sábado, 24 de julho de 2010

Estranha constatação do embaixador americano em Luanda. Petróleo e diamantes transformam corrupção e ditadura em democracia


Antes de o nosso estimado leitor ler este artigo, aconselhamo-lo a dar uma vista de olhos a um outro trabalho nosso sobre um julgamento de valor da nossa actual Constituição Presidencialista- Par(a)lamentar. Se nesse caso de figura fizemos um retrato em tons pastel de um “desencontro” que de relevante apenas tem o facto de denunciarmos uma situação em que, mais uma vez nos encontramos diante do mais puro cinismo, neste artigo pintamos o retrato com cores mais vivas.

A democracia viu os seus primeiros dias de entrada na vida da “cité”, urbe, em Atenas, na Grécia, há coisa de 1500 anos atrás. Os países do Ocidente, a começar pelos da bacia do mar Mediterrâneo, depositaram o label da sua invenção, e, depois de muitas aventuras e desventuras, a partir de meados do século XX, tentaram e conseguiram exportar essa ideia de governação para todo o resto do mundo.
Mas nos dias que correm, o Ocidente, de acordo com os seus interesses, subverte as bases da democracia, e se os fundadores gregos ressuscitassem teriam um ataque cardíaco ao constatar com horror o que se passa nas modernas experiências democráticas, onde apenas subsistem resquícios da velha ideia mestra de governo do povo pelo povo.

O problema é que os primeiros e principais agentes dessa deterioração dos princípios democráticos são os próprios países do Ocidente, a começar pela Inglaterra, que, depois de ter sido pioneira na propagação de valores democráticos (vide Habeas Corpus, 1279), não se inibiu, na esteira de Portugueses e Espanhóis, de invadir todos os oceanos do globo terrestre numa busca desenfreada de saques de bens preciosos, destruições, resgates, escravização de autóctones e outros delitos graves em plena e total impunidade e para exclusivo proveito próprio.
Neste artigo vamos dar um pequeno exemplo do cinismo descarado de um responsável americano, o embaixador americano, Dan Mozena, que acabou há pouco tempo o seu mandato de representante dos Estados Unidos da América no nosso país.

Esse homem, afável e simpático, manifestamente amigo de Angola, diz a quem o quiser ouvir que existe no nosso país democracia, mas em cima de uma montanha de corrupção institucional. Que há muitos progressos, suave eufemismo, a fazer. Mas como enquanto o poder angolano continuar a garantir petróleo e diamantes, mesmo violando os direitos humanos e subvertendo tudo não há alma viva que lhe impeça de continuar a vestir o seu casaco da democracia, vimo-lo a ir de empreitada alegre até Lisboa, adivinhem para quê… não vale a pena eu vou dizer, a fim de propor às autoridades portuguesas um reforçar de atenções e de intenções vis a vis das imensas potencialidades da Angola.

O homem, não tem papas na língua e não se fartou de dar garantias de que aquele país (Angola) tem um grande potencial de investimento e incentivou as empresas norte-americanas a apostarem em Luanda, mas, para não ter de ir directamente para o Inferno e poder estacionar no purgatório, alertou para a corrupção existente. E revelou a sua genial ideia, “Angola tem muitas oportunidades para os investimentos norte-americanos e uma parceria entre Estados Unidos e Portugal pode abrir portas aos negócios no país”, sublinhou o diplomata.

Dan Mozena falava na sessão de abertura do “Access África Fórum”, que decorreu no passado dia 15.06 e verá o seu termo na quinta-feira, 17.06, em Lisboa.
No entanto, o embaixador norte-americano frisou que Angola “é mais do que petróleo e gás” e nomeou a construção civil, reciclagem e energia como sectores em expansão. “Há grandes oportunidades e os Estados Unidos estão a perder o barco”, alertou, acrescentando que “o Governo angolano quer diversificar a economia para além do petróleo e do gás”.

O diplomata referiu ainda que, a par da Nigéria e da África do Sul, Angola é “um dos três principais parceiros estratégicos dos Estados Unidos em África”, mas, honesto, alertou que investir em Angola é uma tarefa difícil que requer “paciência e empenho”, na medida em que é por vezes muito difícil “(…) arranjar visto e um quarto de hotel e a corrupção é real e é um desafio, mas as empresas norte-americanas podem e devem competir”, sublinhou. E para ele, para escolha desse parceiro, “(…) quem melhor do que Portugal, que conhece a língua e a cultura”, questionou. Nestas e noutras, o diplomata destacou ainda que a paz e estabilidade alcançadas no país após a guerra civil são fundamentais para o investimento estrangeiro.

O “Busilis” da questão
Diz-se “busílis”, o ponto mais delicado, mais difícil de ultrapassar na resolução de um problema ou na ultrapassagem de uma situação crítica. E aí, Dan Mozena multiplicou os arabescos à volta do inevitável tema da corrupção, que ele próprio, diga-se, tinha levantado. E a esse propósito disse que em Angola a embaixada norte-americana está a trabalhar com o Governo angolano e com a sociedade civil para melhorar a situação. “O Presidente está a liderar o programa Tolerância Zero à corrupção e estamos a colaborar com ele”, afirmou.

Infelizmente, o diplomata, que sabe que esse programa é uma “chuchadeira”, não revelou de que maneira o PR angolano procedia a esse árduo combate, nem que tipo de colaboração se poderia esperar da parte dos serviços americanos, quiçá de Inteligência Externa dos USA. E se não disse foi porque, primeiro, isso não são coisas que se digam, segundo, como não há nada a fazer nesse sentido, a luta nem sentido tem, portanto, também não há nada a dizer. De facto, não há nada a fazer, a luta está definitivamente votada a um fracasso impecável, sem falhas, e daqui até podemos imaginar de que modo o PR vai destapar, denunciar e castigar todas as vigarices cometidas pelos “Novos Ricos” angolanos, todos eles do seu naipe de Ases. E daqui até adivinhamos a presença discreta de agentes da CIA a ajudar JES a perseguir os seus “kambas”… Brincadeira de diplomata, que incita os seus compatriotas a investir num país onde a corrupção é uma instituição segundo as suas próprias palavras, onde os preços são exorbitantes, onde os vistos são um tormento, onde se prendem pessoas por motivos de opinião, e onde não há lei nem grei que se respeite, a não ser se ela é defendida pelo regime instaurado. Triste.

Pois é, a especulação também não obedece a lei nem grei que se veja e Dan Mozena depressa mudou de assunto, preferindo salientar que promover o ensino da língua inglesa é uma ideia do Presidente da República e de outros líderes angolanos.
Tinha que ser de JES. Porque se não fosse ele, não poderia ser de mais ninguém!
O “Access África Fórum” é organizado pela embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, pela Câmara de Comércio Norte-Americana em Portugal e pelas Câmaras de Comércio Portugal-Angola, Portugal-Cabo Verde e Portugal-Moçambique.
O fórum pretende fomentar os laços comerciais entre os Estados Unidos e os PALOP, aproveitando Portugal e as suas ligações empresariais como plataforma para parcerias empresariais tripartidas.

Imagem: bbc.co.uk

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Dois textos do futuro livro de Domingos da Cruz


PREFÁCIO
O homem
Como era seu hábito quando a vida lhe corria bem, quero dizer, quando o seu “faro” de caçador de talentos o tinha levado a descobrir um deles, nesse dia de Maio de 2007, ou fins de Abril, já não me lembro, o Nvunda Tonet, editor cultura do Folha 8, apresentou-se na redacção do jornal feliz da vida e sorriso irradiante, a abrir alas. “Tisetas, tenho aqui uns textos que lhe vão interessar. Depois diga-me só o que pensa”, e passou-me umas folhas A4, que eu, na minha endémica distracção, recebi sem ter percebido grande coisa do que ele tinha dito. Meti o molho de folhas na minha pasta, disse, “Sim, sim” e esqueci. No dia seguinte, já muito a leste da mensagem do Nvunda, dei de chofre com as ditas A4, soltei uns sussurros de contrariedade por ter sido apanhado em flagrante delito de desleixo, e, depois duma breve luta entre a minha preguiça e o dever, este último, dessa vez lá acabou por vencer e comecei então a ler os tais textos interessantes. Li um, li dois, e já não sei aos quantos dei com um artigo intitulado “Proposta para uma nova democracia em Angola e em África”.

