terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Show de Bento Bembe na LAC


Por carência de promoção-marketing apropriado passou um quanto despercebido o formidável Show de Bento Bembe na LAC. Foi no dia 10 de Agosto do ano em curso no programa Café da Manhã do Zé Rodrigues. Por essa ocasião, o então secretário de Estado para os Direitos Humanos conseguiu negar a realidade e circunscrever a mesma ao que ele consegue vislumbrar pelo binóculo que lhe ofereceu o “Executivo” angolano e que ele pôs no olho da maneira que lhe disseram para pôr, ao contrário. Inventou um novo campo semântico para os Direitos Humanos, ao dizer que o “governo” tem feito um trabalho formidável no sentido de melhorar as coisas, como ficou mais que provado quando Sua Excelência Presidente da República anunciou que a juventude angolana poderia agora ter uma casa por 60.000 dólares, em seguida, mostrando-se ainda insatisfeito com esta descoberta de sociólogo inovador e de grande arrojo, eis que a uma pergunta do Zé Rodrigues sobre a condenação dos “terroristas” cabindeses, o nosso Bento ainda foi mais longe na ousadia da análise: pegou nos direitos humanos violados em Cabinda, meteu-os numa espécie de grande almofariz imaginário e misturou-os com todos os atropelos cometidos contra os mesmos em Angola, “Por toda a parte se cometem, não é só em Cabinda», disse ele, certificando que a culpa não é do “governo”. Depois, juntou água quanto baste e diluiu. «Tá ver? Não se vê nada. Só os maldosos é que vêem», e rematou sereno e seguro de si: “E como Angola faz parte integrante da comissão de direitos humanos da ONU, como é que se pode dizer que viola?...” Elementar. Mas não é “dear Watson”, não, elementar é o raciocínio. Primário, mesmo.

Começa a cair o reino bajulador de Bento Bembe

Regime coloca no olho da rua bajuladores comprados em Cabinda

Com a Assinatura do Memorando de Entendimento do Namibe, a 01 de Agosto de 2006, entre o Governo de Angola e o Fórum Cabindês para o Diálogo (FCD) de António Bento Bembe, houve por aí muito boa gente que pensou ser possível alcançar a paz em Cabinda, mas o que temos é guerra; houve gente que acreditou no começo de uma era de justiça e de combate à discriminação e o que temos é injustiça e sectarismo. Mesmo longe da pressão imposta por Luanda aos cidadãos cabindeses, fora das suas terras estes últimos sentem-se atingidos por um clima de desconfiança unicamente por serem oriundos do conclave e supostamente separatistas.
Bento Bembe, instituído à pressão monetária como parte da solução, disse aos jornalistas por ocasião do primeiro aniversário da assinatura do Memorando de Entendimento de Namibe: «A paz em Cabinda é hoje um facto». Nos dias de hoje o seu estrabismo não melhorou, piorou (ver quadro).
Em Cabinda, hoje, o que se vê e o que se vive é uma triste realidade, as liberdades diminuíram na preocupação constante do regime em divulgar para o exterior uma imagem de paz, a lista de agressões, espancamentos, perseguições, prisões arbitrárias e prisioneiros de consciência aumenta de dia para dia e ainda se fala de assassinatos e de desaparecidos, nas regiões mais recuadas ir às lavras continua a ser uma aventura, as buscas nas casas e o confisco de armas de caça (caiangulos) faz parte, periodicamente, do dia a dia em algumas zonas mais quentes.
Em suma, a situação dos Direitos Humanos em Cabinda caracteriza-se por uma crescente arbitrariedade e violação permanente da Lei.
Quer dizer, as intenções de Paz de 01 de Agosto de 2006 no Namibe e o Decreto de 24 de Outubro que lançou a criação de um Comité Provincial para os Direitos Humanos, após a extinção da Mpalabanda, redundou em mera ilusão.
Como disse o activista José Marcos Mavungo, «(…) a paz alargou-se em considerações que interditam opinar sobre ela e esqueceu-se dos seus valores fundamentais, nomeadamente os autores políticos ao serviço das aspirações legítimas das populações, a igualdade dos cidadãos perante a Lei, a primazia do Direito, o Direito do cidadão à vida, à opinião, à informação e à verdade».

O problema de Cabinda está na solução de JES

Por outro lado, o Executivo, por mais que apregoe uma pacificação a longo termo, já não restam dúvidas de que considera, no seu foro interior, o balanço destes anos de “paz” como sendo francamente negativo. Para JES os “obreiros” dessa paz não cumpriram convenientemente as ordens do regime. Culpa não podia ser dele, é claro, toca pois a ir buscar a tesoura e… corta!, para o olho da rua os desenquadrados!
No que toca a Cabinda, por exemplo, temos Macário Romão Lembe, um dos braços direitos de António Bento Bembe, que foi oficialmente exonerado do seu cargo como vice-governador do enclave, mas vista por muitos cabindeses como sendo uma espécie de colónia. Com ele, foram para o estaleiro, demitidos das diferentes e variantes funções que exerciam, Feliciano Lopes Toco, António Manuel Gime, Aldina Matilde de Barros da Lomba, e Vicente Télica. Limpeza da “casa
Recuando um pouco no tampo, recorde-se que num dos seus tautológicos discursos (03.10.10), JES afirmou que os ministros deviam trabalhar mais e falar menos. Por essa ocasião, Bento Bembe sentiu-se em situação desconfortável por não ter pasta e ele não ter, por assim dizer, nada para fazer. Sendo nulas as suas alternativas, o homem-solução resolveu paliar o inconveniente de se encontrar sem fazer nada, portanto, numa lista derepentemente enegrecida pelo próprio PR, a virar para o negro, recorrendo a uma verborreia de salutar alívio, mas que não resolvia coisa nenhuma (reler quadro).
A sua posição foi-se degradando porque, pese embora a opinião então contrária de Ismael Mateus, a solução encontrada no memorando de Cabinda não tinha pernas para andar, apenas era mais um problema.
BêBê nunca foi aceite pelos próprios cabindeses, o que um belo dia incitou o falecido bispo Faustino Madeca a escrever-lhe uma carta, intitulada «A crise actual no enclave de Cabinda», na qual ele afirmava o seguinte a respeito da sua credibilidade no seio dos seus conterrâneos: «Quando um político entra em conflito com o seu próprio povo, perde a sua credibilidade no seu agir, torna-se um eterno ditador».

A doença incurável de BêBê

BêBê fez ouvidos de mercador. Continuou a negar a existência de um conflito armado em Cabinda, considerando as mortes recentes "actos de banditismo" protagonizados por pessoas que pretendem "resolver questões pessoais" enviando às favas os clamores do deputado da UNITA e activista cívico de Cabinda, Raul Danda, que afirmava haver uma guerrilha activa no enclave e que "há gente que mata e que morre de ambos os lados".
Não, BêBê não via nada de nada: as FAA estão em Cabinda de armas e bagagens?... Nada!, segundo Bembe, as FAA estão em Cabinda para pacificar. A sua cegueira atingiu os píncaros do optimismo irresponsável quando afirmou que morre mais gente aqui e acolá, dando exemplos sem o mais pequeno fundamento, « (…) se formos ver as estatísticas da mortandade podemos concluir que em várias províncias morre mais gente do que em Cabinda", salientou. Bobagem, como dizem os brasucas!
É. O raciocínio de Bento Bembe insere-se na longuíssima lista dos casos desesperados de cegueira mental (José Saramago). E o que ele diz dificilmente pode ser contestado, pois, na sua opinião, ele é que sabe, os outros não percebem nada. "Eu, nascido em Cabinda e alguém que já fez guerra em Cabinda, tenho uma experiência da guerra que data de 30 anos. Aqueles que ainda falam da existência de guerra de guerrilha em Cabinda, muitos deles não fizeram a guerra e não a entendem e nem podem definir a própria palavra guerra em si", acrescentou Bembe num arreganho de incomensurável patriotismo. E acrescentou (é melhor sentarem-se antes de ler): "Todos nós lutamos para a independência de Cabinda (!!!), mas é preciso compreender que as coisas mudam e os contextos também", disse ele.
O que é pena é ele só ter razão na segunda parte da frase: «as coisas mudam e os contextos também». Pois é, a luta pela independência de Cabinda, que, em 2006, podia ter sido negociada no sentido de criar um regime de governação autónomo, mas ligado ao país (como a ilha da Madeira em relação a Portugal), hoje já não pode. E o problema é BêBê! E JES.

Ainda em Milão


Marta Fernandes de Sousa Costa*

Em crônica anterior, contei um pouco sobre a estada em Milão. No Teatro alla Scala, onde assistimos à ópera Carmen, o comportamento é o comum nos grandes centros internacionais: sendo o espetáculo marcado para as 20h30’, a entrada é marcada para as 20h, quando todos chegam, confraternizam um pouco, depois se acomodam em seus lugares. Exatamente às 20h30’, as portas do salão se fecham e ninguém mais entra, para não perturbar os artistas e o público. No Brasil, é comum as pessoas chegaram atrasadas e ainda pretenderem ocupar os seus lugares, atrapalhando aos que obedeceram ao horário. Também desperta a atenção o silêncio absoluto, enquanto a peça se desenvolve. Povo educado, acostumado a prestigiar os seus artistas.
Na manhã seguinte, em continuação ao turismo, contratamos um carro com motorista e vamos até Lugano, na Suíça. Cidade charmosa, à beira do lago do mesmo nome, rodeada de montanhas com picos de neve, Lugano possui comércio sofisticado.
No retorno a Milão, vamos caminhar noCorso Buenos Ayres, avenida com comércio excelente, a preços bem mais acessíveis que os das lojas próximas à Catedral de Milão, aquelas mais sofisticadas. As roupas têm preços melhores que no Brasil.
A partir do segundo dia da estada em Milão, chove dia sim, dia não, o que atrapalha nossos planos turísticos.
Assim, optamos por conhecer o Palazzo Reale, antiga residência dos governantes de Milão, hoje transformada em importante museu.
Também teríamos apreciado conhecer a Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, localizada na Igreja Santa Maria delle Grazie, mas estavam esgotados os ingressos até janeiro, quando procurados no início de outubro. Juka, nosso companheiro de viagem, comenta que, entre 1968 e 1972, vindo a trabalho a Milão, inúmeras vezes passou em frente à igreja, sem que houvesse o menor público. Naquela época, não era preciso pagar para ver o quadro célebre. Hoje, além de ser cobrado, é difícil conseguir ingresso, graças ao livro Código da Vinci, que despertou o interesse pela obra.
Milão transmite a impressão de cidade segura, caminhando pelas ruas e pelas estações do metrô, inclusive tarde da noite. Mais tarde, saberemos que uma brasileira teve sua bolsa roubada, na saída do hotel em que estava hospedada, quase perdendo o navio.
No momento de partir, enquanto esperava o ônibus que a conduziria, com outros participantes da excursão, a Savona, para embarcar no navio Costa Serena, com destino ao Brasil, ela, acostumada a levar a bolsa a tiracolo, descuidou-se por um instante, deixando-a, com todos os documentos, sob uma sacola, em cima da mala. Quando o ônibus chegou, cadê a bolsa? Obedecendo ao horário, o ônibus turístico partiu. Desesperada, junto com uma amiga, ela correu para a Embaixada Brasileira, onde foi atendida com gentileza, conseguindo bloquear o cartão de crédito e obter um passaporte novo. Graças ao atendimento agilizado, pôde pegar um táxi até Savona e chegar a tempo de embarcar. Ponto para o Brasil.
*www.martasousacosta.com

