quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dois deuses. Um no céu e outro na Igreja do Nosso Santo Petróleo


«Em 1755 soube do terramoto em Lisboa, onde morreram umas trinta mil pessoas. Ficou revoltado ao saber que os franceses consideravam aquilo castigo divino. Lamentou a desgraça do destino dos vivos em um poema. Voltaire sempre lutou contra o preconceito e as superstições, preferindo em lugar delas a razão e a cultura elucidativa. A adoração a um Ente Supremo e a submissão às suas leis eternas, sem conhecê-las por completo, resulta em rituais que não fazem sentido, não tem eficácia. Os preconceitos, para Voltaire podem ser maus, medíocres, ou ter um fim útil, como amar o pai e a mãe. Preconceito é uma opinião desprovida de julgamento.» In Voltaire, 1694-1778.
A agitação das ondas marítimas arrasta estas margens que nos desfalecem, mas se renovam pelo incessante temporal. É assim a vida de todos os nossos dias e de todos os tempos.
Choveu, as pessoas refugiaram-se, silenciaram. As árvores, parece que compraram novas vestes intensamente verdes. Estão da cor mais agradável que a Natureza nos oferece. Amainou, e as intempéries humanas regressaram ao ruído, à barulheira habitual, infernal, como que afirmando que é apenas o que sabem fazer.
Durante toda a nossa vida lutamos para não perdermos os momentos que passam por nós velozmente. Mais tarde vemos com angústia que não conseguimos recuperar nenhum.
E tudo ao nosso redor contempla o sonho da independência ainda não realizado. Sim! Esse sonho que ainda recorda a beleza da tua paisagem, e aguarda ansioso que regresses e outra vez o despertes. E nesse sonho segui as tuas pegadas. Sente-se a tua terna nostalgia, desejo forte que regresses, porque tudo está tão descontinuado, acho que sem esperança. Que voltes com a vela da tua alma e que nos ilumines. Ah! Como é encantador o teu silêncio, tão revelador do segredo das esfinges egípcias.
Mesmo assim encanta-me sempre acordar pela claridade diurnal e ouvir a ópera pardal. Levanto-me e contemplo o que resta do verde ainda não destruído pela democrática especulação imobiliária.
Insistimos no caminhar desta estrada que nos conduz sempre ao mesmo destino, porque ainda não divisamos, aprendemos a construção de outra via alternativa que nos liberte.
Normalmente antes de nos deitarmos lamentamos que lá se foi mais um dia. Como se apenas vivêssemos para isso. Parece que perdemos a coragem para dizer: tantos devaneios vividos nestes dias perdidos e tão corrompidos.
Quanto mais avançamos no tempo rumo ao futuro, mais ferozes destruidores nos mostramos. Creio que é isto a que ainda chamam de civilização. Receio que estejamos a destruir definitivamente o amor.
Sonhamos muito que voamos, o que nos dá imenso prazer e liberdade. Mas quando acordamos verificamos frustrados que tudo não passou de mais um sonho. Ao dormirmos outra vez, não desistimos do sonho de voar.
Vejo o desplante da bajulação dos nossos bispos ao deus do céu e da nossa terra silenciosa dos desventurados em geral e da espoliação desenfreada em particular
Enquanto as sem pátria soterradas pelos escombros da vida, do viver ainda não independente, porque essa coisa da felicidade tão apregoada revelou-se a mais atroz mentira de toda a História de Angola e também do mundo. Pois, elas continuam ainda prisioneiras na mina do sofrimento que se chama Angola. São as mulheres nas ruas que já perderam o destino, as mamãs, as zungueiras soterradas pelos escombros da luta de libertação nacional da espoliação na selva capitalista que se chama Angola. Porque num regime verdadeiramente democrático a existência de banqueiros é absurda, bizarra, porque junto aos supermercados abundam eleitores nos caixotes do lixo para conseguirem sobreviver nas sobras da democracia.
Custa a acreditar mas é verdade: duas carrinhas dos fiscais da Ingombotas seguem em cortejo tido como geralmente fúnebre. O que segue em frente impõe o ritmo da velocidade. Segue com meia dúzia de caixas de gasosa das espoliadas dos rendimentos não petrolíferos, mortíferos. Mas é impressionante: um dos fiscais vai em pé com a AK empunhada ao alto. Começou outra espécie de guerra não declarada contra a população?! Lentamente ou rapidamente aproximamo-nos da Somália?!
E onde ainda houver um quinhão de terra apetecível ou não, a FAMÍLIA lá estará, lá espoliará. Já não há povo, isso era naquele tempo inventado da luta pela independência, e agora duramente subjugado, vigiado e discriminado política e socialmente pela grandiosidade dos comités de especialidade.
O silêncio teológico dos nossos bispos comunga-se, comunicativo: como o governo nos apoia no Santuário da Nossa Senhora da Muxima que será canonizado na romaria mundial da Maria, faremos e apoiaremos a cem por cento os nossos crentes fervorosos governamentais para instituírem, decretarem em novos moldes que: Angola é e será para sempre um soberano santuário mundial. A população será subvertida – não quer nada com a Igreja, daí o caminharem massivamente para a ancestral feitiçaria usurpada – obrigada à submissão, à escravidão divina do dízimo obrigatório. Deus agradece e retribui imenso o gesto altruísta do poder actual, nosso irmão na fé de Cristo. Com Deus nos nossos corações, Angola é e será sempre sem vontade própria trincheira firme dos santuários em África e no mundo.
E já ninguém perde mais tempo com discursos de qualquer governante, porque já se sabe de antemão que são mais mentiras. Estas são tantas que já não existe mais lugar onde as colocar. E a população em uníssono brada: «Eles roubam-nos para manterem os seus negócios ilícitos, e nós roubamos para sobrevivermos do total abandono a que estamos submetidos.»
Eis o navio angolano a navegar sob o vulcão dos tumultos dos espoliados petrolíferos. E os aliados estrangeiros apoiam, que o PIB está na estratosfera.
Angola, pelas suas características peculiares divide-se em dois PIBs. Um petrolífero e palaciano. E outro sem petróleo, o das massas populares mais favorecidas pela miséria. Ou melhor dito, um PIB para estrangeiros, externo. E outro interno, ou para mwangolés. Acho que a economia é a ciência do ilusionismo. E os economistas, claro, são exímios ilusionistas, porque fabricam carradas de ilusões. São máquinas que nos distorcem a realidade, logo não são reais, são virtuais.
Ao menos se os nossos (?) bispos da Igreja reivindicassem, nos apoiassem, esta nossa outra vez miséria já se teria evaporado. E a nossa política da oposição atira-nos de vez em quando com um comunicado, e o poder ri-se, e os também outra vez inglórios escravos repetem-se: «Ah! este petróleo da negra escravatura.» Mas, a quem interessa Angola ser o principal produtor de petróleo da África se não consegue fornecer energia eléctrica e água. Estas ociosas coisas estão tão tiranizadas.
Declaração bispal: lutaremos, faremos de Angola mais um etéreo santuário mundial, onde vamos mergulhando neste paraíso à beira de poços petrolíferos petrificado. Como bem sabem, isto é Angola… e contudo ela não se move.
Será que finalmente se conseguiu o tão mais esperado feito histórico… o governo mundial de idiotas?! Este é o tempo em que os idiotas finalmente conseguiram tomar o poder. Estão em tudo… e por todo o lado. É só ver o que se passa na actividade bancária. E creio que puseram qualquer coisa na água para tornar os povos dóceis, como cãezinhos de trela.
Sinto-me na Bastilha, sentado ao lado do meu Voltaire. Estamos perdidos neste espaço, dos paços deste tempo com ausência total de gravidade, sem os pés no chão e com as cabeças no ar. E neste asteróide falta-nos tudo. A sabedoria da miséria, nada disto nos falta. Os novos navios negreiros estão encalhados porque as potentes promessas de navegação provocaram-lhes rombos nos cascos das proas que estão indirigíveis. Carregavam a bordo o crescimento económico dos fardos das roupas usadas. Os vendedores das ruas não conseguirão vender as sobras do PIB que aguardam sair do inconsciente subdesenvolvido. As correrias da fome dos dragões perseguidores transformam as ruas em campeonatos de atletismo. E sem oposição o poder eterniza-se em palácios que mais parecem cemitérios abandonados. A vida faz-se a andar, mas para caminhar é necessário um rumo. O crescimento acidental afecta o visual da nossa falsa existência. Existir para servir o mais distante, nunca o mais próximo. A democracia é para pensar, não para imitar. E nada muda, estão todos nos mesmos lugares. Ainda não teclamos nas máquinas, martelamos-lhes porque a isso nos obrigam. Apesar dos enfeites superficiais ainda não atingimos a profundidade abissal desejada. As vozes repetem-se em cascatas cantadas. É este o pão que os santos amassaram. Os patriotas dos casebres desalojados cumprem o mandato da democracia mural, ainda não rural, marginal. E os ratos: «Não há sobras para ninguém! Estamos isentos porque perdemos o prazo da validade do viver.»
A Rádio Mais (?) e a censura a Rafael Marques, 15 de Outubro de 2010. Movido talvez por um impulso misterioso, deu-me para escutar a Rádio Mais. Como o noticiário da BBC das vinte e uma trinta horas não demorava, faltavam dez minutos, aguardei. A locutora de serviço da BBC falava do discurso do Presidente, Senhor, José Eduardo dos Santos, na sua pioneira intervenção na Assembleia Nacional, onde dissertou sobre o Estado da Nação. Fiquei muito surpreso, confesso que não queria acreditar, quando a locutora anuncia que Rafael Marques vai tecer comentários sobre os números apresentados pelo Presidente. De repente, a emissão desaparece, talvez pela intromissão na frequência de algum disco voador. O silêncio inexplicável continuava. Surge um comentador qualquer com um tema a despropósito para entreter a audiência, mas do Rafael Marques nada. Acho que foi abduzido por algum extraterrestre. Nem uma palavra se ouviu para justificar o corte de tão inóspita censura. Mas que regresso vertiginoso ao colonialismo. Esta continua a ser a democracia do fingir. Quem nunca foi democrata, por mais vestes e disfarces que use, nunca o será. Não são pessoas que nos governam, são deuses. Entretanto as forças progressistas da FRELIMO desejam impor o tempo dos mastodontes, os campos da morte da reeducação.
Houve uma oportunidade soberana para acabarem com a escravidão, perderam-na, agora e futuramente é expressamente difícil dela fugirem.
«O telemóvel está desligado ou fora da área de cobertura.»




quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Caixa de Chifre Preto. Crónica histórica romanceada (11)


António Setas

Após averiguação, concluiu-se que elas não vinham de sítio nenhum, eram próprias, incógnitas da terra, vá-se lá destrinçar o trigo do joio numa cidade em que o brigão se acasala com o patrão! Chamaram à barra o Silva Franco.
«Explique-nos o que se está a passar, senhor tenente-coronel, de onde vem o dinheiro do seu escravo?» O tenente-coronel apenas confirmou o que sempre tinha dito antes, que o Manoel “podia fazer a obra que quisesse” e que acreditava que o dinheiro “fosse por conta do que o irmão do preto enviava do Brasil”. Perante esta resposta tão amigável o juiz interrogou-o sobre a natureza do estatuto do réu e sobre a origem dos 45 mil réis que tinham servido para comprá-lo ao Henrique da Matta. A esse respeito, Silva Franco confirmou que o Salvador tinha ido procurá-lo com “uma caixa de chifre preto encapada em um pedaço de pano e amarrada com um mastro vermelho e lacrado e no fundo uma carta lavrada” juntamente com o dinheiro que o seu irmão mandara para fazer o resgate do cativeiro. Em seguida, o preto não se quis ir embora e ficou em sua casa a trabalhar como cozinheiro. Apesar destas declarações, que levaram o juiz a concluir que o Manoel de Salvador não podia ser escravo porque tinha apresentado carta de alforria e pago o resgate, a verdade é que durante todo o decorrer do processo, tal como ficou estabelecido no translado dos autos, o tratamento dado a Salvador foi o de “ o réu escravo do tenente-coronel”, expressão que ia mais longe do que o significado dado pela sua primeira leitura, pois englobava uma relação escravo-dono complexa, denotando, no mínimo, uma estreita cumplicidade entre os dois homens. Assim, no momento em que eles foram confrontados a respeito dessa relação, e depois do juiz ter perguntado ao Salvador se ele era ou não escravo do tenente-coronel, o Imbangala respondeu candidamente, “Eu sirvo ao tentente-coronel como um escravo, mas sou tratado como um forro”. (!)

