enxerga em parte alguma, pelo contrário, a Srª ministra está a ser cúmplice de uma injustiça, pois uma mulher, sua funcionária (a vítima trabalhava para a magistratura), perdeu o emprego por não aceitar fazer sexo com um juiz, que é presidente do tribunal do Namibe e, ao que parece, também é seu amigo, logo protegido...
Como prova disso, calou-se também o Conselho Superior da Magistratura Judicial, quando é do conhecimento geral que a denúncia foi feita por uma mulher indefesa e que o jornalista apenas tratou de noticiar, por ser do interesse público.
E ficou mais uma vez a confirmação clara do que sempre acontece quando um juiz é do MPLA e comete abusos sexuais contra as mulheres. Não vale a pena impugná-lo, pois ele beneficiará da protecção do regime, do partido, até mesmo da OMA, e o infractor continuará impune em liberdade, ao contrário de quem ousar denunciar, como no caso actual.
Entretanto, o que mais me abala, no que diz respeito a este desastre que põe na lama a nobre missão de fazer justiça, são as sucessivas fugas aos princípios deontológicos e mesmo o arrepiante atropelo da lei, operado pelos que têm por missão defendê-la e julgar, permitindo acontecer um triste desmoronamento da moral, a deixar no seu rastro os prevaricadores impunes. Como sempre.
Mais uma vez veremos o nosso país a ser denegrido por toda a parte no mundo, esconderemos aos nossos filhos as estatísticas desastrosas que nos colocarão nos mais baixos níveis do “ranking” mundial no que diz respeito à liberdade de imprensa. E continuaremos a sentir um enorme amargo de boca ao pensar que tínhamos previsto, aqui no nosso F8, este final dramático, que ninguém ouviu ou fez que não ouviu, e nada foi feito para evitar este descalabro.
Desde o início tínhamos denunciado todos os atropelos que se anunciavam e foram realmente cometidos por quem de direito. Alertámos para um constante recurso à prudência, no que concerne os abusos de poder, para não vermos uma vez mais a imagem do nosso país transmitida ao estrangeiro, ou pelo menos a da nossa justiça, ser transformada em nódoa indelével.
E agora, se juntarmos a esta borrada a detenção dos jornalistas do Novo Jornal e as ameaças de que foram alvo os jornalistas da Rádio Ecclesia, não há dúvida de que teremos direito a mais uma pequena série de cartões amarelos da comunidade internacional e dos meios jurídicos de todos os quadrantes que nos levarão para o fosso da mais baixa consideração.
À parte isso, todos estes abusos de poder e todos os inconvenientes por eles causados, também me toca o facto de não descortinar alma cristã que pertença ao regime e nos devia servir de referência, vir a público denunciar esta palhaçada de justiça e pedir para que se tomem medidas a fim de que tais abusos não se repitam doravante.
Estamos em presença de um caso em que um juiz pronunciou uma sentença sem levar em conta o fundo da causa, unicamente para “não ter makas com o tio”, o juiz impugnado neste caso, mas também seu chefe e seu tio. Ora a lei não permite que um juiz oficie num caso em que um parente seu seja indigitado. Portanto, parece que se impõe serem desde já tomadas medidas para repor nos carris da legalidade essa irregularidade cometida pelo juiz da causa.
Assim sendo, o juiz… devia ser chamado à pedra por conduta indecorosa no exercício das suas funções, e não só, deveria também ser sancionado por incompetência e eventualmente proscrito e impedido de exercer funções na magistratura.
Peço pois que seja agendada o mais brevemente possível uma investigação aprofundada deste desastre jurídico, a fim de apurar responsabilidades e castigar o, ou os prevaricadores.
De qualquer modo, o mal está feito, temos mais um jornalista na “choça”, à sombra, por ter ousado fazer luz sobre um caso tenebroso.

domingo, 20 de março de 2011

Regime angolano prende Francisco Luemba


Francisco Luemba encontra-se nesta altura detido pelas autoridades angolanas. Na altura em que se preparava para embarcar rumo a Lisboa, para fazer exames médicos, depois de onze meses de cadeia, foi interpelado pelo SINFO que o impediu de embarcar.

In http://altohama.blogspot.com/

Segundo as autoridades angolanas, pende sobre Francisco Luemba uma ordem que o impede de sair do país.

Numa ânsia desmesurada de silenciar todos os que teimam em pensar pela própria cabeça, tudo serve a Luanda para justificar a prisão dos activistas dos direitos humanos. Leituras subversivas na Internet, impressão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, publicação de textos ou de livros, tudo serve para que Angola imponha a razão da força.

Francisco Luemba foi membro da extinta organização de Direitos Humanos Mpalabanda, lembra a Aministia Internacional, realçando que tem criticado publicamente acções militares levadas a cabo pelo Governo angolano e pela FLEC, um grupo armado que luta pela independência daquela colónia.

“Estes homens (Francisco Luemba e Raúl Tati) foram presos, simplesmente, por expressarem pacificamente a sua opinião sobre Cabinda, e as autoridades estão a aproveitar-se do ataque para reprimir os defensores dos direitos humanos”, declarou Muluka-Anne Miti, investigadora da Amnistia Internacional para Angola.

Razões para mais esta prisão? As que deram e as que darão mais jeito ao regime colonislistas angolano. Luanda avança, como no passado, com a acusação de que este ilustre cabinda põe em risco a segurança do Estado (ocupante), sobretudo porque foi o autor do livro “O problema de Cabinda exposto e assumido à luz da verdade e da justiça”.

sábado, 19 de março de 2011

Todo o ditador é um desastre genético. O único remédio para a sua cura é o grande faroeste final, matagal.