Receitas do petróleo de Angola prejudicam transparência, de acordo com novo relatório


Discrepâncias significativas nos dados publicados pelo governo angolano sobre os seus rendimentos na indústria petrolífera subvertem as tentativas do mesmo de libertar-se da sua reputação de corrupto, de acordo com um novo estudo da Global Witness e da Open Society Initiative for Southern Africa – Angola (OSISA-Angola).
"A dimensão destas discrepâncias é chocante, totalizando milhares de milhões de dólares. Os problemas com os dados oficiais não fornecem provas de corrupção, mas suscitam questões profundas quanto à qualidade dos números oficiais de Angola relativos a receitas petrolíferas" – referiu Diarmid O'Sullivan da Global Witness.
"O povo de Angola tem o direito a informações completas e fiáveis sobre os ganhos do país provenientes do petróleo, os quais são vitais para o desenvolvimento de Angola. Os números publicados pelo governo são inferiores a este padrão e precisam de ser consideravelmente melhorados" – referiu Elias Isaac, Director Nacional da OSISA-Angola. Angola depende grandemente das receitas do petróleo: cerca de dois terços do rendimento do governo e 42,5% do Produto Interno Bruto do país provêm actualmente do petróleo. Desde 2004, o governo tem respondido a preocupações relativas a corrupção na sua gestão das receitas petrolíferas através da publicação de números pormenorizados sobre a produção, exportação, preços e impostos relacionados com o petróleo.
No entanto, o relatório revela sérias lacunas e anomalias nos números de 2008 provenientes das três fontes mais importantes de dados sobre o petróleo: os Ministérios das Finanças e do Petróleo e a poderosa empresa petrolífera estatal, a Sonangol. As principais conclusões incluem o seguinte:
Uma discrepância, de um valor teórico de 8,55 milhões de dólares americanos, entre os valores dos ministérios quanto a volumes de petróleo vendido pela Sonangol em 2008. A diferença entre os valores dos ministérios para impostos sobre o rendimento das empresas petrolíferas é de um valor teórico de mais de 1,2 mil milhões de dólares.
Uma discrepância de 87 milhões de barris entre os resultados dos dois ministérios quanto a exportações de petróleo em 2008.A falta de uma explicação visível para esta diferença é profundamente problemática.
Em 2006, os meios de comunicação noticiaram que empresas petrolíferas tinham oferecido mais de 3,2 mil milhões de dólares em bónus de assinatura ao governo de Angola. No entanto, as contas do governo parecem apenas registar 998 milhões de dólares em receitas. Estas não parecem registar grandes dividendos da Sonangol.
Nenhum dos valores oficiais parece ter sido verificado por uma fonte independente. As contas da Sonangol são auditadas de forma independente, mas os auditores proferiram várias advertências. Por conseguinte, os cidadãos de Angola não têm qualquer garantia de que os valores sejam exactos.
Os esforços por parte de Angola para demonstrar transparência não alcançaram as referências internacionais, tais como a Iniciativa de Transparência das Indústrias Extractivas (ITIE). O relatório lança um apelo ao governo angolano no sentido de realizar uma análise independente ás conclusões do relatório e de publicar dados mais completos sobre o petróleo que sejam verificados de forma independente por uma terceira entidade. A Global Witness e a OSISA-Angola apelam ao governo que responda publicamente ao relatório.
* www.globalwitness.org

Nota:

O relatório examina os relatórios anuais do sector petrolífero do Ministério do Petróleo de Angola, dados mensais das exportações e receitas petrolíferas do Ministério das Finanças, relatório de contas da Sonangol e outros relatórios oficiais sempre que pertinentes.
Todos os dados utilizados para a compilação do relatório são de 2008, o ano mais recente em que todas as fontes existentes estavam disponíveis no momento em que foi concluído o relatório em finais de 2010.
Elias Isaac, Director Nacional da OSISA-Angola, em +27 826 131 099 ou em +244 917 453 979
Diarmid O'Sullivan na Global Witness no número +44 7872 620 955 ou emdosullivan@globalwitness.org (em Inglês).

sábado, 18 de dezembro de 2010

CASO QUIM RIBEIRO. Contradições e ocasos no processo de Quim Ribeiro




REGIME BRINCA COM AS ILEGALIDADES FRAGILIZANDO ÓRGÃOS CASTRENSES

A Lei Penal Comum e a Militar não dizem que o HOMICÍDIO VOLUNTÁRIO de um oficial superior da Polícia Nacional, fora de unidade militar ou policial, sem se conhecerem os autores, seja crime sob alçada investigativa da Procuradoria Militar, embora os suspeitos sejam agentes dos órgãos militares ou dos paramilitares. O assassinato a que nos vamos referir neste artigo tem de, algum modo, por fundamento CARTA DENÚNCIA que hoje e agora importa analisar, por ter a provável, atente-se, chancela de um oficial superior da Polícia Nacional que, obrigatoriamente, teria de conhecer o seu organigrama. E é aí que bate o ponto, pois da sapiência profissional do referido oficial pouco ou nada se vislumbra!

Sílvio Van-Dúnem & Arlindo Santana

O superintendente-chefe Domingos Francisco João, oficial sem colocação à disposição no Comando-Geral da Polícia Nacional, teria antes de morrer, escrita uma carta a relatar uma situação anómala que estaria a viver, ao ponto de perigar a sua integridade física.
A dado momento da carta, o oficial em questão diz que tinha sido indigitado, para fazer parte da Comissão Investigadora do caso BNA.

Falso!
Nunca foi investido nessa função. A decisão de não se ter procedido à sua colocação deveu-se ao facto de, há uns tempos a essa parte, ele ter vivido perturbações psíquicas.
Diz o mesmo, noutro sítio, que uma vez, em funções na qualidade de oficial superior,recebeu ordens de Quim Ribeiro para, de sua própria iniciativa, ordenar às tropas estacionadas no largo do Baleizão para deixar, ou não deixar, passar viaturas, por ocasião da passagem da comitiva do presidente da República que estava ali a chegar, para inaugurar o prédio Atlântico.

Estranho!
Tal directiva parece-se por demais com uma aberração, pois um oficial provincial não dá ordens a outro de escalão superior. Depois, acresce a essa anomalia o facto de quando o Presidente da República, nos seus mais de 31 anos no poder, sem ser eleito, quando está na rua, nenhum polícia actua directamente, em virtude de a UGP (Unidade de Guarda Presidencial) assumir, por inteiro, a responsabilidade da sua segurança, com a ajuda de batedores da Polícia de Trânsito, de acordo, mas só com ajuda, pelo facto de estes, igualmente, também estarem enquadrados no corpo militar e militarizado do Palácio Presidencial. É estranho, pois, que um oficial superior da Polícia não saiba disso, quando qualquer cidadão civil, está “careca” de o saber.
Em seguida, o oficial refere-se a um elemento do BNA, que não tem nome e, diz ele, lhe indica o nome dos suspeitos. Não se lembra do nome deste, mas lembra-se do nome de todos os indiciados, com Quim Ribeiro à cabeça e mais um punhado atrás dele. Nome e apelido, sem falha! Formidável memória selectiva. Mas suspeita.

Estas asserções, que podem facilmente ser comprovadas, servem de intróito à análise duma investigação relacionada com uma eventual participação activa do comandante Quim Ribeiro, no desfalque de cerca de três milhões e meio de dólares, no já famoso caso do roubo dos mais de 300 MILHÕES DE DÓLARES nos cofres do Banco Nacional de Angola (BNA).
Esse dinheiro teria sido encontrado, enterrado no quintal duma propriedade situada perto do quilómetro 8 da estrada de Viana e desapareceu, sumiu, e os grandes objectivos da investigação são não só apurar quem se apoderou do astronómico montante e, sobretudo, onde o pôs. E, neste caso, já estão também indiciados, na condição de arguidos presos, por ordem da PGR, os exonerados director provincial da DPIC (Direcção Provincial de Investigação Criminal), o jurista António João, o chefe de Departamento de Investigação Criminal da 7ª Divisão da Polícia de Viana e o Intendente Couceiro, também da 7ª Divisão do mesmo município, todos por suspeição de envolvimento no dossier dos 3.500.000,00, desaparecidos.
Com estas últimas detenções, a província de Luanda, pela primeira vez, fica sem a totalidade da sua direcção, constituindo um facto inédito.
Dado o enorme estradalhaço, espera-se não se venha a tratar de facto de uma investigação imprópria para consumo que deve ser denunciada de urgência, dado o seu pendente para o excesso, sem prejuízo, diga-se, da possibilidade de Quim Ribeiro ter algumas, muitas ou quase todas as culpas no cartório, a ajustar, certamente, mas não com esta tendência de o incriminar a qualquer custo, pois isso só mancha a própria imagem de seriedade que a prestigiosa instituição, Polícia Nacional de Angola e Ministério de Interior, enquanto órgãos sensíveis de soberania devem ter.

