sábado, 9 de outubro de 2010

Escândalo na UGP. Militares que protegem o Presidente são indocumentados


Vamos começar por contar uma história verídica (notem bem, com “agá”) de um militar que veio com cerca de 15 anos para Luanda e integrou a Unidade da Guarda Presidencial (UGP). Por motivos que aqui não interessa evocar o dito cujo faleceu num momento em que alegadamente, quer dizer, quase de certeza, os seus salários já não eram pagos havia vários meses. Quando a família foi contactar os oficiais superiores da unidade, atenção, não é qualquer unidade, é a UGP, para reivindicar a sua pensão e os salários em atraso a que o jovem recruta teria direito, uma vez ter filhos menores, foi-lhes dito que ele não tinha direito a pensão porque não tinha o seu processo organizado. “Não tem processo organizado?, como assim? – perguntaram os familiares. “Por falta de documentação”, foi a linda resposta. E era a árvore que escondia a floresta!

Willian Tonet & Arlindo Santana

Antes de ir mais além nesta barafunda surrealista, note-se que a UGP – UNIDADE DE GUARDA PRESIDENCIAL – é um segundo exército no país, pois calcula-se integrar mais de 20 mil homens, todos eles, segundo as fontes de F8, fora da esfera das FAA, por se regerem por um estatuto próprio.

Trata-se, portanto, de uma unidade de elite, mas com os militares ainda a receberem emolumentos por debaixo das árvores, e o que é certo é que se podem solicitar salários para sargentos, soldados, majores, capitães inexistentes. E como não existe inspecção é claro que os chefes deverão estar a engordar as suas contas por não estar bancarizado o salário, uma prática que já existe nas FAA, pelos vistos mais organizadas.

Como se pode ver nas imagens só agora é que cidadãos angolanos que prestam serviços relevantes a segurança do Chefe de Estado estão a ser registados, pelos serviços móveis do Ministério da Justiça

Um desleixo altamente lucrativo

As tropelias que se constatam no desempenho de dirigentes responsáveis de quase todas as áreas de administração, jurisdição e trabalho dos diferenciados aparelhos do Estado angolano são em geral visíveis a olho nu. Tanto, que de algumas delas, das tropelias, se poderia dizer que são propositadamente executadas como que para permitir aos seus executores mostrar ao restante povo de Angola que eles fazem parte da elite, da categoria de personalidades “não - humanas” e estão realmente acima de tudo, de todos e de todas as leis e regulamentos.

Mas também existem atropelos e entorses à legislação em vigor que não são visíveis, que escapam aos olhares mais atentos e críticos, como o nosso, que, ao nos integrarmos no que se costuma chamar o 4º poder do Estado, para além do Executivo1, do Executivo 2 e do Executivo 3, por mais esforços que façamos não os conseguimos detectar .

Esses deslizes, por vezes gravíssimos, são os que se encontram ao abrigo dos olhos mais abertos e das orelhas mais indiscretas, são os que estão, como se costuma dizer, no “Segredo dos “deuses”, e acontece que um desses Segredos foi abalroado por uma das nossas fontes mais perspicazes, que nos revelou o que não poderíamos aceitar como sendo possível, não fosse tão fidedigna a personalidade que nos deu a informação do que quase se poderia designar como um “estapafúrdio” caso.

De facto, pensemos bem, quem acreditaria que na super divisão militar denominada Unidade da Guarda Presidencial (UGP), vocacionada e treinada até à exaustão para a protecção física de Sua Excelência o Presidente da República, nesse corpo de elite responsável pela segurança do Palácio Presidencial e da família José Eduardo dos Santos no seu todo, reina em permanência um ambiente, não diremos descontraído, não é isso, mas pouco formal? E a expressão “pouco formal” é um eufemismo que esconde outra realidade, mais inquietante essa, porque se por aí ficarmos, pela realidade, o que se passa é de certo modo aterrador.

Ao dizermos “aterrador” referimo-nos ao tratamento desleixado que recompensa o trabalho desses servidores do Estado. Queremos dizer que, à qualidade que se deve exigir do serviço prestado por esses centuriões modernos, deveria corresponder um tratamento “especial”. Ora o que acontece está longe, muito longe das nossas expectativas, como vamos ver.

Partindo do princípio de que é impossível esses militares de primeira água terem a mínima possibilidade de executar defeituosamente o seu trabalho, estamos em crer não cometer um erro de premissa que poderia falsear a nossa análise.

Claro que não, pois toda a gente está ao corrente da abnegação e dedicação desses homens à causa patriótica que abraçaram: defender o chefe supremo e a Pátria. Tirando alguns excessos, não só de zelo, mas também de fervor, ou de nervosismo exagerado, certo é que temos de lamentar alguns mortos no decorrer de saídas à rua do Presidente da República e da habitual caravana de viaturas que o acompanha, temos o caso “Cherokee”, do Minguito, do Abel Braz, do Adriano José e outras infelicidades, mas o tudo conta-se pelos dedos das mãos. Tudo acidentes.

O orgulho da Nação

A UGP é indiscutivelmente uma unidade de elite, uma brigada de luxo que nos é invejada por todos os países de África e mesmo para além das fronteiras do continente. Por que razão então não estará em consonância com os seus pergaminhos o tratamento que lhes é dado?

Dizer que o mal começa pelas negligências evidenciadas pela própria Casa Militar da Presidência da República, poderia criar um equívoco que gostaríamos de evitar, porque já estamos a ver daqui que nos vão acusar de incitamento à revolta do mais temido destacamento militar de Angola. Portanto, vamos retroceder e aceitar que a culpa não é de ninguém.

Esse retrocesso, porém, não impede que gostaríamos que nos dissessem por que razão muitos militares que guardam o Presidente da República não têm documentos. Sim, sim, os estimados leitores leram bem, a UGP tem nos seus quadros milhares de militares sem qualquer tipo de documento.

Não nos seria de todo desagradável arriscar que nos mentissem ao tentar explicar por que raio de cargas d’água esses soldados, capazes de dar a vida pela Pátria, não beneficiam de quartel general em condições, não dispõem de casernas bem mobiladas, com beliches confortáveis e uma ração de combate bem confeccionada. Muitos dormem ao relento, ao que parece.

Enfim, compreendemos mal como é possível num país independente há mais de 32 anos ainda termos que viver esta situação, ver como são tratados “ao deus dará” os homens que protegem o presidente da República. Homens que vêm de longe, do Cunene, da Huíla e do Kuando Kubango, a maior parte deles com poucas letras, isto para nos contentarmos com eufemismos. Chegam à capital, indefesos face aos espertalhões de Luanda, e não vêem que o tratamento de que são objecto é semelhante ao que é dado a pessoas sem eira nem beira, a ponto de se ter chegado ao cúmulo de os salários lhes serem pagos debaixo das árvores, sem assinarem recibos, mas com descontos que devem ir direito para os bolsos dos chefes.

O mal todo é que isso configura não só um crime como um atentado à dignidade humana. E, precisamente porque não queremos incitar à subversão, pedimos que algo seja feito por eles, para que se evitem esses momentos de grande estupefacção no momento em que estes homens queiram criar o descontentamento na tropa, e criarem um estado de ânimo capaz de lhes dar vontade de desleixar as suas responsabilidades.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A causa da pobreza e da crise de identidade dos angolanos


Albano Pedro

O lançamento e a estruturação de uma economia de livre concorrência e longe da intervenção directa do Estado são a única garantia para o desencadeamento do processo de desenvolvimento sustentável e da promoção do bem-estar social e económico dos angolanos e o verdadeiro garante do respeito pelos direitos e liberdades fundamentais e pelo estabelecimento de uma democracia sólida. Karl Marx sustentou nas suas teses sobre o Capital, sem oposição idónea, que a as relações económicas em qualquer sociedade constituem a estrutura a partir das quais as inspirações ideológicas políticas e partidárias e as liberdades humanas nascem e florescem, i.é, é o modelo de organização económica (estrutura) que determina o modelo político e jurídico (super estrutura) de qualquer sociedade. Notou-se na Grécia antiga que a filosofia e as artes ganharam espaço e difusão com o enriquecimento exponencial da cidade de Atenas e é nesta altura que a democracia helénica que inspira o mundo moderno nasceu. Vem deste raciocínio que é poder político é condicionado pelo poder económico e nunca o contrário.

As sociedades que se organizam em torno dos interesses dos cidadãos e se desenvolvem são aquelas em que a iniciativa privada tem mais espaço de intervenção do que o Estado. Os Estados Unidos da América desenvolveram-se somando cada iniciativa particular desde há século, com os cowboys a “caça” do ouro e outros empreendedores dentre os quais J. D. Rockeffeller que fundou algumas das maiores companhias de exploração de petróleo do mundo. O esforço de cada cidadão americano acabou inspirando o espírito empreendedor que alimenta a essência americana identificada pelo ideal do “American Dream” (sonho americano) bem representada pela estátua da liberdade como símbolo da liberdade humana. Nestas sociedades o papel do Estado é fundamentalmente regulador, decretando normas legais com fim de conter as práticas económicas desleais e promover a sã concorrência entre os particulares com a organização de um sistema de justiça funcional e “amiga” do livre desenvolvimento da personalidade humana. É por isso que o comunismo “faliu” em todo mundo por se ter pretendido que o Estado podia substituir-se a capacidade empreendedora do indivíduo, instigada pelo instinto da fome e da sobrevivência, através da partilha equitativa da produção. Uma solução contra natura que a própria Bíblia Sagrada condena a partir do momento em que Deus determinou que Adão devesse sustentar-se pelo esforço próprio (génesis 3:19) ficando patente que a opção económica social aceitável é o capitalismo ou a economia assente na iniciativa de cada indivíduo. Se o trabalho dignifica o homem, mais dignifica o trabalho desenvolvido em harmonia com as capacidades e perspectivas de realização individual que é apenas proporcionado pela iniciativa individual. O trabalho público é um sacerdócio através do qual o indivíduo sacrifica a sua criatividade para servir a interesses sociais baseados em modelos pré-elaborados mediante estruturas organizacionais rígidas e nefastas para a capacidade inovadora proporcionada pela liberdade da iniciativa individual. Com o trabalho na função pública o indivíduo “congela” a sua criatividade para além de sujeitar-se a remunerações rígidas. Portanto, não se realiza como homem e em consequência não conhece liberdade ou felicidade. Assim, é fácil revelar-se a crise de identidade dos indivíduos.

