quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

GRIPE C


A Gripe A chegou, passou para B e não gostou, involuiu e ficou catástrofe epidémica. Qual o nome que o epidemiólogo chefe atribuiu a esta nova estirpe ferocíssima? GRIPE C.
Angola, onde se premeia a incapacidade de governar.
Dirigir um país não é o mesmo que dirigir um palácio.

Gil Gonçalves

Este marxismo-leninismo tem muita experiência adquirida dos iluminados eleitos por Deus e pelos seus legítimos representantes: Pol-Pot, Kin-Il-Sung, Estaline, Robert Mugabe e outros piores que estes. Com esta doutrina marxista-leninista justifica-se tudo. É apanágio do sistema a chefia – o Politburo – criar as mais horríveis vicissitudes à população. Retira-lhes ostensivamente a água, a luz, o trabalho e o pão. Isto é: exterminam a população para que não hajam vozes, empecilhos que apoquentem os títeres seguidores de um deus qualquer, pior e por eles inventado. Como são incapazes, incompetentes na feitura material de qualquer coisa – exceptuando o fácil carregar no gatilho – contratam no mercado internacional mercenários para a execução de tarefas, de obras altamente comissionadas, concebidas e construídas com falsas fachadas. Também é notável a exibição marxista-leninista nos meios de comunicação arregimentados onde atacam tudo e todos que lhes desagradarem. Estes marxistas-leninistas conseguem ludibriar o vento e as suas próprias sombras. Medrosos por excelência, quando se deslocam para qualquer local dos seus reinos o aparato é de tal modo bélico, que os primeiros a fugirem são os cães, gatos, cobras, aves e ratos. Qualquer um da plebe que distraidamente execute um gesto que a guarda do rei interprete como belicoso... lá se foi mais uma pobre alma espoliada, liquidada em nome da revolução. Este marxismo-leninismo serve de pretexto para tudo. E é incontestável.
Há governos legalmente eleitos e apelidados de democracias exemplares que apostam forte e feio neste marxismo-leninismo. Porque facilmente o saqueiam, fazem negociatas, corrompem o Politburo e depois de conseguidos uns barris de petróleo o aplaudem. Lhe batem palmas e juram que é o melhor governo existente na face da Terra. Com um PIB marxista-leninista no palácio real sempre a subir. Pudera, é uma economia de palácio. Estes teimosos marxistas-leninistas promovem… são a nossa desgraça diária, a hecatombe das nossas vidas. Com eles é só destruição permanente. Fazem de Luanda um campo de caça humana. Divertem-se com a morte dos plebeus. Estes marxistas-leninistas são seres irracionais disfarçados de humanos. O que é surpreendente é que ninguém até agora lhes deu um pontapé para fora, para outro reino.
Irresponsáveis, gabarolas e vigaristas natos, pavoneiam-se dia e noite na mentira de que já nos deram mais água, mais luz, melhoraram muito as nossas condições sociais, que a nossa vida tem melhorado muito. Quando na realidade basta olharmos e tudo literalmente está em pedaços. Mentir, é a regra número um do marxista-leninista. Por exemplo, o marxista-leninista é peremptório que a agricultura está funcional, bem arada. Claro que é mais um discurso para iletrados. E que todos os outros sectores da economia desenvolvem-se adequadamente. Mas que alijados! Então camaradas! Confessem que não existem estruturas de suporte! É tudo a fingir. Evidentemente que está na cara que o dinheiro para esses projectos é para embolsar. E com a ilegalidade dos Técnicos de Contas o dinheiro desvia-se com tanta facilidade… é como ganhar dinheiro sem trabalhar. Só a incompetência é justa. Aquele que é competente escorraça-se da quadrilha. E todos a rodos, corruptos venceremos!
E assim edificaremos a prometida pátria dos trabalhadores marxistas-leninistas.
Não devemos negligenciar a urgência do carregar esta turba para o hospital psiquiátrico mais próximo, antes que seja demasiado tarde. Porque a qualquer momento vão lançar-nos as suas tropas pessoais para que disparem sobre qualquer um de nós. Devaneios?! Num regime marxista-leninista é corriqueiro um bestiário destes.
Para estes marxistas-leninistas a energia eléctrica não tem qualquer utilidade. Sim! Para que serve uma energia eléctrica de 150 a 170 voltes? Apenas para as empresas deles pessoais e impessoais venderem geradores. Fazem bons negócios, é só fartar de facturar. O mais importante – não dá trabalho – é sobrefacturar. Exportar? Só o petróleo por enquanto é que está a dar. E contudo eles movem-se na corrupção.
De Cabinda ao Kunene, um só corrupto! Uma só corrupção! A Nação inglória é incerta. Outro aspecto que chama a atenção é o profundo desprezo com que o marxista-leninista presenteia o proletariado. Na riqueza o marxista-leninista é violento, virulento. Só ele é que tem direito ao usufruto dos dólares. Os seus irmãos pagam com a prisão ou a morte a reivindicação da parte que lhes é negada, sonegada. As democracias ocidentais condenam veementemente o marxismo-leninismo, mas nos outros continentes apoiam-no sem reservas. Por aqui se pode premiar a célebre hipocrisia da democracia. Quer dizer: no interior do lar há democracia, no exterior selvajaria. Os célebres democratas são assim: onde há matérias-primas não há democracia. E fazem acordos secretos com os marxistas-leninistas para que estes se apresentem de vez em quando como democratas. Soa bem, e dá para embebedar a opinião pública local e internacional.
O importante é promover conflitos e arrastar populações como deslocadas, refugiadas. E exterminá-las como os espanhóis fizeram nas suas colónias.
Outro exemplo quiçá o mais notável, é o despeito absoluto com que o marxista-leninista trata a Constituição. Rasga-a, despreza-a a todo o momento, e altera-a a seu bel-prazer conforme lhe dá na gana. É extremamente insensível ao sofrimento alheio. Não se compadece de ninguém. É um ser dantesco e vampiresco. Concebeu-se para desgraçar e concentrar em galinheiros, currais e noutros pardieiros quem não aderir ás suas hostes bárbaras. Corrompe e trespassa com facilidade espantosa a Nação com a sua população. Onde há corrupção, o marxista-leninista está sempre de prontidão. Depois não há nada mais feio, mais pavoroso do que vê-lo de fato e gravata de marca – horripilante – esbanjar os dólares espoliados, petroleados. Que imundície meu Deus! É como as galinhas, debica aqui e ali. E onde há casebres, ele vigia-os. E quando se apega ao poder tem uma cola especial que lhe adere de tal forma que não a deixa mais de lá sair. É a eterna cola, um feitiço que se vende algures no Roque Santeiro. E ele acaba de institucionalizar uma moda jamais vista em Luanda: carros e pedestres na azáfama diária transportando recipientes na procura do precioso líquido. Bom, agora é dos líquidos preciosos: água e combustível para geradores. Este é também um reino de geradores eléctricos.
O marxista-leninista é como aqueles robots dos filmes de ficção cientifica que por onde passam deixam um rasto de destruição, de depredação que só visto. É a reencarnação do mais diabólico que jamais aconteceu.
Nunca se deve confiar num marxista-leninista porque é fatalmente traiçoeiro. Porque será que ele se implanta muito bem onde há enxames de analfabetos?
Sair da escravidão colonial e entrar na servidão dele é libertar? Não!!! É outra patética servidão. Agora que o primeiro passo foi dado, o segundo é desinfectar o marxista-leninista. E a liberdade almejada começa de facto e de jure. Nas fábricas dele produzem-se imbecis e canalhas. E qualquer um o pode testificar… se o conseguir. Porque ninguém se pode aproximar de um local marxista-leninista sem autorização. Se não é abatido, o tipo acaba na prisão sem culpa formada – melhor dito, inventada – onde se inventa cada descabida acusação. Ele é como os abutres. Sempre a pairar, a rodear para esquartejar as sobras dos moribundos da fome.
Ah!.. Gloriosa revolução que a todos escureces, deságuas e empobreces.
Lutas e libertação em África. A maior palhaçada de todos os tempos. Regra geral os governos africanos cultivam sem o saberem (?) genuínas figuras de palhaços. É de acreditar que alguns embaixadores contém a custo o riso quando na presenças deles. É muito curioso que fazem tudo para imitarem os brancos mas, fica tudo tão bizarro. Notável é continuarem sempre com os mesmos erros e disso não se dão conta. Não restam dúvidas que serão – já o são – novamente colonizados. Tudo não passa de uma podridão aviltante. É cúmulo do analfabetismo uma só pessoa ter três, quatro, cinco carros só para dar ar de ostentação de riqueza. Ou um muito caro, e claro, muito luxuoso. Isto é exclusivo do analfabetismo. Até porque a sua habitação rodeia-se de esgoto ao ar livre, e as suas crianças lá brincam… com a morte. E na maioria dos casos tais crianças passam fome. O que interessa é dar aparência de novo-rico. Não é necessário lembrar que a isto se chama pura e simplesmente… boçalidade. É o marasmo africano num beco em saída. Enquanto continuamos no assistir do lançamento de baldes com águas turvas e imundas dos prédios à Idade Média, tudo o mais que se queira implementar, melhorar, como a imprensa palaciana muito gosta de lhe chamar, este quotidiano angolano, luandense, prosseguirá mergulhado no anacrónico progresso. Será que Angola necessita outra vez da colonização para sair do lodaçal político e social?
Se as populações permanecem na miséria, porquê insistir em projectos de alto luxo? E para os miseráveis e esfomeados nada?! Significa que as independências africanas são apenas uma mera fantochada que nem sequer deveriam existir. Porque são mais horrendas que os colonizadores. Isso das independências selvagens deve já terminar.
Para sobrevivermos aos regimes ditatoriais e altamente corruptos é importante a criação de células clandestinas, de crise, de resistência. Não é necessário que sejam idênticas às da Al-Qaeda, mas células que contraponham os apetites vorazes dos destruidores das nossas vidas, da nossa democracia e das nossas liberdades.
MPLA, a desgraça de Angola. Com a independência o colonialismo fortaleceu-se, mudou de cor mas, continua o mesmo. É preciso ter coragem para denunciar que piorou, está mais atroz, mais nauseabundo. Isso da independência foi uma forma subtil para prosseguir na senda capitalista da exploração desregrada dos povos das colónias. Sim! Continuam colónias escravas de novos senhores, estupores.
Isto é sumamente importante até para o futuro democrático da Humanidade. Na realidade Angola continua colonizada. Angola ainda não conseguiu sair das amarras, das correntes da escravidão colonialista. E continua válida a célebre sentença: «Coitado do mentiroso, mente uma vez mente sempre. Ainda que fale verdade, todos dizem que mente»

Ainda, o Livro das demolições


Conheci o Job nos terrenos e nas casas dele. Parecia-me homem sincero, recto e temente ao seu MPLA. Tinha fama de muito bondoso e afastava-se dos especuladores imobiliários e das suas negociatas. Proliferou sete filhos e três filhas, muitas lavras e muita gente condizente para o servir.