Processo não pode ser uma anedota

O autor da carta denúncia aqui referida é, ou melhor, era, pois foi assassinado, um superintendente-chefe da Polícia Nacional, Domingos Francisco João, que a teria escrito e enviado ao então ministro do Interior, general Alberto Leal Monteiro “Ngongo”. Nessa missiva dramática, o superintendente-chefe queixa-se de ter sido vítima duma cabala organizada, por trás da qual oficiaria o comandante “Quim” Ribeiro.
Ele foi realmente muito molestado e alvo de maléficos intentos de pessoas, alegadamente da PN, que o importunaram, perseguiram e chegaram a encarcerá-lo. Essa perseguição foi levada até às suas últimas consequências, pois teriam sido, certamente, essas pessoas que mais tarde o encurralaram perto de Viana, Zango, e o assassinaram.
Num caso como este, será que o juiz que ditou a sua sentença, em processo sumário, não é, na actual fase, um declarante importante a ser arrolado, pela investigação, para se aferir quais as motivações que levaram ao seu julgamento e consequente condenação?

Pode ser que nos autos existam elementos capazes de iluminar alguns contornos da trama, porque o homem se calou para sempre, mas a alegada carta da sua autoria ficou, está aí, em contrapartida, dadas as suas incongruências que atrás revelámos, pairam sérias dúvidas sobre a sua autenticidade.
E essas suspeitas tornam-se tanto mais pertinentes quanto é certo que os trâmites seguidos pelas autoridades de polícia para apurar a verdade dos factos são verdadeiramente inaceitáveis, por violarem a Lei e os Direitos Humanos. Nomeadamente, por nunca se ter visto até esta data uma investigação criminal sobre um caso de Direito Penal comum ter sido iniciado e confiado aos Serviços de Informação ex-SINFO, e agora SISE, que prendeu alguns altos oficiais da Polícia, afectos ao Comando Provincial de Luanda, sem NOTA DE CULPA ou PROCESSO DISCIPLINAR instruído como recomenda o regulamento disciplinar da corporação. Depois de ver em que lamaçal se tinha colocado, o SISE, que violou osart.º 295.º e 321.º ambos do Código do Processo Penal, atirou o brazeiro para a Procuradoria Militar que, em casos como este, é obrigada a respeitar os artigos 36.º e 35.º da Lei n.º 5/94 de 11 de Fevereiro, Lei sobre a Justiça Penal Militar.
Isto, por esta importante instituição de justiça militar, não deve ser banalizada em falsos enredos, ao ponto de ser «forçada» a catalogar tudo, que “certos chefes querem como CRIME MILITAR, quando o objectivo é ajustar contas, muitas vezes pessoais”.
A acção da Polícia Judiciária Militar deve conformar-se com o art.º 5.º da Lei n.º 5/94 de 11 de Fevereiro, principalmente na justificativa, quanto à paragem no seunúmero 1, ao invés, pela graduação dos oficiais em causa, no n.º 2, do artigo atrás citado.
A acção da PJM pretende-se transparente e distante das ambiguidades, por respeito, também, a Lei n.º 4/94 de 28 de Janeiro, principalmente, quanto à definição de crime e os seus agentes, de acordo com os art.ºs 1.º e 2.º.
Como se pode verificar, pela legislação militar, os actos da PJM não podem navegar na suspeição e quando a natureza do crime ultrapassa as fronteiras da farda, como parece ser o caso, deve-se respeitar o articulado 6.º (Crimes Comuns) da Lei 4/94, que desentranha para os tribunais comuns a competência de proceder a julgamentos desta natureza, salvo se queira andar em contramão.
No caso, pretende-se que o órgão proceda com imparcialidade e sentido de justiça à instrução preparatória.
Tudo para se afastar a suspeição de os arguidos estarem “ilegalmente” presos e discriminados constitucionalmente, quanto à Presunção de Inocência, ao manter-se a sua actual condição carcerária.
“Eles estão a fazer pressão psicológica e a obrigá-los a confessar um crime que não cometeram, tudo para satisfazer o senhor ministro Sebastião Martins. Como pode a Judiciária Militar estar a julgar esse crime, quando não foi ela que prendeu, nem tem nenhuma culpa ou prova da prática de um crime, que publicamente, já se lhes imputou. Será que o MPLA tem noção do que está a fazer com estas divisões que certas pessoas vão instigando na Segurança, no Interior e nas FAA”, questionou ao F8 Manuel Constâncio, familiar de um dos oficiais da Polícia detido.
Apesar de ser uma prática recorrente, por muitos órgãos de justiça, deve afastar-se a velha tese “hitleriana” de PRENDER PARA INVESTIGAR, contrariando oart.º 291.º do CPP, mesmo quando as vitímas sejam inocentes e não haja provas sobre algum ilícito por elas cometidos. Desta feita, a investigação militar está impedida de violar não só o art.º 60.º da Constituição: “Ninguém pode ser submetido à tortura, a trabalhos forçados, nem a tratamentos ou penas cruéis, desumanas ou degradantes”, como por ausência no respectivo processo da “indicação das provas que fundamentam a captura”, art.º 253.º do CPP e ainda o art.º 36.º da Lei n.º 5/94 de 11 de Fevereiro.
Isso tudo visando afastar as critícas sobre a existência de uma pressão descomunal, para obrigar os arguidos a confessarem crimes não cometidos e, quando isso acontece, é a banalização do art.º 63.º da CRA que emerge.
Desta feita, sem uma justificativa com respaldo legal este processo parece coberto de nulidade e ilegitimidade, como prescreve o articulado 98.º do CPP, por mais que as justificativas o queiram colocar na esfera e alçada de um crime militar. Mas aqui, as pessoas não podem desesperar, porquanto, no final da instrução o procurador militar poderá, caso verifique que a natureza do crime “não caiba na jurisdição militar, determinará a remessa dos autos à autoridade civil competente”, diz o art.º 41.º da Lei n.º 5/94 de 11 de Fevereiro.
Portanto, a todos se recomenda serenidade, para não se perturbar a instrução e dando, também, o benefício da dúvida à instrução, pese ter todo o processo começado inquinado.
É, na realidade, um evidente atropelo aos foros reservados à Direcção Nacional da Investigação Criminal e à Procuradoria-Geral da República, junto desse órgão, e, no caso presente, não de qualquer modo, mas sim com uns às turras com os outros.

A “colherada” do SINFO

«A ideia genial vem, segundo parece, enfim, não pode ser outra coisa, do novo ministro do Interior, Sebastião Martins, que, na lógica iniciada pelos generais José Maria e Hélder Júnior Kopelipa, que desmantelaram os Serviços de Inteligência Civil e Militar, agora lhes dá continuidade, numa lógica organizada e silenciosa de fragilização desses órgãos de Defesa e Segurança, como se estivessem a preparar um GOLPE de ESTADO ao Presidente José Eduardo dos Santos, sem ele se dar conta”, afirmou Bernardo Kanda, para quem “desde a queda estúpida de Miala, que a Segurança está banalizada e têm acontecido factos antes impensáveis, como a saída dos generais Massano e Zé Grande dos Serviços de Inteligência Militar, por birra do seu chefe, a crise no SME, por birra do anterior ministro, a crise actual na DPIC, no Comando Provincial da PN e na DNIC, por birra do actual ministro, a crise na logística das FAA e a falta de condições dos militares da UGP, mostram que o barco anda a deriva e, quando assim, é estamos mesmo num barril de pólvora”, concluiu Kanda.
Esta visão aqui apresentada parece consequência lógica e inevitável de os principais suspeitos do processo a que aqui aludimos serem pesos pesados da Polícia Nacional, Joaquim Vieira Ribeiro (solto), comandante provincial de Luanda; António João, jurista (preso), director provincial da DPIC; António Paulo Lopes Rodrigues, jurista (preso), director-adjunto da DPIC; João Lango Caricoco Adolfo Pedro, bacharel em Direito (preso), chefe das Operações da DPIC; Domingos José Gaspar, jurista (preso), inspector da DPIC; Palma (preso), chefe de Departamento de Investigação Criminal, Couceiro (preso), intendente da 7.ª Divisão de Viana, todos como vimos serem oficiais com mais de 20 a 30 anos de corporação. Não se trata de “miúdos que brincam de polícia, mas polícias que, muitas vezes, fizeram isso aos populares e oposição, em favor do partido no poder e agora é o próprio regime que lhes faz beber do mesmo fel”. Fantástico. O regime continua a dar tiros nos pés e a vulgarizar a sobrevivência do actual Presidente da República.
Desde a tomada de posse do actual ministro do Interior, houve o que se poderia denominar uma revolução no Ministério do Interior, rolaram algumas cabeças, outras estão prestes a rolar e a vida dos que pensavam fugir às suas responsabilidades passou a ser um “Ai Jesus!”.
Por exemplo, o director provincial adjunto da Investigação Criminal de Luanda, António Paulo Lopes Rodrigues, enviou uma comunicação ao Procurador-Geral da República, dando-lhe a conhecer o tipo de sevícias de que tinha sido vítima da parte de um tal Sr. Muhongo, alegadamente dos Serviços de Informação que “se toma realmente como sendo director Nacional de Investigação Criminal, segundo promessas que lhe foram feitas”, coadjuvado por um chamado de Ventoinha, que, depois de terem submetido dois colegas seus, João Coricóco e Domingos José Gaspar, empregando meios coercivos para os obrigar a dizer a verdade e apontar o nome do comandante Joaquim Vieira Ribeiro, como responsável não só deste caso dos milhões de Viana, mas também por ter forçado confissões no caso “Frescura”, especifica esse documento.
Outro exemplo, como que para corroborar estas denúncias, a esposa de um dos colegas de António Paulo, Josefa Gaspar, esposa de Domingos José Gaspar, jurista e inspector da PN, colocado na DPIC/Luanda, enviou ao chefe do Gabinete Jurídico da PN e a algumas outras altas personalidades, a dar conta da detenção ilegal e compulsiva do seu marido «no dia 5 de Novembro, passado por volta das 20H30, efectuada pelos Srs. Manuel Constantino ou Dirico e Almerindo, por orientações expressas do senhor conhecido apenas por Muhongo, chefe do Departamento do Crime Organizado dos Serviços de Inteligência”.
A senhora explica, na sua carta, que o marido acabou, por ser detido e encarcerado durante 4 dias, sem saber qual o motivo da sua detenção, tendo sido tratado “como se fosse um animal”. A ser isso verdade é mais uma violação ao art.º 36.º da Constituição.
Esta semana, o comandante Joaquim Ribeiro foi destituído das suas funções de comandante provincial de Luanda e fica a pergunta no ar: com base num inquérito policial sério, credível e imparcial ou com base apenas em indícios, fruto das brigas passionais entre os chefes?
Verdade ou mentira, nesta hora tudo incrimina, por ser um vergonhosos e desprestigiante acto que fragiliza, como acima nos referimos, um sector tão importante da soberania nacional, como é o Ministério do Interior e a Polícia Nacional. Tudo por se misturarem poderes policiais às turras, uns com os outros, com tanto atropelo às normas legais e tanto desprezo pelos direitos fundamentais do cidadão, o que é que tudo isto significa? Em que país estamos nós?
O Presidente da República, na qualidade de comandante-em.-chefe, não se estará a dar conta, mas não havendo coincidências na política, não pode ser mero acaso esta fragilização que, de há uns tempos a esta parte, tem ocorrido nos órgãos castrenses. A situação inspira cuidados, basta ver a fome que grassa pela maioria das casas dos autóctones deste País em contraste com a fartura, a opulência e os milhões de dólares de dinheiro público, desviados, muitas vezes, institucionalmente, para as contas privadas de uns poucos…

