quinta-feira, 3 de março de 2011

Acusados de pretenderem raptar crianças para trabalho infantil


Polícia angolana prende cidadãos namibianos e advogado fala de perseguição

O quase livre acesso de cidadãos de Angola e Namíbia no cruzamento diário da fronteira comum, pode propiciar a práticas lesivas, por elementos mal intencionados ou redes organizadas de tráficos de órgãos ou seres humanos, de droga, de prostituição infantil ou mesmo de tráfico de armas de guerra. Neste contexto as autoridades policiais e de imigração dos dois países têm estado a envidar esforços comuns para localizar e deter estas redes.

No dia 21 de Fevereiro, o comando provincial da Polícia Nacional no Kunene, anunciou a detenção de três cidadãos namibianos, acusados de terem tentado levar, sem autorização dos respectivos pais e encarregados de educação, cinco jovens angolanos, com idades entre os 15 e 17 anos de idade, naturais do Cuvelai (Kunene) e da Matala e Jamba (Huíla).

No entanto, o advogado namibiano, James Peter garantiu ao F8, "não haver provas, por parte das autoridades angolanas de se tratar de um rapto, estão a actuar com base em presunções, pois se quisessem raptar teriam feito, pois existem muitas zonas da fronteira, sem controla das autoridades, para além de muitas crianças, no Kunene, serem elas a aliciar os namibianos para lhes arranjar ou dar uma oportunidade na vida", disse, acrescentando que "muitos começam a trabalhar cedo, em função dos pais estarem no desemprego e ser na Namíbia onde encontram mais oportunidades de trabalho e de estudo. Inclusive estes miúdos se estão doentes têm de vir a Namíbia em tratamento". Logo na sua opinião é pura especulação afirmar-se que havia uma tentativa de rapto com objectivo de as utilizar como mão-de-obra barata nas empresas namibianas, que não têm falta de trabalhadores namibianos".

Em função disso, disse estarem as autoridades da Namíbia a acompanhar o processo e que os seus compatriotas serão libertados por falta de provas convincentes, para além de haver muita contrariedade nas declarações das próprias crianças, por "esta razão afirmou tratar-se de uma manipulação dos angolanos e dos seus órgãos, que querem justificar trabalho por parte da sua polícia que vive muitas dificuldades e está seriamente desorganizada, com prisões que são uma autêntica vergonha, para um país que se considera rico", argumentou o advogado.

Recorde-se que na primeira semana do mês, um outro caso foi igualmente denunciado, pela mesma polícia, denunciando o rapto em Namacunde de nove crianças entre os oito e 14 anos, mas até ao momento nada foi provado e o processo parece não ter pernas para andar, pois nem os nomes verdadeiros dos meninos estão em posse das autoridades.

O tráfico de seres humanos, nomeadamente crianças, com destaque alegadamente de meninas para integrarem cartéis de prostituição em países vizinhos, nomeadamente Namíbia e África do Sul, tem merecido, nos últimos tempos, alguma atenção das autoridades, em cooperação com organizações não governamentais e igrejas.

O relatório de 2010 sobre tráfico de seres humanos divulgado no site da embaixada dos Estados Unidos da América em Angola refere que mulheres e crianças angolanas são traficadas para as Repúblicas Democrática do Congo, da África do Sul, Namíbia e países europeus, principalmente Portugal, sublinhando o documento que os traficantes levam rapazes para a Namíbia para trabalho forçado, no pastoreio de gado, salientando que as crianças são igualmente usadas como “correios” em tráfico ilícito transfronteiriço, entre a Namíbia e Angola, como parte de um esquema para fugir ao pagamento de taxas de importação.

De acordo ainda com o relatório, o governo angolano “não cumpre integralmente com os padrões mínimos para a eliminação do tráfico, embora esteja a empreender esforços significativos nesse sentido”, como campanhas de sensibilização sobre o assunto e a emenda na Constituição que penaliza este tipo de crime.

Mais uma vez Angola fica com o que os outros rejeitam


Quatro blindados que se destinavam à Polícia portuguesa são comprados pelo regime de Angola

O Governo Civil de Lisboa e a empresa Milícia, responsável pelo fornecimento de blindados à Polícia de Segurança Portuguesa, chegaram a acordo, no dia 17.02, para pagamento de duas das seis viaturas blindadas que estavam contratualizadas desde o ano passado. E este acordo, mais uma vez só foi possível pelo facto das autoridades de Angola estarem sempre prontas a compra tudo e todo o lixo rejeitado por Portugal. É a velha história de não se esquecerem os avós. Força governo e MPLA, pois desta forma existirão mais quatro blindados para disparar com os inocentes cidadãos que se quiserem manifestar ao abrigo da Constituição, mas que Dino Matross, avisou que vão apanhar e em Angola apanhar está mais para o lado de vais morrer, assassinado...

O fornecedor das viaturas prescinde de cinco mil euros, devido ao atraso de três dias na entrega do segundo carro, e desiste das providências cautelares interpostas no Tribunal Administrativo de Lisboa. Em contrapartida, fica livre para negociar, de imediato, os restantes quatro veículos que ainda se encontram no Canadá. Angola é o destino mais que provável. "Não foi o acordo desejado, mas foi o acordo possível. Gostávamos que os carros tivessem ficado em Portugal, porque vão fazer falta à PSP, mas acabou por prevalecer a vontade política e não a vontade da polícia", disse ao Público o responsável da empresa vendedora, António Amaro.
O gerente da Milícia disse ainda que as quatro viaturas blindadas que se encontram, há meses, retidas no aeroporto de Toronto (ficaram ali em consequência do cancelamento dos voos devido ao mau tempo) já podem ser negociadas com outros interessados. Os carros, ao que tudo parece indicar, serão vendidos para Angola. "É uma hipótese muito forte, apesar de haver outros interessados africanos", adiantou.
A venda de apenas dois dos seis carros inicialmente previstos "é mais um projecto inacabado para a polícia portuguesa", disse ainda António Amaro, lembrando que em situações anteriores também houve problemas com a negociação de armas e de outras viaturas. "Os responsáveis políticos ainda não compreenderam que a falta de uniformidade só acarreta problemas, sobretudo logísticos. No futuro, não havendo uniformidade de meios, haverá mais problemas por causa da manutenção."
Com o acordo obtido com o Governo Civil de Lisboa - foi este organismo quem disponibilizou para o MAI os cinco milhões de euros para compra de material para a PSP destinado à Cimeira da NATO, que teve lugar em Lisboa, em Novembro do ano passado -, a Milícia vai receber, pelos dois blindados que se encontram à guarda da Unidade Especial de Polícia, 331 mil euros mais IVA, o que perfaz cerca de 400 mil euros. A empresa acabou ainda por prescindir de cinco mil euros pelo facto de se ter atrasado três dias na entrega do segundo carro.

Acções retiradas
"O dinheiro dos dois blindados deve ser entregue nos próximos dias", adiantou ainda António Amaro, lembrando que continuar com as acções em tribunal implicava que ninguém pudesse utilizar os carros negociados, sendo previsível que o caso se viesse a arrastar "durante muitos anos".
O contrato para aquisição das seis viaturas (o custo total ultrapassava em pouco o milhão de euros) foi assinado a 15 de Novembro. Com os atrasos verificados nas entregas, o ministro português da Administração Interna, Rui Pereira, acabou por anunciar a desistência de quatro dos carros. Descontentes com a decisão governamental, os responsáveis da Milícia recorreram, em Janeiro deste ano, ao Tribunal Administrativo de Lisboa, interpondo uma providência cautelar que impedia as duas partes interessadas (Milícia e PSP) de obterem, respectivamente, o dinheiro e os blindados. Os veículos em causa permitem o transporte de três pessoas na cabina e mais uma equipa de oito no habitáculo traseiro. São carros capazes de resistir a determinado tipo de munições e ao fogo e que a polícia de segurança pública pretende utilizar, por exemplo, em intervenções em alguns bairros problemáticos ou para fazer o transporte, mais seguro, de algumas individualidades. Em Angola, seguramente vão ser utilizados contra quem se manifestar, segundo alerta das autoridades do partido no poder.
*F8

Japão doa 4,5 milhões a UNICEF para combater pólio em Angola


O Japão coroou da melhor forma a visita de George Chicote, ministro das Relações Exteriores, a Tóquio, ao doar no dia 21.02, na presença deste, 4,5 milhões de dólares a UNICEF, para esta organização empregar na sua campanha visando a erradicação da poliomielite em Angola. A verba disponibilizada pelo Governo japonês “não é reembolsável”, disseram as autoridades nipónicas que disponibilizaram igualmente doses de vacinas para nove milhões de pessoas na campanha de 2011. “O Governo japonês valoriza os esforços do Executivo angolano, que está a tomar medidas urgentes para a erradicação da poliomielite e deseja que esta doença infecciosa seja erradicada de Angola o mais breve possível”, refere um comunicado das autoridades japonesas, divulgado pela sua embaixada em Luanda.

A luta para a erradicação da poliomielite em Angola é uma aposta das autoridades sanitárias angolanas, que têm já agendada para os dias 25, 26 e 27 de fevereiro uma campanha de vacinação para as províncias de Luanda, Bengo, Lundas Norte e Sul, Kuando Kubango e Benguela. Em 2010, registaram-se 23 casos de poliomielite, tendo já este ano (2011) sido registado o primeiro caso na província do Kuando Kubango, estando assim já programadas três campanhas nacionais para os meses de Março, Maio e Agosto.

Em Tóquio, o ministro das Relações Exteriores e o seu homólogo japonês, Meiji Maehara, assinaram no mesmo dia um Acordo Geral de Cooperação e um memorando de entendimento sobre consultas políticas entre os dois países.

George Chicoty, que realiza um périplo pelo continente asiático, que começou na Índia e inclui ainda Malásia e Singapura, teve também um encontro com o presidente da Agência de Cooperação Internacional do Japão, Sadako Ogata, com o Secretário-geral do Partido Democrático do Japão, partido no poder, e com o Presidente da Associação de Amizade Parlamentar Japão-União Africana, Yoshiro Mori. Foi ainda realizada uma reunião importante com o diretor do Banco do Japão para a Cooperação Internacional, uma visita aos estúdios centrais da Televisão Pública do Japão e uma entrevista ao “Asahi Shimbun”, segundo maior jornal japonês, com tiragem diária de oito milhões de exemplares.