À barra também foi chamado Henrique da Matta, o caixeiro da Companhia de Pernambuco, primeiro dono de Salvador. O seu testemunho foi um desastre para este último. Nele alardeavam-se factos comprometedores relacionados com os quilombos (mocambos) brasileiros, essas cidadelas erguidas no sertão, cercadas de estacas, fossas e labirintos, entradas falsas e armadilhas, para servir de refúgio e base de acantonamento de escravos fugitivos (os quilombolas). No século XVIII havia mais de 125 quilombos só na capitania de Minas Gerais, na Bahia muitas outras, e esparsas pelo território da colónia portuguesa da América eram centenas, cada uma albergando um número variável de quilombolas, entre algumas dezenas e mais de mil por quilombo. No interior destes, além das casas dos quilombolas, destacavam-se por vezes construções como a “casa do tear”, a “casa de pilões”, a “casa do conselho”, e a “casa de ferreiro”, por vezes mesmo, a “casa do rei”. Estas casas estavam localizadas no centro dos quilombos e separadas das demais. E dentre os atributos de cada uma delas, ressalta o prestígio atribuído à “casa do ferreiro”, que aponta para uma evidente referência à importância dada em África, nesse tempo, ao trabalho do ferro, fundamento em Angola, por exemplo, de um dos títulos políticos mais importantes da África Austral, o ngola a kiluange. Assim, tudo leva a crer que os quilombos se organizavam segundo um teor político-cultural africano. E em alguns deles havia mesmo um rei ou uma rainha, a quem o restante povo devia obediência. Quer dizer que esses pobres de Deus, fugidos de um cativeiro desumano, indigentes ao mais alto grau, reagrupavam-se em zonas retiradas do mato americano e tentavam reproduzir uma sociedade tipicamente africana, provavelmente com os seus lemba dya ngundu, makota e ilamba. Mas, apesar de alguns deles terem crescido a pontos de se tornarem ameaças para os colonos instalados nos seus arrabaldes, a sua expansão nunca foi muito mais além dessa temida ameaça.
Ora muito bem, o problema era que o Manoel de Salvador tinha em 1765, portanto numa altura em que ainda estava no Brasil, contribuído para a destruição do quilombo no Buraco de Tatu, na capitania da Bahia. À primeira vista esse lance até talvez merecesse uma medalha, caso a sua cor de pele fosse um pouco mais clara. Só que, ao tempo, sobraram dúvidas de que as razões que o tinham levado a colaborar com as forças armadas portuguesas estivessem mais ligadas a um acto de vingança do que a uma qualquer anuência ao espírito do conquistador. Em boa verdade ele tinha desaparecido de casa do senhor da Matta coisa de um ano antes e aparecera-lhe, depois de todos esses meses de ausência, num estado lamentável, sujo e ensanguentado, a clamar perdão, e a justificar a sua fuga com um resgate de que teria sido alvo por parte de um comando de quilombolas desse mocambo, que, por ele ser pouco mais ou menos assimilado, tinham medo que desse com a língua nos dentes e ajudasse as autoridades nas buscas que sem dúvida fariam no mato para encontrá-los. Ora essa razão deixava supor que o Manoel, antes de ter sido raptado, teria de livre vontade acompanhado os ditos quilombolas ao sítio onde eles já se tinham instalado. Que não senhor, que não era verdade, eles tinham era falado desse sítio, o do Buraco, ele só estava ao corrente por ouvir dizer. Por fim, o senhor da Matta aceitou as explicações, tratou dele e, mal o homem se recompôs, organizou-se a expedição que acabaria por encontrar o quilombo do Buraco de Tatu, aí com umas vinte ou trinta casas de pau a pique e teto de capim e, no centro, três casas grandes, a do tear, a do ferreiro e a do rei, com oito escravos escondidos, nem um a mais. Todos os outros tinham fugido.

Nas suas declarações ao juiz Nunes Portela, Henrique da Matta insistiu sobre todos os pormenores que fossem desfavoráveis ao Manoel. Depois de ter relatado esta lograda tentativa para capturar os escravos do Buraco de Tatu, acrescentou que muitas coisas estranhas se tinham passado durante a prolongada ausência do escravo, antes de ele lhe ter aparecido a clamar perdão com a sua estória esburacada. Primeiro, só depois do seu desaparecimento de casa é que os escravos das fazendas do interior, pertencentes às capitanias de Ihéus, Salvador e mesmo de Minas Gerais, também começaram a fugir e a levar consigo os melhores elementos das plantações, quase todos de origem “angola”; segundo, em quase todas as fazendas aparecia uma ou outra pessoa a dar conta da presença a um dado momento de uma negra muito bonita que dormia com o chefe dos jagunços e depois, de repente, deixava de aparecer, mas deixava sempre atrás dela uma caixa de chifre preto agarrada a um mastro vermelho e lacrado; terceiro, antes do Manoel ter sido vendido ao capitão do exército Gonçalo Fernandes por 45 mil réis, já ele, Henrique da Matta, tinha pensado enviá-lo para o Rio de Janeiro “junto com outros escravos também ladins (...) que os ditos escravos lhe tinham furtado cerca de duzentos mil réis de miçangas”.
Embora todas essas alegações não fossem abonatórias para a defesa de Manoel de Salvador, provas formais de roubo em casa do Surdo não havia. Porém, nesta altura do processo judicial ainda a procissão ia no adro, porque, pelo imenso alarde feito em Luanda a respeito deste caso insólito, quase inacreditável numa sociedade sustentada pelo dinheiro da escravatura, apresentaram-se como testemunhas 54 pessoas, exactamente, cada uma delas com queixas que pesavam sobre a conduta de Manoel de Salvador. Cinquenta e quatro pessoas que até essa data se tinham mantido caladinhas, de nada se tinham queixado, mas que agora, saltando sobre essa estupenda ocasião de verem os seus nomes publicitados por quase todas as bocas luandenses e retirarem algum benefício com a sua queixa, se apresentavam diante do juiz como vítimas dos pecaminosos feitos do escravo. De toda essa gente, incluída na lista de 62 cidadãos referidos pelo processo dos autos da devassa sobre Manoel de Salvador, contavam-se 16 logistas, 5 ajudantes de logistas, alguns alfaiates, na sua maioria originários do Rio de Janeiro, 10 militares, que também negociavam em tecidos e outros produtos, e uma variegada mistura de oportunistas de toda a índole, que procuravam neste acto público um meio de satisfazer as suas pretensões a algum protagonismo. A maior parte deles “vinha apolentar-se em cabedais”, e alguns, em todo o caso, vieram a ser no futuro os mais ricos comerciantes de Luanda, como por exemplo, o João Barbosa, então com 15 anos de idade, citado como testemunha nos autos por ter vendido uma catana ao Manoel. Esse rapazote, declarado como assistente da loja do tio, Francisco Rodrigues Barbosa, já nessa altura um dos mais prósperos logistas de Luanda, acabou por se separar do seu familiar para se tornar seu concorrente e ambos fazem parte de uma lista datada de 1810, com os nomes dos mais abastados comerciantes de Luanda. Outra testemunha, o Anselmo da Fonseca Coutinho, 30 anos, natural de Luanda, também consta nessa mesma lista, muito restrita, reservada aos “tubarões” da praça. E ali estavam eles, a ver se lhes caía qualquer coisa na goela, uma migalha que fosse, porque para “tubarões” não há migalhas, tudo é comida!

Durante todo o processo o olhar de quase todas as testemunhas dirigia-se para a maneira de vestir do réu. Algumas delas chegavam diante do juiz com uma única declaração: o réu andava “muito bem vestido e asseado para um escravo”. Jogava nessa fixação dos argumentos que visavam denegrir o escravo Manoel, o fascínio e o preponderante papel que os tecidos exerciam no seio das populações africanas. Com o desenvolvimento do comércio atlântico, ou seja, o que se praticava a partir das potências da Europa para a América, a África e as Índias, e a decorrente vulgarização dos tecidos europeus e indianos, pouco a pouco foi-se extinguindo o privilégio do uso de tecidos importados pelos soberanos africanos e os que faziam parte da sua Corte.

