segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Caixa de Chifre Preto. Crónica histórica romanceada (5)


António Setas

O menos que se podia dizer era que tudo isso cheirava a negócio escuro, trafulhice, quiçá promiscuidade. De facto, as relações entre o escravo Manoel de Salvador e o tenente-coronel João da Silva Franco pecavam por estar envolvidas numa nebulosa de versões diversas e contraditórias a respeito dos motivos que levavam a que o escravo se comportasse em sociedade com tanta desenvoltura aparatosa e, sobretudo, a tudo o que se referia às condições que presidiram à sua própria compra, envolvidas, também elas, numa áurea de misteriosa engenharia. Corria o boato de que tinha sido o escravo a pagar com dinheiro do seu bolso a sua própria compra. O que, como já é sabido, era verdade pura, mas nem Salvador nem o dono se davam ao trabalho de confirmar.
A páginas tantas as primeiras suspeitas agravaram-se, quando Salvador apareceu nas ruas de Luanda vestido em linhos, chamalote e sedas, chamando a atenção dos moradores pelo facto de não ser compreensível ele ter obtido recursos necessários para pagar tão ricas fatiotas. Um escravo vestido como um civilizado!?...E mais não foi preciso para que aparecessem de sítio nenhum e de toda a parte pessoas desejosas de dar o seu contributo para esclarecer tão profundo mistério, a abrirem-se em confidências, como por exemplo na tasca do Zé da Beca, na Marginal, onde apareceu quem dissesse que ele não era escravo, mas sim cozinheiro do tenente-coronel, mais nada. Mas, cozinheiro ou escravo, qual a diferença para o caso?, no fundo ia dar ao mesmo, fosse o que fosse não se explicava de onde vinha o dinheiro. E logo se levantou uma voz lá de trás a revelar que o Salvador era parente próximo de descendentes do Jaga Bango-Bango - bocas da Teresa -, e que escravo nunca ele tinha sido na vida, o que levantou um rumor de indignação,«É escravo sim, senhor!, mas tem força na verga, isso é verdade, mulheres atrás dele não faltam». Descendo deste modo a conversa ao nível da força libertadora do sexo, alguém aproveitou o silêncio que se instalou depois desta última revelação para confidenciar, «Se é escravo ou não, pouco importa, mas que a irmã pagou a alforria, ai isso é que pagou!...« No Brasil!?...«Não, na cama». Grande chinfrim, risota, venha mais vinho! Mentiras e nebulosas atrás de nebulosas que o álcool enovelava.
Bom, para não faltar à verdade, tem que ser dito que o Manoel de Salvador nunca teve irmã, frequentava de tempos a tempos os axiluanda da ilha e, apesar dessa comunidade ser muito resguardada e dificilmente aceitar gente “de fora”, dizia-se que ele tinha aí uma namorada, e não uma qualquer, uma sobrinha do soba, a menina Rola Tunga. Rola Tunga uma ova!, o soba não tinha filha nenhuma com esse nome.«Não tinha, mas agora tem, é minha! Eu é que dou nome», retorquia o Manoel.
Por outro lado, as actividades comerciais do seu dono, vocacionadas para a venda de tecidos finos, e nem tão finos como seria de desejar, pois o homem debatia-se constantemente com dificuldades financeiras, tinham-no levado a frequentar o alfaiate Manoel da Quitanda, o Surdo, cuja cozinheira, chamada Teresa, de revelação de receita culinária em segredo de molhos picantes, tinha sido lentamente levada por sua graça até à cama, onde começou recebê-lo de braços e pernas abertas. Pessoas idóneas tinham-no visto várias vezes na Baixa, na Praça do Pelourinho, a distribuir dinheiro, moedas de ouro e prata, entre as suas amigas pretas, arreigadas a um outro alfaiate, talvez o mais próspero de Luanda, um chamado Francisco da Silva Barbosa. Era de facto muita farófia para ovo tão pequeno!, o que é que poderia haver atrás disso?...
Por amizade, uma das vizinhas do tenente-coronel preveniu-o do que se dizia por essa Luanda fora, ao que ele ripostou laconicamente que o escravo «podia fazer a obra que quisesse», o que para a burguesia luandense constituía um cúmulo dificilmente admissível. A partir dessa altura, depois de tão displicente resposta, apenas digna de um “está-se-marimbandista”, não da boca de um tenente-coronel, Manoel de Salvador começou a ser controlado pelos moradores das vizinhanças, mais tarde pelos das cercanias da vizinhança e, às tantas, quase se poderia dizer por toda a cidade.

Enquanto tudo isto se passava, nas altas esferas da Câmara de Luanda funcionários zelosos iam tentando pôr em prática as directivas de Sousa Coutinho. Este, depois de ter arrotado as suas postas de pescada, teóricas, digeria mal a realidade que se lhe afigurava, para empregar a sua expressão, como «um labirinto de chicanas». Perante a questão da escravatura entre os africanos, por exemplo, o governador constatou que não lhe era possível saber ao certo quem era escravo e quem não era, no emaranhado de relações de parentesco que não permitiam saber quem era livre, agregado, penhorado ou “legitimamente escravo”. Cumpria, portanto, «arrumar a casa».
Partindo do princípio de que Angola era «um país bárbaro e preguiçoso», caracterizado pela ausência de civilização do seu povo, embora admitisse que ele fosse permeável à cultura, a começar pelo abandono dos seus «vícios de gentilismo» e uma conversão à verdadeira fé cristã, concluiu que era urgente disciplinar a conduta dos representantes do catolicismo, até essa data mais interessados em comerciar do que divulgar a religião. Contava com eles para fazer cumprir a nova lei. Mas qual lei?, não havia lei. Ora essa, qual é o problema? Promulga-se! Assim, estabeleceu um bando (uma proclamação com força de lei) que proibia a adoração ao deus “Bumba” (Bumba a Mbulu dos Songo?), depois outro, para rituais como Estambes (relacionados com os óbitos), e outro ainda, para os “Douzo ou Quicumbes” (xinguilamento e adoração de “ídolos”) e “Mutambes” (sacrifícios rituais de animais em homenagem aos mortos).
O governador continuava a acreditar na eficácia da lei, e para o seu justo cumprimento contava com a comunidade religiosa. Porém, o que mais o indignava e lhe parecia de mais difícil trato era a mistura dos ritos africanos com os da cristandade, como por exemplo considerar que eram dias Santos da Igreja Católica os dias imediatos à lua nova, considerados sagrados pela população, ou a celebração de ritos pagãos nos mesmos dias consagrados pelos católicos, «fazendo todos esses ilícitos actos nos mesmos sagrados dias em que a Igreja com todos os seus fiéis a venerarem os sacratíssimos Mistérios da nossa redenção.» Coutinho tinha razão, porque nunca passou pela cabeça da maior parte dos africanos que se tinham convertido ao catolicismo renegar as suas crenças e cortar, na sua vivência do dia-a-dia, as raízes que sempre os tinham ligado, ligavam nessa altura e continuam ainda hoje a ligá-los às tradições ancestrais.
Não obstante tamanha aresta, na esteira deste bando vieram perfilar-se inúmeras tentativas de implantação de instrumentos jurídicos, teoricamente para proteger a população local. Começaram então a ser promulgadas leis a propósito de tudo, decretos municipais regulamentavam doravante o tráfico local, os balcões do mato eram submetidos a fiscalizações pontuais, a famosa Ronda de Luanda, que controlava a ordem na cidade, foi remodelada, revestida de uniformes novinhos em folha, multiplicaram-se as suas saídas de controlo, doravante de manhã, ao cair da tarde e duas vezes durante a noite. E os luandenses, que tinham por hábito sentarem-se noite vinda à soleira da porta das suas casas a conversar até altas horas, cultivaram o hábito de esperar que a primeira brigada nocturna passasse para se retirarem, tranquilos, nos seus aposentos.

A partir de uma certa altura a vida do Manoel ressentiu-se de tantas medidas jurídicas, tomadas no sentido de disciplinar a vivência citadina e prevenir desmandos. O cerco em volta das suas idas e vindas apertou-se a pontos de o homem sentir que alguém lhe queria fazer mal. Seria mau-olhado? Pelo sim pelo não tomou as suas cautelas e foi falar com o kimbanda. Este pediu-lhe vinho, maruvo, azeite doce e velas, também um frasco de perfume, uma fortuna, para lhe dizer o que ele já sabia: uma mulher tinha-lhe entrado na cabeça e estava a dar cabo da sua vida. Ora bolas!, só podia ser a preta Teresa. E havia um homem, acrescentou o kimbanda, que também lhe complicava a vida, perto da Teresa... Claro!, essa era boa, era o Surdo, só podia ser o Surdo. Se ele soubesse que os ruídos nocturnos que o incomodavam eram os que a cama da cozinheira fazia, misturados com os gritos que ela dava quando o Manoel a cavalgava nos pináculos sexuais que ambos alcançavam, cairiam todos os carmos e trindades de África, e o Manoel... o melhor seria ele fugir para o Brasil. É que o Surdo também dava as suas voltas eróticas com a Teresa, mas diga-se, num estilo muito mais sofisticado. Ao contrário do Manoel, que tinha, como toda a gente sabia, força na verga, o Surdo, de nacionalidade portuguesa, quase nos setenta anos e trinta de África, depenicado no sangue por várias crises de paludismo e uma próstata quase tão inchada como o seu ego, deparava-se constantemente com dificuldades para chegar a vias de facto com uma mulher, mesmo com a Teresa, que primava pela sensualidade contagiante. Por isso, demorava-se nos preliminares, de que fazia o prato quente do seu repasto carnal, temperado com todas as especiarias que a Teresa tinha em reserva só para ele, e contentava-se, depois dos frugais petiscos calientes, com uma sobremesa da sua lavra, um rápido e pouco seguro coito, numa fuga para a frente até atingir os píncaros de um orgasmo teatral. A Teresa interpretava então o papel de uma cantora de ópera e gritava como se estivesse no palco da Scala de Milão. Ela era, realmente, o último rebuçado da vida do Surdo, e se lho tirassem ele seria capaz de matar.

Imagem: historiaempartes.blogspot.com

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Porquê camarada? Dos Santos teme confrontação democrata


Uma democracia autocrata só pode existir na mente de um pensador utópico, pois nunca poderá ser vista como sendo o poder do povo para o povo. No entanto, nós, angolanos, teimamos em chamar democracia ao nosso regime autocrata. Aliás, se os gregos da antiguidade vissem aquilo a que chamam em Angola democracia, com certeza pensariam que estamos a brincar aos regimes entre irmãos.

