domingo, 4 de julho de 2010

Promessas leva-as o vento


A nova Constituição de Angola, dita “atípica”, ou Presidencialista-Par(a)lamentar, votada e aprovada pelo Parlamento no dia 10 de Fevereiro deste ano num precipitado aproveitamento das distracções e excitações causadas pelo afã da Copa de África das Nações, não trouxe só o que se pode considerar um retrocesso da sinuosa rota para a instalação de um regime democrático no nosso país, também causou alguns embaraços a um bom número de funcionários do Estado que até essa data estavam ao serviço do gabinete do primeiro-ministro, Paulo Cassoma.

E, diga-se, desta vez não se pode dizer que houve discriminação, todos eles, desde os do mais baixo escalão aos do topo da hierarquia foram postos no mesmo saco e tiveram que aguentar da mesma maneira o choque causado pelo “golpe de Estado jurisdicional” gizado nos ateliers do Futungo, tal como se pronunciou Marcolino Moco a propósito desta nova Constituição.

Vale a pena contar a história vivida por esses homens de carreira ao serviço do Estado no decorrer do colapso político que se seguiu à aprovação da Lei Magna, pois ela define bem a mentalidade vigente no seio das mais altas esferas do Estado, soberanamente desdenhosas dos direitos do pessoal subalterno ao seu serviço, melhor seria dizer seus súbditos.
O que aconteceu a essas pessoas, algumas delas de alta patente, de grau equivalente a directores ou quadros superiores, está ligado ao facto de o posto de primeiro-ministro ter sido abolido. Paulo Cassoma saiu, mas antes deu-se ao trabalho de explicar aos seus subalternos que o Governo tinha pensado neles. Ser-lhes-ia reservado um tratamento digno, pois estava previsto que eles seriam transferidos para postos equivalentes nos quadros de pessoal da Assembleia Nacional ou no gabinete do muito decorativo vice-presidente, para o qual tinha sido nomeado Fernando Dias dos Santos “Nandó”.

Portanto, parecia estar assegurado que nenhum desses funcionários iria para o desemprego, o que significava que, por uma vez, o Governo tinha tomado providências para salvaguardar o futuro dos seus fiéis servidores. Mas a verdade é que nada correu de feição e, passado algum tempo, o Dr. Beny veio a terreno comunicar aos interessados que o vice-presidente “Nandó” já estava servido de pessoal para o seu gabinete e que, como ele queria “tudo limpo (!)”, eles, os ex-funcionários do defunto gabinete do primeiro-ministro, não seria por muito tempo, teriam de ficar em casa. E o salário?... Não havia problema nenhum, o salário seria pago até se encontrar uma solução consentânea dos desideratos de ambas as partes.

Os funcionários acataram. Ficar em casa e receber salário não é assim tão mau como isso, pese embora o facto de não haver subsídios a arredondar os fins de mês e que, por outro lado, receber salário sem trabalhar não dignifica ninguém. Fosse assim ou assado, toda essa gente ficou à espera de melhores dias.

Isto passou-se em Fevereiro e até hoje não há ponta por onde pegar nesta situação. Ou pior, haver até há, é pô-los todos no olho da rua e o problema está resolvido. E segundo tudo leva a crer é exactamente isso que se está a preparar nas oficinas governamentais. Como o Sr. vice-ministro já procedeu à entronização de novos quadros, sendo a maioria capacitados para exercer funções de directores nacionais, não há lugar para ninguém e o que está previsto para breve é pura e simplesmente ter de se proceder a um corte do salário dessa gente que sempre acreditou no que afinal não passou de tretas e falsas promessas.

Imagem: quintasdedebate.blogspot.com

AKALESELA. Detective de Feitiços (5)


O Mistério do Prédio Enfeitiçado

Gil Gonçalves

Todos a roubaram-se e na feitiçaria a matarem-se, muito brevemente Angola como nação sucumbirá. Aliás já se nota a intolerância desses traços bem visíveis no desprezo que cada um retribui ao outro. A solidariedade desapareceu, evoluiu e actualmente substituiu-se pelo ódio mortal. Catalogado pelo menor motivo de qualquer episódio de feitiçaria. Até o negócio se diz que foi enfeitiçado. Quando não se consegue que o negócio ande, culpa-se a idosa mais próxima, porque foi ela que trocou uma nota de cinquenta kwanzas. E o MPLA já não governa, é a feitiçaria que o comanda. E ai de quem nela cair.