Costumavam radiodifundir que era o mais rico do reino. Os seus filhos ultrapassavam o tempo em grandes festas. Convidavam as suas irmãs a comerem e a beberem com eles. Job escolhia algumas cabeças de gado e enviava-as para o seu MPLA, como prova de gratidão, vassalagem.

Gil Gonçalves

Um dia o MPLA visitou-o para lhe agradecer as ofertas. Num repente aparece o General Jardim do Éden. O MPLA pergunta-lhe:
- Donde vem?
O General Jardim do Éden respondeu.
- Ando a vigiar estas terras.
Disse o MPLA ao General Jardim do Éden.
- Já viu o meu vassalo Job? Não há ninguém no reino que se lhe compare. Muito honesto, justo, mais que vertical e detesta os especuladores imobiliários.
Respondeu o General Jardim do Éden ao MPLA.
- Hum! Acho que ele não faz isso em vão. O meu MPLA concede-lhe muito apoio. É um dos poucos vassalos protegidos. O seu gado, as suas casas e as suas terras não param de aumentar graças ao MPLA. Ele que fique na miséria, que passe fome, vai odiar o MPLA e demais camarilha.
Disse o MPLA ao General Jardim do Éden.
- Parece-me que você anda com o olho nestas terras. Sei que alguns já espoliaram algumas… chegam, instalam-se… já está tudo feito.
O General Jardim do Éden fez a saudação militar e saiu da presença do MPLA.

Um dia, a filharada de Job estava numa festa na casa do filho mais velho. Depois chegou um mensageiro e disse a Job:
- Os bois lavravam, as tropas do General Jardim do Éden chegaram e levaram-nos. Disseram que estavam com fome. Feriram os empregados. Só eu escapei.

Chegou outro mensageiro que disse:
- Incendiaram, arrasaram tudo, nem as crianças escaparam. Os empregados morreram queimados. Só eu escapei.
Ainda outro mensageiro apareceu e disse:
- Eram pelo menos trezentos pelotões armados como na invasão do Iraque. Roubaram, reduziram tudo a pó… incluindo móveis e utensílios. Só eu escapei.

Mais um mensageiro chegou e disse:
- Estava a tua filharada numa festa em casa do filho mais velho. Como agora tudo acontece, o governo é o principal criminoso, os demolidores e espoliadores atacam às três, quatro da manhã… pareciam, vieram como um tufão que arrastou as casas e todos os que lá estavam. Ninguém ficou vivo. Só eu escapei para te contar o que se passou.

Job levantou-se muito chateado, rasgou a sua manta, atirou-se para o chão e clamou:
- O meu destino é igual ao dos outros espoliados. Trabalhamos nas nossas terras, edificamos as nossas casas a que o MPLA chama casebres. Chega o General Jardim do Éden e rouba-nos tudo. Bendito seja o nome do MPLA!
Mesmo assim Job não se revoltou nem amaldiçoou o MPLA.

Noutro dia veio uma delegação de alto nível chefiada pelo MPLA. O General Jardim do Éden estava presente. Então o MPLA disse ao General Jardim do Éden:
- Onde tens andado? Porque não proteges os bens do meu vassalo Job?!
O General Jardim do Éden respondeu:
- Estou sempre vigilante, está tudo sob controlo e não notei nada de anormal.
Disse o MPLA ao General Jardim do Éden:
- O vassalo Job merece a minha admiração. É a única pessoa honesta que resta no reino. Tomara que houvesse mais como ele. Confesso que os corruptos ganharam o campeonato da corrupção… e apuraram-se para o campeonato mundial. Facilmente obterão a vitória final.
O General Jardim do Éden respondeu ao MPLA:
- A vitória é incerta. O terror da corrupção termina em assassinatos, ajustes de contas, até à vitória final do grande terramoto político. Parece que já sabemos como isto vai acabar.
O MPLA disse ao General Jardim do Éden:
- A nossa secreta informou-me que você está envolvido no roubo das terras. Tratamos disso depois. Peço-lhe que não atente contra a vida de Job.

O General Jardim do Éden baldou-se. Quando viu o luxuoso avião particular do MPLA desaparecer no céu mandou alguns dos seus matadores de confiança darem uma grande sova a Job, mas de maneira que não o matassem.
O corpo de Job ficou macadamizado. Job apanhou uma folha de bananeira para limpar as feridas. Tudo à sua volta parecia uma chuva de cinzas. Sentou-se nos restos de tijolos e na madeira queimada. A sua esposa disse-lhe:
- Ainda gostas do MPLA?! Depois do que o General Jardim do Éden dele te fez?! És muito parvo!
- As mulheres não entendem nada destas coisas. Apesar do General Jardim do Éden me espoliar e privatizar tudo o que tinha, devo obediência e lealdade ao MPLA.
- Eu é que trabalho na terra!.. o teu fanatismo é escravidão, não é lealdade! És um grande atraso de vida! Onde estão os teus amigos do MPLA, em quem tanto confiavas?
- Hão-de vir... Hão-de vir!

E chegaram alguns amigos do MPLA que confortaram Job. Um disse-lhe que a sua conta bancária estava em baixo. Os outros tristemente confessaram que também lhes espoliaram e demoliram tudo o que tinham. Que o mal era geral... um reino de demolições. Trabalhar de verdade não era possível, porque espoliar continua fácil. Ficaram uns dias a acalentá-lo e sentaram-se nas sobras de algumas cadeiras. Depois, cansados foram-se embora. Um deles ao despedir-se reafirmou:
- O reino da fome está combalido.

Apareceram alguns grupos de espoliados, esfomeados que aproveitaram as sobras. O local ficou igual a um deserto. Job bocejou, apetecia-lhe dormir. Falou para o vento cúmplice que arrastava as cinzas:
- Tantos e tantos anos de trabalho em vão. Não dá para trabalhar nesta terra, porque depois vem um General Jardim do Éden e fica com ela, privatiza-a. Finge que a trabalha à espera que surja um sócio estrangeiro. Mas eles já não acreditam nisso e a terra abandona-se. Fica para acampamento de deslocados que na verdade são refugiados, e assim sucessivamente. As trevas dominam este reino. O MPLA está sempre lá em cima sentado no seu trono. Raramente desce, sobe, ou sai. Adora rodear-se de pessoas que mais parecem lâmpadas fundidas, que dão pouca luz, ou acendem de vez em quando. A minha terra, a minha Luanda, a minha Angola, contaminam-se, nunca mais nelas nada crescerá. Resta-me olhar para as nuvens e para os restos das árvores que parecem fantasmas ao luar. Tantos anos em vão que trabalhei. Agora tudo ficou igual às noites escuras. Nunca mais perderei anos, meses e dias nestas coisas.

E Job sente-se como o programa de arranque, o sistema operativo corrompido que não inicia o computador.
- Ah! Não vou ficar aqui toda a vida a olhar para a noite. Não me espoliaram este tocador de CD portátil. Vou ouvir umas músicas e dançar uns bons bocados. Chorar não adianta. Lembro-me que os colonos quando fugiram, preveniram-me que não valia a pena trabalhar na terra, porque depois de estar tudo bem, apareceria alguém que ma roubaria. Não acreditei, agora dou-lhes razão. Fui e continuo muito parvo. Pedir um empréstimo bancário (!). Nem pensar! Só se for para importar cerveja. Os bancos não arriscam fazer empréstimos a longo prazo. Consideram que investir na agricultura não dá lucros. Porque quando chegam as chuvas as culturas destroem-se. Depois há que fazer novo empréstimo. O lucro tem que ser imediato, caso contrário… não deixam nada.

E Job, cheio de contentamento pela miséria oferecida pelo seu MPLA, ainda crê que é um dom divino do MPLA do seu sol, da sua terra, da sua miserável vida. E reza para que o seu Comandante Real tenha longa vida. Mas o seu estômago desperta e aqui vê a verdade das verdades.
- Sinto-me muito cansado e com fome. Nem sei onde dormir… não me deixaram tenda, disseram-me que depois iria algures aí para algum estendal, tendal… vou apanhar um bocado de capim e fazer um casebre. Esses do MPLA nascem e querem tudo só para eles. Nascem infectados com a doença do dinheiro. Bom, vou ver se consigo vender alguma coisa no maior mercado do continente da fome. Ou carregar sacos às costas, ou vender água fresca para viver. Arranjar uns papelões para dormir… tenho que safar-me. O MPLA disse que não me abandonaria, mas já estou farto dessa conversa. Os seus conselheiros dão-lhes maus conselhos e só aparecem onde há dinheiro à vista. Os príncipes estão muito ocupados com os seus negócios, vivem num mundo distante. O reino é deles, por isso vivem-no e repartem-no. Além disso nada mais existe. Fazem por parecer cultos, mas estão ocultos… como se não existissem. Não gostam que os perturbem, a não ser que lhes levem um bom negócio. Eles são a lei e nela repousam. Ninguém tem coragem de os abordar, pois o seu poder é imenso. É um MPLA maior que o seu reino, que muitos reinos. Aqui não há pequenos, só grandes. E quem tenta lá entrar jamais sai. É que não existe porta das traseiras. Porque têm um cemitério particular muito mal iluminado, para que não se possam ver as inscrições das lápides. As amarguras dos miseráveis nunca são escutadas, mas os latidos dos cães escutam-nos com muita atenção.

E Job lembrou-se que o mais cansativo, o que cansa na realidade mais pura é a fome e a espoliação.
- Cavar, cavar de dia e de noite à procura de diamantes que depois de encontrados ocultam-nos. As minas são propriedade real do MPLA, disso ninguém duvida. Dançam, pulam, pululam de contentes porque já não há espaço nos cofres para colocarem as riquezas. Para viver neste reino é necessário matar, vigarizar e espoliar. São estas as leis que funcionam. Quem não as cumprir não sobrevive. Só o oculto permanece e não se pode desvendar. Tudo é permitido para obter o nosso pão. Os milhões de esfomeados em vão suspiram ao governo dos desgovernados. Nada temem e nada receiam, porque os seus exércitos não dormem, estão sempre de atalaia e reforçados no Orçamento Geral do Estado. Ai dos prevaricadores! Apesar disso não dormem descansados. Vivem na perturbação constante de um levante, porque duas malditas rádios e semanários democráticos atiram tudo para fora, não deixam passar nada. Acusam-nos de democratas malvados, de maldita democracia que denuncia constantemente os corruptos. É por isso que ninguém gosta dos democratas e da democracia.

