quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O REINO PERDIDO


Gil Gonçalves
Governar é muito fácil… basta fingir que existe ensino para ter um povo analfabeto e facilmente o submeter à escravidão.

Desempoeirava os arquivos na lisbonense Torre do Tombo quando encontrei um manuscrito surpreendente.
A corte do Rei D. João V de Portugal, que reinou de 1706 a 1750, vivia luxuária com as naus que chegavam e descarregavam ouro e diamantes brasileiros. Era o rei dos deuses. Tangou 120 milhões de cruzados no Convento de Mafra. O dízimo à igreja de Roma ultrapassou 200 milhões. O Aqueduto das Águas Livres?.. o povo pagou. Um rei que influencia reis actuais porque o copiam, suplantam-no. Insatisfeito, D. João V queria mais riquezas, o que prova que quanto mais se têm mais se quer, e ordenou os preparos de três embarcações com destino à Africa Ocidental, na deriva da rapina, no saque de mais ouro e diamantes.

Acabou-se a aparelhagem das naus que almiranteadas por D. Fuenteovejuna, desacostaram numa manhã sedativa. Usaram a prática de apenas os capitães conhecerem o destino da viagem. Chegaram às ilhas de Cabo Verde, fizeram a Volta ao Largo, depois ficaram à mercê dos bons ventos rumando para sul. Muito navegaram e bordejaram até ao encontro de uma grande tempestade que dir-se-ia os aguardava. As vagas não vagavam as naus que descombinadas perdiam o desejo, o ser de boa paz. Chuva e ventania intensificavam-se o que forçou as naus a largarem-se as mãos, e saírem da rota como países mal governados. Dias aziagos sucederam-se com esforços para não se afastarem, para continuarem como namorados, mas em vão, a nave capitã perdeu-lhes os vultos. O almirante do mar oceano Fuenteovejuna, não se surpreendeu quando se mareou que andava à deriva. Como os homens que fazem guerra, o mar também se cansa e amaina. Seguiu-se a dança do universo visível e um estafado marinheiro soltou algo parecido com um grito:
- Terra à vista!
- Louvado seja Deus Nosso Senhor! - Exclamou o capitão que acrescentou:
- Vamos consertar a devastação da tempestade, renovar os viveres e saber onde acostámos.

Exaustos, deitaram-se na areia fina do imaginário paraíso. A vegetação adensava-se e o sol rompia com a sua fornalha, o que levou Fuenteovejuna a profetizar:
- Chegámos ao país do sol!

Saboreava-se o amável convite da Natureza para bater sorna, mas o deleite não foi demorado porque das sombras da vegetação surgiram alguns seres humanos escuros, achocolatados. Um destaca-se, ergue a mão em sinal de cumprimento e Fuenteovejuna pergunta-lhe:
- Onde estamos, quem são?
- Watula! (já chegámos) saudaram os nativos na sua língua.
Fuenteovejuna, à James Cook na Austrália, sabiamente esclarece os seus homens:
- Meus senhores… parece que estamos no reino dos Watulas!
Viu a inutilidade da sua conversa porque os nativos não o entendiam. Esboçou-se, esforçou-se e marimbou-se. De repente surge uma jovem, uma natividade de extraordinária beleza que faz uma afirmação desconcertante:
- Eu entendo a tua prosa.

Fuenteovejuna olhou guloso para a jovem natividade, como alguém que não comia nada há muito tempo. Admirou-se, admirou-a, despiu-a mentalmente, aparentava vinte e cinco anos. Cor de chocolate claro, lembrava uma estátua de deusa perdida, à muito procurada pelo argonauta, uma lenda das maravilhosas ilhas encantadas que nenhum escultor ainda esculpira. Como um sonho nunca viajado, encontrado, nunca revelado. Os seios nus, erectos e mamilos de endoidecer qualquer hominídio, sugeriam que acabavam de aportar no paraíso perdido. A cobrir-lhe o sexo já publicitava, estampava a maravilhosa invenção da tanga. Fuenteovejuna esqueceu-se de Deus porque sentiu um arrepio de paixão terrena passar-lhe pelo centro do corpo. Rouquejou:
- O meu nome é Fuenteovejuna, como é que sabes a minha língua?
- Chamo-me Kufundisa, (fazer justiça) e a tua prosa aprendi nos computadores dos Dólares.
- Como se chama este reino e quem são os Dólares?
- Este reino, agora chama-se Ajimbila, (ficam perdidos) e os Dólares governam-nos, oprimem-nos... os Dólares chegaram aqui nalgumas naves especiais com pessoas brancas, a que o nosso povo estupidamente chama deuses e que conluiados com o rei absoluto, Ka Ubu (o eterno) nos zeraram as almas. Os nossos filhos precocemente sabem que a vitória da morte é certa. Não temos comida, não temos nada…somos zeros … para sobrevivermos bazámos para a selva. Todas as riquezas do nosso reino são para os Dólares, para Ka Ubu e a sua tribo.
- E vocês não se revoltam?
- Não dá, porque Ka Ubu e os Dólares têm muitos guardas, um exército poderoso e muitas armas sofisticadas. Quando nos apanham, e como somos da oposição, fazem tais feitiços que desaparecemos e os assassinos nunca são descobertos. Também extraem um líquido, a que chamam ouro negro, e é com ele que movem as máquinas dos Dólares, e da tribo de Ka Ubu. Também extraem muitos diamantes. Somos alguns milhões e morremos de fome… infindavelmente condenados às galés infortunadas. Os do Ka Ubu estão sempre em festas, e tem umas máquinas que se chamam rádios, e estendem-nos a tentação dos convites para as maratonas deles. Nesses dias bebemos muito e comida nicles. O nosso povo nesses dias usa o passatempo da bebedeira. Os únicos que lutam ao nosso lado, que nos apoiam muito são os Ecléticos. Eles têm uma rádio, mas é quase clandestina. Apoiam os nossos ideais de justiça e igualdade para todos. São uma verdadeira rádio de Kalunga. Espalham o embrião revolucionário da evangelização, a fraternidade, o amor, e noticiam… clamam, proferem sempre a verdade. As atrocidades dos Dólares e de Ka Ubu são oportunamente denunciadas, mas não deixam que o sinal da rádio vá muito longe. Quando os Ecléticos tentam longinquar o sinal e passar o direito à informação para todos, acusam-nos de malfeitoria, prendem-nos, ameaçam-nos, e se necessário libertam-nos para o universo paralelo da morte. Também contratam muitos estrangeiros aventureiros do piorio… malfeitores para nos perseguirem, nos explorarem… nem as nossas cubatas tradicionais a que eles chamam casebres escapam. Ka Ubu desinteressa-se das nossas vidas. Sobrevivemos mergulhando na prostituição. Ka Ubu aprecia muito a minha beleza, consegui-lhe fugir do harém mas a qualquer momento receio ser recapturada… ele quer que eu seja sua esposa, mas não aceito, não gosto dele… ninguém lhe gosta!

Fuenteovejuna, depois de ouvir tudo o que a bela Kufundisa disse, guardou um profundo silêncio, depois nublou-se e desanuviou:
- Minha beleza espectacular…
- Ah! Muito obrigada…
- … Kufundisa, apoiamos-te a restabelecer a paz, harmonia, justiça, para que não haja mais fome neste reino.
- E como o farás?
Fuenteovejuna não se sentia bem. A fofinha perturbava-lhe abria-lhe a alma. Claro que tinha outras intenções. Depois da aventura, se terminasse a contento comeria, sugaria todo o corpo, a beleza da Kufundisa. Decidiu-se:
- Vamos parlamentar com os Ecléticos, para que espalhem a sua rádio por todo o reino, isso é o mais importante… e quanto às armas que utilizam… tens alguma ideia?
- Sim! Falarei com o papá Akakakula, (dar o primeiro alimento a uma criança) era o nosso rei… continua muito bondoso, o nosso povo gosta muito dele. Foi destronado devido às ambições de Ka Ubu e dos seus amigos Dólares.
- Kufundisa, temos que espiar as instalações dos Dólares e Ka Ubu. Alguns homens vão contigo, depois idealizaremos um plano de ataque.
- Sim! Guardarei eterna gratidão por tudo o que fazes pela nossa liberdade, pelo nosso povo… mas por favor não te exponhas demasiado!
Olharam-se durante um profundo momento no universo dos seus olhos. Sentiram o feitiço inevitável que atrai as duas raças, as duas cores maravilhosas. O efeito do feitiço foi rápido, abraçaram-se, beijaram-se num ímpeto de quedas de Kalandula, avassalador de desejos perdidos, a aguardar o futuro prometido, ferido na angústia de tantas esperas.

Mais tarde, Kufundisa confundindo-se com a selva, reuniu-se com seu pai Akakakula, e o chefe dos Ecléticos, Mutongi (lutador). Akakakula apresentou a Fuenteovejuna algumas armas usadas pelos guardas de Ka Ubu e dos Dólares. Entretanto, os espiões enviados por Fuenteovejuna também se lhes reuniram e deram o ponto da situação.
Depois de Kufundisa conseguir instruir devidamente o manejo das armas, e de Mutongi prometer apoio na sua rádio com palavras em código aos resistentes, assentou-se que os alvos primordiais seriam o líquido, chamado de ouro negro. Sem este líquido, Ka Ubu e os Dólares chorariam amargurados.

Efectuaram-se vários ataques com sucesso. Ka Ubu e os Dólares preocuparam-se, porque viam as imensas riquezas fugir-lhes como areia ao vento. Ka Ubu convocou de imediato um dos muitos vice-reis e demandou-lhe:
- Não sabes quem está por detrás disto?
- Não, meu rei, não sei!
- Que morbidez…
Ka Ubu tinha que demonstrar a sua zanga, insatisfação, e o melhor para um rei é ver a cólera no seu rosto, gritar, e gritou:
- …seu mórbido, só pode ser essa maldita da Kufundisa, e do seu pai, esse oposicionista Akakakula.
- Sem dúvidas meu rei! O Mutongi dos Ecléticos está a passar uma mensagem na rádio dele da Kufundisa… ela diz que há muita corrupção no reino, e que vai tomar o poder com a ajuda de estrangeiros.
- Estrangeiros!? Quem, os Dólares!?
- Não meu rei, não são Dólares, são outros câmbios.
- Outros!?.. Quem!?.. Confisca-me a Kufundisa e o maldito pai dela. Vai-te e torna-te com ela… maldita azarada!

