segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ditador quer subverter o jogo. Gbabo quer continuar no poder com apoio do amigo angolano


O Chefe do Estado-maior da FLEC/PM (Forças de Libertação do Estado de Cabinda/Posição Militar, João Médeo Balo, “Vencer” acusa o gabinete presidencial de José Eduardo dos Santos de ter enviado, à meia-noite do dia 14.12.10, a partir do aeroporto de Cabinda, dois batalhões da UGP (Unidade da Guarda Presidencial) em direcção a Cote D’ivoir, para ajudar a reforçar a guarda do ex-presidente derrotado, Laurent Gbagbo, que se recusa a entregar o poder ao candidato vencedor das últimas eleições presidenciais.

A confirmar-se a informação dos rebeldes da FLEC/PM ela vem juntar-se às denúncias de sectores americanos da Defesa e, também, do ministério Francês de haver há mais de dois anos, um número considerável de tropas angolanas, incluindo companhia de tanques, de fuzileiros, de artilharia e de infantaria, acusadas pela oposição ivoiriense e também dos capacetes azuis da ONU, de haver tropas estrangeiras, incluindo angolanas, nos batalhões do exército de Gbagbo, nas linhas de combate.

“Os angolanos têm estado a interferir nos assuntos internos do nosso país, apoiando um ditador, porque o presidente angolano não tem um espírito democrático. E isso prejudica a pacificação do nosso país que está a ser destruído pela ambição de um homem, que não vê meios para atingir os seus fins”, comentou um membro da Frente Norte ivoiriense.

No entanto há quem diga, que as tropas angolanas, fazem parte apenas do cordão de segurança da guarda presidencial do ditador, Laurent Gbagbo, não se envolvendo em combates directos com as tropas contrárias ao regime.

Caso se confirme mais uma presença além fronteiras sem a autorização da Assembleia Nacional, como é de lei, a imagem do gabinete presidencial fica muito mal na foto, por passar a ser visto, como um exército expansionista e de apoio a regimes ditatoriais e anti-democráticos, como são os seus aliados do Congo Democrático e de Brazzaville, no poder após derrube dos anteriores regimes, com o concurso de tropas angolanas.

É esta intervenção desmedida, que tem merecido a repulsa da comunidade internacional, por este tipo de acções não ajudar a estabilidade e a consolidação da democracia em África.

Dos Santos pede empenho para se melhorar a democracia e a justiça social


O Presidente, José Eduardo dos Santos, considerou no dia 29.12.10, na mensagem ao país de fim de ano, que Angola vive “um tempo de esperança” e apontou como caminho a construção de “um país democrático e de justiça social”.
Num discurso divulgado pela imprensa estatal angolana e sem referências a temas quentes, José Eduardo dos Santos apostou na motivação dos angolanos para o resgate dos valores de que o país é rico e desafiou as famílias a cultivarem “os valores fundamentais. É na família que se deve ensinar aos mais novos os valores fundamentais que vão orientar a sua vida de adulto”, disse o Presidente angolano, adiantando que “é na família que se transmitem os ensinamentos oriundos de gerações passadas e é na família que construímos os alicerces e os pilares da nação”.
Afirmou ainda que o trabalho para se “conseguir um bom nível de governação” em Angola depende do trabalho de todos os angolanos, bem como a manutenção de “um ambiente político e social tranquilo, seguro e ordeiro, como condição para continuarmos a construir um país democrático e de justiça social”.
Apontando a época, Natal e fim de ano como oportunidade de recomeço, José Eduardo dos Santos apontou que nestes momentos “ganha força a convicção de que cada cidadão é, de facto, responsável por forjar o seu próprio destino, por aperfeiçoar o seu modo de estar no mundo, por melhorar a sua vida familiar e por se integrar de forma mais harmoniosa na sua comunidade e no seu meio social”.
É neste cenário que o Presidente angolano entende que os angolanos “estão a consolidar o clima de paz, concórdia e estabilidade que desde 2002 (ano em que terminou a guerra)”.
Pediu ainda um esforço nacional para consolidar valores como “o trabalho, a dedicação e afinco ao que se faz e produz, o amor à Pátria, o espírito de sacrifício, a solidariedade, a tolerância e o respeito para com o semelhante. Temos de saber motivar os cidadãos para pensarem e agirem em prol do bem comum e em benefício da coletividade”, sublinhou.

Finalmente em casa. a injustiça libertou os inocentes presos de consciência em Cabinda


Os presos de Cabinda, foram finalmente libertados, depois de o Tribunal Constitucional ter produzido um acórdão dúbio sobre uma norma inconstitucional, que foi revogada, mas cuja revogação ainda não promulgada na altura dos factos permitiu lavrar a absurda sentença. E hoje, a norma encontra-se em vigor, pois ainda não foi publicada em Diário da Republica. Ganhou a persistência de quem acreditou na condenação da injustiça e no silêncio cúmplice dos cínicos

Nesta época festiva, não podemos de modo algum passar sob silêncio, por um lado, a libertação do Padre Raul Taty, de Francisco Luemba (advogado), do Economista Belchior Taty, assim como de André Zeferino Puaty, José Benjamim Fuca, Alexandre Cuanga Sito e Próspero Mambuco Sumbo, com os quais nos congratulamos profundamente, por outro, as discretas iniciativas das autoridades angolanas, Presidente da República em especial, aparentemente destinadas a reformular o Memorando de Entendimento como solução para o problema de Cabinda.

Antes de passar a uma sucinta análise do Memorando e das perspectivas de paz em Cabinda, o F8 faz suas as palavras de todos os amantes da paz, nomeadamente as do Bloco Democrático (BD), e “saúda efusivamente os ora libertos defensores das liberdades e da democracia no espaço cabindense, e deseja o seu rápido restabelecimento físico no seio das suas famílias”.

É claro que não conseguimos saber como foi possível «a privação gratuita da liberdade por 12 (doze) meses dos ora libertos, um acto de pura barbárie inadmissível mesmo em países de desenvolvimento humano muito baixo, sobretudo porque a maior parte dos ora libertos são personalidades da sociedade civil Cabindense de reconhecido mérito, integridade, idoneidade e probidade, cujo único crime que lhes pode ser imputado é o de serem activistas defensores dos direitos humanos em Cabinda (BD, Luanda, 22 de Dezembro de 2010)», a coberto do artigo 26.º da Lei n.º 7/78 – Lei dos Crimes contra a Segurança do Estado — que estabelece uma pena entre 2 à 8 anos pela prática de “Outros actos, não previstos na lei, que ponham ou possam pôr em perigo a segurança do Estado”.

Isto nem em “reinos” de macacos, instalados no poder depois de terem comido todas as bananas da República! Contudo, a este “magnânimo” gesto, contrapõem-se outros gestos, uns pro pace, outros não, numa sequência de tentativas de camuflar o fiasco total do Memorando.

As cicatrizes da guerra civil
Temos de assinalar, antes de mais nada, que a maior parte das tentativas de retomar o fio à meada para alcançar a paz em Cabinda se perdeu nos meandros, nos equívocos, mentiras e propaganda falaciosa do defunto Governo de Angola, e, portanto, são encaradas com reservas por parte de sectores políticos e intelectuais, que justificam a sua atitude por razões que lhes parecem claras, na medida em que persistem no enclave intentos de marginalização selectiva de figuras representativas, em benefício de outras que o não são, ou são menos, e, sobretudo, por haver iniciativas que deixam pairar a ideia de um novo forcing militar e de segurança, tendente a neutralizar/desarticular a guerrilha da FLEC e focos subsidiários de agitação e rebeldia.

Sabe-se, por exemplo, que uma força especial das FAA, sob comando do Brigadeiro Simão Whala, foi despachada para Cabinda com o fim de destruir santuários da FLEC no território, designadamente a Norte, e capturar e ou eliminar os seus chefes, segundo fontes locais.

Mas, a nosso ver, não nos parece, digamos, inteligente, que uma atitude suspiciosa dos Cabindeses, por mais fundamentada que seja, ignore o facto de o actual Executivo considerar que o que se diz agora em surdina sobre o “carácter não exitoso” do Memorando de Entendimento, seja atribuído à escassa representatividade e fraco prestígio local de Bento Bembe e outros, todos vistos, antes de mais nada, como “impostores”. Isso é um progresso, pequeno, mas um progresso.

Entretanto, sobre a situação geral no território de Cabinda referente a Janeiro de 2009, um estudo feito a propósito da situação vigente indica que os sentimentos independentistas da população “aumentaram de intensidade” por reflexo de repulsa ao Memorando de Entendimento, primeiro, porque a população, senhora de um orgulho natural muito forte, baseado numa cultura sui generis não conseguiu “engolir” a ofensa a esse orgulho, tal como foi vista a negociação sobre o futuro de Cabinda com personalidades consideradas “farsantes”.

Segundo, porque, noutro registo, não se percebeu bem que significado poderia ser dado à audiência pública concedida por JES, a Antoine Nzita, filho do líder da FLEC, Nzita Henriques Tiago, apontada por muitos como demonstração de que as iniciativas das autoridades não são bem intencionadas. Pai e filho estão desavindos por suspeitas de aliciamento deste pelo regime angolano.