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

GRIPE C


A Gripe A chegou, passou para B e não gostou, involuiu e ficou catástrofe epidémica. Qual o nome que o epidemiólogo chefe atribuiu a esta nova estirpe ferocíssima? GRIPE C.
Angola, onde se premeia a incapacidade de governar.
Dirigir um país não é o mesmo que dirigir um palácio.

Gil Gonçalves

Este marxismo-leninismo tem muita experiência adquirida dos iluminados eleitos por Deus e pelos seus legítimos representantes: Pol-Pot, Kin-Il-Sung, Estaline, Robert Mugabe e outros piores que estes. Com esta doutrina marxista-leninista justifica-se tudo. É apanágio do sistema a chefia – o Politburo – criar as mais horríveis vicissitudes à população. Retira-lhes ostensivamente a água, a luz, o trabalho e o pão. Isto é: exterminam a população para que não hajam vozes, empecilhos que apoquentem os títeres seguidores de um deus qualquer, pior e por eles inventado. Como são incapazes, incompetentes na feitura material de qualquer coisa – exceptuando o fácil carregar no gatilho – contratam no mercado internacional mercenários para a execução de tarefas, de obras altamente comissionadas, concebidas e construídas com falsas fachadas. Também é notável a exibição marxista-leninista nos meios de comunicação arregimentados onde atacam tudo e todos que lhes desagradarem. Estes marxistas-leninistas conseguem ludibriar o vento e as suas próprias sombras. Medrosos por excelência, quando se deslocam para qualquer local dos seus reinos o aparato é de tal modo bélico, que os primeiros a fugirem são os cães, gatos, cobras, aves e ratos. Qualquer um da plebe que distraidamente execute um gesto que a guarda do rei interprete como belicoso... lá se foi mais uma pobre alma espoliada, liquidada em nome da revolução. Este marxismo-leninismo serve de pretexto para tudo. E é incontestável.
Há governos legalmente eleitos e apelidados de democracias exemplares que apostam forte e feio neste marxismo-leninismo. Porque facilmente o saqueiam, fazem negociatas, corrompem o Politburo e depois de conseguidos uns barris de petróleo o aplaudem. Lhe batem palmas e juram que é o melhor governo existente na face da Terra. Com um PIB marxista-leninista no palácio real sempre a subir. Pudera, é uma economia de palácio. Estes teimosos marxistas-leninistas promovem… são a nossa desgraça diária, a hecatombe das nossas vidas. Com eles é só destruição permanente. Fazem de Luanda um campo de caça humana. Divertem-se com a morte dos plebeus. Estes marxistas-leninistas são seres irracionais disfarçados de humanos. O que é surpreendente é que ninguém até agora lhes deu um pontapé para fora, para outro reino.
Irresponsáveis, gabarolas e vigaristas natos, pavoneiam-se dia e noite na mentira de que já nos deram mais água, mais luz, melhoraram muito as nossas condições sociais, que a nossa vida tem melhorado muito. Quando na realidade basta olharmos e tudo literalmente está em pedaços. Mentir, é a regra número um do marxista-leninista. Por exemplo, o marxista-leninista é peremptório que a agricultura está funcional, bem arada. Claro que é mais um discurso para iletrados. E que todos os outros sectores da economia desenvolvem-se adequadamente. Mas que alijados! Então camaradas! Confessem que não existem estruturas de suporte! É tudo a fingir. Evidentemente que está na cara que o dinheiro para esses projectos é para embolsar. E com a ilegalidade dos Técnicos de Contas o dinheiro desvia-se com tanta facilidade… é como ganhar dinheiro sem trabalhar. Só a incompetência é justa. Aquele que é competente escorraça-se da quadrilha. E todos a rodos, corruptos venceremos!
E assim edificaremos a prometida pátria dos trabalhadores marxistas-leninistas.
Não devemos negligenciar a urgência do carregar esta turba para o hospital psiquiátrico mais próximo, antes que seja demasiado tarde. Porque a qualquer momento vão lançar-nos as suas tropas pessoais para que disparem sobre qualquer um de nós. Devaneios?! Num regime marxista-leninista é corriqueiro um bestiário destes.
Para estes marxistas-leninistas a energia eléctrica não tem qualquer utilidade. Sim! Para que serve uma energia eléctrica de 150 a 170 voltes? Apenas para as empresas deles pessoais e impessoais venderem geradores. Fazem bons negócios, é só fartar de facturar. O mais importante – não dá trabalho – é sobrefacturar. Exportar? Só o petróleo por enquanto é que está a dar. E contudo eles movem-se na corrupção.
De Cabinda ao Kunene, um só corrupto! Uma só corrupção! A Nação inglória é incerta. Outro aspecto que chama a atenção é o profundo desprezo com que o marxista-leninista presenteia o proletariado. Na riqueza o marxista-leninista é violento, virulento. Só ele é que tem direito ao usufruto dos dólares. Os seus irmãos pagam com a prisão ou a morte a reivindicação da parte que lhes é negada, sonegada. As democracias ocidentais condenam veementemente o marxismo-leninismo, mas nos outros continentes apoiam-no sem reservas. Por aqui se pode premiar a célebre hipocrisia da democracia. Quer dizer: no interior do lar há democracia, no exterior selvajaria. Os célebres democratas são assim: onde há matérias-primas não há democracia. E fazem acordos secretos com os marxistas-leninistas para que estes se apresentem de vez em quando como democratas. Soa bem, e dá para embebedar a opinião pública local e internacional.
O importante é promover conflitos e arrastar populações como deslocadas, refugiadas. E exterminá-las como os espanhóis fizeram nas suas colónias.
Outro exemplo quiçá o mais notável, é o despeito absoluto com que o marxista-leninista trata a Constituição. Rasga-a, despreza-a a todo o momento, e altera-a a seu bel-prazer conforme lhe dá na gana. É extremamente insensível ao sofrimento alheio. Não se compadece de ninguém. É um ser dantesco e vampiresco. Concebeu-se para desgraçar e concentrar em galinheiros, currais e noutros pardieiros quem não aderir ás suas hostes bárbaras. Corrompe e trespassa com facilidade espantosa a Nação com a sua população. Onde há corrupção, o marxista-leninista está sempre de prontidão. Depois não há nada mais feio, mais pavoroso do que vê-lo de fato e gravata de marca – horripilante – esbanjar os dólares espoliados, petroleados. Que imundície meu Deus! É como as galinhas, debica aqui e ali. E onde há casebres, ele vigia-os. E quando se apega ao poder tem uma cola especial que lhe adere de tal forma que não a deixa mais de lá sair. É a eterna cola, um feitiço que se vende algures no Roque Santeiro. E ele acaba de institucionalizar uma moda jamais vista em Luanda: carros e pedestres na azáfama diária transportando recipientes na procura do precioso líquido. Bom, agora é dos líquidos preciosos: água e combustível para geradores. Este é também um reino de geradores eléctricos.
O marxista-leninista é como aqueles robots dos filmes de ficção cientifica que por onde passam deixam um rasto de destruição, de depredação que só visto. É a reencarnação do mais diabólico que jamais aconteceu.
Nunca se deve confiar num marxista-leninista porque é fatalmente traiçoeiro. Porque será que ele se implanta muito bem onde há enxames de analfabetos?
Sair da escravidão colonial e entrar na servidão dele é libertar? Não!!! É outra patética servidão. Agora que o primeiro passo foi dado, o segundo é desinfectar o marxista-leninista. E a liberdade almejada começa de facto e de jure. Nas fábricas dele produzem-se imbecis e canalhas. E qualquer um o pode testificar… se o conseguir. Porque ninguém se pode aproximar de um local marxista-leninista sem autorização. Se não é abatido, o tipo acaba na prisão sem culpa formada – melhor dito, inventada – onde se inventa cada descabida acusação. Ele é como os abutres. Sempre a pairar, a rodear para esquartejar as sobras dos moribundos da fome.
Ah!.. Gloriosa revolução que a todos escureces, deságuas e empobreces.
Lutas e libertação em África. A maior palhaçada de todos os tempos. Regra geral os governos africanos cultivam sem o saberem (?) genuínas figuras de palhaços. É de acreditar que alguns embaixadores contém a custo o riso quando na presenças deles. É muito curioso que fazem tudo para imitarem os brancos mas, fica tudo tão bizarro. Notável é continuarem sempre com os mesmos erros e disso não se dão conta. Não restam dúvidas que serão – já o são – novamente colonizados. Tudo não passa de uma podridão aviltante. É cúmulo do analfabetismo uma só pessoa ter três, quatro, cinco carros só para dar ar de ostentação de riqueza. Ou um muito caro, e claro, muito luxuoso. Isto é exclusivo do analfabetismo. Até porque a sua habitação rodeia-se de esgoto ao ar livre, e as suas crianças lá brincam… com a morte. E na maioria dos casos tais crianças passam fome. O que interessa é dar aparência de novo-rico. Não é necessário lembrar que a isto se chama pura e simplesmente… boçalidade. É o marasmo africano num beco em saída. Enquanto continuamos no assistir do lançamento de baldes com águas turvas e imundas dos prédios à Idade Média, tudo o mais que se queira implementar, melhorar, como a imprensa palaciana muito gosta de lhe chamar, este quotidiano angolano, luandense, prosseguirá mergulhado no anacrónico progresso. Será que Angola necessita outra vez da colonização para sair do lodaçal político e social?
Se as populações permanecem na miséria, porquê insistir em projectos de alto luxo? E para os miseráveis e esfomeados nada?! Significa que as independências africanas são apenas uma mera fantochada que nem sequer deveriam existir. Porque são mais horrendas que os colonizadores. Isso das independências selvagens deve já terminar.
Para sobrevivermos aos regimes ditatoriais e altamente corruptos é importante a criação de células clandestinas, de crise, de resistência. Não é necessário que sejam idênticas às da Al-Qaeda, mas células que contraponham os apetites vorazes dos destruidores das nossas vidas, da nossa democracia e das nossas liberdades.
MPLA, a desgraça de Angola. Com a independência o colonialismo fortaleceu-se, mudou de cor mas, continua o mesmo. É preciso ter coragem para denunciar que piorou, está mais atroz, mais nauseabundo. Isso da independência foi uma forma subtil para prosseguir na senda capitalista da exploração desregrada dos povos das colónias. Sim! Continuam colónias escravas de novos senhores, estupores.
Isto é sumamente importante até para o futuro democrático da Humanidade. Na realidade Angola continua colonizada. Angola ainda não conseguiu sair das amarras, das correntes da escravidão colonialista. E continua válida a célebre sentença: «Coitado do mentiroso, mente uma vez mente sempre. Ainda que fale verdade, todos dizem que mente»