O maior erro dos ditadores consiste no convencimento de que as suas fortunas pessoais e as das suas famílias compram, vendem e pagam tudo. Nenhuma voz se lhes pode elevar, denunciar o opróbrio, o contra o eliminar fisicamente dos que não desejam mais rastejar na imundície que lhes é característica.
Empedernidos, decidem a todo o momento quem deve ou não viver, quem mais não andar pela face da Terra. Os países cujas populações tiranizam são como atiradores furtivos que matam qualquer um impunemente. Onde não existirem campos semeados de cadáveres, eles de imediato tratam disso. Porque tudo é deles, e acreditam doentiamente que eternamente assim tudo ficará. Para cada tubarão, uma solução. A agonia do espectro final está finalmente sazonal.
Gil Gonçalves

«O Regime Criou Uma Imagem De Diabolização Contra O General Numa – Justino Pinto De Andrade
Luanda – O catedrático e também líder político, no seu habitual exercício de análise e comentários sobre o conteúdo dos diversos jornais todas as segundas- feiras na Rádio Ecclésia, desta vez (28 de Fevereiro) quebrou o gelo e surgiu em dupla função: cunha e coroa, para dar luz e corpo a controvérsia perigosa gerada em torno de falsos argumentos, urdidos por governantes naquilo que se pode considerar um abuso de poder, que visam confundir a opinião pública nacional e internacional, justificar matanças e prisões, face as reivindicações legítimas dos angolanos que fazem uso dos direitos que conferem a Constituição angolana, desta feita o direito a manifestar.

*Félix Miranda
Fonte: Folha8/Radio Ecclesia Cllub-k-net

Segundo o que se pode ler no interior desta conversa conduzida pelo nosso colega Manuel Vieira e que os nossos serviços de escuta captaram e com o devido respeito retomamos parter, Justino Pinto de Andrade, sem evasivas, desnaturado e visivelmente agastado com o estado de coisas, teceu duras críticas àqueles que se pretendem donos de Angola e de todos. Capitalizando sobre o episódio Kamalata Numa, JPA mais adiante disse: - Criou-se uma imagem de diabolização. Escolheu-se a figura do Numa e transformou-se num Lobo-mau, no Homem do saco e penso que isto de facto não é correcto. Não me parece que haja alguma legislação neste país que impeça algum deputado de dizer que parou de comer ou que não concorda com uma prisão que ele ache ilegítima. Se o Numa deve ser chamado à pedra pelo facto de ter feito greve de fome diante de uma esquadra policial, porquê que Dino Matross não deve ser chamado à pedra porque ameaçou repressão sobre hipotéticos manifestantes? Há uns que têm direito de fazer e dizer o que querem e há outros que têm apenas que bater palmas?!

Instado a se pronunciar sobre a manifestação do dia 7, o também Decano da Faculdade de Economia da Universidade Utanga dizia:

Justino Pinto de Andrade – O que vai acontecer, se acontecer. Está-se a ver a hipótese de haver manifestação dia 7 de Março, de acordo notícias que vão correndo por aí e que geraram algum nervosismo ao nível das pessoas ligadas ao poder. É evidente que também tenho notícias desta convocatória anónima de manifestação, embora ao nível dos jornais já se apresenta um nome, mas a mim parece-me que é fictício. É um indivíduo que se apresenta com um nome que junta os nomes de Agostinho Neto, Holden Roberto, Jonas Savimbi e Eduardo dos Santos. A pessoa não deu o rosto, escondeu-se por detrás de um suposto nome, mas de qualquer forma, ousou convocar a população de Angola para uma suposta manifestação a ter lugar no dia 7 de Março. É evidente que isto criou receios junto de algumas pessoas que receberam estas mensagens, mas sobretudo criou algum nervosismo junto do poder. É normal que tenha criado receios junto da população porque a população sabe perfeitamente que as manifestações que não são de agrado, de apoio, de felicitações, não são bem-vindas. Mesmo até coisas inofensivas. Recordo-me que há um tempo atrás, um conjunto de senhoras quis organizar uma manifestação de apoio a lei contra a violência doméstica, foram reprimidas no Largo 1º de Maio pela polícia, inclusivamente algumas foram parar à Esquadra da polícia. E era uma manifestação perfeitamente pacífica que até estava a apoiar a aprovação eminente de uma lei contra a violência doméstica. Significa que neste país, pelo menos ao nível dos órgãos dirigentes, não há a aceitação do princípio da manifestação embora este princípio esteja consagrado na nossa legislação a começar pela Constituição que contempla o direito legitimo dos cidadãos de forma organizada e pública manifestarem a sua vontade. Depois existe legislação mais concreta que trata das condições que o direito à manifestação deve ser exercido.

Manuel Vieira – Hoje é uma tese fundada em se ter receios de uma manifestação deste caris?

JPA – Não me diga que, quando foi das senhoras sobre a lei da violência doméstica tinham receio que o governo caísse naquela altura. Não é um problema do carácter da manifestação, é do princípio. As pessoas não aceitam a manifestação, os governantes, os órgãos de polícia, os políticos não aceitam o direito à manifestação. Só aceitam o direito à manifestação, quando for de apoio.

Esta das senhoras tinha rosto. Esta suposta manifestação, não tem rosto.

Temos que falar concretamente desta suposta manifestação. Digo suposta porque tenho dúvida se efectivamente haverá tal manifestação, por causa do receio que as pessoas têm. Não é porque as pessoas não tenham vontade de manifestar. As pessoas sabendo o carácter repressivo do regime, seguramente não estarão dispostas a serem recebidas a bala só porque se juntaram num sítio qualquer e disseram que estavam em desacordo com a governação. Além disso também, as coisas foram feitas com uma antecedência tal que todo o mundo está prevenido. Há já um contra-ataque também de pessoas anónimas que puseram a circular umas duas mensagens precisamente em sentido contrário, inclusivamente uma delas atribui a responsabilidade desta manifestação a UNITA em si e ao senhor Numa, Secretário-geral em particular.

