sexta-feira, 18 de março de 2011

Johannes Pinctu, o pretor da democracia angolana


Gil Gonçalves
Quanto mais o MPLA se apoderar e apodrecer do poder, assim mais trágico será o seu final. Em mais de trinta anos o MPLA ainda não aprendeu a governar. Uma coisa do seu aprendizado é certa: os destroços de Angola e dos angolanos.
Os movimentos de libertação são os sucessores, o apogeu do colonialismo, da destruição final de África e das suas populações. Os descendentes dos colonizadores governam-nos. E chineses à direita, chineses à esquerda, à frente, atrás, chineses por todo o lado… estamos cercados por chineses.
Inventámos a poesia da democracia angolana
e inaugurados no seu panteão restaremos
Neste senado romano consularizaremos
Ah! ainda não se move esta nossa democracia
da trovadoresca poesia
E do petróleo e diamantes nada sobrará para mais ninguém. Nós, os deuses do povo, assim o decretámos. E neste terceiro Reich da informação que implantamos, ficaremos fortes, muito ponderosos. Os nossos negócios serão infalíveis.
Agora com a santa aliança canónica, edificaremos em cada esquina uma igreja, é o melhor investimento. Sem gastos, suportados pelos crentes idiotas embandeirados no analfabetismo, as seitas safam-se, enriquecem na velocidade meteórica os seus sumo-sacerdotes, onde qualquer bispo cai das nuvens eleito pela vontade divina. Angola não pode ser nem nunca será apenas para alguns. E se assim se continuar, uma grande tragédia será inevitável. Angola não é de alguns revolucionários que nos impingiram a luta de libertação deles, e não libertaram nada. Basta admirar os caixotes do lixo, é lá que reside a liberdade plena do angolano.
Ah! este tempo e este clima, tão instáveis
como este governo
Não, não é um partido político
é um circo angolano itinerante
E onde ainda teimar existir um pedaço de terra resistente, lá o espoliaremos pretextando que é do Estado, logo nosso, deles, e lá ergueremos qualquer coisa. O mais importante é especular. Angola já não tem povo, tem ratos e moscas.
Insisto, para mim a democracia é uma poesia, e eu considero-me um poeta democrático. E o espírito democrático do 27 de Maio paira sob as nossas cabeças. E do céu do Politburo chove tanta miséria sobre as populações como nunca em Angola se viu. Libertaram o povo angolano e premiaram-no com a mais aterradora miséria. E riem-se com sarcasmo das promessas de uma nova vida.
Não, não! Os vossos debates são previamente dirigidos, tendenciosos. Isso não é democracia. Eu sou frontal… tudo que é anormal – mas existe algo normal?! – em democracia decide-se no tribunal. As nossas instituições democráticas funcionam a vapor sabiamente dirigidas pelo nosso sumo pontífice da política africana, mundial, planetária e panfletária. Eu antes de ser democrata já o era. Antes aticei-me contra o poder instituído, era uma estratégia, uma chamada de atenção sobre o meu intelecto. Como Júlio César: ave! Cheguei a Luanda, vi e venci.
A nossa missão é esfomear a população
De Kabinda ao Kunene já não é uma só
nação
É um descomunal campo de concentração
de esqueletos a vaguearem sem rei nem
o Roque
E neste império romano/angolano
uma Via Ápia calcetaremos com as ossadas
prendadas do nosso eterno soberano
As populações estão votadas ao abandono, há mais execrável miséria?! Não, não?! Saímos há pouco tempo de um conflito, de um campo de futebol militar que nos ceifou os campos da morte.
Nesta democracia diamantífera
Tão petrolífera, tão mortífera
Democracia é sofrer, é lutar pela liberdade. A nossa democracia executa-se nos deserdados, nos espoliados da terra, dos casebres. Democracia sem corrupção, sem roubos, sem desvios, não é, nunca será jamais uma democracia. E por isso mesmo democratizar, afogar a sociedade angolana, é espoliar. Não existem bens em poder da população, tudo é do nosso Estado papão. Por enquanto a nossa jovem democracia segue bem descarrilada no comboio sem vagões, sem travões. Ora não existindo povo, vamos acabar com ele, estão à espera de quê?! Todos os seus bens reverterão de facto e de jure para os cofres revolucionários do nosso querido e amado Politburo. A nossa luta é inquestionável e nas maratonas está o êxito da nossa revolução. Revolucionar é democratizar.
E a destruição de tudo o que era vegetal aconteceu inexorável. Os patrocinadores dos nossos especuladores imobiliários levam a devastação das árvores de Luanda que está um deserto de betão. Sem arvoredo, uma grande desgraça abater-se-á sobre Luanda como um poderoso feitiço dos grandes feiticeiros imobiliários. Sem vegetação é impossível viver. Os palácios medrosamente fortificados e amuralhados da nobreza, da baixeza dos nossos novos-ricos na revolta das águas sucumbirão.
Quando a coberto da democracia, banqueiros exercem a sua actividade bancária fortalecendo o terrorismo económico e financeiro, beneficiando da impunidade conivente do poder, é com certeza um final trágico de uma nação (?). E quando o silêncio das noites é catastroficamente interrompido pelo potente e estridente ribombar, metralhar dos mentecaptos dos escapes semoventes das motorizadas, é o recordar dos destroços da independência tão horrorosamente engavetada e congelada. Porque é que em Luanda se permite a poluição sonora? Porque os governantes só sabem fazer barulho.
Não, não! Em Angola não existe miséria, isso é uma engenhosa mentira da nossa reacção interna alimentada pelos estrangeiros que desejam que o nosso povo, o nosso Politburo, voltem ao passado das trevas coloniais. Vejam o nosso PIB democrático, como sobe nas alturas do nosso desenvolvimento actual e intelectual. Não dá para entender! Mas já têm a democracia plena, querem mais o quê?! Está bem, está bem, não há empregos, e agora com a invasão chinesa… mas encontraremos uma solução, mais um campo de concentração, ok! Fiquem calmos, serenos e atentos, nós trabalhamos para o bem do nosso querido povo. Tudo só para ele e em nome dele. Na continuação da miséria nacional está a continuação da nossa luta. Jamais se esqueçam que nós do Politburo instituímos a liberdade e a democracia em Angola. E por isso mesmo existem duas classes: os democratas e os escravocratas. Como me sinto tão feliz quando contemplo os nossos campos da agricultura sem ela, mas de tão grandiosidade democrática neles lavrada.
Sentimo-nos na plenitude do dever cumprido. Nas ruas de Luanda amarguram-se as miseráveis vendedoras escorraçadas e espoliadas sem o seu Roque. É um dantesco espectáculo que aflige qualquer coração benévolo. Mas os precursores da democracia angolana ainda não exorcizados rejubilam perante tanta maldição. Isto não é um país, é um imenso navio lotado de escravos sob os constantes chicotes de meia dúzia de senhores negreiros. O comércio de escravos fortalece-se, é bom negócio, bate bem. Já chega, parem a independência e a vossa democracia. Queremos o nosso petróleo, os nossos diamantes, as nossas terras e os nossos casebres.
E se os governantes e o seu deus máximo não apoiam o livro, a leitura, então, estão à espera de quê?! E Angola que está com uma epidemia de pessoas VIP.
Para a minoria deles, quanto mais velho, mais ditador. Para a nossa maioria quanto mais velho, mais sábio. Esta democracia é um estado de alma, uma dominação, um ultraje ao nosso sonho de amor da nossa liberdade. E nesta luta de destruição nacional, no país da consolidada conjuntura analfabética, da juventude forçadamente prisioneira do inculto que se esforça no alcoolismo. E nisso se desenvolve e torna-se adulta. Que futuro aguarda este oásis de estrangeiros e alguns nacionais-socialistas? Nenhum, pois claro. Mas, apenas um, a anarquia, a impossibilidade de viver, e até da já esperança perdida no renascer. Nunca serás independente sem o retorno ao puro nacionalismo, porque perderás para sempre a tua independência e liberdade.
Uma coisa é certa. Há muita desvantagem
na aniquilação da democrática corrupção
Que tempos novos estes tão encantadores
tão democráticos
E levantei-me para enfrentar mais um dia
de democrática razia
E nesta galera escravocrata mais um dia
sem futuro nos vigia
E quem da nossa liberdade democrática discordar
nos tribunais populares terá de o provar
nesta democracia da fissuração
da independência sem Constituição
Um povo obrigado a viver de festejos, fatalmente acaba na infelicidade. E neste nosso jogo de futebol, a bola é a fome.
«O que é que se passa com o sistema do Politburo?» Não sei! Porquê? «Está sempre a reinicializar»

quinta-feira, 17 de março de 2011

República das ilegalidades! Libertem o jornalista Armando Chikoka!


Gil Gonçalves
Alguém viu por aí a independência? Alguém sabe o que isso é?
Pelo andar desta monstruosa ferocidade judicial, os substitutos do colonialismo impõem-nos o regresso às origens das ideias coloniais. A cada momento a repressão exacerba-se, a escravidão revigora-se. Os exércitos abundam, armam-se com os mais modernos equipamentos bélicos, apenas para aterrorizarem as populações, para que o silêncio paire como nas tocas dos ratos. Foi assim muito recentemente nos regimes mais ditatoriais. E há quem não aprenda a lição. Parece haver uma apetência demoníaca para terminar como as ditaduras irmãs, muito amigas: pela violência crescente contra as populações, e estas não têm outra alternativa: entre viver e morrer, há que escolher. E escolhem o viver, claro, antes que todos perecem.
Angola é o único país do mundo, onde um jornalista é preso por noticiar… um vulgar acontecimento.
Não podemos continuar a viver nesta incerteza, nesta cobardia, de qualquer um de nós na sua casa, ser preso por qualquer esbirro secreto, como nas ditaduras mais ferozes, sem qualquer culpa formada, sem se saber a acusação.
É horrível notar que o combate desta turba não está dirigido para a miséria, que está tão pungente, ingente. As chuvas e o poder destroçam Angola, e o império do mal canaliza as suas forças para os seus inimigos principais, os jornalistas. A única preocupação é as receitas do petróleo, que são transferidas automaticamente para as suas contas bancárias secretas, que mais tarde serão congeladas e depois confiscadas. É a pura verdade! Com tanta indigência em Angola, como é possível existirem tantos bancos em Luanda? É fácil, não é?! Os bancos são dos corruptos do poder, e assim praticam-lhes assiduamente a lavagem dos biliões de dólares que usurpam do erário público.
Não se iludam! Kadafi, vai ter um final muito triste, é garantido.
Chegaram, viram e… espoliaram.
Não podemos continuar a viver sob a imposição de seres das cavernas.
Em Angola, nunca haverá paz enquanto os detentores dos biliões de dólares ilegais, não forem julgados, condenados e presos.
Onde há persistentes maus professores, há sempre maus alunos.
A vitória total e completa da corrupção, é quando o poder é quase quarentão.
O poder de Deus é grande, o dos corruptos também.
Para cada igreja o seu padre. Para cada rebanho o seu pastor. Em cada precipício, um ditador.
Não, não é o poder nas ruas! É o poder sem ruas.
E lanço a minha cana de pesca no mar do meu petróleo, e não me canso de pescar dólares. E quando pesco à rede, vem sempre também atestada de dólares. Ah! Como é tão bom viver assim, tudo só para mim.
Estamos num Estado de facto e de jure corrupto.

