quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ATINGIMOS O ZERO


Não sabemos como seremos governados por uma Constituição que não votámos, que não aprovámos. Não sabemos se amanhã teremos água, luz, Internet. Se adoecermos como seremos socorridos. Se seremos assaltados, ou vitimas da feitiçaria. Se conseguiremos dormir com o barulho dos geradores ou morreremos asfixiados pelo seu fumo tóxico, mortal.

Gil Gonçalves

Se os nossos apartamentos desabarão pela infiltração das águas dos vizinhos selvagens, atípicos bantus. Não sabemos se conseguiremos tapar os nossos ouvidos por causa das festas, do álcool e dos iguais barulhos aterradores dos escapes livres das motas. Ou se seremos presos porque acusados de difamação ou incitação à violência. Ou por outro motivo por qualquer um do soberano poder. É tão triste viver assim diariamente tão inseguros, sem futuro. Mas os bajuladores dizem que assim é que está bom no reino mais aprazível que até hoje nunca se igualou no Golfo da Guiné.
Os bajuladores já perderam a consciência e desumanizam a nossa vivência. Não irão certamente bajular a Sandra Mariza e o crime desordenado. Sandra Mariza, uma jovem polícia angolana do trânsito foi arrastada e assassinada barbaramente por um jovem tresloucado condutor de táxi durante mil metros. É urgente que as empresas de autocarros assumam também o transporte de táxi e acabem de vez com a desordem criminosa dos taxistas que deveriam estar numa escola e nunca ao volante de um táxi. É também urgente que se acabe com o abandono da juventude em todas, como se diz por aí, as vertentes. É bom lembrar que este caos da Nação espelha a actual governação, que tem de mudar, senão não saberemos o que mais nos desesperará. Para a nossa polícia os nossos mais sentidos votos de pesar e que ajam com muita firmeza porque até nos nossos lares vivemos sempre na incerteza da espera de sermos assaltados. Relembro que a situação calamitosa da nossa criminalidade é sobretudo conjuntural.
E Angola retorna ao 25 de Abril de 1974 – e lugubremente parafraseando Manuel Alegre – não há ninguém que resista, ninguém que lhes diga não. Angola caminha na falsa harmonia do suicídio colectivo. Na falsidade da vida da cidade de Luanda que destrói os nossos cérebros noite e dia. Perante a anarquia governamental do tudo é impune. A única coisa que parece funcionar é a espoliação dos bens dos vendedores nas ruas, e partir casebres para entregarem os terrenos aos congéneres da ansiosa escumalha nacional e internacional. Um conjunto, um marasmo de idiotas que contracenam no nosso terrorismo urbano. Está tudo a ficar muito acidentado. O analfabetismo é a cada momento mais impressionante. São só desempregados e esfomeados sem habilitações literárias e profissionais que invadem ruas e assaltam. Há sempre ondas de roubos diários não relatados, fora do controlo policial. Não existe nenhuma polícia no mundo que consiga conter tal onda de esfomeados. São estes milhões marginalizados que muito brevemente, já acontece, inaugurarão a filial angolana da pirataria da Somália. Nesta total degradação não é possível suportar tantas atrocidades. Não dá para viver… nem para sobreviver. Os novos-ricos andam muito descuidados, então que se cuidem porque serão, junto com os seus bens, as vítimas preferenciais. Ninguém vive em paz. A miséria e a degradação social produzem tal imbecilidade que a população tornou-se tão animalesca que a única saída é fugir. Também impressiona não ver ninguém com um livro de leitura. Também não os há. É política governamental não fomentar, expandir a literatura. A pouca que há, nacional, tornou-se cansativa porque repetitiva. Mesmo assim a maioria dos autores são de leitura duvidosa porque enaltecem os feitos da má governação eterna. Continua a impressionar o porquê não se falar dos autores estrangeiros, publicitar. É como se não existisse Literatura Universal. Promover apenas as banalidades da literatura nacional é contribuir profundamente para o suicídio da identidade cultural. E assim não há país, há uma tribo. E também assim com tanta boçalidade é facílimo governar, espoliar, escravizar. Já não existe povo, apenas autómatos controlados por controlo remoto. Cérebros sem neurónios, sem sentido, sem vida. Até a informação deixou de existir. Os noticiários radiofónicos estão orientados para disseminarem a ignorância. Voltámos às trevas! Comparar Salazar com este tempo de antenas não tem sentido. Na prática pode-se jurar que Salazar era um gajo porreiro. Não é possível regredir ainda mais que antes. É verdade sim! Que aterradora regressão no tempo do nevoeiro cerrado que Angola acaba de fazer. Não é de acreditar que isto bata certo. É imprevisível o que vai acontecer. É possível em 2010 obrigar a democracia para uma ditadura democrática? Aqui por estas bandas é de acreditar que esses planos totalitários escorrerão nos caudais da época das próximas chuvas.
Entretanto, a UNITA finge que está na oposição. Para despertá-los e a toda a oposição, vamos virar as nossas baterias contra eles e não contra José Eduardo dos Santos. É à oposição que compete reverter o actual estado da Nação. Temos presidente de Angola?! Não! Presidente dos estádios de futebol, sim!
A UNITA finge oposição. Para além dela quem mais resta?! Apenas alguns engraçados que querem dar nas vistas utilizando a democracia. Mas para a conquistar, a democracia, é necessário lutar, lutar muito, inclusive com a própria vida. Mas, parece que estão outra vez à espera que alguns estrangeiros “burros” se metam nisso. Porque angolano é incapaz (?). Até nos discursos usam assim umas camisas muito bonitas, especiais… para fazerem, manterem a diferença. Angola e os angolanos suportam o destino predestinado da glória eterna da colonização. Para quê perder mais tempo com isto se não existe ninguém que resista a esta opressão. Tem que ser alguém angolano que dê mostras de oposição, de luta contra a ditadura. Não existindo, para quê perder mais tempo com Angola?! Na conversão da UNITA em diocese já sabemos qual é a sua revelação. Desculpem lá mas esta é a verdade sem rodeios. Não existindo “confronto” a José Eduardo dos Santos, não se podem atribuir culpas do estado actual da Nação e do seu assalto à Constituição. Caramba! Mas não existe ninguém em Angola que lhe faça frente? Têm assim tanto medo dele? Porquê?! Porque ele é mais esperto, mais inteligente que toda e qualquer oposição. Perante a infantilidade da oposição reina a astúcia da velha raposa. E neste zero de Luanda prosseguem nos quintais os ferozes ataques contra desprevenidos cidadãos dos cães mastins que dilaceram os corpos dos esfomeados, dos condenados à morte pelos campos petrolíferos. Fica extremamente perigosa a aprovação, legalização canídea de quem ordena nesta cidade. Transformaram-na num canil governado por cães raivosos eternamente à solta, soltos no poder. Prontos para nos esfacelarem. Luanda é uma urbe de cães selvagens. Por aqui facilmente notamos que como seres humanos não temos qualquer finalidade ou utilidade nesta governação que é contrária à génese humana. Ele é a erva daninha desta Natureza. Muito especiais são os especuladores imobiliários que nos transformam em cães. Não vivemos nas cidades deles mas sim em canis de betão. São como bombas, são como terroristas dos imóveis e ninguém ousa gradeá-los.
Há também outros, sempre documentários diários. Não sei para que é a servidão de qualquer acontecimento mundial, este ser obrigatoriamente comentado pelo Papa vaticinador do Vaticano. Mais parece um comentador desportivo da nossa Rádio 5. E como é fácil ludibriar as massas sim e não católicas garantindo que a jovem Susanna Maiolo que o atacou sofre de perturbações mentais. Porquê escamotear a verdade? O que realmente aconteceu? Que amargura vive nessa mulher? Que atrocidades lhe fizeram?
Que loucuras globais, que mistérios se escondem nos políticos nas actuais políticas mundiais que nos governam tal e qual como num asilo de loucos? Isto não é a globalização mundial, é a loucura global, total, totalitária. Caminhamos como que hipnotizados para o suicídio da massiva globalização. E ninguém consegue submergir deste mergulho, desta escuridão.
É imperioso realizar transformações sociais profundas para resgatar as populações à dignidade sem promessas falsas. É que a feitiçaria anda a monte. Está tão disseminada por esta Angola descontrolada que se não for parada assistiremos, contribuiremos definitivamente para o golpe final da nação angolana, para gáudio dos especuladores nacionais e da conjura nacional e internacional. É que os jovens aderem massivamente aos comités clandestinos da especialidade da feitiçaria. Como estão abandonados pelo Politburo, que perde o tempo em estádios e na devassidão faraónica, a juventude abandonada, desempregada, sem futuro, espoliada dos poços de petróleo, sem fundo de desemprego – isto é a continuação do marxismo-leninismo – não tendo outra visão de vida, atira-se de corpo e alma para a feitiçaria. No fundo é a sobrevivência de Angola que se joga nos bastidores dos estádios de futebol. É o CAN 2010 da feitiçaria. E quase cinquenta anos depois o ministro das Obras Públicas, mais um general, Higino Carneiro, atesta quase com orgulho: «Não temos quadros.» Foi certeiro… como as nossas universidades que não merecem tal nome. Dinheiro do Estado é para uso pessoal e para enriquecimento ilícito. Para universidades pessoais para formação exclusiva de quadros da corrupção. O dinheiro que se gastou nos estádios se fosse investido numa universidade de referência, os préstimos seriam os desejados. Mas como ainda nos sujeitamos aos caprichos pessoais de um chefe supremo, continuaremos subjugados pela FAMÍLIA e desempregados estrangeiros. E enquanto descarrilados no comboio da paz, o futuro desestabilizado acontece, perece. Convém lembrar que a continuação da imposição da chefia e seus chefitos é tribalismo. Não formam quadros porque têm medo de perderem o poder. Havendo quadros devidamente formados manter-se-á a mesma perdição da subjugação da militância do sempre o mesmo partido com os mesmos políticos que sem inovação permanecem na utilíssima mesquinhez. É um imenso prazer reinar em palácios rodeados de aparatos militares e outros esbanjamentos luxuosos, enquanto nas cercanias andrajosos arrastam-se na vã tentativa da obtenção de uma moeda ou de uma bênção. A África e particularmente Angola regridem para o tempo da caça aos escravos e dos irresponsáveis e incompetentes. E nenhum é preso, nem demitido porquê?! Porque são marxistas-leninistas, foras-da-lei. Destruidores de povos e de nações. Promovedores de intempéries, de hecatombes. Como é possível este lixo da História ainda sobreviver? Porque as democracias fedorentas alentam-nos, dividem os despojos com os abutres. É terrificante ver intelectuais acomodados no sistema que já desistiram da luta. O marxismo-leninismo não pode triunfar.
E reforçam-se reinaugurando as estruturas do poder popular e dos comissários do povo para melhor responderem às características revolucionárias do processo em curso. Assim esmagarão qualquer tentativa golpista da reacção interna e externa. E a igreja segue com a história que lhe é característica. Fingindo que luta contra a opressão, sempre camuflada do lado deste governo que continua genuinamente colonial. De facto se a igreja estivesse interessada há muito que Angola seria independente. Convém a manutenção dos escravos nos currais. Quanto mais analfabetos melhor, não chateiam, bebem, dormem hipnotizados, abandonados, queimados pelos álcoois religiosos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O Petróleo da Ira