Dificuldades para a execução do nosso programa de «Reforma Educativa»


Gil Gonçalves e Kandumbu Sangalo
Na verdade vivemos, e quando partimos para não mais voltarmos, prosseguimos sem sabermos o que é o ensino, este verdadeiro amor, este sublime desejo inalcançável. É por isso que em Luanda qualquer farda ordena. E o conceito de analfabetismo alterou-se. Quem sabe ler e escrever e não tem acesso à Internet, também é analfabeto.
Até que a água sem caudais, fora dos sistemas do ensino, timidamente ainda subia alguns degraus dos andares dos arruinados prédios. Agora que a desviaram para os estádios e prédios só deles, sumiu. Outra vez, sempre no regresso sem saída de 1975. Não se consegue sair deste universitário ano. Parámos no tempo sem ensino, sem tino. Os relógios avariaram, perdemo-nos e encontramo-nos no tempo da fome. É isso, fomos deportados, continuadores da gloriosa escravidão. Confeccionados e amordaçados por este temeroso, teimoso poder apoiado pelo ocidentalizado despudor.
Os bancos continuam a alimentar o sistema financeiro do terrorismo educacional. São cúmplices, espoliam as populações planetárias. E o fundamentalismo deste terrorismo alimenta-se como a marabunta. Os bancos não alteram as regras da matança dos campos de concentração internacionais, e dos alocados locais nacionais bancos demoníacos. E o fundamentalismo deles alicerça-se, grita avassalador, destruidor, vencedor: Kalunga é grande! Kalunga é grande! Acabem com a espoliação deste analfabetismo bancário e o terrorismo internacional e nacional fracassará.
Onde está a luta de libertação? Pifou?! Até este preciso momento Angola não viveu nenhuma luta de libertação. Acontecem sim, é brutas escaramuças entre descolonizados contra a opressão de alguns negreiros. O colonialismo negro tomou o poder pela força para prosseguir na campanha da mais terrível escravização dos semelhantes, com tal selvajaria que espanta o que ainda resta da civilização. Aguardamos esperançados que a verdadeira luta da nossa libertação se reinicie e a educação se pronuncie.
Que salutar apoio ao sistema nacional de ensino, as barulhentas, insuportáveis e indesejáveis igrejas em Angola importam outro inferno, outro poder. Que salutares, que dirigentes: o da Igreja e o do Governo. Qual deles dirige?! Os dois submetem-se às leis de dirigentes enfermos.
A Igreja que nos esconde, não nos ensina, o que tudo se resume a desumanas vigarices, vendedores, governadores da ignorância e da superstição. Pregadores das promessas milenárias que nunca se cumprirão. Apenas têm o desejo de que o dinheiro lhes caia facilmente nas mãos escondidas e mal disfarçadas nas costas corcundas, recurvadas. Mãos pesadas pelo chumbo que fingem informar… como na maior hipocrisia de todos os tempos. Um Deus inventado, deformado e mal informado. Formado e ainda não reformado.
Fabricantes com inúmeras fabriquetas de lascívia sexual, mundial… mestres da pedofilia. E demais indústrias de analfabetismo para dominarem e escravizarem os povos. Porque assim a dinheirama é boa trama. Com rebanhos de estuporados que trabalham para os sustentarem. Sacerdotes de um Deus que sempre reinventam. Destruidores de nações, da Humanidade e da… Liberdade de Imprensa. Sempre na vã tentativa do renascimento inquisitorial. Um Voltaire não lhes chegou, aprontam outro.
O nosso programa de reforma educativa contempla-nos com três classes de escritores angolanos. Os da corte do Politburo, os proscritos e os párias. E importam-se sistematicamente com outras classes de ensino: Importam a política portuguesa. Se o sistema político português não funciona, porquê teimar em mantê-lo? Nesta dimensão paralela procuramos inventar um sistema revolucionário de energia eléctrica. Entretanto, os mesmos espertos inventaram qualquer coisa que faísca de vez em quando. A incompetência dá vida, gera o caos. Estamos tal e qual como nos campos de concentração nazis à espera que a guerra acabe. Afinal ainda não acabou, porque a miséria reforçou-se e não há antibiótico que a sane. Que os americanos cheguem, nos libertem e acabem com o nazismo ainda vigente e as suas sementes. Neste nazismo imobiliário nem os cemitérios escapam. Mas que grandes makas este Politburo fabrica.
A principal causa das mortes em Angola era a malária. Agora, parece?! Ou são mesmo os acidentes de viação. Que futuro cadavérico. Sinceramente, só pode ser gozo. Estão acamados, muito afastados, noutra dimensão. Isto só pode ser para risada. Não tem nada, absolutamente nada a ver com os autóctones? Exceptuando a meia dúzia que ainda passeia no poder e nos espolia. Só pode ser o exemplar ensino da universidade que ministra a cadeira da eficaz lavagem de dinheiro.
Assim uma espécie de como os bancos estrangeiros e nacionais têm sempre bons lucros, muito fáceis em Angola. Claro, a espoliarem terras e a destruírem os haveres do Pai Tomás angolano, e do Terror estalinista nas ruas de Luanda.
«De kem é a culpa angolanos??? Nossa e de mais ninguém, nós legitimamos nosso sofrimento. Nem um grito de socorro colectivo, é bater palmas, mexer a bunda, deitas umas lágrimas de crocodilo de kdo em vez... e a vida continua. E a clínica por ser no alvalade "nem tem nome"!!!! Se fosse no Zenga já saberiamos o nome...» Comentário em http://mesumajikuka.blogspot.com/
Não é nada fácil sair do ambiente da ignorância, especialmente onde impera a superstição da Igreja. Fazem-nos crer que existem demónios por todo o lado, quando na verdade o verdadeiro demónio é a Igreja.
A Sonangol, que é um governo paralelo, já disse que tem de diminuir custos e rever contratos. Porque com os preços actuais e futuros do barril petrolífero, assim não dá. Decerto dará para exaurir em potentes estádios de futebol. E porque não numa universidade? Numa biblioteca? Estas medidas contradizem tudo o que a idiotice e analfabetismo dalguma intelectualidade que suga as riquezas do país, reforçadas com as declarações dos lambe botas da nova identidade cultural. Que a nossa economia continuará, não se afectará pela conjuntura internacional. Com declarações marxistas-neocolonialistas, de quem se perdeu no tempo, e dele não pensa sair. Caminhemos meus senhores, decididos para a eminente destruição do que resta do ensino em Angola.

A reforma educativa exercida em todo o ensino geral, peca, por defeito, desde a cabeça aos membros. Foi concebida ao mais alto nível do órgão regente, sem ter em consideração as suas estruturas de base. Ademais, concebida por alguém que nunca a experimentou.
Estamos a falar de todo o ensino não universitário, isto é, do primário, secundário (1º e 2º) e/ou médio que, em não mais de dez anos, se reformou. Esta reforma parece-nos deformadora: «o aluno é avaliado durante o ano lectivo, em três (3) trimestres; os (3) equivalem a 30%, porém a última prova equivale a 70%; se o aluno por qualquer circunstância tirar uma nota rasa (baixa) em determinada cadeira – nuclear ou específica, é tido por reprovado». O trabalho do professor durante o ano lectivo é quase irrelevante; pois, até o aluno preguiçoso, se tiver copiado, na última prova (exame/prova escola), passa de classe.
No ensino primário quase que se extinguiu a reprovação de alunos, pois, encontramos turmas inteiras em que não se note reprovação ou, se for o caso, uma a duas reprovações por turma. Será que os alunos demais e, os seus professores, são verdadeiros artífices da pedagogia?
De algum tempo para cá, a avaliação do professor tem sido, e ainda é, feita através dos resultados dos estudantes: «se o valor percentual alcançado para as negativas é maior, fica rotulado como péssimo ou mau professor; o contrário, é o melhor ou bom professor». Reparem, neste moldar, nunca levanta a questão para o professor, cujos seus alunos todos passaram de classe. Não será que este professor será também péssimo? – Não se acredita, na nossa realidade, que num universo de 60 alunos, não haja um reprovado sequer. Este pormenor não é tido em conta. Porém, é honesto avaliar que, numa turma de 60 alunos, todos ficarem reprovados, seja como que algo inconcebível ou sem sentido.
Ainda sobre a reforma ou a deformação de estudantes, nota-se que da 4ª à 6ª classe tem-se um professor para todas as cadeiras: «saber se, porém, que, todos os professores ou a maioria vem dos institutos politécnicos, IMNEs e PUNIVs; a realidade aí encontrada está dividida por cursos e, não se acredita que hoje haja um tal professor que domine todas as cadeiras neste nível».
No 1º e 2º ciclos (ou médio) encontramos outros dos tantos problemas. Cadeiras sem manuais, professores com dois a três (3) programas, professores a trabalhar em três turnos (20) vinte tempos lectivos semanais o que perfaz no máximo ter seis (6) turmas e 60 alunos por turma ou mais. Todavia consta desde o manual de avaliação das matérias de ensino e aprendizagem o chamado MAC (média da avaliação contínua do dia ou do mês). Como será possível, o professor corrigir todos os dias estas avaliações ou, qual será, neste caso, o acompanhamento a dar ao aluno.
Na verdade o cabeça da reforma contradiz-se: «diz querer uma coisa e, não querendo em simultâneo». Quis que houvesse reforma (onde as turmas tivessem no máximo 30 alunos, sem preparar as infra-estruturas capazes para o efeito). Como resultado as estruturas existentes são abarrotadas, isto é, duas turmas numa sala, perfazendo 60 alunos. As escolas recentemente construídas não contemplam o estatuído nos decretos sobre reforma educativa: «sem cantinas, sem primeiros socorros, sem biblioteca, sem laboratórios e, sem computadores».
Como se não bastasse, os alunos do Mutu-ya-Kevela, ex/liceu Salvador Correia, foram retirados. Construí-se uma escola do I ciclo e, os alunos do I ciclo (Mutu-ya-Kevela), não foram integrados na mesma escola. Foram para lá os do II ciclo – PUNIV Ingombota – Escola 3030; saídos de escola boa em termos de estrutura, indo para esta que não passa do afunilamento do ensino reformado que clama por uma contra-reforma.
Mpinda Simão actual ministro, foi o Vice-ministro para o ensino geral, está melhor abalizado, sobre as inconveniências do actual sistema educativo e aprendizagem. Porém, ele é o defensor do professor do I e II ciclos funcionar com 20 tempos, 3 turnos para algumas cadeiras, 3 a 2 programas 6 ou mais turmas.
Neste contexto deu o fardo aos professores sem experimentá-lo, pois, ele – sendo do ensino geral nunca deu aulas, apesar do decreto descrever este dado. Não criaram condições suficientes para avaliar este tipo de ensino, auscultando os que ministram tais aulas para as denúncias dos verdadeiros problemas.
Então perguntamos: «que plano tem o governo sobre o estudante? Que produto espera deste seu plano?».
Tem o plano de eternizar-se no poder ou não tem plano. Mas os seus filhos não estudam nos programas por eles gizados; logo querem que os substituam, depois que arrumarem as botas. Querem neste programa de ensino, formar bonifrates balofos, tolos, ignotos, asnos e néscios. Agora sim, viva o novo programa C, o programa dos cegos que dirigem o país, com a sonolência dos políticos nocturnos da nossa época, uma estirpe jamais vista.
Viva a Constituição “C”, dos cegos que agarra o leme para dirigir o barco. Viva!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Makas na comunicação social continuam. Carolina no país dos caranguejos não faz melhor que Rabelais


Entre ter de negociar com gente que quer à viva força subir na escala social, a coberto de toda a gama de artes e artimanhas para ser bem-vista pela minoria jurássica do sistema político do nosso país, e, ao mesmo tempo, tentar tirar algum proveito da posição que por ora ocupa num dos altos pelouros do xadrez político nacional, Carolina Cerqueira, como praticamente todos os homens (e mulheres) políticos da nossa praça, numa imitação perfeita do que faz o Chefe, esquece-se de que servir o país é incompatível com o aproveitamento ilícito de vantagens que ele outorga.

Arlindo Santana & Silvio Van-Dúnem

Se fôssemos a dar crédito aos arautos do defunto Governo de Angola, de antes do dia 10 de Fevereiro de 2010, teríamos de admitir que o nosso país (deles) era um dos mais prósperos do mundo e uma das maiores economias de África, mas sem Norte, porque não tinha Constituição (esqueçamos os índices de pobreza, esperança de vida, bem-estar, liberdades e outros mais em que Angola está na extrema cauda do pelotão).