De relembrar que a deslocação de Antoine Nzita a Luanda – que reside habitualmente em França -, foi efectuada a convite da PR, coincidindo temporalmente com uma iniciativa de Nzita H Tiago para se encontrar com JES a fim de apreciar a questão de Cabinda.
Além disso, Nzita/filho praticamente não teve vivência em Cabinda. É considerado um desconhecido entre a população – ao contrário do pai, personalidade de facto prestigiada, de idade avançada e, aparentemente, de saúde abalada. A atitude do Governo de o marginalizar é remetida para uma lógica segundo a qual não é visto com bons olhos ter de se lhe fazer concessões efectivas a conferir-lhe desse modo legitimidade política transmissível a outros.

Enfim, resta como esperança a unir esta manta de retalhos díspares e pouco abonatória para a paz em Cabinda, a iniciativa da realização próxima de uma Conferência Inter-Cabindesa, dinamizada por uma organização denominada Comissão Ad-hoc da Sociedade Civil para a Promoção do Diálogo, que é alimentada por um “sentimento colectivo” de rejeição de soluções “cozinhadas” no exterior a favor da negociação de uma solução autêntica e tem por mentor e principal animador, Belchior Tati. Este, garantiu aos cabindeses, que recentemente contactou no estrangeiro, Portugal e França, que dita Conferência não tem qualquer ligação oculta ao Governo. Será aberta a todos, sem excepção. B. Tati é visto internamente como um oposicionista genuíno, uma reputação que remonta à sua condição de líder da chamada FLEC interior. Oriundo do ramo original da família Tati, esteve no passado comprometido com o regime do MPLA (pertenceu às FAPLA). Afastou-se por ocasião da abertura política de 1991. Dado como oposicionista, foi preso em 1992 e privado de exercer a sua actividade.

Banco BESA na falência


A maneira como os bancos começaram a instalar-se em Luanda depois do advento da paz em 2002, com centenas de agências a abrir quase à maneira da proliferação de células cancerosas, invadindo espaços com características próprias, transfigurando-os de fio a pavio até eles serem idênticos ao invasor e assumirem todas as suas funções de predadores, fez-nos pensar numa tirada de Thomas Jefferson, em 1808, vejam bem: «Creio que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que exércitos inteiros prontos para o combate. Ora o que acontece pelo momento é que, cada vez mais, o país continua a ser invadido por uma avalanche de agências de um grande número de instituições bancárias, angolanas e internacionais. Vieram porque os lucros são fabulosos. Vieram para aceder a eles. E o que neste momento nos espanta é que um dos mais opulentos bancos portugueses, dos últimos a instalar-se em Angola, o BESA, esteja a dar sinais por demais claros de se encontrar à beira da falência. Pedem mil dólares para abrir conta e não têm dinheiro para retribuir aos seus clientes. Dizem que estão à espera de dinheiro de Portugal. Muito inquietante. Lembram-se da falência do Lheman Brothers e da crise mundial que se seguiu. E se o BESA falir agora, em Angola, que tipo de crise nos será reservada? É simplesmente aterrador.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Aguinaldo Jaime, o homem dos americanos



O actual presidente da ANIP, Agência Nacional de Investimento, Aguinaldo Jaime, é, até ao momento, o dirigente angolano que pode estar quase proibido de viajar para os Estados Unidos sob pena de lá ficar retido para responder a um processo-crime por tentativa de falsificação (destino suspeito dado a um documento). No caso vertente, trata-se de um cheque de 50 milhões de dólares. A ocorrência remonta a 2001, e vamos, portanto, fazer uma retrospectiva dos acontecimentos para melhor compreender o que se passou. Comecemos pela parte final da história

Como tudo já ia mais ou menos a periclitar no Reino do Ngola, no que toca à sua imagem no estrangeiro, no dia 5 de Fevereiro de 2010, uma comissão do Senado americano ouviu atentamente detalhes palpitantes, cuja apresentação fora exigida por ela, sobre a movimentação de milhões de dólares de vários países africanos, incluindo Angola, em esquemas relacionados com o desvio e lavagem de fundos dos respectivos governos.
Nessa audiência, vários casos envolvendo Angola foram abordados, nomeadamente a transferência de milhões de dólares para e por Pierre Falcone, o empresário a cumprir pena de prisão em França por tráfico de armas para Angola e que, juntamente com os seus familiares, terá usado qualquer coisa como 29 contas diferentes, só no Bank of America, é obra, entre 1989 e 2007 para movimentar milhões de dólares em fundos que o relatório considera de suspeitos.

O comité do Senado que investigou a questão tinha de facto localizado 60 milhões de dólares em actividades repletas de pontos de interrogação sobre a qualidade, limpeza e transparência dos seus destinos, o que na realidade não passava de um acréscimo considerável ao que tinha acontecido entre 1999 e 2007, espaço de tempo em que Pierre Falcone esteve envolvido em inúmeras transacções mais que suspeitas.

Recorrendo ao lendário pragmatismo norte-americano, o ainda venerável Bank of America (pelo menos até ao desvendar do WikiLeaks) encerrou as contas de Falcone em 2007. Para ser mais preciso no que se refere a esta fatia do colossal bolo monetário em jogo, veio a público William Fox, do Bank of America a fazer uma espécie de mea-culpa, admitindo que o banco deveria ter actuado ante e de muito melhor maneira no caso de Pierre Falcone, muito antes, teria sido mesmo muito mais eficaz se tivesse começado a agir em 1999 e 2003, quando recebeu em diversas das suas contas mais de seis milhões de dólares de clientes que não foram identificados.

Ora, como toda a gente sabe, esse Monsieur Pierre Falcone estava nessa altura unido, como unha à carne, nas negociatas bélicas de JES e às suas transferências bilionárias, o que certamente criou algumas cócegas nas orelhas dos investigadores americanos quando se depararam com um outro caso envolvendo uma tentativa do antigo governador do Banco Nacional de Angola e antigo vice-primeiro-ministro, Aguinaldo Jaime, o qual, fazendo um “bras d’honneur” à legislação americana, transferiu 50 milhões de dólares para uma conta privada através de bancos americanos.

Não é um banco, atenção, foram várias transferências e vários os bancos que serviram para realizar essas transferências.

A partir desse momento tudo se complicou. Eis que entra então em jogo a ONG Human Rights Watch, e o que vemos é o seu dirigente, Arvind Ganesan, vir a público dizer que neste caso dois bancos americanos o Bank of America e o Citibank consideraram a operação de suspeita. O Citibank acabou mesmo por fechar os seus escritórios em Angola.

Esse homem, director para questões empresariais na organização de direitos humanos Human Rights Watch, disse também que Aguinaldo Jaime "tentou transferir 50 milhões de dólares do banco central para os Estados Unidos sob pretexto de que se tratava de fundos para ajuda humanitária". E acrescentou, "O banco, nos Estados Unidos, considerou a operação de suspeita e devolveu o dinheiro. Dois meses depois em Agosto de 2002 ele tentou a mesma coisa em conjunto com vários outros indivíduos. Mais uma vez o banco considerou isso de suspeito, disse aquele especialista. Outro banco que teria estado envolvido nas tentativas de Aguinaldo Jaime para transferir dinheiro foi o HSBC que teria sido também usado para a compra de títulos do tesouro americano por entidades angolanas.

O “Pára o Baile!” do Tio Sam
A propósito deste contencioso, o senador Carl Levein disse que a corrupção deve ser combatida em todos os locais porque destrói a lei, o desenvolvimento económico e a sociedade civil, juntando a sua maneira de ver à de Arvind Ganesan, segundo o qual “a transferência ilícita de fundos afecta também o bem-estar das populações dos países visados”.

Dando como exemplo o caso de Angola, Ganesan (Human Rights) recordou que um relatório publicado pela sua organização em 2004 indicou que entre 1997 e 2002 - na altura em que Aguinaldo Jaime era ou director do banco central ou vice primeiro ministro - quatro mil e 220 milhões de dólares desapareceram. Nesse mesmo período o gasto total para questões sociais e humanitárias em Angola foi de quatro mil e 270 milhões de dólares.

"Durante esse mesmo período, todos os principais padrões de desenvolvimento caíram. Quer seja saúde, ou educação ou outro serviço essencial ou necessidade poderiam ter sido melhorados se os quatro mil milhões de dólares que desapareceram tivessem sido investidos em favor do povo angolano em vez de terem sido esbanjados, mal administrados ou roubados," disse o especialista.

Arvind Ganesan da Human Rights Watch disse ainda apoiar medidas para que os corretores de propriedades sejam obrigados a saber a proveniência de fundos usado na compra de propriedades nos Estados Unidos.

Enfim, a verdade é que em Angola anda-se a brincar com dinheiro. É uma festa! Que, neste caso foi cancelada com uma espécie de “Pára o Baile!” imposto por parte das autoridades americanas, quando decidiram no mês de Agosto de 2010 cancelar todas as contas bancárias da embaixada da Angola e dos membros da mesma nos EUA.

O caso visto do lado angolano
Quando Aguinaldo Jaime era governador do BNA, nessa altura disse ao Presidente da República que três indivíduos de origem árabe, teriam 3 mil milhões de dólares para doar a Angola, bastando tão-somente que o Governo emitisse uma garantia bancária de USD 50 milhões de dólares.

