terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Bilhete de identidade e os filhos milionários


Bilhete de identidade: cartão ou documento que, expedido por autoridade competente, contém dados essenciais que identificam seu portador (nome, filiação, data de nascimento, assinatura e impressão digital do portador etc.); bilhete de identidade, carteira de identidade. In dicionário Houaiss

Gil Gonçalves
patriciaguinevere.blogspot.com/

Com mais duas fotos fica bilhete de identidade de cidadãos nacionais. Mais duas fotos bem lindas seriam Estaline e Lenine ou Robert Mugabe e Hitler. Mas as duas fotos verdadeiramente apropriadas seriam a de uma zungueira a ser espoliada por polícias ou os casebres destruídos e também espoliados. Ou ainda a população num campo de concentração e crianças ao relento, no martírio do frio e da chuva mortais. E neste reino das conferências os convidados torcem, desviam as palavras como o compositor alemão, salvo erro, Richard Strauss, que na sua música não denunciava, esquecia as atrocidades nazis nos campos de concentração.
Correctíssimo também seria as fotos de Holden Roberto e Jonas Savimbi. As fotos de Agostinho Neto e de José Eduardo dos Santos destinam-se apenas a fins políticos. A tentar convencer que só existem dois líderes em Angola, um falecido e outro renascido. Pretende-se cilindrar as mentes até à exaustão, derretê-las de depressão. A espelhar o desprezo de identificações que nos vota, na comemoração do seu aniversário o PR conviveu, enalteceu a miséria das populações devidamente bem identificadas do Panguila.
É inútil confiar em alguém que está enamorado, bêbado ou em campanha eleitoral. Shirley MacLaine
Serão a reencarnação dos espíritos das feras? Assim, governar é uma selva exemplar. Este MPLA é matreiro como os lobos. Então, aqueles que sempre estiveram com ele, agora que já não precisa, abandona-os nos esburacados tendais rodeados e assolados por vendavais. Quando soar, rebater mais confusão, os chineses que o apoiem. É como as igrejas que nos bombardeiam com os seus cultos barulhentos. Não são igrejas de Cristo, são parcerias do demónio. Eis a actual situação de Angola sem bilhete de identidade. Numa opressão e espoliação jamais consentidas que nos conduzirão inevitavelmente para outra luta armada. Muito mais violenta que a anterior.
Existem idiotas no poder que parece que não pensam. O bilhete de identidade adulterado vitima-se, reflecte as tremendas alterações climáticas que desfarão, arrasarão tudo o que se construiu. E então veremos a inutilidade de tanta construção e do gozo impune da identificação.
Tanto dinheiro gasto em vão. Assim não haverá dinheiro que chegue… desde que lhes baste, que nos imponham a fome. É necessário proibir, velarem-se leis que cassem a actividade dos especuladores da identificação. Tal como as empresas imobiliárias em que Angola é só deles. Que sejam imediatamente detidos. Que se lhes faça tenaz perseguição. Que se criem grupos de pressão “vingadores”. Que sejam vassourados para sempre da face da terra angolana.
Assim nunca sairemos do caminho da oposição submissa das esquinas silenciosas.
Estes são os tempos mais violentos de que há memória. E eles, os tempos, continuarão, os governos apoiam, originam tão selvático estado de coisas que por pouco nos inibiremos de sairmos das nossas casas. Por enquanto ainda podemos andar em algumas ruas. Quase que não passamos de inúteis traumatizados. Apenas nos lamentamos e afora isso pouco ou nada mais fazemos. Não tomamos opções, estamos como que amarrados no tempo. Deixamos as coisas andarem. Tornámo-nos cobardes porque nos deixamos condenar, escravizar por qualquer governo ou governante de meia-tijela. Para gáudio dos ditadores e dos seus falsos valores. Ainda não repararam que está quase proibido duas pessoas se amarem? As ruas metem-nos medo porque a qualquer momento nelas somos assaltados, violados, roubados e assassinados. Depois os cidadãos vão jurar que o bilhete de identidade não lhes pertence. É dos cidadãos vitalícios Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos. Onde está, como fica o pessoal e intransmissível?!
As ruas aterrorizam-nos, tornam-nos doentes mentais à espera de tratamento adequado. E depois a justiça não funciona, ou demora muito nas montanhas de papelada que produz. Compramos uma arma legal ou ilegalmente e aí vamos nós para a nossa protecção pessoal e da nossa família. Infelizmente não podemos mais contar com a polícia porque os crimes são aos milhares… ou aos milhões?
Os filhos milionários
Em 1845, Garrett escreveu, nas "Viagens na Minha Terra", o que custava um rico a um país: a ruína no trabalho, a dissolução moral, a miséria mais escanzelada. Garrett não era comunista.
O patronato português, geralmente, é de um reaccionarismo bolorento. Além de demonstrar uma ignorância e uma incultura atrozes.
In Baptista Bastos. http://diarioeconomico.com/
Este MPLA das calendas é uma sociedade anónima de responsabilidade limitada. Tem um presidente do conselho de administração, administradores e directores que repartem entre si as receitas petrolíferas do tal fundo da reserva especial. Os filhos do presidente do conselho de administração são milionários porque têm direito de sucessão e também ao mesmo saco sem fundo lá vão. O MPLA, SARL tem milhares de operários que devido há sua condição de escravos têm direito a não receberem um tostão. Têm outro direito: o de obrigar as suas esposas a vender em qualquer lado qualquer coisa para conseguirem o vencimento que o MPLA, SARL lhes usurpa. Os accionistas do MPLA, SARL investem muitos milhões no estrangeiro, em Portugal, e em Angola não investem no fornecimento de energia e de água. Escravos não necessitam destas benesses.
Porque sem fazerem nada, basta como habitualmente na qualidade de accionistas aguardarem calmamente que os seus parceiros petrolíferos lhes creditem os milhões de dólares habituais nas suas contas especiais. O MPLA, SARL cumpre obedientemente as ordens superiores dos seus patrões estrangeiros que são: continuar sem escrúpulos a escravizar, a chicotear, a espoliar, a colonizar e neocolonizar o povo angolano. O MPLA, SARL tem muitas filiais, rádios, televisões e jornais que espalham dia e noite as mentiras grotescas dos quase cinquenta anos de informação estalinista e nazista. Tal e qual como numa religião, o MPLA, SARL apresenta-se nas vestes de Deus e impõe a ignorância e a superstição nas populações. E juram que não existe ninguém como ele, com irresponsabilidades acrescidas, com experiência inigualável na governação da corrupção. Assim continua na imposição das trevas marxistas-leninistas. Completamente soltos, deslavados, conluiados com os amigos importados. Sem oposição que lhes faça frente, apenas a de ocasião. É uma ténue oposição do cifrão (?). É uma oposição estóica porque de tanto apanhar ainda impele: vós, MPLA, já estais satisfeitos? Se não, podeis malhar-nos mais até à exaustão.
Os filhos milionários garantem que são empresas mas não. São quadrilhas locais, nacionais e internacionais. Quando unidas ao governo que já deixou de o ser, é cigano.
E edificaram tamanha multidão de analfabetos que se impossibilitou constituir, prosseguir tal nação. E os escravos não conseguiram libertar-se. E Angola não conseguiu libertar-se do neocolonialismo, extingue-se. E com a secular frustração o mergulho alcoólico é certo. E a independência trouxe-nos mais pavor, horror, torpor. Resta o fim, a desilusão. A ilusão dos campos de concentração.
Neste campo de concentração do terror luandino, o nosso petróleo não beberemos. Os nossos diamantes não comeremos. Nas torres, prédios e condomínios, cagaremos. Nos bancos e nos banqueiros mijaremos. E também cagaremos e mijaremos nos estádios de futebol. Aos nossos saudáveis arcos, flechas e tangas voltaremos.
É um crime neste momento esbanjar dinheiro em futebóis da fome.
Internacionalmente os preços baixam e nos otários de Luanda sobem. Por aqui se vê o desempenho da equipa económica (?) governamental.
Nós, os do MPLA, asseguramos que cumprimos a nossa missão histórica. Finalmente já nada resta para destruir. Angola não é um país, é o que resta da África.
Luanda aos poucos evolui para um gigantesco necrotério. Parecem os tempos da guerra sem ela. A escravidão e o colonialismo continuam, ainda não acabaram. Até agora não houve nenhum movimento de libertação que nos libertasse.
O MPLA não combateu Salazar para libertar o povo angolano. É que Salazar não gostava de corruptos. O MPLA não é um partido político. É um grupo de maus actores que representam bem um filme macabro. O mais importante é construir prédios, qualquer coisa de betão. A população que mendigue, se arraste abandonada, sem futuro. Este governo do MPLA é como o fumar, mata!
Como é que ficarão os chineses quando se libertarem do comunismo? Os dias e especialmente as noites continuam sobrecarregados, ultrajados de neocolonialismo. As grandes importações de álcool contribuem para o desenvolvimento da pátria angolana. Vem aí mais uma farsa eleitoral angolana à Vaticano cardeal. Vota-se, sai fumo branco… e eis um vencedor eleito por Deus. O que é necessário é outra má receita para cozinhar as próximas eleições.
E com os milhões de dólares gastos nos estádios de futebol… no Can 2010, a nossa economia desenvolve-se, cresce. É mais uma mais-valia para o crescimento dos nossos bolsos pessoais. Depois, tudo às moscas, em ruínas. Estas coisas não conservam empregos. Só conservam a vaidade… dos vaidosos. Nos portões quase cinquentenários da nossa recessão, numa economia sem contabilidade, sem vendas a crédito. Na tragédia da economia da selvajaria. Foi, e será sempre, o investimento adequado para permanecer eternamente na sombra da bananeira do poder.
"Nos tempos dos escravos levavam-se os grandes e os fortes, e deixavam-se para trás os débeis e os enfermos. Hoje, os grandes e os fortes vão por sua própria vontade, vivem um inferno para atravessar o Mediterrâneo e chegar ao sul da Europa, encontrar trabalho e um lugar para dormir.” In Trevor Manuel, ministro das finanças da África do Sul




segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Basquetebol partidário, casebres e futebóis


E tal como Jasão e os seus Argonautas, os nossos heróis do cesto desembarcam da nave Argo e em apoteose celestial começam os habituais suspiros dos esbirros não patrióticos particularizados, da partidarização.
Neste momento o que aparece funcional é a oposição dos casebres.
Parece que só falta proclamar que todos os jogadores e todos os mais ligados ao basquetebol são militantes do MPLA.