Isso não faz sentido, entrarmos nesta lógica acusatória porque ninguém me consegue provar salvo não me tenha apercebido que esta manifestação tenha sido convocada pela UNITA. Porque o seu porta-voz, a pessoa que está autorizada a falar em seu nome, o Alcides Sakala, ele próprio disse que não faria sentido a manifestação, dado que poria em perigo o processo de paz e reconciliação nacional. Portanto, as pessoas estão no direito de convocar e fazer a manifestação, um direito consagrado constitucionalmente, o Estado que devia fazer caso as pessoas viessem a rua, era garantir que a manifestação se processasse de forma pacífica por forma a não criar incidentes de maior, porque a experiência está a mostrar-nos que quando se reprime ainda é pior. E parece-me que o Secretário-geral do MPLA, Dino Matross, ainda lançou mais achas na fogueira. Para já não tem o direito de falar naquelas condições porque ele é Secretário-geral de um Partido político ele não é um órgão do Estado. Se efectivamente havia intenção de se fazer manifestação contra o poder, não é ao Secretário-geral de um partido que compete vir declarar sob forma ameaçadora que as pessoas não podem fazer aquela manifestação. Por outro lado também o Presidente da Bancada Parlamentar do MPLA teve exagero de linguagem na forma como abordou a questão, inclusivamente apontando o dedo à UNITA e ao PRS. Usou uma linguagem um bocadito rasteira, pouco apropriada. Esta forma de reacção quer do Secretário-geral do MPLA, quer do presidente da Bancada do MPLA, para além de exagerada ainda alimentou mais os receios que as pessoas têm e sobretudo mostrou que a cultura democrática não faz parte dos hábitos de muita gente. Há uma série de pessoas que estão de costas viradas para as liberdades democráticas.

As pessoas têm direito a manifestar-se e sobretudo também mostrou que algumas dessas pessoas não aprenderam com aquilo que está a acontecer no mundo. Ali onde a repressão foi maior, a reacção também foi maior. Quando começaram as manifestações na Jordânia, o Rei imediatamente interveio, tomou uma posição e descomprimiu o ambiente. Fez algumas concepções, ouviu as pessoas, deixou que tivessem manifestado, ouviu o que elas tinham para dizer e fez as concertações necessárias. No caso concreto dos outros países onde a repressão policial foi cega, os governos caíram. Inclusivamente estamos numa situação de quase guerra civil na Líbia porque o ditador da Líbia também agiu em sentido contrário àquilo que devia ter feito. Para já não admitiu que está há 42 anos no poder e que isso não faz sentido. 2° - Que o poder não é instrumento para uso pessoal, seja para quem for. E quando as pessoas não percebem que o poder não deve ser usado dessa maneira, é evidente que reagem da maneira como reagiram, depois tem as consequências que tem.

Em termos de cautela, o que aconselha aos cidadãos?

Aconselho é a policia, aconselho às autoridades.

Ou aos cidadãos para que não embandeirem.

Não me compete à mim dizer as pessoas que não devem fazer manifestação. As pessoas têm um direito consagrado na lei. Posso achar conveniente ou não, mas isso é uma questão subjectiva, é um problema do Justino como pessoa. Agora que as pessoas possam usar este direito a manifestar-se, eu não tenho o direito de dizer que não porque sei perfeitamente que neste país, as manifestações que não são de apoio, são geralmente contrariadas e reprimidas. O que devo dizer é as autoridades que apliquem na prática aquilo que a lei consagra. Que não reprimam as pessoas que saem à rua para manifestar, que protejam as pessoas porque essas pessoas são tão angolanas como aquelas que saem à rua para apoiar. Se as pessoas podem sair à rua para apoiar, há outros também que saem à rua para manifestar seu desagrado. O conselho que dou às entidades políticas, que oiçam o povo, tenham a coragem de ouvir coisas que não vos agrada, precisamente para poderem avaliar o sentimento popular. Porque é muito bonito convocar as manifestações de apoio, bandeiras e todo o carnaval que geralmente acompanha estas manifestações, fica-se com a sensação de se estar a fazer tudo bem e as vezes nos esquecemos que estas pessoas saíram à rua porque foram mobilizadas às vezes até de forma incorrecta. Há manifestações que são mobilizáveis através da atracção da bebida, as chamadas maratonas e as pessoas ficam com a sensação que estão a agir perfeitamente, que toda a gente está de acordo, quando na realidade as coisas não são assim. É bom que o poder perceba que a pior coisa que pode fazer é reprimir. Se o poder não reprimir, as pessoas ficam consignadas no local, há palavras de ordem, há intervenções públicas, nós cá de fora ouvimos o que estão a dizer, percebemos a mensagem, podemos estar de acordo ou em desacordo. Penso que assim seria correcto, é assim que se faz em democracia e quando as pessoas não percebem que a democracia é sobretudo liberdade, naturalmente que não podem dirigir de forma democrática um país.

MV – O Jornal a Capital fala de “Numa” como sendo Inimigo Público n° 1. Discorda desta posição? A vida política ficou com alguma ebulição nesta semana em pleno parlamento, o que reputamos de normal em democracia.

Não sei porquê que um deputado, não pode fazer uma greve de fome.

MV – Está na greve de fome, no eventual incitamento a violência.

Mas quem é que diz que o Numa incitou à violência, o MPLA tem que provar isso. Penso que estamos a entrar numa lógica que não vai conduzir a melhoria do nosso debate político, que devia ser feito em torno das ideias e de propostas e projectos que cada um tem. Estamos novamente a voltar nos anos de 1990/91 em que as pessoas são a partida tachadas com um rótulo e não se discute ideias, é a figura do bom e do mau. Penso que a política não é feita por bons e por maus, é feita por pessoas normais. Pessoas que têm ideias contrárias de quem recebem o acordo destes ou o desacordo daqueles. E julgo que esta forma de fazer política que no fundo é a forma que agrada aos partidos tradicionais é muito ínvia, porque em vez de estarmos a discutir projectos e fazer críticas correctas à acção governativa estamos a criar a figura do bom e do mau. Agora o escolhido foi o NUMA, que teve uma reacção que foi face a prisão que ele achou injusta do seu correligionário no município do Bailundo ele terá assentado arraiais em frente a Esquadra da polícia para exigir libertação do seu correligionário.