«Bastava imporem uma ditadura clara, sem hesitações, como as anteriores, para nós então também escolhermos outras formas de luta, mais adequadas ao alvo. As evidências de corrupção e enriquecimento ilícito são tão claras que mais valia terem deixado a bola passar ao lado… A cara de Santo não fica bem no corpo de pecador… Quem acha que foi caluniado, que está a ser injustiçado, que mostre, então, publicamente, como conseguiu – em tão pouco tempo, ganhando e trabalhado tão pouco – enriquecer de forma tão escandalosa. Ou palmou a “massa” de todos nós, ou então, tinha “matite”… Sugiro que a Procuradoria-Geral da República inicie um sério processo de investigação, para apurar a proveniência desses dinheiros que os “ofendidos de agora” querem fazer parecer ter conquistado de forma honesta e laboriosa» in Justino Pinto de Andrade

Gil Gonçalves

Sem nenhum apoio – o único pendente é a desagregação da fossa abissal entre alguns fanáticos pelos recursos petrolíferos e diamantíferos, porque foram apenas eles que lutaram, se sacrificaram pela causa da libertação do povo angolano – a cidadã que ainda não perdeu a coragem de continuar, aceitar a sua angolanidade, embora se esteja marimbado para isso. Sempre omitida nos túneis do tempo da independência, a mamã, como todas, levantava-se muito cedo, antes da ópera dos galos. Nalguns dias, melhor, muitos dias, passava fome conforme decreto governamental e ia amealhando para sair da espécie de pardieiro do carente sol nascente que habitava. De vez em quando sonhava com uma do milhão de casas, e de outro milhão de promessas, mas logo desistia da ideia e sorria convencida como toda a gente de que era mais um embuste. Um estúpido engano porque não se construíam casas, partiam-se, logo não é com certeza construir um milhão de casas, mas destruí-las. Conseguiu umas chapas de zinco e despontou um tecto da dignidade que resta dos miseráveis que até estão proibidos de cheirarem o petróleo, sabe-se lá, podem enfeitiçá-lo. Pelo menos já não chovia dentro do casebre. Restava a prece para que não eclodisse chuva ciclonal. Ainda havia a grande preocupação das fortes tempestades da gatunagem, dos marginalizados pelos senhores do petróleo. E do mais dinheiro guardado vieram os tijolos e com eles se reforçaram as paredes do que já lhe chamavam apropriadamente lar. Já estava um casebre digno enquanto a quadrilha dos especuladores imobiliários lá não chegasse. Faltava a energia eléctrica que depois se solucionou recorrendo ao aluguer de um posto de transformação de mais oportunistas dignos defensores, seguidores das causas revolucionárias, dos anseios principais das populações. A arca congeladora, a geleira, e a ventoinha instalaram-se funcionais. A criançada, duas filhas e uma sobrinha órfã, os pais morreram da nova epidemia, os acidentes de viação que parecem querer ultrapassar as vítimas da guerra ainda teimosamente fresca. As crianças levantavam-se alegres, sorridentes banhavam-se e em seguida lutavam na mesa e manjavam a principesca pobreza. Quando as economias deram para a televisão e uma aparelhagem, então a felicidade instalou-se definitivamente. Repentinamente o casebre transformou-se num palácio sem presidente. Os chulos e as chulas habituais disfarçados de amigos e amigas, prestavam vassalagem afinando que vinham em visita, porque: «Como vocês nunca vem nas nossas casas, vamos nós às vossas. Estamos a cobrar e vocês a pagar» e invadiam a nobreza da mamã que mais parecendo uma castelã, fazia jus, envaidecia-se:
- Estejam à vontade, sentem-se, comam e bebam. Não estamos assim tão mal.
E a visita queria saber mais, assim como pretender adivinhar como é que ela conseguiu.
- Mana, a vida corre-te mais ou menos, apesar dos que ainda teimosamente nos governam desejarem o nosso fim. Querem a cidade, Angola só para eles, querem tudo.
- Sim, é verdade meu mano. Estou a andar bem… mais ou menos desde que consegui um lugar no Roque.
- É Mana, eles também querem esse espaço, parece que vão lá construir outro aeroporto porque aquele de Viana já não dá. Nada lhes dá, já têm o petróleo, os diamantes, as terras, os kumbus, a corrupção… e mesmo assim não se satisfazem, querem-nos varrer tudo, aliás já nos varreram.
- É verdade mano, parecem mais vampiros sedentos de sangue, e nós somos as suas manadas. Este nosso futuro é vulcões que eles semeiam convencidos que isto vai andar assim eternamente.
- Olha Mana, aqui pela cidade e arredores onde há terrenos com construções ou não, eles andam com os olhos neles. É uma grande quadrilha arregimentada por marginais brasileiros, portugueses e chineses. Cantam-nos que estão aqui para nos ajudarem a reconstruir Angola, mas é mentira deles, é para nos roubarem tudo, já nos roubam as nossas… terras.
- Mano, sinto que esta nossa Angola vai outra vez acabar muito mal.