O Ordens Superiores do MPLA foi em auxílio do seu vassalo, e disse a Job:
- Não sei se aguentas o que te vou dizer, mas digo-te algumas verdades. Comeste e bebeste com muitos. Emprestastes o teu dinheiro e agora não te querem saber. Só mesmo um Job!.. edificaram empresas com o teu dinheiro… ajudaste muita gente?! Pareces o Job da Bíblia. Nunca vi nem conheci um idiota como tu. E alguns ainda aparecem e levam algumas bananas que por milagre se salvaram. Quem te mandou confiar no MPLA? Milhões confiaram nele e vê como estão. A morrerem à fome!.. o MPLA disse que tens que esperar mais trinta, cinquenta anos para saíres da miséria… e que depois de morto ressuscitará e virá salvar-nos uma vez mais do imperialismo internacional. Morto ou vivo nunca desiste da luta anti-imperialista.

Entretanto o Ordens Superiores deu parecer aos arquitectos e engenheiros portugueses, brasileiros e chineses que construíam um bruto condomínio, brutas torres e prédios nas terras que já não eram de Job. Serviriam também para alegrar, para lazer da nobreza e do MPLA. Para passarem brutos fins-de-semana na fuga da agitação da cidade, da barulheira e da anarquia dos nobres súbditos sem lei.

Perto, algumas cobras oposicionistas, descontentes, rastejavam à procura de local mais aprazível para respirar. Sentiam-se deslocadas nas suas próprias tocas. Iam bem chateadas. O Ordens Superiores continua a desvendar os males do mundo ao grande idiota Job.
- A questão fundamental da vida é a utilidade pública. A grande descoberta de todos os tempos. A maldita invenção que os homens fizeram – o dinheiro –. Porra meu! Já viste a quanto está o metro quadrado de terreno... 2.500.00 dólares! Uma colossal fortuna. Ó meu não sei se tás a ver como se ganha dinheiro sem trabalhar! Aqui não há população, o que manda é o dólar. A negralhada que se lixe… que morram prá aí! O dinheiro dá muita satisfação a quem o possui e que nunca se satisfaz, quer sempre mais e mais. Fica obcecado… como uma ideia fixa… torna-se numa doença. A pessoa deixa de ser humana, vira uma desumanidade sem limites. É o vale-tudo. Daí não desmagnetiza o seu pensamento. No fim vem a loucura, a neurose a necessitar de urgente tratamento psiquiátrico. Provoca guerras para obter mais e mais até à destruição do planeta… da humanidade. Provoca uma grave contradição: O dinheiro resolve muitos problemas, mas quanto mais abundante mais problemas trás. É isto a origem da maldade.

O Ordens Superiores vai ao Hummer acabado de importar com o dinheiro do petróleo do povo, traz a caixa térmica, abre-a. Retira uma garrafa geladíssima de Dom Perignon com cinco anos de idade. Convida Job mas este recusa com a cabeça. Satisfaz-se com uma farta golada. Reconta a exercitação de Job.
- Sabes Job… o nosso MPLA é como um universo-ilha. Os ricos são fábricas de lixo. Os seus lares produzem-no em abundância porque consomem muito. E obrigam-se a consumir o que a sua ira produz. Nem as plantas e os animais lhes escapam, porque montanhas de resíduos lhes caiem em cima todos os dias. Quando a consciência da Natureza se revolta, chamam-lhe calamidade natural... e as vítimas são imensas… os seres humanos que escapam vivem dispersos, na fuga incerta, permanente. A Natureza sussurra os seus segredos, mas já ninguém os entende ou finge não entender. Aparece-nos em visões à noite e desaba em cima de nós, precisamente quando estamos no sono mais profundo. Acordamos espantados e estremecemos perante tal poder. Os espíritos vagueiam à nossa volta, poucos povos já os entendem. O vento fala-nos, previne-nos, mas os nossos olhos já nada vêem. Está tudo corrompido, somos todos corruptos!

Gil Gonçalves

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ATINGIMOS O ZERO


Não sabemos como seremos governados por uma Constituição que não votámos, que não aprovámos. Não sabemos se amanhã teremos água, luz, Internet. Se adoecermos como seremos socorridos. Se seremos assaltados, ou vitimas da feitiçaria. Se conseguiremos dormir com o barulho dos geradores ou morreremos asfixiados pelo seu fumo tóxico, mortal.

Gil Gonçalves

Se os nossos apartamentos desabarão pela infiltração das águas dos vizinhos selvagens, atípicos bantus. Não sabemos se conseguiremos tapar os nossos ouvidos por causa das festas, do álcool e dos iguais barulhos aterradores dos escapes livres das motas. Ou se seremos presos porque acusados de difamação ou incitação à violência. Ou por outro motivo por qualquer um do soberano poder. É tão triste viver assim diariamente tão inseguros, sem futuro. Mas os bajuladores dizem que assim é que está bom no reino mais aprazível que até hoje nunca se igualou no Golfo da Guiné.
Os bajuladores já perderam a consciência e desumanizam a nossa vivência. Não irão certamente bajular a Sandra Mariza e o crime desordenado. Sandra Mariza, uma jovem polícia angolana do trânsito foi arrastada e assassinada barbaramente por um jovem tresloucado condutor de táxi durante mil metros. É urgente que as empresas de autocarros assumam também o transporte de táxi e acabem de vez com a desordem criminosa dos taxistas que deveriam estar numa escola e nunca ao volante de um táxi. É também urgente que se acabe com o abandono da juventude em todas, como se diz por aí, as vertentes. É bom lembrar que este caos da Nação espelha a actual governação, que tem de mudar, senão não saberemos o que mais nos desesperará. Para a nossa polícia os nossos mais sentidos votos de pesar e que ajam com muita firmeza porque até nos nossos lares vivemos sempre na incerteza da espera de sermos assaltados. Relembro que a situação calamitosa da nossa criminalidade é sobretudo conjuntural.
E Angola retorna ao 25 de Abril de 1974 – e lugubremente parafraseando Manuel Alegre – não há ninguém que resista, ninguém que lhes diga não. Angola caminha na falsa harmonia do suicídio colectivo. Na falsidade da vida da cidade de Luanda que destrói os nossos cérebros noite e dia. Perante a anarquia governamental do tudo é impune. A única coisa que parece funcionar é a espoliação dos bens dos vendedores nas ruas, e partir casebres para entregarem os terrenos aos congéneres da ansiosa escumalha nacional e internacional. Um conjunto, um marasmo de idiotas que contracenam no nosso terrorismo urbano. Está tudo a ficar muito acidentado. O analfabetismo é a cada momento mais impressionante. São só desempregados e esfomeados sem habilitações literárias e profissionais que invadem ruas e assaltam. Há sempre ondas de roubos diários não relatados, fora do controlo policial. Não existe nenhuma polícia no mundo que consiga conter tal onda de esfomeados. São estes milhões marginalizados que muito brevemente, já acontece, inaugurarão a filial angolana da pirataria da Somália. Nesta total degradação não é possível suportar tantas atrocidades. Não dá para viver… nem para sobreviver. Os novos-ricos andam muito descuidados, então que se cuidem porque serão, junto com os seus bens, as vítimas preferenciais. Ninguém vive em paz. A miséria e a degradação social produzem tal imbecilidade que a população tornou-se tão animalesca que a única saída é fugir. Também impressiona não ver ninguém com um livro de leitura. Também não os há. É política governamental não fomentar, expandir a literatura. A pouca que há, nacional, tornou-se cansativa porque repetitiva. Mesmo assim a maioria dos autores são de leitura duvidosa porque enaltecem os feitos da má governação eterna. Continua a impressionar o porquê não se falar dos autores estrangeiros, publicitar. É como se não existisse Literatura Universal. Promover apenas as banalidades da literatura nacional é contribuir profundamente para o suicídio da identidade cultural. E assim não há país, há uma tribo. E também assim com tanta boçalidade é facílimo governar, espoliar, escravizar. Já não existe povo, apenas autómatos controlados por controlo remoto. Cérebros sem neurónios, sem sentido, sem vida. Até a informação deixou de existir. Os noticiários radiofónicos estão orientados para disseminarem a ignorância. Voltámos às trevas! Comparar Salazar com este tempo de antenas não tem sentido. Na prática pode-se jurar que Salazar era um gajo porreiro. Não é possível regredir ainda mais que antes. É verdade sim! Que aterradora regressão no tempo do nevoeiro cerrado que Angola acaba de fazer. Não é de acreditar que isto bata certo. É imprevisível o que vai acontecer. É possível em 2010 obrigar a democracia para uma ditadura democrática? Aqui por estas bandas é de acreditar que esses planos totalitários escorrerão nos caudais da época das próximas chuvas.
Entretanto, a UNITA finge que está na oposição. Para despertá-los e a toda a oposição, vamos virar as nossas baterias contra eles e não contra José Eduardo dos Santos. É à oposição que compete reverter o actual estado da Nação. Temos presidente de Angola?! Não! Presidente dos estádios de futebol, sim!
A UNITA finge oposição. Para além dela quem mais resta?! Apenas alguns engraçados que querem dar nas vistas utilizando a democracia. Mas para a conquistar, a democracia, é necessário lutar, lutar muito, inclusive com a própria vida. Mas, parece que estão outra vez à espera que alguns estrangeiros “burros” se metam nisso. Porque angolano é incapaz (?). Até nos discursos usam assim umas camisas muito bonitas, especiais… para fazerem, manterem a diferença. Angola e os angolanos suportam o destino predestinado da glória eterna da colonização. Para quê perder mais tempo com isto se não existe ninguém que resista a esta opressão. Tem que ser alguém angolano que dê mostras de oposição, de luta contra a ditadura. Não existindo, para quê perder mais tempo com Angola?! Na conversão da UNITA em diocese já sabemos qual é a sua revelação. Desculpem lá mas esta é a verdade sem rodeios. Não existindo “confronto” a José Eduardo dos Santos, não se podem atribuir culpas do estado actual da Nação e do seu assalto à Constituição. Caramba! Mas não existe ninguém em Angola que lhe faça frente? Têm assim tanto medo dele? Porquê?! Porque ele é mais esperto, mais inteligente que toda e qualquer oposição. Perante a infantilidade da oposição reina a astúcia da velha raposa. E neste zero de Luanda prosseguem nos quintais os ferozes ataques contra desprevenidos cidadãos dos cães mastins que dilaceram os corpos dos esfomeados, dos condenados à morte pelos campos petrolíferos. Fica extremamente perigosa a aprovação, legalização canídea de quem ordena nesta cidade. Transformaram-na num canil governado por cães raivosos eternamente à solta, soltos no poder. Prontos para nos esfacelarem. Luanda é uma urbe de cães selvagens. Por aqui facilmente notamos que como seres humanos não temos qualquer finalidade ou utilidade nesta governação que é contrária à génese humana. Ele é a erva daninha desta Natureza. Muito especiais são os especuladores imobiliários que nos transformam em cães. Não vivemos nas cidades deles mas sim em canis de betão. São como bombas, são como terroristas dos imóveis e ninguém ousa gradeá-los.
Há também outros, sempre documentários diários. Não sei para que é a servidão de qualquer acontecimento mundial, este ser obrigatoriamente comentado pelo Papa vaticinador do Vaticano. Mais parece um comentador desportivo da nossa Rádio 5. E como é fácil ludibriar as massas sim e não católicas garantindo que a jovem Susanna Maiolo que o atacou sofre de perturbações mentais. Porquê escamotear a verdade? O que realmente aconteceu? Que amargura vive nessa mulher? Que atrocidades lhe fizeram?
Que loucuras globais, que mistérios se escondem nos políticos nas actuais políticas mundiais que nos governam tal e qual como num asilo de loucos? Isto não é a globalização mundial, é a loucura global, total, totalitária. Caminhamos como que hipnotizados para o suicídio da massiva globalização. E ninguém consegue submergir deste mergulho, desta escuridão.
É imperioso realizar transformações sociais profundas para resgatar as populações à dignidade sem promessas falsas. É que a feitiçaria anda a monte. Está tão disseminada por esta Angola descontrolada que se não for parada assistiremos, contribuiremos definitivamente para o golpe final da nação angolana, para gáudio dos especuladores nacionais e da conjura nacional e internacional. É que os jovens aderem massivamente aos comités clandestinos da especialidade da feitiçaria. Como estão abandonados pelo Politburo, que perde o tempo em estádios e na devassidão faraónica, a juventude abandonada, desempregada, sem futuro, espoliada dos poços de petróleo, sem fundo de desemprego – isto é a continuação do marxismo-leninismo – não tendo outra visão de vida, atira-se de corpo e alma para a feitiçaria. No fundo é a sobrevivência de Angola que se joga nos bastidores dos estádios de futebol. É o CAN 2010 da feitiçaria. E quase cinquenta anos depois o ministro das Obras Públicas, mais um general, Higino Carneiro, atesta quase com orgulho: «Não temos quadros.» Foi certeiro… como as nossas universidades que não merecem tal nome. Dinheiro do Estado é para uso pessoal e para enriquecimento ilícito. Para universidades pessoais para formação exclusiva de quadros da corrupção. O dinheiro que se gastou nos estádios se fosse investido numa universidade de referência, os préstimos seriam os desejados. Mas como ainda nos sujeitamos aos caprichos pessoais de um chefe supremo, continuaremos subjugados pela FAMÍLIA e desempregados estrangeiros. E enquanto descarrilados no comboio da paz, o futuro desestabilizado acontece, perece. Convém lembrar que a continuação da imposição da chefia e seus chefitos é tribalismo. Não formam quadros porque têm medo de perderem o poder. Havendo quadros devidamente formados manter-se-á a mesma perdição da subjugação da militância do sempre o mesmo partido com os mesmos políticos que sem inovação permanecem na utilíssima mesquinhez. É um imenso prazer reinar em palácios rodeados de aparatos militares e outros esbanjamentos luxuosos, enquanto nas cercanias andrajosos arrastam-se na vã tentativa da obtenção de uma moeda ou de uma bênção. A África e particularmente Angola regridem para o tempo da caça aos escravos e dos irresponsáveis e incompetentes. E nenhum é preso, nem demitido porquê?! Porque são marxistas-leninistas, foras-da-lei. Destruidores de povos e de nações. Promovedores de intempéries, de hecatombes. Como é possível este lixo da História ainda sobreviver? Porque as democracias fedorentas alentam-nos, dividem os despojos com os abutres. É terrificante ver intelectuais acomodados no sistema que já desistiram da luta. O marxismo-leninismo não pode triunfar.
E reforçam-se reinaugurando as estruturas do poder popular e dos comissários do povo para melhor responderem às características revolucionárias do processo em curso. Assim esmagarão qualquer tentativa golpista da reacção interna e externa. E a igreja segue com a história que lhe é característica. Fingindo que luta contra a opressão, sempre camuflada do lado deste governo que continua genuinamente colonial. De facto se a igreja estivesse interessada há muito que Angola seria independente. Convém a manutenção dos escravos nos currais. Quanto mais analfabetos melhor, não chateiam, bebem, dormem hipnotizados, abandonados, queimados pelos álcoois religiosos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O Petróleo da Ira