Angolagate. Pierre Falcone defende Presidente angolano no Tribunal de Recurso de Paris


Os amigos são para as coisas, isso ficou demonstrado na audiência do 21 de Fevereiro, por parte do traficante de armas e empresário francês, ao defender perante os jurados do Tribunal de Paris, o presidente de Angola. Para Pierre Falcone, a sua prisão é uma grande injustiça, porquanto, defende-se, não cometeu nenhum acto ilícito, não passou com as armas por território francês, para além de as ter negociado, com um governo legítimo, o angolano, acossado por uma guerrilha condenada pela comunidade internacional e as Nações Unidas. Bastante emocionado, parece que as suas palavras e justificativas continuam a não demover os juízes franceses, que acreditam na sua ilicitude, quanto a procedimentos nessa relação comercial, bem como na fuga ao fisco, quanto aos verdadeiros milhões envolvidos nas transacções de armamento.

Silvio Van-Dúnem*

O empresário francês Pierre Falcone, um dos principais condenados em primeira instância no processo “Angolagate”, que tentou tudo para escapar a prisão, inclusive, com o apoio do Presidente José Eduardo dos Santos, que em flagrante violação as leis em vigor no país, concedeu-lhe, sem o processo passar por aprovação na Assembleia Nacional e motivos bastantes, nacionalidade angolana e passaporte diplomático. Mais tarde, como caso raro no mundo e digno de entrar no Guiness Book, foi nomeado embaixador de Angola, junto da UNESCO, em Paris, para desta forma gozar de imunidade diplomática e evitar as grades. Igualmente foi concedida a nacionalidade ao traficante russo-isrelita Arcadi Gaidamak, nomeado conselheiro principal na embaixada de Angola em Moscovo. Recorde-se ter sido este diplomático quem preparou a recepção do ex-embaixador Tito em Moscovo, ao ponto de conseguir, que o mesmo, sem mesmo ter sido acreditado, estivesse presente numa cerimónia no Kremlim.

Mas voltando ao julgamento de Falcone no Tribunal de Recurso de Paris, este traficante, não se sabendo se na qualidade de militante do MPLA, de embaixador u de amigo, disse mais: " o Presidente Dos Santos foi sempre a favor de uma solução negociada e de pacificação com a UNITA, mesmo quando as forças governamentais estavam em clara superioridade”, garantiu. É de facto surpreendente a detenção de pormenores tão sensíveis por parte do cabecilha do “Angolagate”.

Falcone cumpre uma pena de prisão pelos crimes de tráfico de armas com vários países africanos, incluindo Angola, e de evasão fiscal e tráfico de influências em França, acusações que ele nega “em bloco” na apreciação do caso em recurso, que decorre desde Janeiro em Paris, afirmando com convicção na audiência de 21 de Fevereiro que “toda a comunidade internacional reconheceu que as violações do cessar-fogo na guerra civil em Angola foram sempre e exclusivamente da UNITA” a partir de 1992. Claramente, esta visão do compatriota da presidência da República de Angola, deve-se ao facto, quiçá da tripla nacionalidade, francesa, brasileira e angolana, pesando mais o facto de ser desde o ano de 2003, o único traficante de armas no mundo, que é representante diplomático de um país junto da UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), em Paris, no caso Angola. No entanto, face a alegada dimensão dos crimes cometidos, lhe foi retirada a imunidade, por se julgar terem os mesmos sido cometidos com o recurso e utilização do território francês.

A acusação assenta a sua convicção pelo facto de desde 1993, a empresa Brenco, sediada em território francês, logo todos os contactos, directa ou indirectamente, transitavam por aqui, tinha como integrante do grupo a companhia de armamento ZTS-Osos, da ex-Checoslováquia, adquirida precisamente pela empresa francesa, propriedade de Pierre Falcone e Arcadi Gaidamaki, e cujo objecto social era a venda de material, oriundo dos antigos países do Leste europeu, ao Governo de Angola e de outros países africanos em guerra, como a Libéria, Serra Leoa, Sudão, República Democrática do Congo, entre outros.

No entanto uma declaração importante foi revelada pelo também preso, Jean-Charles Marchiani ao afirmar que o traficante judeu russo, "o senhor Gaydamak era um agente do Ministério do Interior francês, nomeadamente da DST", os serviços de informações internos franceses, facto confirmado por Charles Pasqua, com a justificativa de ser um procedimento “normal”, pois a DST “vigiava de perto todas as pessoas com origem no leste europeu, desde o tempo da União Soviética”, acrescentando não ver razões para a sua deplorável situação, que o agasta, por "falta de dignidade de certos titulares políticos da República da França”, denunciou, acrescentando tudo ser do conhecimento das autoridades oficiais, principalmente, no período de coabitação política em França entre 1993 e 1995. Nessa altura, disse Pasqua “havia vários membros do Governo, incluindo o ministro da Defesa e o dos Negócios Estrangeiros, que eram claramente apoiantes de Jonas Savimbi”, tendo até recebido o líder da UNITA em Paris. “Havia, bem entendido, fluxos financeiros entre a UNITA e o RPR”, antigo partido da direita no poder em França.

Recorde-se ainda ter ficado o tribunal a saber, no contraditório terem Falcone e Marchiani viajado juntos a Angola no início de 1995, tendo Marchiani garantido que “estava em missão das Nações Unidas, com instruções do secretário-geral Butros Butros-Ghali” para uma mediação de paz. Mas o que veio a seguir é que deixou uma pulga por detrás da orelha dos jurados, pois alguém que vai pelas Nações Unidas numa missão, é inconcebível que esta organização não providenciasse orçamento, mas foi o que ele disse: "a ONU não tinha orçamento e não pagou um centavo das despesas e do dinheiro que utilizei ou distribuí em Angola, no Congo e no Zaire” a fações da UNITA ou seus equivalentes nos países vizinhos”.

Instado a comentar as declarações, Falcone, não confirmou eventuais contactos de Marchiani com grupos da guerrilha, mas garantiu o facto de ter pago “missões como a de Marchiani em Angola, mas tudo em nome do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos e seu governo".

A audiência de recurso de 21 de Fevereiro, que prosseguirá até Marco, foi expressamente dedicada a averiguar e aprofundar às relações entre Pierre Falcone, o seu sócio franco-russo Arcadi Gaydamak, prófugo entre Israel e Moscovo, onde é conselheiro da embaixada de Angola, o ex-ministro do Interior francês Charles Pasqua e um colaborador próximo deste, o ex-prefeito da República Jean-Charles Marchiani. No final, uma fonte disse ao F8, em Paris ter o tribunal ficado com mais dúvidas, quanto a inocência dos implicados, mas que antes de transitar em julgado, "todos em França beneficiam do princípio de presunção de inocência. No entanto o alto envolvimento do Presidente de Angola e do seu governo, tentando influenciar a independência dos tribunais neste país, não ajudou muito o processo e ajudou a formar a ideia de ilicitude, daí terem sido condenados em primeira instância, por não conseguirem provar em contrário a acusação, mas ainda assim, estar a verificar-se estas audiências de recurso. Vamos esperar qual será a decisão final dos jurados, que não são influenciados, nem recebem recados por parte do partido no poder, como acontece em Angola, com os vossos juízes", concluiu.

*Em Paris, com Kuiba Afonso

Médio Oriente e Norte de África em chamas. Ditador Kadafhi dispara contra o povo tornando-se um líder assassino


O ditador Kadafhi converteu a República Árabe da Líbia em menos de uma semana num dos palcos mais sangrentos entre todos aqueles que, na África do norte e Médio Oriente, clamam pela chama da mudança do regimes que se encontram por mais de 30 anos consecutivos no poder. Infelizmente existem muitas semelhanças com o que se passa em Angola. No entanto os mortos civis contam-se por centenas, cerca de 750, para além de milhares de feridos na sequência de uma implacável e desesperada repressão militar, levada a cabo por militares e mercenários, contratados pelo regime de Kadafhi para bombardear contra o seu próprio povo, que se manifesta por mudanças, num país dirigido à mais de 42 anos por uma ditadura, que sustenta as suas excentricidades com base nas enormes reservas de petróleo, que "banham" o seu deserto.

Willian Tonet*

Num país tão hermeticamente fechado a informação como Líbia, onde os órgãos de comunicação social, são rigorosamente controlados pelo regime, os jovens manifestantes, cuja onda de solidariedade tem estado a aumentar, conseguiram passar ao mundo as imagens dos massacres das tropas do ditador. No entanto Bengasi, pese os tumultos, já está na mão dos manifestantes revolucionários da mudança, enquanto Tripoli, os manifestantes continuam a enfrentar as tropas fiéis a Kadafhi e família, num autêntico cenário de guerra, que se espalham por todo o país. O regime monolítico teima em não sair e não se importa de para isso contratar toda gama de mercenários pagos a peso de ouro para manterem, mesmo contra a vontade popular se manterem no poder, instalando o caos num país que tem um peso relevante na venda de petróleo no mercado mundial.

Antes de uma eventual renúncia, fuga, num acto cobarde o ditador está a adoptar uma política de terra queimada, atirando contra e todos e contra todos, que se movem e gritam por mudanças, sacudindo os pilares de um regime que se julgava sólido, mas que se vê as suas fragilidades, ante a este movimento pacífico das populações, discriminadas nas suas principais aspirações de mais liberdade, respeito pelos Direitos Humanos e democracia, o acto proclamado guia da revolução, responde com balas, contra o próprio povo. Mas para o mundo não é surpresa, pois o líder líbio é um dos principais financiador do terrorismo mundial, logo com as mãos sujas de sangue de inocentes, não lhe faltam alguns generais, que mesmo no fim de ciclo se predisponham a esse trabalho sujo, contrariando o exemplo dos militares da Tunísia e do Egipto, que se limitaram a proteger os manifestantes na justeza das suas reivindicações.

Recorde-se que nem mesmo quando, Saif Kadafhi, filho do tirano e sucessor designado, foi a televisão, controlada por ele, que o regime lutaria "até a última bala" contra os "elementos subversivos", os manifestantes não se retraíram e continuaram os protestos. Logo, as ameaças e as balas, já não conseguirão parar a vontade de mudança das populações, sedentas da partida deste regime, mesmo que seja o ditador júnior a tentar vir a público mostrar uma certa vitalidade, que vai faltando ao pai, mas ambos sem legitimidade, para se considerarem como donos da Líbia. Mas antes e mais, quem pelo mundo ouviu as declarações do garoto, sentiu que ela denota a debilidade de um poder, cujo povo já não o acredita e está saturado das suas promessas e política opressora.

Seguramente, se recordarmos, que toda esta corrente revolucionária aconteceu quando em 17 de Dezembro de 2011, um vendedor ambulante de frutas tunisino, Mohamed Bouazizi, se imolou, em sinal de protesto de protesto pela actuação dos agentes da Polícia que os prendiam e roubavam o seu negócio, ninguém acredita ou teria vaticinado, que estaria ali o rastilho de uma revolução que o Médio Oriente e a África careciam e que seguramente, vai mudar o mapa geoestrátegico dos regimes que se querem perpetuar no poder e subverter a democracia.