Angola para desgraça colectiva dos autóctones continua à deriva, não obstante fruir uma relativa estabilidade governativa, conquistada ao preço do monolitismo governativo e do petróleo. O mal todo é que não estamos longe duma estabilidade de fachada, do tipo da Tunísia de Ben Ali ou ainda do Iraque de Saddan Hussein, países governados a pulso por homens todo-poderosos, aparentemente adorados pelos seus e que só trouxeram alegria aos seus respectivos povos quando foram escorraçados definitivamente do poder político.

Realmente, o que suportava esta aparente idolatria era o enorme aparato militar que rodeava esses homens, que, manipulando todas as engrenagens do Estado, em cada processo eleitoral chegavam a arrebatar números recordes que se aproximavam dos 90, 99, ou mesmo 82.3 por cento como alcançou o MPLA em Angola.

Neste momento os angolanos vivem numa encruzilhada depois de aprovada a constituição de Fevereiro de 2010, onde se deu mais um golpe violento a ameaçar mais um pouco a morte na nossa democracia incipiente e assim fazer emergir uma ditadura camuflada e rigorosamente polida, com alguns partidos políticos mais decorativos que políticos, algumas ONG e uma sociedade civil timorata, e com razão de o ser, mas, sobretudo, sem os fundamentais constituintes duma democracia que se preze: instituições verdadeiramente do Estado. Em Angola, vergonhosamente, as instituições estão comprometidas, tal como nas democracias comunistas, ou com um só partido no poder….

Assim, quando em 2012 os angolanos forem chamados para o provável pleito eleitoral, veremos que eles serão confrontados com a monotonia de um processo que de relevante apenas terá a recondução, ou melhor, a fixação no cadeirão presidencial de José Eduardo dos Santos, um eterno candidato, que sem que nos demos conta do facto, está a criar todos os alicerces de uma monarquia, ao mesmo tempo que em seu redor se vai implantando um clima de insegurança, com os exemplos da Côte d’Ivoire e da Tunísia a servir de (mau) exemplo.

Considerado por muitos como factor de estabilidade, Dos Santos nunca conseguiu provar isso, quer a nível interno, quer externo, pois os seus mais fortes argumentos para vencer contrariedades têm sido sempre a razão da força com base no enorme aparato que dispõe e que o cerca. Além disso, a sua trajectória está semeada de dissensões graves, de rupturas bruscas, esquecimentos voluntários e outras atitudes humilhantes.

Vamos a uma retrospectiva
Quando subiu ao poder, Dos Santos contou com o apoio de alguns antigos companheiros, mais velhos, como Alexandre Rodrigues Kito, Luís Neto Xietu (que dormiam inicialmente com o chefe no Futungo de Belas) Mendes de Carvalho, Lúcio Lara, Iko Carreira, Paiva Domingos da Silva, Imperial Santana, entre outros. Mas com o passar do tempo, com a consolidação paulatina do seu poder, ele foi desprezando estes homens que se bateram para que ele tomasse o lugar de Agostinho Neto e, um a um, foi-se afastando deles para enfim pouco a pouco os levar a afastarem-se dele.

A forma como actuou com Lúcio Lara foi marcante, quase se poderia dizer que o colocou no domínio do esquecimento, e a cada vez maior distanciação entre os dois homens não se coaduna com o estatuto de Lara. Este sentiu a amargura de lhe serem retiradas friamente algumas alavancas do poder político que ele ainda controlava.

Com Alexandre Rodrigues Kito, seu amigo, o caso é muito mais grave, é um caso sério! Ainda hoje está por saber a razão fundamental que o levou a acusar o seu amigo de tentativa de golpe de Estado… não lembra ao diabo

Votado por vários anos ao ostracismo, depois de muito tempo foi nomeado embaixador na África do Sul e Namíbia, logo distante do centro da política….

Armindo do Espírito Santos, durante muitos anos atravessou o deserto, tal como Ambrósio Silvestre, por alegadas questões passionais e intrigas que Dos Santos acolheu e levou em consideração. Penalizou ambos por razões pouco claras. Armindo, que havia chegado a comandante da Polícia Nacional foi exonerado e com a sua exoneração, face ao fechar de portas, começou a dedicar-se á pesca com uma pequena chata, tendo todas as manhãs de ir contabilizar o produto da pesca. Ambrósio, teve mais sorte, foi afastado mas acabou por ser indicado para uma petrolífera, num penoso exercício de ter que engolir cobras e lagartos para se manter viável. Marcas de dor ficaram pelo caminho.

Estes são apenas alguns exemplos do carácter do chefe, a par de muitos antigos combatentes, do próprio MPLA, reclamarem um abandono e dificuldade em falar com o seu líder.

Longa lista de filhos, enteados e odiados
Um dos métodos a que recorre com relativa frequência Dos Santos reside na distribuição de “Tachos para aqueles por quem ele tem algum apreço, afecto. A competência passará quase sempre para não dizer sempre para segundo plano. Assim sendo, todas as empresas de vulto, absolutamente todas estão a ser dirigidas por homens da sua confiança. Esses homens sabem que podem ser apeados e fazem muito atenção ao que dizem e ao que fazem. Sobretudo não melindrar o chefe, se possível fazer tudo para lhe agradar

Para começar, os filhos. Dos Santos “ofereceu” um canal de televisão a dois filhos seus, em todo o caso eles por ali entraram como se a TPA fosse deles, presenteou com uma empresa de telecomunicações a sua filha mais velha, ISABEL DOS SANTOS a mais rica mulher africana aos 36 anos detentora de uma milionária fortuna -, um negócio fabulosos (UNITEL) hoje com mais de 6 milhões de clientes ao que diz a publicidade, ao mais velho tudo indica que lhe reservará o cadeirão de chefe de Estado para condignamente lhe suceder; quanto ao mais novo, esse canta, bem, e não se lhe conhece ainda nenhum negócio apadrinhado pelo seu pai. Isto sem falar da, MOVICEL, também organizada para controlo a favor dos filhos

Os “enteados”, entre aspas pois não são forçosamente da família, esses são apreciados, recebem benesses que se fartam, mas também lhes acontece ter problemas no tortuoso percurso de agradar ao chefe. Alguns tiveram sorte:

JOSÉ LEITÃO, bateu com a porta depois de vários anos como homem de confiança e director de gabinete, reconciliaram-se mais tarde e como compensação foi o único privado do regime a beneficiar de um largo quinhão do financiamento da China, cerca de 500 milhões de dólares para o shopping do Gika, uma ex-unidade militar dada a custo zero

JOÃO DE MATOS, exonerado de forma pouco cordata de chefe do Estado-maior General das FAA, foi compensado mais tarde com facilidades em negócios no domínio dos diamantes e não só.

Outros não tiveram sorte nenhuma:

ELISIO DE FIGUEIREDO embaixador dos mais ricos no exterior e amigo pessoal, ao que parece estão de costas viradas

MIALA de homem de confiança passou a persona non grata e foi muito humilhado.

O ministro das Obras Públicas, José Ferreira que foi exonerado sem saber que tinha sido exonerado

Isto sem falar de Serra Van Dúnen, Lopo da Nascimento, Marcolino Moco e muitos outros que foram totalmente postos de lado quase sempre com azedume deixado no caminho.

Enfim temos os odiados. Esses que não o querem ver mais no poder, a começar pelo falecido JONAS SAVIMBI, seguido do outro pai da nação, HOLDEN ROBERTO, que nunca foi considerado digno combatente da Pátria. Dos Santos tirou-lhe as casas, cortou-lhe as asas e as contas bancárias, até ele ser votado à fome, mas mantendo-se opositor, morreu com honra e glória de homem honesto, o que muitos do regime jamais conseguirão

O político, líder do PDP-ANA e deputado, MFULUPINGA LANDU VICTOR foi barbaramente assassinado, defronte a sede do seu partido, num crime que nunca foi explicado.

RICARDO MELO, jornalista morto para com a sua morte se calar a imprensa livre a renascer das cinzas do partido único, e cujo resultado foi exactamente o contrário, ou seja, o nascimento da imprensa privada em Angola o que teve como consequência aparecerem dezenas de outros jornalistas, uns perseguidos, outros também assassinados, outros ainda, cooptados ou comprados pelo regime

Isto sem esquecer os herdeiros das vítimas do 27 DE MAIO de 1977, a quem nunca foi dada uma voz. Considerados vencidos, filhos do alheio, foi-lhe aconselhado calarem-se, engolir as lágrimas e nem sequer terem o direito a uma certidão de óbito dos seus familiares mortos pela mais asquerosa das razões: pensarem diferentemente.

Dos Santos já vai numa jogada de pseudo democrata com mais de TRINTA ANOS NO PODER, apoiado por uma BANCA partidarizada e controlada por senhores do regime, com todas as riquezas de Angola oferecidas aos da sua preferência, a um ponto tal que se pode dizer que nenhum empresário tem sucesso ou opera se não estiver filiado no MPLA – discriminação que se estende mesmo à escolha das DATAS NACIONAIS que são só as do MPLA - com a oposição a se desfazer em pesares por ter sido roubada nas eleições com Jonas Savimbi a virar-se na tumba, porque o quadro do país não mudou, a situação económica e a discriminação das bandeiras antes hasteadas por Savimbi, continuam a ser as marcas do regime.

Nesse 35 anos, Dos Santos esqueceu a oposição. Na comemoração da independência não convidou os lideres dos partidos e as fotos exibidas no estádio 11 de Novembro, local onde decorreram os festejos foram as de Agostinho Neto e a sua, quando foram três movimentos que se bateram pela independência de Angola.

E uma pergunta impõe-se: será que Dos Santos não vê que está, do mesmo modo, Ali, o chefe tunisino fugitivo, não vê que se acumulam dores, se acumulam rancores, se acumulam ódios? Será que não vê? Estamos em crer que sim. Não foi sem razão que Dos Santos criou um aparato militar descomunal e a UGP transformou-se não numa guarda presidencial, imprescindível e essencial para a protecção de um chefe de Estado mas num exército particular.

*Voltaremos com mais detalhes

Tunísia. Interpol emite mandado de detenção em nome de Ben Ali


A representação da Interpol na capital tunisina emitiu no dia 26.01 um mandado de detenção internacional em nome do antigo presidente Ben Ali, refugiado na Arábia Saudita, e da sua mulher, Leila Trabelsi.
O Ministério da Justiça tunisino anunciara um mandado internacional de detenção contra o ex-casal presidencial por “aquisição ilegal de bens mobiliários e imobiliários” e “transferências ilícitas de divisas para o estrangeiro”.
O irmão da ex-primeira dama, Benhassen Trabelsi, também em fuga, também é visado pelo inquérito, à semelhança de outros oito membros da família, detidos na Tunísia.
Seis membros da guarda presidencial, entre os quais o antigo chefe da segurança de Ben Ali, o general Ali Seriati, são objeto de investigação no quadro de um inquérito sobre excessos cometidos na repressão da população.
Homem chave da segurança de Ben Ali, o general Seriati é considerado o promotor da campanha de terror realizada por milícias fiéis ao regime deposto nos dias seguintes à sua queda.