É a partir da opção económica centralizada e a sujeição da economia ao poder político desde 1975 que os angolanos entraram em crise de identidade perdendo os valores morais e éticos e como consequência enterraram a sociedade em dificuldades crónicas de organização social e de autodeterminação cultural (negação dos valores e códigos culturais). Submetidos a mendicidade por força da limitação de oportunidades económicas (expropriação da propriedade particular) e pelos magros salários públicos, os angolanos entraram num processo de “recalcamento” em que o sonho pela realização individual foi trocado pela submissão as regras de acesso limitado e direccionado dos recursos económicos disponibilizados pelo Estado paternalista (que a todos da de comer) gerando a grave onda de clientelismo e corrupção que vem corroendo a nossa sociedade até aos dias de hoje.

Infelizmente desde que foi anunciado o sistema de economia de mercado em 1992 o poder político angolano insiste em manter o modelo centralista da economia em que apenas o estado gera as soluções de bem-estar social dos cidadãos intervindo em todos os sectores sociais e económicos com o engajamento de volumosos investimentos públicos. O Governo angolano, ainda preso no modelo de economia centralizada ou comunismo, continua a desviar os preciosos recursos financeiros para áreas em que os privados podem bem desenvolver a sua actividade (construção de casas – novas centralidades, distribuição de bens de primeira necessidade - PRESILD, industria agropecuária, etc.) quando devia canalizá-los aí onde apenas o Estado pode investir (Produção de electricidade, tratamento de água, infra-estruturas técnicas – redes de esgotos, água e electricidade, estradas e pontes, ordenamento do território, etc.). Deste modo, persistem os gravosos problemas sociais e com ela a pobreza crónica, a criminalidade e a crise de identidade cultural que nos leva a absolver todas as influencias culturais universais sem o mínimo de crítica. A proliferação de seitas religiosas inconsistentes, partidos políticos sem programas sociais, a difusão descontrolada de valores culturais ofensivos à harmonia social e a estabilidade da personalidade dos cidadãos são dados bem patentes do desvio da opção económica social.

Para corrigir este problema, urge redireccionar a economia para a iniciativa privada a fim de devolver a identidade do angolano há muito “roubada” pelo ainda persistente comunismo. Para tanto, os agentes sociais (partidos políticos e a grossa amalgama da sociedade civil) devem redireccionar igual

A Banha da cobra de Cravinho


João Gomes Cravinho considera, que a grande mais valia de eleger Portugal, com o apoio do seu amigo angolano, do MPLA, pois claro, para o Conselho de Segurança das Nações Unidas é garantir uma “voz” pelos que estão fora dos círculos de poder. Ou seja, Lisboa quer que o mundo olhe para o que diz e não para o que faz.

Orlando Castro

O secretário de Estados dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, considerou no 26.09, que Portugal representa “a voz daqueles que não estão nos círculos mais poderosos da governação mundial. Não estamos no G-8, não estamos no G-20, fazemos parte do G-172”, que engloba todos os outros países”.
Se alguém acreditar... que o compre. É que, em Portugal, o governo socialista de José Sócrates não dá, nem permite que alguém dê, voz a quem a não tem. Limita-se, isso sim, a ampliar a voz dos que já a têm em tudo quanto é sítio.
Quando no passado dia 18 de Janeiro, João Gomes Cravinho afirmou que o Governo acompanha com a «atenção normal» a situação na «província angolana de Cabinda», defendendo que o importante é a detenção de responsáveis de ataques criminosos, estava de que lado? Dos que não têm voz não era com toda a certeza.
Lisboa esquece-se, continua a esquecer-se, que os cabindas, tal como os angolanos, não têm culpa que as autoridades portugueses tenham, em 1975, varrido a merda que criaram para debaixo do tapete.
Quando interrogado sobre se o Governo português considerava preocupantes as notícias de detenções de figuras alegadamente ligadas ao movimento independentista na colónia angolana de Cabinda, João Gomes Cravinho afirmou que «preocupante é quando há instabilidade e violência, como aconteceu com o ataque ao autocarro da equipa do Togo» a 8 de Janeiro de 2010.
Sim, é isso aí. Portanto, o MPLA pode prender quem muito bem quiser (e quer todos aqueles que pensam de maneira diferente) que terá, como é óbvio, o apoio e a solidariedade das autoridades portuguesas que agora dizem querer dar voz aos que estão fora do círculo do poder.
Creio, aliás, que tal como fez em relação a Jonas Savimbi depois de este ter morrido, Gomes Cravinho não tardará (provavelmente só está à espera que eles morram) a chamar Hitler, entre outros, a Raul Tati, Francisco Luemba, Belchior Lanso Tati, Jorge Casimiro Congo, Agostinho Chicaia, Martinho Nombo e Raul Danda.
João Gomes Cravinho explicou que, «em relação ao mais» Lisboa acompanha o que se passa «pelas vias normais», isto é, pela comunicação social e pelos relatos feitos pela embaixada portuguesa. Exemplos claros de que, afinal, se está nas tintas para os que estão fora do círculo do poder.
E quando Cravinho diz que Lisboa acompanha o que se passa pelos relatos feitos pela embaixada portuguesa, está a esquecer-se que a embaixada lusa se limita, hoje como ontem, a ampliar a versão oficial do regime angolano.
Como se já não bastasse a bajulação de Lisboa ao regime do MPLA (no poder desde 1975), ainda temos de assistir à constante passagem de atestados de menoridade e estupidez aos portugueses por parte do secretário de Estado João Gomes Cravinho.
"Portugal não tem nada a ver com a questão de Cabinda. é um assunto de soberania angolana", afirmou João Gomes Cravinho à Lusa. Será mesmo a ignorância que leva este membro do Governo português a tapar a escuridão com uma peneira?
A política “made in Portugal” é pródiga nos políticos que, em bicos de pés, procuram estar na ribalta como se de verdadeiros stradivarius se tratassem. No entanto, quando vistos com atenção descobre-se que não passam de instrumentos de lata comprados por tuta-e-meia no Roque Santeiro.
Tenho dúvidas que João Gomes Cravinho saiba ler mais do que aquilo que manda a cartilha oficial do regime, tento fazendo neste caso ser a do PS ou a do MPLA. Mesmo assim, sempre poderia fazer um esforço para contar até 12 sem ter de tirar os sapatos...
*orlando.s.castro@gmail.com

Jornalismo de qualidade é aquele que só diz o que o poder quer que se diga


Jornalistas brasileiros criticam autoritarismo de Lula da Silva. Em Portugal são cada vez menos os que se atrevem a contrariar José Sócrates. A bem da Nação... socialista. O actual governo do Partido Socialista, liderado por José Sócrates, entendeu, entende e entenderá enquanto estiver no poder que a melhor forma de defender a liberdade de imprensa em Portugal passava, passa e passará por calar todos os que mais uso dela faziam. Pelos vistos, tal como em Angola, também o governo do Brasil entende que a liberdade só é boa se for para dizer o que os donos do poder querem. Apesar de tudo, no Brasil ainda há muitos a resistir. Já em Portugal e em Angola a coisa está negra. Muito negra.

Orlando Castro

Os principais diários e revistas do Brasil criticaram no 28.09, o que consideram ataques do Presidente Lula da Silva à liberdade de expressão, na recta final das presidenciais do próximo domingo. Nada de novo, dir-se-ia no contexto lusófono onde os bons são apenas os que estão do lado do poder.
“A liberdade sob ataque” é a reportagem de capa da Veja, a principal revista semanal, para a qual a “revelação de evidências irrefutáveis de corrupção” no actual Governo “renova no Presidente Lula e no seu partido o ódio à imprensa livre”.
Ao contrário de, por exemplo, Angola, todos sabem que corrupção é coisa que não existe no Portugal socialista onde, mais uma vez, os casos revelados são meros devaneios dos jornalistas que gostam de fazer campanhas negras contra os impolutos donos do país.
A Veja salienta que, após as recentes denúncias de corrupção, envolvendo a Casa Civil, ministério responsável pela articulação do Governo, Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores (PT) passaram a atacar a imprensa.
Tal como em Angola e Portugal. Quem se atrever a dizer algo diferente do que está escrito na cartilha do partido de José Sócrates ou de José Eduardo dos Santos leva pela medida grossa. Seja mandando (por via de serem donos dos donos dos jornalistas) os que se atrevem para o desemprego, seja canalizando publicidade institucional para os órgão dos amigos dos tempos do cair da noite.
“Desacorçoados com a revelação de evidências irrefutáveis de corrupção no Palácio do Planalto, Lula e o seu partido sacam do autoritarismo e atiram na imprensa, que acusam de ser golpista e inventar histórias. Eles querem um jornalismo melhor?

Não.