E os dias não passavam porque já não os havia, isso era coisa do antanho. O que passeava, continuava e mandava muito bem eram os dias da miséria que avassaladores proclamavam o destino sem final. E o mano veio de visita surpresa, de prevenção e avisou:
- Mana, uma manada dos afundadores da nação aproxima-se. Andam a numerar as casas, dizem que não são, intitulam-nas de casebres. Casas só eles podem ter e mais ninguém. Esta e as demais não lhes escaparão.
- Mano, eles fazem-nos assim sofrer porquê? Porque são tão maldosos, tão infernais. Esses não são pessoas, só querem o nosso mal.
- É verdade Mana, eles até quando passam por nós olham-nos com tanto desprezo que até parece que o lixo para eles tem mais valor.
E aguardaram o dilúvio humano e ele chegou. Primeiro com uma imensa coluna de pó aterradora que parecia quase o fim do mundo. Era um exército motorizado e de arsenal militar equipado. Executavam como que uma carga de cavalaria pesada. Como num jogo de futebol que sendo uma equipa fortíssima e a outra fraquíssima usavam de mil e um cuidados. Equipa prevenida é a melhor arma para combater o inimigo. A arrogância dos fortes com o dinheiro do petróleo festeja a desgraça alheia, arrasa a equipa fraca. Não se pode dar confiança a analfabetos pois que o negócio urge, e onde se intromete o dinheiro governamental é a destruição populacional.
E a nuvem de poeira aumentava, aproximava, como a visão final dos cavaleiros do Apocalipse. Os soldados da destruição, os garantes, guardiães da Angola vendida desembarcaram dos seus veículos bélicos. E do objectivo a abater aproximaram e ultimaram:
- Ainda por aqui?! Então não cumpres as ordens, és muito indisciplinada!
- Mas afinal o que é que se passa, tanta arma e descomunal exército só para derrubarem um casebre?
- Eh pá, esta gaja está muito armada. Atenção pelotão da destruição dos casebres, AVANCEM!!! FOGO!!! Porra! Fogo não, camartelo!
- Manos, por favor deixem-me só tirar…
- … Já sabemos essa cantiga de cor e salteado. A televisão, a geleira, a arca, a aparelhagem…
- … Não, não, por favor… são as crianças que estão lã dentro, vão matá-las?!!!
- Não queremos saber, cumprimos ordens do Ordens Superiores!
- Oh! Meu Deus! E quem é esse Ordens Superiores?!
- Ninguém sabe quem é… é o nosso deus, e por isso ele está sempre invisível, invencível no meio de nós.
E os zelosos cumpridores das Ordens Superiores, arrasaram tudo, não se importando se no interior do casebre estavam crianças a dormir ou não. A sua missão é destruir tudo, inclusive vidas que não têm nenhum valor. Estão em jogo grandes interesses internacionais, e por isso mesmo a FAMÍLIA não pode perder tempo com coisas insignificantes. Que valor têm a vida de crianças? Apenas o nascer e morrer.
Próximo, habituados a estes desvarios, jovens alienados pararam o seu carro, abriram-lhe as portas e colocaram a música no som máximo, até não dar mais. Fiscais aproveitaram-se da refrega e pretextando Ordens Superiores ainda e sempre em vigor, espoliaram algumas zungueiras. Hoje o negócio foi-lhes extraordinariamente rendoso, se fosse assim todos dias. Jovens montados nas suas motos faziam estalar os ouvidos com os escapes livres na maior barulheira possível. Alheios a tudo isto, os zelosos cumpridores da lei fingiam ignorá-los, porque estes gajos são filhos de peixe grande, e não convém arranjar problemas com os chefes, são muito amigos, usufruem do compadrio.
E a Mana vendo Angola fugir-lhe debaixo dos pés, já não é dos angolanos, libertou do mais profundo da sua alma o sentimento de desânimo desta independência outra vez só para escravos.
- Que o dinheiro não tem cor?! Tem sim senhor! Tem a cor do petróleo e dos diamantes, têm a cor da miséria e da corrupção. Ah! Como é tão bonito viver sem energia eléctrica e sem água. Ah! Como é tão bonito ver os nossos queridos governantes ordenaram selvagens destruições dos casebres dos idiotas sem petróleo, para depois construírem os seus complexos turísticos, e neles empregarem estrangeiros desempregados e angolanos na recolha das sobras dos seus repastos. Ah! Como é tão bonito ver os nossos governantes tão inchados de dólares transportados nos oleodutos bancários dos mercenários. Ah! Como é tão belo viver no desemprego e ver os estrangeiros, bwé de chineses, como se fosse toda a China. E os estrangeiros da vanguarda corrupta comerem, beberem à farta e lançarem-nos olhares de desprezo, como se fossemos lixo. Têm razão, já o somos. Ah! Esta independência que nos persegue e que tudo nos tira e na morte nos desconsola. Ah! Como é tão exuberante ver e ouvir este reinado falar dos seus negócios pessoais, impessoais, familiares, pois que Angola é toda deles. Não sabem?! Já privatizaram o Mussulu e a sua população que se afundam. No Wako-Kungo as populações espoliaram-nas e obrigaram-nas a refugiarem-se nas montanhas, como fugitivas de um grande maremoto. Já não são angolanos, são montanheses. E no Lubango o governador – parecendo comandante de um campo de extermínio – decerto diplomado pela universidade da actual conjuntura – está a enviar as populações para uma espécie de câmara de gás sob o olhar manhoso ainda de Lenine. Ah! Como é tão bonito ver dos palacianos condomínios, devidamente protegidos pelos exércitos particulares, sentir, apreciar o desenvolvimento económico da miséria. Da estrangeirada que rouba impunemente as terras milenares dos autóctones apenas porque são angolanos. Ah! Como é tão bonito ver Angola entregue, vendida, empossada pelos estrangeiros. Ah! Como é tão bonito ver a juventude tão sabiamente instruída nas universidades da delinquência tão violenta. Ah! Como é de beleza tão invulgar ver Luanda e tudo o que resta das cidades de Angola libertas de mwangolés, porque com eles Luanda fica feia, tudo fica tão medonho, e ao enxotá-los para bem longe, os estrangeiros e os falsos angolanos viverem numa boa, afastados dos mwangolés imundos, tão porcos, tão chatos, tão animalescos. Ah! PORRA! Fora com esses porcos! Ah! Como é tão horrível ver as mamãs nas ruas, escorraçadas pela polícia e similares, humilhadas, porretadas, até a miséria dos seus haveres confiscados apenas porque ousam lutar para não morrerem de fome. Venderam Angola aos estrangeiros com os nossos corpos incluídos. Eles vão chegar e nos escravizar.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O ÚLTIMO COMBOIO DO KATANGA


E logo pela manhã, abrimos as janelas e mais um estranho dia nos desgosta: os gases tóxicos dos geradores saúdam-nos, esperam-nos tal e qual a morte. Como a extrema miséria, a fome, que é aquela por quem se espera.
E esses que discordam, que criticam o Politburo, esses sim, são os mais valiosos. Porque os que concordam são apenas falaciosos, e com estes não se pode contar. Porque são sempre os primeiros a atraiçoar.

Gil Gonçalves

Luanda está devidamente preparada para receber as chuvas, a governação não. A questão não é das chuvas, é da péssima governação. Portanto, Luanda está preparada para chuvas, sim! Os governantes é que não.
Os especuladores imobiliários com as rotas da degradação social abertas, especulam, destroem Luanda. Não é nada difícil, qualquer pessoa o nota, o diz, que as obras destes endeusados resumem-se em fechar os caudais das águas das chuvas e enviá-los para os vizinhos, os angolanos ainda não independentes. Por exemplo, no bairro Cazenga as águas não têm por onde saírem. Então, significa que as empresas de construção civil contratadas pelo Governo, agem intencionalmente para destruírem Luanda. E prosseguirem nessa senda interminável. Fazerem-se más obras, de fingir, as chuvas chegam, arrasam e as empreiteiras lá estão para voltarem à execução do mesmo trabalho. Por aqui facturar é fácil, não dá trabalho nenhum, basta destruir. Torna-se evidente que a política da demolição inescrupulosa conduz o caos de Luanda. Apenas existe uma preocupação do que resta da funesta governação. Destruir casebres para os especuladores imobiliários facturarem… assim como uma espécie de transferências fraudulentas no nosso insigne professor bancário BNA, Banco Nacional de Angola. Com tantos prédios, com mais tantas construções anárquicas avalizadas pelo Governo, o que resta da miséria da energia eléctrica, da água e do saneamento, veremos Luanda submergir numa gigantesca corrente marítima de esgotos ao ar livre, porque não existe capacidade da rede. O que interessa é corromper, vigarizar e depois bazar ao encontro das contas bancárias bem recheadas pelas transferências para o exterior. Para o interior não, não vá o diabo tecê-las. Os que ficarem que se danem… mas agora surgiu um novo conceito. Parece que os temores dos terramotos, além de vitimarem inocentes, também perseguem uma certa minoria que já não se sente bem em qualquer parte do mundo. Vivem neste receio e noutro que é o ataque selectivo do terrorismo internacional.
«Como pode um banco emissor ter ignorado as denuncias feitas, durante anos, por bancos comerciais relativas à subtracção de 100 a 150 mil dólares/dia em cada remessa de um milhão de dólares? O que aconteceu no Banco Nacional de Angola configura o desmoronamento de uma das instituições mais nobres da nação. O que aconteceu no Banco Nacional de Angola configura o descrédito perante um terramoto que ameaça instalar a desconfiança dos operadores económicos no sistema bancário.» In Gustavo Costa no Novo Jornal de 05 de Março de 2010.
Quando é que começa a época da caça aos especuladores imobiliários? Porque é que os idiotas e similares se convencem que o mundo é só deles? Porque construir armas para destruir é fácil, construí-las para edificar algo útil é extremamente difícil. Mas, mesmo assim gosto muito da democracia, não gosto é dos democratas. Mas porquê andar assim tão abandalhado, tão à toa, tão destroçado? Meus amigos, estou conforme a actual conjuntura. Porque se caminhamos, se vivemos, se os tememos… então não vivemos! O tempo move-se e nós tão parados, tão amordaçados. Prometeram a independência, a felicidade e a liberdade às populações escravas para as espoliarem e as renovarem para os séculos futuros da mais vil sujeição. Já não sabem, já se esqueceram que a beleza de uma nação é como a da mulher, não se vê, sente-se nas nossas almas.
Quando uma sociedade se torna aviltantemente elitista, uma revolução paira, está para breve. Porque quando os políticos prometem mundos e fundos é evidente que estão a mentir. Eles querem é o poder para continuarem com as oligarquias e nos ensombrarem, nos dominarem. A História é a morte do tempo das multidões sem poderes. Mas, o que é melhor que a democracia?! É não haver democracia. As zungueiras carregam-na nas costas com os filhos. Carregam o fardo muito pesado que lhes dobram as costas… Angola. Continuamente vemos multidões de pessoas a girarem à nossa volta. E no entanto continuamos perdidos, irremediavelmente sós.
Confesso-lhes um grande segredo: a coisa mais difícil que existe é viver. Se não existissem seres humanos, tudo se tornaria tão fácil. Mas conseguiremos viver sem eles? E há um navio negreiro chamado Angola. Há países que só têm um presidente e um palácio. Povo não existe, exterminam-no. Para que servem canalizações sem água, condutores eléctricos sem energia, automóveis sem estradas. País sem governo é como doentes sem hospitais. Como estudantes sem escolas e livros sem leitores. Também impressiona ver como os democratas destruíram a democracia em Portugal. É como os bancos dos brancos… para que servem se nunca têm sistema? São como os submarinos, raramente vem a superfície. Algures no Universo a galáxia Angola foi engolida por um buraco negro. Voltando a Portugal… para avançar têm que acabar com os partidos políticos e instaurar a tal ditadura benévola. Portugal não tem democracia, espelha Angola, que tem uma idiossincrasia. Um manicómio de loucos atacados pela sismodemocracia. E os hospitais psiquiátricos não chegam para a demanda. Que patético, que orgulhoso país que produz tantos loucos. Fabricantes exclusivos da loucura colectiva.
É o Inverno democrático. Agora é que os esbanjadores da democrata Angola podem comprar Portugal… está em saldos. Uma corja de malfeitores que debaixo da ferrugenta capa da democracia capada, destruíram Portugal e os portugueses. E tentam a todo o custo convencer a dinastia Isabelina para também utilizar o mesmo sistema em Angola. Mas não é necessário, porque já está devidamente assentado. Não deixa de estranhar a salutar, muito familiar analogia, o incremento da destruição de Angola e Portugal na mesma lagoa. Por exemplo, em Luanda pouco falta para quando sairmos à rua os esfomeados nos assaltarem, alias já acontece. Por incrível que pareça não existe nenhuma política de emprego para nacionais, apenas para estrangeiros e para o Politburo. Isto e mais os espoliadores das terras e dos casebres. Resistem ainda os vulcões da ignomínia onde o nascimento tumultuoso é sempre certo. Entretanto ultimam-se os preparativos para a vitória da miséria total e incompleta. É que depois de uma revolução mal sucedida, acendem-se velas, porque outra se aproxima, se afirma.
E os inventores de Deus e dos deuses tentam sobreviver na floresta dantesca que criaram, injectando nos rebanhos humanos que apesar de dois mil e tal anos, as populações ainda acarneiradas se salvarão com a prometida vinda do Senhor. Mas serão necessários milhares e milhares de tais anos. Entretanto, o reino dos céus e da Terra fundem-se. Como é que tanta miséria sustentará tantos sacerdotes? Nem telefonar para o Céu se consegue, as linhas dos circuitos Isabelinos estão saturadas, e lá no Céu as lotações estão esgotadas. Já não há mais lugares para almas, têm que enviar de Angola especuladores imobiliários para lá construírem abundantes cemitérios desalmados. Assim não dá para telefonar para lá, as linhas estão permanentemente ocupadas. E lá no Céu há também uma guerra, uma outra espoliação por um pedaço de espaço. Nem no Céu eles nos deixam em paz. Os espoliadores angolanos também já lá lançaram alicerces e a destruição divina é certa. E lá também já têm seguranças. Há pessoas terrenas que conseguiram o número do demónio, e telefonam-lhe regularmente. Está difícil saber que conversas se tratam. Boa coisa não é certamente.
É que qualquer coisa que se diga, que se escreva, mesmo que se pense, lá vem a sentença lapidar: «tem cuidado com a bófia, já deves estar nas listas deles, de modos que tens os dias contados.» E na verdade o terror é tal, que quando nos batem à porta, agitamo-nos que talvez sejam eles, os da secreta. O mais importante neste tempo dos mastodontes é demolir os casebres dos povos. Como sombras perdidas, sem vida.
Para o correcto desenvolvimento económico e social, Angola importou uma caterva de especuladores. Como principal etapa da reconstrução nacional assentou-se nas demolições das casas, casebres, palhotas, pau-a-pique, enfim, tudo o que sejam pequenos ou grandes aglomerados populacionais. Com abismais milhares de demolições, nuvens cinzentas assolam-nos por todos os horizontes. É Angola que se reduz, cheira a pó. E a hipocrisia da Igreja une, estende o seu braço secular a quem lhe pague mais. Vende-se à ditadura e à corrupção. É a Igreja eterna, do infinito papal. A Igreja da devassa fé e da destruição mental. Do quem não sabe fazer mais nada, vai para padre. Eis os reincidentes, os novos afundadores da nação.
E as nuvens de poeira dificultam-nos, quase que não nos deixam respirar. E produzem-nos tal défice mental, que as ideias assim obscurecidas reduzem-nos ao pó decretado. O pó da infâmia, e da epifania, dos mosteiros sem fé. E os especuladores, senhores da realidade, novos caçadores de escravos, embrenham-se nos sertões de betão e proclamam a aurora do breu: «negros e negras, outra vez para as naus! Negros outra vez para as negras marés dos lagos dos bairros artificiais, impolutos e de sangue seco, de cadáveres abandonados, afogados.» Estes são os revolucionários incrustados, nos negros apagados e até nos mares espoliados.
É a festa nacional, do poder do Fausto cerimonial. O poder é para uns tantos porque os milhões sem ele, de esfomeados sem forças para andarem, é difícil se concentrarem, e tudo e todos se dizimarão. Neste campo de batalha, as forças são barbaramente desiguais. Que estranho poder que se presenteia com a demolição das populações que o elegeram e agora as liquida. É o que acontece quando poder e Igreja se unem. As nascentes são incertas e não se sabe quem nelas sobreviverá. É um erro histórico gravíssimo, a condição política fornecer poder à Igreja. Ela deve situar-se longe e abster-se de qualquer intromissão na vida política… e abandonar de vez as tropelias do sórdido rastejar. Assim, mais uma tragédia humana se anuncia. A Igreja e o poder ditatorial são pó, e a ele devem retornar. Na verdade, o que estão a fazer de Luanda é um gigantesco lago nauseabundo, rodeado de alguns prédios e condomínios luxuosos. Qual é o futuro de um país sem energia eléctrica? É governar às escuras.
A prestação de serviços das empresas estrangeiras é a destruição dos cabos de energia eléctrica, das condutas de abastecimento de água, dos cabos de fibra óptica – ficamos sem comunicações – a destruição de passeios e a venenosa poluição ambiental. Energia eléctrica entre 130 a 160 volts, há mais de uma semana junto ao Zé Pirão. Porquê?! Porque são três prédios que dependem apenas de uma fase. Porque os mastodontes da TEIXEIRA DUARTE SA, – parece que compraram uma parte de Angola – erguem mais um prédio que o povo garante que é made in Isabel dos Santos. Ligam as máquinas deles na rede que não suporta o exorbitante consumo, estoiram com os circuitos, e não te rales, são tão sintomáticos, tão sistemáticos. É a selvajaria em relação ao semelhante que não existe, pois claro. Só eles é que são pessoas. Com a espoliação da energia eléctrica, da água, dos casebres, dos terrenos, dos empregos, com o cartel superiormente legalizado que sobe amiúde os preços, e abençoados pela santa Igreja, resta uma mensagem muito azeda que os povos prometem: «esperamos a hora para nos revoltarmos.»