Nem acabei de ler, não pude, pois logo quis saber quem o tinha escrito. Não por patentear um tratamento de texto exemplar, havia por ali umas “coisinhas”, a fazer lembrar o conhecido refrão, “texto sem gralhas é como gaiola sem passarinhos”, mas a estrutura e a ideia mestra, sobretudo esta última, fez-me pensar, vejam só, numa das descobertas mais importantes do Homo Sapiens, o ovo de Colombo, ou, mais prosaicamente, naquela estória das bicicletas e do passador de bicicletas, que durante anos passava todos os dias pela alfândega de bicicleta com um caixote cheio de areia que muito intrigava os polícias, pois nunca conseguiram nele descobrir fosse o que fosse a não ser areia, quando, de facto, o tráfico do homenzinho era de bicicletas!

Por vezes a evidência que salta aos olhos, ninguém a consegue ver!
O texto em questão tinha esse condão de revelar um pensamento evidente perante um facto que está à vista de toda a gente, mas que ninguém ainda tinha abordado da maneira como o seu autor o fazia, ali, diante dos meus olhos. E o autor era o que hoje é um amigo precioso, o “Manhinho”, Domingos da Cruz.
O assunto tratado nesse artigo referia-se ao regime democrático em geral e ao direito de voto das populações rurais em particular, nessas terras esquecidas onde o analfabetismo atinge os píncaros dos noventa por cento. E o Domingos, questionava: «Neste contexto colocamos a seguinte questão. A África recebe as heranças do ocidente de forma livre ou será que ela lhe é imposta?(…) Por causa da imaturidade política e intelectual dos Africanos/Angolanos, eu penso que a participação nos escrutínios não deve depender da idade, mas sim do nível académico. Esta proposta exime-se de qualquer intenção exclusivista.»

O Domingos da Cruz: profundamente religioso (sempre frequentou escolas católicas), conservador no que toca à sexualidade, como ele próprio se situa, fiel à sua noiva (“amo-a profundamente, sou fiel e gostaria de manter esta postura com a ajuda de Deus e da Consciência”), espécimen em vias de desaparecimento, portanto, com 26 anos de idade, nascido a 28.01.84 em Malanje, hoje, senhor duma graduação em Filosofia e Pedagogia terminadas no ano passado, a fazer Mestrado no Brasil, em Ciências jurídicas, especialidade em Direitos Humanos, é já uma referência no complexo tabuleiro intelectual angolano. Pelo seu talento. Unicamente por causa disso.

O livro
O artigo a que me referi foi publicado no Folhinha em Maio de 2007, saiu na semana em que se comemora o dia de África. E desde essa data, o “Maninho” faz parte da minha família (intelectual), embora eu não seja religioso, nem puritano, nem conservador, nem tão-pouco senhor de umas estrutura mental tão elaborada como a sua, quero dizer, não tenho espírito científico. Ele tem.
Também acontece, naturalmente, eu não estar de acordo com certas ideias do Domingos da Cruz, mas a verdade é que admiro a sua maestria na defesa de alguns conceitos que, na minha opinião, são indefensáveis. Por exemplo, no que toca à infalibilidade do Papa, peço desculpa, vem-me de chofre ao pensamento a minha avó, infalivelmente morta, e, portanto, hoje infalível. Pois o Domingos conseguiu levar-me a ler de fio a pavio a sua defesa deste (pré) conceito, quando normalmente, em textos desse tipo, depois de lidas as primeiras palavras, procuro o ponto final final, anunciando passagem a um outro assunto.
Sexualidade. Também não estou de acordo. Gostos e cores não se discutem. Juntemos-lhes a sexualidade.
Em “A Igreja vendeu a alma ao Diabo”, “mo Maninho”, a meu ver, empurrou a “mosca” longe demais, sobretudo depois de já ter falado das “Prostitutas da igreja”. Mas, ao mesmo tempo, levantou uma “lebre”, que todos pensavam ser um “coelhinho” exemplar, familiar muito próximo de todas as virtudes: a Rádio Ecclesia.

Neste trabalho que prefacio, impõe-se-me pois dizer que no capítulo consagrado às tentações de piedosos curas, “derrepentemente” amicíssimos do partido maioritário, sente-se da parte do Domingos da Cruz uma indignação que é tanto maior quanto é grande a sua aderência aos princípios da doutrina católica. E que lemos então? Lemos primeiro um desfilar de relatos de desmandos, falcatruas, viradelas de casaca e ditos bajuladores, isto sem falar dos pecados de piedosos pedófilos e coisas assim. E, por trás dessas denúncias de factos, não de mujimbos, perfila-se uma imagem inédita da nossa Rádio Ecclesia. Entre outros desvios, ela lança o ostracismo ao Folha 8, o qual passou a ser interdito de acesso à divulgação dos seus temas semanais na Revista de Imprensa das matinas de sábado, sanção seguida do corte integral de alusões aos seus títulos de capa no programa do Justino Pinto de Andrade de segunda-feira às 8 horas e meia. Decisão infeliz. Pueril.
Esta emenda, creio eu, é muito pior do que o soneto, pois o que a Ecclesia estipula como sendo prática a seguir, e segue, é o que ela denuncia (va) como doença do partido no poder. Comenta nas entrelinhas, bloqueia o acesso a todas as suas tribunas ao denunciador de factos indesmentíveis e promove uma espécie de autismo que pouco tem a ver com a sua tradicional abertura. Passemos adiante.

À parte estes items, neste seu trabalho, Da Cruz aborda outras questões históricas e da actualidade, polémicas ou não, como o “maquiavelismo” de José Eduardo dos Santos, as incongruências da paz em Angola, os excessos de linguagem e das seitas religiosas (prostitutas da igreja), o conflito em Cabinda, o aborto, a última campanha eleitoral do MPLA, que ele compara com a conquista dos favores de uma moça por um homem mal intencionado que apenas deseja levá-la ao coito (!!), o panafricanismo, as makas, ou melhor, a “apreciação textual sobre crítica da crítica de Batsikama”, o seu encontro com Rafael Marques e outras matérias que lhe agitam a mente. Leiam.
António Setas

Angola: a ortodoxia da "real politike" de Maquiavel

Tudo o que fazemos, está muitas vezes profundamente impregnado de modelos – ético, político, religioso, desportivo, económico, etc. – é o mal é que, muitas vezes, não questionamos aquilo que seguimos como referência. Uma das consequências lógicas da adopção de um modelo sem questionar é: praticar as incoerências internas e externas do modelo (os erros, as insuficiências). Mas é importante referir que muitas vezes defendemos determinados modelos não pelo facto de serem certos ou eticamente aceitáveis, mas porque vão de acordo com os nossos objectivos, caprichos pessoais ou grupocêntricos, mesmo conhecendo profundamente as misérias éticas e desumanas que o referencial carrega!
Em muitas nações africanas, a prática da arte de governar, reduz-se a "estratégia de manutenção do poder", ou seja, nada é feito que não tenha como alvo a permanência no poder, independentemente dos estragos que vai causar. Neste exacto momento, o meu espírito recai para Angola, que é um "modelo acabado no exercício de manutenção do poder" por parte do grupo dominante desde que este país conseguiu a independência política.

Esta forma de entender o exercício político como luta selvática pelo poder, poder pelo poder desmedido, foi proposto por um politólogo e primeiro sistematizador da política na época moderna: Nicolau Maquiavel. A sua visão política foi apresentada por meio das obras "O Príncipe" (esta é a mais conhecida) e "Os Discursos".
Para que compreendamos se existe ou não correspondência entre a visão de Maquiavel e a realidade angolana, metodologicamente, convém apresentar o pensamento do nosso autor de maneira a que tenhamos um ângulo comparativo.
Diferente de Platão, Aristóteles e Thomas Morus, que idealizam a política, criaram princípios por meio dos quais o governante deve guiar o seu agir político, Maquiavel começa de baixo, ou seja, o agir político é circunstancial, não tem nada a ver com princípios e regras doutrinais preestabelecidas a seguir, mas depende da realidade prática, dai o famoso conceito de "Real Politike" que significa: a política tem a ver com a experiência diária. De acordo com esta concepção, se for necessário matar para atingir os meus intentos devo matar sem problemas, nem qualquer sino consciencial. Porém, a política de Maquiavel depende das circunstâncias reais da sociedade.