«Bastava imporem uma ditadura clara, sem hesitações, como as anteriores, para nós então também escolhermos outras formas de luta, mais adequadas ao alvo. As evidências de corrupção e enriquecimento ilícito são tão claras que mais valia terem deixado a bola passar ao lado… A cara de Santo não fica bem no corpo de pecador… Quem acha que foi caluniado, que está a ser injustiçado, que mostre, então, publicamente, como conseguiu – em tão pouco tempo, ganhando e trabalhado tão pouco – enriquecer de forma tão escandalosa. Ou palmou a “massa” de todos nós, ou então, tinha “matite”… Sugiro que a Procuradoria-Geral da República inicie um sério processo de investigação, para apurar a proveniência desses dinheiros que os “ofendidos de agora” querem fazer parecer ter conquistado de forma honesta e laboriosa» in Justino Pinto de Andrade

Gil Gonçalves

Sem nenhum apoio – o único pendente é a desagregação da fossa abissal entre alguns fanáticos pelos recursos petrolíferos e diamantíferos, porque foram apenas eles que lutaram, se sacrificaram pela causa da libertação do povo angolano – a cidadã que ainda não perdeu a coragem de continuar, aceitar a sua angolanidade, embora se esteja marimbado para isso. Sempre omitida nos túneis do tempo da independência, a mamã, como todas, levantava-se muito cedo, antes da ópera dos galos. Nalguns dias, melhor, muitos dias, passava fome conforme decreto governamental e ia amealhando para sair da espécie de pardieiro do carente sol nascente que habitava. De vez em quando sonhava com uma do milhão de casas, e de outro milhão de promessas, mas logo desistia da ideia e sorria convencida como toda a gente de que era mais um embuste. Um estúpido engano porque não se construíam casas, partiam-se, logo não é com certeza construir um milhão de casas, mas destruí-las. Conseguiu umas chapas de zinco e despontou um tecto da dignidade que resta dos miseráveis que até estão proibidos de cheirarem o petróleo, sabe-se lá, podem enfeitiçá-lo. Pelo menos já não chovia dentro do casebre. Restava a prece para que não eclodisse chuva ciclonal. Ainda havia a grande preocupação das fortes tempestades da gatunagem, dos marginalizados pelos senhores do petróleo. E do mais dinheiro guardado vieram os tijolos e com eles se reforçaram as paredes do que já lhe chamavam apropriadamente lar. Já estava um casebre digno enquanto a quadrilha dos especuladores imobiliários lá não chegasse. Faltava a energia eléctrica que depois se solucionou recorrendo ao aluguer de um posto de transformação de mais oportunistas dignos defensores, seguidores das causas revolucionárias, dos anseios principais das populações. A arca congeladora, a geleira, e a ventoinha instalaram-se funcionais. A criançada, duas filhas e uma sobrinha órfã, os pais morreram da nova epidemia, os acidentes de viação que parecem querer ultrapassar as vítimas da guerra ainda teimosamente fresca. As crianças levantavam-se alegres, sorridentes banhavam-se e em seguida lutavam na mesa e manjavam a principesca pobreza. Quando as economias deram para a televisão e uma aparelhagem, então a felicidade instalou-se definitivamente. Repentinamente o casebre transformou-se num palácio sem presidente. Os chulos e as chulas habituais disfarçados de amigos e amigas, prestavam vassalagem afinando que vinham em visita, porque: «Como vocês nunca vem nas nossas casas, vamos nós às vossas. Estamos a cobrar e vocês a pagar» e invadiam a nobreza da mamã que mais parecendo uma castelã, fazia jus, envaidecia-se:
- Estejam à vontade, sentem-se, comam e bebam. Não estamos assim tão mal.
E a visita queria saber mais, assim como pretender adivinhar como é que ela conseguiu.
- Mana, a vida corre-te mais ou menos, apesar dos que ainda teimosamente nos governam desejarem o nosso fim. Querem a cidade, Angola só para eles, querem tudo.
- Sim, é verdade meu mano. Estou a andar bem… mais ou menos desde que consegui um lugar no Roque.
- É Mana, eles também querem esse espaço, parece que vão lá construir outro aeroporto porque aquele de Viana já não dá. Nada lhes dá, já têm o petróleo, os diamantes, as terras, os kumbus, a corrupção… e mesmo assim não se satisfazem, querem-nos varrer tudo, aliás já nos varreram.
- É verdade mano, parecem mais vampiros sedentos de sangue, e nós somos as suas manadas. Este nosso futuro é vulcões que eles semeiam convencidos que isto vai andar assim eternamente.
- Olha Mana, aqui pela cidade e arredores onde há terrenos com construções ou não, eles andam com os olhos neles. É uma grande quadrilha arregimentada por marginais brasileiros, portugueses e chineses. Cantam-nos que estão aqui para nos ajudarem a reconstruir Angola, mas é mentira deles, é para nos roubarem tudo, já nos roubam as nossas… terras.
- Mano, sinto que esta nossa Angola vai outra vez acabar muito mal.