Conselho das Igrejas Cristãs de Angola reunido para "reflexão sobre atual momento" apela à calma


O Conselho das Igrejas Cristãs de Angola (CICA), reunido no 02 em Luanda para uma "reflexão sobre o atual momento", apelou à “calma e oração para a resolução dos problemas candentes”.

Segundo o secretário-geral do CICA, reverendo Luís Nguimbi, os momentos conturbados que África está a enfrentar nos últimos dias, chama à atenção das igrejas de como Angola tem de ter “muito mais arrumada a casa, o país”.

Em declarações à Rádio Nacional de Angola, o reverendo Luís Nguimbi defendeu que Angola deve estar mais atenta para que os angolanos, que já passaram "por vários anos de guerra, de lágrimas, de tristezas e de destruições, não voltem a cair nestas situações”.

A reunião do CICA surge numa altura em que estão marcadas para Luanda duas manifestações, sendo a primeira para sábado, organizada pelo MPLA, partido no poder, em resposta a uma outra, convocada pela internet, para o próximo dia 07 de Março, contra o Governo angolano.

Sobre a “marcha patriótica pela paz” do MPLA, o primeiro secretário do comité provincial de Luanda, Bento Bento, disse que o partido pretende reunir mais de dois milhões de pessoas para “dizer não ao desacato, à destruição, à desordem e a tudo o que se traduz em atentado contra a democracia e a estabilidade do país”.

Na sua convocatória, o Comité Provincial do MPLA de Luanda fez “um vibrante apelo aos mais nobres sentimentos de patriotismo da população, das diversas forças políticas, das igrejas e seus crentes, das associações diversas e seus associados, das profissões liberais e da intelectualidade a participarem na grandiosa marcha patriótica pela paz”.

“O longo sofrimento produzido pelas diversas guerras de décadas jamais poderá ser reproduzido por quem quer que seja. O povo angolano almeja unicamente a consolidação da paz, que lhe permitirá usufruir de um desenvolvimento planificado, como prova isso os frutos destes nove anos de paz e tranquilidade”, salienta um comunicado de imprensa.

Sebastião Martins Alerta. Cumprindo orientações do MPLA, Polícia não vai tolerar manifestações


O ministro do Interior, Sebastião Martins, garantiu no dia 28.02, que aos órgãos policiais não vão tolerar qualquer tentativa de desvirtuação da ordem e segurança públicas no território nacional.
O governante falava na cerimónia que marcou o acto central dos 35 anos de existência da Polícia Nacional, que este ano se realizou sob o lema "Polícia Nacional na construção da proximidade, Polícia Nacional a crescer mais e a proteger melhor".

"Para o bem da paz social colectiva, não toleraremos qualquer tentativa de desvirtuar a ordem e a segurança públicas de quem quer que seja no território nacional", advertiu o ministro.

Segundo Sebastião Martins, as forças da ordem não estarão de braços cruzados diante das situações que requeiram a sua pronta intervenção, "mesmo que as vezes sejamos mal interpretados quando actuamos para repor a ordem e autoridade do Estado ou quando de forma simples actuamos contra a imigração ilegal".
Informou que para a preservação dos mais nobres interesses do povo angolano, da sua soberania, de integridade territorial e dos seus recursos, a corporação não vai tolerar a imigração ilegal ali onde ela se manifestar.

Considerou que os membros da Polícia Nacional não são apenas agentes públicos ao serviço do Estado, "acima de tudo estão ao serviço da sociedade e do povo, garantindo o bem-estar e a segurança de todos, não só em razão de um juramento ou de uma norma jurídica, mas por terem plena consciência que lidam com pessoas, protegem elas e os seus direitos".

Para si, os direitos humanos não são simplesmente solenes declarações de intenções, mas uma parte obrigatória da ordem, dos direitos e do Estado.
"Para os nossos agentes da autoridade, os direitos humanos são mais do que simples princípios de legitimidade, são acima de tudo princípios de legalidade. Por isso, somos firmes, intransigentes e respeitadores da lei", notou.

Por outro lado, com a realização em Agosto próximo da 31ª cimeira da SADC em Angola, o ministro do Interior fez saber que caberá à Polícia Nacional reforçar as medidas operativas para o asseguramento e dignificação do evento.

No plano regional, notou, cabe à corporação, o seu enquadramento e gestão de tempo para as grandes tarefas e metas a atingir, inseridas no plano global da SARPCCO (Organização dos Chefes de Polícia da África Austral), nomeadamente actos formativos, operações policiais, entre outras tendentes a contornar os crimes transfronteiriços.

O acto, realizado no Instituto Médio de Ciências Policiais Osvaldo Serra Van-Dúnem, a sul de Luanda, contou com as presença do chefe de Estado Maior-General das FAA, general Geraldo Sachipengo Nunda, dos comandantes-gerais das polícias de Moçambique, Namíbia e São Tomé e Príncipe, representantes do corpo diplomático no país, entre outras individualidades.

Líder oposicionista nega envolvimento no 7 de Março


UNITA acusa regime angolano de planear atentados
O líder da UNITA, principal partido da oposição, acusou o regime de estar a “planear mais um atentado à vida” dos seus dirigentes.“ Chegou ao conhecimento da UNITA ser intenção do regime do Presidente Eduardo dos Santos engendrar esta semana um cenário de confusão que justifique o assassinato de adversários políticos, em particular os mais altos dirigentes da UNITA”, disse Isaías Samakuva.
O plano, referiu, passaria pela acusação de envolvimento do partido da oposição num protesto contra José Eduardo dos Santos, convocado anonimamente pela Internet para o próximo dia 7, segunda-feira, acção a que a UNITA se diz alheia.
“A UNITA não está a organizar nenhuma manifestação para o dia 7 de Março. Ouviu falar dela de forma informal, mas não conhece os seus organizadores nem instruiu os seus membros para nela participar”, refere uma declaração do comité permanente da comissão política.
O partido de Samakuva, que durante décadas, liderado por Jonas Savimbi, combateu o MPLA, partido no poder desde a independência, em 1975, “estranha o facto de o regime pretender utilizar a figura do direito à manifestação para se vitimizar, espalhar o medo e planear mais um atentado à vida dos dirigentes da UNITA e à soberania do povo angolano”.
O líder oposicionista reafirmou que o conflito armado entre MPLA e UNITA “acabou definitivamente há nove anos” e responsabilizou José Eduardo dos Santos “por tudo o que venha a acontecer, caso se materializem as suspeitas ora denunciadas. Se por causa do anúncio de uma simples manifestação, o regime entra em pânico e fala em guerra, então podemos concluir que o Presidente Eduardo dos Santos não acredita na democracia”, disse Samakuva.

UNITA. DECLARAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA DO PAÍS
O Comité Permanente da Comissão Política da UNITA reuniu-se em Luanda sob a presidência de Sua Excelência Isaías Samakuva, Presidente da UNITA, para analisar a evolução da situação política do país. No final, decidiu tornar pública a seguinte Declaração:

Completou-se um ano desde que, em nome do povo angolano, a UNITA rejeitou legitimar uma Constituição autoritária que não cumpre a função de limitar o exercício do poder político. Ao conferir legitimidade constitucional ao Presidente da transição sem a realização da eleição presidencial, a Constituição não normalizou a instituição Presidente da República. E mais: Ao suprimir do panorama político as eleições presidenciais, a actual Constituição acabou de vez com a possibilidade de o Presidente da transição vir um dia legitimar a sua posição.

Por outro lado, ao assegurar ao Presidente não eleito o exercício autoritário do poder, por não prestar contas a nenhum órgão de soberania e por ter um controlo sobre os demais, a Constituição foi aprovada não como instrumento de limitação do poder, mas como instrumento de perpetuação do poder, de violação do princípio republicano, do princípio democrático e do Estado de Direito.

E se alguma dúvida existiu, há um ano atrás, sobre os efeitos desta Constituição no equilíbrio e controlo recíproco entre os vários poderes do Estado, a dinâmica de subalternização que se desenvolveu nas relações entre o Parlamento e o Executivo, entre o Executivo e os Tribunais e entre o Executivo e a garantia dos direitos e liberdades fundamentais, hoje não há dúvida nenhuma que a Constituição de 2010 tornou-se numa mera Constituição semântica, ou seja, numa Constituição instrumento do poder e não numa Constituição fundamento do poder.

Por esta razão, hoje é o próprio Executivo que não respeita a Constituição concebida à sua medida e que impôs ao povo angolano. Nos últimos meses, intensificou os actos de violação dos direitos fundamentais, nomeadamente o direito à vida, a integridade física, a segurança pessoal, a liberdade de expressão, a liberdade de consciência, o direito de reunião e manifestação, a liberdade de escolha partidária e demais direitos constitucionalmente protegidos.

Estes actos de violação dos direitos fundamentais do cidadão consubstanciam-se em assassinatos selectivos, prisões arbitrárias, julgamentos políticos sumários, intimidação de indivíduos da oposição, destruição de símbolos e de propriedades de partidos políticos da oposição, expropriação de terras e desalojamentos forçados e arbitrários, seguido de destruição de residências de cidadãos nacionais indefesos.

Angolanas e angolanos:
No passado recente, a identidade política e social de Angola foi objecto de conflitos entre Estados estrangeiros e duas forças sociais internas, o MPLA e a UNITA. Este conflito terminou em 2002. Hoje, existe um novo conflito, um conflito político, económico e social, não mais entre o MPLA e a UNITA, mas entre Eduardo dos Santos e a Nação angolana.

O Presidente da transição entrou em conflito político com a Nação porque subverteu o direito do povo de exercer o poder político através da eleição do seu Presidente da República. Entrou em conflito económico com a Nação, porque constituiu uma oligarquia de algumas dezenas de famílias para se apoderar das riquezas de Angola. Estas famílias detêm e controlam mais de 90% da riqueza nacional.

O Comité Permanente da Comissão Política da UNITA constatou com muita preocupação o agravamento dos níveis de pobreza nos centros urbanos e zonas rurais, consequência da má governação, exclusão e corrupção galopante, que aprofundam o fosso entre uma minoria que se enriquece ilicitamente e uma maioria que se torna cada vez mais pobre. Esta é a natureza do conflito social causado pela má governação de Eduardo dos Santos.