Ainda, o Livro das demolições


Conheci o Job nos terrenos e nas casas dele. Parecia-me homem sincero, recto e temente ao seu MPLA. Tinha fama de muito bondoso e afastava-se dos especuladores imobiliários e das suas negociatas. Proliferou sete filhos e três filhas, muitas lavras e muita gente condizente para o servir.

Costumavam radiodifundir que era o mais rico do reino. Os seus filhos ultrapassavam o tempo em grandes festas. Convidavam as suas irmãs a comerem e a beberem com eles. Job escolhia algumas cabeças de gado e enviava-as para o seu MPLA, como prova de gratidão, vassalagem.

Gil Gonçalves

Um dia o MPLA visitou-o para lhe agradecer as ofertas. Num repente aparece o General Jardim do Éden. O MPLA pergunta-lhe:
- Donde vem?
O General Jardim do Éden respondeu.
- Ando a vigiar estas terras.
Disse o MPLA ao General Jardim do Éden.
- Já viu o meu vassalo Job? Não há ninguém no reino que se lhe compare. Muito honesto, justo, mais que vertical e detesta os especuladores imobiliários.
Respondeu o General Jardim do Éden ao MPLA.
- Hum! Acho que ele não faz isso em vão. O meu MPLA concede-lhe muito apoio. É um dos poucos vassalos protegidos. O seu gado, as suas casas e as suas terras não param de aumentar graças ao MPLA. Ele que fique na miséria, que passe fome, vai odiar o MPLA e demais camarilha.
Disse o MPLA ao General Jardim do Éden.
- Parece-me que você anda com o olho nestas terras. Sei que alguns já espoliaram algumas… chegam, instalam-se… já está tudo feito.
O General Jardim do Éden fez a saudação militar e saiu da presença do MPLA.

Um dia, a filharada de Job estava numa festa na casa do filho mais velho. Depois chegou um mensageiro e disse a Job:
- Os bois lavravam, as tropas do General Jardim do Éden chegaram e levaram-nos. Disseram que estavam com fome. Feriram os empregados. Só eu escapei.

Chegou outro mensageiro que disse:
- Incendiaram, arrasaram tudo, nem as crianças escaparam. Os empregados morreram queimados. Só eu escapei.
Ainda outro mensageiro apareceu e disse:
- Eram pelo menos trezentos pelotões armados como na invasão do Iraque. Roubaram, reduziram tudo a pó… incluindo móveis e utensílios. Só eu escapei.

Mais um mensageiro chegou e disse:
- Estava a tua filharada numa festa em casa do filho mais velho. Como agora tudo acontece, o governo é o principal criminoso, os demolidores e espoliadores atacam às três, quatro da manhã… pareciam, vieram como um tufão que arrastou as casas e todos os que lá estavam. Ninguém ficou vivo. Só eu escapei para te contar o que se passou.

Job levantou-se muito chateado, rasgou a sua manta, atirou-se para o chão e clamou:
- O meu destino é igual ao dos outros espoliados. Trabalhamos nas nossas terras, edificamos as nossas casas a que o MPLA chama casebres. Chega o General Jardim do Éden e rouba-nos tudo. Bendito seja o nome do MPLA!
Mesmo assim Job não se revoltou nem amaldiçoou o MPLA.

Noutro dia veio uma delegação de alto nível chefiada pelo MPLA. O General Jardim do Éden estava presente. Então o MPLA disse ao General Jardim do Éden:
- Onde tens andado? Porque não proteges os bens do meu vassalo Job?!
O General Jardim do Éden respondeu:
- Estou sempre vigilante, está tudo sob controlo e não notei nada de anormal.
Disse o MPLA ao General Jardim do Éden:
- O vassalo Job merece a minha admiração. É a única pessoa honesta que resta no reino. Tomara que houvesse mais como ele. Confesso que os corruptos ganharam o campeonato da corrupção… e apuraram-se para o campeonato mundial. Facilmente obterão a vitória final.
O General Jardim do Éden respondeu ao MPLA:
- A vitória é incerta. O terror da corrupção termina em assassinatos, ajustes de contas, até à vitória final do grande terramoto político. Parece que já sabemos como isto vai acabar.
O MPLA disse ao General Jardim do Éden:
- A nossa secreta informou-me que você está envolvido no roubo das terras. Tratamos disso depois. Peço-lhe que não atente contra a vida de Job.

O General Jardim do Éden baldou-se. Quando viu o luxuoso avião particular do MPLA desaparecer no céu mandou alguns dos seus matadores de confiança darem uma grande sova a Job, mas de maneira que não o matassem.
O corpo de Job ficou macadamizado. Job apanhou uma folha de bananeira para limpar as feridas. Tudo à sua volta parecia uma chuva de cinzas. Sentou-se nos restos de tijolos e na madeira queimada. A sua esposa disse-lhe:
- Ainda gostas do MPLA?! Depois do que o General Jardim do Éden dele te fez?! És muito parvo!
- As mulheres não entendem nada destas coisas. Apesar do General Jardim do Éden me espoliar e privatizar tudo o que tinha, devo obediência e lealdade ao MPLA.
- Eu é que trabalho na terra!.. o teu fanatismo é escravidão, não é lealdade! És um grande atraso de vida! Onde estão os teus amigos do MPLA, em quem tanto confiavas?
- Hão-de vir... Hão-de vir!

E chegaram alguns amigos do MPLA que confortaram Job. Um disse-lhe que a sua conta bancária estava em baixo. Os outros tristemente confessaram que também lhes espoliaram e demoliram tudo o que tinham. Que o mal era geral... um reino de demolições. Trabalhar de verdade não era possível, porque espoliar continua fácil. Ficaram uns dias a acalentá-lo e sentaram-se nas sobras de algumas cadeiras. Depois, cansados foram-se embora. Um deles ao despedir-se reafirmou:
- O reino da fome está combalido.

Apareceram alguns grupos de espoliados, esfomeados que aproveitaram as sobras. O local ficou igual a um deserto. Job bocejou, apetecia-lhe dormir. Falou para o vento cúmplice que arrastava as cinzas:
- Tantos e tantos anos de trabalho em vão. Não dá para trabalhar nesta terra, porque depois vem um General Jardim do Éden e fica com ela, privatiza-a. Finge que a trabalha à espera que surja um sócio estrangeiro. Mas eles já não acreditam nisso e a terra abandona-se. Fica para acampamento de deslocados que na verdade são refugiados, e assim sucessivamente. As trevas dominam este reino. O MPLA está sempre lá em cima sentado no seu trono. Raramente desce, sobe, ou sai. Adora rodear-se de pessoas que mais parecem lâmpadas fundidas, que dão pouca luz, ou acendem de vez em quando. A minha terra, a minha Luanda, a minha Angola, contaminam-se, nunca mais nelas nada crescerá. Resta-me olhar para as nuvens e para os restos das árvores que parecem fantasmas ao luar. Tantos anos em vão que trabalhei. Agora tudo ficou igual às noites escuras. Nunca mais perderei anos, meses e dias nestas coisas.