O que aconteceu na Tunísia é um acto que a fiscalização angolana faz todos os dias, quando espanca, mata e rouba os produtos dos vendedores de rua, Estes autóctones foram atirados ao desemprego fruto das más políticas de gestão económica de um regime, que privilegia a mão de obra estrangeira e como tal é insensível com o sofrimento destas gentes, cujo crime é o de tentarem todos os dias, sobreviver com dignidade, para não integrarem os exércitos da delinquência e prostituição. No entanto, no pedestal da sua arrogância, cultura de violência e violação dos Direitos Humanos, o regime tem sido o principal estimulador da violência, quando manda as suas tropas roubarem, prenderem ou matarem, sanguinária e injustamente, os produtos de gente pobre e honesta, que sustenta com o seu esforço e trabalho os seus filhos, mulheres e maridos, por o governo, pese os milhões do petróleo não lhes dar, sequer subsídio de desemprego ou de maternidade.

As principais partes do "ditadorzinho líbio", Saif el Islam Kadafhi
Quando a reforma iniciou, o filho do líder, o indicado como seu sucessor foi a televisão em tom ameaçador, passar a mensagem, que vamos aqui respigar os seus pontos mais importantes., já as suas tropas, tinham batido, melhor assassinado, friamente mais de 8 dezenas de inocentes.
- "Ao invés de chorarmos os 80 mortos dos últimos dias, se for instalado o caos, choraremos centenas de milhares dos nossos irmãos e seremos obrigados a fugir do nosso país".
- "Temos duas opções: ou actuamos todos unidos para aproveitar esta oportunidade e introduzimos reformas, o nos envolvemos com o caos".
- "Isto vai ser pior que a Jugoslávia e o Iraque. Vocês verão".
- "Vamos, o regime, lutar até o final. Não vamos deixar que se riam de nós nem a Televisão Al Jazira nem a Al Arabia nem a BBC".
- "Vocês de Bengazi não têm petróleo. De que acham que vão viver? Querem que se passe o mesmo que na Coreia do Norte e Coreia do Sul?".
- "Muamar Kadafhi está em Tripoli e dirige a batalha. E todos estamos com ele e vamos defender a unidade da Líbia até que um só homem fique de pé".
- "Estamos numa volta perigosa da história do nosso país. Antes de que todo o mundo pegue as armas e haja uma guerra civil e uma divisão na Líbia faz falta um debate nacional, com o que Kadafhi está de acordo, para passarmos a uma segunda república".
- "O Exército desempenhará um papel essencial para restaurar a segurança, seja qual for o preço a pagar. Se trata da unidade da Líbia".
- "O inimigo exterior, com o recurso ao Facebook, se uniu com a oposição interna para imitar o que ocorre noutros países árabes".
- "Os meios de comunicação exageram no número dos mortos".
- "O Exército está com Kadafhi até ao final. O Exército não está acostumado a dissolver os manifestantes. E num acesso de nervosismo, houve os tiros".
- "Os líbios que estão no estrangeiro dizem a vocês que se levantem, quando eles e os seus filhos vivem muito comodamente noutros países... Logo serão os que virão aqui em aviões para vos governar".
- "Haverá novas leis e um debate nacional sobre uma nova Constituição que se pode abrir a partir de amanhã se estivermos de acordo".

No entanto face a todas estas ameaças veladas e promessas, do filho do ditador e seu putativo sucessor, o povo líbio de tão descrente, não as deu importância e disse não ter nada a negociar com um regime que durante 42 anos apenas olhou para o seu umbigo e adoptou políticas inspiradas na visão de um homem só. Em função disso e de notícias que lhe davam em fuga, Kadafhi foi obrigado a falar e fé-lo no seu palácio em ruínas.

AVIAÇÃO E MERCENÁRIOS DISPARAM CONTRA O POVO
O regime de Muamar el Kadafhi, incrementou desde o dia 21.02 a sua campanha militar de bombardeamentos e ataques terroristas contra as populações indefesas. Os pilotos do regime, recorde-se que até ao momento desertaram 8 pilotos, tendo dois com os respectivos aparelhos fugido para Malta, por se recusarem a lançar bombas contra o seu povo. As ruas de Tripoli estão a ser patrulhadas por mercenários, com alguns fiéis ao ditador, com o objectivo de perseguir e matar os opositores do regime. "Os mercenários e os pilotos estão a disparar contra tudo que se move, numa autêntica carnificinia. Kadafhi é um assassino, um ditador, que deve ser julgado por crimes contra a humanidade. É isso que o mundo deve saber e condenar, neste regime de loucos, que querem depois deles queimar a Líbia, como se fosse sua propriedade privada", disse ao F8, Hammed Hayun.

Muitos trabalhadores internacionais face a situação, continuam a aguardar pela abertura do aeroporto para partir, sendo a maior comunidade a turca, mais de 3.000 que dormem no local com a expectativa de saírem do sufoco de um país que está em chamas, com as comunicações telefónicas em mau estado ou bloqueadas e a internet cortada, pois a operadora a exemplo de Angola é do filho de Kadafhi... A possibilidade de comunicação com o exterior deve-se ao facto de algumas pessoas terem ships telefónicos de empresas telefónicas da Tunísia e do Egipto e acercando-se das fronteiras desses países, conseguem passar as suas mensagens para o exterior "A situação é muito confusa, o regime perdeu o norte e está a atirar no povo nas ruas. Há muitos cadáveres nas ruas, que não são recolhidos e o lixo, amontoa-se também, face a violência", denunciou ao F8, Sunafim Barei; acrescentando que Kadafhi, "está a fazer um verdadeiro massacre e política de terra queimada".

"VAMOS MORRER MAS VAMOS RESISTIR"
Um jovem engenheiro informático líbio, Raima Ali garantiu ao F8 ter sido alvejado com dois tiros, um na perna e outro no braço, condenando por isso, algumas facções do exército do seu país, que se transformaram "em caudilhos da política assassina de um moribundo líder que quer ficar no poder com o sangue dos filhos deste povo". Na sua opinião esta revolução já não tem recuo e estão afastadas, depois desta chacina, "toda possibilidade de negociar com um regime assassino. Nós vamos resistir, somos líbios, por isso vamos lutar e morrer por esta terra, chega de termos medo, andarmos escondidos como se fossemos ratos".

No entanto o medo se espalhou por todas as ruas das cidades ainda sob controlo de Kadafhi. "Tripoli, está irreconhecível, parece uma cidade fantasmas, os mercenários estrangeiros nem falam árabe e o seu aspecto é mesmo de matadores. Por isso afirmo que Kadafhi é um tirano e com o seu filho e seguidores, formam um bando de assassinos sanguinários, que não lhes vamos deixar fugir do país, pois terão de pagar estas vidas que estão a assassinar".

Aeroporto de Bengazi, destruído
A situação em Bengazi radicalizou-se por na manhã do dia 21.02, a aviação de Kadafhi, ter bombardeado a pista do aeroporto, para inviabilizar, qualquer tipo de apoio, a aquela que é considerada, no leste da Líbia, o bastião da resistência contra o regime. "Isto é a demonstração do desespero de um regime em agonia, pois nós estamos a avançar para o controlo de Tripoli, depois de terem caído, com a ajuda do exército e polícia que abandonaram o tirano, para além de Bengazi, as provincias de Musratha, Tobruk e Sirte, a cidade natal de Kadafhi".

Ben Wedeman, um dos poucos jornalistas ocidentais da cadeia americana da CNN que conseguiu entrar na Líbia, confirmou a queda de Bengazi e o avanço da oposição para outras regiões e que "o exercito de Kadafhi, não está a dispersar as pessoas está a atirar a matar, numa autêntica carnificinia". No entanto as zonas libertadas do jugo ditatorial, estão a ser, provisoriamente dirigidas por comités populares e organizações de defesa, para manutenção da ordem e das instituições, no sentido de não se instalar a anarquia.

Kadafhi quer destruir a Líbia antes de partir
Omran Mohamed Omran, dissidente líbio denunciou o facto do "regime de Kadafhi estar a utilizar mercenários contra o seu povo. Não é uma guerra civil. É um massacre de um homem que está sozinho e tem uma premissa na cabeça: eu fiz este país eu vou queimá-lo", denunciou este jornalista líbio de 56 anos que vive em Málaga, Espanha e é representante naquele país da Coligação 17 de Fevereiro, o movimento popular que liderou o levantamento contra o regime de Kadafhi.

"Os mercenários são africanos, nem sequer falam árabe, patrulham as ruas metralhando qualquer aglomeração de gente, atacando hospitais e saqueando os lugares públicos para desestabilizar criar a confusão", denuncia Omran, assegurando que os cidadãos líbios decidiram criar grupos de vigilância para proteger os bairros e as instituições de pilhagens e assaltos, para depois os incriminar. "É horrível. Kadafhi utiliza aviões contra gente indefesa. Tenho informação que os cadáveres são muito mais que as cifras que se conheceme não podem ser recolhidos por familiares e vizinhos, porque o regime montou informadores ao serviço dos mercenários, que quando accionados, vão rapidamente, atirar contra quem pretenda recolher o seu ente querido", sentencia.

A Coligação 17 de Fevereiro tem este nome, por ser o dia de início desta grande empreitada, quando teve início, em toda Líbia o Dia da Ira; a semelhança do que acontecera nos países vizinhos. "O que queremos é fundar um Estado com democracia, direitos humanos, liberdade de expressão, de associação de imprensa. Queremos um Estado moderno não um Estado que vive na idade média. Queremos viver no século XXI não no século X.", conta.

Divisões no Exército
Segundo informações em posse do F8, existem profundas divisões na estrutura do Exército o que está a possibilitar a queda de muitas cidades e tudo por no dia 19, ter sido ordenada a detenção domiciliaria do chefe do Estado Maior do Exército, Abubaker Yunas, contemporâneo de Kadafhi que com ele participou no golpe de Estado de 1969 que o levaria ao poder, por se ter oposto ao líder líbio, numa reunião Em que se previa o discurso do filho do ditador, na TV, no dia 20.02. Na altura, Yunas pediu a Kadafhi que se afastasse do poder para cumprir com as recomendações do povo, mas Kadafhi respondeu que antes queimaria a terra que ele mesmo havia feito florescer. Pouco depois Saif el Islam, sucessor indicado pelo pai, assegurava na televisão que a sua família lutaria "até que caísse o último homem".