É por causa da pobreza, do desemprego, das injustiças e da corrupção, que os cidadãos falam hoje em manifestações anti-governamentais. O povo quer se manifestar por causa dos erros do Presidente, e não o contrário. Não se pode, pois, transformar a vítima em ofensor. A vítima é o povo, o ofensor é o Presidente Eduardo dos Santos, titular do poder executivo.

Angolanas e angolanos:
A UNITA não está a organizar nenhuma manifestação para o dia 7 de Março. Ouviu falar dela de forma informal, mas não conhece os seus organizadores nem instruiu os seus membros para nela participar. Por esta razão, a UNITA estranha o facto de o regime pretender utilizar a figura do direito à manifestação para se vitimizar, espalhar o medo e planear mais um atentado à vida dos dirigentes da UNITA e à soberania do povo angolano.

O Presidente Eduardo dos Santos, enquanto Presidente da transição, deve ser o garante da Constituição e da ordem democrática. Se a Constituição não está a ser cumprida, se o direito de manifestação não está a ser exercido nos termos da Constituição, cabe ao Presidente Eduardo dos Santos, e a mais ninguém, assumir a sua responsabilidade e vir a público explicar o que se passa. Não pode escudar-se em assalariados, sejam eles comerciantes, líderes religiosos ou políticos, para minar a paz e a ordem democrática com declarações atentatórias às liberdades fundamentais dos angolanos.

Os que não têm emprego, não conseguem fazer três refeições por dia, não têm acesso à educação digna, não têm casa, não têm água nem luz, nem assistência médica condigna, não podem ser considerados arruaceiros apenas por desejarem manifestar o seu protesto. Nem devem ser ameaçados com o chicote como se de escravos se tratasse. Quem deve mudar de conduta são os governantes e não os governados.

Neste sentido, a UNITA repudia nos termos mais enérgicos as recentes declarações de todos quantos se prestam ao papel indigno de transformar o agressor em vítima, por instigar o medo ressuscitando o fantasma da guerra e transformando a UNITA em bode expiatório da má governação do Executivo. Tais declarações irresponsáveis constituem um sério atentado à democracia e ao Estado de Direito.

No estrito cumprimento da Constituição, a UNITA reafirma o seu empenho em prosseguir a luta pacífica pelas aspirações de liberdade dos angolanos e pelo triunfo da democracia e do Estado de Direito em Angola. Neste sentido, o Comité Permanente da Comissão Política da UNITA saúda o acto heróico do Deputado Abílio Kamalata Numa, protagonizado no Bailundo e rende homenagem a todas as vítimas de intolerância política em Angola.

A greve de fome é um simbolismo do direito de manifestação. O regime quer transformar o exercício deste direito constitucional pelo cidadão Kamalata Numa num crime. Se o Parlamento angolano impugna, suspende ou retira o mandato de um Deputado por este ter exercido um direito universal, então, fica claro perante a Nação e perante o mundo a natureza anti-democrática e ditatorial do regime do Presidente Eduardo dos Santos.

As manifestações políticas, os protestos e as greves, enquanto instrumentos da democracia, são formas legítimas do exercício da cidadania pelo único e verdadeiro titular do poder político, o povo angolano.

Angolanas e angolanos:
Se por causa do anúncio de uma simples manifestação, o regime entra em pânico e fala em guerra, então podemos concluir que o Presidente Eduardo dos Santos não acredita na democracia. Por não acreditar na paz democrática e na igualdade entre todos os angolanos, promove a desinformação e subverte os factos políticos para criar um ambiente de terror propício para o assassinato selectivo de adversários políticos.

Chegou ao conhecimento da UNITA ser intenção do regime do Presidente Eduardo dos Santos engendrar esta semana, um cenário de confusão que justifique o assassinato de adversários políticos, em particular os mais altos dirigentes da UNITA.

Conhecendo a natureza anti-democrática e subversiva do regime, não nos admira que se venha a encenar nos próximos dias tal ambiente, quer através de um fabricado atentado ao Presidente dos Santos, quer na forma de uma suposta rebelião de tropas, ou ainda na pretensa formação de um exército fantasma, como pretexto para se criar situações de consequências imprevisíveis.

Tal encenação, justificaria primeiro a repressão e depois uma manifestação de apoio a José Eduardo dos Santos, que aliás, já está em fase adiantada de preparação.

A UNITA alerta a todos os angolanos que quaisquer manifestações que surgirem de apoio a Eduardo dos Santos, visam apenas branquear a má governação do Presidente da transição.

A UNITA responsabiliza o Presidente José Eduardo dos Santos por tudo o que venha acontecer, caso se materializem as suspeitas ora denunciadas.

Angolanas e angolanos:
O conflito entre o MPLA e a UNITA acabou definitivamente há nove anos. A guerra também acabou e nunca mais voltará, pelo menos não pela mão da UNITA, porque a UNITA acredita na paz democrática!

O que existe hoje é um conflito entre o Presidente José Eduardo dos Santos e o povo angolano. Se o Presidente respeitar os direitos fundamentais dos cidadãos, se governar com transparência, se combater a pobreza e a corrupção, então, o povo não precisará fazer manifestações.

Cabe ao Presidente José Eduardo dos Santos eliminar as causas dos problemas do povo e não impedir as manifestações pacíficas e ordeiras; nem maquinar a desordem para eliminar adversários e perpetuar-se no poder.

A UNITA reafirma a sua determinação de edificar em fraternidade uma sociedade justa, democrática e de progresso que respeita a vida, a igualdade, a diversidade e a dignidade das pessoas.

O Comité Permanente da Comissão Política da UNITA está convicto que sob a actual geração recai a responsabilidade histórica de salvar o país e de construir os alicerces da Angola dos angolanos.

Luanda, 28 de Fevereiro de 2011
O Comité Permanente da Comissão Política da UNITA

Carta aberta. Carta ao Camarada Presidente sobre os ventos do norte


Camarada Presidente

Sou MANUEL PAULO MENDES DE CARVALHO PACAVIRA militante do partido MPLA na Província do Bengo. Para lhe lembrar, escrevi-lhe uma carta aberta no pretérito dia 25 de Maio de 2010, dia de África, alertando algumas irregularidades do Executivo que poderiam ter consequências menos boas para o futuro. Não tendo sido bem sucedido nesta nobre empreitada decide alertar a mais alta instância partidária na Província do Bengo (em Dezembro de 2010) qualidade de militante dirigente que sou nessa parcela do território nacional. Infelizmente também não fui bem acolhido pelo primeiro secretário do nosso partido no Bengo por indisponibilidade de tempo.

Camarada Presidente
O assunto que muito vos pretendo abordar está relacionado com o movimento para mudança ora criado com intenções de atingir a sua figura. Sabe, como antigo comissário político das Extintas Forças Armadas Popular de Libertação de Angola (FAPLA) e líder na Organização Juvenil do nosso partido (JMPLA) granjeio algum respeito no seio de muitos dos Jovens que no dia 7 de Março pretendem ir as ruas manifestar-se contra si. Não acredito que a resolução dos problemas do nosso povo serão resolvidos com marchas e contra-marchas a volta da figura do camarada presidente.

Com o aparecimento desse novo movimento de Jovens ávidos pela mudança ouço com constância, comentários de dirigentes do nosso partido fazendo alusão ao facto do nosso país não ser parecido aos países do Magrebe que se vêem fustigados pelas revoltas populares, de facto não somos, ou melhor, há países iguais, talvez realidades parecidas! A acção do Mohamed Bouazizi, catalisador da Revolução de Jasmim, as centenas de milhares de Jovens acampados na praça de Tahrir às manifestações e ocupação popular de Benghazi têm traços comuns: FALTA DE QUALIDADE DE VIDA DAS POPULAÇÕES (elevados índices de desemprego, excesso de miséria, baixos índices de escolaridade, ineficientes redes de saúde pública, justiça social, melhor distribuição da renda nacional, preços altos dos produtos de primeira necessidade: alimentação, Excesso de burocracia nos serviços públicos, altos índices de corrupção, clientelismo, etc.), porém, neste capitulo as semelhanças são muito pronunciadas para não mencionar a nossa raiz comum no continente Africano e afinidades ideológicas.

Os ventos do Norte que se abatem sobre o continente Africano trazem-nos memórias dos ventos dos leste que se abateu aos países do Pacto de Varsóvia com o fim do muro de Barlin, naquela altura, Camarada Presidente pedia-nos para nos adaptarmos aos novos tempos de mudanças com a Perestroika e Glasnost no auge; não será essa uma boa altura para fazermos uma inflexão para mudança?

Por muitas razões, agrada-me pouco quando alguns dos nossos Camaradas pretendem invocar os acontecimentos de 1977, como razão para amedrontarem psicologicamente e coarctarem as iniciativas democráticas dos nossos Jovens; Nós os mais velhos, hoje, não nos devemos esquecer que as motivações do passado que nos levaram aderir aos movimentos de libertação nacional de então foram as injustiças sociais daquela altura. Primeiro, A demografia actual e maturidade dessa geração é diferente daquela dos primórdios da independência. Segundo, para muitos de nós que vivemos e participamos no “turbilhão 27 de Maio” não queremos que as outras gerações voltem a viver os horrores do passado; é um fardo demasiado pesado para ser passado como testemunho a jovens inocentes com aspirações normais de uma vida melhor. Terceiro, os nossos inimigos, de ontem, são hoje os nossos parceiros estratégicos na latitude externa e interna. Quarto, a guerra fria e suas reminiscências fazem parte da história.

Camarada Presidente
Agradou-me ouvir as suas palavras aquando do empossamento do Camarada Paulo Kassoma como primeiro ministro da terceira República na sequencia das eleições gerais de 2008, “...devemos falar pouco e fazer mais...” naquela altura senti que finalmente uma das causas que me levou a aderir o amplo movimento -MPLA - poderia tornar-se realidade: “O mais importante é resolver os problemas do povo” contudo, a realidade de lá para cá é bem diferente, - falou-se muito, fez-se pouco e adiou-se a resolução dos problemas do povo -!

A modernidade actual proporciona-nos a possibilidade de navegar no ciberespaço sem limites, pude notar no Facebook do Camarada Bornito de Sousa uma nota interessante, sobre a terceira República, em que há uma excessiva ênfase nalguns factos marcantes e ganhos administrativos do nosso partido. Na realidade nada daquilo “alimenta as nossas barrigas”. Vivo na província mais perto de Luanda e mais distante do bem estar exibido na cidade capital.

