quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (19)


ANTÓNIO SETAS

O kaza ka hango, título vunga cedido às linhagens Túmundòngo nas proximidades do antigo centro do Libolo - e que, muito mais tarde se foi transformando com o passar do tempo em título linhageiro perpétuo -, pertencia a um povo que vivia algures do outro lado do rio, em frente do posto dos Portugueses de Cambambe. Os detentores deste título tinham adoptado o kilombo antes de 1620 e eram considerados pelos Portugueses como um dos mais poderosos grupos Mbangala da região. Aliaram-se aos Portugueses por um certo tempo, durante as campanhas vitoriosas com o kulaxingo e atravessaram o rio Kwanza para combater próximo de Massangano ao lado do exército Português comandado pelo capitão Luís Gomes Machado. Mas a dada altura, o rei Mbangala rebelou-se e foi estabelecer-se com o seu povo no Ndongo. Em 1621 veio uma expedição Portuguesa expulsá-lo do Ndongo, e o kaza fugiu, regressou à margem sul do Kwanza e utilizou a firme base de apoio que ali controlava para tirar a sua desforra, ao longo de toda a década de 1620.
Depois de ter ajudado o ngola a kilwanji, Mbande a Ngola, quando este se opôs à penetração Portuguesa no Ndongo, em seguida o kaza protegeu o “filho” de Ngola a Mbande, beneficiando da sua protecção para não ser capturado pelo Portugueses, mas depois de Nzinga ter substituído este último, o kaza, coerente consigo próprio, entregou o “filho”, que ele se comprometera a proteger, a quem fosse capaz de dignificar o seu nome e o apoiasse, o que não seria o caso do legítimo sucessor de Ngola a Mbande, ainda muito jovem. Na sequência dessa lógica, de resto, o kaza apenas permaneceu no Ndongo enquanto Nzinga pareceu capaz de suster os Portugueses, pois a vitória portuguesa de 1626 – quando ela foi expulsa da ilha Nsanji, como veremos mais adiante - obrigou-o mais uma vez a pôr-se em fuga para a outra margem do rio Kwanza. Dali começou a mandar recados, afirmando que desejava fazer as pazes com os Portugueses, mas a tradição diz que por volta dos anos 30 ele se deslocou para a Baixa de Cassanje e desempenhou um papel importante na formação do Estado de Kasanje.
Nesta cumplicidade com o kaza, a Nzinga tinha complementado a sua posição como ngola a kilwanji com um casamento simbólico com o chefe Mbangala, que lhe deu a posição de tembanza (primeira mulher) do chefe do kilombo. Esta função crucial entre os Mbangala, herdeira das funções atribuídas a “Temba Andumba” das tradições, implicava a preparação do maji a samba e permitiu a Nzinga assegurar a liderança do que restava da banda do kulaxingo, após a sua dispersão em 1619. E também explica a forte influência que ela teve sobre o kalandula e o kabuku ka ndonga durante as décadas de 1640 e 1650, como veremos mais adiante.
Esta aliança com os Mbangala também permitiu a Nzinga fazer quando necessário fosse as suas retiradas estratégicas sempre que a pressão dos Portugueses a expulsava dos seus redutos a norte do rio Kwanza. Várias vezes ela fez a sua retirada para estas áreas do Kwanza e além-Kwanza na década de 1620 (uma das vezes, em 1629, fê-lo para a área do kulaxingo na Baixa de Cassanje), e só se deslocou para norte, para o antigo reino da Matamba, apenas depois da sua estratégia de procurar refúgio entre os vários grupos de Mbangala se ter revelado incapaz de proteger a sua posição no Ndongo. (Miller, Potentado e Parentesco, 1975)
Voltando à tradição, esta dá-nos a conhecer que os esponsais entre Nzinga a Mbande e Kasa ka Hango tiveram lugar conforme o rito dos Mbangala, “com sacrifícios rituais e danças obscenas”, e que pouco tempo depois ela convidou o marido a deslocar-se à capital da Matamba, “onde lhe entregaria, com a sua pessoa, também aquele reino”. Kasa seguiu-a e levou com ele o príncipe, filho de Ngola a Mbande, o legítimo herdeiro do trono do Ndongo. No auge da festa, e perante grande parte dos seus súbditos, Nzinga rompeu em direcção ao príncipe, pegou nele e matou-o, depois correu para o rio e deitou o corpo às águas do Kwanza. Ao ver isto, e temendo pela sua própria vida, Kasa ka Hango fugiu, deixando Nzinga a Mbande dona e senhora da Matamba (“Rainha da Matamba e de Ndongo ou Angola”), posição que ela consolidou matando todos os seus parentes, poupando só as suas duas irmãs, Funji e Cambo. A partir dessa altura, sentindo-se segura no trono, Nzinga atirou-se contra os Portugueses com a ajuda dos Mbangala, de que ela era doravante a mais alta dignitária, a tembanza.

Nzinga a Mbande vai à guerra

Finda a campanha militar de 1617-18, num morticínio impiedoso dos povos Túmúndòngò, os Portugueses tinham definitivamente ocupado o território da margem direita (norte) do Kwanza, estendendo-se para leste até ao posto de Mbaka.
Foi nessa altura que o chefe Mbangala kulaxingo partiu para o interior, e os makota, não desejando reconhecer o título kinguri que eles tinham abolido e de que o fugitivo se apropriara, fundaram nas imediações do Ndongo nada menos que 30 grupos separados. De início esses makota manifestaram uma hostilidade aberta às forças oficiais portuguesas que tinham ajudado o kulaxingo, e um deles, detentor do título ndonga, tentou resistir às acometidas da campanha de 1617-18, conseguiu manter-se na região, mas foi derrotado mais tarde, em 1621, pelos Portugueses, que capturaram o chefe e destruíram completamente o seu exército., levando alguns membros restantes do bando a fugir para a Baixa de Kassanje, onde se juntaram aos Mbangala do kulaxingo no emergente Estado de Kasanje.
Contudo, um titular subordinado ao ndonga, Kabuko, assumiu o controlo sobre as outras partes do bando e decidiu juntar-se ao governador de Angola numa campanha em 1621-22 contra um súbdito do rei do Kongo, o mani Kasanze. Venceu. Continuou para norte, invadiu as províncias meridionais do reino, Mbamba e Mpemba, derrotou o exército de Mbamba e matou o duque de Mbamba e o marquês de Mpemba. Em 1623 foi de novo com os Portugueses até ao Kongo, mas desta vez para prestar mão forte ao rei, que lutava contra dois chefes ndembu que se tinham revoltado. Dessa colaboração nasceu uma parceria que se revelou mais duradoura que a que tinha ligado os Portugueses aos Mbangala em 1612 e de que Kabuku ka Ndonga beneficiou para estabelecer um reino semi-independente na fronteira sul da região dos ndembu, servindo de tampão aos portugueses contra estes últimos, situados a norte, para lá do rio Nzenza. Foram 200 anos de colaboração quase contínua, apenas violada, temporariamente, aquando da chegada dos Holandeses em 1641, em que o portador do título kabuku ka ndonga vacilou, deu mostras de se virar para os recém-chegados Holandeses, mas depressa se retraiu e em 1643 saíram da sua base de Wumba, a norte do Lucala, para fustigar os chefes ndembu que se tinham aliado aos Holandeses durante a ocupação de Luanda.
Quanto a Nzinga a Mbande, governante da Matamba, essa considerava-se a si própria mbangala. Mas o seu reino desenvolveu-se de forma muito atípica, uma vez que ela foi capaz de manter uma oposição às actividades portuguesas em Angola muito mais consistente do que a que lhes opunham os bandos de guerreiros Imbangala oriundos das terras de leste. Nzinga foi a única mbangala do norte que reivindicou uma autoridade política (certos títulos locais da Matamba) derivada do sistema autóctone detítulos dos Tumundongo por ser a única a possuir fontes locais de legitimidade. Embora elas fossem pouco seguras, permitiram-lhe comandar o seu próprio povo com maior margem de segurança do que os forâneos bandos de Imbangala titulares de exóticos títulos Lunda, que nunca ganharam a confiança das linhagens cujo domínio reivindicavam.
A economia do tráfico de escravos também lhe permitiu conservar uma certa autonomia em relação aos Portugueses até 1656, em virtude da rota passar pelo território dos ndembu e os Holandeses ocuparem Luanda na década de 1640, ao longo da qual ela deteve um monopólio virtual sobre o tráfico de escravos vindos do interior, em detrimento dos kalandula, que antes eram os principais fornecedores dos Portugueses
De entremeio com estas alianças e contra-alianças, e voltando atrás no tempo, logo a seguir à morte de Ngola a Mbande, o governador João Correia de Sousa tomara a decisão de satisfazer os desejos da nova rainha, Nzinga a Mbande, pedindo a Portugal a autorização de mudar o presídio de Mbaka para o Hako, a fim de sustentar um clima mais apaziguador, favorável, e de que maneira, ao tráfico de escravos. Mas tão-logo isso aconteceu, e com as demoras devidas às dificuldades de comunicação com a Coroa, já Nzinga se movimentava em campanha militar no fito de submeter todos os povos Tumundongo que se lhe deparassem no seu caminho para oeste, em direcção às posições ocupadas pelos Portugueses. Estes, alertados, mudaram de opinião e decidiram, em vez de sair de Mbaka, reforçar aí a sua posição, ao mesmo tempo que pensaram que uma boa maneira de reduzir a funesta influência da nova rainha seria destroná-la, e que, “portanto, os seus súbditos deixariam de estar sob a sua autoridade e não reconheceriam a sua autoridade”.
Em 22 de Junho de 1624, Fernão de Sousa sucedeu como governador ao bispo D. Simão de Mascarenhas, pouco tempo depois de Nzinga a Mbande ter sido proclamada rainha. Esta escreveu-lhe, pedindo o cumprimento da promessa do seu antecessor (essencialmente abandonar Mbaka), prometendo por sua parte que chamaria os jesuítas para o seu reino. O governador respondeu-lhe que seria preciso esperar, pois não podia abandonar Mbaka sem autorização do seu rei e pela mesma ocasião pediu-lhe que devolvesse os escravos que ela ainda tinha sob a sua alçada.