Gil Gonçalves
patriciaguinevere.blogspot.com/

Um partido que continua único porque é a mesma coisa que entrar na selva e mudar a vida dos animais dizendo-lhes: «vão alterar o vosso modo de vida. A partir de agora são democratas»
Há governantes que insistem, não desistem dos estádios de futebol e basquetebol porque são as alavancas do desenvolvimento económico e social.
E ficamos tão bonitos, tão imortalizados porque já não existem descampados mas campos com estádios que se querem lotados. E campos de concentração abarrotados dos que sem soluções governamentais construíram antes na invectiva dos poderosos, o desprezo do mote casebres e friamente lá jazem. Depois espera-os o sol e muita chuva que se aproxima. E assestarão os olhares para os estádios e ressoarão os murmúrios deles imobilizados, povoados de fantasmas. Dos milhões gastos não sobrou nada, nunca sobra, para alimentar a esperança de tantas promessas que já temos a certeza apenas alimentam os especuladores imobiliários dos terrenos a dois mil e quinhentos dólares o metro quadrado.

E os dez vezes vencedores são adulados pela organização partidária. Atiram-lhes com a OPA-Organização dos Pioneiros de Angola, do MPLA. E a festa torna-se lugar-comum, dá para observador fazer chacota. Porque parece não ser a equipa da selecção de basquetebol de Angola mas, a selecção partidária do MPLA. Sonhou-se, agendou-se (?) mas recusou-se uma delegação dos espoliados com casebres em miniaturas para oferecerem aos notáveis jogadores que voam com os braços que parecem asas e colocam vitoriosamente a bola num cesto sem fundo. E a cidade atabalhoadamente partida, destrambelhada pelo partidarismo perde-se nos prédios que crescem desordenados. E as multidões indiferentes, obrigadas coniventes pelo unicolor gritam o inconsciente, inconsistente colectivo, aplaudem os feitos dos melhores basquetebolistas. E os defeitos da governação escondem-se, disfarçam-se com bolas e estádios perante os olhos fechados, frustrados da oposição nacional submissa.

E o veículo arrasta a plataforma dos eleitos dos cestos parecendo o Olimpo. Que prossegue na propaganda habitual do queimar, ganhar tempo. Para que os estrangeiros rapinem mais, mais e mais. E se construam mais estádios para um qualquer mais campeonato inventado. É preciso desviar, alcoolizar as atenções dos casebres da outra Angola. Porque existem duas Angolas. Uma dos palácios e outra dos tugúrios. Existem também duas populações: Uma do petróleo e dos diamantes e outra que nem sequer tem direito a sobras… das obras de fachada. E nas ruas os polícias dão porretada e espoliam nos esfomeados vendedores e vendedoras, porque quem vende qualquer coisa para não morrer à fome, é porque não vai, não alinha em basquetebóis.

O espontâneo movimento antes e sempre, surgiu como um cenotáfio que desperta de vez em quando. Autoriza-se sempre para se manifestar porque é único e do nacional partidário. Pois, é fácil organizar o basquetebol, mas criar e cultivar na agricultura é muito, muito mais difícil. Quase cinquenta anos perdidos e nunca ninguém consegui organizar um campeonato da agricultura.
E o espectáculo seguia privatizado quando a cada jogador na Cidadela lhes premiaram com bandeirinhas partidárias. Na realidade deixou de ser um acontecimento nacional. Adulterou-se em mais um comício num jardim milionário. Na teimosa ilegalidade apoiada a descoberto por estrangeiros amigos de longa data e outros nascentes.

Se os estrangeiros actuam globalmente, ilegalmente, então a conclusão é do simplório. Tudo ilegal. Quem promove ilegalidades, ilegaliza-se. Está dentro da linha fundamentalista angolana. Eu sou o poder eterno, eleito pelos nossos deuses eternos. Quais serão as próximas mentiras que o governo nos contempla? Angola não parece um país. É um castelo onde reside um rei com o seu séquito, a nobreza. Lá não lhes falta nada. Têm tudo o que é necessário e inecessário. No castelo tem guarda privativa, exclusiva, selectiva. São os cavaleiros da triste figura. As populações vivem aterrorizadas, afastadas do alvar castelo. Não têm direitos, exceptuando quando adoecem legalizam-lhes o direito de morrerem abandonadas em qualquer hospital do terror reinante. Mas, um grande mérito e uma grande vitória devem-se a este poder quase cinquentenário. A restauração, a implantação da selvajaria mais ímpar. Não é necessário ver um filme de terror, basta ir a um dos hospitais de Luanda. É aliciante, aterrorizante... é real, ao vivo.

A festa basquetebolista prosseguia amplamente bicolorida com a perda da identidade nacional e cultural. O desporto é óptimo para a lavagem cerebral nacional e para a lavagem de dinheiro. A terra também é partidária, continua na utilidade pública deste Estado marxista-leninista. É por isso que oportunistamente espoliam, gatunam. A terra não é do Estado, é deles. Devido à falta de espaço livre em Luanda, a governação com o empenho habitual, enceta um plano inusual. Não surpreenderá se fecharem definitivamente as ruas de Luanda e nelas construírem os prédios deles. E tudo se resolve. E quem costuma isto dizer é a morte.

Um governo de futebóis e para estádios de futebol. O MPLA não é um partido político, é um estádio de futebol. Na verdade há mais duas Angolas. Uma no interior (a dos palácios) e outra exterior, a dos campos de concentração. Qualquer pessoa sente-se envergonhada perante tanta sabedoria, tantos predicados nesta fauna, neste mundo povoado de tão insignes festejados laudatórios. A Nação sente-se orgulhosa perante tal aridez e desencanto. Quem não lê, não sabe, não valoriza os livros, por isso esbanja, derrete dinheiro da nação em estádios de futebol. Um governo dos estádios e para eles.

Os Maias construíram uma cidade num planalto. O Partidário constrói estádios de futebol em baixo. Esmolam-se populações das terras para nelas plantarem a fome dos futebóis. Claro que lucram muito com as comissões da corrupção.
Que gastam dinheiro em parabólicas e não gastam na manutenção dos condomínios?! Não sabem porquê?! Porque são paupérrimos governantes. Gastam o dinheiro do Estado, que não é vosso em carros de luxo e muitas outras luxúrias. Gastamos dinheiro em parabólicas para não escutar as vossas promessas, horríveis mentiras que nos disparam há quase cinquenta anos. O que se nota é uma incapacidade global para resolverem o que quer que seja. Soltam os cães do poder, espalham-nos e aterrorizam as populações. Assaltam, arrasam casas. Hordas extremamente bárbaras que suplantam terramotos e vulcões. Não há lei, é o poder dos cães na terra queimada. Não lei nem ordem. Vive-se o temor da lei do tiro. Como na Argélia do tempo francês que ordenaram disparar em tudo o que se mexesse. A história repete-se. Forças estrangeiras coligadas com angolanos regressados à selva da colonização.

Os ditos intelectuais angolanos permanecem ensombrados. Disparatam algumas palavras de conforto, pouco mais. Estão receosos de dar o corpo ao manifesto. As garras da escravidão fortalecem-se. O mutismo do Ocidente é confrangedor, cúmplice. O Ocidente lucrará com os despojos petrolíferos e os angolanos de ocasião e luso-angolanos apoiarão. Os chineses se contentarão. Os brasileiros mais contratarão. Estes e outros estrangeiros sorrirão de beneplácito. Ultimarão o que os americanos fizeram aos índios?!
Esta oposição preguiça é um desespero que nos corrói a alma. Saiam das rádios e dos jornais e venham para as ruas marchar, protestar.

E o governo angolano resolveu genialmente o problema da habitação. Descobriu como um desbravador moderno do desconhecido terras, matas virgens. E nessas paragens distantes, longínquas, levantou tendais rudimentares, e nelas obrigou, abrigou, expulsou, enlatou a população. Nunca ninguém viu uma população de um país enlatada? Então venham ver. Até que pode aproveitar-se como cartão postal turístico. É original, nem sequer tem parecença com qualquer gueto existente em qualquer parte do mundo. E assim Angola libertou-se do incómodo problema habitacional. É uma iniciativa a todos os títulos louvável. Acho que toda a África deve seguir este magnífico exemplo de boa governação.
Antes, contra o colonialismo branco fizeram luta armada. Agora, contra o colonialismo negro não redobram a luta armada porquê?

Se a terra é do Estado, é do poder. Então temos uma ditadura térrea. E o cidadão é espoliado a qualquer momento sem aviso prévio. Quer isto dizer que o angolano que não tenha vínculos com o poder, é um pária, não tem direito a anda. Excepto o direito ao abandono dos escravocratas do poder.
Uma coisa podemos afirmar categoricamente. Este governo está a semear muito emprego sim senhor! Já formou uma infinidade de prostitutas. A prostituição é o único emprego com garantia nacional, ditatorial. Um poder que dá origem a milhões de desempregados apenas para entregar as terras e os empregos a estrangeiros para construírem condomínios. E não são presos, nem julgados. Na realidade o que se passa com a espoliação e destruição dos parcos bens das populações é a entrega pura e simples aos estrangeiros. É a venda de Angola a indivíduos altamente perigosos, criminosos. Por isso… Angola vende-se!

Não faz sentido nem lógica nenhuma populações a viverem em tendas, enquanto magnatas escroques constroem nos terrenos espoliados brutais construções. É que a coisa está a dar. O metro quadrado de terrenos está a 2.500.00 dólares. Daí a correria ao oiro de Luanda. Será mau negócio porque dentro de poucos anos o petróleo já era. Enquanto o actual poder assim continuar a emboscar as populações, decerto os povos também não lhes darão tréguas. O ambiente está de cortar à faca. Uma poderosa selva onde imperam cães raivosos e vampiros sedentos de sangue.

Podemos afirmar sem receio de errar que os estrangeiros se apoderaram de Luanda. É lamentável que o regime que nos governa escolha como parceiros a bandidagem, a escória internacional. Um exemplo? Basta olhar para a banca. Aliás, quem está por trás da perseguição às populações para lhes roubarem as terras são os banqueiros e os seus sórdidos bancos.