ONU e EUA Exigem postura "mais agressiva" da missão no Darfur, face a reacender de combates


A embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas defendeu no dia 26.01, uma postura “mais agressiva” da missão da ONU no Darfur (UNAMID), face ao recente reacendimento do conflito entre forças do governo e rebeldes nesta região do Sudão.
A deterioração da situação de segurança no Darfur – com registo de combates, raptos e impedimento do acesso das forças da ONU às populações afetadas – acabou por tomar quase por inteiro as discussões desta manhã no Conselho de Segurança, dedicadas também à missão da organização no Sudão (UNAMIS).
Após as consultas, que se seguiram a um briefing do chefe da UNAMID, Ibrahim Gambari, a diplomata norte-americana, Susan Rice, veio sublinhar que a missão tem um “mandato robusto de proteção de civis” e que os Estados-membros esperam que as forças da ONU sejam “muito ativas e agressivas quando necessário”.
“Estamos frustrados e consternados com as repetidas circunstâncias em que é negado à UNAMID o acesso [a populações] e a sua liberdade de movimentos é restringida. Estamos a pressionar há meses para que a missão cumpra o espírito e a letra do seu mandato, assegurando que não se encontra a negociar questões de acesso, mas sim a certificar-se de que tem o acesso que lhe é devido”, adiantou Rice.
O relatório da missão discutido detalha 26 casos, no espaço de três meses, em que foi negado ou restringido o acesso das forças, 23 dos quais por ação do governo sudanês.
A UNAMID tem informado rebeldes e governo de que vai insistir no acesso às populações, o que o Conselho de Segurança apoia, embora tal nem sempre tenha resultado no passado, adiantou Rice.
Mesmo tendo em conta o risco inerente para os capacetes azuis, o Conselho de Segurança estará atento a Gambari e ao comandante da força para “assegurar que esta postura robusta é perseguida, é consistente e permite à UNAMID fazer o máximo para proteger os civis”.
Dirigindo-se ao Conselho por videoconferência a partir da região, ladeado pelos chefes militares da UNAMID, Gambari afirmou que a última vaga de combates já causou mais de 43 mil refugiados.
Atul Khare, secretário-geral adjunto para as operações de manutenção de paz, fez um balanço otimista das negociações de paz para o Darfur, que têm decorrido em Doha, Qatar.
Um dos principais grupos rebeldes, o Movimento Igualdade e Justiça, aceitou regressar à mesa das negociações e Abdul Wahid, outro senhor da guerra na região, está em contactos para se juntar ao processo.
“Recentemente, Wahid indicou que pode vir a enviar uma delegação no futuro próximo”, disse Khare, perante o órgão de segurança da ONU.
No início de fevereiro a situação no Sudão voltará a ser discutida no Conselho, com destaque para o processo de referendo sobre a independência no Sul do maior país de África.
A este propósito, Khare afirmou que os primeiros sinais saídos da contagem de votos apontam para uma “vitória esmagadora da secessão” no Sul do Sudão. Responsáveis eleitorais no terreno têm falado de uma vantagem de 98 a 99 por cento a favor do “sim” à separação em relação ao Norte do país.

Imagem: Wikipedia

Egipto. França considera que regime do Cairo é "autoritário" mas que cabe ao povo tomar decisões


O ministro da Defesa francês considerou no dia 26.01 que o Egipto é “muito certamente um regime autoritário”, mas defendeu que não se pode “substituir os povos nas decisões que tomam” nos seus países.
Interrogado pelo canal televisivo Canal+ sobre a situação no Egipto, no segundo dia de uma mobilização inédita contra o presidente Hosni Mubarak, no poder há três décadas, Alain Juppé afirmou que o Egipto “não tem uma democracia com os padrões” franceses e “é muito certamente um regime autoritário”.
Mas, interrogou, “pertence à França entregar certificados de democracia a todos os países do planeta?”. “Não nos devemos substituir aos povos nas decisões que tomam e aos movimentos que geram”, respondeu.
Reafirmando que o governo francês não é “indiferente, de forma nenhuma”, ao que se passa no mundo árabe, o ministro frisou: “Dizemos claramente, quanto à Tunísia, que apoiamos os esforços do povo tunisino. (…) Os tunisinos são nossos amigos e desejamos que caminhem para a democracia.”
O governo francês foi fortemente criticado por ter tardado a condenar a repressão das manifestações e a apoiar a “revolução do jasmim”. Foi só depois da queda do ex-presidente Zine el Abidine Ben Ali que Paris apoiou explicitamente o movimento popular.

EUA pedem libertação de jornalistas detidos e querem moderação e reformas políticas
O governo norte-americano pediu a libertação de todos os jornalistas detidos pelas autoridades do Egipto, após dois dias de distúrbios e protestos contra o regime do país.
O Comité de Protecção dos Jornalistas quantificou em sete os profissionais da comunicação social detidos enquanto cobriam as manifestações na capital egípcia, Cairo, contra o governo do presidente Hosni Mubarak, enquanto outros foram alvo de ataques e ameaças.
Durante o seu encontro com a imprensa, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Philip J. Crowley, afirmou que o seu país está a pressionar o executivo egípcio para que liberte os jornalistas.
Acrescentou que a secretária de Estado, Hillary Clinton, já deixou clara a importância de o Egipto “respeitar o direito universal do seu povo à liberdade de reunião, liberdade de expressão e ao protesto pacífico”, quando questionado sobre as centenas de detenções feitas pela polícia.
Disse ainda que a embaixadora norte-americana no Egipto, Margaret Scobey, pediu ao governo que demonstre moderação e manifestou preocupação com a interferência governamental nos meios de comunicação.
Scobey indicou, durante uma reunião com o ministro de Estado egípcio para os Assuntos Parlamentares, Mufid Shehab, que “a liberdade é tão importante como o direito de um cidadão a estar numa praça ou a criticar o governo sem recear represálias”, afirmou Crowley.
Horas antes, a Casa Branca também condenara a violência no Egipto e reiterara o seu apoio ao direito dos seus cidadãos a protestarem de forma pacífica. “Apoiamos os direitos universais de reunião e expressão. Enfatizamos, de forma bem clara, para todas as partes envolvidas, que as manifestações devem ser sem violência”, afirmou o porta-voz do presidente Barack Obama, Robert Gibbs, a bordo do avião presidencial Air Force One.
“Este é um momento importante para que o governo demonstre as suas responsabilidades com o povo do Egipto ao reconhecer estes direitos universais”, sublinhou Gibbs.
A polícia do Cairo confrontou-se com milhares de pessoas que desafiaram uma proibição de protestar contra o regime de Mubarak e recorreu, inclusive, ao uso de gás lacrimogéneo para as dispersar.
O governo norte-americano já pressionou Mubarak, um aliado chave dos EUA no mundo árabe, para fazer reformas políticas.
O Egipto é um dos principais destinatários da ajuda norte-americana no mundo e foi o primeiro Estado árabe a fazer a paz com Israel.
A convulsão recente na Tunísia, depois do derrube do presidente Zine al-Abedine Ben Ali, aumentou as preocupações com a estabilidade de outros governos árabes.

Cabo Verde/Eleições Carlos Veiga promete criar 12º ano de escolaridade obrigatória


O líder do Movimento para a Democracia (MpD), e antigo Primeiro-ministro Carlos Veiga, prometeu no dia 27.01 na Cidade da Praia aumentar de nove para 12 anos a escolaridade obrigatória, caso vença as eleições legislativas de 06 de Fevereiro.
Falando perante centenas de pessoas concentradas na Achada de Santo António, no comício que encerrou uma jornada dedicada ao contacto com o eleitorado da capital, Carlos Veiga dedicou a maior parte dos 45 minutos que durou a sua intervenção a medidas de apoio à juventude.
Além de criar o 12º ano de escolaridade obrigatória, Carlos Veiga garantiu que dedicará um por cento do Orçamento de Estado para a cultura, e que vai adotar “as medidas indispensáveis” para combater o desemprego, que afeta oficialmente cerca de 13 por cento da população ativa.
Assim, reafirma a promessa feita ao longo da campanha eleitoral: a criação de 30 mil postos de trabalho. “Tenham esperança, porque tem mudança”, salientou, invocando a principal palavra de ordem do MpD “Mesti Muda” (expressão em crioulo que significa “É preciso mudar”).
Carlos Veiga, que foi Primeiro-ministro de 1991 a 2000, assinalou as diferenças entre o MpD e o atual partido no poder, o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), apelando a que “ninguém falte” na hora de votar.
“A opção é clara. Em causa está o futuro do arquipélago. O MpD é o único partido capaz de protagonizar a mudança”, concluiu.

África do Sul. Internamento hospitalar de Mandela cria grande ansiedade no país


O internamento hospitalar de Nelson Mandela, oficialmente para “exames de rotina” mas sinal da crescente fragilidade do histórico líder de 92 anos, está a criar grande ansiedade na África do Sul.
No dia 26.01 à noite um pequeno contingente de jornalistas nacionais e estrangeiros esteve mesmo acampado à entrada do hospital privado de Milpark, em Joanesburgo, monitorizando todas as entradas e saídas de familiares, amigos próximos e colaboradores do antigo presidente sul-africano, numa tentativa também de colmatar a ausência de notícias sobre o estado de saúde de Mandela.
O primeiro presidente negro do pós-apartheid (entre 1994 e 1999) foi admitido cerca das 14:00 locais do dia 26 no hospital de Milpark para “exames de rotina”, segundo um breve comunicado emitido pela Fundação Nelson Mandela, a única entidade que representa o ex-presidente e detém os direitos sobre os seus imagem e nome.
Ao longo dos dias, no entanto, a escassez de notícias sobre o estado de saúde de Mandela começou a gerar uma onda de interesse e ansiedade, particularmente entre a comunicação social que cobria o internamento do ex-presidente.
Os responsáveis do hospital deram ordens à segurança para proibir a entrada de jornalistas nas instalações, incluindo no parque de estacionamento, o que levou alguns repórteres de imagem a posicionarem-se num viaduto sobranceiro ao hospital, uma vez que do portão da instituição a visibilidade para a zona de admissões é quase nula.
Forçados, de seguida, a abandonarem o viaduto pela polícia, os profissionais de comunicação social aglomeraram-se ao fim da tarde nas imediações do portão principal, local onde muitos deles decidiram passar a noite.
As notícias difundidas eram, na sua maioria, especulativas e em grande parte baseadas numa sequência de questões levantadas em semanas recentes sobre o alegado agravamento do estado de saúde daquele que é o mais respeitado líder sul-africano de todos os tempos.
Há cerca de uma semana e meia circularam na rede social Twitter rumores sobre a morte de Mandela. E, apesar dos enérgicos desmentidos da Fundação Mandela e do Congresso Nacional Africano (ANC), a opinião pública continuou a alimentar suspeitas e dúvidas sobre o verdadeiro estado de saúde do ex-presidente.
O arcebispo Desmond Tutu, amigo pessoal de Mandela, disse à agência sul-africana de notícias SAPA que se encontrou com o ex-líder “na semana passada” e que ele estava “fragilizado”.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A Caixa de Chifre Preto. Crónica histórica romanceada (4)