A política de Maquiavel é sustentada por uma visão antropológica pessimista (negativista) com consequências éticas graves. Esta visão antropológica, vê o homem como um ser de todo corrompido, mau, com ferocidade superior à dos animais e que por isso, não é capaz de fazer o bem nem ver bem o outro. Para Maquiavel, a alteridade e a ética da intersubjectividade não existem, não valem. Portanto, se o homem é de todo mau, então o governante deve ser terror, fazer-se temer para proteger o poder que nunca deve ser deixado a outrém.
Ele entende o poder como um privilégio dos fortes e quando conquistado deve mantê-lo até à morte. Para além da força coerciva do Estado, existe um outro instrumento para aplacar a ferocidade natural dos homens: a religião. (Não é por acaso que Marx afirmava erradamente que a religião é o “ópio do povo”.) Para Nicolau Maquiavel, a religião deve ser promovida pelo presidente (naquela altura era Rei), para poder acabar com a ferocidade natural dos homens, do povo que o pode contestar. Na visão de Maquiavel, a religião tem como fim último, a defesa dos interesses do Estado e do Presidente e não a humanização da sociedade e a relação do homem com uma Instância Superior.

Para ele, o rei deve ser mau, não se deve preocupar com o bem comum, os direitos humanos (claro que na altura não se falava do conceito de direitos humanos como contemporaneamente), isso não tem importância no exercício da arte de governar. Vejamos, se no pilar dos direitos, a educação é um direito fundamental, para Maquiavel este direito não deve ser promovido nunca, sob pena de pôr em perigo o poder, porque um povo não escolarizado é fácil de domar. De acordo com alguns estudiosos do pensamento político de Maquiavel, ele tem também uma concepção psicológica do sofrimento (estímulo-resposta) interessante, ao afirmar que "uma das formas de fazer com que o povo ame o Presidente é fazê-lo sofrer na carne, no osso e no espírito. Entrando neste ciclo, o povo aceita essa realidade como sendo natural e passa a amá-lo cada vez mais. Imaginem um povo analfabeto, que não tem capacidade sequer de comparar as diferentes realidades, daí que possa ficar no "eterno retorno ao sofrimento", como em Angola, o ano vai, outro vem, o sofrimento similar prevalece e os "preservativos eleitorais"(o povo – ver explicação mais adiante), não questionam, por exemplo, as faltas de água, luz, escola, emprego, etc..

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sócios do Hotel Mundial podem ser acusados do crime de homicídio








Prejuízos causados à Mundovídeo ao longo destes mais de 11 anos se podem calcular em cerca de um milhão de dólares

Vivemos num país em que se continuam a cometer violências e abusos de toda a ordem sem que se faça justiça, o que leva mais uma vez o Folha8 a bater nessa tecla, por ser testemunha directa de uma série de abusos cometidos pela direcção do Hotel Mundial, não só no que diz respeito a trabalhos que essa “casa” foi fazendo ao fio do tempo nas suas instalações, (que à parte a poluição sonora causada pelas máquinas em funcionamento chegaram a causar prejuízos avultados a apartamentos limítrofes do Hotel), mas também na maneira como a sua direcção trata os litígios que nascem por causa desses abusos.

Casos há em que por motivos de ruptura de canalizações alguns apartamentos vizinhos do Mundial sofram as desagradáveis consequências de fugas de o seu espaço invadido por líquidos provenientes dessas fugas, líquidos dificilmente identificáveis mas de origem duvidosa pelo odor que propagam. Protestos chegaram a ser apresentados à direcção do hotel e até à data, nada. Que se saiba nenhuma das pessoas ou entidades que reclamaram e exigiram reparação dos prejuízos causados pelas obras empreendidas pelo Mundial tiveram direito a uma resposta, digamos, uma manifestação de boa educação, e muito menos, claro está, a condizer com o esmero do gesto e a gentileza da palavra, que deveria ser o apanágio do Hotel Mundial, por ser um estabelecimento de renome no ramo hoteleiro.

Assinale-se que, no que diz respeito ao Folha 8, o tratamento do contencioso continua a navegar de velas pandas em águas mortas e não há vento que faça avançar a galera da justiça a fim de ser resposta uma certa conformidade com a lei.

A verdade é que os danos sofridos pelo nosso Bissemanário foram muito avultados e geraram de resto uma paralisia da firma Mundo-Video, que rapidamente se transformou em encerramento definitivo de todas as suas actividades comerciais, em virtude de os danos causados à dispendiosa maquinaria da firma serem irreparáveis.
Pela mesma ocasião, foram parar ao chamado “olho da rua” doze funcionários, junte-se a isso os prejuízos causados pelas águas nas estruturas do apartamento e torna-se evidente que era preciso responsabilizar alguém por tanta desgraça ocorrida em tão pouco tempo.

Pouco tempo é uma maneira de falar e refere-se ao espaço de tempo que duraram as obras do Hotel Mundial, causadoras de todos esses dissabores. Porque no que diz respeito à duração deste caso é bom salientar que já lá vão uns bons 11 anos e o litígio ainda não está resolvido.
Num primeiro tempo, a Mundovídeo impugnou o Hotel Mundial, mas logo a seguir retirou a sua queixa depois de ter chegado a um consenso com os administradores do Hotel. Mas nada aconteceu de bom pois os compromissos assumidos durante as negociações entre as duas partes nunca foram cumpridos por parte do Hotel Mundial.

Em finais de 2007, por ocasião do funeral de Holden Roberto, o director William Tonet entabulou conversações com o senhor ministro da Justiça, Manuel Aragão, proprietário do Hotel Mundial, a fim de se chegar a um acordo para dirimir o contencioso. Aparentemente parecia ter sido encontrado um terreno de entendimento, mas o senhor ministro, talvez influenciado pelos demais sócios, não deu seguimento ao que tinha sido programado e o caso continua estagnado.

Curiosa atitude por parte de altos responsáveis políticos-empresários! Curiosa e aparentemente irresponsável, quando se sabe que os prejuízos causados à Mundovídeo ao longo destes mais de 11 anos se podem calcular em cerca de um milhão de dólares, não só em danos no próprio imóvel, mas também em danos do material com a destruição de muita aparelhagem electrónica, não obstante todos os esforços feitos pelos advogados da Mundovídeo a fim de se poder chegar a um consenso e uma resolução amigável deste caso.
Ultimamante a situação piorou, agora é demais, a inundação é a rios, e neste dia de fecho do nosso jornal, o nosso director ia morrendo electrocutado em virtude de as águas terem invadido todos os rincões do seu gabinete de trabalho.

Perante tal situação e em função de um procedimento inadmissível por parte dos responsáveis do Hotel Mundial, quase do foro da provocação, não se quedando muito longe de esses senhores poderem ser impugnados por intenções assassinas, ou, no melhor dos casos, totalmente irresponsáveis, a única alternativa que resta à Mundovúdeo é, através do seu advogado, Dr. Sérgio Raimundo, levar o caso à barra do tribunal o mais rapidamente possível, dispensando qualquer outra forma de entendimento, se a esta derradeira chamada de atenção, por via deste artigo, o Hotel Mundial se acantonar no seu habitual silêncio, eivado de desprezo e arrogância de um faustoso cego, surdo e mudo.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Investigação da Procuradoria da República confirma. Angola é uma República das Bananas


William Tonet&Arlindo Santana

Quando um simples guarda do Banco Central, consegue montar uma engenharia capaz de desencaminhar mais de 100 milhões de dólares é porque não temos um verdadeiro BNA, como guardião da política monetária, mas uma porta escancarada que não credibiliza o país e os investidores estrangeiros. Como então, encontrar razões para confiar dinheiro a um banco desta natureza?

Já não vale a pena perguntar para onde vai a nossa justiça, pois nem sequer se sabe onde ela está. Será que existe? Se existe só se for no domínio fantasioso das boas intenções, na medida em que, lamentavelmente, depois de a sua direcção ter sido confiada a pessoas sem as requeridas qualificações, o resultado é esse, o seu misterioso desaparecimento, deixando na sua esteira alguns indícios reconfortantes da sua possível existência.