E os dias não passavam porque já não os havia, isso era coisa do antanho. O que passeava, continuava e mandava muito bem eram os dias da miséria que avassaladores proclamavam o destino sem final. E o mano veio de visita surpresa, de prevenção e avisou:
- Mana, uma manada dos afundadores da nação aproxima-se. Andam a numerar as casas, dizem que não são, intitulam-nas de casebres. Casas só eles podem ter e mais ninguém. Esta e as demais não lhes escaparão.
- Mano, eles fazem-nos assim sofrer porquê? Porque são tão maldosos, tão infernais. Esses não são pessoas, só querem o nosso mal.
- É verdade Mana, eles até quando passam por nós olham-nos com tanto desprezo que até parece que o lixo para eles tem mais valor.
E aguardaram o dilúvio humano e ele chegou. Primeiro com uma imensa coluna de pó aterradora que parecia quase o fim do mundo. Era um exército motorizado e de arsenal militar equipado. Executavam como que uma carga de cavalaria pesada. Como num jogo de futebol que sendo uma equipa fortíssima e a outra fraquíssima usavam de mil e um cuidados. Equipa prevenida é a melhor arma para combater o inimigo. A arrogância dos fortes com o dinheiro do petróleo festeja a desgraça alheia, arrasa a equipa fraca. Não se pode dar confiança a analfabetos pois que o negócio urge, e onde se intromete o dinheiro governamental é a destruição populacional.
E a nuvem de poeira aumentava, aproximava, como a visão final dos cavaleiros do Apocalipse. Os soldados da destruição, os garantes, guardiães da Angola vendida desembarcaram dos seus veículos bélicos. E do objectivo a abater aproximaram e ultimaram:
- Ainda por aqui?! Então não cumpres as ordens, és muito indisciplinada!
- Mas afinal o que é que se passa, tanta arma e descomunal exército só para derrubarem um casebre?
- Eh pá, esta gaja está muito armada. Atenção pelotão da destruição dos casebres, AVANCEM!!! FOGO!!! Porra! Fogo não, camartelo!
- Manos, por favor deixem-me só tirar…
- … Já sabemos essa cantiga de cor e salteado. A televisão, a geleira, a arca, a aparelhagem…
- … Não, não, por favor… são as crianças que estão lã dentro, vão matá-las?!!!
- Não queremos saber, cumprimos ordens do Ordens Superiores!
- Oh! Meu Deus! E quem é esse Ordens Superiores?!
- Ninguém sabe quem é… é o nosso deus, e por isso ele está sempre invisível, invencível no meio de nós.
E os zelosos cumpridores das Ordens Superiores, arrasaram tudo, não se importando se no interior do casebre estavam crianças a dormir ou não. A sua missão é destruir tudo, inclusive vidas que não têm nenhum valor. Estão em jogo grandes interesses internacionais, e por isso mesmo a FAMÍLIA não pode perder tempo com coisas insignificantes. Que valor têm a vida de crianças? Apenas o nascer e morrer.
Próximo, habituados a estes desvarios, jovens alienados pararam o seu carro, abriram-lhe as portas e colocaram a música no som máximo, até não dar mais. Fiscais aproveitaram-se da refrega e pretextando Ordens Superiores ainda e sempre em vigor, espoliaram algumas zungueiras. Hoje o negócio foi-lhes extraordinariamente rendoso, se fosse assim todos dias. Jovens montados nas suas motos faziam estalar os ouvidos com os escapes livres na maior barulheira possível. Alheios a tudo isto, os zelosos cumpridores da lei fingiam ignorá-los, porque estes gajos são filhos de peixe grande, e não convém arranjar problemas com os chefes, são muito amigos, usufruem do compadrio.
E a Mana vendo Angola fugir-lhe debaixo dos pés, já não é dos angolanos, libertou do mais profundo da sua alma o sentimento de desânimo desta independência outra vez só para escravos.
- Que o dinheiro não tem cor?! Tem sim senhor! Tem a cor do petróleo e dos diamantes, têm a cor da miséria e da corrupção. Ah! Como é tão bonito viver sem energia eléctrica e sem água. Ah! Como é tão bonito ver os nossos queridos governantes ordenaram selvagens destruições dos casebres dos idiotas sem petróleo, para depois construírem os seus complexos turísticos, e neles empregarem estrangeiros desempregados e angolanos na recolha das sobras dos seus repastos. Ah! Como é tão bonito ver os nossos governantes tão inchados de dólares transportados nos oleodutos bancários dos mercenários. Ah! Como é tão belo viver no desemprego e ver os estrangeiros, bwé de chineses, como se fosse toda a China. E os estrangeiros da vanguarda corrupta comerem, beberem à farta e lançarem-nos olhares de desprezo, como se fossemos lixo. Têm razão, já o somos. Ah! Esta independência que nos persegue e que tudo nos tira e na morte nos desconsola. Ah! Como é tão exuberante ver e ouvir este reinado falar dos seus negócios pessoais, impessoais, familiares, pois que Angola é toda deles. Não sabem?! Já privatizaram o Mussulu e a sua população que se afundam. No Wako-Kungo as populações espoliaram-nas e obrigaram-nas a refugiarem-se nas montanhas, como fugitivas de um grande maremoto. Já não são angolanos, são montanheses. E no Lubango o governador – parecendo comandante de um campo de extermínio – decerto diplomado pela universidade da actual conjuntura – está a enviar as populações para uma espécie de câmara de gás sob o olhar manhoso ainda de Lenine. Ah! Como é tão bonito ver dos palacianos condomínios, devidamente protegidos pelos exércitos particulares, sentir, apreciar o desenvolvimento económico da miséria. Da estrangeirada que rouba impunemente as terras milenares dos autóctones apenas porque são angolanos. Ah! Como é tão bonito ver Angola entregue, vendida, empossada pelos estrangeiros. Ah! Como é tão bonito ver a juventude tão sabiamente instruída nas universidades da delinquência tão violenta. Ah! Como é de beleza tão invulgar ver Luanda e tudo o que resta das cidades de Angola libertas de mwangolés, porque com eles Luanda fica feia, tudo fica tão medonho, e ao enxotá-los para bem longe, os estrangeiros e os falsos angolanos viverem numa boa, afastados dos mwangolés imundos, tão porcos, tão chatos, tão animalescos. Ah! PORRA! Fora com esses porcos! Ah! Como é tão horrível ver as mamãs nas ruas, escorraçadas pela polícia e similares, humilhadas, porretadas, até a miséria dos seus haveres confiscados apenas porque ousam lutar para não morrerem de fome. Venderam Angola aos estrangeiros com os nossos corpos incluídos. Eles vão chegar e nos escravizar.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O ÚLTIMO COMBOIO DO KATANGA


E logo pela manhã, abrimos as janelas e mais um estranho dia nos desgosta: os gases tóxicos dos geradores saúdam-nos, esperam-nos tal e qual a morte. Como a extrema miséria, a fome, que é aquela por quem se espera.
E esses que discordam, que criticam o Politburo, esses sim, são os mais valiosos. Porque os que concordam são apenas falaciosos, e com estes não se pode contar. Porque são sempre os primeiros a atraiçoar.