Ma Yuan prepara-se para sair. Akalesela faz-lhe um resumo final:
- Os corruptos e os espoliadores são louvados. Os que lutam e os que trabalham são desprezados. Os preguiçosos e medíocres espreitam a sua oportunidade. O meu pai ensinou-me para me afastar dos políticos e dos feiticeiros.
Ma Yuan já está na porta de saída, despede-se com malícia:
- Akalesela, sabes… és muito interessante.
Kakulu-Ka-Humbi perde a cabeça:
- O kamburi ketu kalê ni nzala. (O nosso carneirinho não está com fome)
Antes da porta se fechar, Ma Yuan vê uma tarântula a passear. Estremece:
- Ai meu Deus!

Akalesela sente-se animado com o primeiro cliente e trova para Kakulu-Ka-Humbi, gaba-lhe mais alguns atributos:
- Sois altiva e imponente como uma águia.
Ela sorri de satisfação. Caminha na direcção do alaúde, entrega-lho e suplica-lhe:
- Por favor, melodia-me a minha majestade.
Doce cavaleiro, as noites são longas
como este cavalgar de desgovernar tão longínquo
Já nada mais esperamos
desesperamos, nadamos nestes oceanos de feitiço
neles afogados, no refogado amor

Estás prisioneira na torre guardada por seculares guardas
e há quase meio século acorrentada
Sou fiel na tua espera, no sonho
doutro coração que é já teu
O cavaleiro eterno não sai do castelo do seu poder
Lá estão os nossos corações presos sem esperanças.

Ele deixou-se adormecer. Pouco depois acordou sobressaltado. Pediu-lhe socorro:
- Vai-lhes dizer para fazerem pouco barulho, que queremos dormir.
- Já lhes falei, e ainda fazem pior. Dançam como uma manada de elefantes furiosos. Acho que o tecto vai desabar.
- Vamos dormir no ginásio, naqueles dois colchões de espuma estreitos.
Ela lastima-se:
- Etu ki tu atu azediua etu. (nós não somos pessoas felizes)
Ele esmorece:
- A política e o poder são duas coisas que condizem muito bem a quem delas faz uso. Os políticos são muitos, a concorrência é elevada. E são sempre poucos os lugares vagos no poder.
Ela ouve barulho lá fora, espreita à porta da varanda e contenta-se:
- A única coisa que funciona até ao momento é o carro da recolha do lixo.
Akalesela levantou-se muito cedo, ela continuava a dormir. Bebeu café e foi para o computador. Colocou o CD da enciclopédia World Book da IBM. Procurou pela mitologia africana e elucidou-se:

Uma variedade larga de mitologias desenvolveu-se entre muitos povos que habitam na África a sul do Saara. Algumas destas mitologias são simples e primitivas. Outras são organizadas de modo complexo. A maioria dos povos africanos adora características proeminentes da natureza, como montanhas, rios, e o sol. A maioria destes povos acredita que quase tudo na natureza contém um espírito. Alguns espíritos são amigáveis, mas outros não são. Espíritos podem viver em animais, plantas, ou objectos inanimados. Os adoradores rezam ou oferecem presentes aos espíritos para ganharem o favor deles e obterem benefícios particulares.

As formas de adoração aos antepassados fazem parte de muitas mitologias africanas. Muitos africanos acreditam que depois da morte, as almas dos antepassados renascem em coisas vivas ou em objectos. Por exemplo, os Zulus recusam matar certos tipos de cobras porque eles acreditam que as almas dos antepassados vivem nelas. Os rituais mágicos têm um papel principal nas religiões tradicionais de África. Os feiticeiros têm grande influência entre muitos povos africanos porque se acredita que eles têm poderes mágicos. Muitos africanos usam encantamentos para se protegerem dos males.

De acordo com várias mitologias africanas, muitas divindades moram em casas temporárias na terra chamados fetiches. Fetiches variam de simples pedras a imagens esplendidamente esculpidas. Alguns grupos africanos acreditam que fetiches protegem-nos dos feitiços do mal e que lhes trazem sorte. Os Ashantis compõem o grupo nativo maior no Gana, um país pequeno na África ocidental. Em muitas formas, a mitologia dos Ashantis ilustra a mitologia africana em geral. Muitos Ashantis acreditam que um deus supremo chamado Nyame criou o universo. Nyame encabeça um grupo grande de divindades, em que a maioria descende dele. Algumas destas divindades servem como protectoras de aldeias específicas ou regiões. Outras representam características geográficas. Os Ashantis consideram os rios como a característica geográfica mais sagrada. Eles também associam muitas divindades com ocupações específicas e artes, como cultivar e trabalhar o metal.