Isto criou um grande desânimo nas tropas e muitos quadros intermédios tomaram a iniciativa de desertarem, para não atirarem as suas balas contra as populações de onde são oriundos. Por seu turno o comandante dos pára-quedistas, general Abdul Aftah Yunes, próximo de Kadafhi, foi feito prisioneiro pelos manifestantes que o entregaram a guarda dos juízes, que se converteram em símbolo dos protestos ante o regime. "Em vez dos governadores de Kadafhi, são os juízes que dirigem e administram os povos e regiões já sob controlo dos novos revolucionários, porque gozam de respeito junto das populações", informa Omran. "Kadafhi disse ao povo: ou o seu regime ou a morte. E, nós escolhemos Eleger a morte antes que Kadafhi, por querermos viver livres e em democracia plena no século XXI".

Kadafhi nervoso com a queda de Bengazi, afirma: "Não me vou embora, morrerei como um mártir

A aparição do ainda presidente líbio no 21 foi vista como um desespero, para tentar frenar a fúria dos manifestantes, que querem a sua partida imediata do poder, a elaboração de uma nova constituição a instauração da democracia e o fim da corrupção. Com uma roupa tradicional castanha e semblante agastado, não era o mesmo homem que se apresentava a discursar. "Eu não vou partir com esta situação. Morrerei como um mártir", justificou zangado na sua longa intervenção descompassada, em muitos momentos, obrigando a televisão a ilustrar com imagens, enquanto o ditador procurava os papéis ou o seu livro verde. A comunidade internacional e as cadeias de televisão, árabes, americanas e europeias, foram a base das acusações dos acontecimentos, pois na sua opinião "eles trabalham para o diabo. Este é o nosso país é o país dos nossos avós. Não vamos deixar que o destruam", afirmou.

O ditador não havia feito nenhuma declaração oficial desde o início dos protestos, a para dos meios de comunicação passarem as suas excentricidades, como breves aparições noturnos em diferentes pontos de Tripoli, para dar a sensação de controlo da situação, que então já lhe fugia pelas mãos. Neste discurso no seu antigo palácio e que é apresentado como símbolo de resistência, contra o bombardeamento americano de 1986, o líder líbio tentou minimizar a situação que vive o seu país com os restantes da região, igualmente assolados por manifestações, como a Tunísia, Egipto, Bahreim, Argélia, que forçaram ou forçam uma mudança de regime e partida dos ditadores com mais de trinta anos de poder. "Os jovens que protestam não são culpados", segundo Kadafhi, acusando a oposição e a comunidade internacional de estar a distribuir "droga e dinheiro, para que os jovens se manifestem. Conhecem alguém decente que participe nisso? Não há! É gente que se droga e se embebeda", justificou acrescentando que "os líbios são livres uma vez que o poder está nas mãos do povo", assegurou, para quem não se importa, que nasça uma nova República e nova Constituição, mas com ele a cabeça, deste movimento. "Não sou presidente, sou líder da revolução", disse negando-se, caricatamente, a seguir os passos de Ben Ali da Tunísia e Moubarak do Egipto.

Porque ao mesmo tempo em que discursava, a sua aviação e os mercenários que chegavam ao país estavam a bombardear as populações, de acordo com os dados fornecidos pelos manifestantes e a Human Rights Watch, que afirmaram que desde o dia 20 as autoridades só em Tripoli, assassinaram mais de 100 pessoas. "Os que se levantam com armas contra o país serão condenados a morte", garantiu o ditador, acrescentando que "nem sequer comecei a dar ordens de usar balas; se necessitarmos empregar a força, a usaremos".

E para a suja empreitada chamou os seus partidários a defender o regime e a lutarem contra "os ratos" que estão a manifestar-se. "A luta se levará a cabo rua a rua até que o solo líbio seja libertado. Os que querem Kadafhi, formem comités populares e atem estes jovens em casa", sugeriu o ditador, ao que em Angola constitui o Movimento Nacional Expontâneo, de apoio exclusivo as políticas e acções do Presidente José Eduardo dos Santos.

Na opinião de Kadafhi o encerramento dos portos e aeroportos se deve ao facto de tudo estar bloqueado com as manifestações, inspiradas, na sua opinião, pelos Estados Unidos e a União Europeia. "Não há combustível, as pessoas têm medo e o culpado da situação são os EUA. Os mesmos que destruíram o Iraque, o Afeganistão, a Somália... são os que entraram agora na Líbia (...) No vou permitir que a Líbia se converta numa Faluya".

Contemporâneos e militares abandonam Kadafhi
O grande receio do regime líbio prende-se com o facto de no leste e parte do norte, a oposição ter montado o seu posto de comando, aliado ao facto do exército egípcio ter reforçado as suas unidades ao longo da fronteira comum, conferindo este acto, não só mais segurança aos manifestantes, como temor ao regime de Kadafhi, depois de a província de Bengazi, a segunda mais importante do país, ter caído nas mãos dos manifestantes, após o exército e a polícia nacional, terem retirado o apoio ao regime e integrado as manifestações populares, em solidariedade as reivindicações populares.

No entanto pelos actos de violência e contínuo bombardeamentos às populações a ONU exigiu uma investigação internacional. "A insensibilidade com que as autoridades líbias e os seus mercenários armados disparam rajadas contra os manifestantes pacíficos é inconcebível", asegurou a alta comissária para os Direitos Humanos, Navi Pillay Pillay. O representante líbio nas Nações Unidas, um dos seus melhores amigos e que em 1969, com ele deu o golpe de Estado e o na Liga Árabe, Abdel Moneim al Huni, seguidos de mais 12 embaixadores nas principais praças europeias, bem como o ministro do Interior e mais 6 generais, 18 brigadeiros e 20 coronéis, anunciaram já o abandono de Kadafhi, juntando-se a revolução popular, contra a manutenção no poder do ditador, no poder à 42 anos, por esta razão reconheceu Huni, que: "o regime fracassou miseravelmente e Kadafhi devia abandonar".

Kadafhi o líder mais cínico
Qualificar Mouamar Kadafhi apenas como ditador excêntrico seria enaltecer a sua personagem. Primeiro, porque não só porque ele cumpre até o último preceito o manual do bom tirano (41 anos no poder, sem nunca ter sido eleito, conversão da Líbia numa coutada familiar, pretensões dinásticas, culto da personalidade, repressão minuciosa dos dissidentes e da oposição), que carrega um toque esquisitamente cínico na sua acção política. Este líder acusa sempre os outros de todos os males que ocorrem na Líbia, pese ser ele o guia da revolução, uma vez ter dito, que em 1977 entregou o poder absoluto através da "Jamahiriya", um sistema político da sua invenção aos órgãos populares. Na tradução por ele mesmo inventada significa "República das Massas"; e quando as coisas não funcionam a culpa, nunca é do líder mas dos órgãos e comités populares". Antes de chegar ao poder, através de um golpe de estado, Kadafhi era um simples capitão de 27 anos de idade.

Kadafhi é um político mais que excêntrico, pois faz coisas como a sua famosa falange de guarda-costas, supostamente virgens e com os seus camelos, ou ainda utilizar vestimentas singularmente exclusivas, mas carecer de limites quando tenta expressar um ponto de vista ou deseja permitir-se a um capricho: foi capaz de interromper uma reunião da Liga Árabe e colocar-se a urinar na sala, ou ainda comparecer num acto oficial maquilhado como uma Barbie com sapatos de tacão.

Falar de um "ditador excêntrico", mesmo que seja em termos relativos, corre-se sempre o risco de se chegar a sua intimidade. Kadafhi é também um dirigente astuto e pragmático, que soube abandonar a tempo o papel de mascote do Ocidente e máximo financiador do terrorismo mundial para converter-se num estadista elogiado em Washington e nas capitais europeias. Um diplomata francês definiu-lhe como "um kamikaze que jamais perde o controlo", enquanto um diplomata americano o considera como "inteligente, ponderado, apesar da sua aparência estúpida".

Diz a história que para se conhecer os homens muitas vezes deve-se rememorar a sua infância e juventude. Muamar Kadafhi nasceu a 7 de junho de 1942 num acampamento beduino próximo do porto de Sirte, numa altura .em que o país se chamava Noráfrica Italiana. A guerra, cujo fim se deu com a queda do império de Mussolini, deixou atrás de si um território desértico arruinado, com uma série de minas e que quase ninguém queria assumir a sua responsabilidade. Foi então que a antiga potência, com base em corredores internos, decidiu entregar o país a um rei, instaurando-se a monarquia de Idris I, homem considerado perfeito aliado das potências vencedoras da guerra. O pequeno Kadafhi, na altura era um beduíno desprezado pelos seus companheiros de classe. Alistado como militar na academia, absorveu os sentimentos que mais unia a sociedade líbia, no seu anticolonialismo furioso, tendo como ídolos Che Guevara e o antigo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser.

Assim no dia 01 de Setembro de 1969, liderou um golpe de Estado contra a monarquia, mesmo sendo um oficial intermédio na hierarquia do exército, como simples capitão do Corpo de Sinalização, sem armas a sua disposição; mas como tinha carisma junto de alguns dos seus companheiros, teve o apoio bastante para levar a sua empreitada avante e ser nomeado presidente aos 27 anos de idade.

Coincidência ou não a sua ascensão dá-se numa altura em que o país acabava de descobrir gigantescas reservas de petróleo de excelente qualidade, o qual permitiu a Kadafhi estabelecer um regime baseado em serviços sociais gratuitos (o nível educativo a esperança de vida são hoje os mais altos em África), inseridos no código moral islâmico no nacionalismo panarabista. Imitando Mao Tse Tung da China, outro dos líderes que admirava, publicou entre 1972 e 1975 três tomos do Livro Verde, em que expôs os princípios teóricos da jamahiriya, um sistema legislativo onde as massas se fazem representar, denominado como "democracia perfeita". Tão perfeita, segundo Kadafhi, que o presidente e chefe supremo das Forças Armadas no tem uma patente superior a de coronel, dado que numa sociedade como a Líbia, cujo poder era exercido, na sua concepção, directamente pelo povo, não tem sentido as hierarquias tradicionais.

Impossível detalhar a sua actividade diplomática. Convém recordar que tentou fazer uma união da Líbia com o Egipto, a Siria, a Tunísia e o Sudão. Kadafhi invadiu o Chade e apoiou os três tiranos mais sangrentos no continente africano; Bokassa na República Centro africano, Idi Amin do Uganda e Mobutu no Zaire, para além de ter ainda financiado sem qualquer discriminação ideológicas qualquer grupo guerrilheiro ou terrorista que pedisse dinheiro, apenas com a exigência de se apresentarem como "anticolonialistas" ou "anti-imperialistaa". A sua excentricidade levou-o ainda a participar em actos de terrorismo de Estado no estrangeiro, como a destruição de dois aviões de passageiros da UTA em 1986 e da Pan Am em 1988, para além de uma bomba numa discoteca em Berlim em 1986.