Aquando do seu primeiro discurso à nação pelo imperativo constitucional, fez referencia a estatística deplorável que muita das nossas populações estão sujeitas, pois que, aqui no Bengo não são somente números estatísticos é uma realidade do dia-a-dia das nossas populações; nós cá fazemos parte do Top 5 das províncias mais infectadas pelo vírus da miséria.

Camarada Presidente
Procure estar mais próximo dos nossos Jovens, do povo de Cabinda ao Cunene do Mar ao Luau para perceber que esses, hoje tornaram-se mais mendigos e estão a perder a dignidade em muitos aspectos; os relatórios circunstanciais nem sempre relatam o seu todo, não baste que os angolanos tenham funji com cabuenha todos dias.

Camarada Presidente
Sem pretender ser fastidioso e, para terminar, vejo a história a passar diante dos nossos olhos, não gostaria ver o poder ficar na rua como se tem revelado em outras paragens do nosso continente. Ainda é possível recuperar muito do tempo perdido em discursos bonitos sem eficácia prática até agora, saibamos reconhecer o papel dos jovens para o avanço das sociedades. A irreverência do passado de lideres como Habib Bourguiba na Tunísia em 1957, Gamal Abdel Nasser no Egipto em 1954, Rei Idris na Líbia em 1951 e sem esquecer os vossos feitos nos primórdios da nossa jovem República em 1975 que resultou na libertação dos nossos povos do julgo da opressão colonial.

Sem mais de momento aceite a minha saudação patriótica Camarada presidente.

MANUEL PAULO MENDES DE CARVALHO PACAVIRA “PAKAS”

(Tenente General na Reserva)

Icolo e Bengo, 05 de Março de 201

quarta-feira, 16 de março de 2011

PORQUE SERÁ? Roberto de Almeida segundo vice a fugir de Dos Santos


Arlindo Santana & Kuiba Afonso

Quando se fala dos sucessivos governos saídos da cartola de JES, estamos a falar de governos do MPLA. Lógico. E como esse partido, ou melhor e sobretudo, como os seus manda-chuvas históricos são reconhecidos por muita gente e mesmo por membros eminentes do próprio MPLA como sendo comparáveis, alegoricamente, a esses enormes animais pré-históricos do Jurássico, tentamos saber porquê.

As razões não são claras, mas, em todo o caso, o que a comparação pretende salientar é aquilo que foi lapidarmente expresso por uma tirada de Jonas Savimbi, que, a propósito dos dirigentes do MPLA disse o seguinte: «esses sujeitos não mudam».

Pois não, e todo o mal do partido do Executivo está aí, não mudam desde os tempos em que estavam no mato e continuam a raciocinar do mesmo modo que há quarenta anos atrás, como guerrilheiros eternamente inquietos, transidos e com medo da própria sombra.

Ora, no conjunto de personagens da velha guarda do partido dos camaradas, algumas delas fugiam e ainda hoje fogem a esse atavismo doentio. Estamos aqui a pensar em Uanhenga Xitu, Mendes de Carvalho…e mais quem? …João Melo?... Marcolino Moco?... Neste momento não estamos a ver quem, mas talvez haja e, aqui e agora, nos penitenciamos por não os ter referenciado.

O vice-presidente do MPLA, Roberto de Almeida (RA), embora não tenha na sua vivência referência a fazer valer de uma tradição familiar atreita ao espírito democrático, é uma pessoa que não se comporta como guerrilheiro quando raciocina. Profundamente arreigado ao partido, RA não abdica das suas convicções ainda enraizadas aos velhos princípios de esquerda do MPLA.

E é isso mesmo que nos intriga, pois recentemente ele deu indícios de querer afastar-se dos seus companheiros e ter pedido a renúncia do cargo. A ser verdade e tudo aponta que sim, será o segundo vice a fazê-lo em tão pouco tempo. Ainda que as razões apontadas sejam problemas de saúde, não deixa de ser intrigante que ainda vai o seu mandato no adro e já queira bater com a porta.

Dizíamos é o segundo. É claro, o primeiro foi Pitra Neto, um quadro jovem com créditos firmados que não terá aguentado o vazio das suas funções e a respectiva incongruência, pois era ministro do Trabalho, vice-presidente do MPLA e subordinado de Fernando Dias dos Santos, Nandó, primeiro-ministro no governo. Ora só no partido o primeiro-ministro lhe escutava, mas no governo era ralhado e subordinado. Ademais não parecia ter o poder real que o cargo comporta.

UM CARGO DECORATIVO QUE QUEM FAZ TUDO É O CHEFE
Agora acontece o mesmo com Roberto de Almeida, que deveria ser vice-presidente da República, mas aí mora Nandó que é o segundo homem do aparelho.

O grave, no entanto, quanto a Roberto de Almeida, é a sua dupla dependência, pois na verdade ele depende no governo de Nandó, quando precisa e do principal financiador o PCA da SONANGOL, Manuel Vicente, o verdadeiro segundo homem do país...

De salientar que Roberto de Almeida é um homem de cultura, recatado e parece querer distanciar-se da corrupção galopante que invade não só os bolsos como as mentes de quantos juraram servir o povo e não servir-se dos dinheiro do povo votado à miséria. Roberto parece ter consciência de que o partido só ganha com a razão da força e as armas da batota. Por certo que também está consciente de que existe uma grande insatisfação popular, e, como humanista que é, não queira assinar mais cheques em branco, o que durante toda a vida fez em nome da sua fidelidade ao partido e aos que o dirigiam.

Acontece que o país está doente, o partido está dividido entre os milionários e os generais de um lado e os pobres do outro, entre os que querem tudo e os que não têm nada. E depois, ser vice de seja que posto for, significa o quê? Significa não fazer nada enquanto o titular estiver no activo. O vice só actua em casos de excepção e passa a vida a seguir os passos do seu imediato superior hierárquico.

Cremos não estar longe da verdade quando avançamos as suas funções não ultrapassam o nível do subalterno, perfeitamente descartável a qualquer momento do seu desempenho das suas funções. E neste cenário, onde o cargo é mais decorativo que outra coisa, depois de ter visto que a longevidade e a fidelidade de pouco serviram para contrabalançar os trunfos dos mais novos, ele prefere sair. Afastar-se da linha da frente, ficar na retaguarda e esperar por outros ventos, pois prefere sair no meio da tempestade, para não ser arrastado por ela.

Mas por que fatalidade para Angola, os outros mais velhos, os “jurássicos”, são muitos e quase todos eles muito mais atávicos e incultos que Roberto de Almeida, porquê não se afastam, eles sim, definitivamente?



“Quando a Guerra é Necessária e Urgente”, já em Angola


Luanda – O livro “Quando a Guerra é Necessária e Urgente” que foi lançado em Agosto de 2010 no Brasil, chegou finalmente aos leitores angolanos. A sua apresentação estará a cargo do cientista político, jornalista e escritor António Setas, que também prefaciou o referido livro da autoria de Domingos da Cruz. O lançamento será no dia 25 de Marco às 16 horas no Lar da CEAST, sito na Maianga.

Fonte: Club-k.net

Lê-se o seguinte trecho cálido e sincero na contracapa: “(…) um país com uma democracia débil, governantes altamente corruptos e criminosos, com índices elevadíssimos de intolerância política, falta de transparência, instituições inoperantes, exclusão social e partidarização das instituições, justiça extremamente parcial, etnicismo exacerbado, governo máfia, intelectuais frouxos, governantes sem formação, população extremamente armada, partidos do inertes, que só esperam o dinheiro que é-lhes de direito, autoridades tradicionais do MPLA, [bispos, padres e pastores do partido], assimetrias regionais (...) A conclusão lógica e razoável é que de facto estamos em guerra”.

“ Ora, “na realidade nenhuma guerra que se conheça na história, no passado, no presente ou no futuro que se possa prever, foi justa”, mas isto não significa que não façamos o uso do direito natural à resistência, a manifestação e a expressão para repor a justiça e pôr fim a opressão interna.” Domingos da Cruz é Graduado em Filosofia e Pedagogia pelo IDBES (Instituto Dom Bosco de Estudos Superiores- Angola) e Mestrando em Ciências Jurídicas- Área de Direitos Humanos pela Universidade Federal da Paraíba-UFPB- Brasil.

Jornalista, Escritor com dois livros publicados, Investigador Social, Docente e vencedor do Prémio Nacional de Direitos Humanos, Categoria Ricardo de Melo em 2009.

Membro do (NCDH) Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da UFPB, actuando no GT de Investigação em Segurança Pública, Violência e Direitos Humanos. É ainda Membro convidado do grupo de pesquisa sobre Retórica e Direitos Humanos do CCJ (Centro de Ciências Jurídicas).

terça-feira, 15 de março de 2011

Apreensão de navio americano foi uma bestialidade política


Regime na sua arrogância e emoção dos seus dirigentes dá mais um tiro no pé O regime prendeu com bastante alarido um navio americano que descarregou cereais no porto comercial do Lobito e se aprestava para levar munições para o governo legítimo do Kénia que não tem contra si sanções militares. Através dos seus agitadores, logo veio denunciar que os americanos estariam a apoiar a subversão que as armas seriam para a UNITA e apoiar a oposição, no caso manifestantes. Assim, no Lobito, o grande arauto da guerra, Rui Falcão, porta-voz do MPLA, tudo fez, mesmo o que não devia ter feito, para mostrar mais uma vez que a UNITA quer uma nova guerra e a tem vindo a preparar à socapa, fazendo agora vir 80 toneladas de munições para Angola, isso mesmo, essas que foram apreendidas num barco americano que fez escala no Lobito. Disse-o claramente, quando essa afirmação constitui pura e simplesmente uma infame calúnia, sem o mais pequeno fundamento, ao serviço de uma má estratégia. Por seu lado, os USA deram a saber por via diplomática que os papéis referentes a esse material foram apresentados às autoridades angolanas, o que não impediu que a tripulação tivesse sido presa e humilhada. O Departamento de Estado americano garantiu que nada do que havia nesses contentores era destinado a Angola, havia documentos do governo Keniano a comprovar o contrário e, portanto, não se apresentava qualquer motivo para fazer tempestades num copo de água. Fosse como fosse, Angola manteve-se numa posição muito rígida e exigiu receber confirmação do governo do Kénia para que fosse dada ordem de libertação do navio, o que aconteceu, mas de nada serviu. Num daqueles veniais impulsos de espertalhão de meia-tigela, os manda-chuvas cá da gente descobriram que poderiam criar ali mesmo um facto político perfeitamente adaptado para sacudir a água do capote encharcado de sujidade. Assim, mesmo em posse dessa informação, Luanda ainda condicionou a libertação do navio para depois do dia 07, dia da manifestação. E, como os erros crassos erros espessos atraem, JES “fechou-se em copas”, mandou à favas a diplomacia, adiou sine die o acto de acreditação do novo embaixador dos USA em Angola devido a este incidente e o governo, que deveria ir a Washington na semana do 10.03, resolver o problema do congelamento das contas da embaixada, cujos diplomatas estão sem dinheiro à vários meses, viu por culpa própria, com todos estes tiros nos pés, de misturar o Partido/MPLA com o Estado, adiada a visita e a resolução deste intricado problema, por se terem fechado as portas, ante este clima de tensão, por em Washington não haver interlocutor ao mais alto nível, para a resolução deste e doutros dossiers. Entretanto, o navio americano vai seguir viagem e os americanos exigem agora um pedido de desculpas de Rui Falcão, face às suas infantis declarações, sob pena de registar esse tipo de calúnia e difamação ignóbil de um PARTIDO/ESTADO com quem ainda tem relações diplomáticas. Erros de guerrilheiro transido.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (4)