E os lenços das crianças enquadradas e os ramos de flores da Organização das Mulheres do MPLA, recordam como convém o Soviete Supremo e o Politburo nas saudosas campanhas partidárias da revolução para sempre engrandecida pelos gloriosos feitos dos nossos heróis. O futuro da Nação está no basquetebol e no futebol. Não, não é desmerecer a odisseia dos dez vezes campeões africanos. Este extraordinário acontecimento é de todos nós, não é propriedade de um partido.

O nosso destino e o nosso futuro não podem depender apenas de duas cores. Há, e ainda bem, muitas outras cores políticas que tornam a saudável convivência e o desenvolvimento económico, social e o aprofundamento da democracia. Rumar, partidarizar tudo, nem o basquetebol escapa a este vício social, é arruinar, abismar a Nação. Teimosamente a Pátria continua gerida como uma empresa privada. Os lucros são apenas dos seus sócios e os trabalhadores nem ao salário condigno tem acesso. Excluem-se com a moda dos anúncios de abandono de trabalho no Jornal de Angola, para empregarem os seus confrades que aguardam expectantes no estrangeiro.
E o basquetebol é mais um órgão do partidário partido no poder. Basquetebol assim mais parece os tempos da vanguarda da classe operária, porque a classe camponesa existiu e continua presente apenas em discursos oficiais que sabemos muito bem que daí não passam. São papéis que depois se atiram para o lixo, apagam-se ou esquecem-se nos computadores que embelezam os gabinetes.

E os especuladores imobiliários, terrivelmente, selvaticamente dirigem, governam, presidem Luanda? E Angola? Por trás da espoliação de um povo estão sempre bancos. Já não duvidamos que estamos perante uma grandessíssima ditadura. Os órgãos de informação estatais são os devaneios da governação. O nazismo na noite obscura. Estamos perante um êxodo de estrangeiros para esta terra prometida. E nós ficamos ou já estamos como os palestinos? Atingiu-se uma vulgaridade tal, que até o ministro da Defesa de Angola, general Kundy Pahyama, nega a intervenção de militares na espoliação das populações luandenses. O que é uma espectral mentira. A invasão chinesa, brasileira e portuguesa é um erro estratégico muito grave. E não existe nenhuma paz. Existe sim uma guerra dos selváticos tubarões contra as populações.

Não são as populações espoliadas que estão ilegais. Quem vive e actua na ilegalidade permanente é o governo. Desatinado, desnorteado, destrambelhado. Que coisa mais parva, cúmulo da idiotice. Angola é tão grande e todos vivem na capital, Luanda, como latas de sardinhas. Quando não há capacidade de governar, para quê teimar?
Enquanto as forças militares e polícia angolana espoliam e destroem os haveres dos escravos, dos esfomeados de Cabinda ao Kunene, os abutres do poder, mais chineses, brasileiros e portugueses espreitam empoleirados. Preparados para mais um negócio de ocasião, de usurpação.
Como é triste verificar que há pessoas que morrem e parece que não fazem falta nenhuma.
Com certeza o que contribui para o actual estado da nação, o afundamento, é o angolano violar, não cumprir os compromissos que assume. Chega-se a um acordo, a um entendimento para um trabalho, um afazer, etc. o angolano não cumpre. Está a formar-se regra… impõe-se pela irresponsabilidade. Sem pátria, sem nação, para onde vamos então?

É perder tempo, o angolano não cumpre, marimba-se. Tem o que merece. Apercebendo-se disto, o estrangeiro fura, avança, ludibria o angolano e apodera-se de Angola. Vilão contra vilão e depois com a autodestruição das infindáveis festas. Na verdade um digno estado da selva, que persegue jornalistas mas, os que roubam, os corruptos, estes estão a salvo no sacralizado poder. É impossível viver com tanta mentira. Pois claro, há o receio, tem que haver, porque a FAMÍLIA detém tudo. O poder económico e político. Daí o pavor a eleições e a imposição da confusão da selva democrática. Fazer duma grandessíssima selva um país, não dá!

Quando estamos quase há meio século com as mesmas pessoas no governo, torna-se evidente que já sabemos que nos estão sempre a mentir. Deviam ficar calados porque a idiotice ultrapassa os limites da imaginação. Quem acreditar nesta conjuntura está bem desgraçado. Exceptuando aqueles que a compõem, claro, para esses está tudo bom. Como o muito já sabido mas que convém citar: «se andares com os bons serás bom. Se andares com os maus, serás mau.» A questão é saber quem é o bom e quem é o mau. O MPLA não é um partido político. É uma companhia petrolífera. Os accionistas e o conselho de administração camuflam-se num Politburo. Dá a impressão que o actual regime vai acabar como o Mobutu no Zaire.

Festejemos, cantemos mais uma Ode à Alegria. E parafraseando o imortal poeta: E se mais cestos houvera, lá chegara.
Gil Gonçalves


















domingo, 6 de fevereiro de 2011

A Caixa de Chifre Preto. Crónica histórica romanceada (1)


António Setas
(“encapada em um pedaço de pano e amarrada a um mastro vermelho e lacrado”)

(...) E havia um homem, acrescentou o kimbanda, que também lhe complicava a vida perto da Teresa… claro!, essa era boa... o Surdo, só podia ser o Surdo. Se ele soubesse que os ruídos nocturnos que o incomodavam eram os que a cama da cozinheira fazia, misturados com os gritos que ela dava quando o Manoel a cavalgava nos pináculos sexuais que ambos alcançavam, cairiam todos os carmos e as trindades de África, e o Manoel... o melhor seria ele fugir para o Brasil.
É que o Surdo também dava as suas piruetas eróticas com a ajuda da Teresa, mas diga-se, num estilo muito mais sofisticado. Ao contrário do Manoel, que tinha, como toda a gente sabia, força na verga, o Surdo, de nacionalidade portuguesa, quase nos setenta anos e trinta de África, depenicado no sangue por várias crises de paludismo e uma próstata quase tão inchada como o seu ego, deparava-se constantemente com dificuldades para chegar a vias de facto com uma mulher, mesmo com a Teresa, que primava pela sensualidade contagiante. Por isso, demorava-se nos preliminares, de que fazia o prato quente do seu repasto carnal, temperado com todas as especiarias que a Teresa tinha em reserva só para ele, e contentava-se, depois dos frugais petiscos calientes, com uma sobremesa da sua lavra, um rápido e pouco seguro coito, numa fuga para a frente até atingir os píncaros de um orgasmo teatral. A Teresa interpretava então o papel de uma cantora de ópera e gritava como se estivesse no palco da Scala de Milão. Ela era, realmente, o último rebuçado da vida do Surdo, e se lho tirassem ele seria capaz de matar.

DEDICATÓRIA

Dedico este livro à minha razão de ser,
as minhas duas filhas, Lia e Elsa.


À laia de prólogo

ADVERTÊNCIA

Que os historiadores e a História, ciência fascinante da autenticação de probabilidades, me perdoem. Neste trabalho fiz exactamente o contrário, servi-me de factos verídicos, baseados em documentos oficiais datados, declarações de testemunhas, e outras relações de que a história se serviu para lhes dar o devido crédito, para compor uma narrativa imaginária. Quase todos os relatos que se seguem são construídos a partir de factos históricos, mas alguns deles, sobretudo ao princípio, tiveram lugar largas dezenas de anos antes da data a que corresponde esta narrativa. Sem vergonha nenhuma dei-me à ousadia de os transferir para o futuro, reconstituí-los, dar outros nomes, estatuto e origem aos protagonistas, e entrar a pés juntos numa ficção de que muito me orgulho, por ter conseguido inseri-los perfeitamente no contexto histórico a que eles se referem.
O importante é que esta “obrazinha” seja interpretada como uma homenagem à resistência dos povos negros perante a invasão das suas terras pelas etnias de raça branca, num confronto tão desigual, que qualquer uma das suas vitórias sobre o invasor, por mais pequena que tivesse sido, ressalta aos olhos de todos os que se consagram ao estudo da história como um feito de armas assombroso.

O Gaga (“Jaga”) Calando tinha o cabelo muito comprido, enfeitado com muitos colares de conchas de bamba, muito apreciadas entre eles, e à volta do pescoço um colar de mazóis, que também são conchas que se encontram na costa e são vendidas entre eles pelo valor equivalente a 20 xelins cada uma; próximo da cintura usava umas contas feitas de ovos de avestruz. Usava também um tecido de palma fino como seda à volta da cintura. Seu corpo era esculpido e cortado com desenhos secos ao sol e todos os dias se untava com gordura humana. Tanto através do nariz como através das orelhas usava pedaços de cobre com cerca de duas polegadas de comprimento. Trazia o corpo sempre pintado de vermelho e branco e tinha sempre vinte ou trinta mulheres que o seguiam quando se deslocava; uma carrega com os arcos e as flechas; quatro delas seguem-no com taças por onde ele bebe, e quando o faz todas se ajoelham, batem palmas e cantam. (Descrição do rei Imbangala Kalanda ka Imbe).
I

Chamava-se Manoel de Salvador, não do Nosso Senhor, mas da Bahia, cidade que ele viu pela primeira vez na vida quando chegou ao Brasil, anos atrás, a bordo de um grande barco à vela, devia ter então uns nove, talvez dez anos, não se sabe bem ao certo. Nessa altura o seu nome ainda era o de nascença, Nzenga ka Imbe, que apontava para uma descendência relacionada com os terríveis “Jagas”, de facto nome impróprio dado pelos portugueses aos Imbangalas, de que até a rainha Nzinga a Mbande (“Jinga”) se orgulhava de ter como raiz.
Manoel não gostava de falar dos seus antepassados, «Não dá jeito lembrá», dizia ele, com o seu sotaque brasileiro tamisado de kimbundu, e todos os que eram da sua roda compreendiam. Os Imbangalas tinham má reputação, não só entre os residentes de Luanda, mas também entre os mundongo da periferia, agarrados à cidade como mexilhões à rocha batida pelo mar, depois de terem fugido dos seus kimbos na esperança de escapar à ferocidade dos guerreiros do kilombo (acampamento que servia de base para as acções guerreiras dos Imbangalas, e, por arrasto, nome dado à sua instituição política. Etimologicamente, campo de circuncisão dos antigos Ovimbundu do kilombe, reino florescente no século XV).
Esse povo, no fundo, não era povo nenhum, mas sim uma mistura de povos reunidos por uma força que se dizia sobrenatural, e lhes dava a reputação de serem invencíveis. Chegasse um bando de Imbangalas perto de um acampamento mundongo – esses sim, um povo unido, que vivia nas imediações dos rios Kwanza e Lucala –, e de imediato era o pânico, o povo fugia numa corrida desordenada, num salve-se quem puder angustiado, mesmo antes do ataque se realizar, anunciado por cantos, danças e grandes fogueiras. Até os portugueses, armados até às algibeiras, tinham medo deles.
Manoel era “peça”. Com a idade que tinha ao tempo da sua chegada ao Brasil, acompanhado pela mãe e um irmão, nos fins da década de 1740, nem isso era, pois a palavra “peça” designava o escravo, coisa do seu proprietário, e ele, ainda menino, era uma meia-peça, “cria” sem valor.
Na sua mente tudo era muito vago, não se lembrava direito, sabia somente que depois de ter desembarcado foi vendido a um chamado Henrique da Matta, caixeiro da Companhia de Pernambuco, com quem viveu durante alguns anos, e que, mais tarde, já adolescente vivo e vivido no regaço das negras maduras, frutos doces da sua terra, tinha sido vendido a um capitão do Rio de Janeiro, que por sua vez o vendera ao seu actual patrão, um português residente em Luanda, nessa altura de passagem pelo Brasil, prestes a regressar a Angola depois de infortúnios diversos sofridos na diáspora sul-americana, com estórias de matar bicho, putas e sacos de ouro à mistura, um tal tenente-coronel João da Silva Franco. Lembrava-se também de que chorou de alegria quando a âncora da corveta “Escorrega” caiu no fundo de areia da baía de Luanda, no dia 5 de Maio de 1768. Esquecera-se de tudo o resto, ou não tinha vontade de se lembrar.