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Bastilha do nosso Voltaire, William Tonet

Processo “Pronto a condenar”

Na próxima segunda-feira, dia 13 de Dezembro, terá início um julgamento que, na realidade, corresponde a três processos fabricados à medida do regime, quer dizer, do tipo “pronto a condenar”, como são infelizmente quase todos os processos que digam respeito não só a manifestações de populares contra decisões do Executivo ou da Assembleia Nacional, ou de um qualquer membro (tentáculo) do poder político, mas também a simples maneiras de expressar a sua indignação contra os mesmos. Uma palavra mais ríspida, mais contundente, chega para se levantar o espectro da calúnia e da perfídia.
Assim será no julgamento atrás referido (cuja sentença já está muito provavelmente lavrada antes de ele ter começado), a propósito de uma queixa introduzida contra o director do Folha 8, William Tonet, por membros muito influentes do poder instituído, embora de fugaz passagem pelos corredores do Estado.
Serão três os processos em julgamento, movidos respectivamente pelo ex-Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFAA), Francisco Pereira Furtado, através do processo: 972/08-D; pelo Procurador da Procuradoria Militar das FAA, Hélder Pitagroz, processo 659/08-D e pelo famoso general, considerado por muitos dos seus colaboradores e familiares (eles sabem seguramente o que dizem), multimilionário, Chefe da Casa Militar da Presidência da República e Ex-chefe do Gabinete de Reconstrução Nacional, Manuel Vieira Dias, Kopelipa, processo n.º 1449/08-D.
Os crimes de que é acusado o director do Folha8 foram cometidos, se é que isso é crime, no âmbito da liberdade de expressão e de informação, quer dizer, no âmbito dos atributos do F8, que continua a exercer uma inalterável pressão desde que saiu à rua em 1993, sobre todas as derrapagens cometidas (e não são poucas) por altos funcionários do falecido governo e do actual Executivo condenado a desaparecer, se não alterar a forma parcial e discriminatória de gestão da coisa pública e dos povos autóctones.
O advogado David Mendes, responsável pela defesa acredita tratar-se de mais uma cabala do regime, pois as notícias publicadas não constituem nenhuma calúnia de difamação. “A realidade é que estes generais dizem apoiar a democracia mas não estão preparados para o seu exercício”, assegurou ao F8, este advogado.
Noutra dimensão, o mesmo jurista referiu-se ao facto de esta atitude poder significar uma pressão sobre o sistema da justiça, com base na força, no sentido de esta e os tribunais se subjugarem aos interesses e apetites dos generais ao invés de obedecerem à lei e ao direito. “De qualquer forma nós acreditamos que um núcleo de novos juízes está cada vez mais comprometido com a Justiça e não com o poder económico e intimidatório dos considerados poderosos”, opinou ele.
De relembrar que este julgamento de William Tonet, que terá início no próximo dia 13, é um dos quase duzentos que pesam sobre a sua pessoa. Na sua esmagadora maioria eles foram formatados nas oficinas do Futungo, do SINFO e de outros apêndices do regime e têm por característica comum uma claríssima função e objectivos comuns: aniquilar, ou silenciar o F8.
Só para dar um exemplo, é de relembrar um outro processo instruído pelo Ministério Público, que mais cedo ou mais tarde terá de passar à barra do tribunal.
Essas Excelências, que se viram couraçadas pelo prestígio do posto que ocupam, moveram processos ao F8 por esse órgão de comunicação social ter desvendado a verdade, nomeadamente sobre um caso de movimentação de fundos no exterior do país, Portugal, e sobre a forma bárbara como foi assassinado o ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira. Fotos publicadas com a anuência da família do falecido, que não considera essa publicação como sendo um ultraje à sua honra.
Aliás, este abuso de autoridade não é o único, como se constatou depois num outro processo de volatilização de fundos do Estado angolano, no caso BANIF. Um fundo de vários fundos, que não eram perdidos (como os 300 milhões do BNA) nem achados (também como os do BNA) mas que paravam em parte incerta nos bolsos de pessoas incertas e, crime odiento aos olhos de certos sectores da PGR, também tinham saído (como os do BNA), mas legalissimamente, dos cofres do Estado, unicamente por o ou os seus signatários serem proeminentes figuras do Executivo (ver caso BANIF).
Com base nesta trama, o político Fenga Miranda faz o seguinte retrato, que F8 agradece. "A vossa audiência no dia 13, deixa pressagiar que o cerco se aperta cada vez mais e incrivelmente em torno de todas as forças ligadas à dinâmica, tanto política como social e associativa. Cada um dos acusadores pensa que tem telhado de betão ou sombrinha de chumbo, quer dizer que o fogo do vizinho nunca vai atingir a sua casa. O regime ou “supostamente”, parece estar a ganhar a batalha do adormecimento e de forma calculada, bem velada e extremamente perigosa, tentando empurrar-nos para o buraco sem que o mundo se aperceba disso, pois o sorriso está sempre presente e como tudo é feito subtil e criteriosamente, a comunidade internacional interpreta a pior das agressões como sendo “faits-divers”. É urgente organizar-se um apelo ou uma carta à Nação e à Comunidade Internacional, espécie petição de associações, intelectuais, universitários, professores, jornalistas, sobre o estado actual da democracia em Angola e os riscos do futuro".