Só entre as divindades dos Ashanti, à deusa da terra, falta um fetiche específico. Os Ashantis acreditam que a própria terra é o fetiche da deusa da terra. Um grupo de feiticeiros supervisiona a adoração de fetiches. Os Ashantis acreditam que os feiticeiros deles possuem certos poderes especiais. Por exemplo, de acordo com eles, os feiticeiros podem persuadir um fetiche para falar pelos lábios de um ser humano, um médium. Um feiticeiro normalmente serve como médium para o fetiche.
Entretanto, ela aproxima-se com alguma cerimónia:
- Dormiste bem? Olha, já sabes bem como é, tens o chá com bolachas.
- Isso é comida para mulheres.
- Claro meu querido, tenho que manter as minhas garras esbeltas.
- Não há um pacote desses das sopas rápidas?
- Não.
- Temos quiabos?
- Sim.
- Faz um caldo. E desinteresso-me por garras alimentadas por alimentos estrangeiros, ainda por cima importados.
- Não sou produto nacional para venda exclusiva a estrangeiros, como as outras manas fazem.
Ele preferiu emudecer. Ela sentiu que devia retirar-se. Ele voltou a teclar, desta vez na feitiçaria:

Feitiçaria está geralmente definida como o uso de poderes mágicos que se admite influenciarem as pessoas e os fenómenos. Neste sentido, conhece-se como a feitiçaria fez parte do folclore de muitas sociedades durante séculos. Desde o meio-1900, a feitiçaria também recorreu a um conjunto de convicções e práticas que algumas pessoas consideram uma religião. Seus seguidores às vezes chamam-lhe, a Arte, ou a Religião Velha. Porém, muitas pessoas, cristãos particularmente conservadores, não consideram a feitiçaria uma religião.
Convicção na feitiçaria existe no mundo e varia de cultura. Historicamente, as pessoas associam feitiçaria com o mal e normalmente consideram uma bruxa como alguém que usa magia para prejudicar outros, causando acidentes, doenças, azar, e morte. Porém, algumas sociedades acreditam que as bruxas também usam magia para fazer bem, enquanto executam tais acções como enfeitiçando para obter amor, saúde, e riqueza. As pessoas ao redor do mundo continuam praticando feitiçaria, enquanto reivindicando usar a magia para o bem ou para o mal.

Ao contrário, esses que praticam feitiçaria como seus seguidores só acreditam em magia praticante para propósitos benéficos, não para prejudicar. Eles adoram uma divindade masculina com aspectos femininos, mas eles enfatizam a fêmea, ou Deusa, o lado da divindade.
O termo bruxa vem da palavra wicca do inglês antigo que é derivado do wic de raiz germânica que significa alterar ou mudar. Acredita-se que uma bruxa muda ou possa mudar acontecimentos usando magia. Hoje, a palavra bruxa pode ser aplicada a um homem ou mulher. No passado, foram chamados também os bruxos masculinos, de feiticeiros.

Como funciona a feitiçaria
Acredita-se que as bruxas são os mestres do mundo sobrenatural no folclore ao redor do mundo. Elas suplicam supostamente e comandam espíritos. Elas podem invocar espíritos especiais que ajudam a chamar familiares que levam a forma de animais particularmente gatos, cobras, corujas, e cachorros. Em algumas sociedades tribais, envolve um tipo de feitiço com quem a bruxa está familiarizada. Neste tipo de feitiço, a bruxa instrui o familiar a levar a cabo tal instrução como entregando um feitiço a uma vítima.
Algumas culturas acreditam que as bruxas têm o poder de se transformarem em animais. Este poder para mudar a forma delas permite-lhes viajar secretamente até se aproximarem. Também é dito que as bruxas podem voar. Elas podem voar sob o próprio poder delas, utilizando ferramentas como vassouras ou ancinhos, ou em animais mágicos.
Supõe-se que elas podem controlar o tempo. Elas às vezes são culpadas por tempestades que danificam habitações ou colheitas.

Lwena, a espoliada dos casebres (10)


Gil Gonçalves
«Rebentou a bolha em Angola? Há sinais por parte da banca privada relacionados com a possibilidade de já estarmos diante de um estoiro da bolha imobiliária que se formou no mercado angolano onde a construção do metro quadrado chegou a ultrapassar os 9 mil dólares. O problema agora é que as promotoras que se endividaram junto dos bancos não estão a conseguir vender os apartamentos e os escritórios a um preço que lhes permita reembolsar os seus créditos. Os bancos que financiaram os projectos já começaram a ver "lulas" em matéria de crédito mal parado. Ainda ninguém assumiu o estoiro, mas de facto nesta altura pode-se dizer que os bancos já deixaram de financiar novos projectos.» In morrodamaianga.blogspot.com