Exemplos desta asserção estão por aí, à mão de semear. E, para nos referirmos apenas a um dos últimos desastres judiciários e jurisdicionais, temos o caso do escandaloso desfalque de mais de cem milhões do Banco Nacional de Angola (BNA).

Para começar, não se entende como é que o supremo órgão fiscalizador da legalidade, no caso do nosso país a Procuradoria Geral da República (PGR) liderada pelo General João Maria, coadjuvado por muitos outros militares na qualidade de Adjuntos – indício claríssimo da tendência para a militarização desse órgão em prejuízo do mérito profissional e da legalidade -, como é que este órgão, questionávamos, é o primeiro a violar não só a nova Constituição em vigor desde Fevereiro, como a mais que rebatida lei da prisão preventiva em instrução preparatória, mais concreta e respectivamente, os artigos 63º, 64º, 67º e 72º, da Lei Magna e 25º e 26º, da Lei nº18-A/92, de 17 de Julho.

A prova do que acima aferimos, resulta do facto de este órgão ter vindo a público na última semana, em forma de campanha publicitária, divulgar números e nomes das pessoas constituídas arguidas nesses famosos processos do B.N.A., numa autêntica violação do princípio da igualdade, consagrado no artigo 23º, da Constituição e do princípio da presunção da inocência, vide artigo 67º, nº2 do diploma supra mencionado, utilizado pelo mesmo órgão, anteriormente, como fundamento para não divulgar os nomes até aí desconhecidos, aquando do inquérito sobre a corrupção na justiça, esquecendo-se, no entanto, de referir a questão mais importante, que é o facto de muitos destes “pacatos” cidadãos se encontrarem, ilegalmente, há mais de 135 dias privados de liberdade que é o prazo máximo admissível pela Lei nº18-A/92, de 17 de Julho, mais concretamente, nos seus artigos 25º e 26º, numa flagrante violação de direitos fundamentais com dignidade constitucional.

Esta salada jurisdicional, ou melhor, estas saladas, ali a esconder o “Peixe Grosso”, aqui a denunciar o “Kabuenho”, não passam de uma operação de “lavagem e branqueamento” da imagem de certas pessoas bem posicionadas no regime, que diariamente se apoderam de forma ilícita do erário público. De facto, estes coitados que estão agora a ser exibidos como troféus da P.G.R., não têm de modo algum possibilidades de realizar transferência de tão avultadas somas em divisas para o exterior do país. Isso não poder ser, é impossível. E se fosse ainda seria pior.

Pior porque então o Estado, na veste da P.G.R., deveria ficar bem calado, a fim de evitar assinar um verdadeiro certificado de incompetência das pessoas que estão à frente deste país, atribuindo-lhes o estatuto de “prestidigitadores” duma espécie de Circo Mariano duma sinistra República das Bananas, cuja gestão estaria confiada a instituições tão frágeis que um simples trabalhador de base, ou se quiserem, um simples trabalhador de limpeza é capaz de transferir nas calmas milhões de dólares para o exterior do país. Não pode ser…

Meus senhores, deixem de nos tratar como se fôssemos parvos, pois, com esta operação de charme, o que se pretende é atirarem-nos areia na cara para nos cegarem, para sempre e melhor continuarem a reinar. Mais um erro, pois isso nunca virá a acontecer.

Uma Procuradoria, dois pesos e duas medidas

Na sofreguidão de fazer justiça, a PGR, por um lado, remeteu apressadamente os processos do BNA ao Tribunal, quiçá para não assumir a vergonha de ser ela a decidir a soltura dos arguido, por outro, fontes dos familiares dos detidos confidenciaram ao Folha-8 que não compreendem como é que o senhor General João Maria, antes de enviar os processos do desfalque do BNA para despacho, se preocupou sobremaneira em mandar soltar um seu parente de nome, porque tem um filho com a sua irmã, que também trabalha na P.G.R., no meio de uma situação em que muitos dos arguidos que se encontravam doentes, a coberto de relatórios médicos autênticos, pura e simplesmente foram ignorados e aos seus requerimentos nem sequer lhes foi dada qualquer resposta, quando a Constituição impõe às autoridades a obrigatoriedade de dar uma satisfação aos cidadãos requerentes.

Onde estará então a nossa justiça?...

Meus senhores, como dissemos de início, não se sabe para onde ela vai porque não sabemos onde ela pára. Ademais aos dois pesos e duas medidas aqui referenciados, não entendemos, até à data, por que razão estes processos foram instruídos no agora criado Departamento de Investigação e Instrução Processual da P.G.R., na medida em que este último foi criado não para investigar casos de pessoas sem patente, mas para tratar processos cujos arguidos têm foro pessoal, isto é, Deputados, Ministros e outros titulares de cargos de nomeação pelo Presidente da República e não funcionários de base. Curioso! Não será que a nossa Procuradoria-geral da República está desorientada porque nem sabe qual é a sua verdadeira função, passando assim a usurpar competências dos órgãos de investigação criminal? É mais um caso para o chefe do regime resolver, e com urgência, sob pena de em breve assistirmos ao falecimento do nosso nascente e lactente Estado Democrático e de Direito.

Imagem: culturaangolana.wordpress.com/

domingo, 4 de julho de 2010

So long Paulo, por ti choram os abutres


William Tonet & Arlindo Santana

Faz hoje exactamente uma semana - foi no dia 26.06.10 -, que faleceu, vítima de doença prolongada, o nacionalista angolano Paulo Teixeira Jorge, “o único dirigente do Bureau Político do MPLA sem negócio próprio”. Antes de ir mais longe, diga-se que esse predicado lhe valeu uma boa dose de animosidade camuflada no seio do partido, na medida em que o facto de ele não aceitar regalias sem nexo nem participar em golpes sujos de enriquecimento ilícito, suscitava o brotar de desconfianças mal camufladas por parte dos seus camaradas, que não tinham pejo em dizer entre eles que “o Paulo não é digno de confiança”, entendendo-se por aí que ele seria muito capaz de denunciar as tropelias cometidas de que se viesse a tomar conhecimento. Mais valia era evitar entrar em confidências de negociatas com ele.

Na prática, essa desconfiança incubada, e, como supracitado, mais ou menos camuflada, valeu-lhe pelo menos uma proposta de afastamento do partido, feita por uma designada “ corrente “conspiradora” que defendia a sua saída do “ÉME” pela porta do cavalo. JES recusou a sugestão, porque de facto admirava o homem, que conseguia ver nas situações mais difíceis, embrulhadas em nevoeiro espesso, saídas airosas e eficazes como se elas fossem de cristalina evidência.
A esse propósito, é de recordar a sua famosa entrevista a Manuel da Silva em meados da década de 1990, na TPA, a propósito da melhor maneira de o MPLA e o Governo de Luanda se oporem com eficácia às acometidas bélicas do Galo Negro. Nessa altura, a supremacia da UNITA no terreno parecia ser uma evidência e ainda não tinha chegado o tempo de aplicação de sanções E Paulo Jorge, numa frase, saiu-se com uma tirada comparável ao “Ovo de Colombo”, do grande navegador com o mesmo nome, ao serviço dos reis Católicos da Espanha. “É preciso isolá-lo”, disse ele, e explicou como, com aquela simplicidade do professor que revela ao aluno os mistérios das secantes, das parabólicas e dos logaritmos, finalmente tão acessíveis como o dois e dois são quatro!

Paulo Jorge… morreu não pobre, mas remediado. Nunca gostou de se meter em negócios. Segundo informações já divulgadas na imprensa, o seu “partido do coração”, e para ele o MPLA era sem tirar nem pôr só isso, achou por bem aqui há uns tempos atrás intervir financeiramente para reparar a sua casa. “Paulo, tu és figura alta do Estado, tens cuidar da tua imagem”!, diziam-lhe. Qual quê!, ao longo de toda a sua longa carreira sempre o vimos a guiar carripanas que nada tinham a ver com os luxuosíssimos jipões da maioria dos altos dignitários do Estado. A sua última Audi, já velhinha, “com uma pintura e uma revisão a fundo do motor, fica novinha em folha”, disse ele um dia ao seu amigo Fernando Teixeira “Baião”, que também já nos deixou, precisamente levado pela mesma doença que o vitimou.