Imagem: rubelluspetrinus.com.sapo.pt

Embaixada de Angola nos USA. Governo desnorteado quanto à manutenção do encerramento das contas


A justiça americana não desarma e depois de não ter, obtido uma justificação por parte de Angola, nos últimos 8 anos, sobre uma transferência, em forma de garantia bancária, de 50 milhões de dólares, emitida pelo então governador do Banco Nacional de Angola, Aguinaldo Jaime, em 2001, a três supostos investidores árabes, entretanto na lista negra nos Estados Unidos, por alegadas ligações a redes de terroristas e de tráfico de drogas.

Em função deste quadro, que afecta a actividade diplomática e a credibilidade do governo angolano, numa das praças mais importantes, o ministro de Estado e chefe da Casa Civil do Presidente da República, Carlos Feijó, garantiu estar o executivo a avaliar os motivos do encerramento, pela segunda vez, das contas da embaixada de Angola nos Estados Unidos. “Temos a informação de que uma outra instituição financeira cancelou as contas da embaixada de Angola. O mais importante é fazer uma avaliação das causas desse relacionamento com o sistema financeiro norte-americano”.

Ao proceder, no 17.01, o balanço do último trimestre de 2010, o governante preferiu não entrar em confrontação com as autoridades americanas, num aparente reconhecimento de ter havido alguma culpa do seu executivo, pois só assim se entende a sua afirmativa: “Angola fará o seu trabalho de casa” para averiguar o que se passa e recordou que, fruto de esforços legislativos e da luta contra o branqueamento de capitais, Luanda deu passos significativos e foi retirada dos países não cooperantes.
De acordo com Carlos Feijó, um encontro internacional avaliou, recentemente, de forma positiva o comportamento de Angola no cumprimento das principais diretivas do sistema financeiro internacional.
A embaixada abriu as contas no Sonabank Southern National Bankcorp of Virgínia no final do mês passado, depois de o Bank of America lhe ter encerrado as contas.
Na altura, essa decisão do Bank of America criou fortes tensões entre Luanda e Washington.
Afirmando estar interessado em ajudar Angola, o Departamento de Estado norte-americano lembrou que não pode obrigar nenhum banco a aceitar clientes, mas escreveu uma carta de recomendação ao Sonabank.
Só que, entretanto, o banco escreveu à embaixada a anunciar que encerrava as suas contas após uma análise legal do seu histórico bancário.
No entanto, o banco não especificou que transações encontrou que podem ser consideradas questionáveis.

Rodrigues Mingas detido em Paris. FLEC sofre rude golpe, Mas dirigente não será extraditado


Rodrigues Mingas, secretário geral da FLEC-PM, foi no dia 18 detido na região de Paris, no seguimento da investigação ao ataque ao autocarro da seleção de futebol do Togo, quando atravessava o enclave de Cabinda, para participar na CAN.
Este político, natural de Cabinda e a muitos anos a viver no exílio é também detentor de nacionalidade francesa e ficará detido provisoriamente, nessa condição de cidadão francês, enquanto decorrer a instrução do processo em que é acusado de ser o responsável pelo ataque, ocorrido em Janeiro do ano passado, em vésperas da Taça das Nações Africanas (CAN2010).
O secretário geral da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda - posição Militar, reivindicou então a responsabilidade pelo atentado, de que resultaram duas mortes e 13 feridos. No seguimento do ataque, a seleção do Togo renunciou a participar na CAN.
Rodrigues Mingas fora acusado em Dezembro por "associação de malfeitores em relação com uma iniciativa terrorista" e agora o tribunal acabou por pedir a sua detenção.
Solenn Le Tour, advogada de Mingas, disse que a decisão de detenção provisória, nesta fase do processo, "é extremamente surpreendente face à sua fraca implicação no dossier". Segundo ela, tal permite pensar que "antes de mais responde a considerações de política externa francesa".
No lado oposto, "o Governo de Angola congratula-se pelo avanço do processo", disse Jean Reinhard, advogado contratado pelo regime de Luanda, que denunciou Rodrigues Mingas como provável mentor do ataque.
A 8 de Janeiro de 2010, o autocarro da delegação togolesa foi metralhado junto à fronteira de Massadi, um ataque que viria a ser assumido pela FLAC-PM. "As armas vão continuar a falar", disse então Rodrigues Mingas. "Estamos em guerra e todos os golpes são permitidos", referiu o secretário-geral da FLEC-PM, em entrevista à France Presse.

Crónica Marta. Mais um pouco de Veneza


Marta Fernandes de Sousa Costa*
Na primeira manhã em Veneza, impossibilitados de entrar na Praça São Marcos pela água que já atingiu as passarelas, saímos a caminhar pelas ruas, sem destino. São tantos palácios e belas edificações, tantas pontes que conduzem a destinos interessantes, tantas vitrines atraentes, que qualquer escolha se mostra boa.

A cidade é silenciosa, sem o barulho de automóveis. As pessoas conversam em voz baixa, ouve-se o ruído dos passos no calçamento; a voz de algum gondoleiro, a entoar canções italianas para os turistas, quebra a quietude, vez por outra.

No passeio de gôndola, percorremos parte do Canal Grande, o que é interessante, pois o Canal é circundado por palácios e igrejas imponentes e todos possuem a frente voltada para ele. Depois, a gôndola percorre os canais internos, que são estreitos, obrigando a algumas manobras e recuos, quando outra vem na direção contrária. A água chega ao pórtico das casas, que possuem bombas para drená-la, quando a maré sobe. Algumas casas recebem reparos; todas parecem perder a luta contra a umidade. Imagino o custo de qualquer obra, nessas circunstâncias, e o perfil psicológico das pessoas que vivem aqui, adaptadas à situação.

Quando retornamos à Praça São Marcos, a água já baixou completamente, as passarelas foram retiradas e, se não a houvéssemos visto inundada, pela manhã, teríamos dificuldade em imaginar o quadro.

À primeira vista, desperta a atenção o Campanário de São Marcos, com quase 100 metros de altura, construído para vigia, no século IX, e onde Galileo Galilei fazia descobertas, com seu telescópio. Em frente ao Campanário, paramos para olhar a Torre do Relógio, onde os dois gigantes em bronze tocam as horas com suas marretas. A seguir, entramos na Basílica de São Marcos. Símbolo do poder religioso e político, reservada apenas aos duques e aos pertencentes aos altos escalões, somente no século passado a Basílica foi aberta ao povo e transformada na Catedral de Veneza.

Localizado ao lado da Basílica, o Palácio Ducal merece atenção especial, pela história que conta, em seus inúmeros e grandiosos salões. O poder dos duques, embora grande, não era hereditário, nem absoluto. Sendo eleitos pela elite, dependiam da aprovação dos seus pares, por isso lhes dedicavam tratamento atencioso, percebido pelas imensas e belas salas de reunião.

Ao entardecer, a música toma conta da praça. Atraídos por ela, entramos no Café Florian, onde encontramos o piano e o violino responsáveis pelo encantamento.

À noite, vamos à Iglesia de San Vidal, para a apresentação de uma orquestra local, Interpreti Veneziani, tocando “As quatro estações de Vivaldi”. A orquestra, composta somente por músicos venezianos, fará várias apresentações durante o mês de dezembro, participando da temporada “Violinos em Veneza”. Somos os primeiros a chegar, mas a igreja enche completamente. Os músicos valem cada minuto dedicado a eles. Atrás deles, sobre o altar, é fascinante a figura feminina esculpida em mármore, o rosto coberto por véu tão leve que jamais se imaginaria esse efeito pudesse ser obtido com a pedra. Para onde se olhe, em Veneza, encontra-se arte.

*www.martasousacosta.com

Gang misto de Viana. Agentes policiais acusados de estarem mancomunados com ladrões no assalto a quinta


A história que vamos, hoje e aqui, dar a conhecer aos nossos leitores, é real. E se a vamos narrar com o máximo de objectividade e rigor possível, é porque os acontecimentos que fazem parte do seu conteúdo constituem um exemplo de uma das mais nocivas práticas vigentes na sociedade angolana: a ausência de sanções contra toda a espécie de prevaricadores, sobretudo os dos mais altos patamares da escala social do país. Sanções em Angola, diga-se, são aplicadas com cada vez mais frequência e facilidade à medida que vamos descendo na escala social: os senhores da nossa terra quase nem sabem o que isso é, «Sanções?, isso não é para nós», os angolanos da classe média não escapam facilmente às sanções, mas podem recorrer à “gasosa” ou serem mais ou menos inocentados se tiverem “padrinhos da cozinha”, enquanto os de baixa estirpe, da periferia, dos becos e das ruas da cidade, esses apanham que se fartam, mesmo sem culpa formada, São os bodes expiatórios da comunidade.