Não se pode dizer que o seu novo dono, esse tal João da Silva Franco, fosse grande espingarda, apesar de ser militar de carreira. Ia nos seus sessenta anos de idade, mas já uns tempos atrás tinha pedido a reforma antecipada em virtude de problemas de saúde, reforma essa que lhe fora prontamente concedida pelo simples motivo de que a verdadeira razão não era a saúde, mas sim uma série de contratempos que, em parte por sua obra, tinham chegado a abalar a governação portuguesa em Angola. E, como só causava transtornos e anunciava desaires, o governador desse tempo, D. António de Vasconcelos, pediu-lhe para ele abandonar as lides militares, «Deixe-se de trazer problemas à Coroa, retire-se. É melhor para todos». E João Franco retirou-se. Recebeu algum dinheiro, “por inestimáveis serviços prestados à Coroa e comportamento exemplar”, e meteu-se em negociatas de alto voo que o conduziram até ao Brasil.
As razões que tinham levado o governador a pedir-lhe que desse a sua demissão prendem-se, primeiro, a uma desastrosa campanha que a companhia na qual ele estava incorporado organizou, uma expedição que navegou para sul em direcção ao Kunene, à procura dos derradeiros sobreviventes de bandos de Imbangalas. Encontrou alguns, mas por toda a parte foi recebida com manifesta indiferença e apoios dos indígenas não recebeu por assim dizer nenhum, o que dificultava sobremaneira o projecto lusitano de progressão para o interior das terras do sul de Angola.

Imagem: pt.wikinoticia.com

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Bantus bajuladores poluídos


No interior dos prédios, os bajuladores partem e erguem novas paredes. Pouco tempo depois voltam a partir o que construíram e reerguem. Este é também um método da lavagem de dinheiro. Enquanto no exterior as ruínas continuam em risco de desabamento.
E o coro gospel ainda em formação bajuladora já tem presidente, vice-presidente e director técnico. É de certeza um coro da política gospel.

Gil Gonçalves
http://patriciaguinevere.blogspot.com/

E um dos melhores investimentos é a bajulação
Bajulação é poluição. Tem desgovernadores e vices-desgovernadores
que analfabetizam o angolano
Sem bajuladores que seria dos ditadores
Ai! Esta Angola, esta nação nunca sobreviverá sem bajulação
Bajulação sempre para o aniversariante da nação
Esta Angola é de um fazendeiro com milhões de escravos
A bajulação é a arquitectura da destruição desta nação
E muito brevemente, naturalmente veremos erguer-se
finalmente o comité de especialização
da angolana bajulação
Que mais tarde se auto-promoverá
em mais outra afundação
na Angola dos bajuladores e dos afundadores
que afundam a nação
Vote no partido da bajulação, no admirável homem novo de Angola
(Que os chineses trabalham dia e noite
pois, mas o custo da obra duplica)
bajulador que definha o povo
esta população que não respeita nada nem ninguém
atolada na bebida porque escolheu o suicídio
da Nova Vida
Farrapos humanos que se arrastam nas nuvens negras
da existência presente. O amanhã não existe
Bebe-se no presente, no futuro da morte
Luanda não é uma cidade capital é um vasto cemitério
E Angola não é um país, é uma agência imobiliária
E todos os milhares de mortos pela independência foram-se em vão
E o nosso Querido e Imortal Líder com o cortejo fúnebre
(até os ratos fogem dos bajuladores) do seu exército nas ruas bélicas
vai para a guerra no campo de batalha de Luanda
Há muito que o povo angolano não vive de sonhos
acorda com pesadelos
Até dos restos mortais nos cemitérios erguem condomínios
Angola é o principal importador mundial de demónios
Estes libertadores são como Jesus Cristo
mas eles realmente existiram?!
E os chineses exportam o seu pó para Angola
Os coitados dos paquistaneses estão inundados de água
a nós invadem-nos de poeira
Mais um dia negro findou. Preparo-me, como é anormal
para tentar dormir. Para enfrentar mais um dia de selva bajuladora.
Mas, será que os selvagens da bajulação me permitirão dormir?!
E os homens novos das Novas Vidas libertam-se no infernal barulho
dos escapes livres das suas motorizadas.
Mostram-nos o horripilante estrondo da Angola da banana podre
Bajulador é que tem futuro!

Imagem: cartoon-competition.org


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Apocalipse do Apóstolo S. Quase Cinquenta Anos


E os mais velhos lembram-nos num constante lamento: «Nem os colonos nos faziam isto. Onde estávamos eles respeitavam-nos. Não nos faziam assim»
E contudo ela, Angola, reduz-se a pó.