Gil Gonçalves

Luanda está devidamente preparada para receber as chuvas, a governação não. A questão não é das chuvas, é da péssima governação. Portanto, Luanda está preparada para chuvas, sim! Os governantes é que não.
Os especuladores imobiliários com as rotas da degradação social abertas, especulam, destroem Luanda. Não é nada difícil, qualquer pessoa o nota, o diz, que as obras destes endeusados resumem-se em fechar os caudais das águas das chuvas e enviá-los para os vizinhos, os angolanos ainda não independentes. Por exemplo, no bairro Cazenga as águas não têm por onde saírem. Então, significa que as empresas de construção civil contratadas pelo Governo, agem intencionalmente para destruírem Luanda. E prosseguirem nessa senda interminável. Fazerem-se más obras, de fingir, as chuvas chegam, arrasam e as empreiteiras lá estão para voltarem à execução do mesmo trabalho. Por aqui facturar é fácil, não dá trabalho nenhum, basta destruir. Torna-se evidente que a política da demolição inescrupulosa conduz o caos de Luanda. Apenas existe uma preocupação do que resta da funesta governação. Destruir casebres para os especuladores imobiliários facturarem… assim como uma espécie de transferências fraudulentas no nosso insigne professor bancário BNA, Banco Nacional de Angola. Com tantos prédios, com mais tantas construções anárquicas avalizadas pelo Governo, o que resta da miséria da energia eléctrica, da água e do saneamento, veremos Luanda submergir numa gigantesca corrente marítima de esgotos ao ar livre, porque não existe capacidade da rede. O que interessa é corromper, vigarizar e depois bazar ao encontro das contas bancárias bem recheadas pelas transferências para o exterior. Para o interior não, não vá o diabo tecê-las. Os que ficarem que se danem… mas agora surgiu um novo conceito. Parece que os temores dos terramotos, além de vitimarem inocentes, também perseguem uma certa minoria que já não se sente bem em qualquer parte do mundo. Vivem neste receio e noutro que é o ataque selectivo do terrorismo internacional.
«Como pode um banco emissor ter ignorado as denuncias feitas, durante anos, por bancos comerciais relativas à subtracção de 100 a 150 mil dólares/dia em cada remessa de um milhão de dólares? O que aconteceu no Banco Nacional de Angola configura o desmoronamento de uma das instituições mais nobres da nação. O que aconteceu no Banco Nacional de Angola configura o descrédito perante um terramoto que ameaça instalar a desconfiança dos operadores económicos no sistema bancário.» In Gustavo Costa no Novo Jornal de 05 de Março de 2010.
Quando é que começa a época da caça aos especuladores imobiliários? Porque é que os idiotas e similares se convencem que o mundo é só deles? Porque construir armas para destruir é fácil, construí-las para edificar algo útil é extremamente difícil. Mas, mesmo assim gosto muito da democracia, não gosto é dos democratas. Mas porquê andar assim tão abandalhado, tão à toa, tão destroçado? Meus amigos, estou conforme a actual conjuntura. Porque se caminhamos, se vivemos, se os tememos… então não vivemos! O tempo move-se e nós tão parados, tão amordaçados. Prometeram a independência, a felicidade e a liberdade às populações escravas para as espoliarem e as renovarem para os séculos futuros da mais vil sujeição. Já não sabem, já se esqueceram que a beleza de uma nação é como a da mulher, não se vê, sente-se nas nossas almas.
Quando uma sociedade se torna aviltantemente elitista, uma revolução paira, está para breve. Porque quando os políticos prometem mundos e fundos é evidente que estão a mentir. Eles querem é o poder para continuarem com as oligarquias e nos ensombrarem, nos dominarem. A História é a morte do tempo das multidões sem poderes. Mas, o que é melhor que a democracia?! É não haver democracia. As zungueiras carregam-na nas costas com os filhos. Carregam o fardo muito pesado que lhes dobram as costas… Angola. Continuamente vemos multidões de pessoas a girarem à nossa volta. E no entanto continuamos perdidos, irremediavelmente sós.
Confesso-lhes um grande segredo: a coisa mais difícil que existe é viver. Se não existissem seres humanos, tudo se tornaria tão fácil. Mas conseguiremos viver sem eles? E há um navio negreiro chamado Angola. Há países que só têm um presidente e um palácio. Povo não existe, exterminam-no. Para que servem canalizações sem água, condutores eléctricos sem energia, automóveis sem estradas. País sem governo é como doentes sem hospitais. Como estudantes sem escolas e livros sem leitores. Também impressiona ver como os democratas destruíram a democracia em Portugal. É como os bancos dos brancos… para que servem se nunca têm sistema? São como os submarinos, raramente vem a superfície. Algures no Universo a galáxia Angola foi engolida por um buraco negro. Voltando a Portugal… para avançar têm que acabar com os partidos políticos e instaurar a tal ditadura benévola. Portugal não tem democracia, espelha Angola, que tem uma idiossincrasia. Um manicómio de loucos atacados pela sismodemocracia. E os hospitais psiquiátricos não chegam para a demanda. Que patético, que orgulhoso país que produz tantos loucos. Fabricantes exclusivos da loucura colectiva.
É o Inverno democrático. Agora é que os esbanjadores da democrata Angola podem comprar Portugal… está em saldos. Uma corja de malfeitores que debaixo da ferrugenta capa da democracia capada, destruíram Portugal e os portugueses. E tentam a todo o custo convencer a dinastia Isabelina para também utilizar o mesmo sistema em Angola. Mas não é necessário, porque já está devidamente assentado. Não deixa de estranhar a salutar, muito familiar analogia, o incremento da destruição de Angola e Portugal na mesma lagoa. Por exemplo, em Luanda pouco falta para quando sairmos à rua os esfomeados nos assaltarem, alias já acontece. Por incrível que pareça não existe nenhuma política de emprego para nacionais, apenas para estrangeiros e para o Politburo. Isto e mais os espoliadores das terras e dos casebres. Resistem ainda os vulcões da ignomínia onde o nascimento tumultuoso é sempre certo. Entretanto ultimam-se os preparativos para a vitória da miséria total e incompleta. É que depois de uma revolução mal sucedida, acendem-se velas, porque outra se aproxima, se afirma.
E os inventores de Deus e dos deuses tentam sobreviver na floresta dantesca que criaram, injectando nos rebanhos humanos que apesar de dois mil e tal anos, as populações ainda acarneiradas se salvarão com a prometida vinda do Senhor. Mas serão necessários milhares e milhares de tais anos. Entretanto, o reino dos céus e da Terra fundem-se. Como é que tanta miséria sustentará tantos sacerdotes? Nem telefonar para o Céu se consegue, as linhas dos circuitos Isabelinos estão saturadas, e lá no Céu as lotações estão esgotadas. Já não há mais lugares para almas, têm que enviar de Angola especuladores imobiliários para lá construírem abundantes cemitérios desalmados. Assim não dá para telefonar para lá, as linhas estão permanentemente ocupadas. E lá no Céu há também uma guerra, uma outra espoliação por um pedaço de espaço. Nem no Céu eles nos deixam em paz. Os espoliadores angolanos também já lá lançaram alicerces e a destruição divina é certa. E lá também já têm seguranças. Há pessoas terrenas que conseguiram o número do demónio, e telefonam-lhe regularmente. Está difícil saber que conversas se tratam. Boa coisa não é certamente.
É que qualquer coisa que se diga, que se escreva, mesmo que se pense, lá vem a sentença lapidar: «tem cuidado com a bófia, já deves estar nas listas deles, de modos que tens os dias contados.» E na verdade o terror é tal, que quando nos batem à porta, agitamo-nos que talvez sejam eles, os da secreta. O mais importante neste tempo dos mastodontes é demolir os casebres dos povos. Como sombras perdidas, sem vida.
Para o correcto desenvolvimento económico e social, Angola importou uma caterva de especuladores. Como principal etapa da reconstrução nacional assentou-se nas demolições das casas, casebres, palhotas, pau-a-pique, enfim, tudo o que sejam pequenos ou grandes aglomerados populacionais. Com abismais milhares de demolições, nuvens cinzentas assolam-nos por todos os horizontes. É Angola que se reduz, cheira a pó. E a hipocrisia da Igreja une, estende o seu braço secular a quem lhe pague mais. Vende-se à ditadura e à corrupção. É a Igreja eterna, do infinito papal. A Igreja da devassa fé e da destruição mental. Do quem não sabe fazer mais nada, vai para padre. Eis os reincidentes, os novos afundadores da nação.
E as nuvens de poeira dificultam-nos, quase que não nos deixam respirar. E produzem-nos tal défice mental, que as ideias assim obscurecidas reduzem-nos ao pó decretado. O pó da infâmia, e da epifania, dos mosteiros sem fé. E os especuladores, senhores da realidade, novos caçadores de escravos, embrenham-se nos sertões de betão e proclamam a aurora do breu: «negros e negras, outra vez para as naus! Negros outra vez para as negras marés dos lagos dos bairros artificiais, impolutos e de sangue seco, de cadáveres abandonados, afogados.» Estes são os revolucionários incrustados, nos negros apagados e até nos mares espoliados.
É a festa nacional, do poder do Fausto cerimonial. O poder é para uns tantos porque os milhões sem ele, de esfomeados sem forças para andarem, é difícil se concentrarem, e tudo e todos se dizimarão. Neste campo de batalha, as forças são barbaramente desiguais. Que estranho poder que se presenteia com a demolição das populações que o elegeram e agora as liquida. É o que acontece quando poder e Igreja se unem. As nascentes são incertas e não se sabe quem nelas sobreviverá. É um erro histórico gravíssimo, a condição política fornecer poder à Igreja. Ela deve situar-se longe e abster-se de qualquer intromissão na vida política… e abandonar de vez as tropelias do sórdido rastejar. Assim, mais uma tragédia humana se anuncia. A Igreja e o poder ditatorial são pó, e a ele devem retornar. Na verdade, o que estão a fazer de Luanda é um gigantesco lago nauseabundo, rodeado de alguns prédios e condomínios luxuosos. Qual é o futuro de um país sem energia eléctrica? É governar às escuras.
A prestação de serviços das empresas estrangeiras é a destruição dos cabos de energia eléctrica, das condutas de abastecimento de água, dos cabos de fibra óptica – ficamos sem comunicações – a destruição de passeios e a venenosa poluição ambiental. Energia eléctrica entre 130 a 160 volts, há mais de uma semana junto ao Zé Pirão. Porquê?! Porque são três prédios que dependem apenas de uma fase. Porque os mastodontes da TEIXEIRA DUARTE SA, – parece que compraram uma parte de Angola – erguem mais um prédio que o povo garante que é made in Isabel dos Santos. Ligam as máquinas deles na rede que não suporta o exorbitante consumo, estoiram com os circuitos, e não te rales, são tão sintomáticos, tão sistemáticos. É a selvajaria em relação ao semelhante que não existe, pois claro. Só eles é que são pessoas. Com a espoliação da energia eléctrica, da água, dos casebres, dos terrenos, dos empregos, com o cartel superiormente legalizado que sobe amiúde os preços, e abençoados pela santa Igreja, resta uma mensagem muito azeda que os povos prometem: «esperamos a hora para nos revoltarmos.»

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Bastilha do nosso Voltaire, William Tonet

Processo “Pronto a condenar”

Na próxima segunda-feira, dia 13 de Dezembro, terá início um julgamento que, na realidade, corresponde a três processos fabricados à medida do regime, quer dizer, do tipo “pronto a condenar”, como são infelizmente quase todos os processos que digam respeito não só a manifestações de populares contra decisões do Executivo ou da Assembleia Nacional, ou de um qualquer membro (tentáculo) do poder político, mas também a simples maneiras de expressar a sua indignação contra os mesmos. Uma palavra mais ríspida, mais contundente, chega para se levantar o espectro da calúnia e da perfídia.
Assim será no julgamento atrás referido (cuja sentença já está muito provavelmente lavrada antes de ele ter começado), a propósito de uma queixa introduzida contra o director do Folha 8, William Tonet, por membros muito influentes do poder instituído, embora de fugaz passagem pelos corredores do Estado.
Serão três os processos em julgamento, movidos respectivamente pelo ex-Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFAA), Francisco Pereira Furtado, através do processo: 972/08-D; pelo Procurador da Procuradoria Militar das FAA, Hélder Pitagroz, processo 659/08-D e pelo famoso general, considerado por muitos dos seus colaboradores e familiares (eles sabem seguramente o que dizem), multimilionário, Chefe da Casa Militar da Presidência da República e Ex-chefe do Gabinete de Reconstrução Nacional, Manuel Vieira Dias, Kopelipa, processo n.º 1449/08-D.
Os crimes de que é acusado o director do Folha8 foram cometidos, se é que isso é crime, no âmbito da liberdade de expressão e de informação, quer dizer, no âmbito dos atributos do F8, que continua a exercer uma inalterável pressão desde que saiu à rua em 1993, sobre todas as derrapagens cometidas (e não são poucas) por altos funcionários do falecido governo e do actual Executivo condenado a desaparecer, se não alterar a forma parcial e discriminatória de gestão da coisa pública e dos povos autóctones.
O advogado David Mendes, responsável pela defesa acredita tratar-se de mais uma cabala do regime, pois as notícias publicadas não constituem nenhuma calúnia de difamação. “A realidade é que estes generais dizem apoiar a democracia mas não estão preparados para o seu exercício”, assegurou ao F8, este advogado.
Noutra dimensão, o mesmo jurista referiu-se ao facto de esta atitude poder significar uma pressão sobre o sistema da justiça, com base na força, no sentido de esta e os tribunais se subjugarem aos interesses e apetites dos generais ao invés de obedecerem à lei e ao direito. “De qualquer forma nós acreditamos que um núcleo de novos juízes está cada vez mais comprometido com a Justiça e não com o poder económico e intimidatório dos considerados poderosos”, opinou ele.
De relembrar que este julgamento de William Tonet, que terá início no próximo dia 13, é um dos quase duzentos que pesam sobre a sua pessoa. Na sua esmagadora maioria eles foram formatados nas oficinas do Futungo, do SINFO e de outros apêndices do regime e têm por característica comum uma claríssima função e objectivos comuns: aniquilar, ou silenciar o F8.
Só para dar um exemplo, é de relembrar um outro processo instruído pelo Ministério Público, que mais cedo ou mais tarde terá de passar à barra do tribunal.
Essas Excelências, que se viram couraçadas pelo prestígio do posto que ocupam, moveram processos ao F8 por esse órgão de comunicação social ter desvendado a verdade, nomeadamente sobre um caso de movimentação de fundos no exterior do país, Portugal, e sobre a forma bárbara como foi assassinado o ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira. Fotos publicadas com a anuência da família do falecido, que não considera essa publicação como sendo um ultraje à sua honra.
Aliás, este abuso de autoridade não é o único, como se constatou depois num outro processo de volatilização de fundos do Estado angolano, no caso BANIF. Um fundo de vários fundos, que não eram perdidos (como os 300 milhões do BNA) nem achados (também como os do BNA) mas que paravam em parte incerta nos bolsos de pessoas incertas e, crime odiento aos olhos de certos sectores da PGR, também tinham saído (como os do BNA), mas legalissimamente, dos cofres do Estado, unicamente por o ou os seus signatários serem proeminentes figuras do Executivo (ver caso BANIF).
Com base nesta trama, o político Fenga Miranda faz o seguinte retrato, que F8 agradece. "A vossa audiência no dia 13, deixa pressagiar que o cerco se aperta cada vez mais e incrivelmente em torno de todas as forças ligadas à dinâmica, tanto política como social e associativa. Cada um dos acusadores pensa que tem telhado de betão ou sombrinha de chumbo, quer dizer que o fogo do vizinho nunca vai atingir a sua casa. O regime ou “supostamente”, parece estar a ganhar a batalha do adormecimento e de forma calculada, bem velada e extremamente perigosa, tentando empurrar-nos para o buraco sem que o mundo se aperceba disso, pois o sorriso está sempre presente e como tudo é feito subtil e criteriosamente, a comunidade internacional interpreta a pior das agressões como sendo “faits-divers”. É urgente organizar-se um apelo ou uma carta à Nação e à Comunidade Internacional, espécie petição de associações, intelectuais, universitários, professores, jornalistas, sobre o estado actual da democracia em Angola e os riscos do futuro".