Não me parece que tenha usado violência. Ele teve uma reacção que me parece perfeitamente normal que é o direito a indignação. Não foi ninguém que foi lá ao estômago do NUMA tirar comida. A partir daí, criou-se uma imagem de diabolização. Escolheu-se a figura do Numa e transformou-se num Lobo-mau, no Homem do saco. Penso que isto de facto não é correcto. Não me parece que haja alguma legislação neste país que impeça algum deputado de dizer que parou de comer ou que não concorda com uma prisão que ele ache ilegítima. Assim como hoje temos o Dino Matross que me parece que é deputado do MPLA, se o Numa deve ser chamado à pedra pelo facto de ter feito greve de fome em frente de uma esquadra policial, porquê que Dino Matross não deve ser chamado à pedra porque ameaçou repressão sobre hipotéticos manifestantes? Há uns que têm direito de fazer e dizer o que querem e há outros que têm apenas que bater palmas! Não me parece que esta seja uma atitude equilibrada. Se Dino Matross fez aquilo e eu estou aqui a condenar publicamente suas palavras, é porque exagerou na linguagem, intimidou as pessoas e abusou de um direito porque enquanto Secretário-geral do MPLA, não pode pôr forças na rua, não pode falar em repressão, porque o Secretário-geral do MPLA, fala em organização do MPLA, não fala em repressão. O MPLA não tem forças militares, nem forças policiais, as forças militares e as forças policiais são do Estado. Ele não pode fazer este tipo de abordagem. Mas não me parece até agora que alguém tenha vindo dizer que Dino Matross vai ser chamado a pedra, mas é deputado também como o Numa e fez uma ameaça pública contra aqueles que se manifestarem publicamente. Mas contudo, o Numa parece-me que decorre apenas do facto de ter feito greve de fome, de se ter colocado em frente de uma Esquadra policial e exigir a libertação do seu correligionário; ameaça-se levá-lo em Tribunal e a perder o cargo. Gostaria de ver a parte final, seria ridículo em qualquer parte do mundo, era uma vergonha para este país, até porque ele é eleito e não é assim que se tira o cargo à uma pessoa que usou de um direito que está consignado na Constituição e na Lei Ordinária.

A Comissão de Ética e do Quórum parlamentar ainda não se pronunciou!

Devia ter assuntos mais sérios para tratar. Acho que a Comissão da Ética e do Quórum parlamentar tem seguramente matéria muito mais substantiva do que estarem a perseguir uma pessoa que se sentou em frente de uma Esquadra a dizer que não quero comer mais porque o meu colega está aí preso.

Já que tudo aconteceu no Huambo, é notícia Faustino Muteka. Segundo o “Novo Jornal”, é o fim da linha, será substituído por Sílvio Peixoto que durante muitos anos foi o secretário da presidência da República.

Estamos no domínio das hipóteses, não sei qual é a fonte do Novo Jornal, acredito que eles tenham fonte segura e parece-me que tudo decorre do facto em haver um desacerto entre a condição de Faustino Muteka enquanto 1° Secretário do MPLA na província do Huambo e a sua condição de Governador provincial. Creio também que esta situação que aconteceu agora tenha maculado um pouco a sua imagem que agiu de maneira partidária nas vestes governamentais. Esta forma de agir, volta e meia confunde as coisas. Penso que o problema não é propriamente o governo e a figura partidária, tem mais a ver com a personalidade das pessoas. Aí é que as coisas ficam mais complicadas, quando as pessoas são um bocado atreitas ao trungungo como se diz entre nós, quando as pessoas reagem intempestivamente, às vezes até de forma quase irreflectida, perante situações que podiam até ter um outro tratamento. Parece-me que esta é uma das práticas reiteradas de Faustino Muteka o que estará a criar alguns problemas à imagem do seu próprio partido no Huambo.

Sobre a realidade de Cuba, Fidel de Castro, Raul e das hipotéticas mudanças, JPA, disse que não acredita em regimes que eram ditatoriais e de um dia para o outro dizem que são democratas, sobre isso foi peremptório em relembrar: a Democracia não pode ser feita pelos velhos ditadores.

Falaram de entre outros sobre a Líbia e Kadhafi, o facto dos seus aliados lhe terem virado nitidamente as costas, inclusive alguns dos seus dirigentes, e a acusação que pesa sobre ele de que poderá ir ao TPI pelo facto de ter utilizado meios desproporcionais para conter a revolta e muita gente ter morrido em consequência.

JPA, tal como tem vindo a citar, não poupou verbos para caracterizar a conjuntura: – Só não dava conta que Kadhafi para além de ditador é um desequilibrado quem usa óculos escuros e deixa de ver a luz do dia. Para além de ditador, uma concepção da sociedade e do Estado errada, é um homem desequilibrado e agora começam a vir notícias das pessoas próximas dele que demonstram que o homem não batia bem da bola como se diz. Um dos seus colaboradores no passado, diz que ele tinha escassas duas horas por dia que estava fora dos efeitos das drogas. Um país não pode ser dirigido por um maluco, um drogado. Os ditadores a certa altura entram numa paranóia tremenda. No caso concreto do Kadhafi, está 42 anos no poder, pensa que ainda tem mais alguma coisa que fazer. Vai fazer mais o quê? O que é que um individuo que fica 20; 30; 40 anos no poder pode apresentar aos seus concidadãos como novidade. A única novidade é de que vai continuar a destruir. Kadhafi só se manteve no poder até agora por duas razões: por um lado porque é um ditador; 2° Porque a Líbia tem dinheiro, fruto do petróleo e é o petróleo que move a Líbia, as conexões dos interesses, as fidelidades, as relações internacionais. Há uma questão que as pessoas têm de tomar em conta: um presidente que ordena a destruição de um avião com inocentes, é um assassino, não é um presidente. O homem próximo dele, julgo ser o ministro da justiça diz que tem provas de que ele ordenou pessoalmente a explosão do avião da PANAM em Lokerbie (Escócia). Para JPA: o fim dos ditadores está a chegar, uns chegam mais cedo do que outros. Mas o mundo do futuro será um mundo de liberdade, não de ditadores com sorrisos ou com cara trancada como é o caso do Kadhafi. Hoje fica mais claro que aquele muro caiu, o muro que protegia a corrente. Cai o Kadhafi, caem os outros todos. Até no Iraque já há manifestações pró democracia, fala-se também da China. Estamos perante uma situação nova no mundo. É evidente que isto vai criar alguma instabilidade; mas, mais vale termos alguma instabilidade durante certo tempo e termos felicidade depois, do que estarmos a viver esta ilusão destes regimes que não dão liberdade aos seus povos. Acho eu que todos os ditadores encapotados ou não deviam fazer a leitura desta altura que estamos a viver no mundo porque outros muros irão cair.»