António Setas

Com o seu regresso a Luanda, de mãos a abanar, carrancudo e meditabundo, amaldiçoando a sua má-sorte, o tenente-coronel Silva Franco tinha razões de sobra para andar de trombas viradas para a vida. A sua carreira militar tinha sido esse já citado fracasso de que toda a Luanda falava em surdina, e a sua demissão parecia-se muito mais com uma auto-bofetada do que com a corajosa e dignificante renúncia voluntária, alvo principal do seu alarde, que lhe permitia ainda sair de casa com a cabeça levantada. O pecúlio que recebera da Coroa portuguesa tinha caído num poço sem fundo do Mato Grosso, depois de ter pairado nas alturas, em tentativas infrutíferas para alcançar as miragens de um Eldorado inacessível. No entanto, diga-se em abono da verdade, de início sua iniciativa não carecia de lógica cartesiana, em moda nesse tempo. Ele sabia que havia ouro nas terras do interior do Brasil, tinha homens fiéis dispostos a acompanhá-lo, também com direito à sua parte, claro está... tinha a rota traçada, sabia onde estava o bagunço, sabia também quem deveria contactar para chegar “à fonte”, homens seguros e idóneos, e assim, corajosamente, tinha enveredado pelas sendas promitentes do Mato Grosso, em busca de ouro em pó. Só que se esqueceu de que nesses remotos sítios impera o Malígno, o Diabo em pessoa, metamorfoseado em mulher, padre, homem político importante ou indigente, tudo lhe serve. Vale a pena contar a história, a todos os títulos edificante e digna de reflexão.

Como planeado, as coisas correram menos mal até ao momento em que o tal ouro em pó, que ele se propunha comprar por dez réis de mel coado o quilate, se lhe escancarou em frente dos olhos. Era um saco grande, com puríssimo pó, mais de 70% de ouro, que seria dele contra pagamento a pronto em moedas de ouro e prata do reino de Portugal. O tenente-coronel pagou o ouro e escondeu-o de noite, a altas horas, num buraco que fizera no mato, perto do acampamento que tinha levantado para concluir o negócio. Mas o seu homem de confiança, o escravo Fagundes, que tinha o sono leve, topou o sítio onde o dono escondera o saco, e na sua cabeça passou um filme em que a vedeta principal era a negra Berenice, veja-se a coincidência do homónimo (ou será que não era coincidência?), e viu-se ao lado da sua amada, dono de uma fazenda rica, a viajar em caleche, com escravos a abanar folhas de bananeira, cozinheiras a servir-lhes os repastos, enfim, “uma vida igual à dos brancos”, nem soba lhe chegaria aos calcanhares!...Mas não, não podia fazer isso, estava contra os seus princípios de obediência a um dono que era bonzarrão e displicente. Aguentou, deitou-se e continuou a sonhar com caleches, fazendas e escravos ao seu serviço. De madrugada, ainda o sol não se tinha despegado da linha do horizonte, apareceu-lhe a quente Berenice, lânguida, afamada de sexo, que se abriu para ele como uma ostra pronta a ser devorada. E ele devorou, e tornou a devorar, até ficar vazio, estatelado na cama, exausto. No fim, a moça disse-lhe, «Vamo fugi. Tenho sítio onde podemo ficá.» Fagundes levantou a cabeça e olhou para a negra. Tão linda!...«Fugir!?, tá maluca!»... «Vamo!». Fagundes pensou no saco cheio de ouro, nas folhas de bananeira a abanar, pensou na vida...era muita bufunfa! «Aonde?», «Em Ilhéus. Tenho tio, terra boa. É prá nói, vem só.» Fagundes pegou nele, em si próprio é o que se quer dizer, meteu a coragem nas mãos, não havia enxada, não havia pá, não havia nada ali ao lado, e escavou a terra no sítio onde estava escondido o saco com o ouro do seu dono. Pegou nele e fugiu com a negra.
Não foram longe. Nessa mesma manhã, a favor de uma paragem para comer qualquer coisa, na aldeia de Tipiruacu, estavam eles a comer uma sopa, apareceu de flagrante o Fragoso, chefe de coisa nenhuma e de tudo, porque não havia nada em que mandar e ele mandava em tudo o que ultrapassasse o nível do pensamento da planta do mato. Falou pouco, só disse, «Tá fazê aqui o quê, pêto sujo?» O Fagundes ia para se levantar, mas não teve tempo, o Fragoso matou-o no movimento. Depois pegou no saco e na Berenice e desapareceu do olhar indiferente dos clientes da velha Piluca, ex-prostituta convertida em dona de casa de pasto, sem nenhum prejuízo para a prostituição, que continuava a exercer-se nos quartos do primeiro andar do seu albergue.
Quando o tenente-coronel Silva Franco deu conta do desaparecimento do seu saco de ouro e do Fagundes, de pouco lhe serviu procurá-los, quer dizer, depressa encontrou o Fagundes, mas morto. Do saco com o ouro nem cheiro tinha ficado. A Piluca disse-lhe que a tinham assaltado. A polícia (?) apareceu para ver se havia mais alguma coisa para roubar. E foi assim que o tenente-coronel Silva Franco regressou do Rio de Janeiro, com uma mão atrás e outra à frente, guardando nos seus dentros uma réstia de felicidade por não ter perdido tudo, se considerarmos que a sua vida, mesmo assim, era um bem precioso.
Agora tinha que se desenrascar, fosse de que maneira fosse.

“ O idioma dominante é o ambundo. As senhoras costumadas a fazerem-se entender às suas escravas por esta linguagem, são verbosas nas conversações familiares, mas mudas nas polidas assembleias(...). Os homens falam português e são elegantes no ambundo”. “Nos arrabaldes a cidade, a religião é mescilânica, composta da católica, da maometana, e da pagã (...)”

IV

Depois de o “Escorrega ter fundeado na baía de Luanda, os passageiros desembarcaram e cada um foi à sua vida, Silva Franco com o seu “escravo” novo, agora ao lado do que tinha vindo a correr de casa até ao cais para recebê-los - o Eusébio de Paulo, um rapagão de 26 anos de idade, homem de mão e segurança -, e lá foram, ambos carregados com as biquatas trazidas do Brasil; o Sam Payo levou a sua Berenice pela mão; o restante povo seguiu o seu destino.
Nesses momentos que se seguiram à chegada do navio, espectáculo digno de ser visto era o grande número de pipas de geribita brasileira, de todos os tamanhos, a serem levadas pela cidade rumo às tabernas, que “constituíam duas terças partes dos edifícios da Cidade”. Espectáculo imutável mal chegasse um barco do Brasil carregado de uma boa quantidade de pipas. Estas, no preciso momento em que eram desembarcadas encontravam comprador e desapareciam das ruas de Luanda nesse mesmo dia. E era então que se viam os escravos carregados, comerciantes e taberneiros de par com homens letrados e militares, bandidos e putas, padres e investidores de fundos a dispersarem-se pela cidade e a desaparecerem nos seus recantos de acolhimento. Mas o que mais se via, de longe, eram os taberneiros, especialistas na venda dessa famosa geribita, “agoardente extraída das fezes do Assucar, e por isso de menor preço do que a extraída da Cana doce”.
Silva Porto tinha casa na ilha de Luanda, na Xicala. Quando lá chegaram, arrumaram a mercadoria e em seguida o dono quis mostrar a cidade ao Manoel e aproveitar a ocasião para ir de visita ao sôr Manuel da Silva Machado Palhares, conhecido por “Machado da Quitanda”, ou, se o quisessem ralar, por “O Surdo”, porque por mais que o solicitassem nunca descia os preços, um velho amigo seu, português, de Guimarães, a caminhar para os setenta, ao mesmo tempo dono de uma boa loja de roupas, alfaiate e taberneiro, o tudo na mesma casa. Tinha sido um dos poucos que apoiara o tenente-coronel aquando das suas desfeitas militares, «Isto é uma terra de loucos, ninguém pode estar seguro de nada», tinha ele dito na altura para explicar o falhanço do ex-candidato a herói da pátria. Apreciavam-se, tinham respeito um pelo outro. Festejaram o reencontro num abraço, enquanto o Manoel se fazia pequenino num canto.«Quem é aquele?», perguntou o logista-taberneiro, «É o meu novo escravo», sussurrou em jeito de confidência Silva Franco, «vou ver se o consigo meter a pumbeiro. Fala português, é esperto», «Assim seja, amigo». Entretanto, a favor da animada conversa que se seguiu, vinda do seu canto foi-se aproximando a negra Teresa, que de imediato tinha topado no negro Manoel uma “peça”, que poderia perfeitamente convir para apertá-la na cama. Enquanto os comerciantes continuaram a falar, a comentar a viagem e as mudanças que se operavam em Luanda por causa desse tal Sousa Coutinho, a Tereza e o Manoel, com muito, muito cuidado, acabaram por fazer uma espécie de junção, e iam trocando impressões que arribaram a uma inequívoca conclusão: mal possas vem e eu sou toda tua, mal possa cá estarei, e tu serás toda minha. Pouco tempo depois, esvaziada a caneca de vinho, que tinha sido servida a pedido do Machado para festejar o regresso do amigo, os dois homens despediram-se, prometendo-se rever em breve.

Pouco a pouco, o “escravo” Manoel começou a fazer o seu casulo. Depressa a negra Teresa caiu nos seus braços; a bela Berenice não ficou mais de uma semana em casa do Florêncio de Sam Payo, desapareceu misteriosamente sem deixar rastro, mas o Manoel sabia onde ela estava.
Entretano, Silva Franco passou progressivamente a dar-lhe mais liberdade, quando se deu conta de que as suas caminhadas no mato, ou noutro sítio qualquer, pois ninguém sabia ao certo para onde ele ia quando desaparecia da vista dos luandenses, eram fontes de receitas surpreendentes. Alguns meses mais tarde, após vários eclipses, o preto começou a aparecer em público com um à-vontade que ofuscava muita gente. Questões embaraçosas circulavam de boca à orelha a propósito de tão despropositada postura, e sobretudo da desfaçatez do dono, que não tugia nem mugia e deixava o seu escravo fazer tudo o que lhe apetecia.