Com o auxílio dos Dólares facilitou-se imenso o chefe dos guardas de Ka Ubu capturar a fofinha, tenrinha Kufundisa. Já na presença da tirania, ressoa-se o fadário:
- Já nada me alumia… por causa de vocês donzelas caiem reinos, impérios… agora no meu reino nasceu uma revolucionária. Tu e o teu Toussaint l’Ouverture! Dar-te-ei uma bolinação que jamais esquecerás.
- Ai é! E que bolinação é essa?
- Kufundisa, não me omitas, sabes que te desejo, que tenho todas as mulheres que quero. És a eleita, a privilegiada, a princesa do meu harém! Neste reino tudo e todas as mulheres me pertencem, e tu não és excepção!
- Não!!! Como disse um antepassado: até que as leoas tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça continuarão glorificando o caçador. Somos corpos à espera no teu matadouro!
- Guardas, tirem-me daqui este tsé-tsé! Prisão com ela! Que o chicote a acaricie!

Na prisão, as encantadoras costas de Kufundisa ardem com o fogo das chicotadas. O sangue da injustiça escorre-lhe porque sempre existirão muitos oceanos injustos e quase nenhuns riachos justos. Mas Kufundisa era muito sacana porque nem lamento, gemido, pedido de misericórdia osculou.
Entretanto, Fuenteovejuna e os seus amigos tomam conhecimento da prisão de Kufundisa. A revolta alastra-se, alcança o auge. Os Ecléticos com a ajuda dos populares estendiam o sinal da rádio a todo o reino, e denunciavam que Ka Ubu e os seus amigos Dólares se aprestavam à rendição. A situação desfavorecia o chefe dos Dólares que tentou negociar com os revoltosos, mas em vão. Ka Ubu, sentindo-se só raspa-se para lugar de incertezas, para o exílio habitual de um reino amigo. Um grupo de pressão chefiado por Fuenteovejuna assola a prisão e liberta Kufundisa. Os dois agora amantes aproveitam-se da situação, saltam-se, abraçam-se, beijam-se interminavelmente. Kufundisa está de rastos.
- Meu amor conseguiu! Oh! Como te amo!
- Também eu… sem a tua coragem nada disto seria possível!

Repôs-se Akakakula no trono. Mutongi rei dos Ecléticos viu a sua rádio definitivamente entronizada. Cânticos, louvores e batucadas a Kalunga foram proclamados, entoados, ritualizados. Uma época de trevas terminara, e uma informação para os sem voz recomeçara. A educação, o progresso do reino democratizaram-se. Akakakula proclamou o novo reino com o nome Azériua. (são felizes).

Fuenteovejuna foi-se, era um aventureiro, deixou Kufundisa com um filho. Foi para as Américas rastreando Francisco Pizarro, Fernando Cortês, e o elixir da longa vida de Ponce de León… onde houver eldorados, misteriosas cidades do ouro, lá estarão e nunca de lá sairão.
Não tardou que aportassem a Azériua as naus com os missionários da evangelização, da espada da delapidação. Aventureiros e pistoleiros sucediam-se na busca incansável da pergunta: «onde está o ouro?» e os nativos respondiam: «aqui não, mas lá muito, muito longe tem» a África Negra é, será o destino dos eternos aventureiros.

Ainda hoje na densidade das selvas do Golfo da Guiné, alguns mais-velhos quentes das fogueiras nas noites frias, contam às crianças a lenda do povo de Azériua.
Civilizar é destruir com o petróleo das minorias as maiorias. Só nos traz tristezas, misérias, fomes.
Gil Gonçalves

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (10)



ANTÓNIO SETAS
Quando os makota resolveram matar Kinguri em Mbola na Kasaxe, Kulaxingo fingiu dar-lhes apoio, mas para satisfazer o secreto pedido que Imbe ya Malemba lhe fizera, que não queria que Kinguri morresse de fome, todas as noites ele ia depositar porções de carne das suas caçadas junto de um pequeno buraco da paliçada e acessível ao prisioneiro. Como era de crença geral entre os Tumundongo que os homens sobrevivem apenas 5 dias sem comida, ao sexto dia os makota ficaram muito intrigados quando descobriram que Kinguri ainda estava vivo, e desconfiaram de que além o poderia ter assistido. Os makota nomearam um kota da linhagem de Kandama ka Hite, Kambwuizu, para montar a guarda fora da paliçada e acabaram por descobrir que o fornecedor de alimentos era Kulaxingo e que Imbe ya Malemba era sua cúmplice. Os makota viraram-se contra eles, sobretudo Kangengo, censurando-os asperamente pelos seus esforços de ajudar Kinguri. Quando Kinguri ouviu por acaso esta discussão, que ocorria precisamente junto à palissada, do lado de fora, só então compreendeu que os seus makota o tinham aprisionado e atraiçoado, e lançou uma terrível maldição, que mais tarde matou Kangengo, Mgongo wa Imbe e Kalanda ka Imbe.


Variantes:

1- O encorajamento de Imbe ya Malemba à ajuda prestada por Kulaxindo ao kinguri simboliza a oposição da sua linhagem (Kandama e Kanduma ka Kikongwa) ao plano de assassinato, que foi de facto urdido pelos titulares da outra linhagem, de Kandama ka Hite, de que fazia parte Kambwizu, o kota que apanhou Kulaxindo a deixar comida para o kinguri. Havia portanto duas facções no grupo.
2- Kinguri nomeou Kulaxingo seu sucessor antes de morrer, conseguindo, através do buraco da palissada, colocar no seu braço o bracelete símbolo da autoridade real(o lenge ou lukano).
3- O lukano, milagrosamente, voou do braço de Kinguri no momento em que ele sucumbia e foi enrolar-se no braço de Kuxalindo. Vários makota tentaram retirar o lukano, mas nenhum deles conseguiu.
4- Mal Kinguri morreu, vários pretendentes precipitaram-se sobre o lukano e tentaram pô-lo ao braço, pelo que imediatamente sucumbiram. Mas, quando Kulaxingo pegou nele, e noutras insígnias reais, sobreviveu e foi imediatamente proclamado legítimo herdeiro de Kinguri.
5- Os conspiradores (da linhagem ka Hite), num primeiro tempo conquistaram o poder, mas passado algum tempo perderam-no a favor da linhagem rival de Mbondo wa Imbe e Kalanda ka Imbe, provavelmente ajudado por Kulaxindo e os seus Cokwe/Lwena. Aparentemente, Kulaxindo assumiu uma posição vunga subordinada, tornando-se nessa altura o kasanje (cujos deveres incluíam a condução das relações com os estrangeiros) de Mbondo wa Imbe ou de Kalanda ka Imbe, estreitamente associado aos detentores do poder, mas excluído de todo acesso à autoridade real. Kulaxindo era pois um candidato óbvio para ser apoiado pelos Portugueses para substituir os makota por um candidato mais dócil.
Outras versões, que tiveram origem num período mais tardio, quando os procedimentos políticos em Kasanje requeriam que os makota elegessem os sucessores de Kuxalingo para a posição de kinguri, descrevem-no como vencedor dos relutantes makota, sublinham a legitimidade da sua autoridade na medida em que foi o escolhido, contra vontade, pelos makota.


Logo a seguir à morte de Kinguri, e depois de Kangengo, Mbongo wa Imbe e Kalanda ka Imbe terem tentado usar o lukano e falharam, os restantes makota reconheceram a sua incapacidade de controlar os poderes do kinguri e imploraram Kulaxingo que assumisse o cargo, para os salvar todos da morte. Mas este ripostou, «Eu não sou da Lunda: as misanga (missangas) merecem o pescoço, não os pés». Este provérbio sabu (Tumundongo) representava Kulaxingo como os pés, a parte mais baixa e humilde do povo. Os makota eram o pescoço do bando de Mbangala, portanto a parte mais estreitamente associada com a cabeça, ou seja, o kinguri. O que significa que, segundo o provérbio, a liderança devia ser dos makota e não de Kulaxingo. Porém, segundo o mesmo, os makota insistiram com Kulaxingo e este acabou por aceder aos seus pedidos, fazendo um juramento, «Se eu fizer mal, então que morra também». E, no momento deste juramento, o nzumbi (espírito) deixou o cadáver de Kinguri e entrou no corpo de Kulaxingo. O episódio reflecte e justifica os procedimentos eleitorais em uso em Kasanje, muito mais tarde.
(Esta versão é, basicamente, a explicação da origem do nome Kulaxingo. Xingo significa pescoço em kimbundu e Kula é comer; o nome comemora a derrota dos makota a favor de Kulaxingo)
Seja qual for a versão, os makota de facto opuseram-se a Kulaxingo porque estavam convencidos que seriam capazes de, sozinhos, abolir inteiramente a sua posição. Ademais, embora os dois títulos pudessem vir do mesmo remoto grupo matrilinear - Lucaze na Mwazaza -, Kinguri era Lunda, Kulaxingo não, o seu título vinha de origens diferentes (mas não especificadas), e ele não tinha qualquer direito de tomar para si o lukano de Kinguri.
Kagengo, Mbondo wa Imbe e Kandala ka Imbe sucederam-se uns aos outros, cada um deles ia morrendo vítima da maldição de Kinguri, e os makota compreenderam que não podiam resistir ao herdeiro designado por Kinguri. Foi em desespero de causa que transferiram o seu apoio para Kulaxingo.