A dignidade já não é o que era antes
A noção de dignidade faz parte das mais profundas e remotas incógnitas que existem e proliferam no seio da estrita comunidade dos homens políticos que se agitam nas mais altas e menos altas esferas do Estado.
Para efeitos de compreensão por parte dessas pessoas a que nos referimos como não fazendo a menor ideia do que é dignidade, tirando a que eles conceberam para uso e proveito pessoal, fabricada com vil metal e resquícios reciclados de ornamentos de fachadas mentais, relembremos-lhes que a expressão “ser digno” designa não só a verticalidade e o mérito assumido por tudo o que é executado, pronunciado e respeitado pelo detentor desse qualificativo, mas também a sua disponibilidade intelectual de reconhecer os seus erros.

Digno, portanto, é o homem, a entidade, a instituição, o Estado ou outra representação humana qualquer, que respeite a palavra dada, a promessa feita, os compromissos assumidos, as dívidas morais e materiais, a liberdade de outrem no seu senso mais alargado e tudo quanto se refira à harmonização do relacionamento entre humanos. Mas é, também, a capacidade e coragem de reconhecer os seus próprios erros e fazer, na vertical, o seu “mea culpa” Desgraçadamente, mais ou menos o contrário do que tantas e tantas vezes temos a infelicidade de presenciar no nosso país.

Este desabafo, virado para a noção de dignidade, vem a propósito de mais uma impensável manifestação de infantilismo político, obra de indivíduos indignos de figurar no evento aqui em foco, cinicamente organizado por eles em nome do misterioso conceito (para eles) de dignidade. Estamo-nos a referir à exagerada e empolada, não obstante ser justa, homenagem fúnebre ao camarada diplomata Paulo Jorge.
Mais uma vez os angolanos, sobretudo os que lutam realmente no terreno, todos os dias para que a anunciada e tão propalada reconciliação nacional seja um facto consumado, presenciaram com enorme surpresa a superlativa homenagem que o Estado angolano, por iniciativa do chefe do Executivo, consagrou a Paulo Jorge.
Ele, o Paulo, por ter sido um valioso patriota, teve direito a todas as honras, outros, tão valiosos como ele, mas do outro lado das trincheiras, nem sequer do nome se fala!

Ele, que era uma espécie de anomalia no meio dos anómalos, um filho legítimo do ideal do “ÉME” no meio de um ajuntamento de bastardos, servidores do Estado que não vêem no seus cargos que um instrumento para enriquecer rapidamente, ele, que mais não desejava do que ser útil longe dos holofotes de tudo quanto é mídia, que desde muito cedo se demarcou em sucessivas empreitadas ao abrigo de todas as funestas tendências apologistas da corrupção, ele, que, levado ontem para longe das luzes da ribalta, vemo-lo hoje, depois da sua morte, a ser incensado e levado aos píncaros da glorificação pessoal - doença endémica do nosso regime político -, numa grandiosa cerimónia fúnebre organizada por corruptos, inclusive por aqueles que tudo fizeram para o pôr no olho da rua, longe do MPLA, tirando raras excepções que se contam pelos dedos de uma mão e ainda sobram dedos, não era certamente isso que ele queria.

Paulo Jorge faleceu num sábado, e de domingo a quinta-feira da semana seguinte, foi levado, depois da sua morte, a protagonizar reportagens laudativas da sua pessoa, apresentadas em páginas inteiras no JA, durante manhãs inteiras, serões e telejornais inteiros na TPA, emissões inteiras na RNA, realizaram-se exéquias Nacionais, decretou-se feriado Nacional no dia 1º de Julho, pouco faltou para chamar o papa e beatificar o nosso bom Paulo Jorge!
O problema é que tudo isto cheira a espectáculo vazio de coerência.

Amigos e abutres, unânimes: “Um exemplo para todos nós”
Ao tempo da luta de libertação nacional, Paulo Jorge representou o MPLA em vários países (Egipto, Argélia, Congo, Cuba e Zâmbia). Foi secretario das Relações Exteriores no pós-independência e mais tarde ministro. Posteriormente exerceu o cargo de governador provincial em Benguela, sua terra natal. Em nenhum destes cargos ele se apropriou de projectos num primeiro tempo recusados para serem plagiados mais tarde, como tantas vezes fizeram os seus improvisados aduladores, nunca pela cabeça lhe passou receber comissões, e não tinha vergonha nenhuma de se apresentar dentro do partido, particularmente no seio do Bureau Político, como uma espécie de moralizador tão cinicamente respeitado como ignorado.Talvez seja por ele aparecer assim, como sendo um “santo” no meio de abutres, que estes, debruçados desde a Dipanda sobre a carcaça ferida duma Angola saída de várias guerras, choraram e continuam a dizer que choram a sua morte.

Imagem: http://www.portalangop.co.ao/




Ecclesia II


A viragem da Rádio Ecclesia começou muito claramente a fazer sentir-se após as eleições legislativas de 2008. Depois de ter mostrado cartão amarelo ao Folha 8, este bissemanário acabou por ser censurado e excluído dos seus programas de divulgação dos artigos da imprensa privada na segunda metade de 2009. Em finais do mesmo ano afastou o seu correspondente no Namibe, Armando Chicoca no seguimento de uma reclamação do Juiz do Namibe, Antonio Visandule, sem provas e feita por carta dirigida ao Bispo Dom Mateus Feliciano e ao Padre Mauricio Camuto. Este juiz está hoje envolvido até às orelhas num caso de falsificação de cheques.

Normal. Na altura, o director da Ecclesia deixou claro que se tratou apenas de uma suspensão. Até hoje… A reviravolta fez-se tão acentuada que suscitou uma observação de extrema gravidade por parte do Pe. Luis Comdjimbe. Numa conferência dedicada aos 50 anos da Rádio Ecclesia, o clérigo questionou, ou seja, pôs em dúvidas se de facto os bispos têm negociado mesmo a sério a expansão do sinal da rádio Ecclesia em todo céu de Angola. É que não se pode negar o facto de existir um famoso naipe de bispos que se opõem à expansão da rádio Ecclesia – D. Alexandre do Nascimento, D. Anastácio Kahango, D. Filomeno Vieira Dias e D. Óscar Braga – porque entendem que ela tem uma linha editorial que choca com o governo.

E o último bombo de festa do virar de casaca da rádio católica foi um dos seus mais conhecidos jornalistas, Tomás de Melo, que, pelo se diz, teria sido demasiado crítico segundo a opinião atribuída ao director da rádio, Padre Mauricio Camuto. Diz-se também que uma corrente de Bispos citados como “amigos do regime” teriam também se manifestado contra a postura do jornalista em deixar passar nos seus programas, criticas públicas sobre assuntos do Estado. Tudo isto é triste, não só porque há pelo meio muita injustiça, mas também porque todos os oprimidos da nossa terra, se sentem um pouco órfãos depois de terem perdido a tão carinhosa protecção da Rádio Ecclesia.

Ecclesia I


“Houve um período da nossa história (1975-2002) em que a Igreja teve um papel imprescindível em defesa do povo e no processo de democratização. Um período em que a Igreja manifestou de forma clara a sua missão profética.” Porém, depois de 2002 temos vindo a assistir a uma degradação permanente daquilo que é essencial e conatural na Igreja, a MORAL, e a vislumbrar a perca de valores e uma consequente desmoralização. Não vale a pena andar à procura do Diabo, a razão deve-se, pelo essencial, à diminuição substancial das doações externas para a Igreja, o que levou a Caritas e as Dioceses a terem graves dificuldade financeiras.

É claro que o grupo dominante não se coibiu de aproveitar este período de penúria financeira para se substituir aos doadores externos. Com uma ligeira diferença, é que este doador tinha por objectivo submeter a Igreja aos seus interesses. E, como azeite em água, mais tarde as coisas vieram à superfície. Soube-se que por via da Sonangol, o grupo dominante patrocinou a reabilitação de escolas, postos de saúde, pagou cerimónias festivas para ordenações episcopais, deu carros e outros bens aos bispos. E, no seguimento lógico desta aproximação, muitas Igrejas abriram os seus púlpitos para permitir que deputados do grupo dominante falassem aos fiéis. Isto sem falar do bispo do Cunene, Dom Kevano, presente na campanha do "M", sem esquecer o padre Apolónio Graciano, que chegou ao cúmulo de dizer nas suas homilias, dignas dum autêntico comissário politico do partido-Estado, que em Angola não há pobres porque as pessoas têm Rav4, telemóveis e parabólicas, e relembrando a inútil decisão da Rádio Ecclesia, ao proibir quenão consagrados na ordem comentem assuntos nos seus programas.