A história começa no ano 2000, numa altura em que Mateus Francisco Félix, de 50 anos de idade, piloto de aviões residente em Luanda e proprietário de uma Quinta no Município de Luanda (Quinta Monte Belo), se zanga com o seu empregado António Figueira, que para ele trabalhava desde 1996 e vivia na sua propriedade com a esposa, Luciana e seus filhos.

Causa da zanga: o desaparecimento de bom número de animais e outros bens da quinta, que, alegadamente, o Figueira vendia a terceiros. Como consequência seguiu-se o despedimento e pagamento das respectivas indemnizações ao trabalhador, o que foi feito segundo o piloto Mateus na obediência das normas legais e diante de testemunhas idóneas (polícia e autoridades tradicionais).

Aconteceu, no entanto, a seguir a esta ruptura de contrato, um acontecimento que não foi comunicado ao Figueira e viria a condicionar, com todo o seu peso, acontecimentos que se deram cerca de dez anos mais tarde. O comandante aviador Mateus tinha uma arma e, a dada altura, precisamente a 4 de Abril de 2006, resolveu entregá-la à Polícia Nacional (PN), tal como estipulado na lei.

Como já referido supra, passaram mais de 10 anos sem nada a assinalar na vida do piloto, mas no passado dia 29 de Março de 2010 apareceu na sua propriedade, por volta das 5 horas da manhã, um agente da Polícia Nacional, proveniente da 45ª esquadra, de Kapalanga (Viana), chefiada pelo sub-inspector Baptista.

Objectivo da visita: fazer uma vistoria por suspeita da existência de uma arma de fogo na propriedade devido a uma denúncia, não obstante o agente da PN não exibir o devido Mandado de Buscas e Capturas. Uma vistoria geral foi feita, e não tendo sido encontrada nenhuma arma, o representante da autoridade levou com ele, para prestar declarações na esquadra, o trabalhador Manuel Raimundo Muhongo, então ao serviço do piloto Mateus. A ordem, segundo o agente policial, era do chefe Baptista.

Ausente da propriedade na hora destes factos, mal foi posto ao corrente do sucedido, o proprietário da Monte Belo dirigiu-se à 45ª esquadra, aonde, mal chegou, depois de se ter identificado, foi levado ao piquete a fim de ser interrogado por orientação do chefe Baptista. Um interrogatório moroso, absurdo e inútil. Sem resultado nenhum.

Mas no dia seguinte, 30 de Março, mais uma vez foi prestar declarações na 45ª esquadra, com o intuito de esclarecer a rebaldaria que estava na origem da busca de uma arma de fogo na sua quinta, sem provas, sem documentação, sem nada, e deparou-se-lhe uma presença surreal, a de Luciana, esposa do seu ex-trabalhador despedido em 2000 (entretanto, falecido). E, como fim da picada, obteve a informação de que a denúncia vinha da sua parte e que ela tinha declarado que o falecido marido era seu sócio! É que as mentiras, amontoando-se, até parecem que são na sua totalidade muito menos mentira!

Seguiu-se a este inesperado encontro um interrogatório feito pelo próprio chefe Baptista e o tom foi-se deteriorando entre os dois homens. Ou melhor, três, e uma dama, pois D. Luciana estava presente e fazia-se acompanhar por um indivíduo que dizia ser da Comissão de Bairro. A certa altura a conversa desabou, passou a ser desconversa, quando o trio composto pelo chefe Baptista, Luciana e acompanhante se juntaram para declarar que os documentos comprovativos dos direitos de propriedade exclusiva do piloto militar, ao serviço do Estado Maior Geral das FAA, Mateus eram falsos.

Nesse mesmo dia, no piquete, D. Luciana e os seus acompanhantes (ao primeiro tinham-se juntado outros) atacaram frontalmente Mateus, acusando-o de ser o assassino do malogrado Figueira, mas que nada perdia pela espera, pois tinha os seus dias contados. Tudo isto em presença do impávido e sereno chefe Baptista.

Como se estas afrontas não fossem quanto baste para desmoralizar o cidadão, nesse dia (30.03.10), à saída da esquadra o infeliz proprietário da Monte Belo foi agredido e teve que se refugiar na esquadra para pedir assistência e poder sair dali sem ser importunado.

Actos de selvajaria
Sendo este o cenário da trama, o também militar Mateus resolveu ir bater a outras portas. No dia 2 de Abril seguinte, foi pessoalmente falar com o comandante da esquadra, Celso, e teve a oportunidade de se sentir mais reconfortado com a recepção de que foi alvo. O comandante Celso, confirmou-lhe a validade de todos os seus documentos e, além disso, ficou a saber que o sub-inspector Baptista nada tinha registado dos diferentes interrogatórios que tinham sido feitos, encenados de facto, e que nem sequer tinha dado a conhecer o caso ao departamento de investigação, nem tão-pouco ao Comando da instituição (45ª esquadra). Mas nada fez para chamar à pedra o chefe Baptista!

Curiosamente, nesse mesmo dia, 2 de Abril, por volta das 23 horas (22:48, como está escrito no documento Mateus a que nos temos vindo a referir) “indivíduos fortemente armados com armas de fogo, marretas, picaretas e outros artigos cortantes, atacaram a minha propriedade, deitando abaixo uma parte do muro numa extensão de 320 metros e causando prejuízos avaliados em 1 milhão, 584 mil kwanzas”. O que deu motivo a que ele telefonasse para a esquadra a pedir protecção.

Tendo conseguido obter a ligação, pediu que enviassem uma brigada para pôr termo ao assalto de que era vítima, responderam-lhe que iam enviar imediatamente um destacamento policial, mas ninguém apareceu. Segundo Mateus, nesse dia quem estava de serviço era o chefe Baptista. O assalto estendeu-se «entre as 22:48 até 01:20 a hora que os marginais a seu bel-prazer cumpriam a sua missão».

E refere ainda o piloto no mesmo documento-queixa, “no dia 03.04.2010, pela 10:30, contactei o Sr. CMDT da esquadra, o qual com conhecimento orientou um patrulheiro e algum pessoal especializado para avaliar os danos e prejuízos causados pelo meliantes (ver lista)”.

Enfim, no dia 06 de Abril de 2010, por volta das 17 horas, diz o documento-queixa do Mateus, uma viatura da polícia militar violou a sua propriedade com o intuito de capturar o seu actual trabalhador, Manuel Raimundo Muhongo, como não o encontraram por ele estar ausente, levaram o sobrinho de 20 anos, Domingos André (Mingo), que foi detido e encarcerado nos calabouços da polícia militar, um puro e simples rapto, apesar de Mingo não ser militar, o que levou o proprietário da Monte Belo a questionar, “Mas porquê!? O que é que estará por trás disto tudo?”

Entretanto, já nessa altura (a partir do 07.04.10) pessoas desconhecidas já estavam a construir as suas moradias dentro da Monte Belo, com apoio de pessoas armadas fazendo escolta, o que foi de imediato comunicado à polícia, que dessa vez prontamente agiram e prenderam os pedreiros que se encontravam no local. Porém, diga-se, foi sombra de pouca dura, pois menos de uma hora mais tarde os mesmos foram soltos por ordem do chefe Celso, que não justificou esse procedimento, mas explicou, a propósito do rapto de Mingo, que essa questão ultrapassava as suas competências aferindo que o caso envolvia uma outra autoridade, militar.

Entretanto, nada aconteceu aos indivíduos que vandalizaram a quinta do piloto militar, Mateus Félix, Dona Luciana não foi incomodada de modo algum por ter proferido evidentes e comprovadas calúnias; o chefe Baptista, claramente posto em causa pelo seu superior hierárquico, Comandante Celso, ao que parece continua afecto a 45ª esquadra como se nada se tivesse passado, não houve nenhuma sanção que fosse aplicada para pôr termo à selvajaria, independentemente do facto de se saber se os motivos eram fundados ou não fundados.

Não há sanções em Angola, salvo aquelas que estão relacionadas com um facto por demais escandaloso ou resultante de um flagrante delito. Não há, até porque mesmo que pareça haver sanção, sempre haverá, também, maneira de a resgatar, e libertar aquele que dela foi alvo.

Lista nominal de danos provocados pelos marginais na Quinta Monte Belo
(autor: Mateus Francisco Félix)

Danos ambientais. Árvores & plantas
- Derrube de 467 mangueiras
- Derrube de 100 cajueiros
- Derrube de 50 sentinelas
- Derrube de 10 pitangueiras
- Derrube de 70 nei
- Derrube de 359 mandioqueiras
- Derrube de 25 eucaliptos
- Derrube de 27 goiabeiras
- Derrube de 11 limoeiros
- Derrube de 7 laranjeiras

Danos imobiliários
- Dos 4 hectares de vedação existente na altura, foram derrubados 400 metros aproximadamente.