A equipa económica de então, liderada por Júlio Bessa, na altura ministro das Finanças, rejeitou a proposta por achar estranho que os homens das Arábias de pé para mão se encantassem pelos lindos olhos dos angolanos

No entanto, ao que parece, o governador do BNA teria levado também a proposta a JES e este teria anuído à proposta, uma vez os cofres do Estado na altura estarem quase vazios e ser preciso continuar no esforço de guerra.

Terá sido com esta cumplicidade de JES que Aguinaldo Jaime, à revelia do seu superior na equipa económica, Júlio Bessa, decidira ir ao gabinete e emitir por sua conta e risco uma garantia bancária.

Dez dias depois os americanos accionam a sua representante em Angola, a actual governadora do BANCO Central de Cabo Verde, que se desloca ao ministério das Finanças para questionar o ministro Bessa, sobre se este teria anuído a operação, como máxima entidade cambial. Este, antes de responder, liga ao Presidente da República, que ter-lhe-á dito que não sabia de nada.

Júlio Bessa diz isso aos americanos e estes cancelam a operação. Informam ao Departamento do Tesouro, que, por sua vez informa ao Congresso. A comissão do Congresso enviou várias cartas ao Governo e a Presidência da República e ao próprio governador do BNA e estes calaram-se, nunca responderam.

Assim sendo, com o autismo angolano a internacionalizar-se, o processo foi endereçado aos tribunais, onde ainda lá está. É que apesar de a operação ter sido abortada, ficou patente a tentativa, que nos Estados Unidos, tal como em Angola, é crime.

É neste quadro que corre um processo de suspeição contra Aguinaldo Jaime, para quem, neste momento seria muito perigoso, ir de viagem aos States e mesmo a alguns países da Europa, sob pena de vir a ser preso e deportado para as terras do Tio Sam.

“A actual administração norte-americana tem de Angola uma opinião pior que a da antiga equipa de Georges Bush. A principal razão é sem dúvida a corrupção, considerada “galopante”. Curiosamente, vale pelo momento a Angola a intervenção eficaz da China e a recomposição, em curso, de relações com países como a Rússia, que temperam, sem dúvida, os anseios justiceiros dos EUA. Trata-se, na realidade de um jogo delicado de equilíbrios em que Angola vai ficando “ligeiramente” mais exposta a pressões dos EUA e dos países ocidentais em geral, por efeito de “limitações” impostas pela China às suas anteriores políticas de concessão de créditos. “O congelamento das contas da embaixada e relatórios do Senado considerados muito críticos da situação em Angola, são já vistos como afloramentos de uma nova capacidade de pressão – ainda que velada e ditada por critérios como a de que outra, mais ostensiva, não é oportuna”, diz Xavier de Figueiredo do África Monitor.

De qualquer modo, Angola sai-se deste imbróglio com uma péssima aparência na fotografia e uma boa quantidade de penachos seus, quase todos artificiais, a perderem-se pelo caminho.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Óbito na família do Folha 8


Faleceu no passado dia 4 de Janeiro do ano em curso o cidadão Guilherme Ngangula Mateus Tonet “Masoxi”, nascido em 1978, que, para além de ser uma personalidade cativante pelo seu lado destemido na pilotagem de motos de grande cilindrada e ter participado e ganho vários troféus em corridas de Motocross, restrito meio no qual ele era figura proeminente, era também um pouco da nossa família, a do Folha 8, por ser o irmão do nosso director William Tonet.

Contrariamente ao seu companheiro e adversário motoqueiro, o malogrado Jorginho, que morreu espetado na carroçaria de um camião no desfecho fatal de uma pirueta acrobática no comando da sua moto.

Guilherme Ngangula Mateus Tonet, “Masoxi” morreu sereno, na cama, vencido por um insignificante inimigo, mas só em aparência, um mosquito, anófeles, faciparum, que não levou em conta a sua leviandade em deixar correr a doença e o exterminou em menos de quatro dias com um ataque de malária cerebral. Dramática ironia do destino.

O seu funeral foi celebrado no passado dia seis de Janeiro e o corpo enterrado no cemitério de Santa Ana.
Paz à sua alma e expressão de sinceros pêsames e profunda dor dos seus entes queridos e de toda a Redacção do Folha 8 em peso.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (11)


ANTÓNIO SETAS
Os Portugueses que viviam em Luanda tinham ouvido rumores sobre os grandes poderes de Kinguri e enviaram um mensageiro chamado Gaspar Kanzenza, com uma mensagem pessoal para convidar Kinguri a se deslocar a Luanda. Kanzenza encontrou os Mbangala acampados na ilha de Mbola na Kasaxe pouco tempo depois de os makota terem aprisionado Kinguri e já o terem morto. Os makota, ardilosamente, explicaram que Kinguri tinha ficado doente e não podia receber visitas naquele momento, pois não podiam partir para Luanda antes que alguém assumisse a sua posição e ganhasse o direito de responder ao convite dos Portugueses. Só depois de Kuxalingo ter conquistado o poder é que eles partiram para Luanda, onde se encontraram com o governador e se juntaram aos Portugueses na luta contra o ngola a kiluange.

Análise:

1) Não foram os makota, mas sim Kulaxingo (designado como herdeiro de Kinguri) quem respondeu ao convite dos Portugueses. A relutância dos makota em responder ao convite do governador sugere que os Portugueses apenas negociariam com um detentor da posição kinguri, e não com os títulos do kilombo, que eram controlados pelos makota.
2) A recusa dos makota em dar a conhecer a morte do kinguri representa, provavelmente, as tentativas dos titulares históricos da posições Lunda de resistirem à intervenção portuguesa contra o seu controlo sobre o kilombo.

Segundo a tradição, o falso rumor de que o kinguri ainda vivia, tinha como objectivo evitar que o titular do kulaxindo fizesse ressuscitar o kinguri como base para o seu domínio sobre os Mbangala. Também é certo que nem todos ao makota apoiaram o assassinato do kinguri, uma vez que todos os líderes da revolta vinham da linhagem Kandama ka Hite. A legitimidade de Kulaxingo era pois posta em dúvida por uma parte do grupo. Daí os seus esforços bem sucedidos para fazer reviver o kinguri (os makota tinham abolido o título, mas ele reclamou-o a si com relativa facilidade, servindo-se dos símbolos de autoridade abandonados em Mbola na Kasaxe, ou mesmo fabricando imitações credíveis dos originais) a fim de dar legitimidade, aos olhos do povo, ao seu domínio de facto.
Os Portugueses concederam a Kulaxingo o título de “Jaga”, uma honra da sua própria invenção, e o nome “Cassanje” em reconhecimento do título kasanje que ele tinha usado no tempo em que pela primeira vez tomara contacto com eles. Posteriormente, para os Portugueses, todos os bandos Mbangala passaram a chamar-se “Cassanjes” e os futuros reis Mbangala “Jaga Cassanjes”.
Kulaxindo em pouco tempo justificou o facto de ter assumido o poder do kinguri, obtendo grandes vitórias militares, as quais demonstravam claramente o seu firme controlo sobre os símbolos de autoridade. Kulaxingo deu bom uso aos poderes mágicos do kinguri. A sua arma fundamental era uma arco (mufula) chamado kimbundu, que, segundo eles, muito poderia ajudar os Portugueses a descobrir o misterioso reduto do ngola a kilwanji, uma fortaleza mágica, dizia-se, na qual eles eram incapazes de entrar, ou sequer localizar, sem a ajuda das armas mágicas de Kulaxingo. Segundo a tradição, Kulaxingo teria ido a Luanda e feito uma demonstração dos seus dons mágicos na praça em frente ao palácio do governador(em 1612 não havia palácio do governador em Luanda (Cf. A história de Kajinga).
Kulaxingo mandou vir nove bois e disparou uma única flecha para o primeiro boi. A flecha matou o boi e depois continuou uma rota milagrosamente cheia de curvas, até ter morto os nove bois e, ainda, ter deitado abaixo dois grandes embondeiros. Por fim, mergulhou no mar e desapareceu. O governador português, convenientemente impressionado com esta demonstração, concordou em aceitar a ajuda de Kulaxingo. O ngola a kiluange, que compreendia melhor essas coisas que os Portugueses, ficou tão atemorizado que fugiu par Pungo a Ndongo, e mais tarde deslocou-se para norte, para o rio Wamba, onde os seus descendentes vivem até hoje.
A tendência dos Tumundongo para, nas tradições modernas, situarem em Luanda todos os acontecimentos importantes muito antigos, levou-os, neste caso como em muitos outros, a deformarem a realidade. De facto, as tradições mais antigas assinalam que Kulaxingo atravessou o Kwanza perto de Kambambe, não longe do primeiro contacto efectuado uma década mais cedo. E é evidente que esta demonstração nunca teve lugar nos moldes aqui descritos. Porém, tanto a grande impressão como guerreiros que os Mbangala fizeram aos Portugueses, como o facto do ngola a kilwanji ter sido obrigado a fugir para a Matamba, correspondem a factos históricos inegáveis.