Análise:

1) Os detentores de títulos não Lunda, que se tinham juntado ao bando do kinguri em terras Cokwe e do Libolo, e nunca tinham controlado a mais importante posição do kilombo, pois faziam uso exclusivo dos mavunga, acabaram por se apropriar do principal título Lunda
2) Isto significa em termos metafóricos, também, que o kilombo se dissolvera na anarquia, devido às constantes lutas pelo poder.
3) Todos morreram de noite (alusão à maldição). Mas dos três, dois, Mbongo e Kalanda, pertencem à mesma linhagem Imbe, o que indica que o bando se tinha separado em dois grupos principais. Kangengo, o primeiro, pertencia à velha linhagem de Kandama ka Hite, que perdera o controlo em favor de Mbongo e Kalanda ka Imbe, pertencentes a Kandama ka Kikongwa e Kanduma ka Kikongwa.
4) Os detentores destes títulos ainda nessa altura em que encontraram os Portugueses (princípios do séc. XVII) tendiam a unir-se de acordo com as linhas dos suprimidos grupos de parentesco que tinham conhecido na Lunda.
5) A secreta ligação amorosa com Imbe ya Malemba (seguida de casamento), representa a aliança dos Cokwe/Lwena com um segmento, pelo menos, das linhagens Lunda.
6) As ofertas de carne feitas por Kulaxingo representam duas coisas: primeiro, a sua lealdade pessoal para com os makota ; segundo, as obrigações especiais que têm os yibinda para com os chefes políticos.
7) Kinguri morreu, apesar dos esforços de Kulaxingo (e Imba ya Malemba para o salvar, o que justifica e de certa forma legitima o direito de Kulaxingo a tomar a posição de Kinguri, como rei dos Imbangala.

De par com a morte do kinguri, as tradições referem-se também aos primeiros contactos dos Mbangala com os Europeus, contactos que ocorreram quando esta luta pela sucessão ainda dividia o bando.

Imagem: tudosobreangola.blogspot.com

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O HOMEM NOVO MADE IN ANGOLA


Gil Gonçalves
«Um dos sonhos mais belos que nos trouxe a brisa forte da independência foi o de ser possível construir um Homem Novo.
São precisos Homens Novos para construir o Homem Novo.»
In http://reflectir-angola.blogspot.com/2008/08/o-homem-novo.html

O prédio infestou-se para a festa. Normalizado pelo não esgotado e constante esgoto que escorre fezes e outras porcarias dos seus indecorosos moradores. Não parecem incomodarem-se nem cansarem-se convictos de que a companhia é a mais agradável possível. Imitam com o maior à vontade disponível a pocilga porcina. Serviram-se do aniversário de uma criança para festejarem o acontecimento. E engalanaram o prédio com cagalhões que dançavam, melhor, estremeciam pela mais horrível e barulhenta música. Nos prédios contíguos, paredes, janelas e vidros pareciam a todo o momento desfazerem-se. Era intencional porque a malvadez e a idiotice ganharam foros incomuns. Os convidados chegavam dignos de uma feira de vaidades. Antes, no lugar de lhes estenderem um tapete, ou algo assim, colocaram-lhes pedras para que caminhassem seguros sobre os cagalhões e o molho nauseabundo. E todos riam altissonantes… livres. O que importa é festejar seja lá o que for, onde e como se desentender. No prédio ao lado um engenheiro conseguiu rapinar um alicate para reparar a falta de uma fase. Puxou os condutores eléctricos, ligou-os e passados minutos começou a cheirar a queimado. Ouviram-se pequenas explosões e o prédio mergulhou na escuridão. Alheio, o prédio da festa aumentou terrivelmente o som das suas poderosas colunas sonoras. Já tresandava a álcool e os pequenos cérebros das criancinhas já com certeza não existiam, destruídos pelo infernal som. O mais importante é produzir bocós, fábricas destas não faltam, abundam intermináveis.
E disse o Senhor da Constituição. Haja luz… e Angola ficou às escuras. E o Senhor da Constituição criou os grandes tubarões para nos desfalcarem, espoliarem e devorarem. E viu o Senhor da Constituição que era bom. E os abençoou dizendo-lhes: frutificai na corrupção, multiplicai-vos e enchei os nossos cofres. In Génesis angolano.
Angola já não existe. Pode ser que Platão a descreva na sua Atlântida, e ela renasça em mais um mito, uma lenda. E os vindouros interrogarem-se: «Mas Angola existiu realmente ou foi uma invenção de algum sonhador? Se realmente existiu onde seria a sua localização? Nos Açores, nas Fossas Marianas ou algures no Golfo da Guiné? Pode ser que se encontrem vestígios dessa extraordinária civilização que desapareceu misteriosamente.» A História passada, actual e futura, é o palco onde os mesmos actores continuam a representarem muito mal os seus papéis. Oh! Faz como o nosso Chefe, não ligues! No fundo é um povo que parece gostar da farda do antigo colonizador e do fardo da nova Constituição. O povo angolano está maratonado. Os miseráveis atingiram tal desenvolvimento económico e social, que os únicos bens não espoliados, por isso naturalmente adquiridos, são os caixotes do lixo.
Ah! Este petróleo angolano das companhias petrolíferas e do nosso Politburo. Deste povo não é com certeza. Povo do petróleo desterrado, sem direitos e ainda espoliado. E onde há muito petróleo extraem-se muitos casebres. É um petróleo virtuoso, académico, porque de esfomeados. Enquanto os especuladores financeiros e imobiliários dominarem o mundo, nunca teremos paz. É extremamente importante cercar tais monstruosidades que na tamanha miséria e fome nos abrigam. Acabemos com eles o mais rápido possível… antes que eles acabem connosco.
E continuando sem oposição, os bárbaros apoderam-se do império da Constituição. Isaías Samakuva, é o Presidente da UNITA. É o Waterloo da oposição angolana. Que decepção a sua intervenção na Rádio Ecclesia no dia 10 de Fevereiro. Que pena não existirem cursos de formação para a nossa oposição. É por isso que José Eduardo dos Santos apresenta sempre aquele seu sorrido à Mona Lisa. É que nem uma manifestação, por mais insignificante que seja., conseguem fazer. Permanece a infantilidade, a desculpa da fragilidade oposicionista de que o regime não autoriza, que proíbe. Com proibição ou não, terá que haver manifestação. Onde é que já se viu oposição sem manifestação?
A verdadeira oposição ao regime continua no partido da energia eléctrica. E a ANGOP e Luanda irão pelos ares. No terraço contíguo onde funciona a ANGOP, são nove geradores potentes e mais tantos reservatórios de água que são suficientes para provocarem o desabamento da estrutura que os suportam. Basta um gerador incendiar, é a coisa mais fácil de acontecer em Luanda, até porque acontece todos os dias, e por reacção em cadeia lá vai a ANGOP, a Agência Angola Press pelos ares. E como em qualquer local há geradores e respectivo armazenamento de combustíveis, também pela reacção em cadeia lá vai Luanda pelos ares. Não acreditam? Então aguardem!
Luanda. A anarquia interminável da energia eléctrica. Mais um super apagão. 03Fev10 das 23.30 às 00.50 do dia 06Fev10. Com tantos prédios, torres, condomínios, estádios de futebol e outras inúmeras construções, os cabos eléctricos não suportam tal consumo. Mas, o mais importante é a anárquica instalação de aparelhos de ar condicionado potentes sem justificação e os incontáveis liga e desliga das empresas fornecedoras de energia eléctrica que destroem os cabos que transportam energia até às nossas habitações. E milhares de curiosos que se fazem passar por electricistas. Luanda não tem energia eléctrica. Está tudo destruído como bem compete. E não vale a pena falar qual será a energia eléctrica que alimentará o tal projecto do milhão de casas. E sem quadros tudo se entregará aos estrangeiros e fatalmente virá o regresso ao destino do colonialismo. Não vale a pena virem com conversas e as ilustrativas politiquices porque isto é irremediável. Não me digam que também para isto é necessário um plano director. Em saudação à nossa nova Constituição, o nosso querido Politburo saúda-nos mais uma vez com grande, colossal, extraordinário, revolucionário apagão marxista-leninista. Há sempre que reforçar, cerrar fileiras em torno do nosso querido Deus Líder para que tenhamos mais prémios destes, mais apagões. E continuaremos muito felizes na sua Graça. E Luanda desenvolve-se com garrafas de cerveja cheias de óleo alimentar, uma tampa com um furo, uma torcida improvisada. É esta a energia eléctrica desta futura nova Constituição: Reduzir Angola ao pó da escuridão. A besta marxista-leninista regressa em força. E sendo tão maldosos, acabarão na maldade que criaram. E submissa a oposição condescende. Pouco ou nada mais lhe resta. Está como a religião, é a oposição benfeitora do rebanho da escravidão. Como era de esperar, a actividade marxista-leninista ressurgiu em força… destrutiva como habitualmente nas sobras da energia eléctrica. E tal como num tremor de terra esperam-se muitas réplicas sem iluminação. É mais rentável investir em fábricas de cerveja e similares. Com a água de borla os lucros são fabulosos. Para quê investir na energia eléctrica! O petróleo é quanto baste. Em memória dos mártires da energia eléctrica e da água, desenvolvamos e reforcemos o marxismo-leninismo. Libertámo-nos do colonialismo e continuamos escravos do marxismo-leninismo. Os camaradas da EDEL, Empresa Distribuidora de Electricidade de Luanda, repararam, não se sabe quantas vezes, o cabo que se queimou, que está sempre a se queimar, então, como estes bantus são todos electricistas, um deles mexeu nos condutores eléctricos da escada do prédio e incendiou. Ainda se nota o cheiro característico do queimar deixado pela energia eléctrica. É a vigésima vez que este electricista bantu incendeia o prédio. Mas isto é geral, prática anormal em toda a Luanda. Os incêndios devidos a curtos-circuitos são constantes. Parece existir um prazer mórbido em destruir. Há sim um gozo pela destruição, porque depois são apanhados a rirem. E tudo numa boa. Estes bantus ainda não têm noção do que são leis de convívio social. Ainda seguem escrupulosamente os ensinamentos do maravilhoso, saudoso, Poder Popular. Angola só se vira para a especulação imobiliária. É o paraíso mundial de tudo o que é especulador. Fantástico o número de empresas de construção civil e de negociatas imobiliárias para meia dúzia de novos-ricos. É simplesmente impossível… é uma aberração incurável. Angola é o país do abandono de trabalho e de passaportes perdidos dos chineses. Como é monstruoso verificar isso diariamente nas páginas do Jornal de Angola. Até agora ainda ninguém veio a público explicar o motivo de tanto despedimento. Parece claro que só existe uma explicação: invasão dos lugares deixados à força pelos angolanos para os estrangeiros desempregados. Angola teima em não querer sair das trevas. Exceptuando a recolha do lixo que é exemplar, pelo menos no asfalto da capital, em Angola e em Luanda as únicas coisas que funcionam são a demolição de casebres e um Governo quase com cem membros. E os fiscais do Governo da Província de Luanda que espoliam selectivamente, por exemplo, são ávidos por óculos dos vendedores das ruas.
Para quê não confessar que Luanda vive no contínuo caos económico e social!
Em Janeiro de 2010, a actividade marxista-leninista no derrube da nossa energia eléctrica foi breve, porquê? É fácil de explicar: deveu-se às olimpíadas da laranja CAN 2010, para que os estrangeiros vissem as capacidades do nosso Politburo em construir estádios de futebol e organizar futebóis. A questão é que dar pontapés na bola qualquer um os dá, agora construir e organizar uma universidade, ler um livro… isso são coisas muito complicadas… de deitar dinheiro para o lixo. Com estádios de futebol, sem universidades e energia eléctrica, e com a nova Constituição, sem arborização e com o fumo dos carros e dos geradores, Luanda é uma cidade irrespirável, envenenada. Luanda é sem dúvida uma cidade do Inferno, onde a incompetência está sempre em primeiro lugar. Com esta receita que parece saída da feitiçaria, Luanda sobrevive reduzida no pó. O nosso insigne ministro da Indústria, Manuel Vicente, afirmou muito recentemente que vai diversificar a economia com a edificação de diversas fábricas nos também mais diversos sectores económicos. Como é que isto é possível sem energia eléctrica?! É sórdido ver bancos dependentes do funcionamento de geradores. Claro que o serviço prestado é mau e duvidoso porque regra geral não garantem os cinquenta ciclos exigidos pela corrente alterna.
É a impune lavagem de dinheiro do desenvolvimento económico que faz com que Angola mais pareça estar sem governo. E o nosso PIB sobe, está sempre a subir. Sem oposição, o dinheiro usurpado gasta-se em vão. É a prova elementar de que em Angola para alguns, sempre os mesmos, o dinheiro não lhes custa a ganhar. Sem oposição, é espoliar, é espoliar, sem fartar. Não, não é um país, é um palácio, um templo perdido.
Não sabe?! Mas o MPLA não sabe que está a reduzir Luanda e Angola a pó?!