Querem jornalismo nenhum”, escreve a revista.
É mais uma cópia fiel do que se vai fazendo nas ocidentais praias lusitanas a norte, embora cada vez mais a sul, de Marrocos. Eles, também nos areópagos partidários do Largo do Rato em Lisboa ou dos Ministérios em Luanda, não querem jornalismo. Exigem propaganda a favor da sua causa.
O jornal Folha de São Paulo publica um editorial na primeira página, facto raro num dos principais diários brasileiros, com o título “O poder tem limites”.
O diário salienta que a altíssima popularidade de Lula da Silva, em torno de 80 por cento, “não é fortuita”, assim como as sondagens que indicam Dilma Rousseff como favorita para vencer as presidenciais já na primeira volta.
Apesar disso, segundo a Folha de São Paulo, o Governo de Lula da Silva não “pode sentir-se acima das críticas". Se calhar, no Brasil é possível que Lula não se possa sentir acima das críticas. Em Portugal e Angola isso não é possível. José Sócrates e José Eduardo do Santos estão mesmo acima das críticas, ou não fossem eles donos do reino, ou não tivessem eles os seus cipaios bem colocados na engrenagem.
Em Portugal, importa ir relembrando seja, ou não, a propósito da campanha negra contra José Sócrates, do P(R)EC ou do tango, o Estatuto do Jornalista aprovado pelo PS de José Sócrates, foi, é e será por muitos anos a página mais negra na história do Jornalismo português do pós-25 de Abril.
Apesar dos sucessivos apelos, incansáveis iniciativas e documentos de esclarecimento e de aviso para os graves erros e riscos, o governo do mesmo José Sócrates & Companhia foi insensível aos argumentos e posições dos Jornalistas.
Dos Jornalistas. Não, tal como em Angola, dos mercenários contratados para dirigir alguns órgãos de comunicação social, mesmo que não tenham carteira profissional.
O PS de José Sócrates foi incapaz de gerar um Estatuto consensual (até no Parlamento), no qual os jornalistas portugueses se revissem e reconhecessem como instrumento legal fundador de um jornalismo mais livre e mais responsável.
Aliás, liberdade e responsabilidade não se enquadram neste PS de José Sócrates.
O Estatuto aprovado não garante mais a protecção do sigilo profissional dos jornalistas. Pelo contrário, diminui tais garantias, ao elencar um conjunto de circunstâncias em que esse direito-dever pode ceder, bastando aos tribunais invocar dificuldade em obter por outro meio informações relevantes para a investigação de certos crimes.
Assim (e o PS lá sabe as suas razões…), os poucos jornalistas que restam – são mesmo poucos - enfrentarão maior resistência de fontes confidenciais que poderiam auxiliar a sua investigação de fenómenos como o tráfico de droga e até, como se insinuou nos debates, de corrupção, entre outros crimes que os profissionais da informação têm o direito e o dever de investigar e denunciar.
A falta de garantias de autonomia editorial e de independência e os riscos deontológicos criados pelo Estatuto socialista comprometem a aceitação, pelos jornalistas, de um regime disciplinar que é injusto porque aplicável num contexto de fragilidade, no qual não estão em plenas condições de assumir livremente as suas responsabilidades.
O Estatuto socialista, em Lisboa, tal como o do MPLA, em Angola não criaram condições para uma efectiva autonomia editorial e independência dos jornalistas (e o PS e MPLA lá sabem as suas razões…), antes as agrava, fragilizando ainda mais a posição destes profissionais face ao poder das empresas, grande parte delas nas mãos dos amigos do PS e do MPLA.
Também nesta matéria, o PS de José Sócrates e o MPLA de José Eduardo dos Santos querem (e andam lá perto) acabar com todos os jornalistas de segunda, ou seja, todos aqueles que não são do... PS e do MPLA.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Verticalidade da linha editorial. Povo e fontes conferem prémio ao F8


À força de tanto termos clamado no deserto, acabaram por nos ouvir, o que, não juntando nada aos nossos erros nem às nossas virtudes, constitui mesmo assim uma vitória memorável, de facto, uma verdadeira viragem na história do autismo nacional.

Porém, estamos em crer que essa vitória é muito mais virtual do que real.

O F8 sabe que nestas margens marcadamente malhadas a vermelho e preto nunca poderá ser bafejado por seja que prémio for, todos eles partidariamente concebidos e concedidos a certos jornalistas, por ser considerado do contra. Logo se é o regime quem coordena e dirige os prémios nunca, mas nunca permitirá que a independência de um órgão que se mantém fiel a sua linha editorial possa beneficiar, nem sequer participar a seja qual for o prémio.

Resta-nos, no entanto, o prémio popular, por os leitores reconhecerem o enorme serviço público, que vamos prestando não à bajulação, mas a implantação e consolidação da democracia. E esse é o nosso compromisso com a verdade, no exercício nobre de informar e formar as novas gerações actuais.

Para dar um exemplo de discriminação “cautelar” do regime, seguida de escárnio, ameaça e processo judicial em cima vamos relembrar o caso que levou à exoneração do ministro do Interior Leal “Ngongo”.

Quando há cerca de um ano, F8 noticiou o rapto do cidadão português de São Tomé e Príncipe, tivemos um processo que nos foi movido pelo ministério do Interior, pelo cidadão Mello Xavier e pelo seu advogado João Gourgel, acusando-nos de calúnia, difamação e classificando-nos ainda o defensor do ex-deputado-empresário, como cúmplices do alegado crime de Jorge Oliveira.

Nesta cruzada, até tivemos o CNCS como sempre contra nós, ficamos sozinhos na nossa trincheira, mas com a fidelidade dos nossos leitores, que nunca nos abandonaram, financiando-nos com a sua confiança e persistência. Um ano depois, de tanta pressão e perseguição à verdade a compulsiva saída pela porta do cavalo do camarada “Ngongo” constituiu de algum modo uma espécie de grande prémio que, francamente, teríamos apreciado há um ano atrás, agora não, um grande prémio, sim, que nos concedem pelo dever público cumprido, com o reconhecimento da veracidade do que afirmamos naquela altura.

O ministério e o ministro Leal Monteiro Ngongo meteram, afinal, como F8 sempre afirmará, o pé, melhor, o corpo, na lama e comprometeram o país, mas por ali ficariam a governar se não fosse a convicção das nossas fontes e determinação do jornal e da comunidade internacional a meter o bedelho nos nossos tarecos e o ministro ainda hoje lá estaria!

Quem foi o causador da trama: DNIC, PGR ou INTERIOR

Uma fonte digna de crédito de F8 na DNIC disse ter este órgão cumprido com todas as formalidades sob fiscalização da PGR, que foi quem emitiu os mandados de captura internacional e o pedido de extradição do cidadão português que nunca chegou a Portugal, seu país de origem.

Jorge Oliveira é acusado de ter roubado cerca de três milhões de dólares das contas do Grupo Mello Xavier, na altura deputado do MPLA, domiciliadas no BPC”, diz a nossa fonte.

Em sua defesa Jorge Oliveira, diz não haver provas disso, mas saber de um financiamento dado duas vezes, uma das quais indevida e fraudulentamente, ao grupo Mello Xavier, devido ao pagamento de comissões a altos funcionários do BPC.

Como se vê a teia é de engenharias, roubos, denúncias, acusações, raptos e até assassinatos. É um amontoado de muita moamba.

Mas voltemos aos factos desta arapounga.

A Direcção Nacional de Investigação Criminal terá recebido ordens expressas para se deslocarem a São Tomé e Príncipe, pois o ministro Leal Monteiro Ngongo e o comandante geral da Polícia Nacional, já teriam falado com os respectivos homólogos de São Tomé, garantindo-lhes que os seus operativos poderiam ir resgatar a presa.

Chegados ao outro país (STP), sem visto de entrada, em avião alegadamente fretado por Mello Xavier, os agentes do grupo de Buscas e Capturas ficaram acantonados no aeroporto de São Tome. Começaram então a estabelecer ligações, tipo clandestinas, com as suas fontes policiais a quem, sorrateiramente, entregaram a documentação original à Interpol de São Tomé e esta entregou-lhes o Jorge Oliveira, para espanto geral sem nenhum documento de identificação pessoal e assim, sem nada na manga nem papéis, lá veio ele vestido à paisana, algemado e com armas em riste, de corpinho bem feito, para Luanda.

Ao chegaram a Luanda, o homem, como já estava tudo cozinhado, foi entregue pela DNIC à PGR, junto desta instituição do ministério do Interior que sem curar de analisar todos os pormenores, como faz muitas vezes, validou a prisão do cidadão estrangeiro e a manteve.

Aliás, este facto foi confirmado quando, tendo tomado conhecimento José Eduardo dos Santos mandou que o Procurador Geral da República inquirisse os actos dos agentes operativos da DNIC e, no seu relatório, concluiu ter este órgão agido sempre com orientação superior do Comando Geral da Polícia Nacional e do Ministro do Interior, obtendo sempre a chancela do procurador junto da Direcção Nacional, logo foram consideradas pelo relatório final como legais a actuação dos operativos.

E é nessa perspectiva de apenas ser “carne para canhão”, que “enquanto operativos da DNIC actuamos, através das orientações superiores, não nos competindo aferir se era ou não justo São Tomé e Príncipe extraditar ou não o senhor Jorge Oliveira, porque cada país é livre de enviar um criminoso a outro país”.

Nessa perspectiva, não será demais recordar que Angola extraditou sem acordo, Henry Oka, líder do Delta do Níger para a Nigéria e ainda o pastor Bizimungo do Ruanda. Todos eles sem decisão judicial dos tribunais angolanos, mas por decisão política e policial, daí o vício da actuação ilícita dos órgãos do Ministério do Interior.

Agora, a grande maka de Ngongo, ex-ministro do Interior residiu no facto de não ter informado o Presidente da República desta invasão dos seus polícias em território alheio, tão pouco que o processo instaurado já se encontrava em fase judicial, na 4ª Secção, na mesa do juiz Graça, do Tribunal Provincial de Luanda, Dona Ana Joaquina desde meados de Março.

Como se pode verificar o F8 esteve sempre na rota da notícia e com a imparcialidade que o caso requer, na senda de informar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Carta aberta. Tantos doutores estão no Roque…


Ninguém!

Ninguém mesmo escolheu ou escolherá a sua coloração epidérmica, muito menos o lugar onde nasceu ou nascerá.

Nasci com mais ou menos outros quinze milhões de seres humanos numa coordenada geográfica que no mapa deste Planeta indica a República de Angola, Estado Democrático e de Direito. Por isso somos apelidados Angolanos, filhos desta Pátria de que tanto nos orgulhamos pertencer e pela qual nos temos batido desde os tempos de Gloriosa Rainha Ginga.

Nesta terra bendita por Deus, uns são heróis, outros, antigos combatentes e veteranos de guerra, nós, os desmobilizados e muitos espalhados por Angola toda, OS MUTILADOS DE GUERRA.

Também nos orgulhamos e classificámo-lo de acto insólito, a elaboração e aprovação da nova Constituição que tem como artigo primeiro:

“Angola é uma República soberana e independente, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade do povo angolano, que tem como objectivo fundamental a construção de uma sociedade livre, justa, democrática, solidária, de paz, IGUALDADE e progresso social. Mas só no papel, porque a realidade é matreira e para a maioria dos angolanos a vida é apenas o dia que se segue a um outro, à procura de bens de sobrevivência.