E Job sente-se como o programa de arranque, o sistema operativo corrompido que não inicia o computador.
- Ah! Não vou ficar aqui toda a vida a olhar para a noite. Não me espoliaram este tocador de CD portátil. Vou ouvir umas músicas e dançar uns bons bocados. Chorar não adianta. Lembro-me que os colonos quando fugiram, preveniram-me que não valia a pena trabalhar na terra, porque depois de estar tudo bem, apareceria alguém que ma roubaria. Não acreditei, agora dou-lhes razão. Fui e continuo muito parvo. Pedir um empréstimo bancário (!). Nem pensar! Só se for para importar cerveja. Os bancos não arriscam fazer empréstimos a longo prazo. Consideram que investir na agricultura não dá lucros. Porque quando chegam as chuvas as culturas destroem-se. Depois há que fazer novo empréstimo. O lucro tem que ser imediato, caso contrário… não deixam nada.

E Job, cheio de contentamento pela miséria oferecida pelo seu MPLA, ainda crê que é um dom divino do MPLA do seu sol, da sua terra, da sua miserável vida. E reza para que o seu Comandante Real tenha longa vida. Mas o seu estômago desperta e aqui vê a verdade das verdades.
- Sinto-me muito cansado e com fome. Nem sei onde dormir… não me deixaram tenda, disseram-me que depois iria algures aí para algum estendal, tendal… vou apanhar um bocado de capim e fazer um casebre. Esses do MPLA nascem e querem tudo só para eles. Nascem infectados com a doença do dinheiro. Bom, vou ver se consigo vender alguma coisa no maior mercado do continente da fome. Ou carregar sacos às costas, ou vender água fresca para viver. Arranjar uns papelões para dormir… tenho que safar-me. O MPLA disse que não me abandonaria, mas já estou farto dessa conversa. Os seus conselheiros dão-lhes maus conselhos e só aparecem onde há dinheiro à vista. Os príncipes estão muito ocupados com os seus negócios, vivem num mundo distante. O reino é deles, por isso vivem-no e repartem-no. Além disso nada mais existe. Fazem por parecer cultos, mas estão ocultos… como se não existissem. Não gostam que os perturbem, a não ser que lhes levem um bom negócio. Eles são a lei e nela repousam. Ninguém tem coragem de os abordar, pois o seu poder é imenso. É um MPLA maior que o seu reino, que muitos reinos. Aqui não há pequenos, só grandes. E quem tenta lá entrar jamais sai. É que não existe porta das traseiras. Porque têm um cemitério particular muito mal iluminado, para que não se possam ver as inscrições das lápides. As amarguras dos miseráveis nunca são escutadas, mas os latidos dos cães escutam-nos com muita atenção.

E Job lembrou-se que o mais cansativo, o que cansa na realidade mais pura é a fome e a espoliação.
- Cavar, cavar de dia e de noite à procura de diamantes que depois de encontrados ocultam-nos. As minas são propriedade real do MPLA, disso ninguém duvida. Dançam, pulam, pululam de contentes porque já não há espaço nos cofres para colocarem as riquezas. Para viver neste reino é necessário matar, vigarizar e espoliar. São estas as leis que funcionam. Quem não as cumprir não sobrevive. Só o oculto permanece e não se pode desvendar. Tudo é permitido para obter o nosso pão. Os milhões de esfomeados em vão suspiram ao governo dos desgovernados. Nada temem e nada receiam, porque os seus exércitos não dormem, estão sempre de atalaia e reforçados no Orçamento Geral do Estado. Ai dos prevaricadores! Apesar disso não dormem descansados. Vivem na perturbação constante de um levante, porque duas malditas rádios e semanários democráticos atiram tudo para fora, não deixam passar nada. Acusam-nos de democratas malvados, de maldita democracia que denuncia constantemente os corruptos. É por isso que ninguém gosta dos democratas e da democracia.

O Ordens Superiores do MPLA foi em auxílio do seu vassalo, e disse a Job:
- Não sei se aguentas o que te vou dizer, mas digo-te algumas verdades. Comeste e bebeste com muitos. Emprestastes o teu dinheiro e agora não te querem saber. Só mesmo um Job!.. edificaram empresas com o teu dinheiro… ajudaste muita gente?! Pareces o Job da Bíblia. Nunca vi nem conheci um idiota como tu. E alguns ainda aparecem e levam algumas bananas que por milagre se salvaram. Quem te mandou confiar no MPLA? Milhões confiaram nele e vê como estão. A morrerem à fome!.. o MPLA disse que tens que esperar mais trinta, cinquenta anos para saíres da miséria… e que depois de morto ressuscitará e virá salvar-nos uma vez mais do imperialismo internacional. Morto ou vivo nunca desiste da luta anti-imperialista.

Entretanto o Ordens Superiores deu parecer aos arquitectos e engenheiros portugueses, brasileiros e chineses que construíam um bruto condomínio, brutas torres e prédios nas terras que já não eram de Job. Serviriam também para alegrar, para lazer da nobreza e do MPLA. Para passarem brutos fins-de-semana na fuga da agitação da cidade, da barulheira e da anarquia dos nobres súbditos sem lei.

Perto, algumas cobras oposicionistas, descontentes, rastejavam à procura de local mais aprazível para respirar. Sentiam-se deslocadas nas suas próprias tocas. Iam bem chateadas. O Ordens Superiores continua a desvendar os males do mundo ao grande idiota Job.
- A questão fundamental da vida é a utilidade pública. A grande descoberta de todos os tempos. A maldita invenção que os homens fizeram – o dinheiro –. Porra meu! Já viste a quanto está o metro quadrado de terreno... 2.500.00 dólares! Uma colossal fortuna. Ó meu não sei se tás a ver como se ganha dinheiro sem trabalhar! Aqui não há população, o que manda é o dólar. A negralhada que se lixe… que morram prá aí! O dinheiro dá muita satisfação a quem o possui e que nunca se satisfaz, quer sempre mais e mais. Fica obcecado… como uma ideia fixa… torna-se numa doença. A pessoa deixa de ser humana, vira uma desumanidade sem limites. É o vale-tudo. Daí não desmagnetiza o seu pensamento. No fim vem a loucura, a neurose a necessitar de urgente tratamento psiquiátrico. Provoca guerras para obter mais e mais até à destruição do planeta… da humanidade. Provoca uma grave contradição: O dinheiro resolve muitos problemas, mas quanto mais abundante mais problemas trás. É isto a origem da maldade.

O Ordens Superiores vai ao Hummer acabado de importar com o dinheiro do petróleo do povo, traz a caixa térmica, abre-a. Retira uma garrafa geladíssima de Dom Perignon com cinco anos de idade. Convida Job mas este recusa com a cabeça. Satisfaz-se com uma farta golada. Reconta a exercitação de Job.
- Sabes Job… o nosso MPLA é como um universo-ilha. Os ricos são fábricas de lixo. Os seus lares produzem-no em abundância porque consomem muito. E obrigam-se a consumir o que a sua ira produz. Nem as plantas e os animais lhes escapam, porque montanhas de resíduos lhes caiem em cima todos os dias. Quando a consciência da Natureza se revolta, chamam-lhe calamidade natural... e as vítimas são imensas… os seres humanos que escapam vivem dispersos, na fuga incerta, permanente. A Natureza sussurra os seus segredos, mas já ninguém os entende ou finge não entender. Aparece-nos em visões à noite e desaba em cima de nós, precisamente quando estamos no sono mais profundo. Acordamos espantados e estremecemos perante tal poder. Os espíritos vagueiam à nossa volta, poucos povos já os entendem. O vento fala-nos, previne-nos, mas os nossos olhos já nada vêem. Está tudo corrompido, somos todos corruptos!

Gil Gonçalves

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ATINGIMOS O ZERO


Não sabemos como seremos governados por uma Constituição que não votámos, que não aprovámos. Não sabemos se amanhã teremos água, luz, Internet. Se adoecermos como seremos socorridos. Se seremos assaltados, ou vitimas da feitiçaria. Se conseguiremos dormir com o barulho dos geradores ou morreremos asfixiados pelo seu fumo tóxico, mortal.