António Setas

Quando ia ao Bairro dos Imbondeiros era sempre bem tratado, nunca senti que me recebessem com os restos que tinham ficado da véspera. A tia Chiquinha gostava muito de mim, dava-me mimo, e eu gostava bué dela. O ambiente é que não me agradava, não sei porquê, talvez o desprazer sentido na convivência com do meu pai, o cazumbi do Papá Dya Kota, uma disciplina diferente a que eu não estava habituado. Só gostava de lá ir por alturas do Carnaval. Aí sim, ia com muito gosto.
Eles tinham um clube, um grupo, é isso, um grupo de Carnaval chamado o União Nzumba, e era sempre um grande prazer estar presente numa festa, sentia-me todo inchado por saber que tudo aquilo, os trajes lindíssimos, as missangas, os carros, os homens e as mulheres que dançavam, e até os cantos eram um pouco meus. E os comandantes, os reis, as rainhas, as princesas e os condes eram um pouco da minha família, porque o meu pai dava muito dinheiro ao grupo e a tia Chiquinha ajudava a organizar sem olhar a canseiras, como deve ser, os quadros e as danças. Além disso, no União Nzumba as principais figuras eram todas da nossa gente, do Bairro dos Imbondeiros. Só escapavam duas ou três, tudo o resto era nosso, mais de vinte soldados, vinte ‘‘cavalheiras’’, instrumentistas, chefes da ronda (os que faziam as reuniões e recebiam o kumbu dos de fora), ‘‘gentios’’(os que mantinham a ordem), tarrafeiros, que lançavam rede e davam assim o seu cunho ao grupo, porta-candeeiros (obrigatório), e muitas outras figuras nos trinques, isto sem falar do kimbanda, indispensável, discreto mas indispensável, para “desarmar” os rivais e impedir que a pele dos bumbos rebente em plena acção. Já viram o desastre que seria sem o kimbanda?...
Era costume as danças saírem à rua nos primeiros dias de Janeiro a dar a volta ao bairro, das 14 às 20 horas. Isto todos os domingos até ao Entrudo. E nessas representações por vezes acontecia que dois grupos rivais, ou aliados, se encontrassem. Se eram rivais não se lhes passava cartão, o melhor era olhar para eles com a devida altivez, para que soubessem o que se pensava deles; se fossem “aliados” punham-se um em frente ao outro e dançavam face a face com todas as figuras principais em destaque, a ver quem era o melhor. Raramente, mas acontecia, tinha maka da grossa quando dois grupos rivais se encontravam, com feridos, e até um ou outro morto.
Na noite do Sábado Gordo era a “passeata”, ensaio geral. No domingo de manhã apresentava-se a bandeira, e à tarde, aí pela 14 horas é que aparecia a malta toda na máxima força, devidamente trajada. Enfim, na terça-feira chegava a hora do desfile oficial, e não era para brincadeiras. Todos os grupos se exibiam sucessivamente ao longo de um percurso previamente definido e passavam diante da Tribuna. Grande momento!, o pináculo dos festejos, quando eles passavam diante da Tribuna. Com gente do Governo, e com todos os membros do júri, que ali estavam para dizer qual era o melhor grupo de Carnaval do ano.

Nunca me tinha passado pela cabeça fazer parte dum grupo de Carnaval. Observava e folgava, mais nada. Mas um dia, a tia Chiquinha veio ter comigo e perguntou-me se eu queria ver os trajes que estavam a ser confeccionados por um alfaiate do Rangel. Disse-lhe que sim e fomos ao Rangel a casa do alfaiate do grupo. Chegámos, entrámos e pudemos ver os trajes do comandante, do rei e da princesa, outros mais, espantosos não havia dúvidas. Em seguida, mostraram-me uma farda especial que muito me agradou. «Queres vesti-la?», perguntou a tia, «Quero». Vesti a farda e fui ver-me ao espelho. Fiquei de boca aberta, por pouco nem me reconhecia. E a tia a perguntar, «Queres guardá-la?», «Para fazer o quê, tia?», «Para ir ao cortejo, filho! Não queres?», «Quero». Foi assim que eu participei no Carnaval desse ano.
Não falhei a um ensaio, fiz boa figura nas vezes em que saímos à rua e no ensaio geral. Lembro-me do cortejo, da alegria que todos sentimos enquanto desfilávamos, e da tristeza no fim, porque quem ganhou dessa vez foi o União Mundo, da ilha do Cabo. Depois... não é que o ambiente tivesse azedado, mas senti que havia um não sei o quê que me separava do grupo, todo ele composto por gente do Bairro dos Imbondeiros. Seria porque a minha tristeza não era tão profunda como a deles? Seria por eles me considerarem “de fora”? Não sei, mas para evitar amuos futuros com esses meus kambas que levavam mais a peito do que eu o despique, decidi voltar a ser o antigo espectador aferroado, que continuava a sofrer quando perdíamos. Mas sozinho.

Durante a semana o meu pai aparecia sempre de surpresa, meio-dia, meia-noite, e entre essas duas horas qualquer uma lhe servia. Mal chegava, as suas mãos largas como barbatanas a espadelar o ar, sempre cheio de fome, pudera, vinha do mar, sentava-se à mesa e pedia que lhe servissem qualquer coisa que se pudesse meter debaixo de um dente. A maka era que às vezes não havia nada em casa, nem um naco de pão. Zangava-se, e eu ficava sempre à espera que os olhos lhe desaparecessem no fundo das órbitas. Mas não, barafustava, «Nem uma migalha de pão!!? ...com todo o dinheiro que eu vos deixo!», batia com a mão fechada na mesa e ficava-se por aí, os olhos não desapareciam. E eu suspirava, desiludido mas aliviado. Quem não sabia em que pé dançar era a minha mãe. Pensou, malucou, e acabou por encontrar a solução na compra de um cesto onde meteu dois embrulhos com fuba, algum peixe seco, batata doce, mandioca e umas cebolas, fechou o cesto e guardou-o. Ninguém lhe podia tocar, era só para o pai. Por vezes ele chegava a horas decentes e comíamos juntos, o que dava uma boa ocasião para falar de tudo um pouco, abordar os problemas do dia-a-dia ou rirmo-nos das desgraças dos outros. Mas do que eu mais gostava era quando a minha mãe vinha com as estórias que seus parentes bakongo da ilha de Luanda lhe tinham contado. E que ela não se fartava de me contar.
A minha mãe, que sempre tinha trabalhado na venda de pescado e era filha, neta e trineta de mulheres como ela, que nunca tiveram outro ofício na vida, dizia que muitas das mulheres da sua kanda tinham sido em recuados tempos apanhadoras de nzimbu (zimbo), quando essa concha era ntadi, dinheiro corrente no reino do Kongo. E cada vez que tinha a sua “crise bakongo”, como eu lhe chamava, aprumava-se, provocando um segundo de silêncio, e explicava como se fazia esse trabalho na ilha.

«Vinha a maré vaza e as mulheres corriam para o mar com os kofus na mão. Os kofus eram cestos estreitos, em forma de cone, que lhes serviam para a apanha. Corriam, mergulhavam nas onda - e pela maneira como o faziam logo se veria qual era a mais valente -, enterravam o kofu na areia, erguiam-se, voltavam atrás, esperavam uma nova onda e quando ela chegava punham-se outra vez a correr, a mergulhar e a enterrar os kofus na areia. Demorava um certo tempo até ele se encher, e quando isso acontecia a mulher que o tinha atulhado voltava costas ao mar e ia para a praia, sentava-se na areia molhada e separava o que havia no cesto com a ajuda das crianças da sua família, os nzimbu para um lado, a areia, os pedregulhos e as outras conchas sem valor para o outro.
Era assim no tempo de cacimbo, quando o mar está mais bravo. Na estação das chuvas, por mar calmo, também se fazia a nkana, como era costume na nossa terra do Kongo, quando se pescava nas lagoas e nos ribeiros. Construía-se um recinto na areia com muros feitos com lama, alguns paus e capim seco, o mar vinha com a maré e inundava o recinto, depois descia, e com os kofus atirava-se com a água para fora do recinto improvisado e recolhiam-se os peixes e os búzios que lá ficavam».

O meu pai deixava-a falar, ouvia com atenção e no fim ria-se, «Olha que em Angola já não vamos longe com os kwanzas, mas vocês lá no vosso reino, com búzios a servir de dinheiro!!?...Ah! Ah! Ah!» , perdia-se de riso. A minha mãe ficava furiosa e era rápida na riposta azeda, «Olha que com os mundongo da tua banda era com sal que pagavam as mercadorias! E não é tudo, os bakongo é que ocupavam a ilha de Luanda, tinham guerreiros que escorraçavam os mundongo, que fugiam para o Sul ou para as terras de Leste, e os que não fugiam ficavam para servir os bakongo. E digo-te mais, aqui na ilha quem mandava era o rei do Kongo! E com um kofu de nzimbu, sabes quantas cabras se compravam?!, vinte e cinco!... valia ou não valia!?» Continuavam assim a discutir, o meu pai na galhofa, a mãe a ir aos arames, mas a conversa nunca ia muito mais longe do que as dicas que eles tinham ouvido dos mais velhos, acabava sempre por encalhar nos baixios da ignorância que partilhavam, e cada um deles ficava no seu. Quanto a mim, que tudo ouvia com atenção, ficava-me com a versão desse grande reino do Kongo a crescer na cabeça. O meu pai era mundongo, a minha mãe bakongo, tudo isso me dizia respeito. Nos tempos que se seguiram, quando a História do reino do Kongo vinha à baila metia a minha colherada, fazia perguntas e arrependia-me. O meu pai mandava-me calar e dizia, «Isto de ter filhos é bonito vê-los, mas quando abrem a boca...» Só quando ele se ia embora é que eu conseguia tirar da minha mãe tudo o que ela sabia sobre o grande reino do Kongo. Foi assim até pouco tempo depois da data da nossa Dipanda ter sido anunciada. A partir de então tudo mudou em Angola. E na minha vida também.