A erradicação do analfabetismo que é obrigação do governo, ainda está muito longe dos anseios dos angolanos. Além disso, a alfabetização não se limita simplesmente em ensinar a ler, a escrever ou a saber assinar o nome, mas sim a interpretar correctamente aquilo que se lê, se ouve e se vê.

Estamos a pouco mais de um mês para celebrarmos o 35º aniversário da Dipanda, que tanto sangue nos custou para a consolidar para em retorno termos tão poucos benefícios, pois embora comungássemos os mesmos objectivos, hoje constatamos que eles nos são recusados: Nos dias que correm, Angolanos existem que nascidos em 11 de Novembro de 1975 nem o seu nome sabem assinar, mesmo tendo sido contemplados na tão famosa Constituição, mas só com um cheirinho, para ilustrar: art.º 81º - Os jovens gozam de PROTECÇÃO ESPECIAL para efectivação dos seus direitos económicos, sociais e culturais nomeadamente:

a) No ensino, na formação profissional e na cultura

Os poucos que conseguem terminar o ensino primário, Vêm-se e desejam-se para ingressar no ensino médio que depois de o terminarem, travam a mais árdua batalha para uma vaga no ensino superior, socorrendo-se a maioria nas instituições privadas, que cobram propinas que custam os olhos da cara, noves fora as constantes penalizações, porque nas públicas só mesmo com a mão de Deus ou da ONU.

Não se podendo edificar uma Nação se não se apostar na educação, à semelhança das outras Nações, onde Sua Excelência o Senhor Presidente quer ir recrutar especialistas?

Orgulha-me dizê-lo de viva voz: O ANGOLANO E DOTADO DE UMA INTELIGÊNCIA FORA DO COMUM, mas também digo com muita consternação: pena não ser aproveitada essa super dotação, na maior parte das vezes, por usarmos T-shirts sem o timbre.

Sua Excelência já avaliou o curriculum de todos quantos passaram pelo Governo Provincial de Luanda?

Será, Senhor Presidente, que neste universo de quinze milhões de Angolanos que somos, não existem homens capazes de levar este País ao destino pelo qual nos batemos?

Não será Sua Excelência uma prova evidente que sim?

Há muitos por aí, Senhor Presidente, só que estão no Roque

Luanda 28 de Setembro de 2010

Tico Malanjino

A “centralidade” à maneira de JES


Com tanta fissura em hospitais e estádios de futebol, mal-estar no ex-governo – conjunto de indivíduos a que se deu o nome de ministros e fazem de conta que governam – , isto sem contar os atrasos endémicos no pagamento de salários e a desilusão crescente da maioria da população, sobretudo em Luanda, onde a vida se torna de dia para dia cada vez mais difícil, o F8 já tinha avisado aqui há umas semanas atrás que algo parece estar a apodrecer no reino do “Ngola”.

Felizmente que o Presidente da República também se tem dado conta do caso, talvez, e por que não, por se ter habituado a ler os “pasquins”, e ultimamente tem tomado algumas medidas que apontam para a necessidade de um saneamento geral da coisa pública.

Fala-se muito nos tempos que correm na remodelação da equipa de ministros, que não sabemos como devemos denominar, pois se antes era governo agora já não é, e por ora um deles já saltou, o ministro do Interior, depois dessa descoberta tardia de rapto de um cidadão português de passagem por São Tomé e Príncipe (mais de um ano de atraso entre o crime e o castigo). Os outros, com certeza que não perdem nada pela espera e saltarão mais cedo ou mais tarde.

Por enquanto, à parte o ministro Leal “Ngongo”, do Interior, o que também saltou foi o Gabinete de Reconstrução Nacional por ocasião de uma espécie de golpe de teatro, quando José Eduardo dos Santos anunciou no passado dia 28.09, em Luanda, a transferência das novas centralidades do Kilamba Kiaxi, Zango e Cacuaco, do Gabinete de Reconstrução Nacional (GRN) para a empresa Sonangol Imobiliária.

A partir de agora, informou o Chefe do Executivo, será a Imobiliária da multinacional angolana que cuidará de todas as matérias relacionadas com o desenvolvimento do projecto e com a venda dos espaços e edifícios das centralidades projectadas para Cabinda, Kuando-Kubango e Dundo. Essa decisão, explicou o Presidente José Eduardo dos Santos, insere-se num “conjunto de medidas que tem a ver com a transferência de todas as responsabilidades” que cabiam ao Gabinete de Reconstrução Nacional, no quadro da execução de vários projectos do Estado referentes à reabilitação de infra-estruturas e edificação de novas centralidades.

A Sonangol fica igualmente com a responsabilidade da Zona Económica Especial (ZEE) de Luanda-Bengo e espera-se que pelo menos 14 mil pessoas venham a conseguir postos de trabalho nas 70 unidade fabris da ZEE, orientada lá de cima para trabalhar em consonância com a centralidade do Kilamba-Kiaxi.

Por aqui se vê quem manda. E é apenas uma pessoa, JES. Além disso, o Chefe não se esqueceu de relembrar a insipiência dos seus homens de terreno, a começar pela infeliz governadora de Luanda, que foi simplesmente tratada de incapaz. Quanto aos outros executantes do executivo (os ministros) o PR pô-los todos no mesmo saco, disse nas entrelinhas que todos eles jogavam numa segunda divisão e que ele precisava era de craques, e, à maneira de um Zé Mourinho angolano tinha decidido contratá-los no estrangeiro.

Não nos parece que esta tenha sido a melhor solução para pôr um termo à degenerescência do poder político vigente, mas enfim, à falta de melhor, a “sonangolização” do país tem a sua razão de ser, pois praticamente todo o dinheiro que deveria ser aplicado em investimentos de índole social, na Educação e na Saúde caiu direitinho nos cofres da Sonangol e dos seus “boys”.

Enfim, isto é Angola. É o reino de um Homem, que demitiu, publicamente, o seu gabinete e nomeou uma empresa pública, como a nova entidade governamental, colocando na chacotra todos os actuais ministros, que são vistos de soslaio pelos seus colaboradores e público.

Nguituka reafirma “Sei que isso é um assunto muito sério”


Folha 8 – Senhora Nguituka, sabe que isto é um assunto muito sério, não sabe?
Josefa Matias – Sim. Sei.

F8 – E ainda assim a senhora não teme as consequências, caso se confirme não ser filha e vista como impostora?
JM – Não! Eu sei. Mas a minha mãe estava a me falar sempre, se eles te vão complicar; DÁ SÓ SANGUE!, para fazer o teste de ADN.

F8 – A sua mãe lhe dizia isso mesmo?
JM – Sim, muitas vezes

F8 – Até ao último dia?
JM – Sim! Até 2004 quando ela faleceu. Eu estava com ela e foi só chegar para lhe perguntar como foi de verdade a história do papá (Zedu) com ela minha mãe. E ela só disse, não ter de falar muito, dessa história aí… você lhe fala só para tirar sangue e acaba o problema.

F8 – E a senhora quer mesmo correr esse risco, que lhe tirem sangue? Lhe façam o teste?
JM – Sim.

F8 - Não tem medo?
JM – Não tenho medo

F8 – Tem a certeza mesmo que é filha do presidente?
JM – Tenho a certeza!.

F8 – E os irmãos da mãe, dizem o quê?
JM – A mãe não tem nenhuns irmãos e a irmã dela já faleceu

F8 – Quando a sua mãe conheceu o Presidente da República, fazia o quê?
JM – Viajava. Era comerciante. Ia a Cabinda, Congo e outros países, comprar e fazer negócios …

F8 – Vivia onde. Em Brazzaville?
JM – Não. A mãe vivia no Banduandu, ali na província do Kassongulunda.

F8 – E onde é que ela conheceu o cidadão José Eduardo dos Santos?
JM – Foi nos lados do Kassongulunda, no Banduandu. Foi ali que se encontraram, perto do Tembola do Tembo, na fronteira do Tunguila.

F8 – Quanto tempo é que durou a relação amorosa entre a sua mãe e Eduardo dos Santos?
JM – Uns meses, talvez um ano, não sei ao certo. ..

F8 – A senhora nasceu quando, exactamente?
JM – Nasci a 02 de Maio de 1964.

F8 - Aonde?
JM – Em Fanzi ao lado de Kassongulunda (na RDC)

F8 – Quem lhe deu o nome de Nguituka?
JM – A mãe me disse que antes do pai (Eduardo dos Santos) partir tinha deixado um nome para dar ao bebé que ia nascer. E quando nasci recebi o nome que o pai tinha dito: Nguituka.

F8 – Atenção. Quem disse para dar esse nome.
JM – Eu disse. O pai José Eduardo dos Santos.

F8 – José Eduardo dos Santos foi posto ao corrente de que a sua filha tinha nascido?
JM – Sim.

F8 – Então você é Nguituka?
JM - Sim.

F8 – Então porque é que não disse Josefa Nguituka, quando cumprimentou o Presidente no óbito?
JM – Porque me disseram para dizer só Josefa.

F8 – O que sabe mais de histórias desse alegado relacionamento entre os seus pais?
JM – Sei que uma vez, no bairro onde ela morava o presidente Mobutu mandou ir apanhar pessoas que estavam com o MPLA e o pai (Zedu). E me disseram que ele estava lá com 7 pessoas e quando os homens de Mobutu foram o pai conseguiu fugir e levou com ele a minha mãe e mais três irmãs para a casa dos padres, na altura a minha mãe estava grávida.

F8 – A Nguituka é a mais velha ou já outros filhos?
JM – Sim. Tinha já 7 filhos, eu sou a oitava?

F8 – Os filhos eram também do Presidente?
JM - Ele sabia que a minha mãe tinha outro marido, que estava zangado e separado dele e que naquele momento parece que o papá tinha 22 anos.

F8 – Fugiu e depois, o contacto era como?
JM – Faziam por esses telefones antigos, em casa dos padres.

SOS: Clube K está refém de um hacker!