Gil Gonçalves

Se os nossos apartamentos desabarão pela infiltração das águas dos vizinhos selvagens, atípicos bantus. Não sabemos se conseguiremos tapar os nossos ouvidos por causa das festas, do álcool e dos iguais barulhos aterradores dos escapes livres das motas. Ou se seremos presos porque acusados de difamação ou incitação à violência. Ou por outro motivo por qualquer um do soberano poder. É tão triste viver assim diariamente tão inseguros, sem futuro. Mas os bajuladores dizem que assim é que está bom no reino mais aprazível que até hoje nunca se igualou no Golfo da Guiné.
Os bajuladores já perderam a consciência e desumanizam a nossa vivência. Não irão certamente bajular a Sandra Mariza e o crime desordenado. Sandra Mariza, uma jovem polícia angolana do trânsito foi arrastada e assassinada barbaramente por um jovem tresloucado condutor de táxi durante mil metros. É urgente que as empresas de autocarros assumam também o transporte de táxi e acabem de vez com a desordem criminosa dos taxistas que deveriam estar numa escola e nunca ao volante de um táxi. É também urgente que se acabe com o abandono da juventude em todas, como se diz por aí, as vertentes. É bom lembrar que este caos da Nação espelha a actual governação, que tem de mudar, senão não saberemos o que mais nos desesperará. Para a nossa polícia os nossos mais sentidos votos de pesar e que ajam com muita firmeza porque até nos nossos lares vivemos sempre na incerteza da espera de sermos assaltados. Relembro que a situação calamitosa da nossa criminalidade é sobretudo conjuntural.
E Angola retorna ao 25 de Abril de 1974 – e lugubremente parafraseando Manuel Alegre – não há ninguém que resista, ninguém que lhes diga não. Angola caminha na falsa harmonia do suicídio colectivo. Na falsidade da vida da cidade de Luanda que destrói os nossos cérebros noite e dia. Perante a anarquia governamental do tudo é impune. A única coisa que parece funcionar é a espoliação dos bens dos vendedores nas ruas, e partir casebres para entregarem os terrenos aos congéneres da ansiosa escumalha nacional e internacional. Um conjunto, um marasmo de idiotas que contracenam no nosso terrorismo urbano. Está tudo a ficar muito acidentado. O analfabetismo é a cada momento mais impressionante. São só desempregados e esfomeados sem habilitações literárias e profissionais que invadem ruas e assaltam. Há sempre ondas de roubos diários não relatados, fora do controlo policial. Não existe nenhuma polícia no mundo que consiga conter tal onda de esfomeados. São estes milhões marginalizados que muito brevemente, já acontece, inaugurarão a filial angolana da pirataria da Somália. Nesta total degradação não é possível suportar tantas atrocidades. Não dá para viver… nem para sobreviver. Os novos-ricos andam muito descuidados, então que se cuidem porque serão, junto com os seus bens, as vítimas preferenciais. Ninguém vive em paz. A miséria e a degradação social produzem tal imbecilidade que a população tornou-se tão animalesca que a única saída é fugir. Também impressiona não ver ninguém com um livro de leitura. Também não os há. É política governamental não fomentar, expandir a literatura. A pouca que há, nacional, tornou-se cansativa porque repetitiva. Mesmo assim a maioria dos autores são de leitura duvidosa porque enaltecem os feitos da má governação eterna. Continua a impressionar o porquê não se falar dos autores estrangeiros, publicitar. É como se não existisse Literatura Universal. Promover apenas as banalidades da literatura nacional é contribuir profundamente para o suicídio da identidade cultural. E assim não há país, há uma tribo. E também assim com tanta boçalidade é facílimo governar, espoliar, escravizar. Já não existe povo, apenas autómatos controlados por controlo remoto. Cérebros sem neurónios, sem sentido, sem vida. Até a informação deixou de existir. Os noticiários radiofónicos estão orientados para disseminarem a ignorância. Voltámos às trevas! Comparar Salazar com este tempo de antenas não tem sentido. Na prática pode-se jurar que Salazar era um gajo porreiro. Não é possível regredir ainda mais que antes. É verdade sim! Que aterradora regressão no tempo do nevoeiro cerrado que Angola acaba de fazer. Não é de acreditar que isto bata certo. É imprevisível o que vai acontecer. É possível em 2010 obrigar a democracia para uma ditadura democrática? Aqui por estas bandas é de acreditar que esses planos totalitários escorrerão nos caudais da época das próximas chuvas.
Entretanto, a UNITA finge que está na oposição. Para despertá-los e a toda a oposição, vamos virar as nossas baterias contra eles e não contra José Eduardo dos Santos. É à oposição que compete reverter o actual estado da Nação. Temos presidente de Angola?! Não! Presidente dos estádios de futebol, sim!
A UNITA finge oposição. Para além dela quem mais resta?! Apenas alguns engraçados que querem dar nas vistas utilizando a democracia. Mas para a conquistar, a democracia, é necessário lutar, lutar muito, inclusive com a própria vida. Mas, parece que estão outra vez à espera que alguns estrangeiros “burros” se metam nisso. Porque angolano é incapaz (?). Até nos discursos usam assim umas camisas muito bonitas, especiais… para fazerem, manterem a diferença. Angola e os angolanos suportam o destino predestinado da glória eterna da colonização. Para quê perder mais tempo com isto se não existe ninguém que resista a esta opressão. Tem que ser alguém angolano que dê mostras de oposição, de luta contra a ditadura. Não existindo, para quê perder mais tempo com Angola?! Na conversão da UNITA em diocese já sabemos qual é a sua revelação. Desculpem lá mas esta é a verdade sem rodeios. Não existindo “confronto” a José Eduardo dos Santos, não se podem atribuir culpas do estado actual da Nação e do seu assalto à Constituição. Caramba! Mas não existe ninguém em Angola que lhe faça frente? Têm assim tanto medo dele? Porquê?! Porque ele é mais esperto, mais inteligente que toda e qualquer oposição. Perante a infantilidade da oposição reina a astúcia da velha raposa. E neste zero de Luanda prosseguem nos quintais os ferozes ataques contra desprevenidos cidadãos dos cães mastins que dilaceram os corpos dos esfomeados, dos condenados à morte pelos campos petrolíferos. Fica extremamente perigosa a aprovação, legalização canídea de quem ordena nesta cidade. Transformaram-na num canil governado por cães raivosos eternamente à solta, soltos no poder. Prontos para nos esfacelarem. Luanda é uma urbe de cães selvagens. Por aqui facilmente notamos que como seres humanos não temos qualquer finalidade ou utilidade nesta governação que é contrária à génese humana. Ele é a erva daninha desta Natureza. Muito especiais são os especuladores imobiliários que nos transformam em cães. Não vivemos nas cidades deles mas sim em canis de betão. São como bombas, são como terroristas dos imóveis e ninguém ousa gradeá-los.
Há também outros, sempre documentários diários. Não sei para que é a servidão de qualquer acontecimento mundial, este ser obrigatoriamente comentado pelo Papa vaticinador do Vaticano. Mais parece um comentador desportivo da nossa Rádio 5. E como é fácil ludibriar as massas sim e não católicas garantindo que a jovem Susanna Maiolo que o atacou sofre de perturbações mentais. Porquê escamotear a verdade? O que realmente aconteceu? Que amargura vive nessa mulher? Que atrocidades lhe fizeram?
Que loucuras globais, que mistérios se escondem nos políticos nas actuais políticas mundiais que nos governam tal e qual como num asilo de loucos? Isto não é a globalização mundial, é a loucura global, total, totalitária. Caminhamos como que hipnotizados para o suicídio da massiva globalização. E ninguém consegue submergir deste mergulho, desta escuridão.
É imperioso realizar transformações sociais profundas para resgatar as populações à dignidade sem promessas falsas. É que a feitiçaria anda a monte. Está tão disseminada por esta Angola descontrolada que se não for parada assistiremos, contribuiremos definitivamente para o golpe final da nação angolana, para gáudio dos especuladores nacionais e da conjura nacional e internacional. É que os jovens aderem massivamente aos comités clandestinos da especialidade da feitiçaria. Como estão abandonados pelo Politburo, que perde o tempo em estádios e na devassidão faraónica, a juventude abandonada, desempregada, sem futuro, espoliada dos poços de petróleo, sem fundo de desemprego – isto é a continuação do marxismo-leninismo – não tendo outra visão de vida, atira-se de corpo e alma para a feitiçaria. No fundo é a sobrevivência de Angola que se joga nos bastidores dos estádios de futebol. É o CAN 2010 da feitiçaria. E quase cinquenta anos depois o ministro das Obras Públicas, mais um general, Higino Carneiro, atesta quase com orgulho: «Não temos quadros.» Foi certeiro… como as nossas universidades que não merecem tal nome. Dinheiro do Estado é para uso pessoal e para enriquecimento ilícito. Para universidades pessoais para formação exclusiva de quadros da corrupção. O dinheiro que se gastou nos estádios se fosse investido numa universidade de referência, os préstimos seriam os desejados. Mas como ainda nos sujeitamos aos caprichos pessoais de um chefe supremo, continuaremos subjugados pela FAMÍLIA e desempregados estrangeiros. E enquanto descarrilados no comboio da paz, o futuro desestabilizado acontece, perece. Convém lembrar que a continuação da imposição da chefia e seus chefitos é tribalismo. Não formam quadros porque têm medo de perderem o poder. Havendo quadros devidamente formados manter-se-á a mesma perdição da subjugação da militância do sempre o mesmo partido com os mesmos políticos que sem inovação permanecem na utilíssima mesquinhez. É um imenso prazer reinar em palácios rodeados de aparatos militares e outros esbanjamentos luxuosos, enquanto nas cercanias andrajosos arrastam-se na vã tentativa da obtenção de uma moeda ou de uma bênção. A África e particularmente Angola regridem para o tempo da caça aos escravos e dos irresponsáveis e incompetentes. E nenhum é preso, nem demitido porquê?! Porque são marxistas-leninistas, foras-da-lei. Destruidores de povos e de nações. Promovedores de intempéries, de hecatombes. Como é possível este lixo da História ainda sobreviver? Porque as democracias fedorentas alentam-nos, dividem os despojos com os abutres. É terrificante ver intelectuais acomodados no sistema que já desistiram da luta. O marxismo-leninismo não pode triunfar.
E reforçam-se reinaugurando as estruturas do poder popular e dos comissários do povo para melhor responderem às características revolucionárias do processo em curso. Assim esmagarão qualquer tentativa golpista da reacção interna e externa. E a igreja segue com a história que lhe é característica. Fingindo que luta contra a opressão, sempre camuflada do lado deste governo que continua genuinamente colonial. De facto se a igreja estivesse interessada há muito que Angola seria independente. Convém a manutenção dos escravos nos currais. Quanto mais analfabetos melhor, não chateiam, bebem, dormem hipnotizados, abandonados, queimados pelos álcoois religiosos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O Petróleo da Ira


«Bastava imporem uma ditadura clara, sem hesitações, como as anteriores, para nós então também escolhermos outras formas de luta, mais adequadas ao alvo. As evidências de corrupção e enriquecimento ilícito são tão claras que mais valia terem deixado a bola passar ao lado… A cara de Santo não fica bem no corpo de pecador… Quem acha que foi caluniado, que está a ser injustiçado, que mostre, então, publicamente, como conseguiu – em tão pouco tempo, ganhando e trabalhado tão pouco – enriquecer de forma tão escandalosa. Ou palmou a “massa” de todos nós, ou então, tinha “matite”… Sugiro que a Procuradoria-Geral da República inicie um sério processo de investigação, para apurar a proveniência desses dinheiros que os “ofendidos de agora” querem fazer parecer ter conquistado de forma honesta e laboriosa» in Justino Pinto de Andrade