Imagem: andrielli.pbworks.com

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Diário dos últimos dias de Luanda


É uma questão de História lembrar que, quando o Supremo Comandante das Forças Aliadas (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, etc.), General Dwight D. Eisenhower encontrou as vítimas dos campos de concentração, ordenou que fosse feito o maior número possível de fotos, e fez com que os alemães das cidades vizinhas fossem guiados até àqueles campos e até mesmo enterrassem os mortos. E o motivo, ele assim explanou: «Que se tenha o máximo de documentação – façam filmes – gravem testemunhos – porque, em algum momento ao longo da história, algum idiota se vai erguer e dirá que isto nunca aconteceu. «Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam». (Edmund Burke)

Gil Gonçalves
patriciaguinevere.blogspot.com

Há bancos que chegam sem tino, move-os a louca correria ao petróleo. Os bancos nasceram para arruinarem as nossas vidas. Trapaceiros por excelência, invadem-nos as almas e os nossos lares para nos espoliarem o que resta dos nossos bens gloriosamente conquistados. Corrompem e mandatam governos para saquearem as populações. Contratam pistoleiros financeiros para nos arrebatarem… mas mais o quê?! Se os empregos também nos espoliaram? Os bancos são a nossa miséria. São a nossa atípica desesperança. Os bancos são quadrilhas universais que nos impõem a lei moderna de Lynch: quem a um banco recorrer será sumariamente linchado. Os assaltos multiplicam-se a cada dia, a cada ápice. Os esfaimados defendem-se da fome bancária como lobos para não perecerem. O reino do petróleo não lhes pertence. Há muito que os bancos se vampirizam com os terrenos e casas/casebres que nos espoliam. Os bancos dão crédito a quê e a quem?! Eles estão ao serviço da FAMÍLIA, e mais ninguém, os tais 7% de depositantes. São eles que desgraçaram, e insistem na desgraça das nossas vidas. São tão pantanosos… isto não dá para alargar, porque está demasiado infestado de podridão. Um pobre exemplo: são eles que financiam a destruição das casas/casebres, das cubatas, daquelas do pau-a-pique… e dos bens ganhos pelas poupanças ao longo do tempo, etc. Para depois construírem lá os condomínios, as torres, os prédios, e mais etc.
Ora, aqui reside o não aumento dos depósitos. Isto constitui uma monstruosidade… se destroem o modus vivendi das populações, forçando-as às tendas, deixa de haver poupanças, logo não há dinheiro para depositar. E a população não mete lá o dinheiro porque os bancos não funcionam, não são credíveis. E depois com o que se passa actualmente com mais uma Experiência de Filadélfia no nosso BNA, da nossa engenharia financeira corrupta… mas que grande roubalheira. Os cientistas da corrupção angolana, cotados como os melhores do mundo, criaram um método engenhoso de transferirem os biliões de dólares que roubam. Inventaram uma versão da Experiência de Filadélfia, carregam o navio Eldridge,,, e os biliões vão para outra dimensão, num buraco do tempo.
Estão sempre no: «estamos sem sistema.» Há aqui um outro aspecto também muito importante a considerar: a energia eléctrica não funciona, podemos ir mais longe e afirmar categoricamente a sua não existência. Não é possível um banco trabalhar sem a energia da EDEL. É que as redes informáticas sempre a trabalharem com geradores 24 sobre 24 horas, apresentam um pormenor técnico: Os cinquenta ciclos da corrente alterna não fornecidos, provocam derrames cerebrais nos circuitos das redes informáticas… é por isso que bastas vezes surge o elementar: «estamos sem sistema. Não é possível o coração do sistema económico, os bancos, funcionarem ininterruptamente com geradores.
E também, talvez fundamentalmente, estamos enxameados de economistas (?). Ora, onde existe sabedoria a mais… De qualquer modo, a função principal dos bancos em Angola é espoliarem-nos o mais possível e impossível.
Dando cumprimento ao primeiro mandamento da Intolerância Zero, vamos todos sem excepção e demasiado clarividentes demolir Angola. Até que a disciplina, Demolições, está obrigatória em todas as Universidades. E tem doutoramento no curso, Como Bem Demolir Angola.
Angola venceu a batalha do Kuito Kwanavale. Houve uma viragem na África Austral. Mas não consegue vencer a mãe de todas as batalhas – a energia eléctrica – conclusão: dar tiros, qualquer um os dá. E como a batalha da mãe energia eléctrica não se resolve com canhões…
Luanda, quando as chuvas chegam. Nos anos 70, o já de idade muito avançada, director-geral da MABOR, não me lembro do nome, advertia-me: «não mexam nas terras, deixem-nas estar como estão, porque quando as chuvas chegarem arrastarão tudo.«
Vamos demolir e desempregar Angola. O Politburo entregou de bandeja a empresa COMETA aos chineses, e as dezenas de trabalhadores angolanos foram sumariamente despojados, demolidos dos seus empregos. In Rádio Despertar.
Comité de especialização de preços. Reunido mais uma vez em sessão ordinária, o Comité de Especialização de Preços decidiu por unanimidade, que doravante eles – os preços – subam diariamente. Pois que só assim, garantem, a economia angolana subirá, e naturalmente se estabilizará. Esta mais-valia é muito bem-vinda, porque fortalece o sistema a montante e a jusante.
O que é que bate bem em Angola?! O que está a dar mesmo é a constituição de empresas de demolições. Venha e invista já nesta área, Angola oferece-lhe lucros fabulosos em poucas horas. Não é necessária tecnologia. Bastam meia dúzia de brutamontes armados de camartelos. Aproxime-se já de Angola e ajude-a na sua demolição. Viva Angola demolida! Outro bom investimento, são os campos de concentração. Sendo Angola muito vasta, há demasiado espaço para a construção de milhares campos de concentração que podem ser, e devem, alugados a países estrangeiros, de preferência a amigos. Candidatos não faltarão, por acaso há-os de sobra.
A construção de prédios anárquicos, e a poluição ambiental são doentios porque por todo o lado há fumo tóxico dos geradores. Não constroem Luanda, destroem-na. E como na prática estamos sem energia eléctrica, é caso para dizer que se edifica uma pátria de geradores eléctricos. No futuro trata-se da imposição de mais uma revolução ou experiências dignas de um campo de concentração nazi.
Sanções. A ONU deve inovar um artigo, no qual se mencione que o país que não tiver energia eléctrica, seja excluído dessa Organização. Porque é uma abundante aberração a construção de edifícios na cidade de Luanda, sem redes de energia eléctrica, água e esgotos. Significa dizer, que assim não é país, é uma volúpia pantanosa.
Sempre o dia dos comunistas comodistas. A tremenda vigarice democrática de todos os tempos. O suicídio colectivo de um povo e de outros além-mar. Parafraseando Napoleão Bonaparte: Ó democratas (?)! Do alto da vossa torpeza, milhões de mortos, estropiados e esfomeados sem Abril, vos contemplam!
E escondidos e disfarçados, nas traseiras dos prédios praticam-se abundantes crimes contra a segurança do Estado.
Assaltos. Contra milhões de assaltantes ninguém combate. Um numeroso grupo de motociclistas pára em frente à venda da tia Lwena. Sempre estridentes, um como que se arvorando no chefe, aproxima-se e possuído pelo copo e ou pela liamba, berra, amedronta: «Isto ainda não é nada! Vocês vão ver o que é assaltos. A partir de agora é que vai ser. Vamos fazer um campeonato nacional de assaltos. Não temos medo de morrer.»
O Politburo assaltou a Internet, de tal modo que perece como a agora lotaria das casas dos jovens sem petróleo. Para acessar a Internet é outro sorteio sem casas. O Politburo conseguiu um feito notável. Elegeu a juventude para os campos da loucura. E ainda lhes faz sorteios de casas, enquanto diariamente se suicida nos milhões de dólares que arrecada da anarquia petrolífera e diamantífera, que apregoa já está outra vez a dar. Sem hipótese de sobrevivência, à juventude só lhe resta um descaminho: ondear assaltos de minuto a minuto e depois de segundo a segundo?! E quando alguém muito famoso, poderoso, do Politburo lhes cair nas mãos, e o eliminar?! Ninguém pensa nisto, né? Mas é uma hipótese muito provável, muito natural.
Sim! Mesmo com a crise mundial, Angola está em crescimento. Crescem os assaltos e a corrupção também. E como ainda estamos na revolução de Abril, que foi um arrasador terramoto na escala de Richter 11 ou 12, e que revividos dezenas de anos ainda semeia réplicas, ondas de morte, de miséria e de fome.
E o angolano perdeu o espírito de entreajuda, porque se refugia, conserva, defende os estigmas do tribalismo e do regionalismo. A juventude angolana não necessita de ajuda espiritual. Necessita urgentemente de ajuda material. A espiritual significa enviá-los para o cemitério mais próximo.
Até Isaac dos Anjos não está só, este assalta mal. É o assaltante campeão nacional do pó das casas/casebres. Uma coisa daquelas no Lubango ser feita por ele sozinho, até cá, o governo reagiria. Não reage porque há interesses por trás disso. Espoliar a cambada para depois aproveitarem os terrenos. A distribuição de casas serviu inicialmente para dar lugar ao caminho-de-ferro. Mas, o que se pretende é aumentar o cordão para mil metros. Nesta distribuição de casas as pessoas foram amontoadas com as suas imbambas e posteriormente levadas para a mata onde foram basculadas. E esse local onde foram basculadas, em nyaneka e umbundu designa-se tchavola (lugar putrefacto, onde se destinava todo o lixo da cidade.) Licenciados, mestres e funcionários públicos, atiraram-nos para a mata, sem mantas, sem tendas, debaixo das árvores e na encosta de uma montanha muito frígida.
A terceira guerra em Angola já começou. Os assaltos a todo o momento são de facto e de jure a prova guerreira.