Em 1986 sobreviveu a um bombardeamento ordenado por Ronald Reagan, no qual viria a morrer a sua filha adoptiva Ana, de quatro anos de idade. Anos depois empreendeu, face as sanções a um caminho de reconciliação, pagando indemnizações as vítimas, oferecendo contratos petrolíferos, renunciando continuar a financiar qualquer grupo guerrilheiro e propondo-se combater o "terrorismo radical islâmico". Todas estas acções não chegaram a convencer totalmente o presidente, George W. Bush a recebe-lo, mas enviou a sua secretária de Estado, com quem viria a assinar o plano de compensação aos familiares das vítimas dos aviões abatidos, com o seu apoio, pese o facto de se achar terem sido os serviços secretos da Síria e do Irão, foi Kadafhi a assumir a responsabilidade do desaire. No entanto, em 2008 face a estes seus gestos acabou por ser convidado por Barack Obama a estar presente na Cimeira do G8. No seu sonho de grande líder mundial chegou a sugerir que israelitas e palestinos, fizessem a paz e partilhassem o mesmo país que passaria a chamar-se Isratina. Ao aperceber-se não ter sido levado a sério pelos dois visados, chamou-os "palestinos e israelitas são uns idiotas".

Os angolanos seguramente, conhecem muitos líderes na sua região com o mesmo retrato de Kadafhi.

Quatro décadas de poder absoluto
- 1969. Kadafhi com outros oficiais da esquerda do Exército dá um golpe de estado ao rei Idris I e instaura o Conselho Supremo da Revolução.
- 1973. Declara a Revolução Cultural para criar uma sociedade nova e instalar comités populares nas escolas, hospitais e na Administração.
- 1975. Kadafhi apresenta o Livro Verde, que expõe a sua original concepção de um sistema islâmico politizado, mas sem ser laico nem integrista.
- 1977. Proclama a Yamahiriya (República das massas), que instaura o Congresso Geral d povo e os comités revolucionários.
- 1981. Os Estados Unidos da América derrubam dois aviões líbios no golfo de Sirte, reivindicado por Trípoli.
- 1985. Duplo atentado terrorista nos aeroportos de Roma e Viena. Morrem 19 pessoas. EUA acusa o Governo líbio de estar vinculado com os terroristas.
- 1986. Atentado contra uma discoteca em Berlim frequentada por soldados norte americanos: 3 motos e 300 feridos. Como represália, aviões dos USA bombardeiam Trípoli e Bengazi, matando 44 pessoas, incluindo uma filha de Kadafhi.
- 1988. Atentado contra um avião da Pan Am que estava sobre Lockerbie (Escócia), matando 270 passageiros.

Dois líbios foram acusados pela justiça britânica, mas Kadafhi negou-se a entregá-los.
- 1992. A ONU impõe sanções económicas e diplomáticas a Líbia para que entregue os dois suspeitos do
Atentado de Lockerbie.
- 1999. Entrega os acusados do caso Lockerbie.
A ONU suspende as sanções contra a Líbia, que restabelece as relações diplomáticas com o Reino Unido.
- 2003. O regime líbio assume a sua responsabilidade pelo atentado e aceita indemnizar as vítimas. Kadafhi renuncia ao programa de desenvolvimento de armas de destruição massiva.
- 2006. Restabelece as relações diplomáticas e económicas entre EUA e a Líbia, que Washington tira da sua lista negra.
- 2008. Visita à Trípoli de Condoleezza Rice, a primeira de um secretário de Estado norte americano em 55 anos a Líbia, assinando um acordo para indemnização dos familiares das vítimas dos ataques aos aviões.
- 2009. Reino Unido entrega a Líbia um dos acusados do atentado de Lockerbie por razões de saúde.
- 2010. Acordo entre a União Europeia e a Líbia para controlar a imigração clandestina na Europa.

*Com AG, no Médio Oriente

quarta-feira, 2 de março de 2011

Secretário-geral da UNITA, Depois da greve de fome


K.Numa convida Dos Santos (a exemplo dos outros ditadores há mais de 30 anos) A ABANDONAR O PODER

Félix Miranda. Foto: Téo Cassule

Desde que Kamalata Numa, secretário-geral da UNITA entrou na resistência pacífica activa, simbolizada com a greve de fome na cidade do Huambo, que o seu nome entrou na pauta dos actos normais da oposição, tão carente de actos, mesmo com o blackout dos meios de comunicação social do Estado. A sua ousadia e acto nunca antes realizado por um dirigente partidário levou a que as águas se agitassem por bandas do partido no poder, levando mesmo que o seu secretário para informação, Rui Falcão, destapasse as acusações da oposição de monopolização e partidarização da média pública, com a negação do contraditório e a eleição da ameaça. Depois deste acto, a UNITA garante que o seu SG está a receber ameaças de vária ordem, umas mesmo de morte. “Todo homem tem de morrer um dia, mas nem todas as mortes têm o mesmo significado. Há mortes que não têm sentido. Por exemplo a morte de um ladrão que rouba a pobres para dar aos ricos e a morte de um tirano e impostor têm o mesmo significado, mas já é diferente a morte de um traidor e a de um cidadão inocente e benfeitor”. Instado a abrir o seu rosário, Kamalata Numa minimiza as críticas e diz-se comprometido com o processo para a implementação de uma verdadeira democracia e não pode perder tempo com quem está amarrado a ditadura de partido único, porque felizmente o seu partido já ultrapassou essa fase e não vive da fraude, da humilhação dos outros e da discriminação. F8 espera para ver, mas eis Abílio Kamala Numa, na primeira pessoa do singular.

Folha 8 - Senhor secretário-geral da UNITA, depois da greve de fome e das críticas que recebeu, como se sente?
Abílio Kamalata Numa – De princípio, fisicamente encontro-me com algumas sequelas que é próprio numa situação como esta; distúrbios intestinais e outras pequenas queixas, mas com o tempo serão debeladas. Actualmente estamos fortificados porque pensamos que Angola precisa de encontrar formas de luta contra este regime, respeitando a lei, claro, mas com firmeza de fazer sentir as populações de Angola de que elas estão a ser manipuladas por um regime que tem mais obrigação de responder pelos actos que tem levado a cabo do que estar a mentir a população que foi jogada na indigência. Espiritualmente acho que os objectivos foram atingidos e neste momento o debate nacional é diferente, as pessoas já começam a perspectivar de outra forma o percurso de Angola no futuro.

F8 – Está convicto que os meios da Democracia são suficientes e eficazes para mudar este estado de coisas em Angola, onde por qualquer coisa, lançam as forças de repressão na rua e fazem uso de medidas coercivas?
AKN – A revolução democrática em Angola não começou hoje. Mesmo quando em 1976 se ergueu uma guerrilha que se opôs ao expansionismo dos russos e cubanos em África, estávamos a lutar especificamente por objectivos de democratização de Angola. Foi um período de onde retiramos bastantes lições e também grandes experiências, este período estende-se ao contexto actual. Neste preciso momento a revolução democrática passou da UNITA para o povo e com maior responsabilidade. É mesmo o povo quem está mais interessado na democratização de Angola para que tenha melhores dirigentes e o país se desenvolva melhor. Portanto, os recursos que vamos encontrando pelo caminho são colocados e virados para este objectivo. A experiência de outros povos não são de descurar, mas também há outra experiência que é a nossa, com especificidades próprias. O próprio adversário vai nos dando armas que temos possibilidades de usar. Por exemplo: os dirigentes do MPLA são vulneráveis quanto aos aspectos ligados a corrupção, logo é uma arma eficaz que vai nos permitir combater este regime. E se este regime um dia utilizar a força para poder reprimir as populações, sugerida na forma musculada da intervenção do senhor Dino Matross, então teremos a certeza que eles próprios estarão a ditar exactamente o percurso que esta revolução irá seguir.

F8 –É sobre esta resposta do Secretário-geral do MPLA que me quero referir. Mas não acredita que este discurso amedrontou as pessoas depois do que se passou no Huambo?
AKN –Nós vivemos uma realidade muito dura há uns 10 anos para cá e psicologicamente isto vai tendo os seus efeitos no meio das pessoas, mas também há um choque com que as populações se confrontam. Neste momento o que está a contar é o nosso dia-a-dia, o que comemos, como conseguimos encontrar os recursos que nos permitam educar as nossas crianças, como podemos defender as nossas famílias na saúde, a forma como nos encontramos seguros nos locais onde vivemos, tudo isso vai desempenhando um papel na vida de cada um de nós. Entretanto, um indivíduo que está na sua casa, batem-lhe a porta e partem-lhe a casa. Um indivíduo que tem o seu terreno, deixado pelos seus ancestrais há bastante tempo, um dia depois é envolvido por estacas e o indivíduo vê-se espoliado do seu terreno... Tudo isso está a consciencializar o nosso povo com a certeza de que é preciso lutar contra isso.

F8 – Mas segundo a actual Constituição, tal como a Constituição colonial, prevê que a terra pertence ao Estado!
AKN – Foi-nos imposto! O MPLA começou por impor uma vitória eleitoral fraudulenta que teve os seus reflexos na elaboração desta Constituição onde puderam fazer passar tudo aquilo que quisessem e hoje se formos a fazer um Referendo veremos que o Não a essa Constituição ganhará, logo estou convicto que nas urnas seria chumbada ao nível de 90%.

F8 – Não acha que também tem muito a ver com aquilo que o Doutor Kaparakata disse há dias. Que em Angola o que há é um regime unipessoal. Tudo e todos dependem de uma única pessoa. Sua opinião?

AKN – As pessoas vão falando e esgrimindo conceitos diferentes de uma mesma situação. O que é bom reter é que no momento que lhe falo, não há ninguém que está seguro neste país... Mesmo os militantes do MPLA, se quiserem reivindicar um direito, vão ser esmagados como foram esmagados no 27 de Maio de 1977. Portanto, o que está em causa é o país mergulhado numa política de terror. É um homem que com o seu grupo subjuga o resto do país, já não querem saber se é MPLA, se é UNITA, FNLA ou população, para eles quem se colocar no seu caminho, só têm uma linguagem: dizimam...

Ditadura ou Democracia
Folha 8 – O que os políticos de todos os quadrantes têm de fazer para mudar Angola?
Abílio Kamalata Numa – Contra isso é preciso as pessoas imporem-se e, nós, equacionamos isso num único sentido: ou Ditadura ou Democracia.