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (5)


António Setas

Todos os dias não, mas uma ou duas vezes por semana ia para o mar com o tio e comecei a aprender as artes da pesca e de navegar. Passado um mês voltei para casa, e na bagagem não havia só roupa e objectos de uso pessoal, também levava as noites passadas no mar, o vento a encher a “mvela”, as dificuldades da pesca, as decepções e as alegrias, as lições do tio Mbala.
Veio Janeiro, e os angolanos ficaram a saber que o dia da Dipanda seria a 11 de Novembro desse ano. Alegria. Entretanto regressei às aulas. Depois, estava a chegar o cacimbo, vieram as makas, zangaram-se os irmãos. Tristeza. Milhares de vítimas, mortos a apodrecer pelas ruas, cheiro a carne podre, ameaças, doença. Uma das vítimas foi uma mulher que ‘‘me gostava’’, a tia Chiquinha, a primeira mulher do meu pai. Fiquei muito triste quando soube da sua morte.
Nessa altura era impossível andar pelas ruas de Luanda. Tiros por todo o lado, gente que aproveitava a ocasião para ajustes de contas, enquanto que nós, axiluanda, virados para o mar, ouvíamos os trovões das armas e só pedíamos que os patriotas nos ignorassem. E eu, ainda candengue, tinha medo, e por mais que admiras- se o “pai Neto” não abraçava as razões de tanto ódio. Enfim, os desígnios e as sendas da política são quase tão impenetráveis como as do Senhor, e não assenta ao pecador candengue por aí se aventurar...
“Xé, minino!... não fala política, não fala política...”

Ocorreu o fatal desfecho depois da tia Chiquinha ter ido de visita a um óbito no Mussulo. Além dela iam os dois filhos, o Xico e o Adi - o Zeca estava no
mar -, ia o vizinho António, irmão do finado, o seu filho Zé e a esposa. Partiram pelo meio da tarde e todos eles passaram a noite em casa do dono do óbito. No dia seguinte era domingo. Pela madrugada de segunda-feira meteram-se no ndongo para regressar aos Imbondeiros. O vizinho António ficou, com o filho, tratava-se do irmão tinham que ficar. O ndongo lá foi, mas nunca chegou à Samba. Foi atacado por um barco a motor com homens armados que, talvez por causa de resistência, ou por terem sido reconhecidos, não estiveram com meias medidas, mataram toda a gente. Só apareceram os corpos das duas senhoras. Os corpos dos dois rapazes sumiram como que por encanto. Nunca mais apareceram.
Por amizade pela tia Chiquinha e por respeito pelo meu pai, dormi todas as noites no Bairro dos Imbondeiros durante mais de duas semanas. É assim que quer a tradição. Foi um enterro importante, com muitos carros e muita, muita gente a acompanhar a tia Chiquinha até ao cemitério. O dono do óbito era o meu pai e foi ele quem “abriu a mesa” na véspera do enterro. As esteiras tinham sido dispostas no quintal para os homens que iam chegando e se deitavam nelas à maneira axiluanda, de lado, sobre o lado esquerdo do corpo, com o cotovelo pousado na esteira, o braço flectido e a cabeça apoiada na mão, enquanto as mulheres se retiravam para outros recantos da casa. Veio da cozinha um bruto “caldo” - cozido de peixe temperado com sal, cebola, louro, tomate, jindungo, óleo de palma e, acompanhado de farinha torrada de mandioca e mandioca fresca -, com três garrafas de vinho por “mesa”, e no centro de cada esteira um prato, cada um com a sua boa quantia em dinheiro para as primeiras despesas em bebidas.
No dia seguinte, depois do enterro, o que primou pelo requinte foi o “sango”, pago com o dinheiro das mesas. Ali estavam as iguarias da praxe e as bebidas finas, para todos os gostos, compradas na candonga.
À missa do 7º dia seguiu-se outra comezaina pelos ajustes da fartura, e logo a seguir o komba. Varreu-se a casa, pôs-se o lixo na rua e deitou-se o dikoso por cima do lixo. E durante mais de um mês, tudo se passou como manda a tradição muxiluanda, com muita gente a entrar em casa, os nossos familiares, amigos do meu pai e colegas de trabalho, por vezes até pessoas desconhecidas a quem não se negava a visita, muita gente a comer e a beber, a ficar por ali durante umas horas e a ir-se embora, não sem dar uma ajuda nas tarefas domésticas, nunca sem uma palavra de consolo, sobretudo para as mulheres, que faziam o trabalho todo. Muitos deles vieram várias vezes. Sabiam que havia comes e bebes e tiravam a barriga de misérias.

Numa palavra, foi um óbito muxiluanda, nos moldes que são de uso há séculos no seio da nossa comunidade. E para fechar o ritual, serviu-se um bom mufete, com muita bebida, o tudo pago ainda com o dinheiro das mesas.
Era beber, beber e comer...Meu Deus, nem vale a pena contar...

«Chiquinha, agora estás bem, isso nós sabemos, e por isso mesmo festejamos! Também sei que se estivesses connosco terias bebido e comido tanto como nós, porque só assim se pode esquecer a dor. Lembras-te do quanto chorámos nos primeiros dias? Lembras-te, sim! Acabou o óbito, e vamos continuar a chorar a tua ausência, mas mesmo ausente tu estarás sempre connosco, porque nunca saíste, nem nunca sairás do nosso pensamento».

Foi esta a minha prece à Chiquinha. Não com estas palavras, porque na altura ainda não me sabia exprimir como deve ser, mas era assim, aí como está escrito, que eu sentia a dor. Uma prece muito minha.

Entretanto a situação na cidade acalmara-se, o MPLA dominava a situação e a resistência dos outros partidos, a FNLA e a UNITA, desfazia-se em pequenas bolsas de insignificante resistência. O liceu tinha fechado as portas e não se previa para breve a sua abertura. E, como desse modo eu ficava de braços a abanar, sem ter nada que fazer, pedi ao pai para ir aprender a pescar com o tio Mbala. O Luisão deixou. No dia seguinte fui para casa da tia Londa. Tinha saudades do mar.