Ano de Cristo de 1974. O dia de Glória, a Dipanda, foi anunciado para o final do ano seguinte. A outra notícia importante desse ano foi a minha passagem para o terceiro ano do Liceu. «Uma lança em África», como disse o Guedes ao meu pai. A recompensa foi obter o direito de passar um mês em casa do tio Mbala, sob o pretexto de ir para a praia. Uma praia muito minha, e até aí secreta, sem areia e cercada de mar por todos os lados, o ndongo do tio Mbala.

Imagem: Luanda, 1940. prof2000.pt

domingo, 13 de março de 2011

DOS SANTOS FICOU NO BUNKER E FAMÍLIA SAIU DO PAÍS.


Malembe Maquiese do EMEREM canta vitória. Manifestação Popular saiu e regime ditador violou a Lei

William Tonet & Arlindo Santana*

Folha 8 há muito vaticinou os erros e cálculos dos políticos. Dos que estão agarrados ao poder, forjando tudo para a sua continuidade, os da oposição e intelectuais da sociedade civil. Todos queriam um convite formal para uma participação como se a fome precisasse de ter rosto para se manifestar. O rosto está aí, na barriga de quem não ingere alimentos, tendo um país rico em que meia dúzia se aboleta de tudo, privatizando em seu proveito pessoal todas as riquezas existentes em território nacional. O MPLA, antecipando-se ao desenrolar dos acontecimentos, mostrou a sua fraqueza de convencimento político e organizou com o poder que têm, os meios ao dispor do Estado, uma manifestação no passado dia 5 de Março.
Mostrou então que só conseguiria mobilizar gente em força, com falsas promessas, propaganda estéril, muita ameaça e desinformação. E para consumar a sua fraude, nada mais do que oferecer bebidas à farta a quem passa um ano à espera de fubá e feijão para comer. A manifestação saiu e o esperado sucesso estrondoso ficou-se pelas meias-tintas, pois, segundo estudo sério, o partido nem sequer 100 mil pessoas conseguiu reunir em Luanda, e nas Lundas, no Dundo, não chegavam a quinhentas as almas forçadas ou não forçadas a manifestarem-se, contando mulheres e crianças. Dizer que o “governo”, para impedir a mobilização do dia 07.03, gastou mais de 10 milhões de dólares para mobilizar a polícia e os militares, para além de a Guarda Presidencial ter estado em alerta vermelho, quer dizer, prevenção activa de último grau, basta para ver o lamentável estado emocional dos nossos mais altos dirigentes, todos eles empoleirados em ramos a apodrecer. Os gastos não se ficaram por aqui, pois à pala de não ter convulsões nos quartéis e esquadras, o regime, dizem fontes internas, terá desembolsado à última da hora, mais de 40 milhões de dólares para pagar todos os atrasos de emolumentos. Por aqui vemos que os manifestantes ganharam neste primeiro turno. A oposição partidária, na sua esquisitice, bem como alguns intelectuais, foram ultrapassados pelos acontecimentos, por ficarem à espera de um convite, de um rosto, quando ela mesmo não tem rosto, não tem ousadia e só foi mais longe por os jovens desconhecidos terem começado frontalmente a apontar o dedo a José Eduardo dos Santos. Só assim vimos um comunicado seguidista e acutilante da UNITA, do PRS e outros.

Entrevista exclusiva do promotor “anónimo” Dos Santos no bunker e parte da família saiu do país
Hoje, em termos de rescaldo dos acontecimentos do 07 de Março, F8 tem uma entrevista com um dos homens importantes deste movimento anónimo, que abalou a estrutura do regime. "Angola já não será a mesma", garante um dos porta-vozes do auto denominado EMERME (Estado Maior Revolucionário da Mudança), Malembe Maquiese, a partir das terras argilosas do Panguila, onde tem o seu Posto de Comando avançado. "Daqui comandamos os nossos homens, são na sua maioria jovens que perderam a esperança neste regime e o seu sonho é dar a vida por uma causa nobre". Quanto à manifestação considera ter sido uma vitória. "Nós ganhamos, porque o regime colocou toda a sua máquina de morte na rua. Sitiou a cidade, mobilizou os oficiais superiores todos e muitos até na reserva, José Eduardo dos Santos ficou no bunker e parte da sua família abandonou o país. Por tudo isso a manifestação e os manifestantes ganharam, tanto que para evitar que os 4500 que estavam para sair do Sambizanga, os 3800 do Cazenga, os 3500 do Golfo, os 4000 do Zango, os 2000 do Cacuaco, os 1800 da Petrangol, os 1200 da Mabor, os 2000 do Bairro Popular, os 3200 do Benfica, os 1800 do Morro Bento e os 3800 do Rocha Pinto, o regime policial, que patrulhou com um reforço descomunal a cidade, prendeu os 20 primeiros jovens que chegaram no Largo Primeiro de Maio. À cabeça deste grupo estava o músico revolucionário, brigadeiro Mata Frakux, era muito cedo e assim, com os demais coordenadores tivemos tempo de desmobilizar os demais, que se aprestavam para descer à cidade, tendo sido feitos esforços para convencer os do Panguila e os do Kifangondo para integrar alguns antigos militares desmobilizados, mutilados, que, a saberem da prisão dos outros, queriam agir com a cabeça quente, em socorro dos demais companheiros. Mas nós somos uma revolução de paz e não da guerra, logo devemos evitar o derramamento do sangue que é uma especialidade do MPLA que deverá ir ao Tribunal Internacional de Haia". Diante deste quadro, Malembe Massaqui, antigo militar comando das FAPLA, que desde a desmobilização o que recebeu como medalhas foi uma demolição! "Foi esse governo ingrato que partiu a minha casa na Boavista e de outros milhares e nos atirou para as tendas no Zango e as casas rachadas, tipo curral dos bois no Panguila. Eu posso dizer que matei irmãos da UNITA para defender Eduardo dos Santos, por o regime dizer que eles eram bichos maus e que se ganhassem nos matariam a todos. Agora com o tempo vejo o contrário e que lutamos para manter um homem no poder que apenas está a enriquecer os seus filhos e família, enquanto nós, o povo e militares, fomos atirados para o caixote de lixo", assegurou ao F8. Na sua opinião já é tarde tentar remendar qualquer coisa, "pois o Presidente perdeu muito tempo a humilhar-nos, assim, serão mesmo os mutambos que lhe vão tirar do poder, pois nós conhecemos todas as tácticas do regime e os esquemas de defesa, sabemos que, quando tornar a tocar o sino, tudo será diferente. Não podemos continuar a sofrer desta maneira e eles a enriquecer e o que mais me dói é que hoje, o povo chora pelo Jonas Savimbi, que dizem ser melhor que Dos Santos, que é muito mais corrupto, pois o líder da UNITA não roubou milhões ao Estado e tudo que teve meteu na revolução, não tem nenhum filho, ou filha que, como a Isabel dos Santos seja aos 36 anos a mulher mais rica de África e de Portugal. É o dinheiro do nosso sangue, logo é dinheiro que tem de ser devolvido ao povo". Questionado ainda sobre o abortar da manifestação Malembe Massaqui disse: "O regime queria legitimar a sua tese assassina com derramamento de sangue, para nos acusar de violência, por isso decidimos "in extremis" mandar os nossos jovens não avançar, adiando para nova data a grande manifestação. Nós dissemos que estávamos a trabalhar nos bairros, não nos acreditaram, mas quando o MPLA foi organizar os seus comités da DISA visaram diminuir os nossos esforços de mobilização. Para já não contávamos com milhões, somos modestos, em termos da nossa efectiva estatística de enquadramento, submetidos a rigor e bastante sigilo, contávamos com os números acima avançados: 31 mil e 800 jovens mobilizados em todos os bairros de Luanda. Este é o nosso registo actual, que acredito vai continuar a crescer...". Para o porta-voz, que falou em exclusivo ao F8, a sua organização tem consciência das suas limitações, mas garante: "nunca fizemos bluff.
Trabalhamos na clandestinidade nos bairros e se tivéssemos avisado os políticos e intelectuais que nos criticaram, talvez nos fossem dissuadir e ou denunciar, por isso actuamos com todas cautelas, pois o regime está a comprar tudo, até os padres em quem nós confiávamos, vejam o papel que tão a fazer. A igreja Católica está a perder influência em Angola devido aos seus erros de apoiar o regime e borrifar-se com o sofrimento do povo e enquanto o Papa em Roma, não vê tudo vai continuar nessa pouca vergonha". E não se contendo foi desbobinando, “repetimos, temos também revolucionários na Polícia, nas FAA, no SINFO e na UGP, que alertaram, e por isso conseguimos contornar a estratégia de Eduardo dos Santos, que deu ordens assassinas piores que Kadafhi, para atirarem a matar e depois apresentarem na TPA, RNA, LAC e ANGOP alguns infiltrados deles a dizerem que nós, os manifestantes, trouxemos armas e tínhamos objectivo de destruir as instituições e matar as pessoas. Isso levou-nos a alterar a estratégia em nome da PAZ e da VIDA, contra o SANGUE e a MORTE que o regime do ditador Eduardo dos Santos busca. Eles só querem é salvar a sua roubalheira e a corrupção". Questionado sobre onde tudo isso vai parar, Massaqui disse: "Acho que o F8 avisou que a saída do Roque Santeiro poderia alterar muitas coisas, eles não acreditaram. Tiraram-nos, como pobres que lutavam pela vida, não têm projectos, atiraram-nos para o Panguila, onde eles, que têm dinheiro, não vão, e nós ficamos mais pobres, pois partiram-nos tudo, logo, já perdemos tudo, só nos resta guardar o sonho de termos feito alguma coisa contra a ditadura e a corrupção". Para ele isso vai acontecer, mais cedo do que tarde, pois um dia os angolanos VÃO DORMIR COM O MPLA E ACORDAR SEM O MPLA, pois "quando a bola começar a rolar em todas as direcções, os medos e os receios dos demais desaparecerão, então virão outros e serão milhares e milhões, que começarão a varrer a ditadura de Dos Santos. Não contamos com partidos políticos, que têm medo de perder os privilégios e são cobardes, também não contamos com intelectuais, que querem ser os primeiros a falar bonito, mas são incapazes de tirar o rabinho do cadeirão da sala ou da cama, para se juntarem à luta e às massas. Estes, no fim, também terão o seu julgamento… Para já, esta é uma revolução dos pobres, dos despojados, dos espoliados, dos desalojados, dos desmobilizados dos três exércitos, dos desempregados, dos discriminados e dos perseguidos pelo regime. É a revolução daqueles que o regime sempre combateu e persiste em empobrecer e matar. É uma revolução do povo contra a corrupção e a ditadura. É uma revolução para mudar esta constituição em que todos os poderes estão concentrados em Eduardo dos Santos, é uma revolta para mudarmos esta bandeira nacional, para mudarmos a moeda e outros símbolos da ditadura. O novo país não terá nada deste regime, porque são petulantes, pensam nas maiorias forjadas por estarem no poder e só sabem dialogar com os mortos, por serem especialistas em assassinatos selectivos", assegurou ao F8 Malembe Massaqui. Como última questão quisemos saber se a exemplo da primeira, a segunda manifestação tem data marcada e a resposta não poderia ser mais lacónica: "Pode acontecer a qualquer momento, talvez o Bento Bento, primeiro secretário do MPLA de Luanda, vá mobilizar as pessoas para a nossa revolução, com o dinheiro e a cerveja da CUCA, em que o MPLA é sócio. Mas, para já, perguntem por que razão o ditador Eduardo dos Santos não foi ao desfile do Carnaval, na Nova Marginal… Se ele fosse, a manifestação iria ocorrer, na hora. Esperem.
Ela vai sair, em força e em grande…" Estas são pois as primeiras declarações de um dos líderes da manifestação que se encontra no interior do país, no coração de Luanda, num dos bairros considerados, como campo de concentração ou curral dos bois, para gente pobre e discriminada pelo regime, a quem acusam de ter roubado as suas terras, como durante 500 anos fez o governo português. "Eles são a continuação do colonialismo. São neocolonialistas, por isso mantém que a terra é deles, pois aqui, neste momento, o Estado é o MPLA", disse este jovem, cujo corpo está talhado com marcas de balas e estilhaços da guerra, que fez e sofreu em nome do regime que o acusa de o ter atirado para o buraco. *Com Araújo Vieira Dias, no Panguila