Tímida, face a face com um segurança precavido de nervosismo manual na coronha da pistola, de caubói que a insinua saltar da sua coxa. Revivo a imagem do tempo saudoso da fronteira americana, do Billy the Kid, Jesse James, depois transportados para filmes. Ele sentia-se caubói desses westerns, herói do faroeste. O segurança escondeu-se na habitual desconfiança.
- Nome, raça e chipala tal e qual como está no bilhete de identidade. E vem falar com quem?
- Com o Bispo do Imobiliário.
- Falta o nome e a raça do bilhete de identidade!
- Lwena… a espoliada dos casebres.
- Não se mecha, não toque em nada e espere só um momento.

O portão preso de barras de aço importadas libertou-se. Aventurei-me para o interior, para lá do portão e descansei intramuros. Chegou-me uma pontada de mal-estar alimentada por dois cães que se movem. Ladram-me de improviso, de aviso, impõem-me gélido respeito, parecem lobos puros, guardas das SS para guardar os que vivem no receio constante de serem assaltados a qualquer momento pelos espoliados das casas-casebres. Parece que a pressão sanguínea do meu coração estabilizou quando me assegurei que os canídeos estavam atrelados, controlados por seguranças. Antes da porta de entrada, à esquerda, diviso uma enorme cruz decerto por chineses betonada, onde se lia com muita religiosidade: VOTEM SEMPRE NO NOSSO SENHOR ETERNO, NO PARTIDO DO VOSSO CORAÇÂO!

Entrei numa enorme sala e logo me informaram que o reverendíssimo não tardaria. Sentei-me a estudar o ambiente. Havia uma inundação, como que um cemitério de imagens de santos à mistura com cruzes que pareciam integrantes de uma colecção. Como mandam as boas regras da superstição, tudo na semi-escuridão para impregnar a sugestão do misticismo. O sacerdote vem vestido de máscara divinal, de aparência lustrosa como se acabasse de descer do céu, saúda-me:
- Ó Lwena! Bem-vinda minha à minha nova vida!
Levantei-me mentalmente abençoada, transparecida na minha pequenez, perante tanta grandeza evangélica. Cumprimentámo-nos e ele lança-me a sonda:
- Vens reviver as cruzadas?
- Por acaso até não. Ando à procura do paraíso perdido que me prometeram.
- É esse condimento que falta na cozinha da igreja. Hum, hum, um paraíso perdido, que retorna às nossas contas bancárias, isso agrada-me muito. Óptimo… a Igreja Veni, Vidi, Vici, e o Bispo do Imobiliário abençoam-te.
A minha atenção prendeu-se numa vitrina com fragmentos de ossos, folhas de oliveira, restos da túnica de Jesus Cristo, azeite, água, terra, restos de madeira também da cruz de Jesus crucificado. Sem dúvida que mais parecia um museu da cristologia. Para pobre idiota como eu constituía um enredo que inspirava… desvendar, aclarar, entrar na invenção do culto religioso.
- São relíquias autênticas… achados arqueológicos?
- Santas relíquias, objectos dos nossos milagres. O Fundamento inventivo a descoberto.
- Bispo… e estão abençoadas?
- Abençoamos tudo. Esse relicário abençoei-o pessoalmente.

E logo pegou num frasco de azeite e explicou o seu mistério.
- Com o azeite azeitamos: foi ele que ungiu Jesus, veio da Terra Santa. Claro que poupamos despesas juntando-lhe óleo, senão a falência encontra-nos. A água procuramo-la por aí no rio mais próximo.
- Como conseguem atrair crentes que produzem musicada medonha, como se soprassem nas trombetas do Apocalipse?
- É pá, estrondamos a praça porque eles perderam os ouvidos. Surdaram devido às maratonas das noites perdidas. Os vizinhos, os poucos que ainda conseguem audição, têm razão que não os deixamos dormir.
- E quando eles protestam?
- Quando nos julgam, anunciamos-lhes a excomunhão, que o apocalipse já está aí. Não me digas que também não vês os sinais, isso é o que não nos falta.