Tudo o que sei da arte do pescador devo-o ao tio Mbala. Fiquei a saber o que era “pisar na água”, a andar de dia e de noite no mar, a saber por onde ia e para onde ia, a sentir cá por dentro quando devia parar. O mar era a minha alegria. O tio saía da Xicala, apontava para um ponto saliente da costa de Luanda, o alto de um morro ou um prédio, fazia o reconhecimento dos alinhamentos, este aqui, aquele ali, e sabia que tinha que se afastar da costa. Afastava-se e metia a sonda, um fio com uma peça côncava de chumbo preenchida com um pedaço de sabão. Levantava a sonda e via: se o sabão estivesse como antes de o ter mergulhado, intacto, era fundo de areia ou de lama, se viesse com sinais de choque era fundo de pedra, “casa de peixe”. Calculava a posição pelas mensagens dadas por todos esses sinais da terra e do mar... sim, talvez fosse ali o bom sítio, e lançava a linha.
Às vezes metíamos a sul a pescar sem mapa, sem nada, e o tio Mbala dizia que não havia maka, o mapa estava na cabeça e quem ajudava era o coração. Explicou-me o que era a onda e o nevoeiro, «Atenção ao nevoeiro! Se tens nevoeiro lanças a âncora e fundeias. Passa o nevoeiro, a primeira coisa que tens que ver é a onda, de onde vem, mudou, não mudou...E a corrente, muito perigoso, é como a onda do alto mar que chega pela banda, pensas que estás a fazer rota em frente mas não, avanças como um caranguejo, de lado».
Com ele também fiquei a saber que em tempo de cacimbo pesca-se de preferência de dia, porque há muito ditwiki (cachucho), peixe que “come de dia”, e na estação das chuvas é o contrário, é melhor pescar depois do sol posto, porque o peixe que mais abunda é o xibata (peixe-espada), que “come de noite”. Mas o que mais me impressionou foi quando ele me disse que só pescador valente vai pescar para o alto mar, passa a barra se está na Corimba, mete a oeste se sai da ilha. É no alto que se apanham as espécies de peixe mais rentáveis e as que mais depressa se vendem, o espada, o cachucho, o pungo, a garoupa e o mero, além do cherne, da corvina e do anequim, que também são peixes do alto; na baía só tem pargo, roncador e murianga; tanto aqui como acolá pesca-se a ferreira, o peixe-pirão, o peixe-tabaco, o peixe-nariz, o peixe-porco... Mas só no mar é que se vê o que vale um pescador.«E quando estiveres no alto, se por acaso te aparecer um desses mostrengos do mar, anequim, tubarão, ou peixe-martelo, então é que se fica a saber se tens unhas para bater com a ‘‘bangala’’ no peixarrão, pega lá, meu cabrão!!, e lhe fazer a cara num bolo», dizia o tio Mbala.
De permeio com estas e outras dificuldades os ventos, as marés e as correntes, isto sem falar da lua, que ao subir no céu pode mudar a direcção do vento a dar-lhe força. Havia o perigo das kalembas, frequentes de Agosto a Outubro. Todos os dias o tio Mbala ensinava, explicava, e era sempre ele a dar o exemplo, num constante esforço para fazer de mim mais do que um bom pescador, mais do que um bom marinheiro, um autêntico “akwa zanga”.
Mas ainda tinha muito que aprender, porque as lições do mar nunca se esgotam. Como não têm conta as vezes em que o esforço consentido, a angústia, o medo, numa só palavra o sofrimento, ultrapassam os limites da valentia. Sendo esta a realidade, que não me venham cá com cantigas, com imagens poéticas de pescadores comparados a pastores e o mar um paraíso habitado por sereias. Fico fora de mim quando me aparece no horizonte um desses gabarolas, que vêm para aí dizer que trabalham uma ou duas vezes por mês e pescam numa folgaria inacreditável peixe suficiente para poderem viver até ao mês seguinte. É mentira!! E se não for mentira, juro pelo sangue de Cristo, só pode ser feitiço!

A folga era ao sábado e ao domingo, e eu passava-a sempre em casa da minha mãe. Depois da morte da tia Chiquinha o meu pai pensou em levá-la para a casa do Bairro dos Imbondeiros, mas ela recusou, «Nem pensar, Luís! Tira bem isso da cabeça, nem pensar». Perante a imediata e firme recusa o meu pai ficou-se por um silêncio que consente, e no seu foro íntimo até devia ter ficado aliviado, pois se eu com a minha idade via nesse lance confusões atrás de confusões, imaginava que na cabeça dos adultos ainda devia ser pior. Assim, o Luisão continuou a viver na Samba, agora sem mulher e sem o último filho que lhe restava, que tinha ido para as FAPLA, mas com uma governanta jovem, a Mira. Com tanta dor por que tinha passado os descendentes do inflexível Papá Dya Kota aceitavam o seu procedimento.