sexta-feira, 11 de março de 2011

Há outros governantes que são corruptos toda a vida… esses são os imprescindíveis


Gil Gonçalves
O barqueiro Caronte reservava uma barca preparada para singrar no rio Idas. Levava nas ondas os restos das almas dos ousados sábios ou opositores aos generais e outros marciais. Erradicara-se definitivamente qualquer ponto de vista de sabedoria ou oposição. Só a intolerância e proibição de qualquer manifestação eram aceites. Só se permitia, fortalecia o erro histórico antes de qualquer revolução que leva à queda dos regimes ditatoriais.
Os Politburo nasciam sábios, congeniais autorais. Dominavam, fustigavam as epístolas da oposição. Mas os trovadores, exilados internos sem mácula pedravam letras. De chofre aparecia o barqueiro Caronte, esfregava as mãos de avarento, e inquiria se havia almas para as Idas. Se respondiam, por enquanto ainda não, Caronte impacientava-se.
- Não brinquem com a ludologia. A política não é arte de cartomantes. Daí não advém futuro. Da outra Revolução Francesa que há-de vir, enviam-me muitas almas. Sempre foi assim, sempre assim será.
Os Politburo subiam os degraus do poder sem esforço. No altar cultuavam as vastas sobremesas das multidões sem história. Que de mãos estendidas, flácidas, migalhavam o culto da fome. Tudo é composto de corrupção.
- Não há nenhuma revolução que nos vença, que nos convença, ou que nos tire do lugar. Governamos demasiado, porque o tempo só conta enquanto estamos vivos. Governamos mal? Os acólitos aplaudem-nos pela boa governança. Outros povos, especialmente este que dirigimos, os Jingola, envolvem-se, deixam-se levar na felicidade que lhes prometemos nos discursos de fim de ano e nos milhões de falsas promessas eleitorais. Antes viviam na extrema escravidão, hoje estão libertos. É verdade que existem alguns constrangimentos, mas o sorvedouro dos milhares de leis decretadas solucionarão a emancipação do nosso povo. Finalmente a miséria acabará, atingiremos, bateremos as metas dos recordes do desenvolvimento.
- É?! Acontece que fiz um grande investimento na compra de duas mil barcas, e muitos barqueiros para as conduzirem que correm o risco de perder o emprego. Não estão a cumprir o contrato, exijo indemnização. Arranjem aí umas epidemias, qualquer coisa… não se sobrevive sem cadáveres.
- Velho Caronte, não escorregue, cadáveres não faltarão. Fique calmo que brevemente tombarão outra vez mil por dia.
- Não acredito em tal maldição! Vão fazer outra revolução?!
- Nem tanto a norte… vamos fazer outra guerra mais devastadora… com muitos campos de concentração nazis.
- Pendo dessa garantia. Importa-me que cumpram as normas contratuais.
- É verdade que demasiamos a honrar os nossos compromissos, mas quando os lesados nos pressionam, vasculhamos a papelada e accionamos o pagamento. Só trabalhamos debaixo de pressão. Somos como uma locomotiva a vapor.
- É!.. São bons crentes, confiam na divindade que rege o Universo. Naquele que é a origem do cadinho, que nos criou, nos deu origem. Sois os Politburo que aceitam um só deus. Seguis as doutrinas do feitiço. Tudo é decidido e explicado pelo vosso feitiço. Concedo-vos prazo de mais trinta anos para acabarem a contenda. Depois exijo que façais eleições senão…
- Senão o quê?!
- Altercarei a dívida com juros muito pesados. O vosso corpo será mais pesado que o chumbo, e não o podereis suportar.
- E perdidos nos encontraremos bem desarrumados, sempre descontrolados.
Os Jingola acessavam uma emissão de rádio, onde amiúde proclamavam, desabafavam vicissitudes incomensuráveis. Apesar dos esforçados Politburo para a silenciar, ela resistia bravamente. Era o rumo dos sem rumo, assim divinizavam a Rádio Oráculo. Alguns casuístas comparavam-na a Asterix o Minigaulês, que resistia arrumado, aprumado num cantinho sombreado da mafumeira. Os Politburo rabulavam que a Rádio Oráculo era o seu calcanhar de Asterix. Os circuitos telefónicos mais íntimos da governação, paladinavam que era o calcanhar da função real.
Jingola propagandeava a epidemia de cólera, que militava com muitos aderentes para o interior do reino. Como praga ratada sem navios mercantes. Frechei-me com grande constrangimento: ninguém ousou explicar que a principal causa da cólera… é a fome. A epidemia cadastrou ao infinito de Jingola. A Rádio Oráculo solicitou anuência para implementar o seu feixe hertziano a todos os ouvidos do reino, para que as populações se informassem, acautelassem, sanassem a epidemia. Os Politburo liminarmente recusaram. Cartaram, selaram, pergaminharam para a Rádio Oráculo.
Reverendíssimas Excelências da Rádio Oráculo:
Havemos um contrato com o barqueiro Caronte. A epidemia da cólera faz as vítimas suficientes, as almas que o barqueiro necessita a contento. Sentimo-nos felizardos. Se o sinal da vossa fé se digladiasse pela rádio e por todo o reino se espalhasse, não cairiam vítimas da cólera. Contamo-nos peremptórios firmados, e esse vosso pretenso vento é… não aceite.
Alvejamos a certa teologia do querem ir mais longe, para além das redondezas, dos limites de Delfos. As distâncias curtas por vezes tornam-se longas.
Permitimos que funcionem devido à frequência democrática que nos foi imposta. Encetámo-la no compêndio das contrariedades mas preferimos, prosseguimos com convicção no estalinismo.
Estendemos-lhes um dedo, agora querem a mão, depois todo o corpo.
Para convencer que somos democratas, anunciámos que se realizariam eleições. Notem bem: que se realizariam… em qualquer momento, em qualquer época. Tudo depende da nossa íntima vontade. Não é a claridade de qualquer oráculo que nos leva ao cume solar, datar eleições. Uma coisa é incerta: o principio da incerteza eleitoral.
Os nossos insignes marinheiros vigiam atentamente as proas do vosso ecletismo. Pretendem entreabrir a janela da noite escura, para a missa de manhã. Fazer muita luz para jorrar nos espíritos. Com tanta vela por aí à disposição. Estamos à vela.
Abundantes Saudações Revolucionárias.
Jingola, Frimário, Ano II.
Ano da Vida Incerta.
Resposta da Rádio Oráculo:
Depois de consultado, o Oráculo revelou-nos:
Parafraseando o perfume opiado, marxista de Bertolt Brecht, condizemos:
Há governantes que são corruptos num dia, e são bons.
Há outros governantes que são corruptos durante um ano, e são melhores.
Há outros governantes que são corruptos durante muitos anos, e são muito bons.
Mas, há outros governantes que são corruptos toda a vida… esses são os imprescindíveis.
Mutam-se os climas das políticas, mudam-se as tempestades. Tudo é composto de ciclones.
Injectadas saudações.
O Directório.
Jingola, 9 Termidor.
Ano da emissão da nossa Rádio a todo o Reino.

A ponte projectava magnitude louvável. Debaixo, uma multidão de pilares humanos olhava com altitude. No tabuleiro em cima, um jovem mimicava, distendia continuamente as mãos. Chegavam, juntavam-se mais olhares. Davam-se alvitres e palpites. Explicar porquê, ninguém conseguia, sabia. Alguém mais palpiteiro azedava que ele era maluco, mais um drogado. Um alvitreiro tinha a certeza que era um actor que filmava uma cena para a telenovela. Ele desacelerou os acenos, elevou as mãos ao céu, e num sacerdócio pregou a vaidade da verdade:
- Fui um grande lutador, sempre até ao último momento. Não engulo esta vida de miséria, de fome. Não consigo estudar, não há emprego. Os Politburo desvivem-nos, cortam-nos os anseios, as asas, os casebres… ó singular desesperança! O barqueiro Caronte está à minha espera. Não terei ninguém para me colocar as moedas nos olhos.
Depois esticou bem a cabeça e os braços, elevou-os, falou para as alturas.
- Ó vós que viveis nos vossos palácios cercados pelos dias e noites, que navegais nos só vossos campos petrolíferos, vigiados por milhares de guerreiros que vos protegem dos medos. Parto para o Jango… lá nos reuniremos… e rolaremos nas suas ondas de fogo.
A quantia humana parecia um comício, abelhas numa colmeia. Os comentadores do quotidiano desfraldam notícias. Esta função é-lhes sumariamente atribuída. Tem o direito de não se calarem e afrontarem o generalado.
- Ih, ih, essa telenovela é vinculada demais, não vou deixar que arrefeça.
- Isso é propaganda, Carnaval eleitoral dos Politburo.
- O nosso eterno Politburo não precisa disso, já ganhou as eleições.
O jovem alterou a postura, silenciou para a multidão. Afagou com as mãos a dizer adeus. Depois colou-as no coração, e a pique foi pela aceleração da gravidade afundar-se no abismo eterno, na salvação dos suicidas. No solo um pequeno regato de sangue vermelhava a terra, que colidiu, juntou-se ao lixo, ao juramento dos imortais que prometeram que seríamos livres. Que jamais faltariam jasmins.
A colecção humana desagregou-se. Alguns intrigados curiosos não arredaram teimosos. Ninguém atentava para actos suicidas, andavam na moda.
- Que odisseia Mentor, que imagens espelhadas tão desiguais.
- Verás muito mais. Olha, a morgue principal está cheia de cadáveres desconhecidos. Já apregoam que Caronte, o barqueiro dos Infernos está midas. Os falsos médicos que os Poltburo contrataram, dão grande apoio a Caronte.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Os filhos do Papá dya Kota (3)