A “aliança” Luso-Mbangala

De par com a morte do kinguri, as tradições referem-se também aos primeiros contactos dos Mbangala do kulaxingo com os Portugueses, contactos que ocorreram quando esta luta pela sucessão ainda dividia o bando.
Segundo a tradição, Kulaxingo teria ido a Luanda e feito uma demonstração dos seus dons mágicos na praça em frente ao palácio do governador (em 1612 não havia palácio do governador em Luanda).
Kulaxingo mandou vir nove bois e disparou uma única flecha para o primeiro boi. A flecha matou o boi e depois continuou uma rota milagrosamente cheia de curvas, até ter morto os nove bois e, ainda, ter deitado abaixo dois grandes embondeiros. Por fim, mergulhou no mar e desapareceu. O governador português, muito impressionado com esta demonstração, concordou em aceitar a ajuda de Kulaxingo. O ngola a kiluange, que compreendia melhor essas coisas que os Portugueses, ficou tão atemorizado que fugiu par Pungu a Ndongo, e mais tarde deslocou-se para norte, para o rio Wamba, onde os seus descendentes vivem até hoje (Miller, 1976).
A tendência dos Tumundongo para situarem, nas tradições modernas, todos os acontecimentos importantes muito antigos em Luanda, levou-os, neste caso como em muitos outros, a deformarem a realidade. De facto, as tradições mais antigas assinalam que Kulaxingo atravessou o Kwanza perto de Kambambe, não longe do primeiro contacto efectuado uma década mais cedo. E é evidente que esta demonstração nunca teve lugar nos moldes aqui descritos. Porém, tanto a grande impressão como guerreiros que os Mbangala fizeram aos Portugueses, como o facto do ngola a kiluange ter sido obrigado a fugir para a Matamba, correspondem a factos históricos inegáveis.
O que parece também historicamente corresponder ao que realmente se passou, é o facto de os bandos Mbangala começarem desde os primórdios do séc. XVII a estabelecer-se a norte do rio Kwanza em substituição dos dignitários Tumundongo, que até essa altura tinham exercido a autoridade nesse território em nome do ngola a kilwanji, criando um novo Estado baseado no recrutamento obrigatório dos varões locais para a associação do kilombo. A iniciação desses homens no kilombo privava a parte mais produtiva da população local da sua anterior pertença às linhagens Tumundongo, ao mesmo tempo que a sujeitava à autoridade directa do rei Mbangala e dos vunga por ele nomeados. Do ponto de vista militar, o Estado Imbangala do kulaxingo era constituído por acampamentos de mercenários estabelecidos nas franjas da Angola portuguesa, que em tempos normais capturavam agricultores locais para os vender como escravos, e em tempos de guerra de imediato se juntavam às forças portuguesas para combater. Apesar de haver tradições um tanto contraditórias, provas circunstanciais apontam para o médio Lucala como o local do acampamento permanente dos Mbangala do kulaxingo, já que uma região ali localizada chamada Lukamba (perto de Ambaca), se tornou um importante e precoce centro do tráfico de escravos. Além disso, o acordo passado entre Mbangala e Portugueses também levava a que estes últimos estivessem perto de Ambaca.
Os governadores da década de 1610-1620 concentraram os seus esforços na penetração no coração do Estado do ngola a kilwanji. Começaram por reforçar a sua posição no baixo Lucala, construindo um novo Presídio num local chamado Hango, que serviria de base para futuras acções ofensivas com a ajuda, certamente, dos Imbangala acampados por ali perto, servindo de tampão entre o Ndongo e as fracas forças portuguesas a jusante do Lucala. Em 1617, os Portugueses deslocaram o Presídio de Hango para leste, num novo local situado perto de Ambaca, perto de Lukamba, base dos Mbangala, já que os Portugueses desejavam dispor de um posto fortificado tão próximo quanto possível dos seus aliados africanos. Estes, entretanto, produziam mais escravos do que os canais oficiais podiam absorver, o que levava a que o tráfico ilegal prosperasse tanto ou mais do que o do governo de Luanda. Alguns governadores encorajavam essas aventuras ilegais e tiravam certamente algum proveito delas.

Imagem: ab4-cronicasecontos.blogspot.com

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O REINO PERDIDO


Gil Gonçalves
Governar é muito fácil… basta fingir que existe ensino para ter um povo analfabeto e facilmente o submeter à escravidão.

Desempoeirava os arquivos na lisbonense Torre do Tombo quando encontrei um manuscrito surpreendente.
A corte do Rei D. João V de Portugal, que reinou de 1706 a 1750, vivia luxuária com as naus que chegavam e descarregavam ouro e diamantes brasileiros. Era o rei dos deuses. Tangou 120 milhões de cruzados no Convento de Mafra. O dízimo à igreja de Roma ultrapassou 200 milhões. O Aqueduto das Águas Livres?.. o povo pagou. Um rei que influencia reis actuais porque o copiam, suplantam-no. Insatisfeito, D. João V queria mais riquezas, o que prova que quanto mais se têm mais se quer, e ordenou os preparos de três embarcações com destino à Africa Ocidental, na deriva da rapina, no saque de mais ouro e diamantes.

Acabou-se a aparelhagem das naus que almiranteadas por D. Fuenteovejuna, desacostaram numa manhã sedativa. Usaram a prática de apenas os capitães conhecerem o destino da viagem. Chegaram às ilhas de Cabo Verde, fizeram a Volta ao Largo, depois ficaram à mercê dos bons ventos rumando para sul. Muito navegaram e bordejaram até ao encontro de uma grande tempestade que dir-se-ia os aguardava. As vagas não vagavam as naus que descombinadas perdiam o desejo, o ser de boa paz. Chuva e ventania intensificavam-se o que forçou as naus a largarem-se as mãos, e saírem da rota como países mal governados. Dias aziagos sucederam-se com esforços para não se afastarem, para continuarem como namorados, mas em vão, a nave capitã perdeu-lhes os vultos. O almirante do mar oceano Fuenteovejuna, não se surpreendeu quando se mareou que andava à deriva. Como os homens que fazem guerra, o mar também se cansa e amaina. Seguiu-se a dança do universo visível e um estafado marinheiro soltou algo parecido com um grito:
- Terra à vista!
- Louvado seja Deus Nosso Senhor! - Exclamou o capitão que acrescentou:
- Vamos consertar a devastação da tempestade, renovar os viveres e saber onde acostámos.

Exaustos, deitaram-se na areia fina do imaginário paraíso. A vegetação adensava-se e o sol rompia com a sua fornalha, o que levou Fuenteovejuna a profetizar:
- Chegámos ao país do sol!

Saboreava-se o amável convite da Natureza para bater sorna, mas o deleite não foi demorado porque das sombras da vegetação surgiram alguns seres humanos escuros, achocolatados. Um destaca-se, ergue a mão em sinal de cumprimento e Fuenteovejuna pergunta-lhe:
- Onde estamos, quem são?
- Watula! (já chegámos) saudaram os nativos na sua língua.
Fuenteovejuna, à James Cook na Austrália, sabiamente esclarece os seus homens:
- Meus senhores… parece que estamos no reino dos Watulas!
Viu a inutilidade da sua conversa porque os nativos não o entendiam. Esboçou-se, esforçou-se e marimbou-se. De repente surge uma jovem, uma natividade de extraordinária beleza que faz uma afirmação desconcertante:
- Eu entendo a tua prosa.

Fuenteovejuna olhou guloso para a jovem natividade, como alguém que não comia nada há muito tempo. Admirou-se, admirou-a, despiu-a mentalmente, aparentava vinte e cinco anos. Cor de chocolate claro, lembrava uma estátua de deusa perdida, à muito procurada pelo argonauta, uma lenda das maravilhosas ilhas encantadas que nenhum escultor ainda esculpira. Como um sonho nunca viajado, encontrado, nunca revelado. Os seios nus, erectos e mamilos de endoidecer qualquer hominídio, sugeriam que acabavam de aportar no paraíso perdido. A cobrir-lhe o sexo já publicitava, estampava a maravilhosa invenção da tanga. Fuenteovejuna esqueceu-se de Deus porque sentiu um arrepio de paixão terrena passar-lhe pelo centro do corpo. Rouquejou:
- O meu nome é Fuenteovejuna, como é que sabes a minha língua?
- Chamo-me Kufundisa, (fazer justiça) e a tua prosa aprendi nos computadores dos Dólares.
- Como se chama este reino e quem são os Dólares?
- Este reino, agora chama-se Ajimbila, (ficam perdidos) e os Dólares governam-nos, oprimem-nos... os Dólares chegaram aqui nalgumas naves especiais com pessoas brancas, a que o nosso povo estupidamente chama deuses e que conluiados com o rei absoluto, Ka Ubu (o eterno) nos zeraram as almas. Os nossos filhos precocemente sabem que a vitória da morte é certa. Não temos comida, não temos nada…somos zeros … para sobrevivermos bazámos para a selva. Todas as riquezas do nosso reino são para os Dólares, para Ka Ubu e a sua tribo.
- E vocês não se revoltam?
- Não dá, porque Ka Ubu e os Dólares têm muitos guardas, um exército poderoso e muitas armas sofisticadas. Quando nos apanham, e como somos da oposição, fazem tais feitiços que desaparecemos e os assassinos nunca são descobertos. Também extraem um líquido, a que chamam ouro negro, e é com ele que movem as máquinas dos Dólares, e da tribo de Ka Ubu. Também extraem muitos diamantes. Somos alguns milhões e morremos de fome… infindavelmente condenados às galés infortunadas. Os do Ka Ubu estão sempre em festas, e tem umas máquinas que se chamam rádios, e estendem-nos a tentação dos convites para as maratonas deles. Nesses dias bebemos muito e comida nicles. O nosso povo nesses dias usa o passatempo da bebedeira. Os únicos que lutam ao nosso lado, que nos apoiam muito são os Ecléticos. Eles têm uma rádio, mas é quase clandestina. Apoiam os nossos ideais de justiça e igualdade para todos. São uma verdadeira rádio de Kalunga. Espalham o embrião revolucionário da evangelização, a fraternidade, o amor, e noticiam… clamam, proferem sempre a verdade. As atrocidades dos Dólares e de Ka Ubu são oportunamente denunciadas, mas não deixam que o sinal da rádio vá muito longe. Quando os Ecléticos tentam longinquar o sinal e passar o direito à informação para todos, acusam-nos de malfeitoria, prendem-nos, ameaçam-nos, e se necessário libertam-nos para o universo paralelo da morte. Também contratam muitos estrangeiros aventureiros do piorio… malfeitores para nos perseguirem, nos explorarem… nem as nossas cubatas tradicionais a que eles chamam casebres escapam. Ka Ubu desinteressa-se das nossas vidas. Sobrevivemos mergulhando na prostituição. Ka Ubu aprecia muito a minha beleza, consegui-lhe fugir do harém mas a qualquer momento receio ser recapturada… ele quer que eu seja sua esposa, mas não aceito, não gosto dele… ninguém lhe gosta!