Imagem: cavaleirosdonorte.blogspot.com

Johannes Pinctu, o pretor da democracia angolana


Gil Gonçalves
Quanto mais o MPLA se apoderar e apodrecer do poder, assim mais trágico será o seu final. Em mais de trinta anos o MPLA ainda não aprendeu a governar. Uma coisa do seu aprendizado é certa: os destroços de Angola e dos angolanos.
Os movimentos de libertação são os sucessores, o apogeu do colonialismo, da destruição final de África e das suas populações. Os descendentes dos colonizadores governam-nos. E chineses à direita, chineses à esquerda, à frente, atrás, chineses por todo o lado… estamos cercados por chineses.
Inventámos a poesia da democracia angolana
e inaugurados no seu panteão restaremos
Neste senado romano consularizaremos
Ah! ainda não se move esta nossa democracia
da trovadoresca poesia
E do petróleo e diamantes nada sobrará para mais ninguém. Nós, os deuses do povo, assim o decretámos. E neste terceiro Reich da informação que implantamos, ficaremos fortes, muito ponderosos. Os nossos negócios serão infalíveis.
Agora com a santa aliança canónica, edificaremos em cada esquina uma igreja, é o melhor investimento. Sem gastos, suportados pelos crentes idiotas embandeirados no analfabetismo, as seitas safam-se, enriquecem na velocidade meteórica os seus sumo-sacerdotes, onde qualquer bispo cai das nuvens eleito pela vontade divina. Angola não pode ser nem nunca será apenas para alguns. E se assim se continuar, uma grande tragédia será inevitável. Angola não é de alguns revolucionários que nos impingiram a luta de libertação deles, e não libertaram nada. Basta admirar os caixotes do lixo, é lá que reside a liberdade plena do angolano.
Ah! este tempo e este clima, tão instáveis
como este governo
Não, não é um partido político
é um circo angolano itinerante
E onde ainda teimar existir um pedaço de terra resistente, lá o espoliaremos pretextando que é do Estado, logo nosso, deles, e lá ergueremos qualquer coisa. O mais importante é especular. Angola já não tem povo, tem ratos e moscas.
Insisto, para mim a democracia é uma poesia, e eu considero-me um poeta democrático. E o espírito democrático do 27 de Maio paira sob as nossas cabeças. E do céu do Politburo chove tanta miséria sobre as populações como nunca em Angola se viu. Libertaram o povo angolano e premiaram-no com a mais aterradora miséria. E riem-se com sarcasmo das promessas de uma nova vida.
Não, não! Os vossos debates são previamente dirigidos, tendenciosos. Isso não é democracia. Eu sou frontal… tudo que é anormal – mas existe algo normal?! – em democracia decide-se no tribunal. As nossas instituições democráticas funcionam a vapor sabiamente dirigidas pelo nosso sumo pontífice da política africana, mundial, planetária e panfletária. Eu antes de ser democrata já o era. Antes aticei-me contra o poder instituído, era uma estratégia, uma chamada de atenção sobre o meu intelecto. Como Júlio César: ave! Cheguei a Luanda, vi e venci.
A nossa missão é esfomear a população
De Kabinda ao Kunene já não é uma só
nação
É um descomunal campo de concentração
de esqueletos a vaguearem sem rei nem
o Roque
E neste império romano/angolano
uma Via Ápia calcetaremos com as ossadas
prendadas do nosso eterno soberano
As populações estão votadas ao abandono, há mais execrável miséria?! Não, não?! Saímos há pouco tempo de um conflito, de um campo de futebol militar que nos ceifou os campos da morte.
Nesta democracia diamantífera
Tão petrolífera, tão mortífera
Democracia é sofrer, é lutar pela liberdade. A nossa democracia executa-se nos deserdados, nos espoliados da terra, dos casebres. Democracia sem corrupção, sem roubos, sem desvios, não é, nunca será jamais uma democracia. E por isso mesmo democratizar, afogar a sociedade angolana, é espoliar. Não existem bens em poder da população, tudo é do nosso Estado papão. Por enquanto a nossa jovem democracia segue bem descarrilada no comboio sem vagões, sem travões. Ora não existindo povo, vamos acabar com ele, estão à espera de quê?! Todos os seus bens reverterão de facto e de jure para os cofres revolucionários do nosso querido e amado Politburo. A nossa luta é inquestionável e nas maratonas está o êxito da nossa revolução. Revolucionar é democratizar.
E a destruição de tudo o que era vegetal aconteceu inexorável. Os patrocinadores dos nossos especuladores imobiliários levam a devastação das árvores de Luanda que está um deserto de betão. Sem arvoredo, uma grande desgraça abater-se-á sobre Luanda como um poderoso feitiço dos grandes feiticeiros imobiliários. Sem vegetação é impossível viver. Os palácios medrosamente fortificados e amuralhados da nobreza, da baixeza dos nossos novos-ricos na revolta das águas sucumbirão.
Quando a coberto da democracia, banqueiros exercem a sua actividade bancária fortalecendo o terrorismo económico e financeiro, beneficiando da impunidade conivente do poder, é com certeza um final trágico de uma nação (?). E quando o silêncio das noites é catastroficamente interrompido pelo potente e estridente ribombar, metralhar dos mentecaptos dos escapes semoventes das motorizadas, é o recordar dos destroços da independência tão horrorosamente engavetada e congelada. Porque é que em Luanda se permite a poluição sonora? Porque os governantes só sabem fazer barulho.
Não, não! Em Angola não existe miséria, isso é uma engenhosa mentira da nossa reacção interna alimentada pelos estrangeiros que desejam que o nosso povo, o nosso Politburo, voltem ao passado das trevas coloniais. Vejam o nosso PIB democrático, como sobe nas alturas do nosso desenvolvimento actual e intelectual. Não dá para entender! Mas já têm a democracia plena, querem mais o quê?! Está bem, está bem, não há empregos, e agora com a invasão chinesa… mas encontraremos uma solução, mais um campo de concentração, ok! Fiquem calmos, serenos e atentos, nós trabalhamos para o bem do nosso querido povo. Tudo só para ele e em nome dele. Na continuação da miséria nacional está a continuação da nossa luta. Jamais se esqueçam que nós do Politburo instituímos a liberdade e a democracia em Angola. E por isso mesmo existem duas classes: os democratas e os escravocratas. Como me sinto tão feliz quando contemplo os nossos campos da agricultura sem ela, mas de tão grandiosidade democrática neles lavrada.
Sentimo-nos na plenitude do dever cumprido. Nas ruas de Luanda amarguram-se as miseráveis vendedoras escorraçadas e espoliadas sem o seu Roque. É um dantesco espectáculo que aflige qualquer coração benévolo. Mas os precursores da democracia angolana ainda não exorcizados rejubilam perante tanta maldição. Isto não é um país, é um imenso navio lotado de escravos sob os constantes chicotes de meia dúzia de senhores negreiros. O comércio de escravos fortalece-se, é bom negócio, bate bem. Já chega, parem a independência e a vossa democracia. Queremos o nosso petróleo, os nossos diamantes, as nossas terras e os nossos casebres.
E se os governantes e o seu deus máximo não apoiam o livro, a leitura, então, estão à espera de quê?! E Angola que está com uma epidemia de pessoas VIP.
Para a minoria deles, quanto mais velho, mais ditador. Para a nossa maioria quanto mais velho, mais sábio. Esta democracia é um estado de alma, uma dominação, um ultraje ao nosso sonho de amor da nossa liberdade. E nesta luta de destruição nacional, no país da consolidada conjuntura analfabética, da juventude forçadamente prisioneira do inculto que se esforça no alcoolismo. E nisso se desenvolve e torna-se adulta. Que futuro aguarda este oásis de estrangeiros e alguns nacionais-socialistas? Nenhum, pois claro. Mas, apenas um, a anarquia, a impossibilidade de viver, e até da já esperança perdida no renascer. Nunca serás independente sem o retorno ao puro nacionalismo, porque perderás para sempre a tua independência e liberdade.
Uma coisa é certa. Há muita desvantagem
na aniquilação da democrática corrupção
Que tempos novos estes tão encantadores
tão democráticos
E levantei-me para enfrentar mais um dia
de democrática razia
E nesta galera escravocrata mais um dia
sem futuro nos vigia
E quem da nossa liberdade democrática discordar
nos tribunais populares terá de o provar
nesta democracia da fissuração
da independência sem Constituição
Um povo obrigado a viver de festejos, fatalmente acaba na infelicidade. E neste nosso jogo de futebol, a bola é a fome.
«O que é que se passa com o sistema do Politburo?» Não sei! Porquê? «Está sempre a reinicializar»