Gil Gonçalves
http://patriciaguinevere.blogspot.com/

"Toda a gente sabe que é a especulação e os ‘hedge funds' que estão a puxar pelo mercado.» (Primeiro-ministro grego, George Papandreou)
Revelação da FAMÍLIA para mostrar aos esfomeados as mais desgraças que certamente mais advirão. E enviou-as pelos seus anormais buldogues. E como sempre testemunharemos mais estas profecias, porque o tempo da Nova Vida está conflituante, muito distante! Para as dezoito províncias miséria e fome sejam convosco. E mais jura a FAMÍLIA que é, que era, e que será, e mais os seus espíritos, que certamente também nos atormentarão. É a síntese da habitual saudação do nosso príncipe, do nosso mais sábio, do nosso rei da nossa terra! Eis que tudo continuará enevoado e de cegos inundado. A FAMÍLIA é o nosso princípio e o nosso fim, porque é todo-poderosa. A FAMÍLIA abastece-se das incomensuráveis espoliações dos desangolanizados e reordena-lhes na Ilha do Mussulo e na outra da Cazanga que mantenham a miséria das províncias.
É possível em 2010 um país sobreviver sem energia eléctrica? Se o mesmo Poder teimoso é incapaz, não há dúvidas de que o é, de fornecer energia eléctrica, então torna-se impossível de fornecer mais seja o que for, porque nos dias de hoje não é possível viver sem electricidade. E daí o também ser impossível ao Poder nos governar. Quanto mais tempo o Poder permanecer, padecerá o estertor das ondas humanas nestes campos dos deserdados. Por aqui, bem governar é condomínios muralhar para neles habitar, sossegar. E a Europa e os EUA procedem, parecem a Igreja. Comentam palavras, apenas meios discursos. Apoiam o Poder para deliberadamente exterminarem o povo angolano? Afinal o colonialismo e a escravidão agora têm outro nome: democracia. A História é, são, as revoluções periódicas quando o embuste social da fome se torna insuportável. E para continuarem com o ultraje odiento de nos despojarem de tudo, escondem-se no último invento: a democracia. Que outro sistema político implantarão a seguir? Provavelmente clones muito obedientes, democráticos... a clonocracia!
Os apagões do poder apagado, brutalizam-nos até à grande desgraça final. O MPLA já não é partido, é uma fábrica de geradores. Tem muita gente a mais, muitos parasitas, como tal ninguém trabalha e por isso não funciona. O importante é destruir, e que nascerá das ruínas? Que pátria cantaremos com tantos ineptos forjados nas universidades das ruas?! Cantaremos as mortes das morgues quotidianas. Resta-nos a fuga para a morte da incompetência popular generalizada. A liberdade do mwangolé está nos caixotes do lixo. «Não! Já não se chama Luanda!» «Então como é que se chama?!» «Agora é… outro Haiti.» O que faremos com as multidões de analfabetos que os revolucionários universalizaram nas universidades selvagens?
Luanda só para geradores. Como se fosse possível uma empresa, um banco funcionarem permanentemente com geradores. É horroroso só de pensar nos hospitais. Isto é matar as pequenas empresas que não têm possibilidades de sobrevivência. É exterminar uma nação, um povo, e regra geral tudo o que seja actividade empresarial. Têm que chamar os brancos ou entregar Angola à China – parece que já acontece – porque está demonstrada a inépcia, a incapacidade no trabalho. Com tanta boçalidade não se vai a lado nenhum. Depois, servindo-se do oportunismo exageram: até importam jardineiros portugueses. Depois seguir-se-á a importação de empregados para limparem o lixo de Luanda. É que tal já aconteceu há vários anos com os filipinos. Há o risco do colapso geral ou já o atingimos? Porque abrem-se as janelas e entra, respiramos fumo dos geradores. É esta a vergonha do Continente Africano e mundial.
Os aterradores e desgraçados mentais manobram os sons das colunas para que as paredes, as janelas e os vidros estremeçam. A esta junção alcoólica parece juntar-se a grande orquestra de Luanda... a selva devidamente legalizada? Ninguém consegue acabar com o barulhento martírio das festas que agora são de dia e de noite? Só sabem viver com barulho infernal? É que não se consegue dormir, e claro, nem trabalhar. E ao mesmo tempo as motas circulam de escapes livres, imitam as AK-47, fazem muitos tiroteios e disparam os alarmes dos carros. É o único divertimento que lhes resta ou moverem-se em grupos com facas, garrafas partidas e promoverem o terror. Outros andam com cães e amedrontam as pobres mulheres vendedoras e espoliam-nas acossando-lhes as feras caninas. Significa que já não há polícia. Junta-se a isto o ainda progressivo envenenamento do fumo dos geradores. Finalmente a selvajaria legalizou-se? O Governo apoia-a? Está tudo tão irreal, tão infernal. Perante o crime constante da poluição sonora e ambiental de geradores que funcionam dia e noite, com desprezo pelos moradores próximos. A Lei diz-lhes que o importante é facturar e a população para martirizar. Onde não há lei, o senhor das trevas impera e o caos nos desespera nesta nação da quimera. Entretanto a Rádio Despertar noticia que a Conduril, uma empresa de construção civil portuguesa, enviou para o desemprego mais de mil trabalhadores. Mais miséria, mais fome e mais desestabilização social saltam à vista. Entretanto algumas vozes governamentais garantem que estão a criar empregos.
Sem energia eléctrica e sem água continua-se com a construção anárquica dos tais monumentos de utilidade pública. Sem electricidade e sem água que serventia oferecem tais desalmadas construções? Servem para explodir a caldeira da locomotiva a vapor da governação sem nenhuma solução. O mais importante é anarquizar, depois logo se vê! Eis a Pátria dos desempregados edificada. E contra milhões deles ninguém combate. Só as sanguessugas o fazem. Estamos perante a habitual anarquia total e completa numa Nação sem futuro. Roída pelos ratos que teimam em não abandonarem o navio da infausta governação. Os geradores da negociata destroem e fazem impossível viver em Luanda. Não há prédios, terraços, nada que suporte a existência de geradores disseminados como uma epidemia desconhecida. Temos que nos equipar com máscaras de gás. Isto é uma verdadeira guerra química. Isto é crime contra a Humanidade. Diariamente há incêndios por causa dos geradores e velas de cera. Eis Angola e a sua democracia africana do nada funciona.
O fumo dos geradores faz-nos muito bem à saúde. Purifica os pulmões e tonifica o coração e combate a acidez sanguínea. Faz leveza no andar e mantêm o corpo jovem sem necessidade de procurar a eterna Fonte da Juventude. Viva saudável! Aspire o fumo de três ou mais geradores diariamente. Dá elasticidade nos vasos sanguíneos. É que a energia eléctrica corrompeu-se e na prática não funciona, não existe, nunca mais ressuscitou. Angola realizou um grande acontecimento do futebol africano. Depois de esbanjar milhões de dólares em estádios e demais estruturas, eis que desponta finalmente o CAN 2011 e seguintes da tragédia da fome. Um povo independente que necessita mendigar o pagamento do seu salário.
A Católica do Vaticano primeiro excomungou o padre Raul Tati de Cabinda, depois foi o correspondente da Rádio Ecclesia no Namibe, Armando Chicoca, depois foi o professor universitário Nelson Pestana (Bonavena) do Instituto Superior João Paulo II. A seguir será o Campeão Nacional da Liberdade Justino Pinto de Andrade?! Decididamente a Igreja de Angola abandonou os escravos e passajou-se para o outro lado… para os romanos. Mas não, Justino Pinto de Andrade nota-se que está comedido, que mudou o tom. Está pretensamente crítico. De qualquer modo acabarão por silenciá-lo, o que será assim como uma profecia de Nostradamus… o fim da democracia em Luanda. Quem confia na Igreja cai num precipício. Esta Igreja da hipocrisia milenar que sempre nos revende por um barril de petróleo, para os bispos e os seus andores garantirem a reforma assegurada na velhice.
Por isso os partidos políticos em Luanda parecem tribos, e em consequência não é a intolerância política. É a consonância da política tribalista. E não dá mais para culpabilizar Jonas Savimbi porque ele não é certamente e porque já não bate assim. O, ou que, quem será então!? É a experiência de quase cinquenta anos dos lidadores da governação. Até a energia eléctrica o Politburo nos espolia. O Politburo desviou-a para o campeonato dos estádios do futebol dele, essa tralha a que chamam agora CAN2010 dos prédios e similares em qualquer local onde exista um terreno. O Politburo rouba-nos, suga-nos tudo. Que mais sabe ele fazer? Nada, a não ser guerra. E prepara outra para acabar com tudo o que é oposição. Por causa do golpe de estado dele do Plano C, mas não a ganhará porque as hordas de esfomeados rodeiam e pilham para sobreviverem.
É medonho como se roubam os trabalhadores com um à vontade jamais igualado. Conforme noticiado na Rádio Ecclésia, a empresa portuguesa ARC não pagou aos trabalhadores. Dezembro, antes do Natal, acabaram a obra em Luanda e os seus irresponsáveis fugiram para Portugal com o dinheiro dos trabalhadores angolanos. Não, não vale a pena! Isto é África, é Angola, não tem qualquer valor.
Então, porque é que o trabalhador trabalha e recebe somente no fim do mês? Mas isto está completamente errado! É desumano e explora o trabalhador. Isto tem que ser alterado. E o trabalhador receber no início de cada mês antes de trabalhar. Isto para evitar que o patrão chegue ao fim do mês e não lhe pague, inventando mil e uma desculpa. E o Politburo não tem percepção do que se passa à sua volta. Não sai do castelo, é como Sidarta Gautama, o Buda, que quando saiu do seu castelo pela primeira vez e viu tanta miséria à sua volta, não quis mais para lá regressar.
Pela compostura parece que os bispos da CEAST têm o cartão de militantes do MPLA. E com muita fé e devoção oremos para que os cofres do MPLA lhes abençoem. Os da Igreja mundial são muito humanos e como tal: numa mão uma flor na outra uma fogueira. Numa mão uma cruz, na outra os campos de concentração do Politburo. Nos rostos um sorriso angelical, nas costas um esgar demoníaco.
Entre a nossa oposição e o Papa Bento XVI não existe nenhuma diferença. Apenas se limitam a lerem comunicados de ocasião. São como as interferências nas comunicações. A oposição, se desejar sair deste colonialismo tem que fazer manifestações e greves. Lutarem por melhores condições, porque apenas com palavras isso é snobismo, puro devaneio. Que futuro espera os governantes africanos? Circularão por aí como párias sem destino?
Quem convive com a outra barulheira musical não saudável, o pior veículo de poluição sonora que existe no mundo? É claro… são algumas igrejas. Entretanto a voz de Salif Keita ecoa, apresenta-se, sente-se em tudo e em todos. É vibratória, conciliatória. Para quando a criação de comités para a salvação de Luanda, Angola, e do planeta? Haverá que declarar guerra aos poderes da destruição instituída? Mais outro terrorismo que nos espera?!
Para quem não entende das coisas convém explicar que ainda nos mantemos na ditadura do proletariado marxista-leninista. Apesar de perder a sua identidade cultural, o angolano mantém inalterável a componente do seu imaginário: as festas dia e noite, das quais é exímio trabalhador destacado.

Imagem: Despertai, de Janeiro 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

APARTHEID


«Influenciados pela situação de euforia vivida nos anos de 2006 e 2007 em que a prática em Angola foi a de comprar as casas em planta, sem recurso ao crédito e por preços especulativos, muitos destes empreendimentos destinam-se a um segmento alto, com preços exorbitantes, que agora não são possíveis de praticar.