António Setas

No dia seguinte, o tio Mbala não foi ao mar, descansou. Eu estava em pulgas, não pensava noutra coisa a não ser no barco à vela. Quando ele acabou de descansar pedi-lhe que me explicasse como funciona um barco à vela e ele respondeu-me que primeiro era preciso saber o que era um barco, e que depois se veria. Nesse dia não se passou mais nada. No dia a seguir pegou-me pela mão, levou-me até ao sítio onde estava o ndongo e mostrou-me o que era um barco à vela. Virou-se para mim com um ar de certa vaidade e começou a falar.
«Comprei este barco já lá vão ... não sei, dois ou três anos. Foi ali para os lados do rio Bengo. Naquelas matas há muitas árvores...eu até nem sei o nome, os brancos chamam-lhe mafumeira. É nessas árvores que se faz o barco. Atenção, é preciso escolher bem as madeiras, há as que estão secas, outras não, têm que estar bem secas. Escava-se e faz-se o barco, tem que ser um mestre a fazer. Quando o barco está pronto é lançado ao rio, atravessa-se a barra e chegamos a Luanda pelo mar. Está aqui o barco».
Mostrou-me o ndongo e depois continuou, «Antes de ires para o mar tens que ter pelo menos duas coisas, água para beber e comida. Se contares ficar mais de um dia levas uma bacia com areia e carvão para poderes cozinhar no barco. Metes o carvão em cima da areia da bacia, acendes e podes cozinhar. No tempo do cacimbo não te esqueças do agasalho!».Olhou para mim, severo, e prosseguiu, «Depois, temos os iscos. O mais utilizado entre nós é a sardinha, mas também empregamos o peixe miúdo, o “kabwenya”, que se apanha nas pequenas redes de pesca, sem esquecer o camarão que é muito apreciado para pescar dentro da baía». Fez uma pausa, olhou outra vez para mim, talvez para julgar se valia a pena continuar, mas ao ver os meus olhos muito abertos decidiu que sim, «Para fazer avançar o barco temos o ‘bordão’, está aqui, uma vara com 6 ou 7 metros de comprimento, para ximbicar, quando há pouca água debaixo do barco. Se as águas forem profundas, temos dois tipos de remos, o “afi”, utilizado na popa para orientar o barco, os “jiafi”, como os do branco, que serve para remar sentado. Às vezes, quando o barco é grande, pode-se utilizar um remo especial na proa, o “dilemu”. Também serve para dirigir o barco, mas esse não o tenho aqui. E...olha!, o que te mexe tanto com a cabeça, uma mvela».
Enquanto falava ia mostrando os objectos que mencionava. Estendeu a mvela, pôs no chão a âncora, os paus que serviam de retranca e de mastro, e explicou, «A mvela. Como estás a ver é um pano de algodão. Pode ter três ou quatro lados, este tem três. O mais importante é a dimensão, se for grande demais o barco vira com vento mais forte, se for pequeno o barco não avança como deve ser. È complicado, só um especialista sabe dizer qual é a boa dimensão para cada barco. Como funciona?...Isso é mais simples, liga-se a mvela a este bordão, na parte que vai ficar no alto, e depois ela é içada ao longo do mastro que tem aí uns 5 metros de altura, por um cabo que passa por um ferro, aqui, na extremidade superior do mastro. Para apanhar o vento tens cordões, quando há vento demais dás folga aos cordões, se houver pouco vento, ou se quiseres encher bem a mvela com o vento que houver, puxas ou dás folga, depende. A âncora, essa, serve para fazer parar o barco, e está presa por uma corda com pelo menos uns trinta metros de comprimento Metes a proa do barco virada para o lado de onde vem o vento, levantas os remos, ou baixas a vela se estiveres a velejar, e o barco a certa altura pára. Tens que saber mais ou menos a quantos metros está o fundo. É nesse momento que lanças a âncora. Tem que se lhe diga, depois na prática logo verás».
Pouco percebi, mas como a arte de velejar é de difícil compreensão, ele avisou, «Expliquei-te tudo muito por alto. Ainda nem te falei da fisga, do “muxeiro”, (gancho), da “bangala”, (pau), isso fica para mais tarde. Hoje não vale a pena fazeres esforços para perceber como se navega com a ajuda do vento. Mais vale uma hora no mar do que dez lições de uma hora em terra».
Virou-me as costas e começou a mexer no que havia dentro do barco. Tirou uma caixa, depois tirou outra, tirou novelos de linhas de vários tamanhos, os anzóis, virou-se de novo para mim, ali pespegado de boca aberta sem dizer uma palavra, e disse, «Linhas, anzóis e chumbos. Pelo que se pode fazer com estes materiais se verá quem é bom pescador. Mas isso também fica para mais tarde, quando estiveres no terreno. Por hoje chega».
«Puxa! Parece que está com pressa», pensei. E esse “por hoje chega” caiu-me mal. Quase fiquei com a impressão de estar a incomodar. Mas era só uma impressão. Ao longo do mês o tio Mbala levou-me uma meia dúzia de vezes a pescar na baía Meia dúzia de dias que me ficaram gravados na memória como as armas de um príncipe num anel de brasão.

A minha mãe sofria do ‘‘complexo bakongo’’, sentia-se discriminada pela comunidade piscatória da Samba em que predominavam os mundongo, ambundo como ela dizia. Embora fosse agora ‘‘destacada’’, quer dizer, intermediária privilegiada na compra de pescado às unidades de pesca mais importantes, por cunha de um amigo da vó Júlia, que a tinha introduzido nesse circuito muito fechado e de difícil acesso, reservado a um punhado de felizardos, só para os lados da ilha do Cabo é que ela ganhava sossego. Na Casa Lisboa, na Salga e ao longo das praias da contracosta encontrava-se a miúde com gente da sua terra ligada à faina e, a despeito das facilidades que o Luisão lhe podia dar na Samba e na Corimba, era por essas bandas que ela fazia o negócio. Ia para os quarenta, mas ainda era bonita, esbelta, e além disso tinha as suas letras - entenda-se, letras para o nível do negro de Angola, debaixo da bota do colonizador português -, chegara mesmo a frequentar o 3º ano do Liceu por vontade do seu falecido pai, que desejava que ela fosse uma senhora. Assim educada, queria à viva força que o filho querido também fizesse estudos. E, contas bem feitas, foi ela, só ela, com a ajuda da vó Júlia, quem me roubou o sonho de ser aprendiz e ir para o mar com o tio Mbala. Ainda me lembro como se fosse ontem da conversa com o meu pai, ela a dizer que eu não tinha idade de ir para trabalhar, o menino tem que ir para o liceu, tens masé que dar o dinheiro para a matrícula e para os livros, e mais isto, e mais aquilo... E a resposta do meu pai, «Dinheiro para o Liceu!? Então tu não vês que esse rapaz tem tanto jeito para estudos como um burro para fazer saltos mortais?» Nesse ponto estava eu de acordo com ele, porque a minha vontade era ser aprendiz, mas a minha opinião pesava pouco na balança, pois nem em sonhos me poderia opor à força de persuasão das carícias que a minha mãe lhe fazia. Não só com os olhos, na cama também, porque eu bem ouvia os gritos de alegria que eles davam à noite, altas horas e de madrugada. Não havia volta a dar, tinha mesmo que ir para o liceu e para lá fui andando. Mas, quando podia, dava sempre uma saltada até à Xicala.

Pois é, fui obrigado a ir para o liceu por causa da mãe e da avó, com as manias que elas tinham de educação esmerada, quando o que eu tanto queria era trabalhar com o tio Mbala. Serviu-me esse sacrifício para aprender um pouco de francês com a minha mãe, o que não admira porque ela era bakongo e esse povo fala muito bem francês, e serviu também para ficar a conhecer melhor o meu pai.
O Luisão era um homenzarrão, um metro e noventa, músculos firmes, que ao menos para isso serve o duro trabalho no mar, e cara de amigo de ninguém. Tinha um perfil de foca pendurada pelas orelhas, mãos espalmadas que lhe chegavam às rótulas e podiam muito bem servir de remos, e quando se zangava não se lhe viam os olhos, escondiam-se, lá para trás das olheiras que os encaveiravam. O mais engraçado é que quando não estava zangado até dava gosto vê-lo, uma força da natureza. Pouco se ocupou de mim até ao dia em que eu entrei para o liceu. A partir daí, seringado pela vó Júlia, que tinha a mania de que eu podia ser um grande homem, deu-lhe para se interessar pelos meus estudos. Quando as notícias do liceu eram más, puxava do cacete e dava-me, dava-me até ficar com medo de me ferir. E, como a ostra que se fecha ao sentir a ameaça do predador, fechei-me eu. Deixei de pensar no ndongo do tio Mbala, estudava para não apanhar com o cacete, chegava a casa e ia para o quarto, deitava-me e ficava montes de tempo a pensar em nada até me vir à cabeça o ndongo. E dizia baixinho, «Agora não, deixa-me em paz».
Felizmente, o Luisão só vinha de tempos a tempos, mas nunca falhava aos sábados, muitas vezes com o tio Augusto, o que enxotava as moscas com o bafo. Comíamos debaixo do imbondeiro e o que nunca faltava era o vinho. A vó Júlia falava dos reis do Kongo, o meu pai de futebol, e o tio Augusto dos festejos do Carnaval, que era uma azáfama constante no quartel do Nzumba. A minha mãe não dizia nada. Também me acontecia ir de visita à tia Chiquinha, a outra mulher do meu pai, do Bairro dos Imbondeiros. Mas só ia se ele me pedisse, ou melhor, se me obrigasse a ir. Mostrava-lhe quase sempre má cara, talvez por não ser capaz de esquecer que o liceu me impedia de ir para o mar no ndongo do tio Mbala, e porque ele me batia quando obtinha maus resultados. Respondia-lhe dessa maneira, com as fracas armas que tinha.