Mas a direcção da Rádio Ecclesia não se ficou por aí, também censurou o programa Discurso Directo, que devia transmitir, em reposição, extractos da comunicação feita por Marcolino Moco em Benguela e “deslocou o cientista político, Nelson Pestana Bonavena, quer dizer, expulso-o do Instituto Superior João Paulo II, pertencente à Igreja Católica pelo facto de ser uma personalidade crítica ao regime.

As vuvuzelas?... Fora dos estádios!


Mesmo no início do Mundial de “Foot”, no passado dia 16.06.10, o comentador da Rádio Luanda Antena Comercial (LAC), Conceição Gaspar, descaiu-se numa frase que exprimia o que talvez ele não pense, dizendo que as vuvuzelas eram um “bom instrumento de apoio às selecções”, acrescentando, “a todas as selecções, pois não só sul-africanos como todos os adeptos das outras selecções adoptaram essa trompeta”. Mais tarde e ao longo dos dias e semanas que se seguiram, muitas foram as figuras públicas que deram a sua opinião, e, naturalmente, ela variou de umas para as outras. Mais recentemente, contudo, parece ter-se feito uma espécie de consenso na aceitação e mesmo no elogio das vuvuzelas, a partir de um falacioso argumento: o Mundial é em África, os forasteiros que se adaptem ao que é africano.

Ah, não!, não estamos de acordo. As vuvuzelas, por mais africanas que sejam, são uma ameaça para a saúde pública (mais de 130 decibéis cada uma a massacrar as orelhas), transformam os cânticos e as ondas sonoras tão expressivas das falanges das equipas num zumbido ensurdecedor de abelhões machos e o estádio num inferno sonoro. A cada um a sua opinião, esta é a nossa.

Imagem: www.ekgoodies.nl/

Promessas leva-as o vento


A nova Constituição de Angola, dita “atípica”, ou Presidencialista-Par(a)lamentar, votada e aprovada pelo Parlamento no dia 10 de Fevereiro deste ano num precipitado aproveitamento das distracções e excitações causadas pelo afã da Copa de África das Nações, não trouxe só o que se pode considerar um retrocesso da sinuosa rota para a instalação de um regime democrático no nosso país, também causou alguns embaraços a um bom número de funcionários do Estado que até essa data estavam ao serviço do gabinete do primeiro-ministro, Paulo Cassoma.

E, diga-se, desta vez não se pode dizer que houve discriminação, todos eles, desde os do mais baixo escalão aos do topo da hierarquia foram postos no mesmo saco e tiveram que aguentar da mesma maneira o choque causado pelo “golpe de Estado jurisdicional” gizado nos ateliers do Futungo, tal como se pronunciou Marcolino Moco a propósito desta nova Constituição.

Vale a pena contar a história vivida por esses homens de carreira ao serviço do Estado no decorrer do colapso político que se seguiu à aprovação da Lei Magna, pois ela define bem a mentalidade vigente no seio das mais altas esferas do Estado, soberanamente desdenhosas dos direitos do pessoal subalterno ao seu serviço, melhor seria dizer seus súbditos.
O que aconteceu a essas pessoas, algumas delas de alta patente, de grau equivalente a directores ou quadros superiores, está ligado ao facto de o posto de primeiro-ministro ter sido abolido. Paulo Cassoma saiu, mas antes deu-se ao trabalho de explicar aos seus subalternos que o Governo tinha pensado neles. Ser-lhes-ia reservado um tratamento digno, pois estava previsto que eles seriam transferidos para postos equivalentes nos quadros de pessoal da Assembleia Nacional ou no gabinete do muito decorativo vice-presidente, para o qual tinha sido nomeado Fernando Dias dos Santos “Nandó”.

Portanto, parecia estar assegurado que nenhum desses funcionários iria para o desemprego, o que significava que, por uma vez, o Governo tinha tomado providências para salvaguardar o futuro dos seus fiéis servidores. Mas a verdade é que nada correu de feição e, passado algum tempo, o Dr. Beny veio a terreno comunicar aos interessados que o vice-presidente “Nandó” já estava servido de pessoal para o seu gabinete e que, como ele queria “tudo limpo (!)”, eles, os ex-funcionários do defunto gabinete do primeiro-ministro, não seria por muito tempo, teriam de ficar em casa. E o salário?... Não havia problema nenhum, o salário seria pago até se encontrar uma solução consentânea dos desideratos de ambas as partes.

Os funcionários acataram. Ficar em casa e receber salário não é assim tão mau como isso, pese embora o facto de não haver subsídios a arredondar os fins de mês e que, por outro lado, receber salário sem trabalhar não dignifica ninguém. Fosse assim ou assado, toda essa gente ficou à espera de melhores dias.

Isto passou-se em Fevereiro e até hoje não há ponta por onde pegar nesta situação. Ou pior, haver até há, é pô-los todos no olho da rua e o problema está resolvido. E segundo tudo leva a crer é exactamente isso que se está a preparar nas oficinas governamentais. Como o Sr. vice-ministro já procedeu à entronização de novos quadros, sendo a maioria capacitados para exercer funções de directores nacionais, não há lugar para ninguém e o que está previsto para breve é pura e simplesmente ter de se proceder a um corte do salário dessa gente que sempre acreditou no que afinal não passou de tretas e falsas promessas.

Imagem: quintasdedebate.blogspot.com

AKALESELA. Detective de Feitiços (5)


O Mistério do Prédio Enfeitiçado

Gil Gonçalves

Todos a roubaram-se e na feitiçaria a matarem-se, muito brevemente Angola como nação sucumbirá. Aliás já se nota a intolerância desses traços bem visíveis no desprezo que cada um retribui ao outro. A solidariedade desapareceu, evoluiu e actualmente substituiu-se pelo ódio mortal. Catalogado pelo menor motivo de qualquer episódio de feitiçaria. Até o negócio se diz que foi enfeitiçado. Quando não se consegue que o negócio ande, culpa-se a idosa mais próxima, porque foi ela que trocou uma nota de cinquenta kwanzas. E o MPLA já não governa, é a feitiçaria que o comanda. E ai de quem nela cair.

Ma Yuan prepara-se para sair. Akalesela faz-lhe um resumo final:
- Os corruptos e os espoliadores são louvados. Os que lutam e os que trabalham são desprezados. Os preguiçosos e medíocres espreitam a sua oportunidade. O meu pai ensinou-me para me afastar dos políticos e dos feiticeiros.
Ma Yuan já está na porta de saída, despede-se com malícia:
- Akalesela, sabes… és muito interessante.
Kakulu-Ka-Humbi perde a cabeça:
- O kamburi ketu kalê ni nzala. (O nosso carneirinho não está com fome)
Antes da porta se fechar, Ma Yuan vê uma tarântula a passear. Estremece:
- Ai meu Deus!

Akalesela sente-se animado com o primeiro cliente e trova para Kakulu-Ka-Humbi, gaba-lhe mais alguns atributos:
- Sois altiva e imponente como uma águia.
Ela sorri de satisfação. Caminha na direcção do alaúde, entrega-lho e suplica-lhe:
- Por favor, melodia-me a minha majestade.
Doce cavaleiro, as noites são longas
como este cavalgar de desgovernar tão longínquo
Já nada mais esperamos
desesperamos, nadamos nestes oceanos de feitiço
neles afogados, no refogado amor

Estás prisioneira na torre guardada por seculares guardas
e há quase meio século acorrentada
Sou fiel na tua espera, no sonho
doutro coração que é já teu
O cavaleiro eterno não sai do castelo do seu poder
Lá estão os nossos corações presos sem esperanças.