A partir dessa data (10.02.11), fatídica para a ainda infantil Democracia angolana, o país passou a ter uma Constituição, que seria muito boa diga-se a verdade, se pudessem ser resgatadas as “facadas” que ela “deu” ao nosso bom povo, ao qual, muito à socapa, foi retirado o direito de escolher o homem que eles querem para Presidente da República, enquanto pela mesma ocasião se oficializou o que já era prática ilegal corrente, foi concedido poder quase absoluto a um só homem.

A partir dessa data, também, foi enterrado sem pompa nem circunstância o Governo antigo e criou-se outro, gigantesco, um tão disparatado aparelho político que apenas pode funcionar com a ajuda das suas agora já indispensáveis muletas, confeccionadas às medidas do chefe e chamadas “comissões inter-sectoriais”. Tipo de controlo desencontrado, pois tudo funciona segundo um já tradicional associativismo de circunstância, e alguma dessa gente pode muito bem se entender como, por exemplo, fazem os ladrões numa feira.

Assim, nesta grandiosa e extremamente dispendiosa encenação, largamente publicitada com festas no Palácio, seguidas de semanas em declarações entusiastas e hinos laudativos ao dito Executivo, foi nomeado o que se passou a chamar um “novo governo”, mas no qual, passado muito pouco tempo, nem sequer é possível ver uma verdadeira separação de poderes, porquanto o Gabinete Presidencial passa, com muito vigor, a controlar o Poder Legislativo, e muito mais, claro está, o Judicial. E quando escrevemos “nem sequer podia controlar”, estamos a referir-nos a planear controlar, porque executar isso seria suicídio, um autêntico haraquiri político (perguntem ao Fernando Miala o que lhe aconteceu).

Nisto, e do mesmo modo que maridos melindrados apregoam aos quatro ventos que as suas ex-esposas não passavam de prostitutas, ao se separarem delas depois de anos a fio de vida em comum numa conivência e cumplicidade notórias, o Executivo descobriu, como dezenas de vezes antes o já falecido Governo tinha descoberto, que alguns dos seus agentes do topo de gama não passavam de autênticos malandrins, uns, a roubar uns dois, dez ou mesmo 100 milhões (dólares!), outros a desviar jipões para os seu negócios, outros ainda a roubar sem ninguém se dar conta disso e toda a gente ver que eles só podiam estar a fazer isso mesmo. Mas, enquanto eles lá estivessem, a mandar vir nos seus respectivos pelouros, ai de quem se erguesse para dizer que eles roubavam!

A “escorregadela” da ministra
Foi o que aconteceu ao jurista Manuel Rabelais, ex-ministro da Comunicação Social. Enquanto foi ministro, toda a gente via que ele não era são, mas ninguém ousou denunciá-lo. Só depois de ter saído pela porta do cavalo - e por um triz que não voltava a entrar pela janela – é que se levantaram vozes para o criticar. Os nomes que lhe deram são do pior que há. Não vamos enumerá-los aqui. Vamos, sim, dar mais um exemplo do que transparece no que foi supracitado, a impunidade dos governantes enquanto estão no exercício das suas efémeras funções. E não precisamos de ir muito longe, nem sequer precisamos de sair do Ministério da Comunicação Social (MCS), pois o exemplo (mau) vem da parte de uma exímia moralizadora perante Deus Nosso Senhor, a ministra Carolina Cerqueira.

A ministra Carolina Cerqueira merece todo o nosso respeito, e o facto que aqui vamos revelar aos nossos leitores não visa diminuir a sua pessoa em si, mas sim denunciar a impossibilidade de aplicação da famigerada “Tolerância Zero”, lei da “Probidade Administrativa” e outros quejandos.

O que desejamos denunciar é a gravidade do caso “corrupção”, em Angola. Seja quem for que entre no sistema de governação, tendo acesso a todas as alavancas de facilitação de vida, do dia-a-dia em particular, tudo de mão beijada quando antes era um ai-jesus, todos os governantes podem beneficiar de benesses e porquê recusá-las. É isso, ninguém que entre no aparelho de Estado resiste à fruição de vantagens, mesmo que sejam irrisórias.

A nossa ministra Carolina Cerqueira deixou-se levar na onda e cometeu um erro (pelo menos um, talvez dois, vamos ver mais adiante). Seria muito, muito bonito que, no caso vertente, em vez de nos inculpar por sensacionalismo ela viesse a público, reconhecer o seu erro. Isso, sim, seria sensacional!

O mais grave relaciona-se com a sua irmã mais nova, a quem a ministra deu alegadamente a autorização (e não estamos a ver como poderia ser de outro modo) de tratar um passaporte de serviço como se fosse funcionária do Ministério da Comunicação Social. A maka é que a sua irmã, Sara Aminita Cerqueira Lourenço não é funcionária do MCS, mas, sim, quadro médio de uma instituição bancária privada; o BIC que tem sede em Luanda. Mas a ministra, ou algum seu porta-voz, veio dizer em sua honra que a mana é colaboradora... A emenda é pior que o soneto, pois os colaboradores não têm direito a passaporte de serviço e não há ciência do grau da sua colaboração, depois pode por isso ser acusada de nepotismo, se começar a levar para o serviço, irmãos, primos, cunhados, filhos, etc, etc...

Estamos, portanto, longe de toda e qualquer gestão de pasta ministerial rigorosa e transparente. E, se quiséssemos ser rigorosos e claros, diríamos que estamos em presença de uma falsificação e de uma manifesta falta de sentido de Estado. Temos em nossa posse provas evidentes e sugerimos que, em toda a equidade, o sector de Inspecção do pelouro da própria Carolina Cerqueira, proceda às investigações que se impõem em obediência à lei da Probidade Administrativa, e em obediência ao princípio “sagrado” da “Tolerância Zero (foi JES quem o disse). Diga-se que abusos deste tipo já foram objecto de acções punitivas, outros dirigentes e ou responsáveis de instituições públicas do Estado.

GASTOS OU DESVIOS DE DINHEIRO PÚBLICO
Um outro pecadilho da nossa ministra é mais complexo, pois se não é uma casca de banana é algo muito parecido e prende-se com os gastos desnecessários, que estão a revolucionar o seu consulado.

Se a Manuel Rabelais se criticava a sua gestão e alegados excessos no gasto do erário público, a nova inquilina não poderá ficar por menos, em tão pouco tempo. E isso não se deve à imprensa privada, da qual ela se demarcou e hostilizou logo na sua entrada de funções, assumindo-se como justa dirigente do MPLA e ministra exclusiva dos órgãos públicos partidarizados da comunicação social do Estado.

Não! Tem a ver com o facto de o MCS, que estava instalado num prédio do Estado situado na Avenida dos Combatentes (está longe de ser um beco de musseque), pagando um aluguer insignificante, ter deixado essas instalações para montar um gabinete num novo edifício, localizado numa paralela da Av. Amílcar Cabral, à Maianga, defronte ao prédio da Segurança de Estado.

O que não se compreende bem é por que raio de cargas de água a nossa dirigente decidiu fazer essa mudança muito dispendiosa e aparentando a realização de um capricho. A não ser que se confirme a suspeição de o imóvel em questão ser pertença de um familiar da ministra Carolina, segundo a vox populi. Assim tudo se compreende e entra como uma luva no teor da dita Lei da Probidade Administrativa.

A. João, um dos quadros do MCS, fez ao F8 o seguinte comentário: “Pode ser que a ministra, tal como Manuel Rabelais, esteja a ser levada pela astúcia e traição do vice Wadijimbi e outros quadros, que agiram da mesma forma com o anterior ministro, porque o vice quer chegar ao cadeirão e quanto mais trair os outros está convencido de que o MPLA, lhe vai dar o lugar”, assegurou, acrescentando que “o arrendamento dos vários gabinetes custam os olhos da cara. E mais. Aquele edifício possui apartamentos normais e não escritórios para se arrendar. Isto é rigor? É gestão transparente? Não! É a continuação da bandalha e da roubalheira”.

Mas este parece apenas um substrato do que nos foi revelado pela nossa fonte. Deixamos de lado outras considerações, que julgamos ser do âmbito de circunvoluções sazonais nos autênticos “cestos de caranguejos” que são os órgãos de comunicação social estatais, logo a instabilidade continua a atravessar o sector, cerradamente, controlado pelo MPLA e administrado ideologicamente na sua coloração partidária.

Por esta razão é que tudo o que gravita nos órgãos públicos tem de estar comprometido com qualquer tipo de filiação ao comité de especialidade do maioritário, o mesmo acontecendo nas organizações de classe onde as instruções são as mesmas. Assim, a tese de controlo, visa o Sindicato dos Jornalistas, o Conselho de Comunicação Social, as rádios comunitárias e ou as FM's, cujas licenças, só serão concedidas a instituições públicas e privadas ligadas ao regime. Actualmente, Angola não tem, objectivamente, nenhuma rádio privada, pois todas existentes são de capitais do MPLA e seus membros, a ECCLÉSIA pertence a Igreja Católica e a Rádio DESPERTAR, está ligada a UNITA, fruto os Acordos de Paz, logo, neste lado, estamos entendidos e a ministra já fez saber, que não abrirá mão desta prerrogativa discriminatória...

A ANGOP continua a ser um bastião, conotado como da Segurança de Estado, talvez por o actual vice-ministro da Comunicação Social ser um quadro dos Serviços de Inteligência, um dos maiores carrascos dos jornalistas, principalmente da imprensa privada, logo não dando espaço a muitas engenharias e frescura na Agência, que está sob sua vigilância permanente e só lá assenta arraiais na direcção, quem vassala o chefe...

Na TPA, ainda o andor da renovação não chegou ao adro, já se deram alguns estremecimentos em vários ninhos de besouros. A oposição só vê passar as suas actividades, quando os discursos fizerem alusão ao regime ou ao Presidente da República. Os políticos ou membros independentes da sociedade civil, enquanto CIDADÃOS DE SEGUNDA, não têm direito a cobertura, logo a TPA, será, desde o CANAL UM aos restantes, um MURO DE BERLIM a impedir que se conheçam outras visões e realizações de autóctones.

Neste quadro confrangedor o CANAL 2, foi entregue de bandeja a quem não tinha dado crédito no mercado de capacidade de gestão ou produção de conteúdos televisivos. Tanto assim que os beneficiários nunca produziram um programa ou um spot publicitário que fosse, para além do de serem filhos do Presidente da República e isso servir de alegada pressão ao ex-ministro Manuel Rabelais para entregar de bandeja uma privatização, encapotada, de um órgão público a custo zero, sob a capa de gestão. Se aquilo que vimos ao longo destes anos é gestão, então a indigestão é uma instituição da mediocridade, que grassa na sua grelha de programas, assente na futilidade, no Kuduro & arredores, linguisticamente, mal escritos e falados, mesmo na Língua de Camões...

Mas o pior é o facto de o CANAL INTERNACIONAL DA TPA, também ter sido "colonizado" pelos filhos do Presidente da República, confundido, numa clara falta de sentido de Estado, com uma parcela privada de uns poucos.

Assim, o mundo e os angolanos no exterior têm uma visão falseada do que é a verdadeira Angola, por lhes ser mostrado exclusivamente o que os príncipes querem dos feitos de uns poucos... Ante todas estas aberrações a ministra já confirmou manutenção, mesmo que os gestores não consigam pagar os salários dos trabalhadores...