- Invasão da propriedade, tendo terminado com esbulho violento.
a) Utilização de 7.000 blocos de cimento.
b)Utilização do tanque de água
c) Utilização de areia, burgau e todo o material de construção que se encontrava no terreno.
d)Levantamento de 12 casebres.

E) Roubo de animais:
1 – Dos 77 porcos só restam 7.
2 – Dos 39 cabritos só restam 2.
3 – Das 100 galinhas do mato restam 2.
4 – Das 34 galinhas vicuca não resta nenhuma.
F) Mataram os cinco cães de guarda para melhor se sentirem.
G) Espancaram o empregado várias vezes no intuito de o intimidarem e expulsarem-no.
H) Arrombamento do contentor que servia de dispensário para qualquer stock de material, dando origem ao roubo de um motor de viatura, 6 tambores, 7 baldes de tinta de água, 50 chapas de zinco, 6 andaimes, etc….

OBS: De salientar que todas as investidas dos mesmos marginais foram sempre do conhecimento da polícia local (Município de Viana), sendo assim na pessoa do próprio comandante de Viana e encabeçada pelos Srs. Baptista e Celso, oficiais do Comando da VIIª Divisão de Polícia e colocados na 45ª esquadra do Kapalanca, que são acusados de darem guarida aos mesmos marginais. Dizer também que, segundo os mesmos marginais que já estão instalados no terreno, os oficiais atrás citados já têm as suas respectivas parcelas dentro do mesmo imóvel, por isso todas as queixas feitas nunca culminaram em detenções e ou diligências, pelo órgão policial.

Luanda, 24 de Agosto de 2010
Mateus Francisco Félix

Análise sumária sobre os subsídios de António José Ventura. Da independência do poder judicial na constituição da República de Angola



Albano Pedro

António José Ventura, jurista angolano da nova vaga, bem conhecido nas lides do activismo dos direitos humanos, que humildemente se apresenta como estagiário em quase tudo o que diz respeito ao exercício do Direito (docência universitária, advocacia), oferece-nos a sua primeira obra técnico-jurídica numa tentativa “estagiária” de se apresentar entre os fazedores de opinião jurídica. Mas, com esta obra António José Ventura não é o estagiário que pretende ser por duas interessantes razões: a primeira, por abordar matérias com as quais lida no campo profissional e ocupacional há anos, tendo contribuído significativamente para a promoção da justiça, e do sistema inerente, em Angola através da AJPD (Associação Justiça, Paz e Democracia) ao lado de colegas com reconhecida experiência no domínio como Fernando Macedo e Pedro Romão; a segunda, porque a idoneidade técnica da obra com que pretende “estagiar” no domínio da literatura jurídica foi testada e aprovada por uma das maiores e melhores editoras de literatura jurídica da lusofonia que é a Almedina, sendo neste particular uma prova de ter passado a fase de simples estagiário.

Na verdade, a competência técnica que procura impor com o seu humilde “estágio” técnico-jurídico há muito foi provada pelos cidadãos, sobretudo angolanos, que fartas vezes o escutaram e continuam a escutar, com destaque na Rádio Ecclésia, a advogar o respeito pelos direitos humanos na vertente da realização da justiça e desenvolvimento do seu sistema, oferecendo todo o sentido utilitário dos instrumentos jurídicos positivados em Angola. Aliás, a nota prefácica de Fernando Macedo é neste sentido propositadamente eloquente: « (…) Formado em Angola, mas honesto e intelectual cidadão do mundo, o Dr. António Ventura convoca a universalidade da teoria e doutrina do Constitucionalismo Liberal Democrático Moderno, convoca o pensamento de angolanos em sintonia com o pensamento universal, sem complexos de inferioridade ou superioridade, e inscreve o debate sobre o tópico sobre o qual se debruça, radicado factualmente no contexto particular da cultura e política angolanas, numa esfera pública mais ampla, nomeadamente a da comunidade científica e da opinião pública mundiais (…)». O tema: independência do poder judicial, é politicamente pesado e exige fôlego intelectual na sua abordagem. Pior. Invoca “demónios” de um sistema político confuso que impera como regime-sombra sobre um Estado que se pretende Democrático e de Direito provocando convulsões repulsivas aos cultores da democracia representativa quando colocados em face do problema da separação e interdependência de poderes. São demónios cujas feições medonhas se identificam com a nomeação dos juízes pelo Presidente da República expondo o horror do desvio de poderes entre os órgãos de soberania do Estado. António José Ventura, na sua coragem característica, enfrenta tais demónios e avança passo a passo nos meandros dos seus domínios assombrosos com uma narrativa técnica acessível até para leigos, onde o discurso académico e a exposição mobilizante se cruzam num esforço de tornar público e abrangente a sua compreensão. Ao longo das 141 páginas que recheiam o livro com acabamentos gráficos invejáveis, o tema é distendido em nuances diversas mantendo a linha da descoberta do enigma final sobre tais demónios. O autor desdobra-se na exposição das características do poder judicial e modelos propostos; ataca a questão da independência do poder judicial nos ante-projectos de constituição propostas pelos partidos políticos até quase perder-se em questões de importância administrativo-financeira como a remuneração dos juízes e depois recupera do «pormenorismo» e sobe arfando para os montes da problemática da independência do poder judicial onde panoramiza várias questões como os estatutos dos juízes e as incompatibilidades que lhes são legalmente impostas, volta a descer do monte e quase esbarra com uma questão de nuances absurdas como a da iniciativa legislativa do poder judicial, na verdade inexistente pela natureza do órgão de soberania em questão. Adianta entender a questão como “capacidade” de propor diplomas legais. É discutível. Mas o problema convida a reflexões. Entremeia-se nos modelos de escolha de juízes, enfim, António José Ventura se assume como um “catador” de lixo político que quer descobrir preciosidades jurídicas revirando os detritos num emaranhado em forma de um poder judicial de soberania duvidosa. Nessa caminhada técnico-jurídica recheada de suspense intelectual, percebem-se as inúmeras contribuições decantadas de trabalhos e projectos desenvolvidos em sede da AJPD, embora não escape o cunho expositivo pessoal. Aliás, o autor reconhece justamente.
Embora não se proponha a polemizar directamente as questões que procura esquadrinhar, propondo, ao invés, uma análise comparada, assente em comentários a favor ou contra (os termos do autor são méritos e deméritos), de várias propostas constitucionais de projecção partidária que se ofereceram inglórias para a concretização formal da nova Lei Constitucional, António José Ventura constrói, esquematiza e propõe um contencioso técnico-jurídico, que se desenvolve racionalmente no leitor, envolvendo as várias opiniões propostas pelos partidos políticos e pela Lei Constitucional que arrola como partes interessadas. Procura descobrir “avanços” e “recuos” nas propostas, para depois demolir, com o martelo da crítica com a característica severa habitual nos seus discursos, aquelas que menos se apresentam capazes de assumir a linguagem moderna da Democracia Constitucional de Direito, nos termos em que assume Karl Loewenstein. O que, por si só, revela uma atitude para além das capacidades de um simples estagiário. Claro está que sobre o tema em questão muito há para expor, discutir ou problematizar. Mas, António José Ventura tem o mérito de iniciar a caminhada que levará muitos dos futuros tecnocratas e até ensaístas a seguir. E nesse sentido, o valor histórico da obra é incalculável. É verdade que se queria da obra algo mais do que uma análise comparada de propostas. Esgrimir certos aspectos inerentes ao tema numa perspectiva histórico-constitucional é igualmente necessário para além da necessidade de chamar a colação o debate analítico sobre o polemizável, porque fragilizado, Sistema Unificado de Justiça angolana positivado com Lei 18/88 no olvidável período pré-democrático da Angola pós-independente. Com tais subsídios, António José Ventura proporcionaria igualmente um roteiro analítico sobre a evolução da independência do poder judicial em Angola, embora seja óbvia a sua fraca presença no passado histórico pós-colonial. Contudo, não queiramos tanto para uma obra “iniciática” como sustenta Fernando Macedo. Seria ganancioso demais desejar que António José Ventura nos proporcionasse uma BÍBLIA DO PODER JUDICIAL em Angola. Por isso, basta-nos admitir que o pioneirismo ensaiado com a temática abordada é de reconhecimento e respeito obrigatório. Está o seu autor de parabéns!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A “viagem” de Kinguri. Um reino tranquilo nas margens de um rio (18)


ANTÓNIO SETAS

Mesmo assim, Ngola a Mbande não estava em situação de resistir à onda de protestos vinda de todos os azimutes do seu reino. O povo não podia suportar mais humilhações, a reputação de sua irmã Nzinga andava pelas ruas da amargura, era urgente reagir pois tais pressões populares são sempre aproveitadas por algum Maquiavel ávido de poder, e a continuar nessa senda de desfeitas e vexames o seu trono estava em perigo de cair. Portanto, decidiu sem dar conta à irmã dos seus projectos, romper o pacto com os portugueses e atacá-los. A ideia, por necessária que tivesse sido, não surtiu nenhum efeito positivo, muito pelo contrário, precipitou Ngola a Mbande numa descida vertiginosa que o levou de titular do poder político... à morte.
Depois de sucessivos desaires, derrotas militares e fugas, pontuadas por uma ocupação forçada da ilha de Danji, no rio Kwanza, “pouco mais comprida do que uma milha, tão larga quanto dois tiros de mosquete e seis jornadas distante de Cabasso”(Cadornega), o rei da Matamba viu-se sitiado pelas forças lusas. Os seus homens começaram a abandoná-lo e Nzinga, segundo consta na tradição, teria aproveitado a desastrosa situação em que ele se encontrava, atacado por intrusos, abandonado e apontado com o dedo de todos os desastres sofridos pelo reino, para envenená-lo, e pôr assim violentamente um termo à sua vida. E de nada serviu ela protestar, e, com fingida pena, procurar culpar outros do seu próprio fratricídio. Para a história ficará, ad eternum, a probabilidade de ter sido ela a autora desse acto, que, crime ou não, lhe abriu em grande as portas do poder absoluto do reino do Ndongo.