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (9)



ANTÓNIO SETAS
Entretanto, os portugueses defrontavam-se com outras dificuldades de monta, ligadas essencialmente à falta de efectivos que pudessem por um lado satisfazer o aumento da demanda de escravos, sobretudo para o Brasil, e por outro combater a praga dos “cantrabandistas” por uma boa parte oriundos ou residentes de S. Tomé, que praticavam o tráfico sem pagar as devidas percentagens das receitas ao rei de Portugal, assim como um persistente Estado Kongo chamado Kasanze (ou Kasanje, do nome do seu governante Mbangala, que tinha em tempos, por volta de 1585, capturado 80 portugueses, dos quais matou 20 e devolveu os outros contra resgate – Birmingham), instalado no interior, mas perto de Luanda, o que obrigava a ir em busca de escravos muito mais para o interior. Bento Banha Cardoso, governador de Angola entre 1611 e 1615, repetidamente se queixou da falta de cavalos e de homens para reforçar as forças da costa e do interior, perigosamente fracas em ambas as frentes. E, como a coroa portuguesa não respondia aos seus pedidos, que remédio senão encontrar aliados entre os povos africanos. Ora tanto os talentos de guerreiro como a posição política dos Mbangala, sem falar das necessidades rituais que incluíam sacrifícios humanos, correspondiam às suas necessidades em quase todos os aspectos. Ademais, Cardoso viu que a utilização dos Mbangala como mercenários nas guerras do interior libertaria a magra guarnição portuguesa para as operações costeiras contra Kasanze e os traficantes ilegais de escravos.
Cerca de 1612, tornou-se efectiva uma aliança formal entre os Mbangala e os Portugueses, mas Cardoso, em vez de se atacar aos “traficantes insurrectos” da costa, ou minimizar os inconvenientes causados pela existência do Kasanze (Kasanje?), meteu-se pelo interior com a ajuda dos Mbangala e atacou os Estados africanos do interior., tal como o demonstram os vibrantes protestos do rei Álvaro II do Kongo, que se queixava de que os Mbangala (os “Jaga”, como todas as fontes se lhe referem) estavam a “comer” muitos dos seus súbditos, fazendo deles as primeiras vítimas registadas dessa nova combinação afro-europeia. Em 1615, os resultados dessa empreitada bélica obtiveram novos sucessos com a rendição de muitos sobas Tumundongo da margem esquerda (sul), do rio Bengo e, mais longe, a dos mais poderosos titulares que ocupavam ambas as margens do rio Kwanza: Kafuxi, detentor das minas de sal de Ndemba, na Kisama; o kasanje de Kakulu ka Hango, que vivia próximo da Muxima; Kambambe, que guardava o acesso às lendárias “Montanhas de Prata”, logo acima das quedas do Kwanza; e o próprio ngola a kiluange.
Foi com esta providencial ajuda dos Mbangala que os portugueses, já em perigo de serem escorraçados ou mesmo aniquilados em território africano, consolidaram as suas bases e mesmo se expandiram. Em contrapartida os Mbangala vieram, muito provavelmente, a resolver alguns problemas internos atinentes à amálgama de díspares instituições políticas que constituíam o kilombo dos makota Lunda no princípio do séc XVII (1610-1660), graças à “ajuda” - interesseira – dos portugueses, como veremos, fazendo o ponto da situação que se segue.

O “Estado” Mbangala
Embora sejam poucas as informações sobre a estrutura política dos Mbangala na 1ª década do sèc. XVII, vinga a hipótese de que só um rei, do tipo kulembe, detinha a única posição de poder, permanente e autónoma no seio do bando, enquanto todos os outros chefes detinham títulos de nomeação de tipo vunga. A estrutura formal do kilombo dividia os membros de cada bando de Mbangala em cerca de doze secções distintas (prática que vem das origens do bando), cada uma das quais sob a direcção do seu próprio “capitão”. Estes regimentos viviam e combatiam mais ou menos separadamente, e no acampamento guerreiro, único, havia doze entradas separadas como símbolo dessas distinções, cada uma delas para o seu grupo, pois, por fim, todos acolhiam ao mesmo kilombo para efeitos de defesa. Face à centralização quase total da autoridade dentro dos bandos Mbangala, a aliança com gente de fora tornava-se uma perspectiva atraente para os que fossem detentores de títulos permanentes que estivessem em posição subordinada.
Por essa altura, os “capitães”, provavelmente detentores de títulos vunga e apoiados pelos regimentos que comandavam, tinham substituído, como instituições básicas da estrutura social dos Mbangala, as linhagens com que o grupo original dos Lunda tinha começado, uma vez que essa estrutura não tinha lugar para os numerosos títulos perpétuos dos Lunda, tais como as posições kota ou o kulaxingo (que mais tarde, como se verá adiante, fundou o reino de Kasanje sob um título kinguri restaurado). Assim sendo, vários titulares Lunda do bando principal dos Mbangala tinham continuamente lutado pelo controlo da realeza que Kalanda ka Imbe detinha em 1601. Isto do lado dos componentes de origem Lunda. Por outro lado, os detentores de títulos não Lunda, que se tinham juntado ao bando do kinguri em terras Cokwe e do Libolo, e nunca tinham controlado a mais importante posição do kilombo, pois faziam uso exclusivo dos mavunga, devem ter reconhecido nos portugueses aliados potencialmente valiosos para acabar com a dominação Lunda entre os Mbangala. E estes, como veremos, vão “ajudar” esses titulares sacrificados pela centralização.

Kalamba ka Imbe detinha o poder do kilombo quando os portugueses se encontraram com os Mbangala, em 1601. Durante os 50 anos que precederam esse facto histórico, a posição tinha passado frequentemente de um kota Lunda para outro. Segundo a tradição, o kota Kangengo tinha inicialmente reclamado a liderança do kilombo, mas governou apenas 3 “dias” e depois morreu, alegadamente vítima da maldição que Kinguri lhe lançara antes da sua morte. Sucedeu-lhe Mbongo wa Imbe, que só governou durante 2 “dias”. O terceiro foi o actual, Kalamba ka Imbe, que por também ter desafiado a maldição de Kinguri veio a viver apenas 1 “dia”., antes de ter o mesmo destino que os seus predecessores.
(Isto significa em termos metafóricos que o kilombo se dissolvera na anarquia, devido às constantes lutas pelo poder. Todos morreram de noite (alusão à maldição). Mas dos três, dois, Mbongo e Kalanda, pertencem à mesma linhagem Imbe, o que indica que o bando se tinha separado em dois grupos principais. Kangengo, o primeiro, pertencia à velha linhagem de Kandama ka Hite, que perdera o controlo em favor de Mbongo e Kalanda ka Imbe, pertencentes a Kandama ka Kikongwa e Kanduma ka Kikongwa. Os detentores destes títulos ainda nessa altura tendiam a unir-se de acordo comas linhas dos suprimidos grupos de parentesco que tinham conhecido na Fundador outro lado, os detentores de títulos não Lunda, que se tinham juntado ao bando do kinguri em terras Cokwe e do Libolo, e nunca tinham controlado a mais importante posição do kilombo, pois faziam uso exclusivo dos mavunga, devem ter reconhecido nos portugueses aliados potencialmente valiosos para acabar com a dominação Lunda entre os Mbangala).
Os Portugueses rapidamente se aperceberam de tais dissensões e, mais depressa ainda lobrigaram as vantagens oferecidas pela presença de titulares sacrificados pela centralização. Algum tempo depois de Battel ter deixado os Mbangala, então ainda sob a liderança de Kalanda ka Imbe, um detentor do título kulaxingo(não Lunda)encabeçou uma rebelião da componente Cokwe/Lwena contra o prolongado e tumultuoso domínio dos titulares Lunda. O governador Cardoso aceitou apoiar o kulaxingo a troco deste pôr o grupo de Imbangala ao serviço dos seus desígnios militares. O kulaxingo tomou o poder com a ajuda dos Portugueses e entrou deliberadamente em luta contra os vassalos do Kongo e do ngola a kiluange. Os Portugueses tinham dessa maneira obtido um poderoso apoio nas suas guerras contra os Mbundu, e um aliado autóctone, agradecido e aparentemente dócil, no tráfico oficial de escravos, em vez de ser o que se considerava até aí: uma terrível ameaça para os alienígenas lusos.
Vejamos o que relatam as tradições orais sobre este período da história do kinguri:

Os makota viam desde há muito que o chefe Kinguri e as suas insaciáveis exigências de sacrifícios humanos ameaçavam a sobrevivência do seu povo. Por essa razão, ao chegar a Mona Kimbundu (depois de terem atravessado o rio Kasai) agarraram um certo número de estrangeiros, incluindo Kulaxindo, para oferecer a Kinguri no lugar dos seus próprios seguidores. Porém, Kulaxingo, pela sua submissa postura, conseguiu ganhar os favores dos makota, principalmente Mwa Cangombe, Ndonga e Kangengo, os líderes de uma secção do bando, a de Kandama ka Hite, designada para escolher as vítimas que deviam morrer sob os punhais de Kinguri. Ainda antes de o grupo deixar Mona Kimbundu, Kulaxingo tinha obtido o estatuto de kibinda, mestre caçador, e quando regressava de uma caça bem sucedida dava sempre carne aos makota a fim de assegurar a sua permanente boa vontade. Além disso mantinha uma secreta ligação amorosa com Imbe ya Malemba, a mãe de Mbondo e Kalanda ka Imbe, para ganhar a confiança do grupo Kandama e Kaduma ka Kikongwa, das linhagens Lunda.