F8 – Greve de fome no Huambo por continuar a ser a Praça-forte da UNITA, Bailundo tradicional ou foi ocasional?
AKN – Nada para além de denunciar a injustiça! Psicologicamente o MPLA de Eduardo dos Santos já se encontra na oposição, isso porque indivíduos que ganham com cerca de 82% não têm necessidade de instrumentalizar os sobas para não aceitarem que outros partidos façam o seu trabalho; não têm necessidade de estar a prender as pessoas; não têm necessidade de matar militantes de outras formações políticas. Neste preciso momento o MPLA está a massacrar cidadãos inocentes no interior do país...

F8 – Tem provas dos factos que afirma?
AKN – Para além daqueles que já denunciamos, só no ano passado a UNITA denunciou o assassinato de 10 cidadãos na província do Huambo, eles não eram nossos militantes, mas simples cidadãos que prezamos e criticamos a forma como perderam a vida. No dia 14 de Fevereiro, às 20 horas, foi barbaramente massacrado e assassinado, na comuna do Munhango, município do Kuemba, província do Bié, pela Polícia Nacional, o cidadão Abílio Silva de 22 anos de idade. Os policiais, inclusivamente, para além dos tiros, usaram obuses de morteiro 82, contra o local onde se encontrava o cidadão, pelo simples facto de reivindicar os seus direitos, ao um empresário português, seu patrão, que há muito não pagava os seus salários. Os trabalhadores foram fazer a manifestação como consagrado na Lei e o patrão foi queixar-se a polícia e esta em defesa de uma das partes começou a atirar morteiros, onde houve esta morte e 3 feridos graves, que ainda estão hospitalizados no Hospital Central do Bié, mas a comunicação do Estado isso não notícia.

MPLA quer matar Numa, Samakuva, Alcides Sakala
F8 – Na probabilidade de uma Revolução-social, acredita mesmo que o MPLA vai atirar contra o seu povo, como o ditador Kadafhi ou repetir o 27 de Maio?
AKN – A revolução social nunca parou e há inclusivamente indivíduos que possam estar a dizer que os angolanos não têm a cultura dos brancos da África branca.
F8 – Diz-se que a Revolução social que se produz agora no Norte de África não vai atingir a nossa região porque os pretos não têm esta cultura. Lembram que não foi por acaso que os primeiros a escravizar os negros, foram os árabes?
KN - Não é verdade! Estamos a falar do ser humano e o ser humano é igual. As coisas amadurecem e aqui também as coisas vão evoluir e mesmo se os actuais ditadores tiverem a veleidade de matar os dirigentes da linha da frente, isto não vai parar mais. Mataram Savimbi, deixaram Holden Roberto ir até ao fim, mataram o Mfulumpinga, andam a dizer que vão matar o Numa, o Alcides Sakala, o Samakuva, mas isso não vai parar mais... Quanto mais gente matarem, mais difícil a situação será. Por isso, queremos exortar os angolanos, sobretudo a Polícia Nacional e o Exército, saibam que dos três elementos constitutivos do Estado o mais importante é o povo, por ser maioritário e o detentor do poder que delega aos governantes. Por essa razão, estas duas instituições (FAA e PN), não podem proteger bandidos que matam o seu próprio povo. Não aceitem isso porque cada tiro que fizerem contra um cidadão estarão a matar os seus próprios irmãos.

F8 – Acredita na notícia de o MPLA estar a reforçar a Segurança Interna, convocando antigos operativos, para contrariar possíveis manifestações?
AKN – O que lhe posso dizer é que os angolanos tornaram-se maduros. Eles podem reforçar a Segurança Interna, mas tenho a certeza que muitos dos nossos irmãos que vão para ali, têm consciência que são angolanos e devem defender quem? O povo! Mas do outro lado conhecem a realidade dos indivíduos que num curto espaço de tempo ficaram bilionários. Onde foram tirar este dinheiro? Os ditadores estão a ir-se embora e depois ficamos estupefactos pela quantidade de dinheiro que roubaram, eles e as suas famílias, por isso tenho certeza que a alma angolana está a renascer. Todos nós sabemos que o dinheiro roubado, armazenado nos bancos, uma vez recolhido daria para saldar cerca de metade da dívida e minimizar esta vergonhosa miséria que o angolano pacientemente consente.

F8 – A UNITA está estática, continua a UNITA da Jamba, constitui ainda um alvo visível na qual se pode concentrar os canhões e destruir?
AKN – Não é verdade! Esta UNITA de hoje é uma UNITA que se tornou num estuário que vai ao encontro das outras forças e sensibilidades socioeconómicas. O que acontece é que em termos de oposição partidária, temos partidos que são o prolongamento do MPLA, fazem acordos a noite, aprovam constituições com o governo e muitos deles, os seus dirigentes recebem subvenções, até andam aí partidos que estão a dizer que serão maiores partidos da oposição. Tudo isso, em vez de se preocuparem em lutar para acabarmos com a ditadura neste país. É aqui onde dizemos que de facto a UNITA se tornou num partido indispensável para o país, mas ao mesmo tempo vai ao encontro daquelas forças que são patrióticas, interessadas em mudar o contexto actual.

F8 – Mas a UNITA, não consegue congregar à sua volta os tais partidos?
AKN – No passado tivemos alguns forums de concertação e digo com toda sinceridade que há partidos sérios. É muita pena que não sejam partidos com assento parlamentar. Não vou citar para não criarmos alvos desnecessários, mas há também partidos parlamentares de lamentar que estão muito colados ao MPLA. Por exemplo, a FNLA deveria fazer um pouco mais em relação ao 15 de Março, porque o 4 de Fevereiro, diz-se que é o início da luta armada por ter sido uma revolta, mas em Angola houve muitas revoltas...

F8 – Mas o presidente N´gola Kabangu lançou um apelo em volta disso.
AKN – As pessoas riem-se porque, desculpem-me, sou daqueles que sempre admirei o N´gola Kabangu pela sua fidelidade em relação ao Mais Velho Holden, mas agora sinto que a FNLA está um bocadinho a deriva e dá a impressão que está na muleta de outras forças. É muita pena que uma força tão importante e nacionalista como a FNLA possa soçobrar neste meio. Gostaria que de facto se recompusessem deste trauma que estão a viver. A FNLA é necessária em Angola e o povo olha para a FNLA com muito respeito.

HÁ necessidade de se refundar a UNITA e o MPLA
F8 – E a UNITA já se renovou?
KN -Como dizia o MPLA não pode ver a UNITA como no passado, mas sim ver-nos como a emanação dos injustiçados, intelectuais decepcionados, frustrados angolanos de todos os estratos sociais e crentes religiosos e muitos só não entram de forma mais visível na UNITA, por causa do medo que o regime incute nas pessoas, mas é só ver a nova geração que está a aderir e assumir responsabilidades na organização e andando a pé, sem as mordomias dos seus congéneres do MPLA, como passo a citar os jovens M´fumka Muzemba, a Filomena que agora é a presidente da UNITA no Huambo, o Mumbika, são todos parte da Nova Geração que está a surgir com muita força.

F8 – Uma ascensão natural ou forçada?
KN – Foi natural e espontânea. Acharam que era o momento de estarem aqui para puderem através da UNITA representar também uma franja importante da sociedade angolana, reivindicar politicamente os seus direitos e cá estão. Portanto esta UNITA de hoje é uma UNITA aberta que está para o povo, que vai lutar pela Democracia. Importa lembrar que para nós a guerra terminou definitivamente e é só ver e analisar os factos actuais, pelas declarações dos dirigentes, quem é que desde sempre quis e encorajou a guerra, quem urdiu a mentira que lançou os angolanos inocentes na morte e o país para a auto-destruição.

F8 – Ainda nesta esteira de abertura, não abertura. Dizem que a UNITA perdeu uma grande oportunidade de mudar seus símbolos e talvez seus ideários, para que o MPLA não continuasse a flagelar e a tê-la como bode expiatório de tudo quanto é miséria, instabilidade e incompetência. Quer comentar?

KN – Os que falam assim são adversários da UNITA porque a sigla UNITA é vendível e é aceitável neste país pela história que protagonizou. Os ideais pelos quais nos batemos nunca mudaram, estão lá e hoje são aqueles que toda Angola abraça: Unidade Nacional, Liberdade, Igualdade, Democracia verdadeira e participativa, que permite a crítica. Tenho certeza que as próximas gerações, talvez seja a geração a seguir a nossa ou outra, possam encontrar formas de adoptar a UNITA às novas realidades. Mas neste preciso momento a UNITA estamos bem, não precisamos de refundar o partido, quer nos seus ideais, como nos seus símbolos.

F8 – E quanto ao MPLA?
AKN – Não tenho nada a ver com o MPLA, mas que esteja interessado por aquilo que o MPLA faz em relação a Angola, isso sim. E é por isso que estamos a pedir que José Eduardo dos Santos faça o favor de abandonar o poder já! Há muito boa gente competente em Angola, mesmo no seio do MPLA que poderia dar outro rumo ao país. Agora se o MPLA muda a bandeira ou as siglas, isso é com os militantes do MPLA.

Desmobilizados e reformados abandonados
F8 – A actual direcção da UNITA é acusada de ter feito pouco pelos direitos dos seus ex-militares?
AKN – Não nos esqueçamos nunca, mas infelizmente, quem governa Angola desde 1975 é o MPLA e nós fizemos acordos com o seu governo e prevenimos todos os aspectos com a desmobilização dos militares e o MPLA propôs-se ou melhor assinamos documentos que obrigavam que esses militares tivessem direito as suas pensões. Infelizmente, de todos os acordos que fizemos o MPLA não cumpriu nenhum. Tivemos comissões de debate aqui para continuarmos a aprofundar a questão da reconciliação nacional, logo que o MPLA ganhou as eleições e fez a constituição, mandou parar isso tudo e pontapeou os direitos dos ex combatentes. Portanto, quem está a ditar as regras do jogo é o MPLA, mas infelizmente o Partido/Estado não faz isso só com os militares das ex-FALA, mas também com os das ex-FAPLA e do ex-ELNA e com toda a gente. Temos de encontrar um pólo de unidade com todas essas forças para continuarmos a exigir os direitos dos desmobilizados.

F8 – Acha normal este estado de mansidão como os ex-militares recebem essas injustiças e humilhações?
AKN – Tem havido algumas manifestações aqui em Luanda, no Lubango, Benguela, Huambo que vão ganhando a sua forma e tenho a certeza que se o governo não acelerar este processo, um dia vão ter a solidariedade de outros. Porque a gama de desmobilizados neste país desde que a guerra acabou é muito grande e têm as suas famílias, os seus filhos que agora já são homens e precisam de ser alimentados, tratados e educados. É importante que o governo reveja essa questão com muita responsabilidade e encontre soluções definitivas sobre isso.