Fuenteovejuna, depois de ouvir tudo o que a bela Kufundisa disse, guardou um profundo silêncio, depois nublou-se e desanuviou:
- Minha beleza espectacular…
- Ah! Muito obrigada…
- … Kufundisa, apoiamos-te a restabelecer a paz, harmonia, justiça, para que não haja mais fome neste reino.
- E como o farás?
Fuenteovejuna não se sentia bem. A fofinha perturbava-lhe abria-lhe a alma. Claro que tinha outras intenções. Depois da aventura, se terminasse a contento comeria, sugaria todo o corpo, a beleza da Kufundisa. Decidiu-se:
- Vamos parlamentar com os Ecléticos, para que espalhem a sua rádio por todo o reino, isso é o mais importante… e quanto às armas que utilizam… tens alguma ideia?
- Sim! Falarei com o papá Akakakula, (dar o primeiro alimento a uma criança) era o nosso rei… continua muito bondoso, o nosso povo gosta muito dele. Foi destronado devido às ambições de Ka Ubu e dos seus amigos Dólares.
- Kufundisa, temos que espiar as instalações dos Dólares e Ka Ubu. Alguns homens vão contigo, depois idealizaremos um plano de ataque.
- Sim! Guardarei eterna gratidão por tudo o que fazes pela nossa liberdade, pelo nosso povo… mas por favor não te exponhas demasiado!
Olharam-se durante um profundo momento no universo dos seus olhos. Sentiram o feitiço inevitável que atrai as duas raças, as duas cores maravilhosas. O efeito do feitiço foi rápido, abraçaram-se, beijaram-se num ímpeto de quedas de Kalandula, avassalador de desejos perdidos, a aguardar o futuro prometido, ferido na angústia de tantas esperas.

Mais tarde, Kufundisa confundindo-se com a selva, reuniu-se com seu pai Akakakula, e o chefe dos Ecléticos, Mutongi (lutador). Akakakula apresentou a Fuenteovejuna algumas armas usadas pelos guardas de Ka Ubu e dos Dólares. Entretanto, os espiões enviados por Fuenteovejuna também se lhes reuniram e deram o ponto da situação.
Depois de Kufundisa conseguir instruir devidamente o manejo das armas, e de Mutongi prometer apoio na sua rádio com palavras em código aos resistentes, assentou-se que os alvos primordiais seriam o líquido, chamado de ouro negro. Sem este líquido, Ka Ubu e os Dólares chorariam amargurados.

Efectuaram-se vários ataques com sucesso. Ka Ubu e os Dólares preocuparam-se, porque viam as imensas riquezas fugir-lhes como areia ao vento. Ka Ubu convocou de imediato um dos muitos vice-reis e demandou-lhe:
- Não sabes quem está por detrás disto?
- Não, meu rei, não sei!
- Que morbidez…
Ka Ubu tinha que demonstrar a sua zanga, insatisfação, e o melhor para um rei é ver a cólera no seu rosto, gritar, e gritou:
- …seu mórbido, só pode ser essa maldita da Kufundisa, e do seu pai, esse oposicionista Akakakula.
- Sem dúvidas meu rei! O Mutongi dos Ecléticos está a passar uma mensagem na rádio dele da Kufundisa… ela diz que há muita corrupção no reino, e que vai tomar o poder com a ajuda de estrangeiros.
- Estrangeiros!? Quem, os Dólares!?
- Não meu rei, não são Dólares, são outros câmbios.
- Outros!?.. Quem!?.. Confisca-me a Kufundisa e o maldito pai dela. Vai-te e torna-te com ela… maldita azarada!

Com o auxílio dos Dólares facilitou-se imenso o chefe dos guardas de Ka Ubu capturar a fofinha, tenrinha Kufundisa. Já na presença da tirania, ressoa-se o fadário:
- Já nada me alumia… por causa de vocês donzelas caiem reinos, impérios… agora no meu reino nasceu uma revolucionária. Tu e o teu Toussaint l’Ouverture! Dar-te-ei uma bolinação que jamais esquecerás.
- Ai é! E que bolinação é essa?
- Kufundisa, não me omitas, sabes que te desejo, que tenho todas as mulheres que quero. És a eleita, a privilegiada, a princesa do meu harém! Neste reino tudo e todas as mulheres me pertencem, e tu não és excepção!
- Não!!! Como disse um antepassado: até que as leoas tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça continuarão glorificando o caçador. Somos corpos à espera no teu matadouro!
- Guardas, tirem-me daqui este tsé-tsé! Prisão com ela! Que o chicote a acaricie!

Na prisão, as encantadoras costas de Kufundisa ardem com o fogo das chicotadas. O sangue da injustiça escorre-lhe porque sempre existirão muitos oceanos injustos e quase nenhuns riachos justos. Mas Kufundisa era muito sacana porque nem lamento, gemido, pedido de misericórdia osculou.
Entretanto, Fuenteovejuna e os seus amigos tomam conhecimento da prisão de Kufundisa. A revolta alastra-se, alcança o auge. Os Ecléticos com a ajuda dos populares estendiam o sinal da rádio a todo o reino, e denunciavam que Ka Ubu e os seus amigos Dólares se aprestavam à rendição. A situação desfavorecia o chefe dos Dólares que tentou negociar com os revoltosos, mas em vão. Ka Ubu, sentindo-se só raspa-se para lugar de incertezas, para o exílio habitual de um reino amigo. Um grupo de pressão chefiado por Fuenteovejuna assola a prisão e liberta Kufundisa. Os dois agora amantes aproveitam-se da situação, saltam-se, abraçam-se, beijam-se interminavelmente. Kufundisa está de rastos.
- Meu amor conseguiu! Oh! Como te amo!
- Também eu… sem a tua coragem nada disto seria possível!

Repôs-se Akakakula no trono. Mutongi rei dos Ecléticos viu a sua rádio definitivamente entronizada. Cânticos, louvores e batucadas a Kalunga foram proclamados, entoados, ritualizados. Uma época de trevas terminara, e uma informação para os sem voz recomeçara. A educação, o progresso do reino democratizaram-se. Akakakula proclamou o novo reino com o nome Azériua. (são felizes).

Fuenteovejuna foi-se, era um aventureiro, deixou Kufundisa com um filho. Foi para as Américas rastreando Francisco Pizarro, Fernando Cortês, e o elixir da longa vida de Ponce de León… onde houver eldorados, misteriosas cidades do ouro, lá estarão e nunca de lá sairão.
Não tardou que aportassem a Azériua as naus com os missionários da evangelização, da espada da delapidação. Aventureiros e pistoleiros sucediam-se na busca incansável da pergunta: «onde está o ouro?» e os nativos respondiam: «aqui não, mas lá muito, muito longe tem» a África Negra é, será o destino dos eternos aventureiros.

Ainda hoje na densidade das selvas do Golfo da Guiné, alguns mais-velhos quentes das fogueiras nas noites frias, contam às crianças a lenda do povo de Azériua.
Civilizar é destruir com o petróleo das minorias as maiorias. Só nos traz tristezas, misérias, fomes.
Gil Gonçalves

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (10)



ANTÓNIO SETAS
Quando os makota resolveram matar Kinguri em Mbola na Kasaxe, Kulaxingo fingiu dar-lhes apoio, mas para satisfazer o secreto pedido que Imbe ya Malemba lhe fizera, que não queria que Kinguri morresse de fome, todas as noites ele ia depositar porções de carne das suas caçadas junto de um pequeno buraco da paliçada e acessível ao prisioneiro. Como era de crença geral entre os Tumundongo que os homens sobrevivem apenas 5 dias sem comida, ao sexto dia os makota ficaram muito intrigados quando descobriram que Kinguri ainda estava vivo, e desconfiaram de que além o poderia ter assistido. Os makota nomearam um kota da linhagem de Kandama ka Hite, Kambwuizu, para montar a guarda fora da paliçada e acabaram por descobrir que o fornecedor de alimentos era Kulaxingo e que Imbe ya Malemba era sua cúmplice. Os makota viraram-se contra eles, sobretudo Kangengo, censurando-os asperamente pelos seus esforços de ajudar Kinguri. Quando Kinguri ouviu por acaso esta discussão, que ocorria precisamente junto à palissada, do lado de fora, só então compreendeu que os seus makota o tinham aprisionado e atraiçoado, e lançou uma terrível maldição, que mais tarde matou Kangengo, Mgongo wa Imbe e Kalanda ka Imbe.