Imagem: outrostemas.blogspot.com

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

VAMOS DEMOLIR ANGOLA


Gil Gonçalves
Já não há ninguém que lhes resista, já não há ninguém que lhes diga não.
Enfatizam-me amiúde que os negros são afamados porque não gostam de trabalhar, que são muito preguiçosos. Este mistério desta cabala é demasiado fácil de explicar: Não lhes dão trabalho e ademais espoliam-lhes os empregos, como é que querem, como é que eles hão-de gostar de trabalhar?!
E por isso mesmo, a revolução sempre presente, ensina-nos que reconstruir é demolir.
E o líder em plena campanha eleitoral aborda um eleitor: «Vai com toda a certeza votar em mim, não é?!» e o eleitor aterrorizado: «Sim, senhor presidente, mas por favor não mande mais demolir a minha casa!»
De uma coisa adquiri a certeza: este tempo está tão irreal, perdido num sonho, latente pesadelo onde me sinto como um viajante perdido no tempo. Custa-me acreditar na ferocidade do ser humano, é sem dúvida um facto incontestável o seu instinto tão destruidor. O destino do humano é a selvajaria.
Não desisti, jamais desistirei dos meus sonhos, eles fortalecem a minha alma. São a esperança da minha perseverança. Lutar é sonhar, é amar. Sem sonhos o amor perder-se-ia. Nascemos, vivemos na ânsia permanente de o encontrar, e encontrando-o não o perder. Não, não é e tudo o vento levou mas, e tudo o vento deixou.
Apesar destas noites cada vez mais intensamente turbulentas, ainda consigo escutar os seus silêncios.
Se tivéssemos coragem de expor todos os nossos sentimentos íntimos, decerto aconteceria uma revolução social. Os costumes nunca mais seriam os mesmos.
Vamos Demolir Angola
Sob o lema, Vamos Demolir Angola, o nosso glorioso Politburo com a desfaçatez que o caracteriza, encetou uma grandiosa campanha de requalificação de Angola em geral, e de deita abaixo tudo onde hajam seres humanos em particular. A viverem em pardieiros ou não, a que majestosamente as correntes mais conservadoras da eliminação física e moral ultrajaram com a introdução nos espoliados do petróleo do acervo… casebres.
Ora, os detentores dos lucros do petróleo habitam em luxuosos palácios, os que não têm acesso nem a um mililitro de petróleo vivem em casebres, mesmo que a sua habitação seja valorizada neste inferno da imolação imobiliária. Este ainda é o povo que não se pode aproximar destes novos senhores feudais. Este povo tem apenas o direito reservado de viver em campos de extermínio, as estrelas das noites que os contemplam têm muitas histórias de terror para narrarem, se entretanto o conseguirem porque da maneira que as coisas andam, nem imprensa teremos, também a vão demolir. O Politburo já conseguiu abolir a família angolana que simplesmente deixou de existir, demoliram-na.
Os bancos logo acorreram em massa esporeados pela angolanidade do lucro fácil, não trabalhoso, obrigados a sustentarem no seu capital social a inutilidade dos eternos habituais bajuladores e o apoio incondicional da Igreja do Deus local. Pudera, sem ela que seria de Angola?! E os bajuladores são os únicos que sabem governar, mais ninguém está habilitado para isso. Porque são detentores dos mais insignes diplomas passados pelas mais famosas universidades marxistas-leninistas.
O que dá trabalho, como a agricultura, que se dane. Bastam alguns pós de conversa: que daqui a alguns anos teremos os nossos campos inchados de produtos, e as nossas populações finalmente libertas da fome. E que o fim da miséria do nosso povo é uma batalha antecipadamente ganha, aliás como todas as outras, pelo nosso famosíssimo Politburo.
De imediato os bancos lançaram-se ao assalto da reconstrução nacional sob as ordens da divina chefia, com o lema: PARTIR, É DEMOLIR!
Antes era o inimigo principal que destruía as habitações com bombas, como se eles fossem os únicos que destruíram Angola. Agora em paz (?) na imprensa escrita, falada e muda, (censurada) somos informados a todo o momento que o bairro tal vai ser demolido, que o mercado tal vai ser demolido – é incrível notar que estes demolidores não constroem mercados municipais, é tudo para arrasar – que as casas da rua tal vão ser demolidas, que o campo de futebol vai dar mais um shoping, que a seguir todos os bairros também serão demolidos… só se houve falar de demolições. Parece que ainda ninguém notou que eles querem demolir integralmente a cidade (?) de Luanda para investirem na especulação imobiliária e a população desaparecer, varrerem-na do mapa?
E as crianças aprenderam uma brincadeira nova: o vamos brincar de demolir Angola! Também lhe podemos chamar muito adequadamente, República dos Tês, a saber: T1,T2.T3, e T4
A delinquência em Luanda tal como a corrupção, para acabar, antes que Angola se volatilize definitivamente, com esse ninho de cobras, há que começar por cima. Mas não, começa-se sempre por baixo, sempre ao contrário. Está quase, falta apenas um pouco para a sua total demolição. As chuvas actuais dão o mote, não há construções feitas a correr, logo atabalhoadas que as suportem. A questão é: como será o desenlace final de milhões de espoliados que aguardam o Juízo Final do ajuste de contas com os seus captores?
Até a Bíblia já profetizava que o Politburo tomaria o poder e com o apoio dos nossos bispos governaria eternamente Angola. E o Senhor abençoou, inspirou e conduziu Angola para um estado de direito, onde todos são iguais e gozam de todos os direitos conforme as leis divinas. E veio uma época de paz, de harmonia social e desenvolvimento sustentado sob o patrocínio do Altíssimo. E todos viveram felizes, muito longe do neocolonialismo e da escravidão. A água e a energia eléctrica jorravam como cascatas perenes. As famílias oravam incessantemente ao seu Senhor, e quando os seus pedidos não eram atendidos, devia-se a que não eram bem queridos aos olhos do Senhor. E lá vinha um sacerdote muito experimentado que elucidava que o pedido ao Altíssimo não fora convincente. E que deviam continuar as orações muito fervorosamente até dilacerarem os joelhos, porque a boa reza deve ser feita com o crente ajoelhado.
E devido ao trabalho incansável de Deus – Ele é como a nossa polícia, nunca dorme – o Vaticano foi industriado para beneficiar a paradisíaca Angola com dezoito santuários, porque o povo era tão temente, e de igual modo tão supersticioso – devido ao trabalho abnegado dos sacerdotes – e o petróleo ainda dava, jorrava e enchia barris até fartar vilanagem. E Angola e o seu povo foram irremediavelmente tomados, assaltados pelo seu Deus. E em cada canto e esquinas habituais somavam-se inumeráveis igrejas servidas por imensos séquitos sacerdotais. E o Senhor rejubilava porque o dízimo a prelatura sustentava. O povo bem estupidificado oferendava-lhes as suas poupanças e a sua pobreza de espírito. E o céu enriquecia-se com o maná da idiotice fácil. E o fausto sacerdotal enchia-se de tesouros terrenos, e os camelos abasteciam-no regularmente. Em nome de Deus tudo é possível. Mas a feitiçaria espreitava e os bancos também. E criminosos e aventureiros famosos pelas suas actividades acorreram em massa beneficiados pelo eterno poder civil assumido e tragicamente instituído. Proporcionava-se o enriquecimento fácil, lucros fraudulentos, logo astronómicos vindos do clero petrolífero. E logo, logo se iniciou a espoliação de tudo o que era autóctone, e nos paços episcopais as cartas pastorais obrigavam os fiéis a rezarem com força inaudita porque Deus estava muito zangado, e daí as calamidades que assolavam a bela, rica, apetecível, avidamente cobiçada Angola. E os púlpitos azafamados não tinham bolsos a medir perante tantas oferendas aos dignos representantes eleitos por Deus na terra de Angola. Tão analfabeta, de povo tão incauto, tão dócil, tão fácil de dominar e subjugar.
Os mosquitos são como as igrejas, quando entram já não saem. E tudo ficou, restou partidarizado, incrivelmente arruinado. E quando a aristocracia se recusa peremptoriamente sanar a miséria dos plebeus, a justiça popular triunfa.
E o Vaticano, cumprindo um sonho profético, enviou um cardeal tarefeiro a Angola na missão solene de mais uma graça – desgraça – divina: a santa prospecção do petróleo angolano. As vaticanas finanças do banco Vaticano urgem por remodelação. E conseguir uns barris de petróleo bem abastecidos made in Angola, o dinheiro novamente brilhará de intenso fulgor, de brilho matizado, barbaramente dourado, estigmatizado. E às novenas e procissões não bastarão os andores
E a luta de libertação libertava mais alguns poços de petróleo, e a energia eléctrica, a água e tudo o mais, oprimia-se, espoliava-se. E a arma secreta de qualquer governo para dominar os seus povos é o futebol.
O que é necessário percorrer para que as ditaduras não me persigam? É que cresci e vivi debaixo de uma, e ao longo da vida elas sucedem-me como tempestades violentas, daquelas aterradoras devidamente acompanhadas de perigosas faíscas da morte.
Já repararam com toda a certeza que Luanda – é Angola pois claro – destruíram-lhe todos os mercados construídos pela população. Bom, Luanda não tem mercados municipais porque os terrenos são utilizados para a próspera especulação imobiliária.
E o terror reinstalou-se sob o disfarce dos deuses dos bancos brancos
E selvaticamente gritaram-nos possessos: «vocês vão morrer intoxicados!» Como a injustiça funciona em força e os demónios voam sanguinolentos, resta-nos aguardar que a justiça prometida, tal como a liberdade nesta terra, retorne audaz porque assim como estamos a justiça popular não deve tardar, não vai faltar. Os crimes da actividade bancária inspiram a onda de assaltos da apátrida juventude espoliada, órfã de país.
Bancos Khmer chegados a Luanda e logo desatinados na louca correria ao ouro petrolífero. Catapultados de poder, espoliam terrenos nas traseiras dos prédios que são legalmente condomínios, têm dono. Instalam a anarquia de potentes geradores que nos assassinam com gases tóxicos e o barulho 24 sobre 24 horas. De portas e janelas fechadas porque o cancro espreita, são três crimes sempre na teimosia de que tudo em Luanda nasce impune. Poluição sonora, veneno ambiental e espoliação de terrenos. É assim que chumbado ao poder factura o Banco Millennium Angola, na rua Rei Katyavala 109, Luanda. Mas afinal ainda não descobriram quem são os selvagens?! Tudo parece a postos para tumultuar porque não dá mais para os aturar. A indemnização será muito choruda, as perdas e danos demasiam.
O reinventar da luta clandestina
As obras clandestinas continuam sob o olhar cúmplice da Nova Constituição e de El-rei. Este esconderijo clandestino afronta-nos porque a flagrante ilegalidade destas obras revela que só a destruição dos casebres é legal. Porque não praticam a demolição nas obras ilegais da nomenclatura?! Isto acontece já há pelo menos três anos nas traseiras da Pomobel, junto ao Largo Zé Pirão, em Luanda. Actualmente, brasileiros contrataram escravos chineses para gáudio da nomenclatura. São três prédios que estão a destruir. Até nas traseiras deles já funciona um estaleiro. Sempre em nome do livre-arbítrio, isto é, sem direito a indemnizações porque o estado de facto e de jure… rasgaram-no.
Convém salientar que para acabar com a criminalidade e a corrupção, é imperioso, fundamental, começarmos por cima. Enquanto tal não acontecer, os criminosos e os crimes jamais terminarão. Não haverá polícia que chegue. O elenco policial combate criminosos e não miseráveis ou esfomeados.
O futuro perdeu-se, foi-se, deixou de existir. Está tudo muito sombrio, incerto, sem saber o que vai acontecer. Nada de bom não será com certeza. Há a intenção obscura de destruir Angola?! Então que decretem a sua destruição.
Ó bendita República Popular das Demolições!