É muito importante manter a superstição nestes gentios. São mais idiotas que os carneiros, dominam-se facilmente… como a maria-vai-com-as-outras. E oro-lhes: alegrem-se, sejam barulhentos porque ganharão a liberdade de consciência.
- E quando no culto doentes com dores de cabeça, sistema nervoso arrasado, a rebentarem de estresse?
- Acreditam piamente nas nossas palavras. São altos cúmulos da crendice, parvoíce… idiotice.
- O negócio vai de vento em popa, Bispo.
- Prefiro não musicar esse salmo, como amizade segredo-lhe que facturamos só em dízimos, quatro mil vezes cem, fora as doações.
- Outra acumulação mundial, episcopal.
- Veni, Vidi, Vici.
- E o manancial voa para Olísipo.
- Para o meu Éden! Não confio nesses do Politburo. Há o perigo das eleições com muita fraudulência escondida. Receio que estejamos a voltar aos velhos tempos dos combates monótonos que os Gregos iniciaram na Baía de Aulis.
- E as curas milagrosas das dores de cabeça, da barriga, dos dentes, infertilidade, arranjar emprego, esposa, esposo…
- Fácil, é preciso ter fé, não há mal que sempre dure.
- A fé… curar dor de dentes é milagre?
- É sim senhor! Acabem com os doces. Passam o tempo a dentar chocolate, ordenamos que parem, a dor passa, e logo berram que foi um milagre.
- E os estouros da cabeça?
- Bendizemos para não ouvirem música muito alta, excepto na nossa igreja. A conspiração internacional barulhenta, aterradora da música, atrofia o cérebro, ele deixa de funcionar e surge a cura.
- E as dores de barriga?
- É tormentoso convencê-los que parem de comer o funji de bombó durante uns dias. Conseguido, cura garantida.
- E a badalada infertilidade?
- O machão afirma convicto que ela é culpada. A querida, atordoada com lamúrias acredita que Deus a abandonou. O macho em casa relincha que a põe fora de casa se a barriga não inchar, que facilmente a troca por outra. Dialogamos, enviamos o marido para o nosso posto médico… já está! As infertilizadas fanatizam-se, passam palavra que foi mais um milagre.
- E o emprego? Esse é que é um grande milagre!
- Aliciamos um crente empresário e o emprego está-lhe garantido.
- Caçar esposa, esposo…
- Enfiam-se, galam-se para aí, fintam-se, resolvem isso entre eles. Elas caçam marido e eles também as caçam.
- Igreja Veni, muito PIB nos milagres.
- Igreja sem milagres não sintoniza. Os crentes vivem, precisam disso. Andam sobre brasas porque desatinaram. Como comboios desgovernados, perdidos sem estações, apeadeiros, sem paradeiros. Como avalancha seca de pedras a rolarem por montanha, que acolhemos, o paraíso lhes prometemos. Entes em tais condições acreditam em qualquer coisa. É só ver como foram as últimas eleições legislativas.
- Operários contratados para a fábrica do Senhor, que na realidade são fabricantes de dízimos.
- Está a brincar ou quê?! Olhe que não se brinca com as Sagradas Escrituras, e muito menos com o santo nome de Jesus! Isto é-nos muito sagrado!
- Colonialismo, neocolonialismo, não há diferença. Difere nas mudas do capital volátil.
- O que é que disse?!
- Que os mitómanos se igualam.
- É isso! Não há crença sem melómanos. Um órgão soberbo bem afinado põe os crentes em êxtase. Não me pergunte que não sei porquê, ninguém sabe... como o amor.
- Ninguém sabe…
- Verdadeiramente ninguém o sabe explicar. Batemos na boa porta desse desconhecido com a religião, os crentes vão na conversa e facturamos em nome do amor.
- Tirando proveito do instinto de conservação das espécies sem identidade cultural
- Sim! Sim! O amor de fábrica com os crentes convencidos que são operários… que trabalham para o amor do Senhor. Não somos diferentes dos outros. Ganhar dinheiro com a crendice humana começou na Terra com os primeiros humanos. Somos apenas maiorais espertos. Despertámos para explorar o passado e os próximos futuros. A meu ver não há nenhuma revolução que acabe connosco. Quando revolucionam, no início expulsam-nos, deixam-nos espoliados, martirizados, empalados. Enfim, culpados de tudo. Depois a sanha esmorece. E reencarnamos mais vigorosos, mais poderosos. Sumamente a religião é o melhor negócio. Sem dúvida que é o negócio mais apetecível. Custos inexistentes porque os crentes suportam-nos. É o melhor negócio porque é patrocinado por Deus. Num piscar de olhos somos clientes VIP dum banco. É a nova vida.
- E o ausente Voltaire quando reencarna, os alicerces bíblicos desmoronam-se?
- Facílimo! Denunciamos aos crentes que os falsos profetas chegaram. Eles arrebatam-nos e queimam-nos na secular fogueira.
- E se não resulta… outra Contra-Reforma?

Imagem: obra clandestina do general Led nas traseiras da Pomobel, Zé Pirão, Luanda.