Voltando, porém, ao caso BANIF, o director do F8 foi impugnado, e quando o processo corria os seus trâmites verificou-se que tudo o que tinha sido revelado correspondia à realidade dos factos. Qual quê?, não se ouviu uma única voz de protesto contra a difamação urdida pelo PGR, pois a sua queixa tinha como exclusivo objectivo sujar o bom nome do F8.
Veremos o que se vai passar, mas uma coisa é certa, o F8 não vai morrer. Poderá ir ao tapete, como já antes aconteceu. Mas levantar-se-á. Revigorado e seguirá a sua marcha rumo a um país mais justo, menos corrupto e discriminatório e com melhor distribuição da riqueza angolana

Finalmente uma medida diferente da cartilha. Absolvido e libertado em Cabinda o activista António Paca Pemba Panzo


O activista de Direitos Humanos, António Paca Pemba Panzo, acusado de um crime de "Outros actos contra a segurança interna do Estado", p. e p pelo art. 26º. Da lei 7/79 de Código Penal, foi absolvido no, dia 22 de Novembro pelo Tribunal Provincial de Cabinda por os factos constantes da acusação do Ministério Público não conterem elementos de prova que possam manifestamente influir na decisão da sua condenação.
A decisão foi tomada pelo Juíz de Direito, Afonso Félix Guerra Ngongo, que proferiu o despacho de não pronúncia.
Recorde-se que o caso remonta à madrugada de 11 de Abril de 2010, quando cerca de quinze agentes da polícia bateram a porta da sua residência e lhe exibiram um "Mandado de Busca", que lhes conferia a missão de apreender material de propaganda hostil (camisolas). Era a detenção de Paca Panzo.
Segundo o Procurador Provincial de Cabinda, António Nito, que fez denúncia em relação ao caso, Paca Panzo seria julgado por ter em sua posse documentos tirados de sites da internet considerados pelo regime como hostis ao governo de Luanda.
O activista, segundo consta nos autos, estaria envolvido numa iniciativa de manifestação de protesto a detenção de. Raul Tati, Francisco Luemba, Belchior Lanso Tati, José Benjamin Fuca, André Zeferino Puati. O processo que conta com três páginas, cita ainda a Omunga e a Open Socity de estar na origem da manifestação em questão.
Depois de muitas vicissitudes, a 22 de Novembro, Afonso Félix Guerra Gongo exarou um "despacho de não pronúncia", segundo o qual "não se recebe a acusação do Digno Magistrado do MP" pelo facto de os autos não apontarem "no sentido da existência de qualquer ilícito penal". Segundo o mesmo despacho de não pronúncia, o arguido não pode ser condenado pelos documentos apreendidos aquando da sua detenção, no dia 11 de Abril último, já que os mesmos não são da sua autoria. Além disso, os escritos da autoria do réu "não contêm matéria susceptível de integrar qualquer censura jurídico-penal".
Portanto, dele não resulta, isoladamente ou em conjunto o "pôr em perigo a segurança do Estado".
Por estas razões, o Tribunal do Tribunal Provincial de Cabinda absolveu o arguido da prática do crime contra a segurança de Estado de que foi acusado pelo Ministério Público (MP).
No dia 23 de Novembro, por volta das 12 horas, depois de 226 dias sob detenção, Paca Panzo foi mandado em liberdade, donde, de resto nunca deveria ter saído, se Angola fosse de facto um Estado de Direito Democrático. Resta saber se a reclamação de indemnização do Estado será introduzida por alegado erro grosseiro da Polícia Judiciária e do Ministério Público.


ONU alerta para perigo de propagação rápida da Sida


As Nações Unidas consideram que os números da Sida em Angola “ainda não são alarmantes” mas avisam que a situação pode “piorar rapidamente” se programas de prevenção não forem aplicados “em larga escala e em ritmo acelerado”.
Numa declaração a propósito do Dia Mundial do Sida, assinalado no dia 01 de Dezembro, a ONU refere que apesar de a situação não ser ainda “alarmante”, os números de infeções “não estão a diminuir” em Angola.
Dados estatísticos das autoridades sanitárias angolanas indicam que diariamente são notificados 20 novos casos no Hospital Esperança, unidade hospitalar especializada em Luanda.
Segundo a ONU, a taxa de prevalência continua a ser relativamente “baixa e estável”, com uma estimativa média de 1,9 por cento na população adulta, com maior incidência em centros urbanos de algumas províncias.
As Nações Unidas sublinham que, porém, as novas infeções “não foram ainda significativamente reduzidas”, o que poderá “agravar a situação em poucos anos se não forem implementadas em larga escala e em ritmo acelerado as medidas de prevenção”.
A preocupação da ONU é sustentada pelos dados estatísticos nacionais angolanos, com base no Inquérito do Bem-Estar da População (IBEP) 2010, segundo os quais apenas 40 por cento das pessoas entre os 12 aos 49 anos com múltiplos parceiros sexuais usa preservativo.
Os dados do IBEP dão conta ainda de que 30 por cento dos jovens entre os 15 e os 24 anos não têm conhecimento “claro” de como evitar a transmissão do vírus da Sida. Por outro lado, 2,4 por cento das mulheres grávidas têm Sida que poderão transmitir aos bebés por falta de informação.
“Destas mulheres, cerca de 20 mil, de acordo com o Instituto Nacional de Luta contra a Sida, apenas 4780 fizeram testes e 3050 beneficiam de assistência médica para prevenir a transmissão ao bebé”, referem as Nações Unidas.
Para melhorar a situação, as Nações Unidas pedem ao Governo angolano que aumente “rapidamente” os serviços de prevenção e tratamento da Sida em todo o país, para que mais pessoas sejam diagnosticadas e tratadas.
A coordenadora da Agência das Nações Unidas para a Sida (ONUSIDA) em Angola, Renu Chahil-Graf, apela a um maior “ênfase nos esforços multisectoriais e a utilização das possibilidades atuais, como a capacidade de resposta do Governo, o entusiasmo da sociedade civil, a disponibilidade de recursos, o apoio de parceiros internacionais e a recente declaração do Vaticano sobre o uso de preservativos”.

Governar à moda cá da terra. Todos calados e a culpa da roubalheira milionária do BNA vai morrer solteira


Numa empresa havia quatro (4) funcionários públicos chamados:
"Toda-a-Gente",
"Alguém",
"Qualquer-Um"
e "Ninguém".
Havia um trabalho importante para fazer e "Toda-a-Gente" tinha a certeza que "Alguém" o faria.
"Qualquer-Um" podia fazê-lo, mas "Ninguém" o fez.
"Alguém" se zangou porque era um trabalho para "Toda-a-Gente".
"Toda-a-Gente" pensou que "Qualquer-Um " podia tê-lo feito, mas "Ninguém" pensou que "Toda-a-Gente" não o faria.
No fim, "Toda-a-Gente" culpou "Alguém", mas "Ninguém" fez o que "Qualquer-Um" poderia ter feito.
Foi assim que apareceu o "Deixa-Andar", um quinto (5º) funcionário de reserva, para evitar todos estes problemas.

Na semana passada escrevemos o seguinte comentário a propósito da “Caça ao Tesouro Nacional” no Banco Nacional de Angola (BNA): «o “Caso do Saque do BNA”, não pode ser encarado como tendo sido perpetrado, pelo que nos dá a ver a parte visível do iceberg, por “Zés-Ninguém”, detentores de baixas e médias patentes, como responsáveis do desvio para as suas contas bancárias um quanto “canhotamente”, diga-se a verdade (propositadamente?...), de uns largos milhões de dólares.
Uma questão importante em todo este caso, para credibilização da imparcialidade da investigação é o de se saber em que pedestal a PGR coloca, no caso, o Banco Nacional de Angola:
a) é uma empresa pública?
b) é um governo autónomo gestor dos grandes capitais do Estado e públicos?
Desta distinção se poderá visualizar a incidência e responsabilização criminal do(s) agente que com os seus actos premeditados, negligentes ou dolosos escancarou os cofres de tão importante instituição, para o saque milionário.
Chegados a esta margem, não se pode ilibar os vários governadores do BNA, que com a sua assinatura tornaram lícitos todas as transferências, não colhendo a tese de terem sido aldrabados, por esta figura não estar capitulada na norma jurídica, ao contrário da negligência consciente».

O que queríamos realçar é o facto de mais uma vez nos encontrarmos em face de uma situação semelhante ao resultante da maneira de agir das avestruzes, que põem a cabeça debaixo da areia para evitar as consequências duma repetina ameaça que de repente se lhes depare.
Ora o que se passou no BNA entre Março de 2007 e Novembro de 2009, foi muito mais do que um roubo fácil de mais de 300 milhões de dólares cometido por gente de baixa e média patente, comerciantes, motoristas, estafetas e mesmo um engenheiro nuclear (!), o acto em si constitui uma verdadeira ameaça não para o governo, que esse nem sequer existe, mas sim para o prestígio que resta do Estado e da nossa Nação, Angola, aos olhos da comunidade internacional.