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (8)





ANTÓNIO SETAS

3)...Os makota assassinaram o kinguri fazendo recurso a certos rituais do kilombo, conhecidos por kiluvia. No kiluvia, os Mbangala honravam falsamente os seus prisioneiros de guerra, punham-nos à vontade e confiantes, para, numa viragem repentina os matarem selvaticamente.
4)...Os makota aprisionaram kinguri juntamente com Manyungo wa Mbelenge. Passado algum tempo esta morreu e o kinguri, atormentado pela fome, comeu parte do seu corpo(unicamente a parte superior do corpo, talvez para evitar a indecência do contacto de um varão com as partes genitais da mulher) antes de ele próprio morrer de fome.

Análise:

1) Esta tradição pouco diz sobre as guerras que opuseram os Songo, adeptos do kinguri, e os Imbangala do kilombo. Vários aspectos da narrativa focam apenas crenças dos Imbangala, como por exemplo, a visão sobrenatural, que permaneceu até aos dias de hoje como um ingrediente importante dos poderes de um chefe.
2) Em qualquer uma das versões sobressai a necessidade de enganar o kinguri, cujos dotes de magia lhe permitiam adivinhar os perigos antes de eles acontecerem.
3) A morte pela fome significava o abandono de um título, imagem associada à realidade da sociedade em que eram os súbditos que literalmente alimentavam o rei. Por outra, segundo as crenças da época (dos Tumundongo), apenas os seres humanos sangram quando morrem, ao passo que isso não sucede com os espíritos de um título, os verdadeiros alvos deste ataque.
4) A aparente referência ao kiluvia fornece a confirmação, nas narrativas orais, de que os makota abraçaram o cerimonial do kilombo quando se rebelaram contra o kinguri.
5) Enfim, os makota quebraram também a aliança do kinguri com as linhagens Songo de Manyungo wa Mbelenge, pelo que se pode induzir da versão 4).



VERSÃO CONCEPTUAL OPOSTA:

...Os makota decidiram desembaraçar-se do kinguri recorrendo a uma astúcia subtil. Construíram-lhe um novo e esplêndido palácio e conduziram-no para o seu interior no meio de grande cerimonial. O palácio, tal como a paliçada das outras versões, tinha uma única entrada e, mal o kinguri se encontrou no seu interior, os makota bloquearam a porta e asfixiaram-no, deitando uma grande quantidade de farinha de mandioca através de um buraco que fizeram no tecto.

Concepção oposta, porque, ironicamente, não foi a negação de comida e de lealdade(?), mas o excesso de zelo no cumprimento das caprichosas e disparatadas exigências do kinguri que o levou à morte e à asfixia.
Depois de terem derrotado e abolido o kinguri, os makota conduziram por volta da década de1560 o seu bando de Imbangala para sudoeste, a sul do rio Kwanza, evitando contactos com o ngola a kiluange, que nessa altura já era um poderoso rei. Na sua esteira, os ,makota deixaram um novo conjunto de títulos políticos no Songo(apesar destes se terem aliado ao kinguri) baseados no munjumbo, no ndonje e no kunga. Também deixaram o Libolo muito mais pequeno e fraco do que o tinham encontrado, agora um pequeno Estado, ocupando apenas a província mais ocidental do seu antigo império. Tinham, pela mesma ocasião, forçado o Estado do kulembe a desintegrar-se e reclamaram para si próprios a liderança do kilombo, deixando para o munjumbo o núcleo das antigas terras do kulembe. Viajaram em direcção ao litoral, sempre a evitar contactos com o ngola a kiluange, chegaram a sul da actual cidade de Benguela, e daí se foram movendo para norte, ao longo da costa, durante as décadas de 1580 e 90, chegando às proximidades do rio Kuvo em 1601. Ali, pela primeira vez, tomaram contacto directo com os Europeus, e começou então um nova fase da história do kilombo.

Os Mbangala e os Portugueses

A tripulação de um navio mercante português, que encontrou os Mbangala chefiados por Kalanda ka Imbe acampados na margem sul do rio Kivo, em 1601, deu origem e desenvolveu uma parceria comercial baseada na escravatura, que conseguiu fazer com que os ngola a kiluange se vissem reduzidos da situação de monarcas de um reino vigoroso e em expansão por volta de 1600, para a de governantes fantoches e quase sem poder a partir de 1630., e criaram em sua substituição um conjunto completamente novo de Estados, um Europeu e outros Africanos, assentes na exportação de escravos de África para as Américas. Um pequeno Estado português, “Angola”, substituiu os detentores de títulos Kongo na superfície costeira a norte do rio Kwanza e os do ngola a kiluange nas antigas províncias centrais do Ndongo e Lenge, numa altura em que os titulares Lunda, à cabeça de bandos Mbangala, com o seu kilombo, se impuseram nas terras onde anteriormente tinham governado o hango do Libolo, os reis malunga dos Pende e diversos chefes subordinados do ngola a kiluange, estabelecendo a pouco e pouco as bases de Estados sedentários que iriam se consolidando entre 1610 e 1650.
Desde os primeiros contactos ficou estabelecido que os guerreiros do kilombo forneceriam cativos em troca de mercadorias europeias, e este negócio, desenvolvido após um ataque a populações a norte do rio Kuvo, prosseguiu com lucros satisfatórios para as duas partes, já que durante cinco meses os Mbangala continuaram a fazer razias e comércio próximo da costa. Depois disso, os portugueses enviaram um grupo de cinquenta homens para o interior, em busca de mais escravos e dos Mbangala, depois dos seus parceiros africanos terem abandonado o litoral. Nessa busca, um dos governantes locais que recebeu os portugueses, aceitou ajudá-los na condição deles deixarem na aldeia um refém como garantia de bom comportamento enquanto procuravam os Mbangala. Os portugueses aceitaram e escolheram deixar com o chefe negro o único estrangeiro que havia entre eles, um marinheiro inglês chamado Andrew Battel, e nunca mais voltaram para resgatá-lo, dando-o como perdido. Todavia, este conseguiu fugir do seu cativeiro e juntar-se aos Mbangala que ele tinha conhecido na costa, que o acolheram e não o molestaram. Durante os dezasseis meses de deambulações com os Mbangala pelas terras entre o rio Kuvo e a margem sul do rio Kwanza, de 1601 a 1602, Batell deu conta do poderio dos Mbangala que se atacaram mesmo à mais importante aglomeração dessa região, “Shillambansa”, aliás xila mbanza, de que se dizia que era a capital de um importante chefe, “tio” do ngola a kiluange, isto é, um dikota do reino do Ndongo, um dos guardiães dos símbolos reais de autoridade. Tal prestígio não lhes fazia medo nenhum!
Descrição de Kalanda ka Imbe por Andrew Battel, in Ravenstein
O Gaga Calando tinha o cabelo muito comprido, enfeitado com muitos colares de concha de bamba, muito apreciadas entre eles, e à volta do pescoço um colar de mazóis, que também são conchas que se encontram na costa e são vendidas entre eles pelo valor equivalente a 20 xelins cada uma; próximo da cintura usava umas contas feitas de ovos de avestruz. Usava também um tecido de palma fino como seda à volta da cintura. Seu corpo era esculpido e cortado com desenhos secos ao sol e todos os dias se untava com gordura humana. Tanto através do nariz como através das orelhas usava pedaços de cobre com cerca de duas polegadas de comprimento. Trazia o corpo sempre pintado de vermelho e branco e tinha sempre vinte ou trinta mulheres que o seguiam quando se deslocava; uma carrega com os arcos e as flechas; quatro deles seguem-no com taças por onde ele bebe, e quando o faz todas se ajoelham, batem palmas e cantam. (The strange Adventures of A. Battell, Londres, 1901)