Gil Gonçalves
http://patriciaguinevere.blogspot.com/

Neste momento muita oferta que existe destina-se a um segmento de mercado que está a ser afectado pela quebra dos preços do petróleo e com a crise mundial. Esta situação está a afectar, particularmente, os promotores portugueses que nos últimos anos decidiram apostar no imobiliário neste país e estão a iniciar a construção dos empreendimentos. Muitos destes projectos abrandaram o ritmo de construção ou então estão parados, procurando reposicionar os projectos em outros segmentos. De acordo com o levantamento feito pela Proprime, neste momento, em Luanda – incluindo as diversas zonas da cidade e periferia – estão em construção três milhões de metros quadrados de habitação, promovidos por empresários chineses, brasileiros, angolanos e portugueses, em que a maioria dos projectos se encontram desajustados da procura.» In http://diarioeconomico.com/
Neste campo de concentração, os dias são séculos, sem minutos, e os anos… tão diminutos. Chineses, brasileiros, portugueses e angolanos da junta militar acabados de chegar, já se apresentam como conquistadores, opressores e neocolonizadores. E traçam-nos novos rumos, novas políticas… do tudo ilegal.
A máquina da discriminação e exclusão governamentais à velocidade de marcha militar, espolia das suas zonas de residência tudo o que é negro. Todos os negros considerados pobres e sem condições de viverem ao lado dos condomínios nababos da junta militar. É talvez factual a pretensão do modelo sul-africano, pois o apartheid excluía, e exclui, as populações negras dos centros urbanos e dos passeios onde passava, passeava a minoria branca. Aqui será, é, a minoria endinheirada.
Os destruidores disto tudo continuam activos. Claro que têm selvagens destruições e acumulam muitos passivos humanos. Um país onde não existe lei chama-se quadrilha selvagem. Não era, não é nenhum movimento de libertação, é uma quadrilha da destruição. No fundo esta tralha é como outra Guiné-Bissau. Nadar, nadar sempre como aprendizes da mentira mas, ainda nem mentir sabem. E isto está como está, pior não é possível, porque na realidade intelectos parecem não existirem. Apenas alaridos de vozes pontuais, marciais que estrepitam ou cogitam na sorte do de vez em quando. Antevisão da antecâmara da Guiné-Bissau? Entretanto a quadrilha internacional e governamental prosseguem tal e qual como os espanhóis no tempo colonial da América Latina. Espoliar os nativos. E outro Emiliano Zapata renasce, espera-os, desespera-os. Na verdade os investimentos angolanos em Portugal servem… utilizam-se para a lavagem do dinheiro de Angola. Parece existirem apenas dois tipos de constituições: a do poder dos eternos e outra do poder efémero. Há reis que apreciam reinar eternamente. Outros democraticamente passam por lá, no poder, pouco tempo. Como se fossem visitantes da Constituição. Outros apoderam-se do poder e alteram, rasgam a Constituição como um reles papel sem valor. São os afundadores constitucionais, exterminadores das constituições e das populações. Na Guiné-Bissau é a droga, aqui é o petróleo. De modos que não existe diferença nenhuma. Saíram da mesma fornada, da mesma jornada.
Seres humanos? Já não sabemos o que isso é. Entretanto lá vamos apreciando a persistente campanha dos comentadores, eleitores para a Casa Negra. De vez em quando os nossos intelectuais saem dos túmulos e logo a eles regressam. E regra geral é assim a ascensão e queda do intelectualismo angolano. Ainda não se aperceberam que dum lado e do outro estamos cansados de palavras. Falta apenas o acto das filmagens onde o realizador costuma gritar: «câmara, acção!» «enquanto não passarem dos sapatos». Como deputados e outros mandatados que enredam os negócios na política e isso nunca bate certo. Misturar as duas actividades é levar ao descalabro o que resta da casa da Mãe Joana. E os donos do poder não aprenderam, não desenvolveram nada. Continuam tal e qual como o serial killer de antanho. E agarram-se freneticamente a tal estilo de governação que acabarão como o submarino Kursk. Como é que não se há-de ser chauvinista! O angolano realizava um trabalho, chegou um inglês desempregado e roubou-lho. Isto é o que acontece com todos os estrangeiros que chegam a Luanda devidamente acobertados pela junta militar. Eles vivem, safam-se no país do outro, e nós na miséria, na fome, a vê-los prosperar, a nos roubar.
E os nossos intelectualóides continuam a vibrar os mesmos sons e o mesmo gestual das palavras. As mesmas orações não bentas, desditas. Já não vale a pena ouvi-los. O cansaço atingiu o limite de quem ainda esperava algo deles. Como pobres nabos que vegetam nas quintas nabais.
E os espoliados, deserdados lançados outra vez na mais ignóbil miséria pelos novos negreiros, como párias, apátridas vendem a sua desgraça de muitas maneiras. Por exemplo em garrafas plásticas com água bem fresca que vendem nas ruas. Mas a junta militar persegue-os, e o comportamento neonazi dos fiscais (?) do GPL-Governo da Província de Luanda caça-os, prende-os e desterra-os. A única fonte de sobrevivência o vender qualquer coisa não se permite. Nem os brancos, não escondamos o falso nacionalismo e patriotismo, deixemos estes sofismas, o nos refugiarmos no colono português, tratava desta forma os negros angolanos.
Por aqui a água nas torneiras só desce, sobe de vez em quando e nas festas nacionais. Como um escravo que não a espera. E como os intelectuais dos quintais angolanos que são de fingimento, de trazer por casa, Angola viverá, dependerá exclusivamente de ONGs e coisas assim de… externa e eterna mendicidade. Viver num mundo (neste país, claro) extremado de maldade onde conseguir sobreviver é pura sorte.
Ao menos se a nossa oposição política deixasse de ser tumular. Mas que palhaçada democrática. Fazerem-se eleições e pronto. Estão os problemas resolvidos. O problema é que há muitos democratas e os tachos não chegam para todos. Por exemplo, com a infestação de democratas em Angola, os navios da democracia não suportam o peso e afundam-se.
Luanda, a cidade parte-paredes, a cidade amaldiçoada. E um jovem ameaça outro em tom de chacota: «É pá! Não me chateies. Vou-te queixar nos chineses, vais apanhar».
A governadora de Luanda, Francisca do Espírito Santo, não sabe onde colocar cerca de vinte mil pessoas que vivem numa vala de drenagem em Luanda. Que fraca visão governativa: Angola é tão grande, espaço é o que não falta.
É impossível viverem e venderem tantas, e tantas empresas imobiliárias em Luanda. Não há espaço, então para sobreviverem promovem a selvajaria, a espoliação, mais guerra que psicologicamente já começou, mas decerto virá, acontecerá. São estes os eleitos do Deus do terrorismo imobiliário?! Das ordens das hordas superiores?! Depois de mortos vão garantidamente para o reino da eterna especulação e lá reinarão.
Antes era e é célebre, A Cabana do Pai Tomás. Seguidamente escrever-se-á A Cabana dos Espoliados dos Casebres.
Os terrenos são a pouca vergonha do Governo, que depois de retirar, decerto esbulhar os cidadãos dos bairros Iraque e Bagdad, prometeu a venda de terrenos e que as pessoas para se habilitarem a eles deveriam depositar 1500 kz no BPC. Depois entregarem os papéis na Administração. Resultado: milhares de pessoas obrigam-se a enfrentar descomunal bicha madrugadas adentro, para tentarem entregar os processos mas sem êxito. Mesmo depois de três dias. E depois de processados (?) 45.000 inscritos multiplicados por 1.500.00 Kwanzas dá 67.500.000.00. Sessenta e sete milhões e quinhentos mil kwanzas. O manual do terrorismo bancário diz-nos que é um modo de amealhar dinheiro porque os bancos afligem-se tremendamente com a actual falta de liquidez. Esse dinheiro assim depositado rende-lhes altos juros. Mais uma vez a população sai depenada, sem qualquer direito, sem qualquer juro, ou jurisdição.
Esta é a outra Guiné-Bissau do narcoestado petrolífero. De governantes-empresários… todos nas negociatas.
Adquirirmos a certeza que governar é mentir, iludir as pessoas. E por arrasto temos, vemos o caos da democracia económica e financeira instalar-se, reconfortar-se, apoderar-se dos nossos bens. Um grupo de mentecaptos que nos espolia assessorado por intelectuais oposicionistas de pastel, de cordel.
Neste momento já estamos nos corredores da dinastia Isabelina. Tudo e todos neste reino lhe pertencem. Depois da dinastia Eduardina, por direito de sucessão inscreve-se no trono real a Isabelina. Há que retornar aos feudos medievais. E neste reino, escravos da gleba não faltam.
É que tudo isto cheira a publicidade enganosa, pantanosa, porque o Governo promete que vai vender, mas omite um elemento básico. A da promessa não ser sustentada. Pois não se pode prometer o que se não tem. A primeira coisa a saber é: as zonas loteadas e os talhões, para se saber quantos talhões as pessoas poderão concorrer e as respectivas localizações. Mas nada disso acontece e mais uma vez o Estado surge aqui como figura de má fé e a humilhar os seus cidadãos.
Que se saiba, os escravos angolanos ainda não se emanciparam. As cordas e as correntes da independência amarram-nos e acorrentam-nos. Também nunca se viu, em tão pouco tempo, negros serem esbulhados com armas de fogo, por outros negros no poder, que num passado recente prometeram um mundo melhor e os direitos de cidadania.
A forma como o governo se verga ao capital e o confinamento das populações ao Zango e a Panguila, leva-nos aos campos hitlerianos de Auschwitz e outros onde concentravam os judeus.


















quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Angola, o suicídio ou os sequestrados da Constituição


O homem que não lê bons livros não tem vantagem alguma sobre aqueles que não podem lê-los. Mark Twain
Com a nova Constituição e sem energia eléctrica, Angola será reduzida a pó.
Por aqui não são as Leis da Gravitação Universal que nos governam. É a atracção universal de alguns corpos desumanos. Que insituáveis, nos permanecem nas cadeias dos regimes totalitários. As cadeias dos queridos guias imortais que iluminam os caminhos da fome. Não há condicionantes. Há as condições aprazíveis… só para aventureiros e bajuladores.