Onde estão os responsáveis?

Por razões ligadas sem dúvida aos interesses superiores do Estado, fez-se em volta deste caso um silêncio quase total, com a ideia de que tal procedimento seria uma maneira de proteger o seu simbólico estatuto de “pessoa de bem”. A todo o preço se tentou minimizar o caso. Erro crasso.
Tal maneira de sanar esta situação faz-nos pensar e retrogradar ao tempo da guerrilha, em que o silêncio era imposto aos guerrilheiros para escapar às rusgas ou à investida de forças armadas do colono. Hoje, 40 anos mais tarde, esse trauma terrível continua a perseguir-nos e eis o resultado, calamo-nos, quietinhos ficamos para não criar ondas denunciadoras das nossas fraquezas e pensamos que o problema será assim ultrapassado.
Responsáveis não existem no nosso país, e este caso é paradigmático.
Sabendo que, por norma estabelecida de longa data no BNA, nem todos os administradores podem ordenar, com a sua assinatura a execução de uma operação, acima dos USD 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil dólares). Logo, no caso de valores acima de um milhão de dólares, apenas o governador do BNA e mais um administrador de topo, detentores do código de senha A podem, com a aposição da sua assinatura, validar a operação. Daí a responsabilidade final de qualquer operação caber ao governador, ainda que na preparação haja procedimentos menos correctos. “Compete ao governador do BNA, com base no sistema informático, antes de liberar qualquer operação ao estrangeiro, fiscalizar uma ou mais vezes se está tudo correcto. Se agir em contrário, a sua omissão é cúmplice, logo materialmente responsável”.
Por mais que atentemos às razões deste silêncio em torno do apuramento das reais responsabilidades dos principais líderes implicados neste caso, silêncio evidentemente doloso para o bom nome de Angola, não podemos compreender que sejam aceites tais práticas políticas quando se continua sem saber onde está
o dinheiro.
Não era nossa intenção revirar a faca na ferida, mas somos obrigados a
relembrar aos nossos leitores que da anunciada recuperação de 90% dos montantes roubados ao BNA, em declaração feita à imprensa em Janeiro de 2010 pelo Procurador-Geral adjunto, nem sequer 10 % reintegraram os cofres do Estado.
Não vamos recapitular todas as camuflagens urdidas para enganar os angolanos, apenas vamos questionar o essencial, e isso passa fatalmente pela responsabilidade atribuída ao presidente da República

Porque se cala o presidente?

O que estará por trás do silêncio do presidente da República
Em torno dos 300 milhões desaparecidas na natureza vnão haverá “tubarões”?
O que tiraram os “tubarões” é para ser investigado ou não?
Quando é que começa a verdadeira investigação?

Onde estão os 300 mil dólares?

Em qualquer país do mundo, sem bananais, tão monumental roubo seria transformado em escândalo nacional, a oposição ao governo instituído nesse país, sem bananas, teria exigido a realização de um inquérito sob égide de entidades independentes com aplicação no seu final de sanções pesadas para todos prevaricadores, a começar pelos cabeças de lista dos órgãos de chefia.
Aqui nada, não há responsáveis, Abraão Gourgel, por exemplo, mesmo que lhe sejam atribuídas circunstâncias atenuantes, por ele ter sido realmente deitado às feras e ser caloiro nestas lidas das altas Finanças de Estado, a verdade é que, como responsável, deveria ter sido chamado à pedra. E até foi, mas JES ajudou-o muito a responder a perguntas que não tinham resposta, ou melhor, tinham uma, um pedido de demissão formulado pelo próprio Gourgel, a fim de evitar uma exoneração imediata. Foi promovido!
Portanto, o que nos parece ser verdade é que as autoridades políticas, de justiça e mesmo as de polícia, não manifestam o menor interesse em saber onde estão pouco mais ou menos os cerca de 300 milhões de dólares que ainda andam por aí de bolso em bolso, a beneficiar os verdadeiros gatunos do Tesouro Nacional.

UE/África. Cimeira sem história termina com apelo africano ao investimento



Pedro Rosa Mendes

A III Cimeira União Europeia/África terminou no dia 30.11 sem história em Tripoli (Líbia), com um apelo ao investimento e uma promessa renovada de parceria entre os dois blocos.
José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, e Jean Ping, presidente da Comissão da União Africana, encerraram a cimeira de Tripoli, numa cerimónia em que não participou o anfitrião, o líder líbio Muammar Kadhafi.
Jean Ping sublinhou, na conferência de imprensa que encerrou os trabalhos, que ”o investimento estrangeiro vai sempre para a Ásia” e lamentou que as medidas ”impostas” no passado por instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ”não tenham produzido o efeito que tinha sido anunciado pelos seus promotores”.
As divergências de fundo entre os dois blocos ficaram patentes, mesmo no debate cordial que marcou a conferência de imprensa final. Durão Barroso referiu que “a ajuda ao desenvolvimento não é suficiente”, sendo precisos “investimento e organização institucional” para a criação de emprego e o crescimento económico.
Segundo Durão Barroso, “África tem um grande caminho a percorrer em termos de organização”.
Jean Ping, numa resposta indireta às ideias de Durão Barroso, declarou que “talvez o presidente da Comissão Europeia ofereça afinal um falso remédio, que pode afogar África em vez de a salvar”.
A cimeira foi sobretudo marcada pelas ausências dos principais líderes europeus, como o Presidente, francês Nicolas Sarkozy, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o primeiro ministro britânico, David Cameron, a mais óbvia marca de contraste com a cimeira de Lisboa em 2007.
Na ausência dos ”três grandes” e de vários outros líderes do norte da Europa, os dois dias da cimeira foram dominados do lado europeu pelas delegações dos países atualmente em situação mais frágil, como a Grécia, a Espanha e Portugal.
O primeiro-ministro português, José Sócrates recusou, no entanto, falar da “obsessão” da dívida soberana portuguesa ou das perspetivas económicas de Portugal, salientando antes que a cimeira de Tripoli correu “muito bem”.
O primeiro-ministro salientou ainda “a grande importância política e económica” da agenda comum entre Europa e África e lançou em Tripoli a ideia de uma conferência internacional sobre energias renováveis em Lisboa.
Numa cimeira marcada também pelo conflito político entre o anfitrião e vários membros da UA, Kadhafi deixou o recado essencial no seu longo discurso de abertura, ao avisar a UE que África tem outros parceiros à espera, como a China.
Num outro ponto os participantes pediram o respeito pelos resultados do referendo sobre a autodeterminação da região Sul do Sudão, marcado para 09 de janeiro. “Neste momento crucial, pedimos a todas as partes que cumpram os ses compromissos para uma transição bem sucedida”, disse o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.
Quando faltam apenas cinco semanas para a realização da consulta, a UE e a UA ressaltaram a importância de se respeitarem todos os elementos do Acordo Geral de Paz, de 2005, para que sejam aplicados "em devido tempo, pacificamente e de forma credível”, especialmente a consulta, "cujos resultados devem ser respeitados por todos".
As duas organizações insistiram ainda para que sejam solucionadas as questões relativas à celebração do referendo na disputada região petrolífera de Abyei, e também em Kordofan do Sul e Nilo Azul.
O Acordo Geral de Paz - subscrito pelo Governo e o Exército Popular de Libertação do Sudão (EPLS) – pôs fim a uma guerra de 20 anos entre o Sul, maioritariamente cristão e animista, contra o Norte árabe e muçulmano.
O Sudão esteve ausente da Cimeira de Tripoli, porque a sua delegação anunciou no 28.11 o abandono, alegadamente devido a pressões europeias quanto à presença do seu presidente, Omar Hassan Al Bashir.
O chefe de Estado sudanês é alvo de um mandado de detenção, do Tribunal Penal Internacional, por genocídio e crimes de guerra contra a humanidade, cometidos durante o conflito civil na região ocidental do Darfur.

Moçambique


Jornalistas de rádios comunitárias queixam-se de interferência política
Jornalistas de rádios comunitárias de Moçambique consideram que o poder político tem interferido na definição de conteúdos dos Centros Multimédia Comunitários, cujos custos de manutenção e a qualidade de conetividade da Internet representam constrangimentos para o funcionamento.
A constatação foi apresentada na Conferência Nacional dos Centros Multimédia Comunitários, realizada entre os dias 30.11 à 03.12 em Maputo pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que conta com a participação de profissionais de rádios comunitárias das regiões de todo o país.
Por definição, as rádios e televisões comunitárias são um serviço somente de associações e fundações comunitárias sem fins lucrativos, com uma programação pluralista, sem qualquer tipo de censura, e devem ser abertas à expressão de todos os habitantes da região onde estão sedeadas.
No encontro, alguns jornalistas questionaram a interferência do Governo na definição de conteúdos e manutenção dos estabelecimentos, considerando a atitude uma forma velada de coação.
O oficial de programas, comunicação e informação da UNESCO, Ananias Chomola, lamentou as reclamações dos jornalistas das rádios comunitárias no país, assinalando que a situação demonstra que, em Moçambique, “a lei de imprensa tem sido violada parcialmente”.
A investigadora do Centro de Informática da Universidade Eduardo Mondlane Polly Gaster disse, no entanto, que os custos de manutenção e a qualidade de conetividade são os principais constrangimentos dos Centros Multimédia Comunitários, que congregam rádio, televisão e Internet.
“Das lições aprendidas até agora, constatamos que os custos (de manutenção) e a qualidade de conectividade continuam a ser constrangimentos” para o pleno trabalho das rádios comunitárias, disse.
Segundo Polly Gaster, alguns Centros Multimédia Comunitários não funcionam plenamente, tornando-os insustentáveis, apesar de os responsáveis pelos empreendimentos darem maior importância ao equipamento tecnológico se comparado aos recursos humanos.
A UNESCO e o Ministério da Ciência e Tecnologia organizaram a conferência nacional dos Centro Multimédia Comunitários para avaliar o grau de implementação do programa destes empreendimentos em Moçambique.
Sob o lema “Dar voz aos sem voz”, o debate enquadrou-se no contexto da implementação do projeto “Fortalecimento do Desenvolvimento Local através da Expansão do Acesso à Informação e Comunicação”.
Durante os três dias, o evento discutirá temas como a sustentabilidade (social, financeira e técnica) dos Centros Multimédia Comunitários, boas práticas na participação comunitária, acesso à informação e liberdade de imprensa, parcerias e sinergias, programa nacional dos Centros, o seu papel no desenvolvimento local, estabelecimento de rede nacional dos mesmos e a conetividade (acesso a Internet).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Wikileaks. Interpol emite mandado de captura em nome de Julian Assange