Indiferentes às leis portuguesas, como é óbvio, os Mbangala vendiam escravos a quem lhes aparecesse com mercadoria para troca, nomeadamente os “contrabandistas”, homens que faziam o tráfico sem pagar impostos ao rei português. Pelo menos numa ocasião eles juntaram a um grupo de dissidentes do exército português na procura de cativos e do saque, na região da Kisama, a sul do rio Kwanza. O governador português da época, João Furtado de Mendonça, respondendo a um pedido de auxílio de chefes locais, enviou uma expedição em busca dos Mbangala, a qual por fim os obrigou a se retirarem para uma posição defensiva, onde se fortificaram e resistiram a todas as tentativas dos portugueses para os desalojar. Deste primeiro contacto litigioso resultou o reconhecimento por parte das autoridades de Luanda de que pela sua valentia os Mbangala poderiam se tornar valiosos colaboradores e abastecedores do tráfico para quem ganhasse a sua amizade. Convinha pois, obter da parte dos makota Lunda e dos seus seguidores, se não a colaboração, pelo menos a sua neutralidade.
Imagem: socgeografialisboa.pt

A intolerância zero e o biãngulo das Bermudas


Gil Gonçalves

Contabilidade, para quê…!
«Além disso, muitas dessas empresas mostram erros de contabilização que revelam a reduzida preparação técnica de quem as lidera, sentenciou o ministro, para quem, «sem contabilidade não é possível gerir». Augusto Ferreira Tomaz. Ministro dos Transportes de Angola.» In semanario-angolense.com/home/


É o biângulo das Bermudas e os estranhos desaparecimentos de milhões de dólares nos vértices de Luanda e Lisboa. É que no triângulo das Bermudas o que costumam desaparecer são aviões e navios. No biângulo é só dinheiro que se evapora. E tal como no triângulo tudo permanece inexplicável. Grande magia de alguns dos nossos feiticeiros? Parece como os concursos da nomenclatura. São sempre os mesmos que ganham sempre os mesmos prémios. Perante tal quantidade incontornável de acções criminosas é impossível Angola sobreviver-lhes. Brevemente soçobrará. E quantas mais forças policiais ou congéneres, mais as coisas se complicam. Torna-se impossível o controlo e o pagamento de salários a tanta e tanta gente. E em consequência os desmandos abundam incontroláveis. Se o poder é incapaz, ineficaz de manter os sistemas da electricidade e da água a funcionarem, também será incapaz, incompetente de sanar seja o que for. A não ser apenas interesses pessoais como é prática. É por isso que funciona como um governo de grupos familiares. E isto constata-se facilmente nas leis exaradas que não funcionam. São apenas para casebre ver.
Há bancos a mais, não funcionais. Tal e qual como os ministérios com ministros e vice-ministros a mais. É tudo megalómano. Depois quando se dá por ela o dinheiro não chega. Aí temos outro Dubai. As estruturas de betão estão abaladas.
Mais um revolucionário, glorioso apagão marxista-leninista das 08.00 às 17.00 horas. E injustificam-se como se só eles existissem. Nunca ninguém chega a saber porque os cortes sistemáticos (anunciam a queda do regime?) acontecem. Aqui não há povo. Apenas um só povo e um só palácio que tartamudeia como a luz.
O carro cheio de polícias parou. Lestos alguns saltaram e não se preocuparam com a única coisa honesta que existe em Luanda: os vendedores honestos das ruas. Espoliaram todos os óculos de uma quase criança. Tinha aí doze ou catorze anos. E carregaram-nos, ele e dezenas de óculos. A explicação porque só roubaram os óculos da criança? Para estarem devidamente equipados no CAN2010.
Ontem pelas 17.00 horas vejo uma jovem zungueira na rua com apenas duas vassouras para vender. Há algo de muito errado porque ela quase não consegue manter-se em pé. Deve ter aí uns vinte anos. Chamo a Lwena para garantir que não estou errado. E num lamento estuporado exclamo:
- Lwena, olha… assim quer dizer que ela está completamente na miséria!
- Sim… é!.. deve estar com fome… acho que é por falta de comida.
Hoje pelas 11.00 horas da manhã outra zungueira está com uma pequena banheira com umas parcas coisas para vender. Senta-se, mas pouco depois não suporta a posição, deita-se e dorme. É a fome que a desfaleceu. Um segurança acorda-a e impede-a de dormir. Ela fica especada como uma vítima de um campo de concentração nazi antes de ir para a câmara de gás. Dir-se-ia que escapou do gás mas perecerá no campo de concentração de Luanda.
O governo das trevas encetou o plano final da exterminação do povo angolano.
As kinguilas (mulheres que cambiam divisas) na Mutamba, na baixa de Luanda, surraram nos fiscais do GPL-Governo da Província de Luanda.
Dois mil trabalhadores do GRN-Gabinete da Reconstrução Nacional da Presidência da República de Angola, há três meses sem vencimentos manifestaram-se. Pelo menos quatro foram presos. Dos vencimentos nada se sabe. In Rádio Despertar
Se até a Caixa Social das Forças Armadas Angolanas também não paga e cortou os subsídios… nem general escapa. In FOLHA 8
Só há dinheiro para estádios e para CANS2010, 2011, 2012…
Tudo soçobra. Está na hora das demissões voluntárias dos governantes e da hipocrisia da FAMÍLIA, dos portugueses, brasileiros e chineses.
Estamos numa zorra total. Noutro Iraque, outro Afeganistão.
Estrangeiros nacionais, internacionais e angolanos de ocasião! Deixem-nos viver como bantus. Não nos imponham os vossos modos de civilização exangue sem vida. E não adianta igualar-nos ao Dubai porque faliu.
Não são bancos, são cantinas e cantineiros disfarçados de banqueiros. Se em Portugal é assim, que será com estes gentios em Angola?
A nobreza tem luz dia e noite, a plebe só no dia de Natal e ano novo. Isto é mesmo à medieval.
Quem não pega num livro é escravo do outro que lê. Um governo que fomenta o analfabetismo na população vende-a aos estrangeiros. Angola, lá porque tem petróleo não é por isso que deixe de ser mais um estado falhado.
Enquanto a população espoliada e abandonada extingue-se nos campos da morte, reunido, o Conselho de Ministros do Governo de Angola preocupou-se com o CAN 2010.
Não há nada, absolutamente nada de negócios, de economia, de finanças, etc. Apenas roubar. E quando fazem, faziam, uns negócios ficavam imensamente felizes. Convencidos que burlaram os outros, quando na realidade eles foram os verdadeiros burlados. Com estes acontecimentos é tempo de mudar as fraldas ao sistema económico, acabar com os bancos e apear os idiotas dos governos que a coberto da democracia lá se enfiaram.
Bancos do terror em Luanda sem petróleo. No dia 15 de Novembro de 2009, na agência do BPC-Banco de Poupança e Crédito da Maianga, um familiar queria levantar oitenta mil kwanzas e o funcionário respondeu que o banco não tinha dinheiro.
O meu familiar girou por quase todas as dependências bancárias de Luanda e informaram-lhe: «Estamos sem dinheiro.»
No mesmo dia desloquei-me à dependência do banco BPC na Sagrada Família para reconfirmar a anomalia bancária. Queria levantar 5.000.00, cinco mil kwanzas para pagar a taxa de circulação automóvel e a resposta reconfirmou-se: «Estamos sem dinheiro.»
Será que o dinheiro foi todo para o CAN2010? Ou bazou para o estrangeiro?!
Consegui ainda apurar que quem tem quantias de vulto vive aterrorizado, sem futuro. Imagina, receia que vai ficar sem o dinheiro depositado pois claro.
A INTOLERÂNCIA ZERO
Estamos perante mais uma manobra de diversão do timoneiro da revolução angolana.
Luanda, capital mundial dos apagões. Luanda 07Dez09. Mais um apagão das 09.55 às 17.30 horas. Em saudação ao VI congresso do MPLA obrigámo-nos a mais um corte glorioso, revolucionário apagão. Entretanto, de mais este congresso nada de novo há a assinalar, exceptuando a renovação da ditadura marxista-leninista. Convém salientar que no marxisno-leninismo não existem eleitores, população muito menos. Tudo o que for vivo é carne para canhão.
A vanguarda marxista-leninista vencerá. Prometer sempre a mesma coisa e não fazer nada é o nosso lema. Apesar de moribunda a nossa população confia cegamente em nós. É que as nossas forças de dissuasão vigiam. Todos são patriotas. Não existem descontentes, tudo e todos são felizes debaixo das baionetas caladas dos nossos exércitos que controlam e abatem qualquer intento de manifestação, tumulto ou revolta.
Viva a doutrina marxista-leninista. Sob o comando dos nossos deuses líderes, os nossos olhares e mentes iluminam-se como uma gigantesca árvore de Natal.
Mas porquê em pleno 2009 ainda existem coisas destas? Será que a humanidade caminha outra vez para as ditaduras férreas? E porquê os campeões da democracia apoiam ditadores e promovem a espoliação das populações em nome da democracia? E mais porquê continuamos a viver nesta ignomínia? Quando é que estas coisas acabam? Quando e como terminará esta humilhação? Este campo de concentração?
Restam três democracias: Uma só para brancos, outra só para negros e outra só para bancos. Claro que isto é discriminação democrática. É impossível a sobrevivência da democracia com o actual, sempre o mesmo sistema bancário. O terrorismo do capitalismo bancário retorna mais avassalador, inalterável. Outro Iraque, outro Afeganistão e mais outro Paquistão também. O inimigo número um da paz mundial é o horrível sistema bancário milenar que teimosamente nos afunda, nos desumaniza e espolia. Daí a força imparável do islamismo.
Em Luanda quando abrimos as janelas, aspiramos o cheiro do napalm dos geradores eléctricos do Poder anárquico e mortal. Luanda, campeã mundial dos apagões e infestada de feitiçaria. E quem subir no emprego é morto. Sempre mais um Iraque e outro Afeganistão.
E todos os dias os preços sobem. Todos sabemos qual é a origem. Ouvimos a conversa habitual que: «vamos tomar medidas!». Contra quem? Contra a FAMÍLIA?! Luanda está outro Portugal, com a mestria que se lhe conhece.
Luanda está tão maravilhosa com o napalm da civilização. Com torres, condomínios e prédios dos milhões de dólares desviados dos partidos casebres. Luanda é dos filhos de um presidente. Luanda existe, Angola já não. É Luanda só para o CAN2010. E limpam-lhe as ruas da arraia-miúda porque parece mal com tantos estrangeiros maioritariamente africanos que estão a trafegar. Como se eles não soubessem o que é miséria. Não… é só por causa de alguns brancos que não suportam moscas verdes que rodeiam negros.
E a hipocrisia internacional à Ocidental deslava-se, apoia, força até caírem de podres os dois dedos de uma mão que nos oprime.