Gil Gonçalves
http://patriciaguinevere.blogspot.com/

Abel e a Belita enamoraram-se e namoravam-se. Não como aqueles que namoram e fazem disso uma mera ocupação para passarem o tempo. Amavam-se para além das montanhas aladas das suas almas. Muito para além da atracção universal duma Constituição que eterniza um santo poder eleito por Deus. Os seus corações eram atípicos. Estavam possuídos pela também espoliação da alta voltagem de Tesla que lhes provocava curto-circuitos amorosos. De tão enlevados, não notaram o logro constitucional do voo da sua nave divina. E nela embarcaram num universo paralelo longe das nossas imutáveis leis desumanas.
Abel presenteava-se com vinte e um anos e Belita com dezasseis. Vizinhavam-se e aproximavam-se muito bem nos dois anos que floresciam como enamorados do amor. O pai da Belita não sabia, saber não podia. Estudavam e assim o futuro preparavam. Abel vivia com um tio que o apoiava, como num mar de rosas imenso. Distraíram-se e a Belita engravidou. Coisa mais natural e não atípica nos que se amam. Aquele que se dá ao outro, o que recebe o sémen que dizem consagrado, que depois germina como vida premiada, num bonito ou numa bonita, sempre à espera dos ternos e eternos olhares fecundos de carinho que o espreitam antes e depois do brutal contacto com os predadores humanos. Desabrochavam-se no seu amor que já se sentia em maturidade. A responsabilidade que aceitavam do infiel quotidiano da inconstitucionalidade. Abel muito romântico, cheio de responsabilidade mas amargurado obriga-se a um lamento:
- Querida… acho melhor desfazeres a gravidez.
- Sim… também já pensei nisso meu amor!
- Sabes… alguns remédios que vendem por aí na candonga… acho que são eficientes.
- Já tomo alguns… com a ajuda das minhas amigas… tudo correrá bem. Assim o espero!..
- Concordo imenso contigo. Estudamos, e neste momento não temos condições para suportar um ser que nascerá, e para o qual não temos meios de o sustentar, alimentar. Será mais um esfomeado sem apoio da novel constituição da inconsideração. Quem nos apoiará? Decerto serás escorraçada de casa. Para onde? Para algum casebre e depois os martelos demolidores dos estupores destruírem-no?! E eu?! Que estou na casa de um tio?!.. Deixaremos de estudar. Será o nosso fim… se o reino agendasse uma agenda de consenso nacional… um programa de apoio a jovens como nós, isso seria óptimo, como isso não existe, nunca existirá... até um nobre da universidade real quase a destruiu por causa de uma amante. Não concebo que o nosso ensino possa ser como um passatempo tão enganador, tão desalentador.
Abelzinho… compreendo perfeitamente. As tuas preocupações são a eternidade da fortaleza… da certeza do nosso amor. Apesar de retirar a sementeira do meu ventre, que jurei só a ti pertencer, ele continuará sôfrego de liberdade para nele de novo te exercitares. Planta neste jardim das delícias acolhedor, a semente do nosso universo. Verás depois os frutos saborosos e acolhedores que cairão no paraíso das tuas mãos.
E a vida no laboratório da Belita expandia-se, sentia-se como peixe na água, que crescia, remexia, renascia. Preocupada, mas sempre muito romantizada, como se dos seus lábios nascessem torrentes de jasmins, e o seu perfume incinerasse o seu amado num lago de lágrimas de amores-perfeitos. E insistia desfeita no paraíso do seu amor:
- Abelzinho, beneditino, bendito, meu bento amor… não me sinto bem. Acho que estou com paludismo.
- Vou procurar ajuda.
- Não vale a pena. Com esta Constituição ninguém nos ajudará. Somos apenas jovens que se amam algures num reino perdido do Golfo da Guiné. Quem se preocupa com isso, com jovens? Ainda se de nós jorrasse petróleo! Pensa nisso minha ternura, minha essência pura, e tudo se enaltecerá!
- Confio em ti, na tua raiz celestial, matriz deste amor ainda sob o jugo imperial.
Belita sentiu-se navegar num mar confuso que não lhe corria de feição. Como mangais que oprimem, atapetam a margem da alma marítima da natural protecção. A juventude do seu corpo fortalecido, sempre adequado e programado para saltar qualquer obstáculo, em maré de rosas sempre cuidada, regada, e que no esquecimento se seca, sem rega. Mas que depois recebe a água da vida. Então reergue-se e canta a ária do Coro dos Caídos. Não esquece a representação final ao Criador do amor. A flor com e sem dor, sempre feminina, uterina, apta para a fecundação.
Belita sentiu a sua flor jasmim-manga murchar-se. Apesar de muito aromatizada não conseguia resplandecer. Lançou talvez o último pedido de socorro.
- Por favor… leva-me para a maternidade.
Abel não sabia como lhe obedecer. O que fazer do e no tempo, o que pensar. Sentia o sol apagar-se. Mecanizou-se como adivinho talvez ao último desejo da amada nebulosa.
- Está bem… não deixes o jasmim da nossa primavera da vida murchar.
- Não! A tua fumbalelê nunca murchará. Está rejuvenescida… já rejuvenescia a ecologia. Sempre bem desperta… e para ti aberta.
Chegou na maternidade e entregou-se aos cuidados intensivos. Suspirava, procurava a vida que lhe faltava, e do único que a amava. No exterior, Abel aguardava impaciente. Talvez fosse apenas mais um daqueles trejeitos, um daqueles sintomas que normalmente as mulheres sentem durante a gravidez. O tempo passava, e as notícias, ele sentia, eram desconfortáveis. Sentiu uma faísca no cérebro. Como se alguém lhe estivesse a enviar uma mensagem. Que estranho... era a primeira vez que sentia tal no seu pensamento. Parecia um pesadelo. Despertou sobressaltado. Não esperou, correu pelas escadas empurrando, não se importando com quem lhe aparecia à frente. Sabia onde ela estava. Estacionou e perguntou desordenado:
- A Belita…
O semblante da médica augurava que o ser de crer não se amoldava. Sentiu-se deslocar para a época glacial. A geografia física entonteceu-o com os seus fenómenos físicos, biológicos e humanos. A médica conseguiu descartar-se:
- Faleceu!
Infelizmente é apenas com esta palavra que as pessoas de todo o mundo, que trabalham nas áreas de saúde respondem. Habituaram-se demasiado às leis da morte. Como se comprassem qualquer produto num qualquer estabelecimento comercial. Parecem saborear com o maior à vontade um bom petisco na companhia de cadáveres. Como se saborear a morte fosse a sua profissão. Será que já perderam os sentimentos? Apenas sentem as pessoas como qualquer objecto que enquanto funcionais são prestáveis? E quando já não servem, o destino é o caixote do lixo, vulgarmente chamado de cemitério. Triste realidade e fim deste perecer.
Abel evadiu-se, afastou-se da realidade. A querida da sua vida… sem ela?! Será engano? Não! Viu, sentiu que ela se despediu do muro de suporte da vida que ruiu. Já não respirava. Lembrou-se que quando deixamos a dinastia da vela vivencial não respiramos. Sentiu a ténue chama que restava da alma do seu amor, já nos idos sempiternos.
Abel! Sonharam-me que descobriria o Caminho. Que tudo me seria revelado. Lamento! Não consegui. Deixo-te os meus últimos suspiros. Vão para ti. Vejo tudo tão escuro, parece noite. Que luar, neste tão estranho lugar! E contudo tão bonito. Vejo alguém muito longe que se apressa. Levita para mim. Abel! Sinto muito medo! Ah!.. És tu! Não te demores. Vêm meu ardor. Acolhe-te nos meus braços ainda abertos. Ainda desejava viver muito, mas não me deixaram. Com esta Constituição não deixarão ninguém viver. Apenas nos resta o sono do sonho eterno da nossa infelicidade.
Um tremendo fogo interior percorreu-lhe o corpo. A decisão da morte tão cruel para expiar o sentimento de culpa que sentia… a vingança nesta sociedade tão desumana. Uma vingança a este Governo que não os soube acolher. Adquiriu a certeza que assim não adianta mais viver. Mas, não foi ele que cometeu o crime. Infelizmente no reino epidémico é proibido amar. Tudo é proibido. Os nobres têm autorização legal, inquisitorial. Apenas uma coisa não é proibida… a morte. No reino da casa da mãe joana permite-se tudo. Viver para espoliar e abandonar todos ao reino da fome.
Pegou num recipiente. Foi numa bomba de combustível da Sonangol e encheu-o com gasolina. Entrou em casa normalmente para que ninguém suspeitasse das suas intenções. Fechou-se no seu quarto bem trancado. Ensopou o colchão com a gasolina do nosso desenvolvimento, deitou-se e pegou-lhe fogo. As chamas rapidamente tomaram conta do seu corpo. Entretanto um familiar sente cheiro a fumo. Tenta abrir a porta do quarto, não consegue. Gastaram-se quinze minutos para derrubar a fortificação. Levaram-no rápido para o hospital. As queimaduras eram intensas. Dificilmente escaparia. Pouco depois veio o fim do que nos resta. O convite da morte que foi atendido. Contente por roubar mais um jovem, transportou-o para o seu abismo eterno. Os últimos momentos foram uma mensagem de esperança para a sua Belita. A quem amou como poucos o sabem fazer. Ao maior, mais puro e único amor da sua vida.
Belita! Estou prestes a consumir-me nas chamas da gasolina da nossa Sonangol e na escuridão dos seus cofres públicos gelados. Onde guardam as fortunas invisíveis, insensíveis que nos conduzem à morte. O meu, o nosso clamor não será em vão. Alguém escutará, redobrará este apelo! Na noite mais sombria dos tempos voltarei, e juntos encantaremos, espalharemos o perfume humano, a esta desumanidade do nosso Amor. Oh!.. Querida… voltaremos..! Para aniquilar estes tiranos que extinguiram o amor. Vejo para sempre finalmente a tua beleza e o teu amor que me seguem. Vem! Para a nossa morada eterna! Onde não existem noites mas apenas o nosso glorioso Amor. Se fortuna não tivemos nesta Angola a do céu será o nosso tesouro. O teu silêncio será como uma enciclopédia. Ó Glória! Ó Glória! Segue-nos, acampa-nos sempre amor vitorioso, virtuoso. Levo comigo o nosso anel, o símbolo da iniciação dos mistérios do nosso culto, do casamento que inventaram e com a morte nos casaram. Este enlace que jamais alguém apartará.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (FIM)