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Júlio: não consegui falar nada, perdi a fala




Folha 8 – Como te chamas e como foi todo este processo de procura da família da tua mãe

Julío – Chamo-me Júlio e sou filho da dona Nguituka e tenho andado sempre com a mãe neste processo, nomeadamente, fomos na casa da tia Eva e no armazém do Solito. Depois fomos ao óbito da avó Isabel ali nos Bombeiros e quem nos levou foi o avó Luís dos Santos. Chegando lá ele disse «Vocês serão os primeiros a entrar. Porque vocês já vão encontrar o vosso avô (Zedu) ali sentado. Então ele vai falar, porque já lhe falaram tudo…

F8 – Quem disse isso?
J – Foi o avô Luís dos Santos, porque nós tínhamos dado fotografias e tínhamos enviado uma mensagem e então nos disseram que o avô (Zédu) já tinha lido, que haveria alguém que nos conduziria até ele, por já estar tudo preparado. Foi o que nos disseram. Chegados aos Bombeiros, nós fomos os primeiros a entrar.

F8 – E depois o que aconteceu?
J - Encontramos o avô (Zédu) sentado, mas aí não tínhamos o direito de ir até lá (perto dele). Houve então pessoas que nos levaram a sentar ao lado dos familiares. E o avô olhava sempre para o nosso lado.

F8 – Ficaram preocupados com o silêncio ou com a situação?
J – Nós ficamos a pensar; «O avô já sabe realmente»… mas não dissemos mais nada e fomos ao enterro até ao cemitério do Alto da Cruzes e ao sair de lá, metemo-nos no autocarro que tinham alugado para nós e voltamos a Talatona à casa da falecida para dar as condolências à família.

F8 – Vocês também apresentaram condolências?
J – Sim, mas antes de ir cumprimentar as pessoas, entre as quais o avô, disseram à mãe para dizer só o nome, Josefa, quando chegasse a sua vez de cumprimentar o pai José Eduardo dos Santos, que ele vai logo reconhecer que tu és filha dela. E não faça mais nada para evitar que as pessoas falem à toa, estão a chegar as eleições legislativas, não convém», disseram ainda. Nós acreditámos e foi assim que a mãe fez. Porque não queria sujar a imagem do seu pai e nós também não queríamos prejudicar o nosso avô.

F8 – Também deste condolências no funeral?
J – Sim, depois da minha mãe, chegou a minha vez. Eu cumprimentei o avô e tudo parou. Ele olhou para mim, olhou para o avó Luís (irmão do Presidente) e este não dizia nada. Olhou para mim novamente, outra vez para o avó Luís, depois uma terceira vez. E, entretanto mais ninguém passava. Parecia que ele estava à espera que eu falasse, mas como me tinham dito para não falar eu não quis fazer escândalo, calei-me, havia pessoas da oposição, iam falar nos jornais, não podia falar...

F8 – Não falas-te porquê, achas que te iriam fazer mal?
J - Tinham dito que eles andavam armados, que era perigoso, e então ficamos assim. Depois separámo-nos e ficámos á espera de um sinal do avô. Passaram os dias, os meses e não houve sinal nenhum. Foi então que chegamos à conclusão que não havia nada a fazer, tínhamos que ir ao Palácio. E fomos com o meu irmão mais velho, Arsénio. Chegamos, os guardas olharam para nós…

F8 – Quando é que foi isso?
J – Isso foi já em 2008, por aí. E um dos guardas disse-nos que não podia ser por ali, que tínhamos que ir falar com a dona Marta, que era ela quem tratava da família. Voltamos então a falar com o avô Gaspar e foi ele que nos mostrou onde era o armazém do filho do avó Avelino dos Santo (irmão do Presidente da República), o Solito.

F8 – O armazém fica aonde?
J – Fica lá na Brigada… Fomos lá, falamos e ele disse, «Está bem venham sábado e vamos ver». Sábado fomos e quando ele viu a nossa mãe esta disse que estava ali à procura do pai e que o pai era o presidente José Eduardo dos Santos.

F8 – Como foi a reacção dele?
J - Isso chocou o Solito, que telefonou à dona Marta e esteve à falar um bom tempo com ela. Depois chamou o seu filho, Manucho, e deu as chaves de um carro para nos levar até à avó Marta. Fomos de novo ao condomínio e chegados lá encontrámos os familiares, mas não encontrámos a avó Marta. Ficamos a falar, a dada altura passa um motorista da avó Marta e pensou que era ela e começa a falar e a minha mãe teve que lhe explicar que se tinha enganado. Isto só para ver como as feições da minha mãe são parecidas com as da família.

F8 – E nesse dia foram recebidos pela Dona Marta dos Santos?
J – Não, mas estivemos muito tempo à espera e ficámos a saber que já tinham aparecido mais uma pessoa a dizer que era filha do avô (Zedu), mas depois tinha-se visto que era mentira. Mas não é o nosso caso, por isso sempre esperámos, esperámos, e não nos escondemos e nesse dia como a avó estava a demorar acabaram por nos dizer para voltar noutro dia. Fomos embora e já estávamos no táxi quando nos chamaram por telefone, de a avó Marta ter acabado de chegar. Voltámos ao condomínio e continuámos a falar. Mas não se avançou nada naquilo que queríamos.

F8 – Porque e o que é que queriam?
J – Queríamos falar com o avó e lhe explicar tudo, até da possibilidade dele fazer o teste de DNA a mãe, para ver se é mesmo ou não sua filha, mas só nos deram o contacto da tia Minguita, a filha do avó Avelino dos Santos. Depois disso a mãe e o meu irmão mais velho, Arsénio, ficaram sempre em contacto com ela. Passou outra vez muito tempo, e nós, a certa altura, perguntámos porquê o silêncio e foi a tia Minguita que explicou; “o chefe (Zédu), não queria saber do caso, dizia, fora daqui, não quero mais ouvir falar disso, tira fora”. Ficámos muito chocados, desanimados e resolvemos então ir à procura da filha do avô, Isabel dos Santos, mas nunca foi possível encontrá-la. E resolvemos regressar até casa do avó Avelino dos Santos.

F8 – E conseguiram algum êxito
J - Antes, tínhamos sido de novo convidados para ir ao óbito da neta do avó Avelino. Fomos, e estava lá toda a gente, Isabel, Tchize, o avó Luís dos Santos, o Solito, mas tivemos receio de nos aproximar, não dava par ir ter com eles, só tivemos coragem de falar com o avó Luís e perguntámos porquê tanto silêncio. Ele disse para ficarmos calmos e, «Depois liguem para mim».

F8 – Mas esse óbito foi quando?
J- Foi em finais de 2009. Mas o que se seguiu foi a repetição do que se tinha passado antes, quer dizer, não se passou nada.

F8 – Quem é que vos ia buscar quando havia óbito?
J – É a tia Eva. Mas eu fiquei a saber, também, que a própria Eva tenta encontrar-se com o avô (Zédu), mas não consegue, uma parte da própria família põe barreira.

F8 – A tia Eva é filha de quem?
J – É filha do avô Gaspar, que é o tio do Presidente da República.

F8 – Vamos lá ver. Vocês na prática estão mais perto de quem, do tio Gaspar ou do avô Avelino?
J – Ao princípio a gente estava próximo do avó Gaspar e da sua família. Mas depois entrámos em contacto com o avó Avelino e a avó Marta…eu tenho os contactos de todos eles, conheço a casa de todos eles, da avó Marta, do avó Luís, do avó Avelino dos Santos, mas não sei o que se passa com eles, por que razão não nos querem se nós somos do sangue deles. Nós pedimos o teste ADN mas eles não querem nem o teste.

F8 – Então depois disso nunca mais estiveram num mesmo sítio com o Presidente?
J – Não, mas tenho a dizer, que no primeiro dia do ano de 2010, depois do Réveillon, eu estava no Golfe 1 e fui de táxi para o Mártires do Kifangongo. No caminho ao passar perto do Golfe 2, no Projecto Nova Vida, vi muitos guardas da UGP e disse que o avô devia estar por ali. Saí do táxi e fui até a casa do avó Avelino. Tinha muitos guardas fora, mas eu pude entrar à vontade.

F8 – E o que se passou depois?
J – Entrei e encontrei-me com a tia Avelina dos Santos, falámos do caso, mas ela não disse nada, e apenas trocámos um kandandu. Saí e telefonei à mãe. Disse-lhe que tinha que se preparar para vir à casa do avó Avelino que estava lá o pai dela.

F8 – E ela veio ao teu encontro?
J – Sim veio e fui lhe buscar na paragem e quando tentamos entrar, desta vez os guardas não nos deixaram passar. Disse então à minha mãe para telefonar ao avó Avelino. Mas nisto, a tia Avelina dos Santos, sua filha, veio até à porta, não para nos fazer entrar, mas para nos dizer para ir para a outra porta. Fomos. E veio um guarda que perguntou quem éramos, e eu respondi logo, «Estamos aqui porque esta é a minha mãe que julga ser a primeira filha do Presidente da República José Eduardo dos Santos que está aí dentro». O guarda olhou para nós, recuou e foi falar com outros guardas. Nisto pedi à minha mãe para telefonar depressa ao avó Avelino. Mas foi a tia Avelina que respondeu e depois veio à porta e aconselhou-nos a ir embora que se falaria noutro dia. E eu disse não; “Estamos a caminho de três anos e vocês dizem sempre a mesma coisa. Nós pedimos um teste de DNA, e nós estamos dispostos a fazer também. E ela respondeu:

- “Não, já passou muito tempo, vocês deviam ir fazer a vossa vida, já és velha, com 46 anos e ele não vai ter amor por ti, vão no tribunal”;
- e eu respondi: “Não, ele é o Presidente ele é quem manda”,
- e a tia disse: “Mesmo assim, vão fazer queixa”,
- e eu disse: “Não, não queremos. Não queremos sujar o nome do nosso avô. Vocês são nossa família, não podem nos fazer isso”.