Voltando, porém, ao caso BANIF, o director do F8 foi impugnado, e quando o processo corria os seus trâmites verificou-se que tudo o que tinha sido revelado correspondia à realidade dos factos. Qual quê?, não se ouviu uma única voz de protesto contra a difamação urdida pelo PGR, pois a sua queixa tinha como exclusivo objectivo sujar o bom nome do F8.
Veremos o que se vai passar, mas uma coisa é certa, o F8 não vai morrer. Poderá ir ao tapete, como já antes aconteceu. Mas levantar-se-á. Revigorado e seguirá a sua marcha rumo a um país mais justo, menos corrupto e discriminatório e com melhor distribuição da riqueza angolana

Finalmente uma medida diferente da cartilha. Absolvido e libertado em Cabinda o activista António Paca Pemba Panzo


O activista de Direitos Humanos, António Paca Pemba Panzo, acusado de um crime de "Outros actos contra a segurança interna do Estado", p. e p pelo art. 26º. Da lei 7/79 de Código Penal, foi absolvido no, dia 22 de Novembro pelo Tribunal Provincial de Cabinda por os factos constantes da acusação do Ministério Público não conterem elementos de prova que possam manifestamente influir na decisão da sua condenação.
A decisão foi tomada pelo Juíz de Direito, Afonso Félix Guerra Ngongo, que proferiu o despacho de não pronúncia.
Recorde-se que o caso remonta à madrugada de 11 de Abril de 2010, quando cerca de quinze agentes da polícia bateram a porta da sua residência e lhe exibiram um "Mandado de Busca", que lhes conferia a missão de apreender material de propaganda hostil (camisolas). Era a detenção de Paca Panzo.
Segundo o Procurador Provincial de Cabinda, António Nito, que fez denúncia em relação ao caso, Paca Panzo seria julgado por ter em sua posse documentos tirados de sites da internet considerados pelo regime como hostis ao governo de Luanda.
O activista, segundo consta nos autos, estaria envolvido numa iniciativa de manifestação de protesto a detenção de. Raul Tati, Francisco Luemba, Belchior Lanso Tati, José Benjamin Fuca, André Zeferino Puati. O processo que conta com três páginas, cita ainda a Omunga e a Open Socity de estar na origem da manifestação em questão.
Depois de muitas vicissitudes, a 22 de Novembro, Afonso Félix Guerra Gongo exarou um "despacho de não pronúncia", segundo o qual "não se recebe a acusação do Digno Magistrado do MP" pelo facto de os autos não apontarem "no sentido da existência de qualquer ilícito penal". Segundo o mesmo despacho de não pronúncia, o arguido não pode ser condenado pelos documentos apreendidos aquando da sua detenção, no dia 11 de Abril último, já que os mesmos não são da sua autoria. Além disso, os escritos da autoria do réu "não contêm matéria susceptível de integrar qualquer censura jurídico-penal".
Portanto, dele não resulta, isoladamente ou em conjunto o "pôr em perigo a segurança do Estado".
Por estas razões, o Tribunal do Tribunal Provincial de Cabinda absolveu o arguido da prática do crime contra a segurança de Estado de que foi acusado pelo Ministério Público (MP).
No dia 23 de Novembro, por volta das 12 horas, depois de 226 dias sob detenção, Paca Panzo foi mandado em liberdade, donde, de resto nunca deveria ter saído, se Angola fosse de facto um Estado de Direito Democrático. Resta saber se a reclamação de indemnização do Estado será introduzida por alegado erro grosseiro da Polícia Judiciária e do Ministério Público.


ONU alerta para perigo de propagação rápida da Sida


As Nações Unidas consideram que os números da Sida em Angola “ainda não são alarmantes” mas avisam que a situação pode “piorar rapidamente” se programas de prevenção não forem aplicados “em larga escala e em ritmo acelerado”.
Numa declaração a propósito do Dia Mundial do Sida, assinalado no dia 01 de Dezembro, a ONU refere que apesar de a situação não ser ainda “alarmante”, os números de infeções “não estão a diminuir” em Angola.
Dados estatísticos das autoridades sanitárias angolanas indicam que diariamente são notificados 20 novos casos no Hospital Esperança, unidade hospitalar especializada em Luanda.
Segundo a ONU, a taxa de prevalência continua a ser relativamente “baixa e estável”, com uma estimativa média de 1,9 por cento na população adulta, com maior incidência em centros urbanos de algumas províncias.
As Nações Unidas sublinham que, porém, as novas infeções “não foram ainda significativamente reduzidas”, o que poderá “agravar a situação em poucos anos se não forem implementadas em larga escala e em ritmo acelerado as medidas de prevenção”.
A preocupação da ONU é sustentada pelos dados estatísticos nacionais angolanos, com base no Inquérito do Bem-Estar da População (IBEP) 2010, segundo os quais apenas 40 por cento das pessoas entre os 12 aos 49 anos com múltiplos parceiros sexuais usa preservativo.
Os dados do IBEP dão conta ainda de que 30 por cento dos jovens entre os 15 e os 24 anos não têm conhecimento “claro” de como evitar a transmissão do vírus da Sida. Por outro lado, 2,4 por cento das mulheres grávidas têm Sida que poderão transmitir aos bebés por falta de informação.
“Destas mulheres, cerca de 20 mil, de acordo com o Instituto Nacional de Luta contra a Sida, apenas 4780 fizeram testes e 3050 beneficiam de assistência médica para prevenir a transmissão ao bebé”, referem as Nações Unidas.
Para melhorar a situação, as Nações Unidas pedem ao Governo angolano que aumente “rapidamente” os serviços de prevenção e tratamento da Sida em todo o país, para que mais pessoas sejam diagnosticadas e tratadas.
A coordenadora da Agência das Nações Unidas para a Sida (ONUSIDA) em Angola, Renu Chahil-Graf, apela a um maior “ênfase nos esforços multisectoriais e a utilização das possibilidades atuais, como a capacidade de resposta do Governo, o entusiasmo da sociedade civil, a disponibilidade de recursos, o apoio de parceiros internacionais e a recente declaração do Vaticano sobre o uso de preservativos”.

Governar à moda cá da terra. Todos calados e a culpa da roubalheira milionária do BNA vai morrer solteira


Numa empresa havia quatro (4) funcionários públicos chamados:
"Toda-a-Gente",
"Alguém",
"Qualquer-Um"
e "Ninguém".
Havia um trabalho importante para fazer e "Toda-a-Gente" tinha a certeza que "Alguém" o faria.
"Qualquer-Um" podia fazê-lo, mas "Ninguém" o fez.
"Alguém" se zangou porque era um trabalho para "Toda-a-Gente".
"Toda-a-Gente" pensou que "Qualquer-Um " podia tê-lo feito, mas "Ninguém" pensou que "Toda-a-Gente" não o faria.
No fim, "Toda-a-Gente" culpou "Alguém", mas "Ninguém" fez o que "Qualquer-Um" poderia ter feito.
Foi assim que apareceu o "Deixa-Andar", um quinto (5º) funcionário de reserva, para evitar todos estes problemas.

Na semana passada escrevemos o seguinte comentário a propósito da “Caça ao Tesouro Nacional” no Banco Nacional de Angola (BNA): «o “Caso do Saque do BNA”, não pode ser encarado como tendo sido perpetrado, pelo que nos dá a ver a parte visível do iceberg, por “Zés-Ninguém”, detentores de baixas e médias patentes, como responsáveis do desvio para as suas contas bancárias um quanto “canhotamente”, diga-se a verdade (propositadamente?...), de uns largos milhões de dólares.
Uma questão importante em todo este caso, para credibilização da imparcialidade da investigação é o de se saber em que pedestal a PGR coloca, no caso, o Banco Nacional de Angola:
a) é uma empresa pública?
b) é um governo autónomo gestor dos grandes capitais do Estado e públicos?
Desta distinção se poderá visualizar a incidência e responsabilização criminal do(s) agente que com os seus actos premeditados, negligentes ou dolosos escancarou os cofres de tão importante instituição, para o saque milionário.
Chegados a esta margem, não se pode ilibar os vários governadores do BNA, que com a sua assinatura tornaram lícitos todas as transferências, não colhendo a tese de terem sido aldrabados, por esta figura não estar capitulada na norma jurídica, ao contrário da negligência consciente».

O que queríamos realçar é o facto de mais uma vez nos encontrarmos em face de uma situação semelhante ao resultante da maneira de agir das avestruzes, que põem a cabeça debaixo da areia para evitar as consequências duma repetina ameaça que de repente se lhes depare.
Ora o que se passou no BNA entre Março de 2007 e Novembro de 2009, foi muito mais do que um roubo fácil de mais de 300 milhões de dólares cometido por gente de baixa e média patente, comerciantes, motoristas, estafetas e mesmo um engenheiro nuclear (!), o acto em si constitui uma verdadeira ameaça não para o governo, que esse nem sequer existe, mas sim para o prestígio que resta do Estado e da nossa Nação, Angola, aos olhos da comunidade internacional.

Onde estão os responsáveis?