A Caixa de Chifre Preto. Crónica histórica romanceada (3)



António Setas

III

A compra do escravo Manoel de Salvador teve lugar no Brasil, coisa de três anos e pico depois da tomada de posse do governador Sousa Coutinho em Luanda. Foi um bico de obra, simplesmente porque na altura em que Silva Porto quis comprá-lo, depois de lhe terem dito que o escravo era Jaga, como esses guerreiros que tinham causado a sua desgraça, já ele tinha sido vendido pelo seu dono, Henrique da Matta, a um capitão do Rio de Janeiro. O ex-proprietário do Manoel explicou-lhe as razões que o tinham levado a vendê-lo. O preto era ladino, atrevido, tinha maus hábitos, e antes de o vender já ele tinha pensado em enviá-lo para o Rio de Janeiro, «junto com outros, também ladinos, que lhe tinham furtado perto de duzentos mil réis de miçangas».
O termo ladino, no Brasil colonial, significava que o escravo assim designado conhecia a língua portuguesa, sabia dos códigos locais e manejava com maestria as regras do jogo da sociedade escravista brasileira. Possuía no entanto todos os defeitos dessas virtudes, sabia safar-se, era capaz de artimanhas e fugas, e tornava-se indesejável por ser ardiloso e não merecer a confiança de ninguém. Geralmente, o que lhe acontecia era ser enviado para outras terras, onde provavelmente acabaria por se revelar ladino novamente. Acontece que o tal capitão quis comprá-lo por ter a possibilidade de o controlar com rédea muito curta, visto que fazia frequentes viagens de barco a Lisboa em busca de peças de roupa a bom preço e «precisava de um da raça deles», afoito e inteligente, como guarda-costas e fiel de armazém, para o acompanhar nessas idas e vindas e facilitar-lhe a vida nos contactos que ele seria levado a tomar em negócios com os gentios. Salvador afigurava-se-lhe com o perfil desejado, por isso é que o tinha comprado. Ao ouvir estas desencorajantes novas, Silva Franco não se conformou com uma simples renúncia, viajou até ao Rio de Janeiro, tentou entrar em contacto com o tal capitão, um certo Gonçalo Fernandes, e conseguiu chegar a sua casa seguindo as indicações que lhe dera o senhor da Matta. Acabou por encontrar a casa e foi recebido pelo Manoel, já ao corrente do seu interesse, que imediatamente o fez entrar, agarrou-o pelo braço e suplicou-lhe que fizesse tudo o que estivesse ao seu alcance para levá-lo para Luanda. Depois largou-o, ajoelhou-se, fez uma prece a Oxalá, ou talvez a Tembanza, mãe de todos os Imbangalas, e retirou-se para ir chamar o seu dono. Passados alguns minutos este apareceu, sorridente. Já sabia do que o tenente-coronel desejava por confidência do senhor Henrique, não havia problema, era só pagar os custos, 45 para a peça, mais as despesas de manutenção, uns 60 mil réis, e o negócio estava fechado. O tenente-coronel torceu o nariz, era muito cacau, discutiu o preço durante meia dúzia de minutos e acabou por dizer que ia pensar. Atrás da porta o Manoel tinha ouvido toda a conversa,«Cem mil réis!?...O homem ‘tá chupá, vô dizê a ele cumé», murmurou. Os dois senhores não se demoraram mais em conversas, dirigiram-se para a porta, o escravo veio-lhes ao caminho e foi abri-la, e em seguida, sob pretexto de ir ajudar o visitante a montar no coche, seguiu-o até à viatura que esperava à porta. «Quando é qu’ embacá Luanda?», perguntou em surdina o escravo, «Eu?, é já para o mês que vem...», «Qual barco?», «Chama-se “Escorrega”, porquê?», «Deixe ‘stá. E mi arranjá tude...». Ajudou-o a subir, fez uma vénia e girou, ao mesmo tempo que os cavalos se punham em marcha.
Passados uns quinze ou vinte dias, Silva Franco recebeu a inesperada visita do Manoel de Salvador. Este vinha acompanhado por uma negra graúda, um mulheraço todo em curvas, «Só pra dá prazê ó siô», explicou, e trazia na mão uma caixa de chifre preto encapada em um pedaço de pano e amarrada com um mastro vermelho e lacrado, e uma carta lavrada no fundo, e 45 mil réis para fazer o seu resgate de cativeiro. O tenente-coronel, que tinha pegado a medo naquelas curiosas oferendas, mais valia não ter pegado nelas, aquilo era um feitiço, mas como o dinheiro estava lá dentro, e ele não acreditava em feitiços, pegou e só disse, «Não chega, é preciso mais dinheiro», e o Manoel a interromper, «Nada. Siô Rodrigues tamém tê mulhé, vai chigá». Mesmo assim, 45 mil réis era muito dinheiro, onde é que o raio do preto o tinha ido buscar? Fez-lhe a pergunta, e o escravo explicou, «Tá vê, meu mano. Tenho irmão aqui no Baziu, tá bem. Muita grana. Eli pagá», «E o capitão, onde está?», «Já não vir. Vem siô Matta. Tá chigá. Vem falá cu siô. É só dá caixinha, eli sabe».
Menos de uma hora mais tarde, de facto, o Henrique da Matta apresentou-se em casa do Silva Franco e explicou-lhe que o capitão tinha passado por uma crise de fúria terrível, quase tinha enviado a tropa à caça do Manoel, mas depois tinha-se acalmado, quando recebeu a visita de uma negra chamada Berenice, com uma caixa de chifre preto encapada em um pedaço de pano e amarrada com um mastro vermelho e lacrado, e uma carta lavrada no fundo. Essa mulher disse-lhe que era dele, sabia cozinhar, fazer quicuiçás e rissoletes de marisco, na cama também era boa, e disse mais, «O Manoel, o pobizinho!, fugiu com medo do feitiço!...», «Mas qual feitiço, aonde, e porquê?», perguntou o Silva Franco. O da Matta olhou para a caixa, «É isso que você aí tem. Essa caixa é minha, e lá dentro tem o meu dinheiro. Você dá-me a caixa, com o dinheiro, e o Manoel é resgatado. Eles acreditam nessas coisas, o capitão também». Silva Franco insistiu, «Sim, mas a caixa do capitão...também era feitiço?», «Era... Não era. Não sei. Não era a minha, como ele pensou, era outra. Mas como ele tem medo do “xingó”, sabe que eu tenho uma caixa assim, e ainda por cima não me pagou o que me deve, não quis tocar. Nem na caixa, nem no dinheiro que a negra tinha dito que estava lá dentro. E também não quis a negra, mandou tudo passear e largou o escravo. Esse aí - apontou para o Manoel -, é que veio a minha casa pedir para ser resgatado por si. Eu concordei se me pagassem os 45 mil réis, e como ele me assegurou que podia ter de volta a caixa com o dinheiro em sua casa, eu vim. Você dá-me a caixa e fica com o Manoel». «Mas ainda uma coisa, quando é que essa caixa desapareceu de sua casa?», «A caixa não desapareceu! Ela sempre andou com o Manoel desde que ele chegou da África. Agora que ele volta para Luanda... como forro, já não precisa da caixa. A caixa é minha, estou-lhe a dizer. Dê-me a caixa». O tenente-coronel olhou para a espada pendurada na parede. Pareceu-lhe ser um bom meio de lutar contra o feitiço, e também ficou com a impressão de que o senhor da Matta, à semelhança do capitão, acreditava no feitiço. Olhou para o Manoel e questionou-se, «Mas em que espécie de sarrabulhada é que eu estou metido?». Deu a caixa ao senhor da Matta, e este, quando se viu com ela na mão, deu corda aos vitorinos, despediu à pressa e desandou. Mal ele saiu o tenente-coronel clamou, «Não quero esta mulher cá em casa», pegou num molho de patacas deu-as à negra, e esta, a sorrir, a baixar e a levantar a cabeça, foi recuando até à porta até lhe bater com a bunda. Virou-se para abri-la, tornou a virar-se, fez mais uns salamaleques e foi-se embora.

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A partir desse dia Manoel de Salvador passou a ser cozinheiro do tenente-coronel Silva Franco. Porém, esse estatuto sofria alguma distorção em relação às pessoas estranhas à casa, porque para elas, e toda a gente estava convencida disso, o Manoel era pura e simplesmente escravo de Silva Franco. Por que razão esta duplicidade? ...É o que vamos tentar descobrir.

Alguns dias depois desta inusitada compra, dono e “escravo”, como previsto, embarcaram na corveta “Escorrega” rumo a Luanda. Todos os embarcadiços passaram mal durante a viagem, com um tempo horrível, borrascas e ondas aterradoras - mau-olhado, na opinião do Manoel, que ia morrendo de medo -, e no meio de tanta desdita uma boa surpresa para todos os viajantes, mau grado o cronista a tivesse qualificado de “esotérica e inquietante”: a presença a bordo da bela Berenice, a beldade que se tinha apresentado com uma caixa de chifre preto encapada em um pedaço de pano e amarrada com um mastro vermelho e lacrado, e uma carta lavrada no fundo, ao ex-dono de Manoel, o capitão Gonçalo Fernandes, negra de corpo esguio e muito belo, alforriada por obra e graça de um carioca chamado Florêncio de Sam Payo, homem rijo e fero, que se propunha invadir Luanda com as suas “imbambas comerciais” e montar uma oficina de alfaiate de luxo.
No decorrer da travessia, o movimento oscilante do “Escorrega” depressa provocou uma espécie de pânico geral, pontuado por uma agonia persistente da Berenice. Esta, que habitualmente exibia uma subtil força de felino, com o seu corpo muito belo a cheirar a fêmea no seu balançar, começou a vomitar tudo o que tinha para vomitar, até os sucos gástricos e bílis, quebrou-se toda, atirou-se para o chão a chorar, a querer morrer, e depois não, a dizer que eram os espíritos, e só se acalmou quando, a dada altura, o Sam Payo lhe trouxe uma caixa de chifre preto encapada em um pedaço de pano e amarrada com um mastro vermelho e lacrado. Daí a asserção do cronista, testemunha ocular do evento, para qualificá-la de mulher “esotérica e inquetante”, certamente depois de já estar altamente perturbado com a sua cara linda, o seu sorriso angélico alcandorado num corpo de sereia, mas sem cauda de peixe, e no seu lugar duas coxas esguias e musculosas a servir de apêndices redondos e sumarentos a um sexo muito resguardado, apenas aberto a solicitações dignas de respeito, isto é, anunciadoras de amparo e, sobretudo, muita compreensão pela sua condição de cativa. Berenice era feiticeira sem ter ideia precisa do que era o feitiço. Pecado não sabia o que era. Gostava de homens da mesma maneira que macaco gosta de bananas. Mas, de corpo e alma, só se tinha dado ao Manoel de Salvador, e a sua própria presença no “Escorrega” devia-se apenas ao facto de desejar a qualquer preço segui-lo, o que a levou praticamente a se oferecer ao Sam Payo, que estava de abalada para a África no mesmo navio que o homem que ela amava. Algumas testemunhas disseram mais tarde ter visto o Imbangala sussurrar coisas e loisas ao ouvido da bela Berenice quando o Sam Payo não estava presente, o que acontecia raríssimas vezes, visto que o carioca sabia que uma prolongada separação da sua cativa significava um par de chifres a juntar ao que tinha servido para fazer a caixa. Enfim, tudo o que veio a acontecer em Luanda, segundo o que rezam as crónicas e os mujimbos, aponta para uma cumplicidade secreta entre os dois recém-alforriados, com o consentimento expresso, ou pelo menos o beneplácito do tenente-coronel Silva Franco.