F8 – O que aconteceu a seguir?
J - Nesta altura sai lá de dentro a sobrinha da tia Avelina, pergunta o que se estava a passar, e quando ficou a saber que a dona Josefa era filha do presidente Dos Santos pegou na mão da tia e esta seguiu-a depois fechou a porta. Ficamos por ali, por perto da viatura da Presidência, à espera. Nenhum guarda nos tocou. Passado pouco tempo sai um general de dentro de casa e pede que nos dispersassemos (!). E nós fomos andando, mas sem nos afastarmos muito. Entretanto a tia Avelina mandou entrar a viatura do Presidente. A viatura entrou e a ideia era fazer entrar o avô com o carro ainda dentro de casa para ele poder sair e nós não podermos falar com ele. Foi o que aconteceu.

F8 – Depois de tantas tentativas falhadas, não aconteceu mais nada?
J- Não aconteceu nada. Perdemos uma batalha, mas a luta continua. Não esquecemos que foi a própria mãe que nos disse, quase nos ordenou que pedíssemos um teste ADN.

F8 – Não tentaram ir directamente ao palácio depois de tantas voltas para nada?
J – Tentámos. Diga-se, de resto, que foi por sugestão de um dos guardas que estava à porta da casa do avó Avelino. Fomos e pedimos para falar com o general Maua. E nesse mesmo dia, 1º de Janeiro de 2010. Mas o general Maua não estava. Voltamos lá na segunda-feira seguinte e disseram-nos que tinha ido de férias…

F8 – Até hoje?...
J – Sim. Não se passou mais nada..

Até hoje tenho certeza que mãe não errou. Não quero aldrabar ninguém, apenas o reconhecimento paternal


Folha 8 – Disse que nas conversas que teve com os seus tios, ou irmãos do Presidente Eduardo dos Santos chegou a colocar um problema do terreno, como foi isso?

Nguituka Josefa Matias dos Santos – Depois de eu explicar, uma semana mais tarde telefonou-me a (prima) Avelina dos Santos, a perguntar como estava a seguir o caso que eu tinha revelado, sobre o terreno que me foi recebido por um senegalês, ou maliano, não sei. Eu disse; só estou à espera da vossa ajuda…

F8 – Eles ajudaram?
JM – Não ajudaram! Só falaram... Prometeram, mas ainda estou à espera. Disseram que há aí uma organização que ajuda, do camarada Kionga. Ele veio falar e dei tudo, nome, documentos, contacto, e ele disse, fiquem calmos vamos resolver isso…

F8 – Lembra-se do nome da organização?
JM – Não. Esqueci.

F8 – E esse senhor, como é que se chama?
JM – Kionga.

F8 – Dona Nguituka qual é a sua expectativa? Melhor, o que é que espera com isto tudo?
JM – Eu quero tudo que um filho quer. Não é para queixar ou falar mal do pai. Quero só encontrar para lhe dizer que eu estou viva.

F8 – Apenas pretende saber se é filha do presidente ou não?
JM – Sim, só isso.

F8 – A sua mãe não lhe falou de nenhum amigo do seu pai que andava com ele?
JM – Não.

F8 – Nunca pensou ir na embaixada de Angola tentar entrar em contacto com ele?
JM – Não. Ele estava lá, na fronteira, do lado do Caemba.

F8 – Mas quando chegou aqui e encontrou a família, do seu alegado pai, como foi recebida?
JM – Depois dos miúdos se conhecerem, fui muito bem recebida.

F8 – E depois o que aconteceu?
JM – Depois fui sempre sido convidada para participar nos óbitos da família, para almoços o que significa, que antes mesmo do teste, que sempre exigi, me aceitaram como parte da família, não é? Mas o problema é que depois não me deixam ter o contacto com o pai.

F8 – Porquê, não lhe deixam?
JM – Não sei porquê. O tio Avelino foi o único que me disse que tenho de ir falar ao mais velho (Zedu), mas as outras pessoas falavam, fica calma, vamos ver como nós podemos fazer…

F8 – Mas você, quando falou com o tio Avelino, viu no rosto dele o quê? Que ele aceitou que você é filha ou uma impostora?
JM – Não, ele notou mesmo que eu sou do sangue deles. O que eu não estou a compreender é porquê o mais velho, o presidente, não está a aceitar que eu sou filha.

F8 – Mas o tio Avelino não disse que ia falar com o papá (Zedu) pelo menos para ele te falar?
JM –Disse isso, sim. Que vai falar com a irmã dele (de Zedu) para ver como se encontrar. Prometeu responder, mas até agora nunca me ligou para dar a resposta.

F8 – Então para você, quem é que está a encobrir, é o Avelino, é o Luís, ou a Marta?
JM – Eu estou a ver que é a família toda. Eu nem sei se o pai (Zedu) sabe que eu estou aqui ou não.

F8 – Até hoje você acha que o pai não sabe?
JM – Sim…eu estou a ver…

F8 – Quando você foi lhe cumprimentar no óbito, como foi…
JM – Não…quando eu fui cumprimentar só disse o que me disseram para dizer, «Dá só o nome. Porque ele já sabe e vai ficar a saber logo que tu és sua filha». Então eu só disse, “Josefa”, mais nada...

F8 – E quando ele (Zedu) cumprimentou o teu filho?
JM – O filho estava atrás de mim. Eu vi que eles ficaram com a mão dada um ao outro muito tempo, não estava a lhe deixar passar, mas nenhum deles estava a falar nada..

Primeiras reacções de José Eduardo dos Santos


”O pai biológico de Josefa Matias é uma outra pessoa, que ela deve continuar a procurar”

O Presidente da República José Eduardo dos Santos negou no 27.09 ser o pai biológico da congolesa Nguituka Josefa Matias, de 46 anos cuja paternidade lhe é atribuída pela própria cidadã, nascida na República Democrática do Congo (RDC), fruto de uma alegada relação com Elisabeth Kaenje, mãe de Josefa, no tempo em que José Eduardo dos Santos representou o MPLA naquele país vizinho.

“Sou José, em minha casa os meus familiares tratam-me por Zé. Os mais novos chamam-me mano Zé. Os meus sobrinhos tratam-me por tio Zé. Durante a minha infância na escola, no Liceu Salvador Correia (actual Mutu Ya Kevela) por onde passei, nas lides de futebol, na música, etc., e na juventude, todos me conheceram e trataram-me por José Eduardo. Na guerrilha, no MPLA, quer em Kinshasa (RDC), quer em Brazzaville (Congo), enfim, nos meus tempos de estudante, os meus companheiros e os meus amigos de luta e colegas chamaram-me José Eduardo. Fui sempre conhecido por José Eduardo e nunca por Edú. Edú é diminutivo de Eduardo, Eduardo é o nome do meu falecido pai”, esclareceu, acrescentando que “ o pai biológico de Josefa Matias é uma outra pessoa, que ela deve continuar a procurar”.

Sobre o argumento usado pela senhora de que José Eduardo dos Santos tinha sido apresentado a uma família congolesa, o Presidente da República esclareceu que chegou ao Congo, designadamente a Leopoldeville, hoje Kinshasa, em Novembro de 1961.

“Tinha 19 anos e saí do Congo, aproximadamente, entre Julho e Agosto de 1963. Estava a fazer 21 anos”, lembrou. “Durante a minha permanência em Leopoldville, não tive amizade com nenhuma família congolesa, não tive nenhuma prima que tivesse relações de amizade com uma família congolesa e que me tivesse apresentado a essa família”, esclareceu. “Naquela idade, durante o período que vivi no Congo e depois na União Soviética, onde fui fazer os meus estudos, não tive nenhuma namorada. Não tive nenhuma amante. Nem congolesa, nem angolana, nem de outra nacionalidade qualquer. Nessa altura, não pensava em ter namorada, nem arranjar filhos, nem casamento. Tinha outras preocupações”, afirmou o Presidente, concluindo que, por essa razão, não pode ter feito qualquer filho.

“Soube do assunto através de familiares”

José Eduardo dos Santos aconselhou a cidadã congolesa a ter paciência e a procurar o seu pai biológico. O Presidente lembrou que pelos congos Kinshasa e Brazzaville, passaram muitos angolanos, refugiados e alguns que se instalaram lá por contingências da luta de libertação. Por isso, “pode ser que alguém se tinha chamado Eduardo e Edú e que seja o pai biológico de Josefa Matias. Ela deve ter a paciência e continuar a procurar, porque essa pessoa é outra. Não é José Eduardo dos Santos”, frisou o Chefe de Estado, insistindo que, pelo conteúdo da entrevista e pelas afirmações de Josefa Matias “ela tem de ter paciência e continuar a procurar pelo seu pai, porque pelos dados que ela apresenta a pessoa que procura é outra, não é o senhor José Eduardo dos Santos, que sou eu”.

O Presidente da República disse que soube do assunto através de familiares e amigos que informaram de uma entrevista que a cidadã congolesa concedeu ao semanário “Folha 8”, José Eduardo dos Santos disse que ficou “espantado por tudo quanto foi dito”.

Ngutuika Josefa Matias afirmou à imprensa que nasceu logo após o pai ter partido para a União Soviética para estudar, razão pela qual não foi registada, acabando por ser reconhecida pelo padrasto, que tem o nome Matias. Josefa diz que procura pelo pai biológico desde 1999, altura em que veio dos congos. Na entrevista ao semanário, reconheceu que nunca se encontrou com o pai. Josefa veio a Luanda para estabelecer contactos com personalidades próximas da família do Presidente José Eduardo dos Santos.

sábado, 2 de outubro de 2010

José Eduardo dos Santos. A força das razões do Presidente inaugura um novo ciclo na democracia angolana


Obrigado, Senhor Presidente, por ter respondido a uma questão que, apesar de ser do domínio público em virtude de a sua gravidade e importância interferirem no desempenho das responsabilidades que pesam sobre a sua alta função de chefe de Estado, não deixam de se imiscuir na sua vida privada. Obrigado. Estamos em crer que o que o Senhor Presidente mais deseja é ultrapassar esta situação e, confessamos, esse também é o nosso desejo. O assunto é por demais melindroso e convém tratá-lo no seio das famílias envolvidas nos seus trâmites. Exclusivamente.

Willian Tonet & Félix Miranda & António Setas*

Vamos, portanto, tentar o mais rapidamente possível dar a volta a este imbróglio, que, se já era do domínio público agora o é muito mais depois da sua intervenção na TPA.