A exótica coerência de Nzinga a Mbande
Depois do baptismo de Nzinga a Mbande, havendo por parte do governador Corrêa de Souza alguma relutância em combater essa mulher, que, para todos os efeitos era cristã, e não obstante ele ter prometido cumprir a sua palavra, as pressões de Lisboa para se aumentar o mercado de escravos para o Brasil eram tão fortes que o governador não se sentiu apto a agir segundo a sua consciência.
Mas, em Agosto de 1623 muda mais uma vez o governador, tendo assumido esse cargo o bispo Frei Simão Mascarenhas (João Correia de Souza, de 12 de Outubro de 1621 a Maio de1623, Pedro de Souza Coelho, de 2 de Maio de 1623 a Agosto do mesmo ano, e D. Fr. Simão Mascarenhas, de 10 de Agosto 1623 a 1624) , o que incitou a fresquíssima cidadã lusa dona Anna de Souza, aliás Nzinga a Mbande a insistir junto desse dignitário para que Portugal cumpra as suas promessas e devolva os homens do seu reino que tinham sido levados por traficantes de escravos. Ora, o tráfico de escravos era um grande negócio na altura e Portugal não estava interessado em abandonar essa fonte de rendimento. A Coroa portuguesa fez arrastar as negociações, fez que fazia e deixou de fazer, até que a certa altura, convencido de que com essa “Dona Jinga” não havia margem para dar confiança, decidiu aplicar a divisa, “para grandes males grandes remédios”, e, em 1625, o então governador Fernão de Souza (de 22 de Junho 1624 a 1630) decidiu acabar com a supremacia crescente de Anna de Sousa. Para isso, mandou pela força das armas colocar no trono do reino do Ndongo (sediado na região das Pedras de Mpungo Andongo) um parente dela, Ari Kilwanji,, que de facto não passava de um rei-fantoche, pronto a fazer o que os portugueses lhe ordenassem. O homem deixou-se baptizar, adoptou o nome cristão de Filipe, nome do rei de Espanha que então governava o reino lusitano, e comprometeu-se a prestar vassalagem ao colonizador, fornecendo 100 escravos por ano à Fazenda Real.. Bento Banha Cardoso, capitão- mor do governador, foi encarregado de executar esta missão. Reinava então o espanhol Filipe III.
Com o evoluir dos acontecimentos claramente hostis à sua pessoa, Anna de Souza acabou por decidir “mudar de casaca e vestir a dela, obedecendo ao que a sua natureza lhe pedia. Renegou o baptismo e assumiu-se como Rainha Jinga., o que não incomodou sobremaneira os Portugueses, Estes, arvorando um “não-te-rales” arrogante, entenderam que seria fácil domesticar esta mulher, considerada como uma espécie de fenómeno folclórico profusamente exótico. Dizer que para ser respeitada se vestia de homem, com as habituais peles de animais, usava machado à cintura e manejava sem dificuldade o arco e a flecha, dá uma ideia da sua entrega ao exercício do poder, embora esse porte catalogado como pueril pelos Portugueses. Além disso, o que já não é pouco, ela exigia ser considerada rei e não rainha, mantendo mesmo, à maneira de rei, o seu harém, composto, desculpem o pouco, de mais de cinquenta jovens que eram para todos os efeitos as “suas mulheres”, numa demonstração de vitalidade sexual que qualquer rei homem não poderia desdenhar. Algo que não lembraria ao Diabo, nem tão-pouco às mais belicosas feministas do século XX e XXI.
Sublinhe-se que, ao contrário de muitas outras histórias de rainhas africanas, Jinga não foi uma figura lendária. Existiu em carne e osso, há documentos mais que suficientes que o comprovam, entre os quais se contam cartas suas, o que para a época era raríssimo numa mulher africana. Nzinga a Mbande, de facto, tinha sido educada por frades italianos e aprendera a ler e escrever
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“Jinga” era “tembanza” Mbangala
Para compreender inteiramente o relato dos acontecimentos que balizaram por um lado a subida de Nzinga a Mbande ao posto supremo do reino da Matamba com o título de ngola a kilwanji , por outro, a sua ferrenha vontade de se assumir como Mbangala, atentemos à sua ascendência. Como já vimos, o nome Nzinga a Mbande aponta para uma evidente origem Tumundongo, mas não assim tão linear quanto possa parecer. Do nome Nzinga constam antepassados que teriam interferido na tomada de poder de um ngola usurpador, da dinastia nzinga a ngola a kilombo kya kasenda, «que deixou uma lenda terrível de déspota, com «uma insaciável sede de sangue humana (Cavazzi, I)». De facto, durante as década 70, 80 e 90 do séc. XVI, o poder no Ndongo (Angola) parece ter passado para outros grupos de filiação que controlavam um outro título político.
«O intruso chamava-se “Jinga (Nzinga) a Ngola a Kilombo kya Kasenda, originário de linhagens Pende. (Miller, 1976)».
Depois da morte de Ngola a Mbande, que deverá ter ocorrido não em 1627 como pretende Cavazzi, mas em 1623, (segundo Cuvelier, Biographie Coloniale Belge, vol. II, pág. 471), sem perca de tempo Nzinga tentou apaziguar os portugueses, dando-lhes a crer que uma vez morto o rei rebelde, ela ali estava, consagrada no Santíssimo Sacramento do baptismo, para fazer as pazes.
Mas, apesar de ser verdade que este foi o seu discurso virado para o mar, destinado a acalmar os invasores lusos, para leste e nordeste, para os seus, os da Matamba e do Ndongo, a canção era outra.
Sabe-se que pouco tempo depois da sua subida ao trono começaram os preparativos de guerra, o retorno às tradições que consagravam o poder dos reis conquistadores de África, que nesse tempo recorriam a estratagemas cruéis, ritos sanguinários, sacrifícios, e violações ostensivas de leis, estritas sim, mas unicamente para os seus súbditos.
Esses ritos, evidentemente, ofuscaram e escandalizaram todos os observadores vindos da Europa nesse tempo, habituados a outras práticas de manutenção do poder político, por estas terem evoluído consideravelmente depois do apogeu de tribos muito antigas, como os Godos, os Visigodos, os Celta, Ostrogodos, Saxões e outros Francos, que mais de um milénio atrás tinham recorrido a rituais semelhantes aos dos africanos do século XVII, e só com a passagem dos séculos tinham sido substituídos por outros, menos sangrentos é certo, mas tanto ou mais cruéis que os dos africanos. Basta relembrar a sangrenta e torcionária Sagrada Inquisição dos católicos!
Neste clima de extrema violência, pontuado ao tempo pela morte de Ngola a Mbande, restava a Nzinga um último obstáculo a transpor para consolidar definitivamente o título de rainha do Ndongo, o seu sobrinho, filho do falecido Ngola, único e legítimo herdeiro do trono. De pequenino tinha sido entregue pelo pai aos cuidados de “Cassangola”, de facto Kasa ka Hango, um ex-título vunga, originário do Libolo, nessa altura nas mãos de um bando de Mbangala que, segundo a forma normal de aquisição de títulos políticos tomara esse nome. O Mbangala Kasa ka Hango aceitou a missão, educou e defendeu o filho do Ngola contra possíveis tentativas de vingança por parte de Nzinga, que nunca esquecera o assassínio do seu próprio filho pelas mãos do seu irmão.
Depois de vários esforços infrutíferos para se aproximar de Kasa, Nzinga a Mbande acabou por atingir esse objectivo utilizando a eterna arma feminina, a sedução. A tradição vai mesmo mais longe, assegurando que houve casamento entre os dois. Porém, na interpretação que se impõe para esse tipo de narrativas, e embora o casamento possa ter sido uma realidade, o importante é que mais uma vez nos encontramos perante a cessão de um título, decorrente desse casamento, neste caso o título “filho”, simbolizado pelo sobrinho de Nzinga, do qual ela se apossou e, a acreditar na legenda da tradição, matou e atirou o corpo morto para as águas do rio Kwanza.

Neste ponto da história, impõe-se uma abordagem mais aprofundada do papel desempenhado por Kasa ka Hango nesta tomada de poder por parte de Nzinga a Mbande.