Variantes:

1- O encorajamento de Imbe ya Malemba à ajuda prestada por Kulaxindo ao kinguri simboliza a oposição da sua linhagem (Kandama e Kanduma ka Kikongwa) ao plano de assassinato, que foi de facto urdido pelos titulares da outra linhagem, de Kandama ka Hite, de que fazia parte Kambwizu, o kota que apanhou Kulaxindo a deixar comida para o kinguri. Havia portanto duas facções no grupo.
2- Kinguri nomeou Kulaxingo seu sucessor antes de morrer, conseguindo, através do buraco da palissada, colocar no seu braço o bracelete símbolo da autoridade real(o lenge ou lukano).
3- O lukano, milagrosamente, voou do braço de Kinguri no momento em que ele sucumbia e foi enrolar-se no braço de Kuxalindo. Vários makota tentaram retirar o lukano, mas nenhum deles conseguiu.
4- Mal Kinguri morreu, vários pretendentes precipitaram-se sobre o lukano e tentaram pô-lo ao braço, pelo que imediatamente sucumbiram. Mas, quando Kulaxingo pegou nele, e noutras insígnias reais, sobreviveu e foi imediatamente proclamado legítimo herdeiro de Kinguri.
5- Os conspiradores (da linhagem ka Hite), num primeiro tempo conquistaram o poder, mas passado algum tempo perderam-no a favor da linhagem rival de Mbondo wa Imbe e Kalanda ka Imbe, provavelmente ajudado por Kulaxindo e os seus Cokwe/Lwena. Aparentemente, Kulaxindo assumiu uma posição vunga subordinada, tornando-se nessa altura o kasanje (cujos deveres incluíam a condução das relações com os estrangeiros) de Mbondo wa Imbe ou de Kalanda ka Imbe, estreitamente associado aos detentores do poder, mas excluído de todo acesso à autoridade real. Kulaxindo era pois um candidato óbvio para ser apoiado pelos Portugueses para substituir os makota por um candidato mais dócil.
Outras versões, que tiveram origem num período mais tardio, quando os procedimentos políticos em Kasanje requeriam que os makota elegessem os sucessores de Kuxalingo para a posição de kinguri, descrevem-no como vencedor dos relutantes makota, sublinham a legitimidade da sua autoridade na medida em que foi o escolhido, contra vontade, pelos makota.


Logo a seguir à morte de Kinguri, e depois de Kangengo, Mbongo wa Imbe e Kalanda ka Imbe terem tentado usar o lukano e falharam, os restantes makota reconheceram a sua incapacidade de controlar os poderes do kinguri e imploraram Kulaxingo que assumisse o cargo, para os salvar todos da morte. Mas este ripostou, «Eu não sou da Lunda: as misanga (missangas) merecem o pescoço, não os pés». Este provérbio sabu (Tumundongo) representava Kulaxingo como os pés, a parte mais baixa e humilde do povo. Os makota eram o pescoço do bando de Mbangala, portanto a parte mais estreitamente associada com a cabeça, ou seja, o kinguri. O que significa que, segundo o provérbio, a liderança devia ser dos makota e não de Kulaxingo. Porém, segundo o mesmo, os makota insistiram com Kulaxingo e este acabou por aceder aos seus pedidos, fazendo um juramento, «Se eu fizer mal, então que morra também». E, no momento deste juramento, o nzumbi (espírito) deixou o cadáver de Kinguri e entrou no corpo de Kulaxingo. O episódio reflecte e justifica os procedimentos eleitorais em uso em Kasanje, muito mais tarde.
(Esta versão é, basicamente, a explicação da origem do nome Kulaxingo. Xingo significa pescoço em kimbundu e Kula é comer; o nome comemora a derrota dos makota a favor de Kulaxingo)
Seja qual for a versão, os makota de facto opuseram-se a Kulaxingo porque estavam convencidos que seriam capazes de, sozinhos, abolir inteiramente a sua posição. Ademais, embora os dois títulos pudessem vir do mesmo remoto grupo matrilinear - Lucaze na Mwazaza -, Kinguri era Lunda, Kulaxingo não, o seu título vinha de origens diferentes (mas não especificadas), e ele não tinha qualquer direito de tomar para si o lukano de Kinguri.
Kagengo, Mbondo wa Imbe e Kandala ka Imbe sucederam-se uns aos outros, cada um deles ia morrendo vítima da maldição de Kinguri, e os makota compreenderam que não podiam resistir ao herdeiro designado por Kinguri. Foi em desespero de causa que transferiram o seu apoio para Kulaxingo.


Análise:

1) Os detentores de títulos não Lunda, que se tinham juntado ao bando do kinguri em terras Cokwe e do Libolo, e nunca tinham controlado a mais importante posição do kilombo, pois faziam uso exclusivo dos mavunga, acabaram por se apropriar do principal título Lunda
2) Isto significa em termos metafóricos, também, que o kilombo se dissolvera na anarquia, devido às constantes lutas pelo poder.
3) Todos morreram de noite (alusão à maldição). Mas dos três, dois, Mbongo e Kalanda, pertencem à mesma linhagem Imbe, o que indica que o bando se tinha separado em dois grupos principais. Kangengo, o primeiro, pertencia à velha linhagem de Kandama ka Hite, que perdera o controlo em favor de Mbongo e Kalanda ka Imbe, pertencentes a Kandama ka Kikongwa e Kanduma ka Kikongwa.
4) Os detentores destes títulos ainda nessa altura em que encontraram os Portugueses (princípios do séc. XVII) tendiam a unir-se de acordo com as linhas dos suprimidos grupos de parentesco que tinham conhecido na Lunda.
5) A secreta ligação amorosa com Imbe ya Malemba (seguida de casamento), representa a aliança dos Cokwe/Lwena com um segmento, pelo menos, das linhagens Lunda.
6) As ofertas de carne feitas por Kulaxingo representam duas coisas: primeiro, a sua lealdade pessoal para com os makota ; segundo, as obrigações especiais que têm os yibinda para com os chefes políticos.
7) Kinguri morreu, apesar dos esforços de Kulaxingo (e Imba ya Malemba para o salvar, o que justifica e de certa forma legitima o direito de Kulaxingo a tomar a posição de Kinguri, como rei dos Imbangala.

De par com a morte do kinguri, as tradições referem-se também aos primeiros contactos dos Mbangala com os Europeus, contactos que ocorreram quando esta luta pela sucessão ainda dividia o bando.

Imagem: tudosobreangola.blogspot.com

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O HOMEM NOVO MADE IN ANGOLA


Gil Gonçalves
«Um dos sonhos mais belos que nos trouxe a brisa forte da independência foi o de ser possível construir um Homem Novo.
São precisos Homens Novos para construir o Homem Novo.»
In http://reflectir-angola.blogspot.com/2008/08/o-homem-novo.html