Imagem: sustentabilidadenaoepalavraeaccao.blogspot.co

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

DIÁRIO DA CAVERNA. Devaneios do Homem Novo


«Eu tenho alunos do terceiro e quarto anos que ainda têm dificuldades de fazer contas de somar… pasme-se. Contas de somar, sem exagero. Há alunos que escrevem tão mal que você não consegue ler. Há alunos que falam tão mal que você não consegue entender. Talhos, peixarias estão nas mãos de estrangeiros.» in Fernando Heitor. Folha 8 09Out10

Gil Gonçalves
patriciaguinevere.blogspot.com

Acabo de estudar os discursos de Kin-Il-Sung I e confesso que são muito edificantes. Fiquei deveras esclarecido, sinto-me com ganas… de repente baptizei-me num magnífico líder.
Ó politizados na irresponsabilidade, espoliados do petróleo, dos diamantes, dos empregos, dos casebres e das tendas. Nunca em trinta e cinco anos se instituiu tanta miséria nestes dias de vida lavados pelo vulcão de Luanda.
Os nossos problemas resolvem-se com as nossas manifestações, sempre autorizadas, de apoio incondicional na manutenção do poder eterno da nossa esclarecida, clarividente liderança. Esses deuses omnipresentes… mas o que é que fizeram dos livros? Mano, se durante a tua existência nunca conseguiste ler um livro, então a tua estadia foi em vão.
O que se passa com o abastecimento da energia eléctrica e água é a declaração da anarquia institucional. Não é preferível mudar-lhes o nome para energia destrutiva e água invisível?
«Negoceia-se fazenda com 175 a. com financiamento aprovado.
Negoceia-se fazenda com 200.000 pés de abacaxi.
Arrenda-se, óptima vivenda “Lar do Patriota” 350 m2 de construção, ampliações e acabamentos extras, piscina, churrasqueira, bar esplanada 1 suite, 2 quartos, 2WC, salões de 50m2, cozinha, grande pátio coberto, parque pavimentado 6 carros e 2 geradores insonorizados 20KW, toda climatizada.» In Jornal de Angola 24Out10
As ratoeiras inventaram-se para que os ratos não roubem os seus irmãos humanos.
Sim, realmente, para quê eleições se não existirá ninguém para votar. Porque até lá, com a inflação galopante da miséria e a imposição da fome nacional, a população sucumbirá. Tem ainda a apoiá-la bastas doenças e epidemias. E o Politburo a bater palmas de regozijo por mais uma vitória eleitoral antecipada.
E esta revolução criou uma nova classe social: os desbravadores dos caixotes do lixo, o prémio especial da nossa nova vida.
Os geradores incrementam-se, o fumo tóxico e a matança daí resultante também. Pelo andar deste carro fúnebre, a curto prazo será impossível sobrevivermos a tal engenharia genética.
Um Politburo que obriga à proliferação de geradores numa cidade capital que nos intoxicam, nos derretem a vida, não nos merece qualquer consideração. É este o rumo deste moderno Awschvitz, agora empossado no comité de especialidade da subida dos preços. E a Igreja e esta ditadura estão na mesma moldura. Atabalhoaram, transformaram um povo numa espécie animal desconhecida. O que esperar de um povo educado numa universidade por docentes experimentados no roubo e na corrupção. Convicto, este povo segue tão salutares exemplos.
Os especuladores imobiliários e os seus sócios também não estarão imunes à onda de assaltos, incluindo a perda de vidas. As seitas religiosas não são o parte-coração da nossa aflição. Na nossa caminhada para Awschvitz é o pavor da proliferação das seitas imobiliárias que nos perseguem com os seus ritos sanguinários e secretos, com financiamentos das seitas bancárias. Que sofisticada é esta democracia do Inferno. A caminho deste Awschvitz sem arame electrificado porque não tem energia eléctrica. Um país desorganizado é como casebres em ruínas, onde fazem morada ratos e outros espécimes. E os descamisados aumentam nos supermercados dos caixotes do lixo. A prole dos esfomeados bandeirantes invade, aumenta os grupos que fazem concorrência na recolha do lixo. Há dois petróleos: um para os endinheirados do Politburo e outro para os espoliados e esfomeados.
Estamos carentes dos não crentes. De nos lavarem sistematicamente as mentes. E os estrangeiros postados no topo observam-nos finalmente vitoriosos. A nossa chefia postada na caverna muito negra, muito escura aplaude-os: «Estão a vê-los?! Cumprimos tudo conforme as vossas instruções petrolíferas e diamantíferas. Vejam-nos definitivamente domesticados, abrutalhados, armazenados… amigos estrangeiros… nunca mais vos incomodarão.» Meia dúzia de ex/escravos governam milhões ainda sem carta de alforria.
Não são as roupas que são indecentes, mas quem as usa.
E os apoiantes da ditadura lavam-lhes a imagem: «A África é o continente berço da humanidade. O futuro está na África»
A avó criou as duas crianças com muito sacrifício. Já crescidas, cuidadas, vividas, retribuíram-lhe… envenenaram-na.
O dinheiro petrolífero suja as matas de betão. O que interessa é facturar sob um mar de cadáveres.
Muita gente diz que viu, falou com Jesus Cristo, com Deus, com a Virgem Maria, e muitas mais divindades. Mas ninguém conseguiu fotografá-los ou filmá-los.
O último partido político. «Então, tu por aqui? Sempre na incessante busca do homem desencaminhado, órfão político. Pois é… então o que fazes, quais são as últimas?» «Ando na demanda do último partido político.»
Estamos no pleno desenvolvimento, e contudo sem energia eléctrica. Infeliz povo que se deixa conduzir por pastores da desgraça. O constante desliga e liga destrói-nos o que resta dos nossos equipamentos e electrodomésticos. Dinheiro para comprar outros, está onde?! Até lugar para enterrar defuntos já se foi. Os cemitérios existentes estão em vias de declarados coisa de utilidade pública, reserva especial. E em cima do repouso dos nossos mortos edificar-se-ão centros comerciais, e magnificas torres de escritórios.
E vi um homem que parece só entender de futebol que nos ensina o que é, como deve ser Angola, e nela nos lecciona como se consegue dinheiro com facilidade e também como se educa a teimosia do homem novo nascido desta invulgar juventude. Ensinar-nos como apoiar os jovens sem qualquer interesse partidário, apenas porque compreende e se curva perante os anseios da mocidade inexistente, mais que evidente. Isto é que é a sublime apologia da humana caverna. E que triste exemplo da mediocridade humana tecer considerações, pretender dar lições a um homem, quiçá o único intelectual angolano, e não se sujeitar aos seus ensinamentos críticos. Agora até um insigne, talvez o único homem vivo de facto e de jure, Justino Pinto de Andrade, ser enxovalhado por um adepto do embrionário futebol angolano. Essa não! Que o adepto solicite imediatamente desculpas ao DR. Justino. Já o disse algures e repito-o: este é o tempo momentâneo da ascensão dos idiotas e similares ao discricionário poder. Isto não é política, é destruir o que ela nunca foi. Como é possível um homem nadar em dinheiro perante milhões de náufragos a sucumbirem agarrados em vão na âncora, no derradeiro suspiro das plataformas petrolíferas de alguns que de momento se arvoram de os únicos que institucionalizaram a democracia. Afinal as plataformas petrolíferas também produzem democratas.
Estamos no plano do pleno desenvolvimento, e contudo querem impor-nos o viver sem energia eléctrica.
Algures em Luanda, os cinco chineses desconjuntados pelo paludismo jaziam há alguns dias quase entre a vida e a morte. Um talvez chefe deles preocupava-se em diariamente dar-lhes um comprimido que não se sabia se era para baixar a febre ou não. O mwangolé vizinho da obra em que trabalhavam barafustou com o chinês que tomava conta deles. O chefe chinês não ligou, quer dizer, os cinco colegas morreriam pela certa. Então o nosso mwangolé cheio de compaixão levou os doentes para o hospital público mais próximo e passados dias salvaram-se.
Que infeliz povo, o angolano, que se deixa massacrar por governantes que elegeu com votos nas urnas. É uma democracia de lobos que devoram humildes e pacificas ovelhas. Como bancos de sangue sempre disponíveis para vampiros sempre sedentos de repastos se saciarem. Uma reserva estratégica para se banquetearem. Como gigantescos currais de gado inaugurados para abate. Pelo movimento pendular, abraçaremos mais um teatro de operações de mãos estendidas para conseguir algo de comida ofertada pelos brancos que escorraçámos.
Continuamos a assistir ao desfile de governos no poder, melhor dito, de palhaçadas… de aventureiros que levam à bancarrota os seus países, e a comunidade internacional não se move, finge, deixa andar. Desconfio mas é que o nosso planeta Terra foi invadido por uma raça de extraterrestres que nos dominam. Claro que isto não é nada de novo, mas que mais pode ser?
Que patético ousar afirmar depois da derrocada arquitectada e fomentada pelo inútil poder se diga com convicção: «A situação está difícil, já não se vê nenhuma luz no fundo do túnel.» O maior erro que o quase cinquentenário cometeu, e comete, foi vender-nos às redes mafiosas dos especuladores imobiliários internacionais conluiados com os novos-ricos locais. Farto-me de dar voltas na cabeça, e não consigo discernir qual é o sistema económico que vigora em Angola. Bom, acredito que é simplesmente a pureza de uma economia selvagem. Mas é que não existe nenhuma economia, existe é um grupo que rapina tudo para si sem deixar algumas moedas. Isto sim é que é o actual sistema económico que sobrevive. Na realidade quem nos governa é a fome. É um governo da fome e para a fome.
Há enxames de economistas que papagueiam a rodos sob o estado da economia. Mas ela definha-se no inexistente. Se os políticos são incompetentes, a economia também o é. E na multidão de economistas renasce o que não é. Se o governo atira a população para a fome, e revelando-se frívolo segue de plantão no poder? Porque a oposição é decerto, ou de grande modo, conivente. É um sofisticado satélite da lotaria habitacional.
É que estamos de tal modo no rumo do roubo e da corrupção que nada mais nos resta. Sim! Dos tubarões aos peixes mais minúsculos todos roubam, e se assaltam. Mais um país africano que ganhará o campeonato dos estados-falhados. Parece que está a dar brincar aos países. Sem dinheiro para pagar vencimentos, o poder desfigura-se na sistemática afirmação que existe crescimento económico. Todos sabemos que não é bem assim, e o poder insiste nesta maledicência. Mas parece que há, dá sempre para sustentar concubinas, amantes. Mas, perante este estado de coisas caótico a culpa é do governo, ou será porque a grande maioria da população, tal como em Portugal por exemplo, estão possuídas por uma epidémica idiotice natural?! Mas a culpa não é nossa, do povo, é do governo que não nos governa, lamentam-se. Mas quem votou nesse governo foi quem?!! Foi o povo, claro! Não se pode esperar nada de povos que passam o tempo em orgíacas e intermináveis festas.