ANTÓNIO SETAS

Em 1646, dá-se a batalha em que Kabuku ka Ndongo é feito prisioneiro pelo exército da rainha Nzinga algures a leste de Ambaca. A rainha, que também protestava a sua fidelidade às leis do kilombo, poupou-lhe a vida por respeito para com a posição ndonga, cujos representantes ela encarava como sendo seus aliados, mas nunca mais o deixaria voltar para os Portugueses. Entretanto, o povo de Kabuku ka Ndonga escolheu para novo governante o seu cunhado, casado com a sua filha Kwanza, que tinha sido detentor da posição vunga de nomeação, funji a musungo (título que se pode traduzir pouco mais ou menos por “mantimento de exército”), e era um dos chefes guerreiros do bando. Uma vez que ele sabia que o seu antecessor estava vivo, por um lado não podia reivindicar plenos direitos e governou como regente, por outro, o facto de se aliar aos Portugueses para combater a rainha Nzinga dava alguma esperança ao povo de resgatar o seu chefe ainda vivo, mas todas as tentativas falharam e o velho rei acabou por morrer na Matamba, sem nunca lhe ter sido dada a oportunidade de reintegrar os seus. O novo kabuku ka ndonga lutou ao lado dos Portugueses contra os Holandeses, em 1648 contra os chefes ndembu, e em 1648-49 contra Panji a Ndona, o sucessor de mani Kasanze, próximo de Luanda. Ainda antes da sua morte em 1652 ou 53, os Portugueses honraram a sua fidelidade, concedendo-lhe o título de Jaga, e mesmo “o nosso Jaga”.
O seu sucessor, no entanto, depressa abandonou os Portugueses, para se pôr ao lado da rainha Nzinga sob a bandeira do kilombo. Os Portugueses, numa expedição militar em 1655, capturaram o chefe, a esposa (ainda com o nome de Kwanza) e os todos os dignitários do kilombo. De pronto enviaram-no como escravo para o Brasil assim como todos os seus homens(assim de resto como tinham feito com Kasanze em 1622), e substituíram-no por um fantoche escolhido por eles.
O novo kabuku ka ndongo, liderado por Ngoleme a Keta, lutou fielmente ao lado dos Portugueses contra vários chefes do Ndongo durante o mandato do governador João Fernandes Vieira (1658-61). Depois disso a dependência dos posteriores detentores do título em relação aos Portugueses foi aumentando, acabaram por abandonar o kilombo e por fim, um dos representantes admitiu no seu reino um par de missionários Carmelitas e aceitou o baptismo cristão na década de 1670.
Pela década de 1680 o kabuku ka ndonga tornou-se “um modelo a seguir” de aliança entre os Portugueses e os autóctones. Nesse caso paradigmático, o rei negro alistava os seus súbditos como mercenários nos exércitos portugueses sempre que os funcionários de Luanda requeriam os seus serviços. Necessariamente, em tais circunstâncias, o valor dos seus títulos decaía, de tal modo que, por exemplo, os kabuku ka ndonga abandonaram completamente a sua posição Mbangala no decorrer do séc XVIII, numa repetição do habitual padrão de mudanças nos títulos, para reflectir novas fontes de legitimação. O título original adquiriu um novo sobrenome, tornando-se Kabuku ka Mbwila (o mais poderoso de todos os chefes ndembu, a norte de Ambaca), conhecido daí em diante por ndembu Kabuku. A mudança indicava que o kabuku transferira a sua obediência para o mais poderoso sistema local de títulos políticos, as vizinhas posições ndembu, da parte sul do Kongo (“casamento dos títulos ndembu com as linhagens kabuku).
A história da posição kota dos Lunda, Kalanda ka Imbe, ou Kalandula, como ficou conhecido, é similar à do kabuku ka ndonga. Segundo a tradição, um detentor do título chamado Kaxita (sem outra identificação) jurou obediência como vassalo dos Portugueses, tornando-se “Jaga” Kalandula, durante a conquista de Lukamba. O kalanda ka imbe teria pois proposto a sua ajuda aos Portugueses, convencendo-os de que ele, como legítimo líder do kilombo, poderia ser mais eficaz que o kulaxingo, numa altura em que este já se sentia em perigo com a presença dos Portugueses em Ambaca. Essa ajuda, significando em contrapartida um apoio dos Portugueses aos detentores do título, talvez tivesse precipitado a fuga do kulaxindo para o interior, assim como explica a sua decisão de se apoderar do kinguri, sem dúvida muito útil na sua longa caminhada para leste, deixando o controlo do kilombo ao kalanda ka imbe e outros, que tinham ganho o apoio dos Portugueses, apoio de que o kulaxindo tentara excluí-los.
Durante a década de 1640 Kalandula combateu de par com Kabuku ka Ndonga ao lado dos Portugueses contra a rainha Nzinga da Matamba, a leste. Grande parte dessa actividade guerreira concentrou-se no controlo de uma rota principal de comércio que vinha da Matamba através do território dos ndembu e chegava até Luanda, onde nessa altura governavam os Holandeses. Apenas uma vez o kalandula abandonou os Portugueses, quando passou para o lado da rainha Nzinga com kabuku ka ndongo em 1653. Como sobredito os Portugueses capturaram kabuku ka ndongo, mas não foram capazes de resgatar kalandula, nem tão-pouco manipular a sucessão ao trono como era o seu hábito. De maneira que tiveram que negociar. Fizeram-no em 1656 por meio de um tratado com a Nzinga, no qual se estipulava que esta renunciava a uma inimizade de 30 anos para com os Portugueses e devolvia o kalandula à vassalagem destes. Os posteriores kalandula, em associação com os kabuku ka ndongo, participaram numerosas vezes nas guerras dos Portugueses.
A localização das terras dos dois chefes Mbangala (o território, conhecido por Kitukila, fazia fronteira com as terras dos ndembu e de Nzinga a norte, e do Ndongo, a sul) na margem norte do Lucala, acima de Ambaca, mantinha-os dependentes do apoio dos Portugueses, uma vez que se encontravam em perpétua ameaça de acometidas por parte dos seus belicosos vizinhos do norte. Os reis do Kongo mataram pelo menos um kalandula, no quadro de uma flagelação geral de chefes fiéis a Portugal. Outro kalandula lutou contra o ndembu Nambo a Ngongo na década de 1660, acompanhou a expedição portuguesa ao Soyo, no Kongo, chefiada por João Soares de Almeida em 1670, e de novo contra o ndembu Mbwila em 1693. Os Portugueses concederam ao kalandula o título de “Ngola a Mbole” ou “Kyambole do rei Português” e forneceram-lhe armas e suprimentos a troco da sua participação em muitas expedições militares ao longo dos séc. XVII e XIX.
Nzinga, governante da Matamba e pretendente ao título de ngola a kiluange, após a derrota do Ndongo, adoptou o rito do kilombo na década de 1620 e considerava-se a si própria Mbangala. Sempre acompanhou muito de perto as peripécias que envolviam os seus “irmãos” Mbangala, mostrando-se normalmente hostil aos que se associavam aos Portugueses. Mas o seu reino desenvolveu-se de forma muito atípica, embora ela tivesse sido capaz de manter uma oposição às actividades portuguesas em Angola muito mais consistente do que a que lhes opunham os bandos de guerreiros Mbangala oriundos das terras de leste. Nzinga foi a única Mbangala do norte que reivindicou uma autoridade política (certos títulos locais da Matamba) derivada do sistema autóctone de títulos dos Tumundongo, por ser a única a possuir fontes locais de legitimidade. Embora elas fossem pouco seguras, permitiram-lhe comandar o seu próprio povo com maior margem de segurança do que os instáveis bandos Mbangala titulares de exóticos títulos Lunda, que nunca ganharam a confiança das linhagens cujo domínio reivindicavam.
A economia do tráfico de escravos também lhe permitiu conservar uma certa autonomia em relação aos Portugueses até 1656, em virtude de a rota passar pelo território dos ndembu e os Holandeses ocuparem Luanda na década de 1640, ao longo da qual ela deteve um monopólio virtual sobre o tráfico de escravos vindos do interior, em detrimento dos kalandula, que antes eram os principais fornecedores dos Portugueses.
No reino de Kassanje, os sucessores do kulaxindo preservaram um certo grau de independência em relação aos Portugueses, através de alianças com o mwa ndonge e alguns títulos Songo de origem Lunda. Só após 1648, quando a renovada hegemonia portuguesa junto ao litoral restabeleceu uma segunda importante rede de tráfico de escravos em Angola, a oficial (quase paralela à ilegal, que passava pelos ndembu), é que o Kassanje começou a controlar o término (e a fonte) do sistema. A grande distância que separava a Matamba de Luanda permitia aos kinguri de Kassanje manter uma política mais ou menos independente. Além do mais, os Tumundongo orientais do Kassanje manifestaram, ao invés dos ocidentais, um certo respeito pelos títulos Lunda, como ficou demonstrado pela proliferação de títulos aparentados entre os Songo. Kassanje também incorporou uma variedade de posições nativas dos Tumundongo, vindas da área do Libolo. Todas estas condições impediram Kassanje, tal como a Matamba, de ser representativo dos Mbangala, embora eles se reclamassem da sua raiz.
Em 1648 os Portuguese expulsam os Holandeses e a supremacia de Nzinga termina aí, dado que os Portugueses reabrem as rotas para o interior e desviam o tráfico de escravos para Kassanje, que, pela sua simples existência, levou a rainha a se reconciliar com os Portugueses em 1656.
Paixão e morte de Nzinga
Entre as várias fontes de informação sobre os acontecimentos imprtantes ocorridos em Angola no tempo da rainha “Jinga”, grande parte provêm de fontes eclesiásticas, nomeadamente da parte do preciosíssimo António Cavazzi, porém, outras nos chegaram por via de relações dadas pelo adido militar holandês Fuller, visto ele ter sido testemunha ocular de muitos desses acontecimentos. Esse homem lutou ao lado de Minga a Mbande durante alguns anos, viveu parte das suas vitórias, mas também alguns dos seus desaires. Partilhou com ela momentos de euforia, quiçá de “folia”, mas também conheceu momentos de grande desilusão.
Segundo consta, esse lado desolador de Nzinga foi-se acentuando à medida que ela se apercebia que Holandeses e Portugueses era tudo “igual ao litro”, passe a expressão, uns “couve branca” e os outros “branca couve”, ambos exímios manipuladores, facilmente dando o dito por não dito e pródigos, isso sim, em promessas miríficas nunca cumpridas. É igualmente por intermédio de Fuller que chegaram aos dias de hoje testemunhos da «adoração que o povo angolano tinha por essa extraordinária mulher, chegando muitos dos seus súbditos a se vergarem para beijar o chão quando ela se aproximava (…) Para o capitão Fuller, ela era tão generosamente valente que nunca feriu um português depois de este se render, e tratava os seus soldados e escravos como iguais».
Mas a passagem do tempo é impiedosa, e com ela, Nzinga foi lentamente levada a fazer o seu acto de contrição. Com a progressiva perda de energia, de saúde e de confiança nos seus aliados europeus, as suas convicções foram sendo postas uma a uma, exaustivamente, nas gavetas secretas da sua alma. E esta, ontem virada para a terra dos seus antepassados, para a defesa das suas seculares tradições, elevou-se pelo menos na sua vivência do dia-a-dia, para a palavra de Cristo, e Nzinga, já velha, triste e profundamente ferida pela felonia de tudo e todos os que a rodeavam, assim, talvez, como por causa das suas próprias incoerências, acabou por estabelecer um último acordo de paz com os Portugueses.
Esse acordo aconteceu depois da saída compulsiva dos Holandeses de Luanda, em Outubro de 1656. Por essa ocasião, cento e trinta escravos foram trocados pela princesa Bárbara (nome de uma das irmãs depois de baptizada) e deu-se então início a um tempo de tréguas que pronunciavam grandes mudanças na atitude de Nzinga. Esta, aceitou os préstimos da asa protectora e muito influente de António Cavazzi, seu confessor, e dos seus seguidores religiosos “Capuchinhos”, que, a partir de 1657 se aproximaram dela e convenceram-na a voltar à fé cristã e a vestir-se de mulher.
Quem irá ter um papel importante nesta conversão, como já anunciado entrelinhas, será o frei João António Cavazzi de Montecuccolo, conhecido simplesmente por Cavazzí. Com ele a rainha vai trocar cartas importantes. Os frades capuchinhos vão tomar a responsabilidade de edificar uma igreja paga não pela rainha Jinga, mas pela arrependida Anna de Sousa. A igreja de Santa Maria da Matamba é benzida em Agosto de 1663 por Cavazzi.
Aos 75 anos, o “rei”/ rainha Jinga deu por terminado o seu reinado. Os seus últimos oito anos de vida serão os de uma pacífica e devota católica que assegurou a continuidade do reino ao aconselhar o casamento da irmã Bárbara com um general do seu exército. A sua longevidade foi extraordinária para a época. Morreu aos 83 anos, a l7de Dezembro de 1663, na presença de Cavazzi. Mas a memória dos seus feitos e a extrema dignidade do seu porte permanecem como uma referência para todos os angolanos. E para o mundo.
Sublinhe-se que, ao contrário de muitas outras histórias de rainhas africanas, Jinga não foi uma figura lendária. Existiu em carne e osso, há documentos mais que suficientes que o comprovam, entre os quais se contam cartas suas, o que para a época era raríssimo numa mulher africana. Nzinga a Mbande, de facto, tinha sido educada por frades italianos e aprendera a ler e escrever.

Imagem: ocandomble.wordpress.com