As vozes críticas da UNITA Incubaram?
F8 – Dizem que as vozes activas, aquelas que realmente desempenhavam o papel da oposição, esfumaram-se, outros entraram na lógica do: primeiro ter dinheiro só depois fazer política. Quer argumentar!?

AKN – A opressão sobre o povo não pára e não vai esperar pelos políticos que ainda estão a encher os bolsos para depois virem defende-lo. Conhecemos muitos desses companheiros nossos que se entrincheiraram até muita das vezes quando falam parece que são a linha da frente do MPLA nas nossas hostes... Mas, de qualquer forma, não vamos perder tempo com isso, se foram financiados, alguns foram, também sentimos que a crise internacional varreu um bocadinho as empresas que foram criando e nesses últimos tempos o saco azul já não está a funcionar, mas de qualquer modo estes senhores têm de perceber que o povo não vai esperar por eles.

F8 – Como deputado, diz-se também que os debates são muito frouxos, não têm acutilância nem produtividade?
AKN – Não é bem assim, não posso falara pelos outros, mas sobretudo a bancada da UNITA tem se batido com engodo e galhardia e dizer mesmo que estamos de parabéns pelo grupo que temos e pela direcção do grupo que nós temos que tem sido muito bem orientado pela direcção do partido. Somos poucos, mas eficazes.

MPLA Reivindica a paternidade de Angola mas não é dono dela
F8 – Mas esta força não conseguiu fazer face à Rui Falcão que começou por insultá-lo, depois disse que a acção de greve de fome foi um exercício de “One Man Show”. Qual o seu comentário?
AKN – Tenho uma resposta muito pequena. Falcão é um mandatado. Eu dizia que o Rui Falcão não passa de um porta-bandeira e mais se o Rui Falcão estivesse na nossa pele, não estaria aqui, porque não é fácil viver na pele das pessoas que lutam contra uma ditadura, por isso o que ele diz e deixa de dizer é com ele... O mais importante é que estamos aqui na trincheira de defesa do nosso povo. O povo que está a ser oprimido pela destruição das suas casas, humilhado pela espoliação das suas terras, coarctados pelos seus direitos, aterrorizados por mortes desnecessárias, numa altura que estamos em paz. Desempregados ou empregados com salários baixíssimos, quando olhamos para algumas estruturas do Estado/ Governo, estruturas muito mal acabadas, muito mal feitas, tudo isso nos motiva a continuar a luta para que um dia tenhamos uma Angola que dignifica o próprio angolano.

F8 – Mas ainda assim a UNITA tem sido acusada de não ter um programa de governo, nem quadros capazes de serem alternativa…?
AKN – Primeiro, já temos estado a dizer que os quadros de Angola não são quadros do MPLA. Os funcionários não são propriedade do MPLA. Um dia vão trabalhar com a UNITA, com o PRS, com a FNLA ou um outro partido que vir a assumir o poder, pois são quadros da sociedade civil, porque até os quadros que estão nos partidos são a minoria. E não são os que estão aqui dentro, mas os que estão na diáspora. Temos muitos angolanos lá fora com uma formação muito refinada, um dia, todos eles quando sentirem que o país mudou, que o país permite segurança ao angolano, eles estarão aqui para dar o seu contributo para o engrandecimento de Angola. Sobre os programas que ostentam, se o programa que o MPLA tem é este, não vale a pena ter estudado. Casas descartáveis, estradas descartáveis, as pessoas roubam os bancos a toda hora e momento e ninguém diz nada. Os que roubam milhões andam a solta, os que roubam tostões, os coitados são exibidos como troféus na televisão.

F8 – É verdade que na sua qualidade de deputado está intimado a responder na Comissão de Ética do Parlamento.
AKN – Ainda não fui intimado, mas alertaram-me através da comunicação social, o presidente da Assembleia Nacional também dizia-me que tinham entrado documentos e a qualquer momento iriam chamar para responder na Comissão de Ética. A realidade é que há uma ditadura que quer impor-se sobre as pessoas, quer silenciar-nos a todos. Se eles querem utilizar a ditadura da maioria inventada para que eu perca o mandato de deputado, primeiro, eu não sou funcionário da Assembleia Nacional, eu sou funcionário do povo, fui eleito pelo povo. Também para dizer que, como deputados ou não, estaremos aqui na trincheira até que um dia de facto a ditadura seja extirpada do país.

F8 – Falando de ditadura, estando esta entrevista a ser feita no dia 22 de Fevereiro de 2011, data da morte de Savimbi, a UNITA sente-se órfã?
AKN – Quando vim para Luanda fui o último a aparecer. Cheguei no dia 07 de Maio. No aeroporto do Luena, o Coronel que lá encontrei, disse-me claramente: “General, estou aqui com as tropas com a missão de lhe levar vivo ou morto”. Pouco importa, os outros já cá estavam há mais de um mês, vim porque queria dar benefício da dúvida ao Presidente Eduardo dos Santos, porque no princípio precisava de alguém que fosse o pai dos angolanos, mas muito silenciosamente fui acompanhando o que se foi passando e após esses anos todos, compreendo porquê que José Eduardo dos Santos diz que ele é jogador de uma equipa e não de todos os angolanos.

F8 – Acha que assim é fácil e o jogador está pronto a aldrabar o árbitro.
AKN – As vezes cai, simula penalty e os juízes aqui marcam mesmo. Infelizmente José Eduardo dos Santos decepcionou-me porque colocou-se presidente de uma parte do MPLA, até nem é presidente de todo MPLA, apenas uma casta, aquela parte que ficou rica, que se endinheirou e não se contentando com isso, para melhor se proteger começou a impor a ditadura no país. Eu sinto que de facto, é necessário que surjam vozes que continuem a batalha…

F8 – Um Savimbi?
AKN – Não. O Doutor Savimbi foi no seu contexto, cumpriu com a sua missão generosamente e cumpriu também um homem como foi Holden Roberto. Mas estamos a falar do dia 22, data em que Savimbi desapareceu.

F8 – Agostinho Neto marcou também da melhor maneira a sua história?
AKN – Não o conheci bem, mas o 27 de Maio mancha imenso a sua história. O 27 de Maio foi fatídico e ele podia ter evitado isso como presidente de uma Angola que estava a nascer. E a mesma simulação do passado é a mesma que aplicaram em todos os momentos, que tentam aplicar agora, fazer crer que a UNITA cria a instabilidade e com isso justificarem a desgovernação.

F8 – Acredita mesmo na notícia que os antigos oficiais dos SINFO e dos SIM e de outros serviços ultra-secretos estejam a ser de novo recrutados?
AKN – As pessoas agora já têm outra consciência. Esses 9 anos de convivência, já deram para perceber que o MPLA mentiu muito sobre os homens e mulheres da UNITA. A UNITA da Jamba diluiu-se no seio da população, têm vizinhos, amigos e raríssimas vezes alguém se tivera queixado de um mau comportamento de alguém que realmente partilhou os ares na UNITA. Pelo contrário, são bons camaradas. Agora aqueles que beneficiam com este regime são eles que teimam com isso. Também nesta data, permita-me honrar a memória daquele que foi um grande combatente pela independência do nosso país, o mais velho Kalundungo que também faleceu hoje no município do Bailundo.

F8 – Qual a impressão que tem da sociedade civil?
AKN – Sinto que os próximos tempos serão decisivos e vão exigir maior concertação dos partidos de oposição com a sociedade civil e não só, elevar e elogiar o excelente e corajoso trabalho que vocês da Imprensa Privada têm desenvolvido, embora também muito penalizados, porque todos nós estamos interessados no mesmo objectivo, a mudança. Ai dos partidos na oposição que não perceberem a irreversibilidade desses ventos, porque a sociedade civil é maioritária e ela é que está metida em todo o sítio. Está na polícia, nas Forças Armadas, no sector público, o pai é militar, mas os filhos e a mulher são da sociedade civil, percebem as frustrações e os desejos daquela gente. É preciso incluirmos toda esta gente numa única frente que é mesmo necessário e que se faça com muita urgência.

F8 – Luisete Macedo Araújo coloca-se como uma militante fervorosa contra Dos Santos e foi uma das primeiras a se solidarizar em público com a vossa greve de fome. O género nesses casos tem alguma importância especial?
AKN – Primeiro quero felicitá-la por esta forma corajosa de actuar e como também outras mulheres apareceram, muito embora não se tenham manifestado de forma mais visível como é o caso da presidente do Grupo Parlamentar da UNITA Alda Sachiambo, a Dina Jamba e outras pessoas. Mas quero crer que a mulher trás muitas virtudes para a política. E tenho dito que atrás de uma mulher há uma criança e esta perspectiva faz com que a mulher tenha uma sensibilidade mais humana pelos problemas que grassam pelo país. Mesmo dentro do MPLA, tenho certeza que há senhoras da OMA muito conscientes da gravidade do problema.

F8 - Que opinião tem de uma outra mulher bastante acutilante na defesa do seu partido, a deputada Joana Lina. Dizem que não é desta vertente. Foi uma das poucas que tivera ameaçado caso a UNITA organizasse manifestação para o apoiar, dizia que seria a oportunidade para dizimar a UNITA!
AKN – Infelizmente também é uma outra pessoa de que não gosto falar, pois esta senhora quando eu fiz o meu pronunciamento sobre as datas nacionais, ela mandou-me um recado através de terceiros a dizer que a próxima se voltar a falar da mesma maneira, iria atirar-me um sapato. Primeiro é plágio, segundo se vier de pés tortos e com chulé, não gostaria muito. Para dizer que na última reunião dos líderes quando lhe disseram que eu estava em greve de fome, desejou-me morte. Dizia: “Se ele quer morrer que morra”. Aquela senhora é venal é só ver a forma como tentou tratar um seu companheiro de partido, o senhor Marcolino Moco, mas o MPLA tem senhoras muito mais competentes para aquele lugar.

F8 – Para terminar. Embora os tempos sejam outros, se lhe acontecesse o que sucedeu a Lech Valessa de sindicalista convidado a tomar as rédeas da presidência, aceitaria?
AKN – Não. Não gosto de ser governante. Tenho no meu sangue apenas uma força revolucionária.
F8 – Mas já leu a vida e obra do polonês Lech Valessa, até tomar o poder. Por outro lado, como é que perspectiva resolver os problemas do povo se não ambiciona alcançar o poder?
AKN – Eu nasci no dia 31 de Agosto, sou do signo Virgem; no nosso signo somos muito sensíveis ao sofrimento das pessoas por isso nos atiramos muito por estas coisas com muita paixão e total desinteresse. Se é uma fraqueza, aceito de bom grado, mas gostamos de organizar as coisas para os outros.
F8 – Assim vai ser sempre pobre?
AKN – Pobre! O que é que eu faço? Acordo, alimento-me todos os dias, venho para o trabalho, estou a fazer um esforço danado para que os meus filhos estejam todos formados e se estes quiserem um dia dar o passo de riqueza, que procurem.
F8 – Não vai na linha dos outros que primeiro é preciso ter riqueza para depois fazer política?
AKN – Na minha idade não me preocupo com isso. Na minha idade a maior riqueza que quero deixar é a Angola para os angolanos, a democracia e uma rosa na mão de cada filho, esta é uma paixão.