quinta-feira, 17 de março de 2011

República das ilegalidades! Libertem o jornalista Armando Chikoka!


Gil Gonçalves
Alguém viu por aí a independência? Alguém sabe o que isso é?
Pelo andar desta monstruosa ferocidade judicial, os substitutos do colonialismo impõem-nos o regresso às origens das ideias coloniais. A cada momento a repressão exacerba-se, a escravidão revigora-se. Os exércitos abundam, armam-se com os mais modernos equipamentos bélicos, apenas para aterrorizarem as populações, para que o silêncio paire como nas tocas dos ratos. Foi assim muito recentemente nos regimes mais ditatoriais. E há quem não aprenda a lição. Parece haver uma apetência demoníaca para terminar como as ditaduras irmãs, muito amigas: pela violência crescente contra as populações, e estas não têm outra alternativa: entre viver e morrer, há que escolher. E escolhem o viver, claro, antes que todos perecem.
Angola é o único país do mundo, onde um jornalista é preso por noticiar… um vulgar acontecimento.
Não podemos continuar a viver nesta incerteza, nesta cobardia, de qualquer um de nós na sua casa, ser preso por qualquer esbirro secreto, como nas ditaduras mais ferozes, sem qualquer culpa formada, sem se saber a acusação.
É horrível notar que o combate desta turba não está dirigido para a miséria, que está tão pungente, ingente. As chuvas e o poder destroçam Angola, e o império do mal canaliza as suas forças para os seus inimigos principais, os jornalistas. A única preocupação é as receitas do petróleo, que são transferidas automaticamente para as suas contas bancárias secretas, que mais tarde serão congeladas e depois confiscadas. É a pura verdade! Com tanta indigência em Angola, como é possível existirem tantos bancos em Luanda? É fácil, não é?! Os bancos são dos corruptos do poder, e assim praticam-lhes assiduamente a lavagem dos biliões de dólares que usurpam do erário público.
Não se iludam! Kadafi, vai ter um final muito triste, é garantido.
Chegaram, viram e… espoliaram.
Não podemos continuar a viver sob a imposição de seres das cavernas.
Em Angola, nunca haverá paz enquanto os detentores dos biliões de dólares ilegais, não forem julgados, condenados e presos.
Onde há persistentes maus professores, há sempre maus alunos.
A vitória total e completa da corrupção, é quando o poder é quase quarentão.
O poder de Deus é grande, o dos corruptos também.
Para cada igreja o seu padre. Para cada rebanho o seu pastor. Em cada precipício, um ditador.
Não, não é o poder nas ruas! É o poder sem ruas.
E lanço a minha cana de pesca no mar do meu petróleo, e não me canso de pescar dólares. E quando pesco à rede, vem sempre também atestada de dólares. Ah! Como é tão bom viver assim, tudo só para mim.
Estamos num Estado de facto e de jure corrupto.

Conselho das Igrejas Cristãs de Angola reunido para "reflexão sobre atual momento" apela à calma


O Conselho das Igrejas Cristãs de Angola (CICA), reunido no 02 em Luanda para uma "reflexão sobre o atual momento", apelou à “calma e oração para a resolução dos problemas candentes”.

Segundo o secretário-geral do CICA, reverendo Luís Nguimbi, os momentos conturbados que África está a enfrentar nos últimos dias, chama à atenção das igrejas de como Angola tem de ter “muito mais arrumada a casa, o país”.

Em declarações à Rádio Nacional de Angola, o reverendo Luís Nguimbi defendeu que Angola deve estar mais atenta para que os angolanos, que já passaram "por vários anos de guerra, de lágrimas, de tristezas e de destruições, não voltem a cair nestas situações”.

A reunião do CICA surge numa altura em que estão marcadas para Luanda duas manifestações, sendo a primeira para sábado, organizada pelo MPLA, partido no poder, em resposta a uma outra, convocada pela internet, para o próximo dia 07 de Março, contra o Governo angolano.

Sobre a “marcha patriótica pela paz” do MPLA, o primeiro secretário do comité provincial de Luanda, Bento Bento, disse que o partido pretende reunir mais de dois milhões de pessoas para “dizer não ao desacato, à destruição, à desordem e a tudo o que se traduz em atentado contra a democracia e a estabilidade do país”.

Na sua convocatória, o Comité Provincial do MPLA de Luanda fez “um vibrante apelo aos mais nobres sentimentos de patriotismo da população, das diversas forças políticas, das igrejas e seus crentes, das associações diversas e seus associados, das profissões liberais e da intelectualidade a participarem na grandiosa marcha patriótica pela paz”.

“O longo sofrimento produzido pelas diversas guerras de décadas jamais poderá ser reproduzido por quem quer que seja. O povo angolano almeja unicamente a consolidação da paz, que lhe permitirá usufruir de um desenvolvimento planificado, como prova isso os frutos destes nove anos de paz e tranquilidade”, salienta um comunicado de imprensa.