Mudando de tema, voltemo-nos para o novo Roque Santeiro. Mediático este.

No Jornal de Angola é uma festa, com o Artur Queirós, convertido, alegadamente, em militante número 1 do comité de especialidade do MPLA, a querer mandar a coberto de uma protecção da direcção do Kremlim, da ministra e do amigo fiel, “Manribas” (José Ribeiro, director), por ser o homem que se presta com mestria, diga-se, a todos os trabalhos sujos contra membros da classe jornalística não bajuladora, da oposição e da sociedade civil não arregimentada. Todos se lembram da Paula Frazão e Afonso Bunga, que malhavam em todos da outra margem discriminada, servindo de máscaras a um homem, que, quando abandonou o barco de Angola, em Portugal, lançou todos os impropérios aos governantes angolanos. Aliás não são outros, são os mesmos... e quanto a isso não vale a pena falar da sua natureza.

Na RNA o quadro não é diferente, tal como nos outros órgãos, estão a perseguir-se os alegados homens e mulheres, conotados como sendo pontas de lança do ex-ministro Rabelais, numa festa complicada, face às anunciadas e realizadas medidas de câmbio de pessoal. Actualmente, em Luanda e nas províncias o ambiente de intriga é o ponto número um da grelha de programas, assemelhando-se ao que se vive num palco de Comédia Della Arte, em que se improvisa em cima de improvisos, onde impera a sublimação da hipocrisia, da calúnia e da inveja, pois toda a gente quer é guardar o seu “tacho”.

As emissoras provinciais na sua maioria, passaram a servir exclusivamente, os propósitos do MPLA e do governador e adoptando a estratégia, mesmo fora da campanha eleitoral de denegrir a oposição e a sociedade civil não bajuladora.

Já em Luanda, merece preocupação o clima na Rádio 5, por exemplo, onde o bombo de festa nesta altura é o infeliz Vaz Kinguri, que não conseguiu ainda levantar-se direito nas botas depois de ter sido ridicularizado por um falso Presidente Lula. Carlos Pacavira, o novo homem da R5, pela competência que se lhe reconhece e o longo período de formação no Brasil, seguramente, conseguirá contornar as cascas de banana que lhe arremessaram, para não escorregar, no jogo de tentar mudar tudo e todos. De facto, o que a RNA precisa é de estabilidade, até mesmo com o seu principal rival se deve adoptar uma política de coabitação inteligente, pois ambos, são poucos para a empreitada desportiva que à R5 tem de cobrir. Por esta razão o serenar de águas com António Rodrigues no sentido deste esperar o seu tempo, pode ser de bom augúrio.

E é neste cenário teatral – espera-se não finalize em drama – que Carolina Cerqueira se debate com o que lhe foi legado pelo jurista Manuel Rabelais. Esse dirigente - enquanto lá esteve -, ao sair, deixou-lhe nas mãos vários dossiers quentes e a ferver, numa só mão, enquanto na outra, a ministra continua a segurar um “cesto” que o Wadijimbi, segundo parece, lhe ofereceu e, com ele na mão, fazendo atenção às mordidas, vai negociando com os caranguejos grandes que vão chegando ao seu cimo.

Assim vamos aonde então?

Aiuée, mama, aiuéé!

CRÓNICA DE MARTA. A coragem de inovar


Marta Fernandes de Sousa Costa
A 10ª edição da EXPOFESTA REGIONAL DA MELANCIA, realizada no parque do Sindicato Rural de Pedro Osório e Cerrito, superou todas as expectativas, alcançando número de visitantes superior ao das edições anteriores.

A festa tendo sido realizada, com êxito, nos nove últimos anos, no lindo Parque Santa Thereza, era natural o receio de que a mudança representasse fracasso, inclusive de público. Mas, com o crescimento alcançado pelo evento, o parque já se mostrava inadequado, por não possuir algumas instalações necessárias ao conforto dos visitantes. Assim, num gesto corajoso, que é provável tenha custado muitas noites de insônia, os organizadores assumiram a responsabilidade da mudança, aceitando as conseqüências, por acreditarem nas condições favoráveis do novo local.

Organizada pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento (COMUDE), a festa se transformou em sucesso de público e de atrações. Nos três dias, foram distribuídas duas toneladas de melancia, em filas constantemente renovadas. Excursões vieram das cidades próximas; a quantidade de automóveis superou as expectativas, obrigando a ocupar o estacionamento maior, antes considerado desnecessário. Os prefeitos das cidades-irmãs, Pedro Osório e Cerrito, participaram de todas as programações, prestigiando os participantes de cada evento. Inúmeros políticos se fizeram presentes, tanto no encontro com o vice-governador e os prefeitos da região, no primeiro dia, como nos outros dois dias, para desfrutar da festa e participar da alegria do povo.

O Sindicato Rural teve a oportunidade de abrir as porteiras e participar da festa do produto que caracteriza a agricultura familiar da região. Mais uma vez, cumpriu sua função de servir ao produtor rural.

A 10ª Expofesta Regional da Melancia demonstrou o grande potencial do parque do Sindicato Rural de Pedro Osório e Cerrito. Sendo a primeira no local, com público muito além do esperado, é provável que público e organizadores tenham tido alguns problemas, cota comum ao pioneirismo. Inconveniências facilmente contornáveis, para a continuação exitosa deste evento e para a abertura a outros. Nada que empane a brisa fresca sob os eucaliptos, o encanto das tituladas, a música proporcionada pelas diversas bandas.

Mas tudo isso se tornou possível pela coragem de ousar. Muitas vozes, é natural, se ergueram em desacordo, aconselhando cautela e a repetição das fórmulas conhecidas. Vozes como aquelas que todos ouvimos, ao longo da vida, puxando-nos para trás, para que não nos machuquemos, não quebremos a cara, não demos o passo fora dos trilhos. Vozes bem-intencionadas, a maioria das vezes, preocupadas com o nosso conforto. Só que o mundo só anda pra frente pela capacidade de ousar dos que se negam a ouvir tais vozes.

São as idéias novas, as trilhas abertas, as picadas improvisadas, que fazem a humanidade avançar e não ficar se repetindo. Essa a lição maior que a 10ª Expofesta Regional da Melancia nos deixa.

*www.martasousacosta.com

EDUCAÇÃO E GIZ Falta de retorno na via expressa Benfica-Patriota perigou a vida dos policiais em serviço, às mãos de um kamicaze expatriado


A execução das obras da Odebrecht tem deixado muitos questionamentos sobre o profissionalismo dos seus arquitectos/engenheiros, principalmente no que se refere às estradas. Dia 3 de Fevereiro de 2011 ocorreu na via expressa Benfica-Patriota o atípico desafio à autoridade que jamais qualquer angolano ousou, algum dia, protagonizar contra o exercício da nossa sacrificada polícia nacional.

Manuel Fernando*

Estavam passados 40 minutos das 9 horas da manhã, horário de grande correria no tráfego, dos trabalhadores em direcção ao serviço, quando todos foram forçados a paralisarem as suas viaturas, chegando-se mesmo a acumular um número superior a 200 que aí permaneceram, durante mais de 30 minutos.

O condutor de um camião, de nacionalidade chinesa, desrespeita a ordem de um polícia de trânsito, forçando o agente a retirar-se da sua trajectória para que não fosse atropelado. Um turismo policial parte em socorro e pára o camião percorridos cerca de 2 quilómetros. Surpreendentemente o camião põe-se em marcha, desviando a viatura da polícia, começando um episódio que bem valeria para um filme de curta-metragem. Foi um ‘ultrapassas tu, ultrapasso eu’, o que obrigou aos policiais pedirem ajuda aos automobilistas, para que estes bloqueassem a passagem, em toda a largura da via expressa, e assim neutralizar-se o chinês. Mas, atónitos, vimos o camião a deslocar-se com retaguarda, como que a ganhar impulso e arrancou de forma ameaçadora querendo ‘empurrar’ o carro da polícia, acção repetida 3 vezes. Perante aquele absurdo, sugeri aos polícias que disparassem aos pneus, mas nenhum dos polícias tinha sequer uma pistola. Perante aquele ambiente colérico, com o chinês trancado na cabine do camião, exibindo ameaçadoramente uma barra metálica, dois socorristas civis, de ocasião, conseguiram paralisar o camião retirando inicialmente o filtro de ar, desligando a bateria e finalmente cortando dois condutos de abastecimento de combustível do depósito para o motor.

Do socorro policial solicitado, surgiram dois agentes da ordem pública e uma furgoneta da Brigada Especial de Trânsito, com mais seis polícias que também não conseguiram demover o chinês para a abertura da viatura.

Aproveitando-se de um transeunte da mesma nacionalidade do kamikaze conseguiu-se neutralizá-lo, depois de longa negociação, mas que obrigou a um dos policiais a penetrar pela janela semi-aberta do camião, facilitada por uma distracção do “bandoleiro”. Lamentavelmente, o prevaricador é colocado no interior do turismo da polícia sem algemas, obrigando a outro puxa-puxa entre o ‘bandido’ e os polícias, também com a intervenção de socorristas civis.

Consequências da falta de retorno na via-expressa
Entre as grandes dificuldades de acesso do corpo da polícia ao local do incidente foi o facto da referida furgoneta ter que percorrer mais de 10 quilómetros porque incompreensivelmente os construtores da via-expressa decidiram exibir um dos seus maiores erros na projecção daquela maldita estrada, denominada via-expressa.

Perante a dificuldade de conseguir-se uma habitação nos projectos habitacionais milionários que se vão erguendo em Luanda, muitos têm sido os cidadãos anónimos que têm ajudado o executivo, na projecção de bairros de autoconstrução dirigida. Assim surgiu no município da Samba o florescente e urbanizado, mas não acreditado bairro Projecto Zona Verde, nas imediações da via expressa Benfica-Cacuaco. Um bairro que em nada inveja as barricadas que constituem os muros de Talatona, uma miscelânea de ricos e pobres compartilhando o mesmo espaço, sem violação das regras urbanísticas. Mas como “a alegria do pobre não dura muito”, a estes desprotegidos foi-lhes retirada a possibilidade de usufruírem de qualquer rotunda ou retorno, ao longo da estrada principal que percorre o bairro. Para que se possa entender: quem sai do ex-controlo da polícia do bairro Benfica e queira dirigir-se, por exemplo, ao Instituto Superior de Serviços Sociais, instituição que localiza-se a cerca de 400 metros, deve percorrer mais de 10 quilómetros, porque o retorno encontra-se nas imediações do bairro Lar do Patriota. Puro absurdo de engenharia. O mais caricato torna-se ainda o silêncio da administração municipal, perante a dificuldade que os seus munícipes vivem para alcançarem as suas residências.