Gil Gonçalves

Sem nenhum apoio – o único pendente é a desagregação da fossa abissal entre alguns fanáticos pelos recursos petrolíferos e diamantíferos, porque foram apenas eles que lutaram, se sacrificaram pela causa da libertação do povo angolano – a cidadã que ainda não perdeu a coragem de continuar, aceitar a sua angolanidade, embora se esteja marimbado para isso. Sempre omitida nos túneis do tempo da independência, a mamã, como todas, levantava-se muito cedo, antes da ópera dos galos. Nalguns dias, melhor, muitos dias, passava fome conforme decreto governamental e ia amealhando para sair da espécie de pardieiro do carente sol nascente que habitava. De vez em quando sonhava com uma do milhão de casas, e de outro milhão de promessas, mas logo desistia da ideia e sorria convencida como toda a gente de que era mais um embuste. Um estúpido engano porque não se construíam casas, partiam-se, logo não é com certeza construir um milhão de casas, mas destruí-las. Conseguiu umas chapas de zinco e despontou um tecto da dignidade que resta dos miseráveis que até estão proibidos de cheirarem o petróleo, sabe-se lá, podem enfeitiçá-lo. Pelo menos já não chovia dentro do casebre. Restava a prece para que não eclodisse chuva ciclonal. Ainda havia a grande preocupação das fortes tempestades da gatunagem, dos marginalizados pelos senhores do petróleo. E do mais dinheiro guardado vieram os tijolos e com eles se reforçaram as paredes do que já lhe chamavam apropriadamente lar. Já estava um casebre digno enquanto a quadrilha dos especuladores imobiliários lá não chegasse. Faltava a energia eléctrica que depois se solucionou recorrendo ao aluguer de um posto de transformação de mais oportunistas dignos defensores, seguidores das causas revolucionárias, dos anseios principais das populações. A arca congeladora, a geleira, e a ventoinha instalaram-se funcionais. A criançada, duas filhas e uma sobrinha órfã, os pais morreram da nova epidemia, os acidentes de viação que parecem querer ultrapassar as vítimas da guerra ainda teimosamente fresca. As crianças levantavam-se alegres, sorridentes banhavam-se e em seguida lutavam na mesa e manjavam a principesca pobreza. Quando as economias deram para a televisão e uma aparelhagem, então a felicidade instalou-se definitivamente. Repentinamente o casebre transformou-se num palácio sem presidente. Os chulos e as chulas habituais disfarçados de amigos e amigas, prestavam vassalagem afinando que vinham em visita, porque: «Como vocês nunca vem nas nossas casas, vamos nós às vossas. Estamos a cobrar e vocês a pagar» e invadiam a nobreza da mamã que mais parecendo uma castelã, fazia jus, envaidecia-se:
- Estejam à vontade, sentem-se, comam e bebam. Não estamos assim tão mal.
E a visita queria saber mais, assim como pretender adivinhar como é que ela conseguiu.
- Mana, a vida corre-te mais ou menos, apesar dos que ainda teimosamente nos governam desejarem o nosso fim. Querem a cidade, Angola só para eles, querem tudo.
- Sim, é verdade meu mano. Estou a andar bem… mais ou menos desde que consegui um lugar no Roque.
- É Mana, eles também querem esse espaço, parece que vão lá construir outro aeroporto porque aquele de Viana já não dá. Nada lhes dá, já têm o petróleo, os diamantes, as terras, os kumbus, a corrupção… e mesmo assim não se satisfazem, querem-nos varrer tudo, aliás já nos varreram.
- É verdade mano, parecem mais vampiros sedentos de sangue, e nós somos as suas manadas. Este nosso futuro é vulcões que eles semeiam convencidos que isto vai andar assim eternamente.
- Olha Mana, aqui pela cidade e arredores onde há terrenos com construções ou não, eles andam com os olhos neles. É uma grande quadrilha arregimentada por marginais brasileiros, portugueses e chineses. Cantam-nos que estão aqui para nos ajudarem a reconstruir Angola, mas é mentira deles, é para nos roubarem tudo, já nos roubam as nossas… terras.
- Mano, sinto que esta nossa Angola vai outra vez acabar muito mal.

E os dias não passavam porque já não os havia, isso era coisa do antanho. O que passeava, continuava e mandava muito bem eram os dias da miséria que avassaladores proclamavam o destino sem final. E o mano veio de visita surpresa, de prevenção e avisou:
- Mana, uma manada dos afundadores da nação aproxima-se. Andam a numerar as casas, dizem que não são, intitulam-nas de casebres. Casas só eles podem ter e mais ninguém. Esta e as demais não lhes escaparão.
- Mano, eles fazem-nos assim sofrer porquê? Porque são tão maldosos, tão infernais. Esses não são pessoas, só querem o nosso mal.
- É verdade Mana, eles até quando passam por nós olham-nos com tanto desprezo que até parece que o lixo para eles tem mais valor.
E aguardaram o dilúvio humano e ele chegou. Primeiro com uma imensa coluna de pó aterradora que parecia quase o fim do mundo. Era um exército motorizado e de arsenal militar equipado. Executavam como que uma carga de cavalaria pesada. Como num jogo de futebol que sendo uma equipa fortíssima e a outra fraquíssima usavam de mil e um cuidados. Equipa prevenida é a melhor arma para combater o inimigo. A arrogância dos fortes com o dinheiro do petróleo festeja a desgraça alheia, arrasa a equipa fraca. Não se pode dar confiança a analfabetos pois que o negócio urge, e onde se intromete o dinheiro governamental é a destruição populacional.
E a nuvem de poeira aumentava, aproximava, como a visão final dos cavaleiros do Apocalipse. Os soldados da destruição, os garantes, guardiães da Angola vendida desembarcaram dos seus veículos bélicos. E do objectivo a abater aproximaram e ultimaram:
- Ainda por aqui?! Então não cumpres as ordens, és muito indisciplinada!
- Mas afinal o que é que se passa, tanta arma e descomunal exército só para derrubarem um casebre?
- Eh pá, esta gaja está muito armada. Atenção pelotão da destruição dos casebres, AVANCEM!!! FOGO!!! Porra! Fogo não, camartelo!
- Manos, por favor deixem-me só tirar…
- … Já sabemos essa cantiga de cor e salteado. A televisão, a geleira, a arca, a aparelhagem…
- … Não, não, por favor… são as crianças que estão lã dentro, vão matá-las?!!!
- Não queremos saber, cumprimos ordens do Ordens Superiores!
- Oh! Meu Deus! E quem é esse Ordens Superiores?!
- Ninguém sabe quem é… é o nosso deus, e por isso ele está sempre invisível, invencível no meio de nós.
E os zelosos cumpridores das Ordens Superiores, arrasaram tudo, não se importando se no interior do casebre estavam crianças a dormir ou não. A sua missão é destruir tudo, inclusive vidas que não têm nenhum valor. Estão em jogo grandes interesses internacionais, e por isso mesmo a FAMÍLIA não pode perder tempo com coisas insignificantes. Que valor têm a vida de crianças? Apenas o nascer e morrer.
Próximo, habituados a estes desvarios, jovens alienados pararam o seu carro, abriram-lhe as portas e colocaram a música no som máximo, até não dar mais. Fiscais aproveitaram-se da refrega e pretextando Ordens Superiores ainda e sempre em vigor, espoliaram algumas zungueiras. Hoje o negócio foi-lhes extraordinariamente rendoso, se fosse assim todos dias. Jovens montados nas suas motos faziam estalar os ouvidos com os escapes livres na maior barulheira possível. Alheios a tudo isto, os zelosos cumpridores da lei fingiam ignorá-los, porque estes gajos são filhos de peixe grande, e não convém arranjar problemas com os chefes, são muito amigos, usufruem do compadrio.
E a Mana vendo Angola fugir-lhe debaixo dos pés, já não é dos angolanos, libertou do mais profundo da sua alma o sentimento de desânimo desta independência outra vez só para escravos.
- Que o dinheiro não tem cor?! Tem sim senhor! Tem a cor do petróleo e dos diamantes, têm a cor da miséria e da corrupção. Ah! Como é tão bonito viver sem energia eléctrica e sem água. Ah! Como é tão bonito ver os nossos queridos governantes ordenaram selvagens destruições dos casebres dos idiotas sem petróleo, para depois construírem os seus complexos turísticos, e neles empregarem estrangeiros desempregados e angolanos na recolha das sobras dos seus repastos. Ah! Como é tão bonito ver os nossos governantes tão inchados de dólares transportados nos oleodutos bancários dos mercenários. Ah! Como é tão belo viver no desemprego e ver os estrangeiros, bwé de chineses, como se fosse toda a China. E os estrangeiros da vanguarda corrupta comerem, beberem à farta e lançarem-nos olhares de desprezo, como se fossemos lixo. Têm razão, já o somos. Ah! Esta independência que nos persegue e que tudo nos tira e na morte nos desconsola. Ah! Como é tão exuberante ver e ouvir este reinado falar dos seus negócios pessoais, impessoais, familiares, pois que Angola é toda deles. Não sabem?! Já privatizaram o Mussulu e a sua população que se afundam. No Wako-Kungo as populações espoliaram-nas e obrigaram-nas a refugiarem-se nas montanhas, como fugitivas de um grande maremoto. Já não são angolanos, são montanheses. E no Lubango o governador – parecendo comandante de um campo de extermínio – decerto diplomado pela universidade da actual conjuntura – está a enviar as populações para uma espécie de câmara de gás sob o olhar manhoso ainda de Lenine. Ah! Como é tão bonito ver dos palacianos condomínios, devidamente protegidos pelos exércitos particulares, sentir, apreciar o desenvolvimento económico da miséria. Da estrangeirada que rouba impunemente as terras milenares dos autóctones apenas porque são angolanos. Ah! Como é tão bonito ver Angola entregue, vendida, empossada pelos estrangeiros. Ah! Como é tão bonito ver a juventude tão sabiamente instruída nas universidades da delinquência tão violenta. Ah! Como é de beleza tão invulgar ver Luanda e tudo o que resta das cidades de Angola libertas de mwangolés, porque com eles Luanda fica feia, tudo fica tão medonho, e ao enxotá-los para bem longe, os estrangeiros e os falsos angolanos viverem numa boa, afastados dos mwangolés imundos, tão porcos, tão chatos, tão animalescos. Ah! PORRA! Fora com esses porcos! Ah! Como é tão horrível ver as mamãs nas ruas, escorraçadas pela polícia e similares, humilhadas, porretadas, até a miséria dos seus haveres confiscados apenas porque ousam lutar para não morrerem de fome. Venderam Angola aos estrangeiros com os nossos corpos incluídos. Eles vão chegar e nos escravizar.