F8 – M´fuka Muzemba surgiu como presidente da JURA, protagonizando um facto inédito, ser um jovem do norte?
KN – O M'fuka tem toda a simpatia e apoio da direcção do partido. Ele chegou onde chegou graças o apoio, também da direcção, portanto nós quisemos dar um outro sentido a nossa existência como partido na mobilização da camada juvenil com jovens que conhecem este espaço. Ele viveu aqui, conhece isto, é esta juventude que vai protagonizar as grandes mudanças nos próximos tempos e, por isso ele está de parabéns e vai aprendendo, caindo muitas vezes, mas temos a certeza que está bem encaminhado.

AQUI ESCREVO EU. William Tonet


Quanto mais o regime adiar pior será direcção do MPLA mostra unhas de sangue
O desnorte, definitivamente, tomou conta de alguns dirigentes do regime e com isso o estalar do verniz. Ainda vai no adro a procissão no norte de África e Médio Oriente e já aqui, num despropósito (será), o secretário-geral do MPLA revisita uma frase dantesca de Oliveira Salazar: "EM ANGOLA E EM FORÇA", disse-o em 1961, mandando avançar militares e canhões com objectivo de atirar a matar, contra quem se lhes opunha, por falta de liberdade e após os levantamentos de 4 de Fevereiro, em Luanda e o 15 de Março de 1961, no norte de Angola, que marca o início da guerra de libertação. Hoje, meio século depois (50 anos), a história se repete, mas agora com um dirigente negro e angolano, Dino Matross, que tal como Salazar acredita, ter sido, o seu regime, predestinado a perpetuar-se no poder, ao ameaçar, desalmadamente, derramar sangue dos autóctones: "QUEM SE MANIFESTAR, VAI APANHAR!". Isso, para os angolanos conhecendo bem a natureza deste MPLA só tem uma interpretação: estes dirigentes não têm sentimento em relação ao nosso sofrido povo, porque para eles, as nossas vidas valem menos, que a de um dos seus cães de estimação.

Dino Matross esqueceu-se de dizer e no-lo perguntaram, porque carga de água o actual MPLA, quer violar de forma flagrante o artigo 47.º (liberdade de reunião e de manifestação), da Constituição da República de Angola (CRA), cujas prerrogativas, estivéssemos num regime democrático, em que o partido no poder aprovou o próprio texto, impeça que os cidadãos possam exigir mais LIBERDADE, DEMOCRACIA, MELHOR DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA, FIM DA LUTA CONTRA OS POBRES, FIM DO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO DOS GOVERNANTES E COMBATE CERRADO A CORRUPÇÃO.

Disse o segundo homem do MPLA, não acredito que Roberto de Almeida o faria, não haver razões para as pessoas se manifestarem, por termos saído recentemente da guerra e estar-se a reconstruir o país. MENTIRA. Tem a maioria razões para se manifestar. Eu tenho razões para o fazer, porque a pala da reconstrução existe muita discriminação e enriquecimento ilícito de uns poucos. A maioria não tem justiça, pois esta está ao serviço do partido no poder. A maioria não tem uma educação e saúde condigna, porque os filhos do Presidente da República e dos dirigentes, não estudam nem se tratam no território. Ora ao abrigo do art.º 47.º da CRA, eu e os meus filhos, com os vizinhos, alguns dos meus colegas, alunos, amigos e consofredores podemos, desarmados e pacificamente, manifestarem-se reivindicando MUDANÇA, face à actual política discriminatória do regime. Este acto é legítimo, por constitucionalmente consagrado, já o inverso; MANDAR BATER (ASSASSINAR), soltar os assassinos, para investir contra populares que acreditam ou têm de se subjugar as leis que o próprio MPLA aprova, não é verdadeiro. É um mau exemplo Dino Matross estar a seguir o exemplo do filho e de Muamar Kadafhi de terem contratado bandidos e mercenários, bem como a aviação para atirar a matar contra o seu próprio povo. Quando assim se age, não estamos na presença de dirigentes, mas de assassinos, pois é o que se diz hoje, serem o líder líbio e o filho, que se querem manter no poder, pelo sangue do próprio povo.

Este MPLA tem o marco do fim da guerra, disse-o Dino Matross, como início de uma nova era, esquecendo-se que os países democráticos fazem-se ou renovam-se, a nível das projecções das suas políticas em quatro anos, período, geralmente, de um mandato eleitoral. Compare-se o que fez o Presidente da República de Angola em 8 anos e Luís Inácio Lula da Silva, em igual período no Brasil. São muitas as diferenças, para além de Lula ter realizado e disputado duas eleições, sem batotas e fraudes grosseiras, ter pago a dívida externa do Brasil ao FMI, ter aumentado o salário mínimo, reduzido o desemprego, não ter feito com dinheiro público os seus filhos e amigos do Partido dos Trabalhadores milionários e por isso saiu e bem, com uma taxa de popularidade de cerca de 80 por cento.

Por tudo isso e mais, com a sombrinha da Constituição tenho razões de manifestar-me, publicamente e reivindicar direitos que me são surripiados todos os dias, com a agravante de, desde o fim da guerra, este MPLA não tem combatido a pobreza. O MPLA COMBATE OS POBRES, partindo as suas casas, retirando os seus terrenos, afastando-os das cidades, para dar aos novos-ricos, na generalidade os filhos da corte. Uma grande diferença do que fazia Robin dos Bosques, que roubava aos ricos para dar aos pobres.

Tenho razões, para me manifestar, por o regime não pagar as dívidas aos empresários angolanos, muitos, os discriminados do próprio regime, pois só eles podem ser bem sucedidos, levando-os a falência ou ao suicídio, mas beneficiar os estrangeiros ou os mais bajuladores e isso foi dito, por alguns na reunião do MPLA, com os empresários do MPLA, realizada no dia 22.02, em que muitos apontaram o dedo a direcção de lhes terem, inclusive dado dinheiro, por debaixo da mesa, entenda-se corrompido e, depois, nikles de negócio... Como não se manifestar, quando os empresários de sucesso só têm uma cor política e na maioria o seu êxito está relacionado com a locupletação do erário público? Os actuais dirigentes, que se convencionaram o início da revolução como socialistas e proletários, enganaram todo um povo, pois transformaram-se da noite para o dia em milionários proprietários, sem terem mesmo uma lojeca para justificar os milhões nas suas contas bancárias.

E quando alguém os questiona, sob esta postura ou a dificuldade, não sendo do sistema de ter acesso a financiamentos e oportunidades o caminho é uma campanha de diabolização, a abertura de processos dos mais escabrosos, a prisão e o assassinato, uma postura, muito parecida com a recorrida por regimes declaradamente ditadores, que acreditam que a exibição da força seja a melhor receita, para se travar com as mãos, os ventos da mudança, que inevitavelmente chegarão a Angola.

Dino Matross, até chegou a ser uma referências no início da revolução, eu mesmo ao longo da minha caminhada tive-o como exemplo, mas tenho de reconhecer e confessar-lhe está sua declaração, decepcionou-me, por ser uma ORDEM DE MORTE, aos esquadrões assassinos que por 50 dólares, não se importam de atirar contra cidadãos inocentes. E, é-me mais preocupante, porque me recordo da minha estúpida prisão em 27 de Maio de 1977, por não saber se a decisão partiu só do Cajó, meu canoa do campo de São Nicolau ou de algum dirigente superior a si ligado. Esta é infelizmente parte da história negra da actual direcção do MPLA, que se mantém no poder, subindo pelos ombros e cadáveres de muitos dos seus camaradas e povo inocente.

Em momentos sensíveis as grandes orientações têm de ser dadas por pessoas ponderadamente responsáveis, para não se incendiar ainda mais a pradaria. Ninguém mais, diante da pobreza e do desemprego a que está votada a maioria se deixa iludir por um "simpático dirigente". A quem diga mesmo que exaltar, por estas alturas o dicionário da mentira da vigarice e da imbecilidade é mais um rastilho, nos corações discriminados das grandes massas populacionais. A política tem de saber afastar os governantes incompetentes e ouvir o clamor popular ao invés de os ameaçar de morte, contrariando o refrão comunista de: O MPLA É O POVO E O POVO É O MPLA", se assim é como mandar o povo ser batido pelas tropas? É esta postura arrogante e ameaçadora que está a destruir um país que tinha tudo para dar certo, com base nas suas populações e povos generosos e sacrificados, pese as riquezas de vária ordem no seu solo e subsolo, apenas confiados a um pequeno grupo do poder, que alimenta a corrupção, na mesma proporção que aumentam os pobres. Se realmente há justiça, devem ser rigorosamente julgados todos os culpados sem omitir os governantes que se aliaram nesta senda de agravar a vida dos autóctones angolanos que não vêm outra vida de resgatar a esperança manifestando-se contra os crimes cometidos todos os dias contra os cidadãos dos nossos povos.

Angola só será um país de todos autóctones, quando novas lideranças tiverem capacidade, diante do seu mapa-vivendis, malhado por vários povos Bantus, que o habitam, discutir um PROJECTO PAÍS. O que somos. O que queremos. E para onde vamos. Estes pressupostos são importantes para se definir o rumo a seguir. O contrário é trilhar os mesmos carreiros do colonialismo português, que ousadamente, acreditou que seria perpétuo o seu consulado por estas terras de Nzinga e Mandume.

Estamos a viver sob novos tempos, temos uma nova ditadura no mundo a DEMOCRACIA DO PETRÓLEO. Ela é pobre, mas é a que alimenta regimes que se perpetuam no poder com a força do fuzil e que resistem a mudar o sistema político.

Por tudo isso, quando a verdadeira manifestação sair, eu vou estar lá a gritar com todas as minhas energias ciente ser um DIREITO CONSTITUCIONAL, art.º 47.º, mas sem a ingenuidade de não estar preparado para receber a bala de um dos tropas, polícias ou bandido, que recebeu bem o recado do secretário-geral do MPLA, Julião Paulo Dino Matross. Foi assim em 27 de Maio de 1977, mas no século XXI, o resultado pode não ser o mesmo, seguramente.