A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (7)


ANTÓNIO SETAS

A formação dos Mbangala

A evolução crucial para a fase de maturidade do kilombo teve lugar quando os seguidores que restavam ao kinguri, os titulares secundários designados pelo nome de makota, rejeitaram a opressora liderança da posição central Lunda, e adoptaram, como base de uma nova organização política, a associação iniciática guerreira do kulembe, acrescentando-lhe um certo número de posições vunga de comprovada origem Umbundu. A união do kilombo, teoricamente centralizado, com a multidão de posições perpétuas Lunda, permitiu à associação iniciática fragmentar-se e difundir-se rapidamente através das regiões a sul do rio Kwanza, à medida que se formavam muitos bandos separados de guerreiros, agora chamados Mbangala (do radical Umbundu, vangala, que significa ser valente e/ou vaguear pelo território), sob a chefia de detentores de novos títulos subordinados, de origem Lunda. A grande capacidade das posições perpétuas de gerarem novas posições titulares dava azo a qualquer chefe guerreiro que pudesse reunir um número suficiente de seguidores para se libertar das autoridades políticas e linhageiras existentes no planalto de Benguela. Um homem ambicioso podia adoptar a organização do kilombo, reivindicar apetrechos mágicos e um título que derivasse de outro chefe de kilombo, e impor o seu nome como um novo rei Mbangala. Mesmo as posições Umbundu de origem local, como a do kulembe, cuja dependência dos mavunga mostrava que não tinham originariamente explorado a capacidade de nomear posições “filho”, adoptaram então a técnica Lunda e passaram a conceder posições subordinadas, que apareceram nos documentos de meados do séc. XVII. A fragmentação que acompanhou a introdução dos títulos Lunda a sul do rio Kwanza representou o reverso da centralização que os mavunga dos Ovimbundu tinham produzido entre os Tumundongo.

Se recapitularmos a instável história do bando do kinguri, já mesmo antes de ele ter atingido o Kwango, os makota procuraram novas formas de organização política que os libertassem da dependência que, nos termos da estrutura política Lunda, os ligavam ao kinguri. O abandono por parte de alguns titulares ainda no leste, e as partidas mais recentes do mwa ndonje e do munjumbo, confirmavam a gravidade das dissensões que tinham fragmentado o bando. Os seguidores do kinguri já não concediam ao seu líder a lealdade total exigida pelas forças sobrenaturais que estavam por trás do seu título. Gerou-se um clima de desconfiança, e a insegurança daí resultante levou à busca de novos métodos para controlar o seu povo. Isto explica não apenas o seu pedido do ngoma ya mukamba, mas também o facto de ele conceder às linhagens Songo novos títulos, como o kunga, entre outros, e por fim a esta associação com o kulembe. Por outro lado, o kulembe deve ter considerado essa aliança com os belicosos Lunda um belíssimo meio de resistir, tanto à expansão do Libolo como ao avanço do ngola a kiluange para sul. Assim, seguiram-se guerras em que o kulembe e os makota dissidentes lutaram lado a lado contra o kinguri e os seus aliados Songo. As tradições Mbundu (séc. XVII) referem-se as estas guerras como sendo grandes conquistas que se seguiram à adopção do maji a samba pelo kulembe, associado a outros bravos generais que eram todos, à parte uma única e parcial excepção, posições titulares Lunda. “Calanda” era Kalanda ka Imbe(“Caoimba”), “Caete” era Kahete, e “Cabuco” era Kabuku ka Ndonga, um título subordinado ao ndonga, que viera da Lunda com o kinguri. Apenas “Cassa” (o kaza) tinha origens diferentes, originariamente Libolo aparentado com o hango, embora pouco depois se tivesse tornado íntimo aliado dos títulos Lunda
Mais tarde, as tradições do séc. XVII confirmam que o kinguri “tinha morrido” no Ndongo, não em luta contra os portugueses ou contra o ngola a kiluange, mas sim nas mãos dos makota que o tinham acompanhado desde a Lunda. Estes acontecimentos ocorreram na ilha de Mbola na Kasaxe, no alto Kwanza, onde os reis Libolo em tempos idos tinham instalado um dos seus chefes vunga, como guardião das fronteiras orientais do reino. Por essa altura, porém, já o ngola a kiluange tinha conquistado a área e feito dela uma parte do Ndongo. E essa morte significa a abolição do título de origem Lunda pela sua integração nos títulos linhageiros dos Tumundonga, e não propriamente a morte do seu representante individual (cerca das décadas 1550 e 60). Efectivamente, as forças unidas do kilombo empurraram o kinguri para norte e para oeste, afastando-o em direcção ao Ndongo dos centros de força do kulembe, vitória que se deve à explosiva combinação de um bando móvel e sem linhagens, mas detentor do potencial assimilador e estruturador da sociedade iniciática do kilombo, força aglutinadora essa inexistente no kinguri.
Ironicamente, o kulembe parece ter sido uma das primeiras e principais vítimas do kilombo. É que a expansão teve lugar essencialmente sob comando Lunda, e o reino do kulembe, em tempos idos unificado, desintegrou-se em muitos pequenos chefados guerreiros liderados por chefes de kilombo, alguns dos quais emergiram mais tarde como reino Ovimbundu nos séculos XVIII e XIX. Nas proximidades dos rios Kuvo e Longa, durante a década de 1640, alguns chefes de guerra que aparecem referidos em muitos documentos como tendo-se envolvido em lutas uns contra os outros, teriam sido antigos subordinados do kulembe, que se libertaram do seu chefe supremo para lançar novos fundamentos políticos que viriam a dar origem aos reinos Ovimbundu daquela região. O título do kulembe sobreviveu a estas mudanças, mas apenas como posição secundária. E a respeito de todas essas lutas e da queda, ou “morte” do kinguri, as tradições Mbundu focam essencialmente a queda do título pela aplicação de técnicas mágicas especiais por parte dos makota, como sendo a alteração importante que veio a se reflectir no seu modus vivendi.

Como a interminável opressão de Kinguri pesava cada vez mais sobre o seu próprio povo, os makota resolveram dar um passo desesperado: tentariam abater Kinguri e conquistar a liderança do bando para si próprios. Porém, o simples assassinato do rei não destruía as forças sobrenaturais que o protegiam, e, portanto, não serviria de nada. Além dessa aresta, sentiam que não deviam permitir que Kinguri descobrisse a conspiração pois, caso contrário, as suas forças mágicas de protecção, provocadas e enfurecidas, iriam certamente vingar-se, antes de os makota poderem executar os seus planos. Escolheram então, um método baseado no simbolismo do título do rei. O kinguri e os espíritos que o acompanhavam eram vistos como animais carnívoros da floresta (a sede do kinguri pelo sangue era equiparada ao rugido do leão de noite, e o temor que lhe tinham era o mesmo que o que era provocado pelos animais predadores selvagens). Com os Lunda sempre tinham caçado com fossas e armadilhas, os makota construíram uma armadilha simbólica desse tipo, um cercado circular de pesadas estacas, situado na ilha de Mbola na Kasaxe onde estavam acampados nessa altura. O cercado tinha apenas uma única entrada, contrariamente às habituais (para uso corrente das populações) com duas, e um dia, sob pretexto de que os leões que rugiam nas vizinhanças os colocavam a todos em perigo, os makota fingiram estar todos muito preocupados com a segurança de Kinguri e persuadiram-no a entrar no cercado onde, argumentaram, a paliçada de grossas estacas o protegeria do perigo. E Kinguri (cujo radical, nguri, em alguns dialectos de Umbundu significa leão) não compreendeu que a paliçada de pesadas estacas fora feita com a intenção de aprisionar quem eles proclamavam querer proteger. Kinguri entrou no cercado e esperou, enquanto os makota, do lado de fora, procuravam uma oportunidade de fechar e única entrada e deixar o seu rei no interior, a morrer de fome. Mas, como os poderes mágicos do rei lhe permitiam adivinhar qualquer ameaça antes que ela se produza, os makota tiveram que esperar que Kinguri adormeça para fechar a porta da paliçada. Depois desse trabalho feito, todos se mantiveram pelas proximidades até Kinguri morrer de fome. Só depois é que partiram.

VARIANTES:

1)...Os makota aprisionaram o kinguri, mas continuaram a abastecê-lo de comida, dando-lhe, porém, apenas sementes podres impróprias para comer, mantendo-se assim a aparência de lealdade sem a sua substância, e o kinguri depressa expirou.
2)...Os makota cavaram um enorme fosso que cuidadosamente disfarçaram com uma cobertura de folhas e capim para lhe dar a aparência de solo firme. Em seguida colocaram-lhe em cima a esteira cerimonial que o kinguri costumava ocupar em ocasiões formais, e convidaram o rei a receber as suas homenagens na esteira colocada sobre o fosso. O kinguri aceitou, avançou para a esteira e caiu no buraco, onde foi imediatamente enterrado pelos makota.

Imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Zumbidospalmares.jpg