O condenável acto protagonizado pelo cidadão chinês, para além de ter afectado a pontualidade de muitos funcionários, poderia ter originado outras consequências, por falta de saídas de emergência, ante as valas e separadores que ladeiam a via. Demonstrou a esses construtores medíocres, que a inexistência de uma rotunda ao longo da via que cruza o extenso território residencial, também cria dificuldades às operações de emergência dos órgãos de defesa e segurança. O que seria da vida dos polícias envolvidos se não tivessem nesse dia a colaboração popular? O que seria da vida dos polícias se esta acção tivesse ocorrido no período nocturno? No entanto, quando todos os trabalhadores/espectadores clamavam pelo repatriamento incondicional do ‘quase homicida’, constou-nos, que o malfeitor, sob custódia da polícia foi sorrateiramente retirado da esquadra, por um General das FAA, sem qualquer processo instruído e sob o olhar obediente e inerte dos policiais.

Em condições normais teriam recaído sobre o infractor, acusações como: desacato a autoridade, tentativa de homicídio, ameaça com objecto contundente, tentativa de suborno, alteração da ordem pública e condução de um viatura sem o documento que o habilita. No entanto, angolanos têm sido intimados com multas, por cruzarem o semáforo no amarelo.

Angola já deixou de ser o país onde a lei é determinada pelo cano do fuzil, existem leis escritas, e estas devem ser rigorosamente respeitadas sem maquilhagens de uniformes ou estatutos especiais, muito menos aos cidadãos que tudo fazem para atropelarem os nossos costumes.

Da mesma forma que o angolano submete-se às leis nos países para onde se desloca, o mesmo deve ser exigido aos estrangeiros no nosso país, sob pena da reincidência de erros graves implicar o repatriamento.

Angola como país deve fazer-se respeitar, começando pelos seus dirigentes assim como as altas patentes da polícia e das forças Armadas.

Não é digno que os angolanos se sintam aterrorizados no asfalto do seu próprio país, sempre que por perto estiver uma viatura conduzida por um chinês, assalariado/não-qualificado, mas usufruindo de imunidades sem justa causa. Um automobilista desencartado é um potencial homicida e já são muitas as vítimas deste mal, desde que se começou a importar operários em quantidades industriais de origem asiática, ostentando credenciais de instituições do governo que os autoriza a conduzir à margem da lei.

*manuelfernandof8@hotmail.com

Sob o tom da insatisfação. UNITA e MPLA trocam galhardetes sobre violência política



A UNITA e o MPLA, no poder, acusam-se mutuamente de instigar e organizar atos de violência no país com fins políticos.

A UNITA ameaça o Governo com “queixas nas instâncias internacionais” se os “crimes políticos”, que afirma estarem a ocorrer em Angola, não pararem.

Por seu lado, o MPLA diz que os incidentes são organizados pelo maior partido da oposição para manchar a imagem do Governo.

Recorrendo a diversos exemplos de “crimes políticos”, como “prisões ilegais de militantes” ou “assassínios de elementos da UNITA”, Abílio Kamalata Numa, secretário-geral e deputado do partido do “Galo Negro”, afirmou ainda que o primeiro passo para pôr cobro à situação vai ser recorrer aos mecanismos internos de justiça.

“Vamos fazer chegar ao Ministério Público, indo até ao Tribunal Supremo se necessário, para que a democracia e a Constituição angolana sejam respeitadas no quadro do Estado de Direito que o Governo do MPLA afirma existir, mas que não respeita na prática”, disse.

Em conferência de imprensa, o general Numa informou ainda que a UNITA vai apresentar queixa contra o governador provincial do Huambo, a quem acusa de estar por detrás da perseguição política a que estão “sujeitos os militantes da UNITA” naquela província.
E disse ainda ter na sua posse informações que indicam que existem “ordens” no Huambo para a sua “liquidação”.

A isto, o MPLA, partido no poder desde 1979, responde, através do seu porta-voz, Rui Falcão, acusando Kamalata Numa de ter organizado os militantes da UNITA para provocarem distúrbios com o intuito de atirar responsabilidades para o Governo.

Na TPA, Rui Falcão acusou ainda o deputado e dirigente da UNITA de ter “interferido” com as investigações da polícia num caso que envolveu um militante da UNITA e um soba (autoridade tradicional), no Bailundo, Huambo.

Falcão sublinhou que Angola “tem leis e quem prevarica deve ser julgado pelas autoridades competentes”, afirmando ainda que o MPLA “segue com preocupação” a intenção da UNITA em envolver os seus militantes em situações de desordem porque existe o risco de “exacerbar ânimos que podem levar a coisas menos boas”.

As acusações da UNITA surgem num contexto de tensão no Huambo nos últimos dias, depois de a 03 de Fevereiro um militante da UNITA, António Kaputo, ter sido detido e julgado por ofensas a um soba que resultou na sua condenação, na passada sexta-feira, a 45 dias de prisão, pena suspensa por três anos.

Foi ainda no seguimento deste julgamento, que levou à presença de um numeroso contingente policial e militar na cidade do Huambo, que a UNITA afirma terem surgido “agressões e tiroteio” de elementos do MPLA e da Polícia Nacional contra uma comitiva do partido que tinha ido levar António Kaputo à sua aldeia, na comuna do Lunge, Bailundo.

Num cenário que a UNITA descreve como de “perseguição” na maioria das províncias angolanas, Kamalata Numa admitiu, contudo, estar o partido disponível para conversar com o MPLA na procura de uma solução e de um compromisso que leve ao fim dos “crimes políticos perpetrados pelas autoridades públicas”.

Perante estas acusações, também o governador do Huambo, Faustino Muteka, e o comando provincial da Polícia Nacional, refutaram a existência de quaisquer atos de perseguição a elementos da UNITA.

No entanto nas últimas horas surgiu, o secretário-geral do MPLA a ameaçar, eventuais manifestações, por não se permitir perturbação da ordem social vigente. No entanto o dirigente do partido no poder escusou-se de se referir ao desemprego, ao elevado custo de vida, a partidarização das instituições do Estado, com principal destaque os meios da comunicação social do Estado e ainda os altos índices de corrupção. Também ficou por esclarecer, porque razão só pode ser empresário com relativo sucesso quem está ligado ao regime.

*Mais desenvolvimento na próxima edição.

Egipto. Polícia e Guarda Presidencial de Moubarak assassinaram mais de 500 civis


A revolução egípcia não colheu só flores e a queda do ditador Moubarak, mas também o sangue de algumas centenas de jovens, mulheres, crianças e velhos, colhidos pelas balas traiçoeiras e assassinas da polícia "moubarakiana", na visão tacanha de que esta musculação fosse capaz de parar os ventos da história. A determinação e a vontade de mudança, estava lá e por isso, todos, absolutamente, todos, estavam cientes, que alguns, teriam de pagar com o sacrifício das próprias vidas, sendo o seu sangue a semente da nova aurora.
Agora os organizadores da manifestação, esperam que possa ser erguido no coração da Tahrir Square um monumento em nome das mais de 420 manifestantes assassinados.

O balanço oficioso aponta para 500 mortos e mais de 6200 feridos ao longo dos 18 dias da REVOLUÇÃO VERDE, em busca da CIDADANIA E DEMOCRACIA, iniciada no dia 25 de Janeiro.

Os organizadores das manifestações contestam os dados avançados pelas actuais autoridades, mais reduzidos, alegando não terem as autoridades noção da violência e das mortes que " a polícia e a guarda presidencial de Moubarak", iam traiçoeiramente cometendo, principalmente, no período noturno. Outra reivindicação prende-se com algumas detenções feitas pelo exército no início dos protestos, tendo os lesados sido alvos de torturas e condições de cárcere indecorosas, reclamam os organizadores, exigindo agora do general Hussein Tantaui, novo homem forte do Egipto, uma investigação séria, para se apurarem responsabilidades e serem julgados os responsáveis como forma de se iniciar u novo ciclo de moralização das Forças Armadas, "cuja chefia, reconhecemos teve um papel de neutralidade de se reconhecer, mas isso não é bastante, para se esconder algumas arbitrariedades que foram ao longo dos dias cometidas por alguns dos seus membros, quer no Cairo, como em Alexandria, principalmente", asseverou Gamel ao F8, que exigiu uma nova cultura de transparência, "mesmo reconhecendo que isso seja difícil em pessoas que durante muitos anos dormiram sob os cobertores de Moubarak e enriqueceram, corruptamente, pois a maioria dos generais são empresários bem sucedidos e tinham a protecção do anterior regime. Agora exigimos que os seus bens, frutos da delapidação do erário público seja investigado e confiscado".

Riqueza de Moubarak a caminho do confisco
O pedido dos manifestantes e a sua pressão, para uma atitude credível, uma vez haver "receios fundados" dos militares, capitaneados pelo general Tantaui, amigo de longa data de Moubarak, poderem camuflarem os biliões de dólares surripiados pela anterior corte do regime é que levou as novas autoridades a reagirem ao acto que o governo suíço havia tomado à 11 de Fevereiro de, como primeiro paraíso fiscal do mundo, congelar as contas do ex-presidente, avaliada em mais de 100 mil milhões de dólares bem como dos seus próximos.
Em função disso as autoridades do Cairo enviaram uma comissão rogatória as autoridades judiciais da Suíça para levantamento de todos os bens, ligados a Moubarak, sua família e a elementos do seu regime, visando com esta medida cautelar evitar a dispersão ou branqueamento de elevados montantes que foram indevidamente surripiados dos cofres do Estado egípcio.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Militares garantem a transição. Marechal Tantaui assume transição no Egipto


As revoluções têm coisas do arco-da-velha, já dizia Franz Fannon; "Uns pensam na revolução, outros fazem a revolução e outros ainda beneficiam da revolução", é o que está a ocorrer com o ministro da Defesa, até então um amigo de peito do ditador Hosni Moubarak, mas que no mudar dos ventos, soube manter neutralidade bastante, capaz de ganhar a confiança dos populares. Este general formado nas academias americanas e homem de confiança do Pentágono (Ministério da Defesa dos Estados Unidos), foi o único dirigente do regime com coragem para enfrentar os populares eufóricos na praça Tahrir Square. Falou com os manifestantes, tranquilizando-os que não viraria os tanques e as armas contra eles, face às suas legítimas reclamações. Os jovens agradeceram, ovacionaram-no e ele passou a ser um verdadeiro aliado, reunindo a partir daí capital para desempenhar um papel activo neste período de transição.

Willian Tonet*

O viajante que desembarcar, hoje ao Egipto e souber que um general tem as rédeas do poder, poderá pensar tratar-se de um homem desligado da ditadura de Hosni Moubarak. Engano.

O marechal Mohamed Tantaui, de 75 anos de idade, foi um fiel cabo-de-guerra e amigo do antigo presidente, logo conhecedor melhor do que ninguém das entranhas de um regime corrupto e violador das liberdades democráticas.

A única diferença entre os demais membros do defunto regime, foi o marechal Tantaui ter enxergado atempadamente os novos ventos da história que não justificavam o sacrifício de mais vidas inocentes e o derramamento de sangue do povo. Uma fonte de F8, no Cairo disse que Moubarak, começou a vaticinar uma inversão do seu mando, quando numa reunião decisiva, do Alto Comando Militar das Forças Armadas, que deveria decidir, pelo avanço dos canhões e tropas contra os manifestantes, o ministro da Defesa, levantou-se, bateu a pala, ao então comandante-em-chefe, dando meia volta em retirada, seguindo-lhe dois comandantes de ramos importantes.