Senhor Presidente, queira compreender que somos obrigados a dar um seguimento às revelações feitas pela senhora Nguituka Josefa e vamos enumerar de imediato os fundamentos que nos levaram a tomar essa decisão:

1 - Segundo notícia veiculada por várias agências internacionais, as opiniões se dividem: uns acreditam que a aproximação com a família do alegado pai, constitui motivo bastante, para se perceber do reconhecimento de laços consanguíneos, outros defendem a tese do Presidente rejeitar, por uma filha mais velha quebrar com a aliança com Isabel dos Santos, considerada a chave do cofre do pai; havendo ainda quem considere a rejeição, normal, num país que relega a tradição africana, para as calendas do Ruacaná, sendo a senhora zairense, pobre de família humilde, mal falante do português e ser mãe de 9 filhos, todos zairenses, por adopção do luso-tropicalismo.

2 – O Senhor Presidente na sua intervenção negou de A até Z todas as revelações da dona Nguituka Josefa. Como argumentos começou por invocar um erro relevante na maneira como ela se referia à sua pessoa, tratando-o por Edu. Disse também que tinha chegado a Leopoldville, hoje Kinshasa, em Novembro de 1961, onde permaneceu até Julho ou Agosto de 1963. Reforçou a sua argumentação dizendo que nunca teve nenhum relacionamento com qualquer família congolesa, que não tinha prima nenhuma que tivesse estado no Congo e que não tinha tido nenhuma namorada nem amante, pois as suas preocupações eram outras. Portanto, concluiu, não podia ter nascido nenhum filho meu que tivesse nascido nesse período de tempo.

3 – Numa passagem da entrevista que dona Josefa concedeu ao F8 foi abordada essa possibilidade de recurso ao teste de ADN; vejamos.

Folha 8 – Senhora Nguituka, sabe que isto é um assunto muito sério, não sabe?
Josefa Matias – Sim. Sei.
F8 – E ainda assim a senhora não teme as consequências, caso se confirme não ser filha e vista como impostora?
JM – Não! Eu sei. Mas a minha mãe estava a me falar sempre, se eles te vão complicar; DÁ SÓ SANGUE!, para fazer o teste de ADN.
F8 – A sua mãe lhe dizia isso mesmo?
JM – Sim, muitas vezes
F8 – Até ao último dia?
JM – Sim! Até 2004 quando ela faleceu. Eu estava com ela e foi só chegar para lhe perguntar como foi de verdade a história do papá (Zedu) com ela minha mãe. E ela só disse, não ter de falar muito, dessa história aí… você lhe fala só para tirar sangue e acaba o problema.
F8 – E a senhora quer mesmo correr esse risco, que lhe tirem sangue, lhe façam o teste?
JM – Sim.
F8 – Não tem medo?
JM – Não tenho medo
F8 – Tem a certeza mesmo que é filha do presidente?
JM – Tenho a certeza!.

Senhor Presidente, temos antes de mais nada de considerar pacifico o cognome “Edu”, que não sendo comum no seu círculo, não deixa de constituir iniciais do seu nome e, na eventualidade de ser verdadeira a história ser um nome de carinho e estimação exclusivamente empregue pela mãe de Josefa, mas verdade seja dita, as expressões que ela mais utilizou na entrevista foram: Pai, Papá e Mais-velho e Zedú. Ademais a palavra (Edu) está escrita na entrevista como aqui, entre parênteses, o que significa, na ideia dos autores da mesma, que constitui uma explicação “off”, redutora à mais simples expressão do termo papá, pai, ou mais-velho. E se provas forem necessárias temos o registo magnético e lá encontram-se recorrentemente a palavra "Zédu".

Ainda no primeiro ponto, o Senhor Presidente nega mais ou menos tudo o que disse a dona Josefa, mas sem se referir ao que de mais relevante ela evoca, ou seja, que o encontro entre o Senhor Presidente e a mãe dela teve lugar não em Leopoldville, nem em Brazzaville, mas sim mais tarde, «Foi nos lados do Kassongulunda, no Banduandu. Foi ali que se encontraram, perto do Tembola do Tembo, na fronteira do Tunguila», tal como ela disse na entrevista.

Por outro lado, Senhor Presidente, é de notar que a sua exposição abrange o período que vai de Novembro de 1961 a Julho/Agosto de 1963 e absolutamente nada diz sobre o essencial, quer dizer, o que se passou entre Setembro de 1963 e a sua partida para a URSS em 1964, altura em que alegadamente teria conhecido a mãe de dona Josefa.

Só mais uma reflexão muito importante: negar a veracidade de um testemunho que se refere a factos passados há mais de 40 anos por os dizeres não corresponderem ao que se passou, não colhe, pois o que é impossível mesmo é ter capacidade de descrever com exactidão o que se passou, depois de ter passado tanto tempo. O inexacto apenas diminui o valor do testemunho, normalmente nunca o nega completamente.

Senhor Presidente, se dermos algum crédito ao ponto 1, averbamos um facto importante, o desaparecimento da dona Josefa depois de lhe ter sido solicitada uma feitura de teste de ADN.

Este ponto, felizmente, foi ultrapassado, como podemos constatar ao ler no ponto 3 o extracto da entrevista em que essa possibilidade foi abordada. Portanto, por aí não há problema.

O verdadeiro problema é que essa peremptória determinação da dona Josefa em levar avante a sua busca de paternidade, colide com a peremptória negação da mesma, expressa claramente pelo Senhor Presidente. E aqui coloca-se a componente jurídica atinente a situações deste género.

Segundo a lei o ónus da prova de paternidade ou não paternidade incumbe ao lado paterno e para tal existe o teste DNA. Mas no presente diferendo, o problema complica-se porque o indigitado pai é Presidente da República de Angola e dona Josefa simples “angolesa”. E agora, Senhor Presidente? Será que é verdade, ninguém está realmente acima da lei?

Imagem: facebook

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O “Terrorismo” dos Lunda


O que está a acontecer nas Lundas a propósito das reivindicações formuladas por uma organização regionalista, a Comissão do Manifesto Jurídico Sociológico do Protectorado da Lunda (CMJSPLT), vem de algum modo contrapor factos inegáveis às argumentações duma das grandes preocupações do “governo” angolano, quando este considera, a propósito das pretensões autonomistas dos cabindeses, mais precisamente da FLEC, que ceder às suas exigências significa dar o flanco a outras da mesma estirpe entre Tchokwé, Kwanhama e outros Bakongo.

António Setas

O “governo” nunca cedeu coisa nenhuma, pelo contrário, agiu discricionária e violentamente, manifestando em alguns casos profundo desprezo por direitos humanos, os quais, em seu entender, não são tão importantes como se apregoa por aí – “nunca deram de comer a ninguém”, disse José Eduardo dos Santos -, e o resultado está aí, uma crescente incubação de descontentamentos que se vão manifestando uns a seguir aos outros.

Nas Lundas, a CMJSPLT apresentou no dia 3 de Agosto de 2007, um Manifesto de Reivindicação da Autonomia Administrativa e Financeira efectiva da Lunda pelo facto de considerar essa província de Angola como sendo um território Independente desde 24 de Março de 1894 por força jurídica dos tratados de Protectorado de 1885-1887 celebrados entre Portugal e os Soberanos Lunda Tchokwes e Portugal, do qual saiu a Lei nº 8904/1955, celebrando isso mesmo.

Está claro que, desde 1975, a Angola Independente do MPLA nunca deu trela a esse pretenso atrelado jurídico nem justificou a razão da presença do Estado angolano na Lunda. Ignorou, ou fez de conta que ignorou completamente esse caso e sempre mandou bugiar os reivindicadores. Que insistiram. E tanto insistiram que nos dias de hoje o “governo” do Futungo vê-se em face de uma realidade impossível de esconder, e, em despeito de qualquer hipótese de diálogo, todos os esforços estão a ser feitos para a a esmagar (a realidade Tchokwe) no ovo, ou seja, a CMJSPLT.

Assim, a Segurança do Estado tomou em mão o contencioso e agiu à sua maneira, estupidamente, procedendo a encarceramentos sem suporte legal e maltratando quem manifestasse aderência aos princípios dessa organização cívica Lunda. Das suas acções musculadas resultou, entre outros ajustes de contas policiais arbitrários, o rapto do Dr. Jota Filipe Malakito, no dia 14 de Maio de 2009, junto ao Banco de Fomento Angola – BFA no Bairro de São Paulo, por um comando de Serviços de Inteligência da Casa Militar da Presidência da República. Depois dele, seguiram-se as perseguições de que foram alvo mais 34 membros da Comissão do Manifesto Jurídico Sociológico do Protectorado da Lunda Tchokwe, que, de acordo com fontes do Tribunal Províncial da Lunda-Norte, passarão a ser julgados a partir do «((…) dia 12 de Outubro de 2010, indiciados no “crime contra a segurança do Estado Angolano”, no processo n.º 3450-B/2009, com o recurso interposto que deu origem um outro processo n.º8001/2009 do Tribunal Supremo».

E não é tudo. »Outro processo que possivelmente irá conhecer o seu desfecho no dia 21 de Setembro de 2010, envolve os Srs. José Muteba, Sebastião Lumani e António da Silva Malembela, é o processo n.º 157/2010, a acusação é “Vandalismo”, que se resuma a ter respondido a uma notificação de rotina».

Em um outro ainda, é indiciado o «Crime de Manifestação contra o Governo» e dele faz parte os Sr Domingos Manuel Muatoyo e Alberto Cabaza, em Luanda, raptados no dia 8 de Janeiro em Viana».

Na realidade não existe nenhum crime contra a segurança do Estado Angolano, mas, como pretende a CMJSPLT, “por falta da vontade política do Governo Angolano, a única saída é acusar a CMJSPLT de estar a cometer crimes lesivos à segurança do Estado ou ainda a suspeição de criação de algum exército paralelo”, em contradição flagrante com a realidade dos factos, depois de terem passado mais de 24 meses da vigência pacífica do Manifesto Reivindicativo.