Imagem: goodreads.com

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Alberto Neto acusa. JES nunca prestou juramento à Nação


A situação actual da Costa do Marfim e os desenvolvimentos subsequentes provocaram uma grande movimentação política e diplomática. Pontos similares à realidade vivida em Angola proporcionaram muita polémica, mas também alguns equívocos que desencadearam acesos debates dentro e fora do país, quanto mais não seja desde que o Presidente da República de Angola a quando da apresentação de votos de Novo Ano ao corpo diplomático, posicionou-se oficialmente a favor de Laurent Gbagbo, apanhando de surpresa todo o mundo, (União Africana, a Cedeao, a União Europeia, FMI, BM, as Nações Unidas, com excepção da Rússia e China, todos foram unânimes em reconhecer Ouattara como Presidente legalmente eleito). Contrariamente a posição dos citados, Dos Santos promoveu Gbagbo como presidente constitucional. Esta atitude considerada corajosa pelos seus aficionados, aventureira pelos detractores, colectou igualmente suspeitas do porquê que o PR haveria de tomar tal decisão. Para iluminar algumas zonas escuras e obscuras, além de outros esforços, buscamos opiniões e conhecimentos de um dos protagonistas do episódio de “um dos processos eleitorais mais longos do mundo, o de Angola, rico em peripécias e ambiguidades”; trata-se do Professor Doutor Alberto Neto, Presidente do PDA, terceiro mais votado nas eleições que tomaram parte o Presidente José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi.

Félix Miranda. Foto, Garcia Mayamona

Folha 8 – Alberto Neto - PDA, pode-se considerar como desaparecido em combate ou ainda no activo?

Alberto Neto – Estou bem de saúde, no activo em todas as frentes e sempre atento ao desenvolvimento da situação nacional e internacional.

F8 – Batemos a porta para pedir seu parecer em relação a situação candente da Costa do Marfim que tem picos de semelhança com o que foi por vocês vivido. Comecemos por dentro?

AN - No momento da situação política e económica endógena e exógena do nosso país, e claro está que em relação a isso acompanhamos todas as situações que nos levam a constatar que os nossos posicionamentos ou pronunciamentos nos últimos anos tem a sua razão de ser e hoje mais do que nunca a história nos dá razão. Quando se fala sobre a situação das lideranças, da Constituição, da presidência da República, da mudança do regime semi-presidencial ao presidencialismo obtuso, nós temos que fazer uma análise e certificarmos que tínhamos razão quando em 1992 e nos anos seguintes, entendíamos que o presidente de um partido político não pode por razões evidentes criar condições de eleição sem ser eleito. Por outras palavras, um presidente de um partido político não promulga uma Constituição a não ser que seja um presidente democraticamente eleito. A partir daí, a evidência está a nos dar razão, pelo facto de: a Constituição de 2010 é um aborto jurídico. Havia um mecanismo para promulgar essa Constituição. Esse mecanismo seria a necessidade de se realizar a segunda volta das presidenciais em 1992. Isso não foi tomado em consideração e o resultado está aí: um presidente não eleito promulga uma Constituição que nem sequer foi referendada.

F8 – Está aqui a evocar um caso que vem a propósito, as eleições de 1992. Na primeira volta foram muitos a concorrer para as presidenciais, ficaram dois, José Eduardo dos Santos e Savimbi. Alberto Neto foi no global o terceiro. A segunda volta não se realizou, 18 anos se passaram. Mesmo assim o processo não foi concluído?

AN - Não foi. A prova é, quando nós sempre nos pautamos pelo rigor jurídico e pela observação da Constituição de 1992 indicando da necessidade que havia de se criar os mecanismos de transição e ao mesmo tempo de democratizar o país, as instâncias do partido no poder, seu aparelho político, entenderam que tinham de passar por cima.

F8 – De que mecanismos se refere que deviam ser implementados para este processo de transição?

AN – Seria por conseguinte a necessidade de assegurar o regime semi-presidencial. E o regime semi-presidencial só se garante através de eleições, tanto para Assembleia Nacional, como para presidência da República. Não pode haver um regime semi-presidencial em que um presidente continua eternamente sem ser eleito. Por outro lado, mesmo num regime presidencialista não pode haver um presidente que se assegura de todas as funções. E ainda continuamos a dizer, devido a inconclusividade do processo eleitoral de 1992, há ainda a necessidade de se fazer a segunda volta das eleições. Senão vejamos: “Hoje se vamos ver, nesta Constituição aborto, há um mecanismo para eleição do presidente da República que é absolutamente incrível, não é aceitável. O Presidente da República é eleito sem que seja necessário uma segunda volta, inadmissível nesta época”.

F8 – Onde se quebra a cláusula, quando já se passaram 18 anos. O que prova ainda hoje o PR ser ilegal?

AN – É ilegal porque não aceitou a segunda volta; é ilegal porque não é um PR eleito. Por conseguinte, um presidente ilegal, não promulga nenhuma Constituição. Por outro lado, também não prestou qualquer juramento à Nação que diz dirigir.

F8 – Pode consubstanciar o que acaba de dizer?

AN – Na Constituição de 1992 e até mesmo nesta, quer dizer que não foi traçado nenhum compromisso entre o Presidente da República e os cidadãos angolanos. O que reina é um compromisso de total submissão, não como reais cidadãos com o direito de cobrar deveres da parte do presidente. Está escrito na Constituição que o PR eleito, antes de tomar o poder, presta um juramento à Nação e por conseguinte a Comunidade Internacional.

F8 – Significa que, não há nenhuma data em que de facto, solenemente o PR prestou juramento?

AN – Exactamente. Nunca o fez.

F8 – O Presidente José Eduardo dos Santos naquilo que é considerada uma posição muito corajosa, remou contra a maré, contra o mundo inteiro e posicionou-se nitidamente a favor de Gbagbo. Para si, como terceiro mais votado nas únicas eleições presidenciais realizadas em Angola desde 1975 e na qualidade de constitucionalista, que explicação isso tem?

AN – Acho que o Presidente Eduardo dos Santos foi mal aconselhado pelos seus juristas e pelos diplomatas que o rodeiam. Nunca se viu o presidente de um país se imiscuir da maneira tão frontal, tão absoluta nos assuntos internos de outro país. Mas há razões que levam o PR a tomar partido pelo Gbagbo, tem a ver com o seu posicionamento anterior ao regime que Gbagbo chefiava, ou seja o apoio que a República de Angola e JES deram à revelia da Assembleia Nacional e consistiu no envio de forças militares em 2002 para Côte d’Ivoire e hoje, rendo a minha sincera homenagem a todos aqueles militares que de lá não regressaram e que a terra lhes seja leve. Por outro, quero dizer que tendo em conta o facto que houve um processo eleitoral que a Comunidade Internacional validou, só pode haver uma arrogância diplomática de Angola que não tem medidas. Mas isso também tem a ver com uma certa orientação que é o seguinte: antes de terem retirado a assinatura nos bancos da Cedeao a Laurent Gbagbo, ele foi retirar todo o dinheiro dos bancos e enviou para Angola. Isto é grave.

F8 – O povo marfinense está cativo, é verdade. O que acaba de afirmar que o Gbagbo esvaziou os cofres do seu país e escondeu-o cá em Angola é um bocado grave. Tem alguns elementos que podem provar?

AN – Que o governo da República de Angola venha desmentir. Sabe que esvaziar os cofres do Estado e mandar o dinheiro para fora é uma técnica que os regimes ditatoriais têm. Também se fez isso em relação a Angola durante as eleições de 1992. Outra, Mengistu Allée Marien, antes de abandonar o poder na Etiópia, levou de seu país para o Zimbabwé uma maquineta de fazer dinheiro. Até certo ponto ele conseguiu viver com esse dinheiro e claro está, isto é um crime que não pode passar por despercebido. Não havia necessidade de se fazer isso, as ingerências nos assuntos internos de outros países têm um tempo determinado. Por conseguinte, enviei uma mensagem diplomática ao presidente cessante Gbagbo, através da Embaixada, creio que recebeu, desejando-lhe votos de Bom-ano e ao mesmo tempo chamar a consciência para que aceite dignamente o resultado eleitoral e não provocar mais morticínios nem uma vergonha para própria África porque um país que acaba de realizar eleições em que há dois governos, duas assembleias, duas administrações, dois exércitos, não faz sentido.

F8 – Outra questão: África, ditaduras, presidências vitalícias. Este status quo, não é pelo facto daqueles que se vêm à testa dos estados, se reverem mais como líderes do que como presidentes num senso republicano?

AN – Isso significa que é necessário ter um “Arrière Cour”. O facto de um presidente cessante utilizar ilegalmente um dinheiro que já não lhe pertence, significa que não está seguro do futuro, é o caso de Laurent Gbagbo. Mais dia, menos dia, ele será afastado do poder. Acredito que ele tenha uma guarida real aqui em Angola ou qualquer outro país, mas com as sanções isto vai criar um maior isolamento na cena internacional e depois disso, só esperamos para ver.

F8 – Salvo alguns casos como da Libéria, os presidentes africanos marimbam-se por estarem isolados do mundo, porque encontram sempre uma guarida no continente. Será que isso os encoraja a proceder conforme?

AN – É bem possível. Nós pensamos que há necessidade de se realizar eleições legislativas, presidenciais, autárquicas ou pelo Parlamento africano no futuro. E para que no futuro não aconteçam situações como do Quénia, da Côte d’Ivoire, mesmo aqui em Angola, em que não há probidade nos resultados, em que o ditador não aceita sair do poder, juristas panafricanos desejam criar ao nível da União Africana, o Tribunal Constitucional Africano, que será a entidade multi-disciplinar, multi-linguística que vai dar os resultados eleitorais, isto para permitir que haja estabilidade, que não sejam as comissões nacionais eleitorais que não são independentes a declarar os resultados.