A Interpol anunciou, no dia 30.11 à noite, ter emitido um mandado internacional de captura em nome do fundador do sítio Wikileaks, Julian Assange, procurado pela Suécia no quadro de um inquérito de um caso de “violação e agressão sexual”.
O pedido de detenção para efeitos de extradição, feito pela Suécia, foi recebido em 20 de novembro pela organização policial internacional, sediada na cidade francesa de Lyon.
Julian Assange tinha justamente no 30.11 contactado o Supremo Tribunal da Suécia para contestar o mandado de detenção lançado em seu nome pela justiça sueca neste caso da alegada violação.
Em 18 de Novembro, a justiça sueca lançara uma ordem de detenção em nome deste australiano, de 39 anos, para o interrogar “por suspeitas razoáveis de violação, agressão sexual e coerção”, por factos ocorridos em Agosto.
O advogado do fundador do sítio WikiLeaks contestara esta pretensão, mas, depois da sua confirmação na instância de apelo, a única alternativa era o recurso ao Supremo Tribunal.
O sítio WikiLeaks, especialista na revelação de documentos secretos, começou a publicar 251 mil mensagens da diplomacia dos Estados Unidos, o que gerou a cólera dos dirigentes de Washington e o embaraço de vários governos.

ONU. Cortes orçamentais e desemprego arrastam Portugal e outros países endividados para “recessão ou estagnação”


Os cortes orçamentais e o persistente desemprego vão arrastar Portugal e outros países com níveis de endividamento elevado na zona euro, para “recessão ou estagnação” económica, segundo as Nações Unidas.
O relatório Situação Económica Mundial e Perspetivas para 2011, apresentado no dia 01, pela ONU, indica que as maiores dificuldades económicas na zona euro serão especialmente sentidas pela Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, países “enredados” pelo endividamento e “cujas economias vão continuar em recessão ou estagnar”.
Estes países estão entre aqueles que terão um crescimento económico inferior à zona euro, devido a uma procura interna “exaurida” com os “drásticos cortes orçamentais” e “elevadas taxas de desemprego”, refere o relatório.
A previsão da ONU para o crescimento económico da zona euro este ano é de 1,6 por cento, mais 0,7 pontos percentuais do que o previsto anteriormente.
Mas, a par do Japão, esta é a mais modesta das apontadas para as diversas regiões referidas no relatório.
A previsão baseia-se numa “retoma moderada” na Alemanha, a maior economia da zona euro.
A previsão da ONU para a zona euro em 2011 foi revista em baixa de 0,2 pontos percentuais, para uma “virtual estagnação” de 1,3 por cento.
Este nível de crescimento fica abaixo da previsão para a economia mundial (crescimento de 3,6 por cento em 2010), das economias desenvolvidas (2,3 por cento), e sobretudo das emergentes como a China ou Turquia (7,1 por cento).
A ONU prevê que o crescimento económico mundial, que vem de uma recessão de 2,0 por cento em 2009, abrande dos 3,6 por cento deste ano para 3,1 por cento em 2011, menos 0,1 por cento do que o anteriormente previsto, e acelere para 3,5 por cento em 2012.
O relatório sublinha ainda que Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, juntamente com algumas economias da Europa de Leste, enfrentam uma espiral de crescimento do endividamento, devido à pressão dos mercados.
A tendência de subida das taxas de juro, resultado da perceção de dificuldades na gestão da dívida, acaba por contribuir para o aumento dos défices e da dívida pública.
O facto de estes países terem uma “capacidade fiscal relativamente limitada” torna “ainda mais poderosas esta as forças viciosas” dos mercados de dívida soberana, refere o relatório
Os dados do relatório hoje divulgado são compilados pelo Departamento de Assuntos Económicos e Sociais da ONU (DESA), da Conferência para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e cinco comissões regionais da organização internacional.

Cabo Verde. PM promete trabalhar para ter o “primeiro país africano livre de SIDA”


O primeiro-ministro cabo-verdiano garantiu no 01, que Cabo Verde vai vencer a batalha do VIH/SIDA e desafiou a população a trabalhar para que o país, com uma taxa de prevalência de 0,8 por cento, seja o primeiro africano livre da epidemia.
José Maria Neves falava na cerimónia de comemoração do Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, assinalado no 01 sob o lema “Toda a Gente Merece Desfrutar dos seus Direitos - Parar a Sida e Manter a Promessa”.
O chefe do Executivo cabo-verdiano referiu-se também a uma série de instituições nacionais que têm estado a desenvolver este trabalho na luta contra a SIDA, e explicou que o “empreendedorismo social” é a via para “combater todas as desigualdades e formas de discriminação”.
“Vamos dar a nossa contribuição para ampliar a mensagem do secretário-geral das Nações Unidas quanto aos três zeros”, afirmou, aludindo à sugestão lançada por Ban Ki-moon em relação à aspiração de se conseguir “zero infeções, zero discriminação e zero mortes relacionadas com a SIDA”.
“Cabo Verde tem sido o primeiro em muitas coisas. Porque não ser o primeiro país africano livre de VIH/SIDA? Vamos assumir este desafio, sermos ambiciosos, positivos e trabalhar para que Cabo Verde também seja primeiro”, apelou.
José Maria Neves apelou ainda à não discriminação dos seropositivos, afirmando que a estigmatização “é um ato contra os direitos das pessoas”.
A representante do Sistema das Nações Unidas em Cabo Verde, a sueca Petra Lantz, discursando também na cerimónia, considerou ser “determinante” que o trabalho a nível nacional prossiga, defendendo que seja mesmo intensificado com ações que versam sobre as pessoas mais vulneráveis, com particular enfoque sobre os jovens.
Petra Lantz disse ainda que, a nível mundial, há menos pessoas a contrair o VIH/SIDA.
“Há milhões de pessoas com acesso ao tratamento da doença, mais mulheres a conseguir evitar a transmissão da infeções aos bebés. O estigma está a diminuir, ainda que lentamente, e o reconhecimento dos direitos humanos está crescer”, sintetizou.
Em Cabo Verde foram registados de 1989 a 2009 2888 casos de VIH/SIDA, situando-se, no mesmo período, os casos reportados de óbito em 727 mortes.

Brasil/Eleições. Tribunal absolve palhaço Tiririca por suspeita de falsificação



O palhaço Tiririca, deputado eleito com um número recorde de votos pelo Estado de São Paulo, foi absolvido, no 01, por um tribunal da acusação de ter falsificado uma declaração na qual afirmava saber ler e escrever.
Segundo a decisão do juiz Aloísio Sérgio Rezende Silveira, da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, o deputado eleito Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, comprovou que possui pelo menos noções básicas de leitura e escrita.
"A Justiça Eleitoral tem considerado inelegíveis apenas os analfabetos absolutos, e não os funcionais", salientou o magistrado, na sentença divulgada.
O magistrado declarou que na audiência de 11 de novembro, em que Tiririca passou por um teste de leitura e ditado, o palhaço demonstrou "um mínimo de inteleção do conteúdo do texto, apesar da dificuldade na escrita".
A decisão também aponta que o deputado eleito, "com certo comprometimento do seu desenvolvimento motor, atestado por parecer técnico juntado ao ensejo da defesa, demonstrou disposição para a escrita."
Tiririca, eleito com mais de 1,35 milhões de votos, maior votação em todo o Brasil, nas últimas eleições legislativas de outubro, era acusado pelo Ministério Público de falsificar um documento que comprova a sua alfabetização.
A legislação eleitoral brasileira diz que os analfabetos podem votar, mas são impedidos de disputar qualquer cargo público.
Uma perícia policial indicou irregularidades na declaração escrita por Tiririca para o registo da sua candidatura, uma exigência feita pela legislação a todos os candidatos para comprovar a alfabetização.
O resultado da prova técnica produzida pelo Instituto de Criminalística da Polícia de São Paulo indicou uma “discrepância de grafias", o que levantou a suspeita de que mais de uma pessoa teria escrito a declaração de Tiririca.
Tiririca, famoso comediante da televisão brasileira, foi eleito com o lema: "Vote Tiririca, pior que está não fica".

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Educação e giz. O início do fim das mulheres no governo em Angola


O que é bom pouco dura. Politiquices, demagogias, falsidades, imitações, mas pouca convicção. Como sempre, uma vez mais as mulheres serviram apenas de instrumentos ou melhor de lixívia para lavar a imagem do partido ou pessoas, para se alcançarem objectivos que em nada dignificam a existência e participações históricas das mulheres angolanas. Angola é África e África é machista, por mais ocidentalizados que nos esforcemos ser, não nos conseguimos despir das vestimentas machistas, talvez por constituir herança dos nossos ancestrais. A saída de Francisca do Espírito Santo é apenas o aviso de que chegou a era feminista porque a sua incompetência não foi demonstrada.