Ao ser chamado pelo chefe da Casa Militar da Presidência disse, que não mudaria de opinião, permaneceria fiel ao seu amigo Moubarak, mas não viraria, igualmente canhões para derramar sangue contra o povo egípcio.

Esta foi a primeira grande vitória dos jovens manifestantes, que face ao comportamento do exército passaram a considerá-lo um herói da democracia, por escancarar, igualmente, a porta de saída de Moubarak, que viria a consumar-se no 11 de Fevereiro de 2011.

Com esta atitude patriótica o exército, por ausência de partidos políticos fortes e líderes unidos, os militares assumiram o poder pacificamente e com naturalidade para gerirem o período de transição, numa atitude, unanimemente assumida e aceite pelos manifestantes.

O povo demonstrou vontade hercúlea de quebrar as grilhetas da opressão e abrir um novo capítulo de legalidade, liberdade e democracia plena, rejeitando uma terceira via. Assim, na transição só haverá dois poderes: o Exército e os cidadãos. Será difícil a coabitação, por não haver quem possa medir um possível acirrar de desentendimentos entre estas duas novas forças, uma organizada e disciplinada e outra com vários tentáculos, mas ainda assim muitos acreditam ter sido a única possível, capaz mesmo de possibilitar o levantamento das tendas da Tahir Square, por parte dos militares.

Foi o acordo possível, por a oposição ainda estar muito fragilizada e os principais políticos estarem renitentes em aceitar um acordo para assumir uma liderança, nesta fase. "El Baradei mantem uma grande unanimidade, mas ele não acredita muito nos militares, por durante estes 30 anos terem dormido com Moubarak, mas neste momento, em função de tudo foi a melhor escolha, até por o exército, diferente da Polícia ter estado do lado do povo", justificou ao F8 Hammed, um dos principais mobilizadores das manifestações.

Assim sendo, não restou outra alternativa ao marechal Tantaui, na sua primeira medida, que não fosse a dissolução dos principais bastiões da ditadura do seu amigo Moubarak, que eram o Parlamento e a Constituição (esta última feita à medida e semelhança de Moubarak, por sinal número 56, por sinal ainda com uma corte de constitucionalistas mercenários de França e Inglaterra, pagos a peso de ouro, pelo então regime, para elogiá-la, como referência no Médio Oriente. Agora vemos de que referência se tratava...). No sistema legislativo egípcio caía, também, o Conselho da Shura (anciãos e as duas Câmaras do Parlamento).

Depois disso, os militares, prometeram a realização de eleições dentro de seis meses, a criação de uma comissão eleitoral independente e a supervisão do pleito por organizações credíveis das comunidades nacional e internacional.

No plano internacional prometeram respeitar todos acordos assinados, tranquilizando desta forma, ao mesmo tempo que recebiam garantias, quer do exército como dos manifestantes de não permitirem a substituição de uma ditadura de Moubarak, por outra da Irmandade Mulçulmana, defensora da Sharia, rejeitada pela maioria dos jovens egípcios defensores de maior democracia, liberdade e cidadania.

RISCOS DE MILITARIZAÇÃO DA LEI
Com o poder nas mãos dos militares, pode-se correr o risco da quebra dos compromissos assumidos com os manifestantes, que deram quase um cheque em branco ao marechal Tantaui. E, para muitos a pulga por detrás da orelha, começou a morder, quando no comunicado da nova junta militar se via uma excessiva concentração de poder, nas mãos do novo homem forte. Isso foi o motivo de alguns jovens se manterem na Tahrir Square e noutros pontos da cidade barricados, com receio de reversão da vitória alcançada.

Os militares no seu texto disseram ter conferido ao Marechal Tantaui as funções de presidente no interior e exterior do país, a chefia do Conselho Supremo das Forças Armadas e que este órgão legislará por decretos inapeláveis. Ora sem Constituição e com leis ordinárias haverá um vazio na aplicação da justiça, com o risco de os tribunais comuns se converterem em militares. Mas a enorme influência americana, não ficou de lado neste comunicado, como se o porta-voz, fosse um aluno ou admirador do pai da Declaração da Independência dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, quando, no segundo parágrafo, numa cópia quase que perfeita se lê: "o Conselho Supremo das Forças Armadas acredita que a liberdade do ser humano, o império da lei, a fé e o valor da igualdade, a democracia plural, a justiça social e a erradicação da corrupção constituem as bases da legitimidade de qualquer sistema de governo que dirija o país na próxima era (...); também acredita que a dignidade da nação é tão-só o reflexo da dignidade de cada um dos seus membros, e que os cidadãos livres, orgulhosos da sua humanidade, são a tábua mestra de uma nação forte".

Jurídica e constitucionalmente, são palavras bonitas, mas os militares estarão em condições de as aplicar e respeitar. Só o futuro dirá.

Quanto aos passos subsequentes o Conselho Supremo das Forças Armadas garantiu a nomeação de um comité independente, integrado por especialistas e políticos de reconhecida competência e independência, para reformarem a Constituição suspensa e adaptá-la à realidade de um verdadeiro sistema democrático. Mas uma grande maioria de jovens e políticos defendem uma limpeza geral ao texto constitucional, face a imagem impregnada de Mubarak e do seu regime, que visava a sua perpetuação no poder. Recorde-se, que a própria Constituição havia agregado o estado de excepção estabelecido no período militar e de partido único, estabelecido em 1981, pelo ex-presidente e que os militares, nesta fase, parecem dispostos a não abrir mão desse artigo de excepção, sob argumento da situação de instabilidade o justificar.

No entanto existe um compromisso da aprovação da nova Constituição ser antecedida de um referendo, com base num senso populacional, para determinar, na realidade qual é a população eleitoral, que não existia no tempo de Moubarak, pois muitas vezes votavam, até os mortos, que eram os verdadeiros autores das maiorias de 80 a 90% das intenções de voto.

GOVERNO SUSPENSO E NO ACTIVO
Os militares curaram também de suspender o governo, interditando vários ministros incluindo o primeiro-ministro de se ausentarem do país, por sob eles recaírem suspeições de corrupção, mas, nesta fase e até a nomeação de um outro executivo se manteriam em funções. Reunido na sua primeira sessão no 12, o antigo e em funções primeiro-ministro, Ahmed Shafik, nomeado, por Moubarak à 31 de Janeiro, numa tentativa de amainar os ânimos da população, disse, pese os incidentes que conduziram o derrube do ex-presidente, haver normalidade no país e "empenho do seu executivo, e que não efectuará grandes alterações no método de trabalho, até a nomeação do seu sucessor. Para tal estreitará a sua acção governativa com o Conselho Supremo das Forças Armadas".

Até hoje não se conhece o paradeiro e o estado actual de saúde do antigo ditador, que vê multiplicar-se pelo mundo o confisco da astronómica fortuna roubada aos cofres do Estado. Quando questionado, o seu calife, Shafik, disse ter conhecimento que o mesmo se encontrava na sua casa de férias no Mar Vermelho, na residência de Sharm el Sheij, mas desconhecer o paradeiro do ex vice-presidente, Omar Suleiman.

A PUNHALADA FINAL NO DITADOR
O dia 10 de Fevereiro ficará marcado na história dos manifestantes e do exército egípcio por ter sido, aquele que, ao final de 17 dias de revolução, assistiu um jovem oficial, Hassan al Roweny, abandonar a disciplina dos quartéis, descer a calçada e subir, num palanque improvisado da Tahrir Square, para emprestar a sua solidariedade aos manifestantes e retirando-a a Moubarak. "Cantemos o hino do Egipto", pediu quando pegou o microfone para se dirigir aos milhares de populares. Depois, de forma eloquente, da praça lançou um apelo para dentro do regime de Moubarak: "Tudo o que querem se cumprirá". Após esta frase foi o delírio e a ovação: "Roweny, Roweny, Roweny, corre com Moubarak"...

Estas declarações e a sua convicção catapultaram a crença popular de as horas estarem a chegar rápido para anunciar a nova aurora: a renúncia do ditador.

O comandante do Exército egípcio, Hassan al Roweny, ao deslocar-se à praça e considerar legítimas as reivindicações dos manifestantes estava a dizer que a maioria da tropa estava farta de Moubarak e era tempo de ele partir, caso ainda quisesse ter alguma consideração e respeito, por parte dos militares, para não ser humilhado na partida.

" O povo está no desemprego, tem fome, exige mudanças, pela corrupção e enriquecimento de uns poucos. Todos nós devemos ouvir esse clamor e exigir que Moubarak aceite a partida voluntária como a melhor saída, honrosa e inteligente, para ele!" O aviso foi dado ante a ovação da multidão, porque horas depois chega a notícia da renúncia. "Há mais de 48 horas que ele já estava fora do Cairo na sua residência no Mar Vermelho, não fosse o diabo tecê-las, com garantias de protecção do ministro da Defesa Marechal Hussein Tantaui.

É verdade que a posição dos militares era e foi ambígua, neste processo, porquanto, durante mais de 30 anos defenderam o regime, que proporcionou a muitos enormes riquezas, permitindo-lhes a criação de lucrativas empresas, na qualidade de "generais-empresários" e a necessidade de terem de defender, a disciplina militar, a constituição e a soberania que reside no povo. Contra todos os riscos optaram pela segunda, por reflectir os novos sinais dos tempos.

EUA & o 10º maior exército do mundo
Reconheça-se ainda o facto dos militares terem estado, também, pressionados pelo dever de lealdade aos Estados Unidos, que contribuem anualmente para a manutenção do exército egípcio com 1.300 mil milhões de dólares, para além da formação garantida aos altos oficiais. Como se pode verificar o Exército do Egipto é, na região e no mundo, um dos que mais recebe ajuda americana, desde 1979, quando recebeu mais de 2 mil milhões de dólares. Em 2010, o exército recebeu mil milhões de dólares, enquanto os programas de desenvolvimento se ficaram por uma ajuda de 184 milhões.

A pedra de toque dessa astronómica ajuda está para chegar este ano, com o fornecimento de um milhão e duzentos tanques de guerra M1A1 Abrams, enquanto entre 2012 a 2013, a construtora Lockheed Martin Corp, fornecerá 20 aviões de combate F-16C/D, actualmente em construção. Recorde-se ter sido o Egipto o primeiro país árabe a comprar aviões F-16, símbolo das alianças políticas da América.

O Egipto é considerado como tendo uma das dez maiores Forças Armadas do mundo, com mais de 468.000 efectivos e 479.000 na reserva, sendo o exército Terrestre composto por 340.000 militares, o alistamento voluntário. A marinha está equipada com quatro submarinos colocados em zonas estratégicas, para além de 3.723 tanques de guerra a maioria de última geração. As Forças Armadas são também o maior empregador, uma vez acolher no seu seio muitos jovens antes no desemprego, que lhes garante comida e roupa.