Por razões ligadas sem dúvida aos interesses superiores do Estado, fez-se em volta deste caso um silêncio quase total, com a ideia de que tal procedimento seria uma maneira de proteger o seu simbólico estatuto de “pessoa de bem”. A todo o preço se tentou minimizar o caso. Erro crasso.
Tal maneira de sanar esta situação faz-nos pensar e retrogradar ao tempo da guerrilha, em que o silêncio era imposto aos guerrilheiros para escapar às rusgas ou à investida de forças armadas do colono. Hoje, 40 anos mais tarde, esse trauma terrível continua a perseguir-nos e eis o resultado, calamo-nos, quietinhos ficamos para não criar ondas denunciadoras das nossas fraquezas e pensamos que o problema será assim ultrapassado.
Responsáveis não existem no nosso país, e este caso é paradigmático.
Sabendo que, por norma estabelecida de longa data no BNA, nem todos os administradores podem ordenar, com a sua assinatura a execução de uma operação, acima dos USD 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil dólares). Logo, no caso de valores acima de um milhão de dólares, apenas o governador do BNA e mais um administrador de topo, detentores do código de senha A podem, com a aposição da sua assinatura, validar a operação. Daí a responsabilidade final de qualquer operação caber ao governador, ainda que na preparação haja procedimentos menos correctos. “Compete ao governador do BNA, com base no sistema informático, antes de liberar qualquer operação ao estrangeiro, fiscalizar uma ou mais vezes se está tudo correcto. Se agir em contrário, a sua omissão é cúmplice, logo materialmente responsável”.
Por mais que atentemos às razões deste silêncio em torno do apuramento das reais responsabilidades dos principais líderes implicados neste caso, silêncio evidentemente doloso para o bom nome de Angola, não podemos compreender que sejam aceites tais práticas políticas quando se continua sem saber onde está
o dinheiro.
Não era nossa intenção revirar a faca na ferida, mas somos obrigados a
relembrar aos nossos leitores que da anunciada recuperação de 90% dos montantes roubados ao BNA, em declaração feita à imprensa em Janeiro de 2010 pelo Procurador-Geral adjunto, nem sequer 10 % reintegraram os cofres do Estado.
Não vamos recapitular todas as camuflagens urdidas para enganar os angolanos, apenas vamos questionar o essencial, e isso passa fatalmente pela responsabilidade atribuída ao presidente da República

Porque se cala o presidente?

O que estará por trás do silêncio do presidente da República
Em torno dos 300 milhões desaparecidas na natureza vnão haverá “tubarões”?
O que tiraram os “tubarões” é para ser investigado ou não?
Quando é que começa a verdadeira investigação?

Onde estão os 300 mil dólares?

Em qualquer país do mundo, sem bananais, tão monumental roubo seria transformado em escândalo nacional, a oposição ao governo instituído nesse país, sem bananas, teria exigido a realização de um inquérito sob égide de entidades independentes com aplicação no seu final de sanções pesadas para todos prevaricadores, a começar pelos cabeças de lista dos órgãos de chefia.
Aqui nada, não há responsáveis, Abraão Gourgel, por exemplo, mesmo que lhe sejam atribuídas circunstâncias atenuantes, por ele ter sido realmente deitado às feras e ser caloiro nestas lidas das altas Finanças de Estado, a verdade é que, como responsável, deveria ter sido chamado à pedra. E até foi, mas JES ajudou-o muito a responder a perguntas que não tinham resposta, ou melhor, tinham uma, um pedido de demissão formulado pelo próprio Gourgel, a fim de evitar uma exoneração imediata. Foi promovido!
Portanto, o que nos parece ser verdade é que as autoridades políticas, de justiça e mesmo as de polícia, não manifestam o menor interesse em saber onde estão pouco mais ou menos os cerca de 300 milhões de dólares que ainda andam por aí de bolso em bolso, a beneficiar os verdadeiros gatunos do Tesouro Nacional.

UE/África. Cimeira sem história termina com apelo africano ao investimento



Pedro Rosa Mendes

A III Cimeira União Europeia/África terminou no dia 30.11 sem história em Tripoli (Líbia), com um apelo ao investimento e uma promessa renovada de parceria entre os dois blocos.
José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, e Jean Ping, presidente da Comissão da União Africana, encerraram a cimeira de Tripoli, numa cerimónia em que não participou o anfitrião, o líder líbio Muammar Kadhafi.
Jean Ping sublinhou, na conferência de imprensa que encerrou os trabalhos, que ”o investimento estrangeiro vai sempre para a Ásia” e lamentou que as medidas ”impostas” no passado por instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ”não tenham produzido o efeito que tinha sido anunciado pelos seus promotores”.
As divergências de fundo entre os dois blocos ficaram patentes, mesmo no debate cordial que marcou a conferência de imprensa final. Durão Barroso referiu que “a ajuda ao desenvolvimento não é suficiente”, sendo precisos “investimento e organização institucional” para a criação de emprego e o crescimento económico.
Segundo Durão Barroso, “África tem um grande caminho a percorrer em termos de organização”.
Jean Ping, numa resposta indireta às ideias de Durão Barroso, declarou que “talvez o presidente da Comissão Europeia ofereça afinal um falso remédio, que pode afogar África em vez de a salvar”.
A cimeira foi sobretudo marcada pelas ausências dos principais líderes europeus, como o Presidente, francês Nicolas Sarkozy, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o primeiro ministro britânico, David Cameron, a mais óbvia marca de contraste com a cimeira de Lisboa em 2007.
Na ausência dos ”três grandes” e de vários outros líderes do norte da Europa, os dois dias da cimeira foram dominados do lado europeu pelas delegações dos países atualmente em situação mais frágil, como a Grécia, a Espanha e Portugal.
O primeiro-ministro português, José Sócrates recusou, no entanto, falar da “obsessão” da dívida soberana portuguesa ou das perspetivas económicas de Portugal, salientando antes que a cimeira de Tripoli correu “muito bem”.
O primeiro-ministro salientou ainda “a grande importância política e económica” da agenda comum entre Europa e África e lançou em Tripoli a ideia de uma conferência internacional sobre energias renováveis em Lisboa.
Numa cimeira marcada também pelo conflito político entre o anfitrião e vários membros da UA, Kadhafi deixou o recado essencial no seu longo discurso de abertura, ao avisar a UE que África tem outros parceiros à espera, como a China.
Num outro ponto os participantes pediram o respeito pelos resultados do referendo sobre a autodeterminação da região Sul do Sudão, marcado para 09 de janeiro. “Neste momento crucial, pedimos a todas as partes que cumpram os ses compromissos para uma transição bem sucedida”, disse o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.
Quando faltam apenas cinco semanas para a realização da consulta, a UE e a UA ressaltaram a importância de se respeitarem todos os elementos do Acordo Geral de Paz, de 2005, para que sejam aplicados "em devido tempo, pacificamente e de forma credível”, especialmente a consulta, "cujos resultados devem ser respeitados por todos".
As duas organizações insistiram ainda para que sejam solucionadas as questões relativas à celebração do referendo na disputada região petrolífera de Abyei, e também em Kordofan do Sul e Nilo Azul.
O Acordo Geral de Paz - subscrito pelo Governo e o Exército Popular de Libertação do Sudão (EPLS) – pôs fim a uma guerra de 20 anos entre o Sul, maioritariamente cristão e animista, contra o Norte árabe e muçulmano.
O Sudão esteve ausente da Cimeira de Tripoli, porque a sua delegação anunciou no 28.11 o abandono, alegadamente devido a pressões europeias quanto à presença do seu presidente, Omar Hassan Al Bashir.
O chefe de Estado sudanês é alvo de um mandado de detenção, do Tribunal Penal Internacional, por genocídio e crimes de guerra contra a humanidade, cometidos durante o conflito civil na região ocidental do Darfur.

Moçambique


Jornalistas de rádios comunitárias queixam-se de interferência política
Jornalistas de rádios comunitárias de Moçambique consideram que o poder político tem interferido na definição de conteúdos dos Centros Multimédia Comunitários, cujos custos de manutenção e a qualidade de conetividade da Internet representam constrangimentos para o funcionamento.
A constatação foi apresentada na Conferência Nacional dos Centros Multimédia Comunitários, realizada entre os dias 30.11 à 03.12 em Maputo pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que conta com a participação de profissionais de rádios comunitárias das regiões de todo o país.
Por definição, as rádios e televisões comunitárias são um serviço somente de associações e fundações comunitárias sem fins lucrativos, com uma programação pluralista, sem qualquer tipo de censura, e devem ser abertas à expressão de todos os habitantes da região onde estão sedeadas.
No encontro, alguns jornalistas questionaram a interferência do Governo na definição de conteúdos e manutenção dos estabelecimentos, considerando a atitude uma forma velada de coação.
O oficial de programas, comunicação e informação da UNESCO, Ananias Chomola, lamentou as reclamações dos jornalistas das rádios comunitárias no país, assinalando que a situação demonstra que, em Moçambique, “a lei de imprensa tem sido violada parcialmente”.
A investigadora do Centro de Informática da Universidade Eduardo Mondlane Polly Gaster disse, no entanto, que os custos de manutenção e a qualidade de conetividade são os principais constrangimentos dos Centros Multimédia Comunitários, que congregam rádio, televisão e Internet.
“Das lições aprendidas até agora, constatamos que os custos (de manutenção) e a qualidade de conectividade continuam a ser constrangimentos” para o pleno trabalho das rádios comunitárias, disse.
Segundo Polly Gaster, alguns Centros Multimédia Comunitários não funcionam plenamente, tornando-os insustentáveis, apesar de os responsáveis pelos empreendimentos darem maior importância ao equipamento tecnológico se comparado aos recursos humanos.
A UNESCO e o Ministério da Ciência e Tecnologia organizaram a conferência nacional dos Centro Multimédia Comunitários para avaliar o grau de implementação do programa destes empreendimentos em Moçambique.
Sob o lema “Dar voz aos sem voz”, o debate enquadrou-se no contexto da implementação do projeto “Fortalecimento do Desenvolvimento Local através da Expansão do Acesso à Informação e Comunicação”.
Durante os três dias, o evento discutirá temas como a sustentabilidade (social, financeira e técnica) dos Centros Multimédia Comunitários, boas práticas na participação comunitária, acesso à informação e liberdade de imprensa, parcerias e sinergias, programa nacional dos Centros, o seu papel no desenvolvimento local, estabelecimento de rede nacional dos mesmos e a conetividade (acesso a Internet).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Wikileaks. Interpol emite mandado de captura em nome de Julian Assange


A Interpol anunciou, no dia 30.11 à noite, ter emitido um mandado internacional de captura em nome do fundador do sítio Wikileaks, Julian Assange, procurado pela Suécia no quadro de um inquérito de um caso de “violação e agressão sexual”.
O pedido de detenção para efeitos de extradição, feito pela Suécia, foi recebido em 20 de novembro pela organização policial internacional, sediada na cidade francesa de Lyon.
Julian Assange tinha justamente no 30.11 contactado o Supremo Tribunal da Suécia para contestar o mandado de detenção lançado em seu nome pela justiça sueca neste caso da alegada violação.
Em 18 de Novembro, a justiça sueca lançara uma ordem de detenção em nome deste australiano, de 39 anos, para o interrogar “por suspeitas razoáveis de violação, agressão sexual e coerção”, por factos ocorridos em Agosto.
O advogado do fundador do sítio WikiLeaks contestara esta pretensão, mas, depois da sua confirmação na instância de apelo, a única alternativa era o recurso ao Supremo Tribunal.
O sítio WikiLeaks, especialista na revelação de documentos secretos, começou a publicar 251 mil mensagens da diplomacia dos Estados Unidos, o que gerou a cólera dos dirigentes de Washington e o embaraço de vários governos.