F8 – Como aconteceu com a Costa do Marfim em que uma das reclamações cola o Presidente da Comissão Constitucional, o ex-ministro Bakayoko, como sendo alguém de muito próximo, até mesmo parente de Gbagbo.

AN - Nesta função cometeu a fraude e não é aceitável.

F8 – Outra questão. O Presidente Eduardo dos Santos disse que não devia haver ingerência, mas o Doutor acaba de afirmar o que outros dirigentes já disseram, denunciando a presença de tropas angolanas lá. A partir deste pronunciamento que interpretação se pode fazer sobre a política internacional angolana?

AN – Ao tomar partido, só significa que ele está a ser enganado pelos juristas que o estão a aconselhar. A declaração feita por ocasião da passagem de ano e diante do corpo diplomático contraria o Ministro das Relações Exteriores de Angola, quando chamado a se pronunciar sobre a situação da Côte d’Ivoire dizia que não era necessário porque Angola não iria se imiscuir nos assuntos internos desse país e achava que a Comunidade Internacional devia ser o órgão reitor para dar uma solução pacífica a questão. Isto significava que na altura naturalmente estávamos a caminhar para um reconhecimento de júri da eleição. Não reconhecer de júri os resultados eleitorais significa que estamos a criar um precedente que não é aceitável.

F8 – Mas foi aceitável o pronunciamento de Margareth Anstee, enquanto Representante Especial da ONU em Angola para as eleições em 1992, ao declarar livres e justas as eleições em que participou com o Presidente José Eduardo dos Santos?

AN – José Eduardo dos Santos na altura aceitou e agora vem a contrariar ao não reconhecer a declaração de Young-Jin Choi, Representante das Nações Unidas nas actuais eleições da Costa do Marfim. Penso que é falta de conhecimento ou está a ser mal aconselhado a nível dos seus assessores e lamento imenso porque um chefe de Estado que quer ter um cariz regional, não pode meter assim o pé na argola.

F8 – Secessão. Os ocidentais dizem que a Democracia é um luxo para os africanos. Será que a secessão é uma alternativa para resolver os problemas africanos ou devíamos voltar a fazer nova revolução para que a Democracia se implante de facto no continente?

AN - Por exemplo, em termos da situação do Sudão mais concretamente, eu penso que estamos em presença de um acordo que permitiu ao povo do Sul do Sudão se pronunciar pela via do Referendo. Sabe que o Referendo é um instrumento jurídico que faz parte das constituições e pela qual o povo sudanês do Sul e na sua globalidade inclusive na diáspora, se pronunciou hoje e podemos saudar assim o nascimento de uma nova nação. E claro está que o pronunciamento de uma nova nação tem as suas implicações do ponto de vista internacional, económico, etc. Penso que é uma situação que foi determinada pelos acontecimentos decorrentes de há mais de 25 anos. Logo, o governo do Sudão aceitou a realização deste Referendo porque não havia outra hipótese e o aparelho de Estado sudanês foi forçado a aceitar esta situação devido ao desenvolvimento da consciência das massas do Sul do Sudão que unidas aceitaram declarar através do “um homem, um voto”.

F8 – Será que Angola está imune de um caso igual ao do Sudão?

AN – Acho que num país onde não é permitido a radiografia democrática, onde cresce cada vez mais a oposição a um regime que opera cortes substanciais no domínio da economia, é bem possível que situações desta natureza empurrem a população para os conflitos de interesse que não são regidos com a táctica, discernimento e a ponderação necessários dos governantes, pelo que leva os governados a se revoltarem e é o que está a acontecer por exemplo na Tunísia, é uma via que vai se alastrando.

F8 – Tal é o caso da Argélia, é o inimaginável que está a acontecer.

AN – O mesmo no Sudão, por conseguinte nós sabemos e os angolanos conhecem perfeitamente que se de um lado houve necessidade de assinarmos acordos com o MFA, acordo de Alvor em 1975, foi porque o povo português rebelou-se contra o sistema fascista em vigor e se Salazar e seus seguidores como Marcelo Caetano, fossem mais inteligentes e tivessem operado alterações ponderadas para criar o princípio da democraticidade em Portugal, não teríamos conhecido um golpe militar daquela natureza por exemplo em que o povo saiu à rua, porque os militares cansados de uma guerra inútil tomaram o comando das operações, então o aparelho da burguesia se desmoronou. Sublinho que em países de capitalismo avançado, o partido no poder como em Angola, não é o MPLA, não é a União Nacional, é o exército, estrutura militar e quando esta estrutura se desagrega, tem roturas, acontece o que aconteceu.

F8 – Em Angola não é o caso, não se vai dar o que se pode imaginar, aqui a estrutura militar parece estar sólida e fiel, não!?

AN – Há fracções, há clãs e há várias identidades. O que é necessário notar é que quando isso acontece e para preservar este partido, esta estrutura tem de ter a maior franja, o maior quinhão no OGE. Significa que nesses países, 70% do OGE é para Defesa, quando devia ser para o desenvolvimento económico, a estabilidade social, educação, saúde, energia, etc.

F8 –Portugal, guerra colonial; Angola, revoluções, seu desfecho de muito dependeu da elevação da consciência dos cidadãos. Porquê que os angolanos, não fazem uso da sua consciência e tomam uma decisão para acabar com este estado de coisas. É também da mesma opinião de muitos, que impera uma cultura do medo em Angola?

AN – A pergunta devia ser colocada aos tunisinos, aos quenianos, aos argelinos, aos sudaneses, a juventude panafricana que, sabendo que estão numa situação extremamente difícil, 79% da população sem emprego, vivendo numa situação de miséria, levou-os à exasperação.

F8 – Acredita neste panafricanismo em Angola com base a consciência nacional?

AN – Acredito que quando o povo entende que a opressão chega a um patamar já insustentável, diz basta.

F8 – E o angolano um dia vai dizer basta em Angola?

AN – O angolano diz basta nos autocarros, nos táxis, nas empresas…

F8 – Mas não passam disso.

AN – É a tomada de consciência, naturalmente já não estamos em 2008.

F8 – A realidade é que, até as elites, professores, quadros em geral que se manifestam no escuro ou na clandestinidade e se queixam da dita morte social porque lhes são negados direitos básicos e essenciais para poderem existir condignamente, fogem a qualquer pronunciamento aberto sobre a situação. Que explicação isso tem?

AN – Essa inteligência que se recusa a levantar a voz para dizer que está a morrer e que eu considero como barrigas de aluguer, não pesam na história. É a juventude organizada, são os sindicatos que rompem com o servilismo vis-à-vis da instituição do poder de Estado que negoceiam e discutem com o Partido no poder. Numa discussão, num diálogo, há cedências de parte à parte, mas quando acontece que o Partido no poder não quer ceder, não pretende ceder, então em princípio a rotura tem que acontecer em qualquer sítio.

F8 – Esta imersão inesperada da juventude tanto da Tunísia que levou a fuga do Presidente da República, Ben Ali ou dos argelinos, pode-se considerar um ponto de viragem crucial da África para uma democracia semelhante à dos países que avançam?

AN – Os jovens da Tunísia na sua maioria tomaram consciência do estado de miséria em que vivem, uniram-se e espontaneamente passaram ao acto para reivindicar melhores condições de vida, que sejam tratados como racionais, reivindicaram medidas que lhes tiram do desemprego, da degradação social e da miséria em que vivem. Lembre-se daquela situação que se criou em Moçambique quando o governo decidiu aumentar sem qualquer negociação os preços dos produtos básicos; o que aconteceu, o povo veio manifestar, sem medo da repressão da polícia, desafiou as balas, houve mortos. E no seio do próprio governo, houve posições contraditórias. O governo foi forçado a fazer marcha atrás porque reconheceu que estava num caminho errado. Por isso, em Angola, naquilo que chamam o Executivo, as posições não são convergentes. Por este motivo é que há as demissões ou exonerações em continuidade.

F8 – Esta metodologia encontrada em colocar um Executivo para se pronunciar em nome dos ministros, ou termos de esperar que passe quatro meses para que tenhamos explicações do porquê dos problemas e das insuficiências, acha ser a mais acertada?

AN – Não é. Ele escuda-se nos funcionários ou seus auxiliares que utilizando os procedimentos das comissões e quando não conseguem fazer o trabalho o que acontece é a demissão. Não é normal que um PR não seja responsável de nada. Mas quando há uma situação difícil, por exemplo, no domínio da TAAG, da Energia, da Água, da Educação, da Saúde, são apontados os dedos aos assessores. No fundo sabemos perfeitamente que as orientações que vêm de cima são para ser cumpridas e essas orientações são erradas.

F8 – Sobretudo esta forma de informe, em que não se dá o espaço de debate, está-se a dar uma imagem ao mundo que em Angola está tudo bem.

AN – Mesmo na Assembleia Nacional havia de ter espaço para o debate aceso e contraditório. Vejamos o que se faz noutras democracias, é isso que eu pretendo, mas que não se passa em Angola. Deviam debater chamando a oposição para dar sua opinião. Mas os partidos políticos que não têm tal assento no Parlamento, não são, nem tidos, nem achados. Eu gostaria de debater com quem quisesse para que observássemos as situações no domínio socioeconómico e outras questões referentes a actualidade, mas naturalmente isso não é feito, porque não há vontade política.