QUEM SÃO OS NOVOS HOMENS FORTES DO EGIPTO
O Marechal Mohamed Husein Tantaui, ministro da Defesa e agora chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas é ou foi o mais fiel, como nenhum outro, amigo de Hosni Mubarak, durante o seu consulado, sendo também a preferência do Pentágono (Ministério da Defesa americano). Este veterano militar de 75 anos de idade, casado e pai de 3 filhos, é ministro da Defesa desde 1991 e tal como o ex- vice - presidente Omar Suleimán, teve um papel importante na guerra de Yom Kippur contra Israel em 1973, feito que lhe fez nunca mais parar na ascenção militar.

A fidelidade deste militar ao regime nunca foi questionada, até que ante a pressão popular e a degradação da imagem do regime decidiu inverter o seu papel, colocando-se como voz credível, junto dos americanos, israelitas e manifestantes. Tanto assim é que nos últimos dias foi ele quem negociou com o secretário de Defesa americano, Robert Gates, o plano de saída da cena política de Mubarak.

CHEFE DO ESTADO – MAIOR GENERAL DAS FA SAMI HAFEZ ENAM
O segundo homem forte na nova estrutura do poder é o chefe de Estado Maior das FA, general Sami Hafez Enan, que, paradoxalmente desde o dia 25 de Janeiro se encontrava em Washington à frente de una delegação militar, reunido com altas patentes do Exército americano. Este dado havia passado despercebido por muitos observadores, mas na política não há coincidências, logo a visita não foi mera casualidade, uma vez com o corte da Internet e a recusa de Mubarak negociar com os manifestantes, os Estados Unidos, como principal financiador do exército egípcio teria de ter a mão de semear um oficial da sua confiança e ao que parece este esteve presente para o relato pormenorizado...

OS NOVOS ROSTOS CIVIS
A maior potência regional na África do norte, felizmente não está presa aos velhos tubarões da política como Mohamed el Baradei ou Amr Musa, para desempenharem um papel decisivo na fase de transição. Hoje e a manifestação foi disso um exemplo, o novo Egipto conta com cerca de 30 jovens profissionais, que amam o seu país e dominam as novas tecnologias de informação das redes de Internet, principalmente do Facebook, o correio electrónico que foi a mola impulsionadora das maiores manifestações espontâneas de sempre.

O líder deste movimento da Revolução Verde, que visou resgatar a cidadania amordaçada é sem dúvidas Wael Ghoneim, um jovem executivo, responsável pela direcção Comercial da GOOGLE no Médio Oriente e Norte de África. Casado com uma americana, Wael é ideologicamente identificado com a esquerda liberal, que condena a sharia e as formas de islamização da sociedade, pugnando pela democracia e cidadania activa, como forma dos cidadãos controlarem os actos do poder, evitando a corrupção institucional, como a que vigorou no Egipto por mais de 30 anos.

*No Cairo

Egípcios começaram um tsunami revolucionário. Muro de "Berlim" dos ditadores começa a desmoronar-se


Willian Tonet*

Os jovens do país das Pirâmides e dos Faraós, deram uma prova inequívoca ao mundo que a força de um povo, sedento de liberdade, não tem barreiras intransponíveis. Sem armas, sem bastões, apenas munidos com a força dos pulmões e da grande crença e amor pelo país, reuniram o que sobrava das suas parcas energias, para afrontar a toda-poderosa máquina bélica da guarda presidencial de Hosni Moubarak.

No início poucos acreditaram, que uma marcha, iniciada por jovens, num lugar emblemático, seria capaz, apenas com a força dos gritos e da crença de derrubar e colocar em silêncio o 10º maior exército do mundo. Mas foi...

Numa clara demonstração de serem, por vezes, falíveis teorias político-filosóficas, como as de "a história do mundo ser a biografia dos grandes homens", segundo Thomas Carlyle.

Mas se Hosni Moubarak, foi um grande homem, deixou-se arrastar, ao longo dos anos de poder, na lama da ambição, da corrupção e dos assassinatos selectivos de todos quantos pugnassem por um estilo de governação diferente.

Infelizmente, no mundo actual, muitos países detentores de riquezas naturais, quando governados por déspotas, os seus povos vêm a sua liberdade e cidadania espezinhadas. Isso por os ditadores atribuírem-se "dons supremos", como se fossem divinas figuras pré destinadas ao arbítrio governativo. E para consumação do seu reinado escudam-se numa aparatosa força militar intimidatória, impondo medo aos respectivos povos.

Moubarak, tinha algum prestígio internacional, mas internamente, apenas satisfazia a sua família e corte de bajuladores, enriquecida a custa da rapina do erário público. A riqueza nacional, estava nas mãos de uma só força política e do batalhão de bajuladores do chefe, tanto que nada que respira como empreendimento económico, está fora desta casta.

Assim, os milhões de egípcios, principalmente, jovens viviam no limiar da discriminação institucional, do desemprego, da pobreza extrema e sem uma esperança num futuro melhor, tantas vezes prometida por Moubarak, para se arrastar no poder. Neste contexto, não tinham outra saída, que não sair à rua e exigir a queda do regime, contra todas as expectativas do mundo ocidental, que os árabes e os egípcios em particular, face ao poderio do regime, fossem capazes de protagonizar a nova gesta revolucionária do século XXI, contra a tirania, quais dinossauros sobreviventes, e derrubar grilhetas e muros. Os jovens do Egipto não estavam ligados a nenhum movimento religioso, pois grande das igrejas e seitas vassalavam ou mesmo temiam Moubarak, como era o caso da Irmandade Muçulmana, que só no fim se juntou a REVOLUÇÃO VERDE da juventude, cujo bastião estava na praça Tahrir Square.

É claro que nada previa fosse este movimento vingar, mesmo Moubarak acreditou que iria vencer o povo pelo frio e cansaço, mas a realidade mostrou outra forma de resistência e de luta, que surpreendeu o mundo ocidental e africano, tal como o ocorrido na queda do MURO DE BERLIM, na Alemanha comunista, derrubado pelas mãos sofridas de um povo oprimido.

Assim que melhor exemplo ainda querem os outros ditadores africanos, para não mudarem de estratégia? Será que Robert Mugabe, Teodoro Obiang, Sassou Nguesso, todos à mais de 31 anos no poder, todos amigos do presidente angolano, não acreditam estar na hora de produzirem verdadeiras reformas, dar oportunidades a outros cidadãos, distribuírem melhor as riquezas nacionais nos seus países? Não se dão conta que prender arbitrariamente ou ordenar assassinatos selectivos não são solução para a sua longevidade no poder?

Os egípcios demonstraram que quando um povo clama, mesmo que dure muito, nada impede que corram as águas do rio. Que digam como correram e arrastaram as águas do Rio Nilo, o ditador Hosni Moubarak, ele também um faraó de mais de 30 anos de poder.

Por esta razão é confrangedor verificar a falta de discernimento destes longevos líderes, ante a este movimento contagiante que não vai ficar nas margens do Egipto, mas invadir todas as lavras onde a fome e a discriminação empreendida pelas ditaduras corruptas, assassinas e violadoras das leis imperam.

No Egipto, por exemplo, a família Moubarak eram donos de mais de metade dos empreendimentos económicos do país, com uma fortuna milionária acumulada com o sangue de muitos egípcios e a rapina do dinheiro público.

Os seus apaniguados, passaram, eles também, a ficar indiferentes ante a pobreza, o sofrimento, o desemprego, a falta e fraca educação e saúde públicas, tornando o povo mero sobrevivente de uma ganância desmedida. Assim a instituição mais importante no Egipto passou a ser a corrupção e o favoritismo de uns contra a maioria da população que vivia no limiar da pobreza extrema. Por isso este movimento de protesto foi tão intenso e decidido, ao ponto de mobilizar e imobilizar o exército a favor da causa popular. Os militares não traíram o povo, não viraram os seus canhões e balas contra os corpos dos seus irmãos, primos, pais, irmãs e mães que clamavam por uma nova aurora. O exército foi fiel a sua função de garante da soberania e ela, no momento era o povo, logo, ainda que protegendo a segurança física do ditador, não mais acolheu as suas ordens de esmagar ou matar a revolta.

Os jovens do Egipto mostraram que mesmo não havendo liberdade de imprensa, de expressão, de manifestação e os órgãos de comunicação social públicos e privados, as telecomunicações, estarem nas mãos dos ditadores a informação popular pode moldar a mente dos milhões de sofredores e virar os regimes ao avesso.

Os jovens egípcios demonstraram, também, que ninguém, nem mesmo um regime político por mais forte que julga ser (Moubarak, recebia mais de 1 bilião de dólares isentos de juros, anualmente, do governo americano, para as suas Forças Armadas), consegue submeter eternamente um povo a submissão, a escravatura, a discriminação e a pobreza. O povo estava decepcionado e gritava: "Fora Moubarak; Fora Ditador; Liberdade, Democracia já". E acreditar, que não há muito tempo o cinismo do Ocidente havia reconhecido as últimas eleições em que o ex-presidente, chegou a condenar o seu potencial adversário à cinco anos de prisão. Mais o partido de Moubarak, a exemplo do dos outros ditadores, fazem parte da Internacional Socialista. Uma estranha forma de acreditar a dualidade de critérios desta organização que se julgou farol das liberdades, quando hoje acoita no seu seio, gente da pior estirpe, pese os seus estatutos continuarem a pugnar pela defesa dos Direitos Humanos, Liberdade de Expressão, de Imprensa e Democracia. Quais é a resposta que os egípcios esperaram durante muitos anos, tal como o resto dos povos do mundo árabe e africano e apenas receberam o cinismo e omissão da comunidade internacional, ante a tortura que vegeta nas ditaduras. Outra demonstração evidente nesta revolução é de ser pior, em fases de mudança, os ditadores confrontarem-se com a ausência de um interlocutor válido, por terem acreditado que partidarizando as instituições do Estado e fragilizando os partidos políticos, comprando os seus líderes ou criando partidos fantoches, conseguirão reinar "ad eternum". Claro engano. Pois é difícil ou quase impossível, negociar com um poder que está na rua, pela sua imprevisibilidade, radicalismo e intolerância, face a provação e discriminação a que estiveram votados ao longo dos anos.

Ademais não acredito que os jovens e populações do Egipto, do Iémen, da Jordânia, da Argélia, da Tunísia, do Irão, do Iraque, da Líbia, da Arábia Saudita, entre outros, possam aceitar a saída de um ditador ou ditadores, por outros, como os da Irmandade Muçulmana, que pretendem institucionalizar a Sharia, através dos seus líderes fanáticos, que subvertem o Corão.

O que o povo quer é liberdade de imprensa, liberdade de expressão, direitos humanos, melhor governação do erário público, melhor distribuição da riqueza nacional, mais justiça, eleições livres e justas, fim das fraudes e melhor oportunidade para todos. Um desejo, afinal, que a democracia comporta, com a mais pura naturalidade, no seu seio.

A revolução no Egipto é de cidadania, cujo rastilho, já deflagrou na sua região, mas é e será capaz de germinar em todos os campos e só os fanáticos não vêm a necessidade de rápidas transformações, nos seus países, se é que ainda vão a tempo, evitando sair como ratos de um poder corrupto e militarmente preservado.

*No Cairo