O prédio infestou-se para a festa. Normalizado pelo não esgotado e constante esgoto que escorre fezes e outras porcarias dos seus indecorosos moradores. Não parecem incomodarem-se nem cansarem-se convictos de que a companhia é a mais agradável possível. Imitam com o maior à vontade disponível a pocilga porcina. Serviram-se do aniversário de uma criança para festejarem o acontecimento. E engalanaram o prédio com cagalhões que dançavam, melhor, estremeciam pela mais horrível e barulhenta música. Nos prédios contíguos, paredes, janelas e vidros pareciam a todo o momento desfazerem-se. Era intencional porque a malvadez e a idiotice ganharam foros incomuns. Os convidados chegavam dignos de uma feira de vaidades. Antes, no lugar de lhes estenderem um tapete, ou algo assim, colocaram-lhes pedras para que caminhassem seguros sobre os cagalhões e o molho nauseabundo. E todos riam altissonantes… livres. O que importa é festejar seja lá o que for, onde e como se desentender. No prédio ao lado um engenheiro conseguiu rapinar um alicate para reparar a falta de uma fase. Puxou os condutores eléctricos, ligou-os e passados minutos começou a cheirar a queimado. Ouviram-se pequenas explosões e o prédio mergulhou na escuridão. Alheio, o prédio da festa aumentou terrivelmente o som das suas poderosas colunas sonoras. Já tresandava a álcool e os pequenos cérebros das criancinhas já com certeza não existiam, destruídos pelo infernal som. O mais importante é produzir bocós, fábricas destas não faltam, abundam intermináveis.
E disse o Senhor da Constituição. Haja luz… e Angola ficou às escuras. E o Senhor da Constituição criou os grandes tubarões para nos desfalcarem, espoliarem e devorarem. E viu o Senhor da Constituição que era bom. E os abençoou dizendo-lhes: frutificai na corrupção, multiplicai-vos e enchei os nossos cofres. In Génesis angolano.
Angola já não existe. Pode ser que Platão a descreva na sua Atlântida, e ela renasça em mais um mito, uma lenda. E os vindouros interrogarem-se: «Mas Angola existiu realmente ou foi uma invenção de algum sonhador? Se realmente existiu onde seria a sua localização? Nos Açores, nas Fossas Marianas ou algures no Golfo da Guiné? Pode ser que se encontrem vestígios dessa extraordinária civilização que desapareceu misteriosamente.» A História passada, actual e futura, é o palco onde os mesmos actores continuam a representarem muito mal os seus papéis. Oh! Faz como o nosso Chefe, não ligues! No fundo é um povo que parece gostar da farda do antigo colonizador e do fardo da nova Constituição. O povo angolano está maratonado. Os miseráveis atingiram tal desenvolvimento económico e social, que os únicos bens não espoliados, por isso naturalmente adquiridos, são os caixotes do lixo.
Ah! Este petróleo angolano das companhias petrolíferas e do nosso Politburo. Deste povo não é com certeza. Povo do petróleo desterrado, sem direitos e ainda espoliado. E onde há muito petróleo extraem-se muitos casebres. É um petróleo virtuoso, académico, porque de esfomeados. Enquanto os especuladores financeiros e imobiliários dominarem o mundo, nunca teremos paz. É extremamente importante cercar tais monstruosidades que na tamanha miséria e fome nos abrigam. Acabemos com eles o mais rápido possível… antes que eles acabem connosco.
E continuando sem oposição, os bárbaros apoderam-se do império da Constituição. Isaías Samakuva, é o Presidente da UNITA. É o Waterloo da oposição angolana. Que decepção a sua intervenção na Rádio Ecclesia no dia 10 de Fevereiro. Que pena não existirem cursos de formação para a nossa oposição. É por isso que José Eduardo dos Santos apresenta sempre aquele seu sorrido à Mona Lisa. É que nem uma manifestação, por mais insignificante que seja., conseguem fazer. Permanece a infantilidade, a desculpa da fragilidade oposicionista de que o regime não autoriza, que proíbe. Com proibição ou não, terá que haver manifestação. Onde é que já se viu oposição sem manifestação?
A verdadeira oposição ao regime continua no partido da energia eléctrica. E a ANGOP e Luanda irão pelos ares. No terraço contíguo onde funciona a ANGOP, são nove geradores potentes e mais tantos reservatórios de água que são suficientes para provocarem o desabamento da estrutura que os suportam. Basta um gerador incendiar, é a coisa mais fácil de acontecer em Luanda, até porque acontece todos os dias, e por reacção em cadeia lá vai a ANGOP, a Agência Angola Press pelos ares. E como em qualquer local há geradores e respectivo armazenamento de combustíveis, também pela reacção em cadeia lá vai Luanda pelos ares. Não acreditam? Então aguardem!
Luanda. A anarquia interminável da energia eléctrica. Mais um super apagão. 03Fev10 das 23.30 às 00.50 do dia 06Fev10. Com tantos prédios, torres, condomínios, estádios de futebol e outras inúmeras construções, os cabos eléctricos não suportam tal consumo. Mas, o mais importante é a anárquica instalação de aparelhos de ar condicionado potentes sem justificação e os incontáveis liga e desliga das empresas fornecedoras de energia eléctrica que destroem os cabos que transportam energia até às nossas habitações. E milhares de curiosos que se fazem passar por electricistas. Luanda não tem energia eléctrica. Está tudo destruído como bem compete. E não vale a pena falar qual será a energia eléctrica que alimentará o tal projecto do milhão de casas. E sem quadros tudo se entregará aos estrangeiros e fatalmente virá o regresso ao destino do colonialismo. Não vale a pena virem com conversas e as ilustrativas politiquices porque isto é irremediável. Não me digam que também para isto é necessário um plano director. Em saudação à nossa nova Constituição, o nosso querido Politburo saúda-nos mais uma vez com grande, colossal, extraordinário, revolucionário apagão marxista-leninista. Há sempre que reforçar, cerrar fileiras em torno do nosso querido Deus Líder para que tenhamos mais prémios destes, mais apagões. E continuaremos muito felizes na sua Graça. E Luanda desenvolve-se com garrafas de cerveja cheias de óleo alimentar, uma tampa com um furo, uma torcida improvisada. É esta a energia eléctrica desta futura nova Constituição: Reduzir Angola ao pó da escuridão. A besta marxista-leninista regressa em força. E sendo tão maldosos, acabarão na maldade que criaram. E submissa a oposição condescende. Pouco ou nada mais lhe resta. Está como a religião, é a oposição benfeitora do rebanho da escravidão. Como era de esperar, a actividade marxista-leninista ressurgiu em força… destrutiva como habitualmente nas sobras da energia eléctrica. E tal como num tremor de terra esperam-se muitas réplicas sem iluminação. É mais rentável investir em fábricas de cerveja e similares. Com a água de borla os lucros são fabulosos. Para quê investir na energia eléctrica! O petróleo é quanto baste. Em memória dos mártires da energia eléctrica e da água, desenvolvamos e reforcemos o marxismo-leninismo. Libertámo-nos do colonialismo e continuamos escravos do marxismo-leninismo. Os camaradas da EDEL, Empresa Distribuidora de Electricidade de Luanda, repararam, não se sabe quantas vezes, o cabo que se queimou, que está sempre a se queimar, então, como estes bantus são todos electricistas, um deles mexeu nos condutores eléctricos da escada do prédio e incendiou. Ainda se nota o cheiro característico do queimar deixado pela energia eléctrica. É a vigésima vez que este electricista bantu incendeia o prédio. Mas isto é geral, prática anormal em toda a Luanda. Os incêndios devidos a curtos-circuitos são constantes. Parece existir um prazer mórbido em destruir. Há sim um gozo pela destruição, porque depois são apanhados a rirem. E tudo numa boa. Estes bantus ainda não têm noção do que são leis de convívio social. Ainda seguem escrupulosamente os ensinamentos do maravilhoso, saudoso, Poder Popular. Angola só se vira para a especulação imobiliária. É o paraíso mundial de tudo o que é especulador. Fantástico o número de empresas de construção civil e de negociatas imobiliárias para meia dúzia de novos-ricos. É simplesmente impossível… é uma aberração incurável. Angola é o país do abandono de trabalho e de passaportes perdidos dos chineses. Como é monstruoso verificar isso diariamente nas páginas do Jornal de Angola. Até agora ainda ninguém veio a público explicar o motivo de tanto despedimento. Parece claro que só existe uma explicação: invasão dos lugares deixados à força pelos angolanos para os estrangeiros desempregados. Angola teima em não querer sair das trevas. Exceptuando a recolha do lixo que é exemplar, pelo menos no asfalto da capital, em Angola e em Luanda as únicas coisas que funcionam são a demolição de casebres e um Governo quase com cem membros. E os fiscais do Governo da Província de Luanda que espoliam selectivamente, por exemplo, são ávidos por óculos dos vendedores das ruas.
Para quê não confessar que Luanda vive no contínuo caos económico e social!
Em Janeiro de 2010, a actividade marxista-leninista no derrube da nossa energia eléctrica foi breve, porquê? É fácil de explicar: deveu-se às olimpíadas da laranja CAN 2010, para que os estrangeiros vissem as capacidades do nosso Politburo em construir estádios de futebol e organizar futebóis. A questão é que dar pontapés na bola qualquer um os dá, agora construir e organizar uma universidade, ler um livro… isso são coisas muito complicadas… de deitar dinheiro para o lixo. Com estádios de futebol, sem universidades e energia eléctrica, e com a nova Constituição, sem arborização e com o fumo dos carros e dos geradores, Luanda é uma cidade irrespirável, envenenada. Luanda é sem dúvida uma cidade do Inferno, onde a incompetência está sempre em primeiro lugar. Com esta receita que parece saída da feitiçaria, Luanda sobrevive reduzida no pó. O nosso insigne ministro da Indústria, Manuel Vicente, afirmou muito recentemente que vai diversificar a economia com a edificação de diversas fábricas nos também mais diversos sectores económicos. Como é que isto é possível sem energia eléctrica?! É sórdido ver bancos dependentes do funcionamento de geradores. Claro que o serviço prestado é mau e duvidoso porque regra geral não garantem os cinquenta ciclos exigidos pela corrente alterna.
É a impune lavagem de dinheiro do desenvolvimento económico que faz com que Angola mais pareça estar sem governo. E o nosso PIB sobe, está sempre a subir. Sem oposição, o dinheiro usurpado gasta-se em vão. É a prova elementar de que em Angola para alguns, sempre os mesmos, o dinheiro não lhes custa a ganhar. Sem oposição, é espoliar, é espoliar, sem fartar. Não, não é um país, é um palácio, um templo perdido.
Não sabe?! Mas o MPLA não sabe que está a reduzir Luanda e Angola a pó?!