Ele deixou-se adormecer. Pouco depois acordou sobressaltado. Pediu-lhe socorro:
- Vai-lhes dizer para fazerem pouco barulho, que queremos dormir.
- Já lhes falei, e ainda fazem pior. Dançam como uma manada de elefantes furiosos. Acho que o tecto vai desabar.
- Vamos dormir no ginásio, naqueles dois colchões de espuma estreitos.
Ela lastima-se:
- Etu ki tu atu azediua etu. (nós não somos pessoas felizes)
Ele esmorece:
- A política e o poder são duas coisas que condizem muito bem a quem delas faz uso. Os políticos são muitos, a concorrência é elevada. E são sempre poucos os lugares vagos no poder.
Ela ouve barulho lá fora, espreita à porta da varanda e contenta-se:
- A única coisa que funciona até ao momento é o carro da recolha do lixo.
Akalesela levantou-se muito cedo, ela continuava a dormir. Bebeu café e foi para o computador. Colocou o CD da enciclopédia World Book da IBM. Procurou pela mitologia africana e elucidou-se:

Uma variedade larga de mitologias desenvolveu-se entre muitos povos que habitam na África a sul do Saara. Algumas destas mitologias são simples e primitivas. Outras são organizadas de modo complexo. A maioria dos povos africanos adora características proeminentes da natureza, como montanhas, rios, e o sol. A maioria destes povos acredita que quase tudo na natureza contém um espírito. Alguns espíritos são amigáveis, mas outros não são. Espíritos podem viver em animais, plantas, ou objectos inanimados. Os adoradores rezam ou oferecem presentes aos espíritos para ganharem o favor deles e obterem benefícios particulares.

As formas de adoração aos antepassados fazem parte de muitas mitologias africanas. Muitos africanos acreditam que depois da morte, as almas dos antepassados renascem em coisas vivas ou em objectos. Por exemplo, os Zulus recusam matar certos tipos de cobras porque eles acreditam que as almas dos antepassados vivem nelas. Os rituais mágicos têm um papel principal nas religiões tradicionais de África. Os feiticeiros têm grande influência entre muitos povos africanos porque se acredita que eles têm poderes mágicos. Muitos africanos usam encantamentos para se protegerem dos males.

De acordo com várias mitologias africanas, muitas divindades moram em casas temporárias na terra chamados fetiches. Fetiches variam de simples pedras a imagens esplendidamente esculpidas. Alguns grupos africanos acreditam que fetiches protegem-nos dos feitiços do mal e que lhes trazem sorte. Os Ashantis compõem o grupo nativo maior no Gana, um país pequeno na África ocidental. Em muitas formas, a mitologia dos Ashantis ilustra a mitologia africana em geral. Muitos Ashantis acreditam que um deus supremo chamado Nyame criou o universo. Nyame encabeça um grupo grande de divindades, em que a maioria descende dele. Algumas destas divindades servem como protectoras de aldeias específicas ou regiões. Outras representam características geográficas. Os Ashantis consideram os rios como a característica geográfica mais sagrada. Eles também associam muitas divindades com ocupações específicas e artes, como cultivar e trabalhar o metal.

Só entre as divindades dos Ashanti, à deusa da terra, falta um fetiche específico. Os Ashantis acreditam que a própria terra é o fetiche da deusa da terra. Um grupo de feiticeiros supervisiona a adoração de fetiches. Os Ashantis acreditam que os feiticeiros deles possuem certos poderes especiais. Por exemplo, de acordo com eles, os feiticeiros podem persuadir um fetiche para falar pelos lábios de um ser humano, um médium. Um feiticeiro normalmente serve como médium para o fetiche.
Entretanto, ela aproxima-se com alguma cerimónia:
- Dormiste bem? Olha, já sabes bem como é, tens o chá com bolachas.
- Isso é comida para mulheres.
- Claro meu querido, tenho que manter as minhas garras esbeltas.
- Não há um pacote desses das sopas rápidas?
- Não.
- Temos quiabos?
- Sim.
- Faz um caldo. E desinteresso-me por garras alimentadas por alimentos estrangeiros, ainda por cima importados.
- Não sou produto nacional para venda exclusiva a estrangeiros, como as outras manas fazem.
Ele preferiu emudecer. Ela sentiu que devia retirar-se. Ele voltou a teclar, desta vez na feitiçaria:

Feitiçaria está geralmente definida como o uso de poderes mágicos que se admite influenciarem as pessoas e os fenómenos. Neste sentido, conhece-se como a feitiçaria fez parte do folclore de muitas sociedades durante séculos. Desde o meio-1900, a feitiçaria também recorreu a um conjunto de convicções e práticas que algumas pessoas consideram uma religião. Seus seguidores às vezes chamam-lhe, a Arte, ou a Religião Velha. Porém, muitas pessoas, cristãos particularmente conservadores, não consideram a feitiçaria uma religião.
Convicção na feitiçaria existe no mundo e varia de cultura. Historicamente, as pessoas associam feitiçaria com o mal e normalmente consideram uma bruxa como alguém que usa magia para prejudicar outros, causando acidentes, doenças, azar, e morte. Porém, algumas sociedades acreditam que as bruxas também usam magia para fazer bem, enquanto executam tais acções como enfeitiçando para obter amor, saúde, e riqueza. As pessoas ao redor do mundo continuam praticando feitiçaria, enquanto reivindicando usar a magia para o bem ou para o mal.

Ao contrário, esses que praticam feitiçaria como seus seguidores só acreditam em magia praticante para propósitos benéficos, não para prejudicar. Eles adoram uma divindade masculina com aspectos femininos, mas eles enfatizam a fêmea, ou Deusa, o lado da divindade.
O termo bruxa vem da palavra wicca do inglês antigo que é derivado do wic de raiz germânica que significa alterar ou mudar. Acredita-se que uma bruxa muda ou possa mudar acontecimentos usando magia. Hoje, a palavra bruxa pode ser aplicada a um homem ou mulher. No passado, foram chamados também os bruxos masculinos, de feiticeiros.

Como funciona a feitiçaria
Acredita-se que as bruxas são os mestres do mundo sobrenatural no folclore ao redor do mundo. Elas suplicam supostamente e comandam espíritos. Elas podem invocar espíritos especiais que ajudam a chamar familiares que levam a forma de animais particularmente gatos, cobras, corujas, e cachorros. Em algumas sociedades tribais, envolve um tipo de feitiço com quem a bruxa está familiarizada. Neste tipo de feitiço, a bruxa instrui o familiar a levar a cabo tal instrução como entregando um feitiço a uma vítima.
Algumas culturas acreditam que as bruxas têm o poder de se transformarem em animais. Este poder para mudar a forma delas permite-lhes viajar secretamente até se aproximarem. Também é dito que as bruxas podem voar. Elas podem voar sob o próprio poder delas, utilizando ferramentas como vassouras ou ancinhos, ou em animais mágicos.
Supõe-se que elas podem controlar o tempo. Elas às vezes são culpadas por tempestades que danificam habitações ou colheitas.

Lwena, a espoliada dos casebres (10)


Gil Gonçalves
«Rebentou a bolha em Angola? Há sinais por parte da banca privada relacionados com a possibilidade de já estarmos diante de um estoiro da bolha imobiliária que se formou no mercado angolano onde a construção do metro quadrado chegou a ultrapassar os 9 mil dólares. O problema agora é que as promotoras que se endividaram junto dos bancos não estão a conseguir vender os apartamentos e os escritórios a um preço que lhes permita reembolsar os seus créditos. Os bancos que financiaram os projectos já começaram a ver "lulas" em matéria de crédito mal parado. Ainda ninguém assumiu o estoiro, mas de facto nesta altura pode-se dizer que os bancos já deixaram de financiar novos projectos.» In morrodamaianga.blogspot.com

Tímida, face a face com um segurança precavido de nervosismo manual na coronha da pistola, de caubói que a insinua saltar da sua coxa. Revivo a imagem do tempo saudoso da fronteira americana, do Billy the Kid, Jesse James, depois transportados para filmes. Ele sentia-se caubói desses westerns, herói do faroeste. O segurança escondeu-se na habitual desconfiança.
- Nome, raça e chipala tal e qual como está no bilhete de identidade. E vem falar com quem?
- Com o Bispo do Imobiliário.
- Falta o nome e a raça do bilhete de identidade!
- Lwena… a espoliada dos casebres.
- Não se mecha, não toque em nada e espere só um momento.