Posto isto, que ultrapassa qualquer possibilidade de considerarmos democrático o nosso velho e caduco regime político, «a CMJSPLT sabe que o Dr. Juiz Cristiano André Presidente do Tribunal Supremo e do Conselho Superior da Magistratura Judicial de Angola, já terá dado o despacho de pronúncia sobre o processo N.º 8001/2009, dos detidos membros do Manifesto. E, para terminarem beleza o tratamento deste caso, até hoje, a CMJSPLT ainda não teve acesso ao documento.

Caminhamos a passos largos para mais uma vergonhosa manifestação da geminalidade patente entre os poderes executivo e judicial. Geminalidade siamesa!


Um pouco de história
Os portugueses foram os primeiros europeus a contactar os povos da Lunda, mas reconheciam que tinham que apresentar mais argumentos para reivindicar as zonas entre o Cuango e a Lualaba (Massano de Amori, “A divisão administrativa de Angola”). E na impossibilidade de se promover rapidamente a ocupação militar, pensou-se numa expedição científica que, à semelhança dos exploradores estrangeiros, fosse montando pelo caminho postos ou estações.

Por portaria régia de 24 de Março de 1884 é determinada a organização da exploração Portuguesa ao Muataiânvua cuja chefia foi confiada ao Major Henriques Augusto Dias de Carvalho.

A expedição sai do Quissol, nos arredores de Malanje, em 12 de Outubro de 1884; atravessa o Cuango um pouco abaixo da confluência do Rio Lui, segue a direcção da actual Portugália para, por alturas do meridiano 20, inflectir para o sul: atravessa o Cassai por alturas do paralelo 8º 15’; segue o paralelo – para chegar á Mussumba do Muataiânvua em 2 de Janeiro de 1885. A 18 de Janeiro de 1885 assinado um tratado pelo qual “O Muataiânvua e a sua corte, bem como os herdeiros dos actuais potentados, Muatas (senhores) de lucano (pulseira usada ao pulso e principal insígnia real das Lundas)), declararam: que nunca reconhecerão a soberania senão de Portugal, sob o protectorado do qual há muito seus avós collocaram todos os territórios por elles governados e constituem o Estado de Luanda e que esperam sejam agora mandados ocupar definitivamente....” (Henrique de Carvalho- A Luanda, pp 304-308; Descripção da viagem á Mussumba do Muataiânvua, Vol, pp 269-272)

Apesar destes direitos sobre o território da Lunda, o Estado Independente do Congo pretendia avassalar o território que continuava desocupado. Só em 1891 é que se acordam “espheras de soberania e de influência de Portugal o do Estado Independente do Congo na região da Lunda”, ficando o Cassai a constituir o novo limite deste.

Após esta convenção, consegue o esforço do tenente Simão Cândido Sarmento o estabelecimento de um posto em Capenda Camulemba e de dois outros do Mussuco e além R. Uamba.

Mas, terminados os trabalhos de delimitação da fronteira norte, além Cuango, em 1892, os dois postos estabelecidos a Norte são retirados e o de Capenda Camulemba que tanto podia vir a propiciar a futura ocupação, é mandado retirar, por economia, em 1893. Assim, quando por decreto de 13 de Julho de 1895 é criado o distrito da Lunda não havia, dentro de tal área, um único ponto ocupado por qualquer autoridade civil ou militar portuguesa.

No entanto, esse decreto fixava os limites das fronteirasda Lunda, mas pela necessidade de primeiramente ocupar os povos de Jinga, dos Bondos e dos Songos, não foi possível a instalação imediata nem efectuar a ocupação do território. A sede do novo distrito foi, portanto, Malanje, fora de fronteiras.

Segue-se toda uma série de penetrações no território Lunda, mas nunca com ocupação efectiva. Até 1929. A partir dessa data organizam-se várias colunas de ocupação; ocupam-se as terras mais a leste, e procede-se ao reagrupamento dos distritos em províncias, e o distrito da Lunda é integrado na província de Malanje.

A 19 de Fevereiro de 1955, por portaria Nº 8904, o Distrito da Lunda passa a ter governo próprio, ficando então dividido em 2 concelhos, (Saurimo e Chitato) e em três circunscrições (Camuxilo, Cassai-Sul e Minungo); enfim, mas não finalmente, o Diplomas Legislativo Nº2757, de 28 de Maio de 1956 eleva a vila de Henrique de Carvalho à categoria de CIDADE, como Sede do distrito da Lunda.

Seguem-se naturalmente toda uma outra série de decisões político-administrativas, estabelecendo-se assim, pouco a pouco, a configuração que subsistirá até à data da nossa Dipanda, em 1975.

Quanto ao tratado assinado a 18 de Janeiro de 1885, pelo qual “O Muataiânvua e a sua corte bem como os herdeiros dos actuais potentados, declararam: que nunca reconhecerão a soberania senão de Portugal, sob o protectorado do qual há muito seus avós collocaram todos os territórios por elles governados e constituem o Estado de Luanda, esse nunca foi revogado nem posto em causa.

O que de menos se pode exigir do “governo do Futungo é que se entabulem diálogos construtivos a propósito das características particulares da identidade, ANGOLANA, dos Tchokwe.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Escândalo na UGP


As tropelias que se constatam no desempenho de dirigentes responsáveis de quase todas as áreas de administração, jurisdição e trabalho dos diferenciados aparelhos do Estado angolano são em geral visíveis a olho nu. Tanto, que de algumas delas, das tropelias, se poderia dizer que são propositadamente executadas como que para permitir aos seus executores mostrar ao restante povo de Angola que eles fazem parte da elite, da categoria de personalidades “não-humanas” e estão realmente acima de tudo, de todos e de todas as leis e regulamentos.

Mas também existem atropelos e entorses à legislação em vigor que não são visíveis, que escapam aos olhares mais atentos e críticos, como o nosso, que, ao nos integrarmos no que se costuma chamar o 4º poder do Estado, para além do Executivo1, do Executivo 2 e do Executivo 3, por mais esforços que façamos não os conseguimos detectar.

Esses deslizes, por vezes gravíssimos, são os que se encontram ao abrigo dos olhos mais abertos e das orelhas mais indiscretas, são os que estão, como se costuma dizer, no “Segredo dos “deuses”, e acontece que um desses Segredos foi abalroado por uma das nossas fontes mais perspicazes, que nos revelou o que não poderíamos aceitar como sendo possível, não fosse tão fidedigna a personalidade que nos deu a informação do que quase se poderia designar como um “estapafúrdio” caso.

De facto, pensemos bem, quem acreditaria que na super divisão militar denominada Unidade da Guarda Presidencial (UGP), vocacionada e treinada até à exaustão para a protecção física de Sua Excia. O Presidente da República, nesse corpo de elite responsável pela segurança do Palácio Presidencial e da família Dos Santos no seu todo, reina em permanência um ambiente, não diremos descontraído, não é isso, mas pouco formal? E a expressão “pouco formal” é um eufemismo que esconde outra realidade, mais inquietante essa, porque se por aí ficarmos, pela realidade, o que se passa é de certo modo aterrador.

Ao dizermos “aterrador” referimo-nos ao tratamento desleixado que recompensa o trabalho desses servidores do Estado. Queremos dizer que, à qualidade que se deve exigir do serviço prestado por esses centuriões modernos, deveria corresponder um tratamento “especial”. Ora o que acontece está longe, muito longe das nossas expectativas, como vamos ver.

Partindo do princípio de que é impossível esses militares de primeira água terem a mínima possibilidade de executar defeituosamente o seu trabalho, estamos em crer não cometer um erro de premissa que poderia falsear a nossa análise.

Claro que não, pois toda a gente está ao corrente da abnegação e dedicação desses homens à causa patriótica que abraçaram: defender o chefe supremo e a Pátria. Tirando alguns excessos, não só de zelo, mas também de fervor, ou de nervosismo exagerado, certo é que temos de lamentar alguns mortos no decorrer de saídas à rua do presidente da República e da habitual caravana de viaturas que o acompanha, temos o caso “Cherokee” e outras infelicidades, mas o tudo conta-se pelo dedos das mãos. Tudo acidentes.

Orgulho da Nação
A UGP é indiscutivelmente uma unidade de elite, uma brigada de luxo que nos é invejada por todos os países de África e mesmo para além das fronteiras do continente. Por que razão então não estará em consonância com os seus pergaminhos o tratamento que lhes é dado?

Dizer que o mal começa pelas negligências evidenciadas pela própria Casa Militar da Presidência da República, poderia criar um equívoco que gostaríamos de evitar, porque já estamos a ver daqui que nos vão acusar de incitamento à revolta do mais temido destacamento militar de Angola. Portanto, vamos retroceder e aceitar que a culpa não é de ninguém.

Esse retrocesso, porém, não impede que gostaríamos que nos dissessem por que razão os militares que guardam presidente da República não têm documentos. Sim, sim, os estimados leitores leram bem, a UGP tem nos seus quadros milhares de militares sem qualquer tipo de documento.

Não nos seria de todo desagradável arriscar que nos mentissem ao tentar explicar por que raio de cargas d’água esses soldados, capazes de dar a vida pela Pátria, não beneficiam de quartel general em condições, não dispõem de casernas bem mobiladas, com beliches confortáveis e uma ração de combate bem confeccionada. Muitos dormem ao relento, ao que parece.

Enfim, compreendemos mal como é possível num país independente há mais de 32 anos ainda termos que viver esta situação, ver como são tratados “ao deus dará” os homens que protegem o presidente da República. Homens que vêm de longe, do Cunene, da Huíla e do Kuando Kubango, a maior parte deles com poucas letras, isto para nos contentarmos com eufemismos. Chegam à capital, indefesos face aos espertalhões de Luanda, e não vêem que o tratamento de que são objecto é semelhante ao que é dado a pessoas sem eira nem beira, a ponto de se ter chegado ao cúmulo de os salários lhes serem pagos debaixo das árvores, sem assinarem recibos, mas com descontos que devem ir direito para os bolsos dos chefes.

O mal todo é que isso configura não só um crime como um atentado à dignidade humana. E, precisamente porque não queremos incitar à subversão, pedimos que algo seja feito por eles, para que se evitem esses momentos de grande estupefacção do momento que estes homens queiram criar o descontentamento na tropa, e criarem um estado de ânimo capaz de lhes dar vontade de desleixar as suas responsabilidades.