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (9)



ANTÓNIO SETAS
Entretanto, os portugueses defrontavam-se com outras dificuldades de monta, ligadas essencialmente à falta de efectivos que pudessem por um lado satisfazer o aumento da demanda de escravos, sobretudo para o Brasil, e por outro combater a praga dos “cantrabandistas” por uma boa parte oriundos ou residentes de S. Tomé, que praticavam o tráfico sem pagar as devidas percentagens das receitas ao rei de Portugal, assim como um persistente Estado Kongo chamado Kasanze (ou Kasanje, do nome do seu governante Mbangala, que tinha em tempos, por volta de 1585, capturado 80 portugueses, dos quais matou 20 e devolveu os outros contra resgate – Birmingham), instalado no interior, mas perto de Luanda, o que obrigava a ir em busca de escravos muito mais para o interior. Bento Banha Cardoso, governador de Angola entre 1611 e 1615, repetidamente se queixou da falta de cavalos e de homens para reforçar as forças da costa e do interior, perigosamente fracas em ambas as frentes. E, como a coroa portuguesa não respondia aos seus pedidos, que remédio senão encontrar aliados entre os povos africanos. Ora tanto os talentos de guerreiro como a posição política dos Mbangala, sem falar das necessidades rituais que incluíam sacrifícios humanos, correspondiam às suas necessidades em quase todos os aspectos. Ademais, Cardoso viu que a utilização dos Mbangala como mercenários nas guerras do interior libertaria a magra guarnição portuguesa para as operações costeiras contra Kasanze e os traficantes ilegais de escravos.
Cerca de 1612, tornou-se efectiva uma aliança formal entre os Mbangala e os Portugueses, mas Cardoso, em vez de se atacar aos “traficantes insurrectos” da costa, ou minimizar os inconvenientes causados pela existência do Kasanze (Kasanje?), meteu-se pelo interior com a ajuda dos Mbangala e atacou os Estados africanos do interior., tal como o demonstram os vibrantes protestos do rei Álvaro II do Kongo, que se queixava de que os Mbangala (os “Jaga”, como todas as fontes se lhe referem) estavam a “comer” muitos dos seus súbditos, fazendo deles as primeiras vítimas registadas dessa nova combinação afro-europeia. Em 1615, os resultados dessa empreitada bélica obtiveram novos sucessos com a rendição de muitos sobas Tumundongo da margem esquerda (sul), do rio Bengo e, mais longe, a dos mais poderosos titulares que ocupavam ambas as margens do rio Kwanza: Kafuxi, detentor das minas de sal de Ndemba, na Kisama; o kasanje de Kakulu ka Hango, que vivia próximo da Muxima; Kambambe, que guardava o acesso às lendárias “Montanhas de Prata”, logo acima das quedas do Kwanza; e o próprio ngola a kiluange.
Foi com esta providencial ajuda dos Mbangala que os portugueses, já em perigo de serem escorraçados ou mesmo aniquilados em território africano, consolidaram as suas bases e mesmo se expandiram. Em contrapartida os Mbangala vieram, muito provavelmente, a resolver alguns problemas internos atinentes à amálgama de díspares instituições políticas que constituíam o kilombo dos makota Lunda no princípio do séc XVII (1610-1660), graças à “ajuda” - interesseira – dos portugueses, como veremos, fazendo o ponto da situação que se segue.

O “Estado” Mbangala
Embora sejam poucas as informações sobre a estrutura política dos Mbangala na 1ª década do sèc. XVII, vinga a hipótese de que só um rei, do tipo kulembe, detinha a única posição de poder, permanente e autónoma no seio do bando, enquanto todos os outros chefes detinham títulos de nomeação de tipo vunga. A estrutura formal do kilombo dividia os membros de cada bando de Mbangala em cerca de doze secções distintas (prática que vem das origens do bando), cada uma das quais sob a direcção do seu próprio “capitão”. Estes regimentos viviam e combatiam mais ou menos separadamente, e no acampamento guerreiro, único, havia doze entradas separadas como símbolo dessas distinções, cada uma delas para o seu grupo, pois, por fim, todos acolhiam ao mesmo kilombo para efeitos de defesa. Face à centralização quase total da autoridade dentro dos bandos Mbangala, a aliança com gente de fora tornava-se uma perspectiva atraente para os que fossem detentores de títulos permanentes que estivessem em posição subordinada.
Por essa altura, os “capitães”, provavelmente detentores de títulos vunga e apoiados pelos regimentos que comandavam, tinham substituído, como instituições básicas da estrutura social dos Mbangala, as linhagens com que o grupo original dos Lunda tinha começado, uma vez que essa estrutura não tinha lugar para os numerosos títulos perpétuos dos Lunda, tais como as posições kota ou o kulaxingo (que mais tarde, como se verá adiante, fundou o reino de Kasanje sob um título kinguri restaurado). Assim sendo, vários titulares Lunda do bando principal dos Mbangala tinham continuamente lutado pelo controlo da realeza que Kalanda ka Imbe detinha em 1601. Isto do lado dos componentes de origem Lunda. Por outro lado, os detentores de títulos não Lunda, que se tinham juntado ao bando do kinguri em terras Cokwe e do Libolo, e nunca tinham controlado a mais importante posição do kilombo, pois faziam uso exclusivo dos mavunga, devem ter reconhecido nos portugueses aliados potencialmente valiosos para acabar com a dominação Lunda entre os Mbangala. E estes, como veremos, vão “ajudar” esses titulares sacrificados pela centralização.

Kalamba ka Imbe detinha o poder do kilombo quando os portugueses se encontraram com os Mbangala, em 1601. Durante os 50 anos que precederam esse facto histórico, a posição tinha passado frequentemente de um kota Lunda para outro. Segundo a tradição, o kota Kangengo tinha inicialmente reclamado a liderança do kilombo, mas governou apenas 3 “dias” e depois morreu, alegadamente vítima da maldição que Kinguri lhe lançara antes da sua morte. Sucedeu-lhe Mbongo wa Imbe, que só governou durante 2 “dias”. O terceiro foi o actual, Kalamba ka Imbe, que por também ter desafiado a maldição de Kinguri veio a viver apenas 1 “dia”., antes de ter o mesmo destino que os seus predecessores.
(Isto significa em termos metafóricos que o kilombo se dissolvera na anarquia, devido às constantes lutas pelo poder. Todos morreram de noite (alusão à maldição). Mas dos três, dois, Mbongo e Kalanda, pertencem à mesma linhagem Imbe, o que indica que o bando se tinha separado em dois grupos principais. Kangengo, o primeiro, pertencia à velha linhagem de Kandama ka Hite, que perdera o controlo em favor de Mbongo e Kalanda ka Imbe, pertencentes a Kandama ka Kikongwa e Kanduma ka Kikongwa. Os detentores destes títulos ainda nessa altura tendiam a unir-se de acordo comas linhas dos suprimidos grupos de parentesco que tinham conhecido na Fundador outro lado, os detentores de títulos não Lunda, que se tinham juntado ao bando do kinguri em terras Cokwe e do Libolo, e nunca tinham controlado a mais importante posição do kilombo, pois faziam uso exclusivo dos mavunga, devem ter reconhecido nos portugueses aliados potencialmente valiosos para acabar com a dominação Lunda entre os Mbangala).
Os Portugueses rapidamente se aperceberam de tais dissensões e, mais depressa ainda lobrigaram as vantagens oferecidas pela presença de titulares sacrificados pela centralização. Algum tempo depois de Battel ter deixado os Mbangala, então ainda sob a liderança de Kalanda ka Imbe, um detentor do título kulaxingo(não Lunda)encabeçou uma rebelião da componente Cokwe/Lwena contra o prolongado e tumultuoso domínio dos titulares Lunda. O governador Cardoso aceitou apoiar o kulaxingo a troco deste pôr o grupo de Imbangala ao serviço dos seus desígnios militares. O kulaxingo tomou o poder com a ajuda dos Portugueses e entrou deliberadamente em luta contra os vassalos do Kongo e do ngola a kiluange. Os Portugueses tinham dessa maneira obtido um poderoso apoio nas suas guerras contra os Mbundu, e um aliado autóctone, agradecido e aparentemente dócil, no tráfico oficial de escravos, em vez de ser o que se considerava até aí: uma terrível ameaça para os alienígenas lusos.
Vejamos o que relatam as tradições orais sobre este período da história do kinguri:

Os makota viam desde há muito que o chefe Kinguri e as suas insaciáveis exigências de sacrifícios humanos ameaçavam a sobrevivência do seu povo. Por essa razão, ao chegar a Mona Kimbundu (depois de terem atravessado o rio Kasai) agarraram um certo número de estrangeiros, incluindo Kulaxindo, para oferecer a Kinguri no lugar dos seus próprios seguidores. Porém, Kulaxingo, pela sua submissa postura, conseguiu ganhar os favores dos makota, principalmente Mwa Cangombe, Ndonga e Kangengo, os líderes de uma secção do bando, a de Kandama ka Hite, designada para escolher as vítimas que deviam morrer sob os punhais de Kinguri. Ainda antes de o grupo deixar Mona Kimbundu, Kulaxingo tinha obtido o estatuto de kibinda, mestre caçador, e quando regressava de uma caça bem sucedida dava sempre carne aos makota a fim de assegurar a sua permanente boa vontade. Além disso mantinha uma secreta ligação amorosa com Imbe ya Malemba, a mãe de Mbondo e Kalanda ka Imbe, para ganhar a confiança do grupo Kandama e Kaduma ka Kikongwa, das linhagens Lunda.

Imagem: outrostemas.blogspot.com