MANUEL FERNANDO*

Se em algo as últimas eleições foram positivas e o Presidente recuperou parte da sua maculada imagem, para o chefe do executivo foi útil, no preenchimento do seu staff com mulheres em cargos de Ministro, em número superior que muitos países desenvolvidos, onde os preconceitos de género pertencem ao passado. Mas, como nos velhos tempos, à mulher lhe é imposta uma data de caducidade, hoje os homens africanos vêm nas mulheres apenas como peças de ornamentação, com um tempo de vida média inferior que as flores naturais, quando arrancadas dos canteiros pelos caules e colocadas em vasos, já sem raízes.
Infelizmente para Angola os cargos ministeriais atribuídos às mulheres, em alguns casos não foi por mérito, muito longe de serem espaços conquistados, foram sim, uma espécie de instrumentalização partidária ou uma forma cínica de responder promessas eleitorais.
Para além de mães, as mulheres organizam melhor que os homens, tendem a ser arrogantes e ditadoras, quando ostentam cargos de chefia, talvez induzidas pelo sentimento de se lhes ter atribuído a categoria de sexo frágil.
Alguém tivera dito que para Angola nem importando governantes japoneses sairia do caos em que se encontra em menos de dez anos. Muito menos com governantes a quem não se deixa permanecer nos seus postos mais de três ou quatro anos. Vergonhosamente, ainda temos que ‘engolir’ informações de que o Vice ministro homem ou o Secretário de estado homem não aceita subordinar-se a uma mulher. Raios, em pleno século XXI. Será que os homens, ainda que incompetentes devem permanecer nos seus cargos? O país assim não vai a lado nenhum, e se for, será para o abismo.
Luanda é uma província enfeitiçada, já dissera Bento Bento, primeiro secretário do MPLA de Luanda: “Luanda é o cemitério de políticos”. Embora a história lhe dê razão, pessoalmente não compartilho do seu pensamento. Por Luanda passaram Comissários ou Governadores, dos mais incompetentes e arrogantes como Mariano Puku, Mendes de Carvalho, Justino Fernandes e Sita José aos papagaios como Kundy Payhama e Kapapinha. Não deixaram qualquer obra, no entanto, eram homens, homens que de que o povo não guarda gratas memórias.
Quando Zé Du indigitou as mulheres para o Governo, não terá sido por convicção, batom puro, política e conveniências. Muitas dessas senhoras esforçaram-se por demonstrar capacidade e talvez seja o grande motivo para integrarem a poção de intrigas palacianas de que está temperada a estirpe de machistas que compõem a superstrutura. Por mais que se pintem não serão mais do que uma espécie de flores de ocasião, aos olhos dos concorrentes machos.
O anúncio desleal e ofegante sobre a substituição da Governadora de Luanda obriga-nos a reconhecer os seus feitos, pese embora não tenha podido acabar com a situação de extrema pobreza na maioria da população de Luanda, um pouco pela interferência tradicional e desmedida dos órgãos do poder central e dos múltiplos interesses pessoais em nome do Estado. Na hora do adeus há que ser honesto, a tia Chica, pelo menos tentou, embora muita, mas muita coisa mesmo tenha deixado por se fazer.
Se esta substituição representa o fim do ciclo de poder feminino em Angola, outras senhoras ministro que se preparem, mesmo labutando contra adversidades da era medieval, como são os casos de Idalina Valente, cujo Secretário de Estado alegou as diferenças tradicionais entre a saia e a calça para vergar o Chefe do Executivo a posições inéditas no panorama governativo angolano; Cândida Teixeira incrustada entre dois Secretários de Estado que esperam cada um, do seu jeito, o grande momento que resulte da escorregadela da chefe, estando entre eles, um menino grande que vez sim, vez também arroga-se do parentesco com o Pai Grande para não aceitar qualquer subordinação; Rosa Cruz e Silva, Genoveva Lino poderão ser substituídas, mas que seja por conveniência de serviço porque algo estão fazendo, mesmo com os presentes envenenados em terrenos minados que constituem os seus actuais pelouros. A presença da mulher cria de imediato o contra-ponto e a diferença. As mulheres são menos corruptíveis, têm opinião própria e não fazem o cordão da mediocridade masculina. Se a substituição do Ministro do Urbanismo está sendo questionado, a suposta separação do Ministério do Ensino Superior e da Ciência e Tecnologia, para agradar os caprichos de Adão do Nascimento poderá criar um ambiente de descrédito no seio do governo e até da comunidade universitária, por tratar-se de uma conduta reincidente.
Estas senhoras independentemente de serem próximas aos correligionários do Grande Chefe, têm se esforçado por corresponder a confiança que nelas foi depositada, com muita humildade. Esperamos que o ilustre General que substituiu a chiquinha, ao sentir-se esvaziado que, pelo menos pinte o interior dos prédios e que Adão do Nascimento não pense que por ter atribuído o nome do Zé Du a uma universidade pública, lambeu o suficiente, para dar-lhe o direito de ser o dono do ensino superior.
Em países como a Noruega, Suécia, Finlândia ou mesmo a Holanda, onde a consciência social não avalia a capacidade humana pelo simples facto de usar ou calça ou saia, as mulheres são o elemento determinante para a manutenção da estabilidade sócio-económica e dos altos níveis de desenvolvimento. Na Suiça onde as mulheres foram obrigadas a esperar até 1971 para ter direito de voto a nível federal, este ano conseguiram pela primeira vez na sua história a maioria no executivo. As mulheres não têm que esperar favores ou tráficos de influência, não obstante, no nosso país existirem as que escudam-se no apelido ou paternalismo para chegar ao poleiro. Dessas, preferimos não citar nomes.
As mulheres têm que ser solidárias, não no sentido de criarem organizações feministas, mas pelo menos, de reconhecerem a capacidade feminina, livres das disciplinas partidárias ou religiosas. Com este princípio recordo-me da reafirmação das mulheres num país terceiro-mundista que baseou a sua revolução no seguinte: “Nós, mulheres que vendemos nossos braços, nosso sangue e nosso conhecimento em troca de um salário de fome e que sofremos todo tipo de discriminação e violência, só temos um caminho: unirmo-nos nas organizações da nossa classe e, junto com mulheres e homens trabalhadores, lutarmos contra o machismo e destruirmos o capitalismo. Só assim conquistaremos uma sociedade igualitária”. Devolvam-nos a tia Chica, o tio Zé Ferreira e a tia Cândida Teixeira queremo-la com o Ministério completo.
*manuelfernandof8@hotmail.com

Milão


O serviço meteorológico anunciava chuva para os cinco dias programados para Milão, mas um lindo sol nos aguardava, à saída do aeroporto. Pegamos um ônibus até a Estação Central, bem mais barato que o táxi para quatro.

Marta de Sousa

Lá, o primeiro pensamento foi pegar um táxi até o hotel, embora próximo, em virtude do peso das malas. Enquanto decidíamos se as quatro caberiam no táxi, um carregador se aproximou de nós, perguntou o nome do hotel e se prontificou a levá-las, por preço razoável. Rapidamente, colocou-as em um carrinho e saiu às pressas, seguido por nós, receosos de perdê-las, à chegada da cidade.

O Doria Hotel é confortável e acolhedor. Como é costume na Europa, não há carregadores para as malas, mas o hotel possui elevador e temos o cuidado de utilizar malas médias, com excelente manejo.

Após uma caminhada ao redor, vamos jantar no restaurante La Noblesse Obligue, recomendado no hotel. Apesar do nome francês, o restaurante é tipicamente italiano. Comemos um Rizoto com Tartufo Bianco d’Alba, que corresponde à fama de deliciosa especiaria.

O dia seguinte amanhece chuvoso, o que nos faz tomar o metrô e ir até Duomo, a catedral de Milão, uma das maiores igrejas góticas do mundo, belíssima. Sua construção iniciou no século XIV e a obra levou 500 anos para ser concluída.

Uma árvore de Natal, natural e gigantesca, está sendo montada, galho a galho, em frente à Catedral, com o auxílio de um guindaste. Próxima, temos a Galeria Vittorio Emanuele II, com lojas lindas e muito policiada. Construída em 1865, sua arquitetura é impressionante.

O frio é intenso, mas os cafés e restaurantes ao ar livre, além de fechados com cortinas plásticas transparentes, possuem inúmeros aquecedores a gás e elétricos, de forma que a temperatura é agradável.

Milão é centro da moda e do design. Impressiona a elegância das pessoas nas ruas, os agasalhos sofisticados.

À noite, vamos ao Teatro Scala, assistir à ópera Carmen. O teatro, inaugurado em 1778, possui o maior palco da Europa. Os lugares, adquiridos pela internet, não são numerados e cada um é de um preço, o que nos desperta curiosidade.

À chegada do teatro, encontramos um casal de brasileiros, felicíssimo, pois recém adquirira os seus ingressos, a preço irrisório. Duas horas antes do espetáculo, vários ingressos costumam ser postos à venda. Ficamos contentes por eles, mais ainda por já estarmos com os nossos ingressos, apesar do preço maior. Em viagens anteriores, perdemos de conhecer lugares desejados, por falta de organização prévia.

Antes de mostrar o camarote, a recepcionista nos leva a uma pequena peça, onde devemos deixar os abrigos, com os do camarote vizinho. Temos um momento de hesitação, finalizado com a chegada da vizinha, prontamente pendurando no gancho o seu casaco de vison.

Afinal, estamos localizados num camarote lateral e a explicação dos diversos preços é a colocação das cadeiras: as duas da frente são mais caras, a terceira pouco menos e a quarta bem menos _ o que é razoável, considerando que este precisará ficar em pé, se desejar ver alguma coisa. Entre um ato e outro, revezamo-nos de lugar e todos ficamos contentes.

À saída do espetáculo, dirigimo-nos ao metrô, seguindo o fluxo das pessoas. Senhoras com casacos de vison caminham com naturalidade em meio à multidão apressada para chegar ao seu destino.

*www.martasousacosta.com