F8 – No seu ver, existe patriotismo angolano, sobretudo no aspecto identitário?

AN – Este patriotismo está muito deficitário.

F8 - E acredita que nesta situação, Angola existe como tal?

AN – Naturalmente quando o patriotismo é mal feito, é mal gerido pelos dirigentes que deviam dar o exemplo, o que é que quer que se faça? Não devíamos nos esquecer que o patriotismo é uma ideologia que deve fomentar a unidade nacional.

F8 – O que mais parece é que Angola é cosmopolita. Normalmente acontece a nível das capitais, mas no contexto angolano é na sua dimensão quase global. Que opinião tem sobre isso e que legado vocês pretendem deixar?!

AN – O legado que o Executivo está deixando é o sistema da corrupção que a juventude vê. Há a possibilidade de mudar este estado de coisas, mesmo a nível das terras que é um problema sério em que se prefere manter as terras ao abandono, em que as populações são desapossadas, em tudo isso quem manda, quem governa é uma elite que não deixa que o fruto das nossas riquezas seja redistribuído para as populações, que se contenta com a propaganda do género: “construção de um milhão de casas”.

F8 – Mas o Executivo jamais fez menção a isso!?

AN – Mas tínhamos dito que isso era inviável, mesmo para a juventude quando se diz que vocês vão ter uma casa, uma casa que custa 35 mil dólares, onde é que vai encontrar esse dinheiro se o Micro-crédito funciona ao nível de 500 dólares, se por outro lado não se lhes dá a possibilidade de poder pagar as casas que são anunciadas. Isto é um episódio, um paradoxo.

F8 – Mas a juventude pára por aí, algumas lamentações, alguns cochichos e nada mais.

AN – Penso que não, ela tem a sua maneira de reagir. A organização da contestação política e ideológica, isso é importante.

F8 - Dizem que a reacção é mais imediata e intensa quando for em questões de tribalismo, conflito Norte/ Sul.

AN – A rotura para um regime democrático em Angola não pode passar pelo tribalismo, mas pelo contrário por uma unidade de acção política em que os valores democráticos devem ser preservados e é o apelo que lanço à juventude para que, de uma maneira ponderada fazer a unidade a volta de princípios democráticos e não a volta de princípios retrógrados.

F8 – Quando se fala de nacionalismo, é xenofobia?

AN – Não é. Em Angola até diz-se que nós temos várias nações.

F8 – Inclusive a chinesa?

AN – Sim. Até hoje já se pode ver que há desempregados chineses que afluem para encontrar emprego em Angola e eu não vejo juventude desempregada que vai para China trabalhar. Pode ir um ou dois, mas não em massa. E por outro lado gostaria de tirar a atenção que em situações de eleição, nós temos que pedir ao governo a não importação de mão-de-obra que sobre capa de trabalhadores de uma empresa, são no fundo soldados. Isto aconteceu em 2008. Havia chineses e brasileiros que não eram trabalhadores, eram soldados para defender, não sei o quê. Agora eles foram-se embora e pergunto: como ficaram as estradas? Esburacadas.

F8 – Há dados e factos para comprovar? Também é uma acusação muito grave.

AN – Continuo a desafiar que me venham desmentir.

F8 – Uma das consequências é o índice de suicídios dos jovens, que não se faz nenhuma referência. A que se deve isso?

AN – É o desespero de uma parte da sociedade. Uma forma de demonstrar que, já que estão cansados, então eu vou meter fim à minha vida.

F8 – Será isto um acto de desespero ou cobardia? Por exemplo, a Revolução Social agora na Tunísia, começou com a imolação de um jovem, mas diante de uma instituição de Estado.

AN – E isso criou um mecanismo de rotura e revolta colectiva. Houve situações desta natureza em Angola que foram facilmente abafadas, estou a referir-me daquele caso da Mingota, diante do Hospital Américo Boavida.

F8 – Mas não houve sequência!

AN - Isto demonstrou que a mentalidade ainda não cresceu.

F8 – Acredita que o PR vai convocar as eleições para 2012?

AN – Que tipo de eleições? Em princípio nós pensamos que deveria ser criada uma Comissão de Revisão Constitucional.

F8 – Nessa altura, a convocar-se as eleições, qual é a opinião do PDA nesse sentido?

AN – A criação de uma Comissão de Revisão Constitucional para um diálogo construtivo e para o esclarecimento da Nação, afim de 1º - Rever o procedimento da eleição democrática do PR.

F8 – Mas perca de tempo e só vantagens para o Partido no poder. E qual a modalidade a inovar sobre o escrutínio, contagem dos votos, anúncio dos resultados, para se evitar uma situação análoga a da Costa do Marfim?

AN – Eu proporia uma Comissão Eleitoral Independente. E mais: como nós estamos no grupo da CPLP, SADC, esta Comissão poderia ser dirigida por um influente de uma outra organização africana.

F8 – E se fosse convidado a dirigir a Comissão Eleitoral, aceitaria ou vai se candidatar?

AN – Não aceitaria porque o meu Partido no Congresso 2007, deu-me o voto para me candidatar afrente do PDA.

F8 – Há aqui uma contradição, diz que o Presidente Eduardo dos Santos não foi eleito, por isso não tem poderes tanto para promulgar uma Constituição, como para convocar as eleições, mas é ele que continua nas vestes de PR e vocês forçados a cumprir.

AN – Repito, um presidente não eleito não pode convocar eleições. Nós estamos num Governo completamente ilegal e é só por causa do facto que o aparelho do poder que se baseia na ilegalidade rasgou a Constituição de 92 e a partir daí, é um Governo de facto e não de júri.

F8 – Terminamos as nossas questões. Entretanto, em três palavrinhas, como terceiro mais votado nas presidenciais de 92, como Presidente do PDA e consequentemente futuro candidato às próximas eleições, que mensagem deixa para os angolanos e não só?

AN – Angola é um país que precisa de se reencontrar. Ao Presidente da República e como disse Voltaire: “O rancor é uma despesa improdutiva”! Sabe que a falta de diálogo, a falta de comunicação e o rancor que o governo tem, não serve os interesses dos angolanos.

F8 – O rancor também é violência?

AN – Sim.

F8 - Mas o Presidente Eduardo dos Santos, pugna pela não violência.

AN – Apenas na teoria. Em relação a minha própria pessoa, é esquisito o rancor que ele tem por mim, não percebo.

F8 – Como é que nota. Soube que um desses dias foi escorraçado no portão do Palácio quando pretendia pedir uma audiência com o PR?

AN – Vê-se na maneira como por exemplo, quer me afastar. Não é porque protocolarmente me queira instalar. Por exemplo, isto aconteceu em 2008, houve uma orientação directa dada ao Tribunal Constitucional para que eu não concorresse nas eleições. “Alberto Neto? – Não. Não pode concorrer”.

F8 – Isto foi expresso?

AN – O PR pode confirmar isso.

F8 – Provavelmente a documentação estava omissa?

AN – Tinha a documentação toda completa. Simplesmente quando se dá uma orientação a um Tribunal lambe botas é isso que acontece.

F8 – O Executivo ainda agora disse que vai trabalhar para refinar o aparelho de justiça, finalmente não é independente, como garante da Democracia?

AN – É uma justiça de facto, não é uma justiça que é verdadeira. O direito de exclusão é algo de negativo para o desenvolvimento da Democracia em Angola. Por isso, para as zungueiras, os jovens, trabalhadores, sindicalistas e tudo mais, exorto que tomem consciência que estão a ser excluídos e é a partir dos seus rendimentos que podem verificar e avaliar este movimento de exclusão.

F8 – Um breve comentário sobre a política de requalificação das cidades.

AN – Em princípio isto é um crime. Não se percebe com o dinheiro que se tem, até agora não é possível se fazer eleições autárquicas para se determinar dirigentes autarcas em determinados municípios e tomarem conta dos seus próprios cidadãos. As populações que estão a ser empurradas para lugares inóspitos, naturalmente é uma violação dos direitos humanos. Mas um dia isto vai acabar. Mais tarde esse será o cadinho que vai fazer despoletar uma revolta. É necessário que o governo pondere seriamente essas expropriações e as consequências que daí resultarão.

F8 – Mais alguma coisa?

AN – Queria também dirigir-me aos colegas dos partidos da oposição. Nesta sala tem entrado dirigentes com quem temos trocado opiniões e acho que é necessário que continuemos, que o figurino para as próximas eleições legislativas ou presidenciais transcorra de maneira que haja unidade para que consigamos então obter os resultados que o nosso eleitorado muito espera.

F8 – Acha que há muita dispersão e apela para uma união de esforços?

AN – Não é que haja muita dispersão. Há pouco empenho da oposição em realizar as situações de preparação das eleições.

F8 – Diz-se que a UNITA não consegue apontar o Norte para o conjunto da oposição. É da mesma opinião?

AN – Por exemplo, não é fácil falar-se com o Presidente Samakuva.

F8 – Já alguma vez solicitou um encontro; acha que este “a parte” de Samakuva favorece o MPLA?

AN – Eu telefono para conversarmos e não há resposta. Isto pode favorecer o senhor José Eduardo dos Santos, sim senhora.