O portão preso de barras de aço importadas libertou-se. Aventurei-me para o interior, para lá do portão e descansei intramuros. Chegou-me uma pontada de mal-estar alimentada por dois cães que se movem. Ladram-me de improviso, de aviso, impõem-me gélido respeito, parecem lobos puros, guardas das SS para guardar os que vivem no receio constante de serem assaltados a qualquer momento pelos espoliados das casas-casebres. Parece que a pressão sanguínea do meu coração estabilizou quando me assegurei que os canídeos estavam atrelados, controlados por seguranças. Antes da porta de entrada, à esquerda, diviso uma enorme cruz decerto por chineses betonada, onde se lia com muita religiosidade: VOTEM SEMPRE NO NOSSO SENHOR ETERNO, NO PARTIDO DO VOSSO CORAÇÂO!

Entrei numa enorme sala e logo me informaram que o reverendíssimo não tardaria. Sentei-me a estudar o ambiente. Havia uma inundação, como que um cemitério de imagens de santos à mistura com cruzes que pareciam integrantes de uma colecção. Como mandam as boas regras da superstição, tudo na semi-escuridão para impregnar a sugestão do misticismo. O sacerdote vem vestido de máscara divinal, de aparência lustrosa como se acabasse de descer do céu, saúda-me:
- Ó Lwena! Bem-vinda minha à minha nova vida!
Levantei-me mentalmente abençoada, transparecida na minha pequenez, perante tanta grandeza evangélica. Cumprimentámo-nos e ele lança-me a sonda:
- Vens reviver as cruzadas?
- Por acaso até não. Ando à procura do paraíso perdido que me prometeram.
- É esse condimento que falta na cozinha da igreja. Hum, hum, um paraíso perdido, que retorna às nossas contas bancárias, isso agrada-me muito. Óptimo… a Igreja Veni, Vidi, Vici, e o Bispo do Imobiliário abençoam-te.
A minha atenção prendeu-se numa vitrina com fragmentos de ossos, folhas de oliveira, restos da túnica de Jesus Cristo, azeite, água, terra, restos de madeira também da cruz de Jesus crucificado. Sem dúvida que mais parecia um museu da cristologia. Para pobre idiota como eu constituía um enredo que inspirava… desvendar, aclarar, entrar na invenção do culto religioso.
- São relíquias autênticas… achados arqueológicos?
- Santas relíquias, objectos dos nossos milagres. O Fundamento inventivo a descoberto.
- Bispo… e estão abençoadas?
- Abençoamos tudo. Esse relicário abençoei-o pessoalmente.

E logo pegou num frasco de azeite e explicou o seu mistério.
- Com o azeite azeitamos: foi ele que ungiu Jesus, veio da Terra Santa. Claro que poupamos despesas juntando-lhe óleo, senão a falência encontra-nos. A água procuramo-la por aí no rio mais próximo.
- Como conseguem atrair crentes que produzem musicada medonha, como se soprassem nas trombetas do Apocalipse?
- É pá, estrondamos a praça porque eles perderam os ouvidos. Surdaram devido às maratonas das noites perdidas. Os vizinhos, os poucos que ainda conseguem audição, têm razão que não os deixamos dormir.
- E quando eles protestam?
- Quando nos julgam, anunciamos-lhes a excomunhão, que o apocalipse já está aí. Não me digas que também não vês os sinais, isso é o que não nos falta.

É muito importante manter a superstição nestes gentios. São mais idiotas que os carneiros, dominam-se facilmente… como a maria-vai-com-as-outras. E oro-lhes: alegrem-se, sejam barulhentos porque ganharão a liberdade de consciência.
- E quando no culto doentes com dores de cabeça, sistema nervoso arrasado, a rebentarem de estresse?
- Acreditam piamente nas nossas palavras. São altos cúmulos da crendice, parvoíce… idiotice.
- O negócio vai de vento em popa, Bispo.
- Prefiro não musicar esse salmo, como amizade segredo-lhe que facturamos só em dízimos, quatro mil vezes cem, fora as doações.
- Outra acumulação mundial, episcopal.
- Veni, Vidi, Vici.
- E o manancial voa para Olísipo.
- Para o meu Éden! Não confio nesses do Politburo. Há o perigo das eleições com muita fraudulência escondida. Receio que estejamos a voltar aos velhos tempos dos combates monótonos que os Gregos iniciaram na Baía de Aulis.
- E as curas milagrosas das dores de cabeça, da barriga, dos dentes, infertilidade, arranjar emprego, esposa, esposo…
- Fácil, é preciso ter fé, não há mal que sempre dure.
- A fé… curar dor de dentes é milagre?
- É sim senhor! Acabem com os doces. Passam o tempo a dentar chocolate, ordenamos que parem, a dor passa, e logo berram que foi um milagre.
- E os estouros da cabeça?
- Bendizemos para não ouvirem música muito alta, excepto na nossa igreja. A conspiração internacional barulhenta, aterradora da música, atrofia o cérebro, ele deixa de funcionar e surge a cura.
- E as dores de barriga?
- É tormentoso convencê-los que parem de comer o funji de bombó durante uns dias. Conseguido, cura garantida.
- E a badalada infertilidade?
- O machão afirma convicto que ela é culpada. A querida, atordoada com lamúrias acredita que Deus a abandonou. O macho em casa relincha que a põe fora de casa se a barriga não inchar, que facilmente a troca por outra. Dialogamos, enviamos o marido para o nosso posto médico… já está! As infertilizadas fanatizam-se, passam palavra que foi mais um milagre.
- E o emprego? Esse é que é um grande milagre!
- Aliciamos um crente empresário e o emprego está-lhe garantido.
- Caçar esposa, esposo…
- Enfiam-se, galam-se para aí, fintam-se, resolvem isso entre eles. Elas caçam marido e eles também as caçam.
- Igreja Veni, muito PIB nos milagres.
- Igreja sem milagres não sintoniza. Os crentes vivem, precisam disso. Andam sobre brasas porque desatinaram. Como comboios desgovernados, perdidos sem estações, apeadeiros, sem paradeiros. Como avalancha seca de pedras a rolarem por montanha, que acolhemos, o paraíso lhes prometemos. Entes em tais condições acreditam em qualquer coisa. É só ver como foram as últimas eleições legislativas.
- Operários contratados para a fábrica do Senhor, que na realidade são fabricantes de dízimos.
- Está a brincar ou quê?! Olhe que não se brinca com as Sagradas Escrituras, e muito menos com o santo nome de Jesus! Isto é-nos muito sagrado!
- Colonialismo, neocolonialismo, não há diferença. Difere nas mudas do capital volátil.
- O que é que disse?!
- Que os mitómanos se igualam.
- É isso! Não há crença sem melómanos. Um órgão soberbo bem afinado põe os crentes em êxtase. Não me pergunte que não sei porquê, ninguém sabe... como o amor.
- Ninguém sabe…
- Verdadeiramente ninguém o sabe explicar. Batemos na boa porta desse desconhecido com a religião, os crentes vão na conversa e facturamos em nome do amor.
- Tirando proveito do instinto de conservação das espécies sem identidade cultural
- Sim! Sim! O amor de fábrica com os crentes convencidos que são operários… que trabalham para o amor do Senhor. Não somos diferentes dos outros. Ganhar dinheiro com a crendice humana começou na Terra com os primeiros humanos. Somos apenas maiorais espertos. Despertámos para explorar o passado e os próximos futuros. A meu ver não há nenhuma revolução que acabe connosco. Quando revolucionam, no início expulsam-nos, deixam-nos espoliados, martirizados, empalados. Enfim, culpados de tudo. Depois a sanha esmorece. E reencarnamos mais vigorosos, mais poderosos. Sumamente a religião é o melhor negócio. Sem dúvida que é o negócio mais apetecível. Custos inexistentes porque os crentes suportam-nos. É o melhor negócio porque é patrocinado por Deus. Num piscar de olhos somos clientes VIP dum banco. É a nova vida.
- E o ausente Voltaire quando reencarna, os alicerces bíblicos desmoronam-se?
- Facílimo! Denunciamos aos crentes que os falsos profetas chegaram. Eles arrebatam-nos e queimam-nos na secular fogueira.
- E se não resulta… outra Contra-Reforma?

Imagem: obra clandestina do general Led nas traseiras da Pomobel, Zé Pirão, Luanda.