A Caixa de Chifre Preto. Crónica histórica romanceada (3)


António Setas

Com o aumento da procura de escravos a busca para o interior aprofunda-se. Comerciantes portugueses, ingleses, franceses misturam-se com os “da casa” e entram em acirrada disputa, o mais das vezes aberta entre estes últimos, os luso-africanos e os mercadores metropolitanos portugueses, com maiores recursos financeiros, que controlavam respectivamente as rotas e o aprovisionamento das caravanas. Esses confrontos tomavam por vezes proporções inquietantes, que levaram um ou outro governador luso a fazer comentários sobre o assunto. Assim, chegou até aos dias de hoje o comentário feito pelo governador António Mello, nos princípios do século XIX, que afirma, a propósito desses comerciantes, «Poucos são abastados, mas quase todos negoceiam com cabedais alheios e pouca lisura, (...) enriquecem com épocas de seca e fome.»
De facto, quando chegava o tempo de cacimbo a situação agravava-se por causa da falta de água e de produtos das lavras. A água. Esse sempre foi o grande problema de Luanda, e não só, também o de muitas outras regiões de África, a partir do Sahara para sul.
O Sahara, deserto imenso, espécie de rolha ressequida a separar a África do resto do mundo e a isolar os povos de raça negra das civilizações do norte, razão principal da proliferação nas sua terras de tantos magos e feiticeiros, ilamba, imbanda e outros umbanda, adivinhos e “rain makers”, senhores dum poder espiritual que lhes permitia entrar facilmente em contacto com as forças ocultas da natureza, os génios da terra que habitam nas florestas, e os da água, oriundos das fontes dos rios, ituta, yanda, e outros, que descem os rios, como o Kwanza, e até podem ir para o mar e influenciar marés e correntes, regular o fluxo das fontes onde nasceram e providenciar, quando necessário for, a abundância das águas dos rios, ribeiras e lagoas.
Os Portugueses, que nessa altura se instalavam pouco a pouco em terras do Kongo e Ndongo, de Luanda a Mbaka, do rio Zaire às terras da Kisama e de Benguela, e pouco mais, especializaram-se na venda de água durante o período do cacimbo, a estação seca, fazendo concorrência aos tradicionais “rain makers”. Espalharam-se ao longo das rotas comerciais e montaram balcões de venda de toda a espécie de produtos para os que faziam o tráfico e calcorreavam as sendas tortuosas da escravidão, sem se esquecerem, quando chegava o cacimbo e a inevitável falta de água, de fazer alarde da existência nas suas barricas de grande quantidade do precioso líquido, que eles comercializavam a preços exorbitantes. Para eles era o tempo das vacas gordas, quer dizer, da água e dos produtos agrícolas vendidos com grandes benefícios. Resultava deste procedimento, por causa da contenção de capitais, a morte de muitos escravos na espera de embarque, por falta de alimentos, doenças e debilidades diversas.
Em Angola, mais precisamente, em Luanda, e também no Brasil, a onda renovadora do “pombalismo” chegou com a nomeação de governadores imbuídos de ideias novas, dispostos a implementar «os traços civilizatórios nessas regiões do mundo». O objectivo político desses novos administradores era guiar as sua acções para realizações “modernizantes” nas áreas genericamente apelidadas “periféricas”. Em palavras mais pequenas isto quer dizer que era necessário civilizar os pretos. Uma ideia brilhante, realmente inovadora, por considerar a passagem do negro ímpio a cristão como uma milagrosa transformação do autóctone em agente da civilização ocidental.

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No dia 6 de Junho de 1764, dia de aniversário de el-rei D. José, tomou posse em Luanda do seu cargo de governador o nobre senhor Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho. Defensor convicto das ideias do Marquês de Pombal, tinha dado provas das suas capacidades anteriormente, ao servi-lo nas guarnições de Bragança, Miranda, Chaves e Almeida, onde entrara em campanha. Da família dos condes de Redondo, era provavelmente trineto do famoso governador de Angola, Fernão de Sousa, e possuía uma casa agrícola no Brasil, que praticamente se desfez em nada durante o tempo em que ele esteve em Angola. Sacrificara-se em nome da Coroa, e ali estava ele, seguro e convicto de levar avante a sua alta missão civilizadora.
Entretanto, das Américas, e em particular do Brasil, chegavam cada vez mais pedidos de envio de escravos, e não havia em África “peças” que chegassem para satisfazer tantos pedidos. Como que para agravar a situação, os luso-africanos que tinham acesso aos postos administrativos e militares na Câmara da cidade de Luanda beneficiavam de um conjunto de regalias que os colocavam numa manifesta posição de prioridade, geradora da maioria dos conflitos locais, não só entre eles, mas também com os distintos grupos do tráfico, detentores ou manipuladores de algumas das rédeas da gestão do negócio escravista. Vinha o cacimbo e a coesão social, se é que existia, rebentava pelas costuras perante os impunes abusos de comerciantes gananciosos. E, perante esta confusão de interesses materializada em repetidos confrontos, o governador pombalino reparou que não havia leis em Angola, e que as que eram aplicadas, genuinamente portuguesas, sofriam curiosas distorções, recombinavam-se para adaptar os procedimentos jurídicos a uma ética que se legitimava através dos costumes locais. “Uma rebaldaria!”, opinava o novo governante.
Urgia legislar. Mas a grande questão era determinar até que ponto as leis ocidentais podiam ser aplicadas eficazmente naquele contexto não ocidental. Num meio de desigualdades tão gritantes as regras jurídicas ultrapassariam inevitavelmente a definição de constrangimento, imposto com imparcialidade a todos os cidadãos da sociedade sem olhar a compadrios ou castas, para servir apenas de máscaras a muitas racionalizações dúbias em benefício de juízes, advogados ou outros detentores de interesses próprios, que, na opinião do próprio governador, apenas eram os “que tudo querem fazer seja de que maneira for”.
Mesmo assim, Sousa Coutinho decidiu pôr em prática as directivas pombalinas, decretando, num primeiro tempo, normas destinadas a deixar o grande comércio aos grupos verdadeiramente portugueses e o comércio secundário aos grupos locais, terminar com o contrabando, atribuído aos franceses e ingleses, e dirigir os benefícios do tráfico para o erário público. A sua grande preocupação era pois “racionalizar o comércio”, o que no seu entender passava pela eliminação pura e simples da organização tradicional dos grupos de parentesco, o repúdio do direito costumeiro e dos ritos consagrados a factos de primordial importância para os autóctones, numa palavra, a modificação radical do seu dia-a-dia, ou seja, do mais profundo modo de ser do povo de Angola, aparentemente sem lógica, simples expressão da sua condição de “bárbaros”. Acreditava, mordicus, que as normas de organização por ele impostas resolveriam esse caos, trazendo para o mundo civilizado seres que a ele manifestamente não pertenciam.

História do Jaga “Bango-Bango”
“Bango-Bango” foi capturado pelos Portugueses em 1624, e pouco tempo depois foi-lhe permitido instalar-se a norte do rio Kwanza, em Ilamba, ficou privado do apoio dos outros Imbangala do Sul e desistiu do modo de vida dos Imbangala para se tornar um leal kilamba, ou seja, capitão das tropas auxiliares africanas que combatiam ao lado dos exércitos dos Portugueses. Prestou leais serviços a alguns governadores de Angola, nomeadamente contra os Holandeses, para os quais ele fingiu desertar em 1641, para mais tarde se lhes escapar de volta para os Portugueses, depois de lhes ter causado imensos prejuízos. O rei de Portugal, mais tarde, recompensou os seus serviços, “fazendo-lhe mercê” da Ordem de Cristo; por essa ocasião, o antigo Imbangala “Bango-Bango” aceitou o baptismo cristão, recebendo o nome de João Bango.”

Imagem: grupoescolar.com

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Campo do Tarrafal de Luanda que é Angola


O angolano sofre uma brutal mutação: só sabe fazer barulho e partir paredes.
Ah! Esta sagrada esperança, que afinal é a nossa desgraçada desesperança.
No palácio dos nossos deuses, o PIB cresce, nos nossos casebres demolidos, decresce.

Gil Gonçalves
patriciaguinevere.blogspot.com

Enquanto os mesmos corruptos conseguem ilegalmente milhões de dólares, milhões de angolanos morrem na mais cruel e abundante miséria.
E um ou outro dos nossos sacerdotes marxistas-leninistas das religiões inventadas, afirmam categoricamente que o presidente de Angola se mantém no poder pela vontade de Deus.
A História está repleta destes exemplares que acabaram em chacinas de populações. Porque Deus sendo líder eterno dos ditadores, aprecia imenso o sofrimento dos desterrados petrolíferos. E as populações miseráveis acometidas pela fome, agradecem-Lhe carinhosamente abençoadas por Ele.


Neste Tarrafal de Luanda e Angola
fortificado pela débil oposição encurralada nos currais
com os dóceis carneiros
tão calmamente devorados pelo Leão

As coisas chegadas, importadas, inflacionadas
e tão envenenadas
e Angola e Portugal são tão parecidos
tão coniventes, tão decadentes
porque quase há quarenta anos
perecemos neste Tarrafal

E os chineses não querem angolanos que trabalhem
não querem que ninguém denuncie
vigarices que executam nas obras
de fachada petrolífera
do petróleo que destrói Angola e os angolanos

Todos os assaltantes são presos
publicitados até onde pode a comunicação
os que roubam milhões de dólares
inocentam-se silenciosamente nas contas bancárias
dos paraísos fiscais
Oito mil vendedores do Roque, no Panguila ficam
astronómicos outros milhares no desemprego
Lá no Roque construirão edifícios
para habitar os guardas e chefes
deste campo de concentração do Tarrafal Luandino

E a água? É um luxo pessoal só presidencial

Eis o único emprego que nos deixam!
os assaltos que nos sustentam
novas profissões, limpadores nocturnos de cofres
Pomobel e Ribral, numa só noite

E sobre o MPLA, nada mais há a dizer
vai governar eternamente
não existe quem lhe faça frente
com uma oposição de carpideiras
e uma capoeira com gripe do aviário
a perderem as penas no tempo
do mais lamentável deixa andar
Antes, contra os brancos, e agora entre nós
Negro liquida negro. Nesta sem oposição
o MPLA tem sempre a solução
Porra! Mas que destruição!

Neste campo do Tarrafal de Luanda que é Angola